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quarta-feira, 20 de maio de 2020

Pedidos de recuperação judicial e falência crescem no país e atingem mais as pequenas empresas

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Dados da Serasa mostram que houve alta no volume de processos em abril, na comparação com março, mesmo com represamento de pedidos. Especialistas preveem disparada no número de casos de quebra de empresas nos próximos meses.
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 Por Darlan Alvarenga, G1  

 Postado em 20 de maio de 2020 às 13h45m  
      Post.N.\9.290  
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Os pedidos de falências e recuperações judiciais aumentaram em abril, na comparação com março. E a avaliação é que o volume de processos deverá disparar nos próximos meses, diante da perspectiva de um forte tombo da economia brasileira e mundial em 2020 e das dificuldades financeiras das empresas em meio à pandemia de coronavírus.

Levantamento mensal da Serasa Experian antecipado ao G1 mostra que no mês de abril foram registrados 120 pedidos de recuperação judicial no país, uma alta de 46,3% na comparação com março. Já os pedidos de falência somaram 75, um aumento de 25% frente ao mês anterior.
Apesar do salto mensal, os números ainda ficaram abaixo dos observados em abril de 2019. Veja no gráfico abaixo:
Pedidos de falência e recuperação judicial — Foto: Economia G1
Pedidos de falência e recuperação judicial — Foto: Economia G1

Segundo o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi, por conta do isolamento social e das medidas de restrições, muitos cartórios e varas judiciais não funcionaram normalmente, o que provocou um represamento no número de pedidos. Por conta disso e do cenário de forte recessão, ele prevê uma avalanche de pedidos neste ano e um retorno ao patamar recorde observado durante a crise econômica de 2016.
"Com a recessão se instalando e com as dificuldades que vários setores estão apresentando, tanto o número de falências quando de recuperações judiciais é esperado que aumentem. Independentemente do tempo de isolamento, os impactos na economia já ocorreram e vão demorar para ser integralmente superados", diz o especialista.
Pelos números da Serasa, até agora o ano com o maior número de insolvência de empresas foi em 2016, quando se atingiu o recorde de 1.863 pedidos de recuperação judicial no país.

"No começo do ano, parecia que o número de pedidos de recuperação ficaria abaixo de 1.400 e da média dos anos anteriores. Com a crise, deve voltar ao patamar da recessão de 2016", avalia Rabi, destacando que a inadimplência voltou a atingir patamar recorde no país. De acordo com a Serasa, 6,2 milhões de empresas tinham dívidas ou compromissos financeiros atrasados em março.
"A insolvência acontece em etapas. Primeiro as empresas ficam com dificuldades para honrar seus compromissos e ficam inadimplentes. Num segundo momento, os próprios credores, em função desse acúmulo da inadimplência entram com pedidos de falência, ou a própria empresa, por iniciativa própria, solicita que seja aberto um processo de recuperação judicial para tentar chegar a um acordo financeiro", explica.
Para o advogado Guilherme Marcondes Machado, especialista em recuperação judicial, a crise atual deverá ser mais profunda do que a dos anos 2016/2017 por se tratar de uma recessão global e de duração ainda incerta.
"A gente vive hoje em uma economia globalizada, interdependente. A cadeia inteira de fornecimento foi quebrada", afirma. "O aumento nesses números virá mais substancialmente no segundo semestre, e seguramente bem maior do que 2016".
O advogado alerta, porém, que a recuperação judicial é uma ferramenta que deve ser utilizada com cautela, uma vez que não garante maior chance de acordo com credores e menor risco de falência.

"Temos sido bastante procurados por empresas buscando algum tipo de solução para a crise, e recomendamos sempre tentar a renegociação extrajudicial antes de partir para uma recuperação judicial. Judicializar o problema pode dificultar a negociação – principalmente com bancos –, e, inclusive, ter o efeito inverso, acelerando a quebra da empresa", explica.

Pequenas empresas lideram casos de insolvência
Os dados da Serasa mostram que nos períodos de crise os pequenos negócios são os mais vulneráveis e os mais impactados por processos de insolvência.
Casos de insolvência por porte da empresa — Foto: Economia G1
Casos de insolvência por porte da empresa — Foto: Economia G1

Do total de 120 pedidos de recuperação judicial feitos em abril, 53 foram de micro e pequenas empresas, 44 de empresas médias e 23 de grandes empresas. De janeiro a abril, dos 377 casos no país, 226 envolveram pequenos negócios, 99 empresas de médio porte e 52 de grande porte.

Nos 75 casos de requisição de falência, 39 foram conta micro e pequenas empresas, 20 contra grandes e 16 contra empresas médias. No acumulado no ano, dos 315 pedidos, 173 envolveram pequenos negócios, 85 grandes empresas e 57 as de média porte.
"Sempre que há uma recessão os bancos ficam mais restritivos e cautelosos na hora de conceder crédito. A corda sempre estoura nas pequenas empresas, que são o elo mais fraco da cadeia", afirma o economista da Serasa. "Um mês sem faturamento já praticamente quebra essas empresas, que não costumam ter reserva de capital nem acionistas que possam injetar recursos".
Reportagem do G1 mostrou que pequenas empresas têm enfrentado dificuldades para ter acesso às linhas financiamento emergenciais anunciadas pelo governo e evitar que as portas não voltem a abrir. 
Donos de pequenos negócios não conseguem acesso ao crédito prometido
Donos de pequenos negócios não conseguem acesso ao crédito prometido

Pesquisa do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) divulgada nesta segunda-feira (18) mostrou que, desde o início das medidas de isolamento no Brasil, apenas 14% das micro e pequenas empresas que solicitaram crédito conseguiram.

O Brasil tem atualmente cerca de 17 milhões de pequenos negócios. Desses, quase 7 milhões (38%) procuraram crédito no período. Mais da metade delas (58%), entretanto, não conseguiu o dinheiro, e 28% ainda estão aguardando a liberação do banco, de acordo com o Sebrae.

Setor de serviços lidera número de pedidos de recuperação

Na análise por setores, o levantamento da Serasa revela que o setor de serviços foi o mais impactado, com o número de solicitações de recuperação judicial saltando de 44 em março para 92 em abril. No mesmo mês do ano passado, foram 56.

No comércio, foram 13 solicitações em abril, na indústria, 12, e no setor primário, 3.
"O setor de serviços é o que concentra a maior quantidade de empresas inadimplentes do país, metade do total", observa Rabi.

O levantamento da Serasa monitora apenas os casos de insolvência judicializados, não incluindo acordos extrajudiciais nem os casos em que empresas decidiram encerrar as atividades por iniciativa própria.

Segundo o estudo do Sebrae, 44% dos pequenos negócios interromperam as atividades com a crise do coronavírus, pois dependem de funcionamento presencial. Os empresários relataram uma queda média de 60% no faturamento com a pandemia. Embora todos os setores tenham registrado perdas, elas foram mais acentuadas nas atividades da chamada economia criativa, que envolvem eventos e produções (-77%), no turismo (-75%) e nas academias de ginástica.

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Com empresas endividadas, recuperação da economia pós-pandemia deverá ser lenta

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Companhias devem sair da crise econômica provocada pelo coronavírus com o caixa ainda mais enfraquecimento e sem fôlego para novos investimentos. Aumento da capacidade ociosa na indústria também deve dificultar aceleração do PIB. 
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 Por Luiz Guilherme Gerbelli, G1  
 20/05/2020 07h00  Atualizado há 5 horas  
 Postado em 20 de maio de 2020 às 12h00m  

      Post.N.\9.289  
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Fachada do prédio da B3, a bolsa brasileira, no Centro de São Paulo  — Foto: Rahel Patrasso/Reuters
Fachada do prédio da B3, a bolsa brasileira, no Centro de São Paulo — Foto: Rahel Patrasso/Reuters

A recuperação da economia brasileira - quando vier - deverá ser lenta. Endividadas, as empresas caminham para sair da crise provocada pelo coronavírus com o caixa ainda mais comprometido e sem fôlego para investir, uma combinação que reduz a possibilidade de uma volta acelerada da atividade econômica.

O tamanho do endividamento fica evidente quando se analisa o balanço das empresas de capital aberto. Das 226 companhias não-financeiras com ações negociadas na bolsa de valores, a relação entre capital próprio e endividamento encerrou o ano passado em 76,8%, mostra um levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Isso quer dizer que, para cada R$ 1 em dinheiro dos sócios, as empresas têm quase R$ 0,77 em financiamentos.

O estudo apontou que o endividamento recuou em relação a 2018, mas segue no mesmo patamar de 2014, quando teve início a última recessão no país. Além disso, boa parte da queda pode ser atribuída ao processo de desalavancangem realizado por Vale e Petrobras.
Sem margem para investir — Foto: Economia G1
Sem margem para investir — Foto: Economia G1

"Com o ambiente de recuperação fraca entre 2017 e 2019, o país não criou condições suficientes para que as empresas reduzissem as suas dívidas. Muitas mantêm um nível de endividamento superior ao que era observado em 2014", afirma o economista-chefe do Iedi, Rafael Cagnin. "Depois do primeiro baque do coronavírus, as companhias, assim como os estados, vão passar por um período de recuperação com medidas que ajudem a gerenciar o endividamento delas."
O impacto de Vale e Petrobras é notável ao fazer o recorte do tamanho do endividamento apenas do setor industrial. Sem as duas empresas, a relação entre endividamento líquido e capital próprio na indústria é de 94%. Com a mineradora e a petroleira no cálculo, esse índice cai para 73,7%.

Nos últimos anos, o alívio para as empresas também se deu mais com a troca da dívida de curto prazo pela de longo prazo. As companhias aproveitaram o cenário de queda dos juros e fortalecimento do mercado de capitais para se refinanciar. "Com a crise do coronavírus, a dívida curta deve subir de novo devido à necessidade de capital de giro das empresas", afirma Cagnin.

Aumento da capacidade ociosa
Há um segundo fator que deve levar a postergação do investimento no país: o aumento da capacidade ociosa. Com a economia num ritmo lento, o nível de utilização da capacidade instalada da indústria despencou para 57,3 pontos em abril, segundo o Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). É o índice mais baixo da série histórica iniciada em janeiro de 2001.

No curto prazo, o baixo nível de utilização da capacidade instalada é fácil de ser recuperado. Basta a empresa usar maquinário já disponível e contratar mais trabalhadores para acelerar a produção se houver um aumento da demanda. Mas, no longo prazo, os investimentos capazes de garantir um ritmo crescimento mais sustentável da economia brasileira são postergados e apenas destravados quando todo esse processo é concluído.
Capacidade ociosa das empresas — Foto: Economia G1
Capacidade ociosa das empresas — Foto: Economia G1

"Quanto o menor o nível da capacidade instalada, menos as empresas vão ter estímulos para investir", afirma Renata de Mello Franco, economista do Ibre/FGV. "Talvez, seja preciso esperar esse momento de isolamento social passar para que as empresas voltem a produzir sem restrição sanitária para só aí ser possível identificar quão comprometida ficou a produção."

Crise atual é a ‘cereja do bolo’
Com uma fábrica de confecções no Jardim Ângela, na zona sul de São Paulo, a empresária Natasha Macedo diz que a crise provocada pelo coronavírus "é a cereja do bolo" dos últimos anos marcados pela enorme dificuldade de manter a sobrevivência do seu negócio.

"A gente espera uma melhora todo ano. Mas ela nunca vem", diz.
Há cinco anos, a fábrica chegou a ter 20 funcionários. Hoje, são 12 – três foram demitidos em março quando as medidas de isolamento social tiveram início em São Paulo. No início da pandemia, a empresa interrompeu todas as atividades, mas reabriu para a produção de máscaras.

"Com as lojas todas fechadas, somos afetados diretamente porque não temos para quem vender o que produzimos. Agora, estamos fabricando máscaras de tecido e só com a metade do quadro dos funcionários", diz Natasha. Quem não trabalha teve o contrato suspenso.
Fábrica na zona sul de São Paulo perdeu 60% do faturamento com a crise — Foto: Arquivo pessoal
Fábrica na zona sul de São Paulo perdeu 60% do faturamento com a crise — Foto: Arquivo pessoal

Hoje, o faturamento da empresa está 60% mais baixo do que o observado antes da crise e tudo que entra no caixa vai para pagar os salários dos funcionários e o aluguel do prédio.

"Todos os pedidos que eu tinha feito de tecido para chegar foram cancelados. O que entra é para pagar o que tem de ser pago", diz Natasha. "Um novo investimento é algo bastante distante."

Economia em revisão
No início desta crise, os economistas já projetavam um tombo bastante acentuado do PIB neste ano com a paralisação de boa parte das atividades, mas apontavam que retomada poderia ser rápida. Num jargão economês, a trajetória de recuperação esperada seria em V.

Nas últimas semanas, no entanto, as projeções para o desempenho da atividade econômica deste e do próximo ano já começam a ser revisadas por boa parte de bancos e consultorias.
"Não vai ser nada fácil a saída dessa crise. A recuperação não será em V. Não podemos ter a ilusão de que tudo se normalizará rapidamente depois de destruirmos tantos empregos e empresas", diz o economista-chefe da consultoria MB Associados, Sergio Vale. 
"Olhando para frente, vamos levar em alguns casos 10 anos para voltar onde estávamos."
A MB Associados projeta queda de 7,3% para o PIB deste ano e alta de 2% no ano que vem. Mas não descarta uma nova recessão em 2021.

Mais perdas a cada semana
O Brasil tem registrado um agravamento da pandemia, o que obrigou estados e municípios a ampliarem a quarentena para evitar a propagação do vírus e o colapso do sistema de saúde.

"A cada semana que a economia fica fechada aumenta a probabilidade de o maior número de empresas não conseguir atravessar essa ponte", afirma o economista-chefe do banco BNP Paribas, Gustavo Arruda. De uma recessão estimada inicialmente em 4% para 2020, ele mudou esse número para uma queda de 7%.
O vírus traz esse impacto para a atividade no curto prazo. Mas no médio e longo prazo, no entanto, as preocupações dos analistas englobam a incerteza política em relação ao futuro do governo Jair Bolsonaro e sobre a capacidade do país de retomar o equilíbrio fiscal.
Miriam Leitão: ‘PIB de 4,7% é a maior recessão da história brasileira em 120 anos'
Miriam Leitão: ‘PIB de 4,7% é a maior recessão da história brasileira em 120 anos'

Hoje, os economistas entendem que o aumento de gastos é justificável e necessário para conter os efeitos da pandemia. Mas, se essa piora fiscal se consolidar no próximo ano, a percepção de risco dos investidores sobre a economia brasileira deve crescer, afugentando ainda mais os investimentos.
"Há muita incerteza com os gastos que estão sendo feitos para combater a doença, se eles vão ficar contidos para este momento da crise ou se vão se estender, se o país vai ter uma dinâmica de dívida pública mais complexa lá na frente”, afirma Luka Barbosa, economista do banco Itaú.
A questão fiscal tem sido o principal entrave da economia brasileira. No ano passado, o Brasil aprovou a reforma da Previdência, considerada essencial para o acerto das contas públicas, mas a agenda para reduzir o endividamento do país é bastante longa. Neste ano, o Itaú espera um crescimento da dívida bruta para 92,2% do PIB, com uma queda para 88,3% do PIB no ano que vem.
A dívida bruta encerrou o ano passado em 75,8% do PIB.

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terça-feira, 19 de maio de 2020

Mistério cerca contágio pelo vírus

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Alívio às restrições depende de conhecer a dinâmica da transmissão – uma questão em aberto 
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 Por Helio Gurovitz  
 Diretor de redação da revista Época por 9 anos, tem um olhar único sobre o noticiário. Vai ajudar você a entender melhor o Brasil e o mundo. Sem provincianismo  
 19/05/2020 07h44  Atualizado há 5 horas  
 Postado em 19 de maio de 2020 às 12h50m  
      Post.N.\9.288  
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Imagem mostra como gotículas de saliva se espalham atrás de uma pessoa correndo e podem infectar quem vem logo atrás — Foto: Universidade de Tecnologia de Eindhoven
Imagem mostra como gotículas de saliva se espalham atrás de uma pessoa correndo e podem infectar quem vem logo atrás — Foto: Universidade de Tecnologia de Eindhoven

As dúvidas que cercam a transmissão do novo coronavírus Sars-CoV2 serão uma das maiores dificuldades na retomada das atividades depois das quarentenas. Os cientistas ainda investigam que tipo de contato resulta em maior risco de contágio. Dependendo da resposta, as estratégias de controle da Covid-19 poderão resultar em restrições maiores ou menores aos movimentos e atividades.

A compreensão do contágio depende da física das gotículas em que o novo coronavírus é transmitido, uma das questões mais intrigantes das doenças respiratórias. A principal dúvida repousa no tamanho das gotículas em que o Sars-CoV2 é capaz de manter a capacidade de contágio. O vírus pode ser transmitido basicamente de três formas:
  1. De modo “balístico”, quando projetado por tosse ou espirros, viajando ao alvo em gotas de tamanho maior, conhecidas como “gotículas de Flügge”. Nesse caso, a capacidade de contágio dura segundos;
  2. Resistindo por mais tempo em gotículas menores, chamadas “aerossóis”, que transitam como nuvens de gás e podem infectar sistemas de ar condicionado, recintos fechados, viajando por até 8 metros. Em aerossóis, a capacidade de contágio pode durar horas;
  3. Em superfícies, como maçanetas, mesas, botões de elevador ou pacotes. A capacidade de contágio pode durar dias sem limpeza.
Vírus mais contagiosos, como o do sarampo, resistem horas em aerossóis. Outros, como o da gripe, duram menos tempo. E o Sars-CoV2? Não sabemos. Os cientistas já sequenciaram seu genoma, conhecem em detalhes microscópicos suas proteínas, o mecanismo de infecção e até já começam a obter sucesso no teste de vacinas. Mas não há certeza sobre o caminho mais comum de transmissão.

Um artigo sobre a biofísica do contágio, publicado em março na revista da Associação Médica Americana (Jama), afirma que “várias propriedades das nuvens de gás exalado e transmissão respiratória podem ser aplicadas ao patógeno”. Um estudo no New England Journal of Medicine constata que a capacidade infecciosa do Sars-CoV2 resiste até três horas em aerossóis artificiais.

As notícias de contaminação em corais e outros eventos públicos sugerem que cantar ou falar alto aumentam o risco de transmissão (suspeita corroborada por um estudo de 2019 publicado na Nature). A Emerging Infectious Disease publicou uma análise da dinâmica da transmissão num restaurante na China, em que atribui o contágio à corrente de ar gerada pelo sistema de ar condicionado.

Todos esses relatos são suficientes para recomendar o uso de máscaras como precaução, já que elas reduzem em até 99% a emissão de gotículas, de acordo com uma revisão de estudos atualizada na semana passada no repositório Preprints.

Máscaras protegem nem tanto quem as usa, mas sobretudo os outros, por reduzir o risco de pegarem o vírus de infectados que não apresentam sintomas. Num estudo preliminar, cientistas concluíram que, para manter o contágio num nível em que a epidemia declinaria naturalmente, bastaria que 80% das pessoas usassem máscaras caseiras, capazes de deter apenas 60% das partículas virais.

Mas só isso pode não resolver. Outra questão crucial para deter o contágio é a dinâmica social em que a transmissão é mais provável. Num levantamento para a revista online Quilette publicado no final de abril e atualizado desde então numa planilha, o jornalista Jonathan Kay reúne nada menos que 92 situações em que um único infectado foi responsável pela contaminação de dezenas ou até milhares de outros. É o caso de cerimônias religiosas, festas ou eventos esportivos.

A virologista e infectologista Muge Cevik levantou em seu perfil no Twitter 14 estudos em que o contágio foi rastreado em diversos países para analisar sua origem. Os estudos corroboram a tese de que poucos infectados são responsáveis pela maior parte das infecções. Também constatam mais infecções em ambientes domésticos, asilos, reuniões familiares e nos meios de transporte.

“Ainda que a carga necessária para a infecção seja desconhecida, esses estudos sugerem que o contato próximo e prolongado é necessário para a transmissão da Covid-19”, escreveu Cevik. “O risco é mais alto em ambientes fechados: em casa, asilos e transporte público.” A recomendação dela é ao mesmo tempo otimista e cautelosa: “Interações curtas e casuais não são o maior vetor da epidemia, mas mantenham o distanciamento social!”

P.S.: Atualizado às 15h

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Crise internacional da Covid-19 reduz emissões do aquecimento global em 17%; no Brasil, queda foi de 25%

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Estudo foi publicado nesta terça-feira (19) na 'Nature Climate Change'. É o menor índice mundial atingido desde 2006.  
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 Por Carolina Dantas, G1  
 19/05/2020 12h00  Atualizado há 2 horas  
 Postado em 19 de maio de 2020 às 14h00m  

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Avenida Paulista praticamente vazia neste sábado, 16 de maio — Foto: Mister Shadow/ASI/Estadão Conteúdo
Avenida Paulista praticamente vazia neste sábado, 16 de maio — Foto: Mister Shadow/ASI/Estadão Conteúdo

A crise internacional de saúde da Covid-19 reduziu em 17% as emissões de carbono em relação à média diária de 2019. No Brasil, a redução foi de 25%, ligada principalmente aos setores de transporte e indústria. O estudo foi publicado nesta terça-feira (19) na "Nature Climate Change".

O índice dos gases causadores das mudanças climáticas chegou ao patamar mais baixo desde 2006. Os autores dizem que a queda está relacionada aos padrões de demanda de energia - fronteiras bloqueadas e isolamento social reduziram o transporte e mudaram os padrões de consumo. As emissões tiveram uma redução média que variou de 11% a 25%.
Emissões do Brasil de 11 de março a 30 de abril — Foto: Carolina Dantas/G1
Emissões do Brasil de 11 de março a 30 de abril — Foto: Carolina Dantas/G1

No estado de Nova York, nos EUA, que chegou a ser epicentro da doença no mundo, a redução atingiu 32,7%. Em Washington, a redução foi de 40,2%. Na Europa, a queda foi em média 27%.

Esses índices mostram a taxa de emissão de gás carbônico (CO²), principal causador das mudanças do clima. Apesar da queda nas taxas no Brasil, há um aumento no desmatamento, que é historicamente a principal causa das emissões no país. Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) mostraram uma alta de 171% na perda de floresta em comparação a abril do ano passado.

"Esses dados refletem o impacto econômico da pandemia, a redução na circulação de pessoas, da circulação de veículos, no número de viagens, e a redução da demanda por energia. Então, acho que aqui no Brasil há uma redução também muito significativa na circulação de veículos e passageiros, além dos transportes de carga. Esses números traduzem a situação de emergência que a gente está", disse Carlos Rittl, cientista e ambientalista especialista em mudanças climáticas.

"É bem provável que as emissões em 2020 sejam as menores em muitos anos, mas isso não significa que a gente colocou o mundo em um patamar de emissões que ele deve estar. Por isso é importante olhar para a situação atual e ver que lições que a gente tira em relação às soluções que foram encontradas a curto prazo", ponderou o pesquisador.

Outros dados do estudo
O transporte terrestre, como viagens de carro, responde por 43% da redução das emissões globais durante o auge do confinamento no planeta, que ocorreu em 7 de abril. Já as emissões feitas pela indústria e pela produção de energia representam mais 43% na queda da taxa.

A aviação, um dos setores mais afetados pela crise da Covid-19, representa 3% de toda a liberação de CO² no planeta e teve uma redução de 10% durante a pandemia.

"Existem oportunidades para fazer mudanças reais, duráveis e mais resistentes a crises futuras, implementando pacotes de estímulos econômicos que também ajudam a cumprir as metas do clima, especialmente para a mobilidade, responsável por metade da redução das emissões durante o confinamento", disse a autora principal do estudo, Corinne Le Quéré, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido.

Ao todo, 69 países foram analisados. Eles são responsáveis por 97% das emissões globais. No auge do confinamento pela Covid-19, 89% deles estavam com algum tipo de restrição à população. No total, ocorreu uma redução de 1.048 milhões de toneladas de dióxido de carbono até o final de abril.
Amazônia registra maior taxa de desmatamento dos últimos 10 anos para o mês de abril
Amazônia registra maior taxa de desmatamento dos últimos 10 anos para o mês de abril

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