A
China vem investindo pesadamente em armamentos; nós vemos que a questão
com Taiwan é extremamente delicada. Fala-se muito numa possível ação
militar chinesa em Taiwan. Então eu pergunto: qual é o papel do Japão, a
responsabilidade japonesa em fazer um equilíbrio militar na Ásia?
"Temos uma
certa preocupação sobre o incremento de gastos militares da China;
segundo a cifra de 2024, foram 314 bilhões de dólares, o que é quase
metade do gasto militar da Ásia-Oceania", afirmou Noguchi.
"Outra
preocupação é o comportamento chinês, enviando navios de guarda-costas
chinesa ao mar territorial do Japão. Então, sim, temos preocupações, mas
sempre estamos abertos ao diálogo", respondeu o embaixador.
[...] Então
podemos solucionar esses problemas por meio de diálogo e, também,
enquanto a Taiwan, nossa política não muda, nossas relações com Taiwan,
focando em relações culturais ou comerciais, e nossa posição sobre
Taiwan é que, sinceramente, desejamos que essa diferença ou questão de
Taiwan seja solucionada por meio de diálogo entre China e Taiwan,
acrescentou.
Há
muito tempo já se fala em mudar a constituição pacifista japonesa e até
ir mais longe, investir em armas nucleares. O que há de real nesse
investimento militar do Japão, embaixador?
"Nossa
política de defesa é muito clara, temos três pilares: primeiro, nossa
política é aumentar nossa capacidade de defesa e também estamos
aumentando gastos de defesa para o Japão, porque é o Japão que defende o
Japão por si mesmo", respondeu.
"Segundo
ponto é fortalecer a aliança de segurança entre Japão e Estados Unidos.
Os Estados Unidos são aliados únicos para o Japão, então é muito
importante fortalecer essa aliança", disse Noguchi.
"Já tive
conversas duas vezes [com os líderes de ambos os países], e eles
acordaram fortalecer a cooperação de segurança, cooperação de defesa, e
eles acordaram desenvolvimento conjunto de mísseis ou produção conjunta
de mísseis entre Japão e Estados Unidos", acrescentou.
"O terceiro
ponto é fortalecer parceria com outros países vizinhos, como Coreia do
Sul, Filipinas ou Austrália. Estamos aumentando nossa cooperação de
defesa; dessa maneira, acredito que podemos assegurar nossa segurança
nacional", concluiu.
Donald
Trump, assim como ele faz com os aliados europeus, recentemente
criticou os gastos militares que os Estados Unidos têm em manter bases
na Coreia do Sul. Ele esteve na China numa visita praticamente inédita,
um presidente americano indo visitar Pequim. Eu pergunto: até que ponto
os Estados Unidos são um aliado confiável?
"Como eu
disse, estamos muito seguros sobre o compromisso dos Estados Unidos, e
também é muito importante esforçar o esforço do Japão mesmo", respondeu.
"Quanto ao
fortalecimento da capacidade de defesa, estamos aumentando nossos gastos
de defesa para o Japão, e também para nós a presença das bases
militares americanas é muito importante para deter qualquer agressão.
Então acredito que sim, esse compromisso dos Estados Unidos sobre a
aliança entre o Japão e os Estados Unidos não muda, e isso, sim", disse o
embaixador.
O
Japão iniciou formalmente a negociação para um acordo de parceria
econômica com o Mercosul. Nós sabemos o peso que o Brasil tem dentro do
Mercosul, então eu pergunto: o que particularmente interessa ou mais
interessa ao Japão nesse acordo?
"Essas
negociações entre o Japão e o Mercosul sobre acordo de parceria
econômica são muito importantes, e queremos facilitar ou aumentar mais o
comércio por meio desse acordo. Queremos facilitar investimento
japonês, e o Japão é um parceiro tradicional do Brasil", afirmou
Noguchi.
"Estamos
muito orgulhosos dos investimentos japoneses no campo da agricultura, no
campo da indústria manufatureira, e entendo que, sim, empresas
japonesas podem criar empregos aqui no Brasil, empregos de qualidade",
acrescentou.
"Aqui no
Brasil, e também agora para o Japão, uma das prioridades é segurança
econômica. Sobretudo, estamos importando menos minerais críticos, como a
terra rara, da China. Então, para nós, o Brasil é muito atrativo.[O
país é] a segunda potência da terra rara no mundo, depois da China, e
estamos colaborando com o Brasil, com as empresas brasileiras, sobre
desenvolvimento de minerais críticos, incluindo terra rara", disse.
Eu
pergunto se esse interesse do Japão em cima das nossas terras raras é
apenas em comprá-las, levá-las para o Japão, ou se, de alguma forma,
vocês poderiam investir também no beneficiamento dessas terras raras
aqui no Brasil?
"Então, é um
ponto muito importante, porque o governo brasileiro, o presidente Lula,
sempre enfatiza esse aspecto de criar valor agregado, não só exportar
minerais", ponderou o embaixador.
"Por
exemplo, algumas empresas japonesas colaboraram com uma empresa
brasileira, A CBMM, que produz nióbio, e estão colaborando para fazer
bateria da próxima geração, usando o nióbio da CBMM. Dessa forma, sim,
podemos criar ou podemos fazer algo de valor agregado, e, contando com a
empresa japonesa ou tecnologia japonesa, estamos dispostos a ajudar,
facilitar o Brasil para esse aspecto de valor agregado sobre minerais
críticos, incluindo terras raras", acrescentou.
Agora,
sobre esses possíveis novos investimentos japoneses no nosso país, a
gente sabe o quanto algumas nações estrangeiras, quando olham o nosso
país, veem muito as potencialidades, mas veem também as instabilidades,
instabilidades econômicas, instabilidades políticas, que o Brasil teve
nos últimos anos. Até que ponto isso preocupa os investidores japoneses,
e o que seria necessário para trazer mais segurança, até segurança
jurídica, para mais investimentos japoneses aqui no Brasil.
"Algumas
empresas japonesas têm dificuldade com o processo burocrático, ou
processo administrativo; demora tempo, mas acredito que sim. Por
exemplo, esses acordos entre o Japão e o Mercosul poderiam facilitar ou
melhorar condições empresariais, e esse é um ponto nas negociações em
que o Japão presta mais atenção, enquanto há negociações com o Mercosul
sobre esse acordo", respondeu o embaixador.
O
Japão enfrenta enormes desafios econômicos neste momento. O governo do
Japão pensa em fazer algum tipo de intervenção na economia?
"A
primeira-ministra Sanae Takaichi anunciou um novo plano econômico para
reativar a economia japonesa, e uma das prioridades é que o Japão tem
que aumentar o potencial do crescimento econômico, e, para isso, precisa
investir para o futuro", disse.
"A
primeira-ministra identificou alguns setores estratégicos, como os
semicondutores, inteligência artificial, espaço, essas coisas, e o
objetivo desse plano é alcançar investimento público-privado em total de
240 trilhões de ienes em 2040 [...] Esse é o objetivo, a meta, quase 8
trilhões de reais em reais brasileiros", prosseguiu.
"Então,
investimento para o futuro, investimento público-privado nesses setores
estratégicos já está identificado, e o setor privado e o setor público
vão trabalhar juntos para alcançar esse investimento", afirmou.
"E também, como eu disse, segurança econômica, como conseguir, como obter esses minerais críticos", concluiu.
Talvez
um dos desafios maiores para a economia japonesa seja a falta de mão de
obra. Muitos países enfrentam esse problema, mas acabam equilibrando,
solucionando com a imigração. Pergunto até que ponto o país pode receber
novos imigrantes, especialmente os brasileiros, visto a nossa histórica
relação.
"Então, sim, a falta de mão de obra ou a população diminuindo é um desafio muito grande para o Japão", afirmou.
"E o governo
japonês está fazendo muitos esforços para reverter essa tendência de
baixa taxa de nascimento. Ao mesmo tempo, agora cada vez mais mulheres
estão no mercado laboral. Anteriormente, não muito, mas agora cada vez
mais mulheres trabalhando estão no mercado laboral", disse o embaixador.
"Agora o
Japão é uma sociedade envelhecida. Mas agora as pessoas idosas têm muita
saúde e podem continuar trabalhando. E também estamos facilitando que
as pessoas idosas continuem trabalhando".
"E também
podemos usar tecnologia, como inteligência artificial. Isso ajuda muito
para menos demanda de mão de obra [...] Mas, sim, é verdade que em
alguns setores estamos contando com trabalhadores estrangeiros",
acrescentou.
"E no Japão,
como sabem, temos 210 mil brasileiros trabalhando muito e contribuindo à
economia japonesa. Apreciamos muito esses esforços brasileiros morando
no Japão. E assim estamos aumentando, na verdade, no Japão, cada vez
mais trabalhadores estrangeiros, incluindo brasileiros", concluiu.
De
alguma forma, os brasileiros podem ter mais acesso a novos vistos, a
mais tempo de permanência no Japão, até mesmo para trabalhar. Isso está
no radar de vocês, da embaixada japonesa no Brasil?
"Então,
estamos, por exemplo, enquanto, para jovens brasileiros, estamos
começando o sistema de working holiday. Isso facilita os brasileiros
trabalhando no Japão e os japoneses trabalhando aqui no Brasil. E também
estamos estendendo a exoneração de vistos para brasileiros", respondeu
Noguchi.
"Estamos
muito felizes de que agora mais e mais brasileiros viajem ao Japão. No
ano passado, mais de 110 mil brasileiros viajaram ao Japão, 30% mais que
no ano anterior", disse.
"E queremos que esses brasileiros repitam viajar ao Japão. Não só uma vez, mas várias vezes. E sejam bem-vindos", afirmou.
"E também,
do ponto de vista da nossa política de turismo, aqui no Japão, no
Brasil, temos 2,7 milhões de descendentes japoneses, nem que
brasileiros. E eles gostam muito do Japão, querem visitar o Japão. E
eles querem visitar as províncias locais de onde sua família veio [...] E
nossa política de turismo é convidar estrangeiros", ponderou.
O
senhor falou do número de turistas brasileiros cada vez maior indo ao
Japão. E não apenas turistas brasileiros. Turistas do mundo inteiro
estão conhecendo o Japão. E, quando voltam para casa, levam as
características do seu país. O que representa esse soft power japonês do
ponto de vista global?
"Quando
tanta gente vai ao país, se encanta com o Japão, o que eles levam de
volta para casa? [...] Ficamos muito felizes que o Japão, a cultura
japonesa, a culinária japonesa estejam bem apreciadas pelos
estrangeiros. Incluindo os brasileiros. E agora, como eu disse, sim
[...] Esperamos que não [venham] só uma vez, né? Que repitam. Viajem e
viajem ao Japão", respondeu.
"E também a
presença dos brasileiros no Japão é muito importante, porque cada dia
eles divulgam a culinária japonesa, a paisagem japonesa, a natureza
japonesa, né? Por redes sociais… Acho que isso também ajuda os
brasileiros a terem mais interesse em visitar o Japão. E esse
intercâmbio por meio de redes sociais é muito importante".