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sexta-feira, 3 de julho de 2020

A pandemia que ameaça destruir a fruta mais popular do mundo

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Assim como a Covid-19, doença que acomete bananas está se espalhando para novos países, forçando a indústria a mudar a forma como a fruta mais consumida do mundo é cultivada e até mesmo seu sabor.  
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Por BBC  
03/07/2020 17h54  Atualizado há 5 horas
Postado em 03 de julho de 2020 às 23h00m

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Assim como a Covid-19, doença que acomete bananas está se espalhando para novos países, forçando a indústria a mudar a forma como a fruta mais consumida do mundo é cultivada e até mesmo seu sabor — Foto: Getty Images/BBCAssim como a Covid-19, doença que acomete bananas está se espalhando para novos países, forçando a indústria a mudar a forma como a fruta mais consumida do mundo é cultivada e até mesmo seu sabor — Foto: Getty Images/BBC


Uma doença letal aparece do nada. Sua transmissão é silenciosa, espalhando-se antes que os sintomas apareçam. Uma vez contraída, já é tarde demais para detê-la — não há cura.
A vida nunca mais será a mesma. Soa familiar?

Não se trata da Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. A Tropical Race 4 (TR4) afeta bananas. Também conhecida como mal-do-Panamá, é causada pelo fungo Fusarium oxysporum, que vem destruindo as fazendas de banana nos últimos 30 anos.

Seria apenas mais uma doença a afetar plantas se não fosse o fato de que, na última década, a epidemia se acelerou repentinamente, espalhando-se da Ásia para Austrália, Oriente Médio, África e, mais recentemente, América Latina, de onde vem a maioria das bananas enviadas para supermercados no Hemisfério Norte.

Atualmente, o mal-do-Panamá está presente em mais de 20 países, provocando temores de uma "pandemia da banana" e uma escassez da fruta mais consumida do mundo.

Cientistas de todo o mundo estão trabalhando contra o relógio para tentar encontrar uma solução, incluindo a criação de bananas geneticamente modificadas (GM) e uma vacina.

'Novo normal'?
Mas, assim como a Covid-19, a questão não é apenas se podemos encontrar uma cura, mas também como viveremos com um "novo normal" que mudará as bananas para sempre?
O primeiro lugar para procurar pistas é na origem da banana moderna que todos conhecemos. Sua história mostra exatamente o que acontece se essa doença for ignorada.

Não é a primeira vez que as bananas enfrentam uma ameaça, explica Fernando García-Bastidas, pesquisador em saúde vegetal que estudou TR4 na Universidade de Wageningen, na Holanda, antes de trabalhar em uma empresa holandesa de genética vegetal que tenta combater a doença.

Na década de 1950, a indústria foi dizimada pelo que ele descreve como "uma das piores epidemias botânicas da história", quando o mal-do-Panamá ocorreu pela primeira vez.

Origem
A doença fúngica surgiu na Ásia, onde evoluiu com as bananas, antes de se espalhar para as vastas plantações da América Central.
A razão pela qual foi tão devastadora, diz García-Bastidas, é o fato de que as bananas eram todas de apenas uma variedade, a Gros Michel ou 'Big Mike'.

Essa espécie havia sido escolhida para cultivo pelos produtores porque produz frutos grandes e saborosos que podem ser cortados da árvore ainda verdes, possibilitando o transporte de alimentos exóticos altamente perecíveis por longas distâncias, enquanto continuam amadurecendo.

Cada planta era um clone de aproximadamente mesmo tamanho e formato, produzido a partir de rebentos laterais que se desenvolvem a partir do caule das raízes, facilitando a produção em massa.

Isso significa que cada bananeira é geneticamente quase idêntica, produzindo frutas consistentemente, sem imprevistos. Do ponto de vista comercial era excelente, mas, do ponto de vista epidemiológico, era um surto à espera de acontecer.

O sistema de produção de bananas se baseou fragilmente na diversidade genética limitada de uma variedade, tornando-as suscetíveis a doenças, diz García-Bastidas.

Sistema de produção de bananas se baseou fragilmente na diversidade genética limitada de uma variedade, diz especialista — Foto: _Alicja_/PixabaySistema de produção de bananas se baseou fragilmente na diversidade genética limitada de uma variedade, diz especialista — Foto: _Alicja_/PixabayLição aprendida?
Mas engana-se quem pensa que a indústria aprendeu a lição.
Foi iniciada, então, a busca por uma variedade para substituir a Gros Michel que poderia ser resistente ao mal-do-Panamá. Na década de 1960, uma espécie, a Cavendish, chamada no Brasil de banana nanica, mostrava sinais de resistência que poderiam salvar a indústria da banana.

Batizada em homenagem ao 7º duque de Devonshire, William Cavendish, por ele ter cultivado a planta em sua estufa em sua residência oficial, a Chatsworth House, a banana também poderia ser transportada verde — embora tivesse um sabor mais suave do que a Gros Michel.

Dentro de algumas décadas, ela tornou-se a nova referência para a indústria da banana e continua sendo até hoje. Mas para os cientistas que observavam com nervosismo as vastas plantações em expansão, era apenas uma questão de tempo até que houvesse outro surto.

Na década de 1990 uma nova cepa do mal-do-Panamá, conhecida como TR4, surgiu, novamente na Ásia, que era letal para as bananas Cavendish.

Desta vez, com uma economia globalizada em que pesquisadores, agricultores e outros visitantes das plantações de banana circulam livremente pelo mundo, ela se espalhou ainda mais rapidamente.

García-Bastidas, que completou seu doutorado em TR4 na Universidade de Wageningen, descreve a doença da banana moderna, que ataca o sistema vascular das plantas fazendo-as murchar e morrer, como uma "pandemia".

"As bananas estão inegavelmente entre as frutas mais importantes do mundo e são um alimento básico importante para milhões de pessoas", diz ele. "Não podemos subestimar o impacto que a atual pandemia do TR4 pode causar na segurança alimentar."

García-Bastidas foi quem viu pela primeira vez o TR4 fora da Ásia, na Jordânia, em 2013.
Desde então ele tem "cruzado os dedos" para que a doença não afete os países em desenvolvimento, onde as bananas são um alimento básico.

Mas registros da doença já foram observados na África, particularmente em Moçambique.
A razão pela qual o TR4 é tão mortal é porque, assim como a Covid-19, ela se espalha por "transmissão furtiva", embora em diferentes escalas de tempo.

Uma planta doente ficará saudável por até um ano antes de mostrar os sintomas da doença: manchas amarelas e folhas murchas. Em outras palavras, quando a TR4 é identificada, já é tarde demais e ela terá se espalhado por esporos no solo em botas, plantas, máquinas ou animais.

García-Bastidas, que é natural da Colômbia, sabia que o TR4 chegaria ao centro da produção de banana na América do Sul.

Mal-do-Panamá, é causada pelo fungo Fusarium oxysporum — Foto: Getty Images/BBCMal-do-Panamá, é causada pelo fungo Fusarium oxysporum — Foto: Getty Images/BBC'Pior pesadelo'
Em 2019, seu pior pesadelo se tornou realidade — o telefonema veio de uma fazenda na Colômbia. As bananeiras tinham folhas amarelas e murchas. E o produtor queria lhe enviar amostras.

"Foi como um pesadelo", diz ele. "Num minuto estou na fazenda, no próximo no laboratório, no outro explicando para o ministro do governo colombiano que o pior já aconteceu. Durante muito tempo, não consegui dormir bem. Foi de partir o coração", lembra.

Como todos os outros países com TR4, a Colômbia está agora tentando retardar o surto enquanto o mundo observa com ansiedade os sinais da doença no restante da América Latina e no Caribe.

Como não há cura, tudo o que pode ser feito é colocar as fazendas infectadas em quarentena e aplicar medidas de biossegurança, como desinfetar botas e impedir o movimento de plantas entre fazendas. Em outras palavras, fazer o equivalente a lavar as mãos e manter o distanciamento social.

Paralelamente, a corrida para encontrar uma solução está a pleno vapor.
Na Austrália, cientistas desenvolveram uma banana Cavendish geneticamente modificada (GM) que é resistente ao TR4. A fundação Bill e Melinda Gates também está financiando pesquisas na área.

No entanto, apesar das fortes evidências científicas de que os alimentos geneticamente modificados são seguros, é improvável que a banana esteja na prateleira de um supermercado perto de você enquanto os órgãos reguladores e o público permanecerem desconfiados.

Para García-Bastidas, que agora trabalha na empresa de pesquisa KeyGene em colaboração com a Universidade de Wagegingen, na Holanda, a banana transgênica é uma "solução fácil" que pode resolver o dilema da indústria por cinco a dez anos, mas não solucioná-lo por completo.

Ao fim e ao cabo, diz ele, o maior obstáculo é ter uma indústria inteira baseada em uma única variedade clonada de outras plantas.
Os testes estão sendo desenvolvidos apenas para rastrear o TR4, já que as bananas têm sofrido por receber menos recursos com pesquisa do que outras culturas básicas.

Mais diversidade
Em vez disso, García-Bastidas quer introduzir mais diversidade na cultura da banana, para que ela seja mais resistente a surtos de doenças como o TR4. Ele ressalta que existem centenas de bananas com potencial para cultivo em todo o mundo. Por que não usá-las?

Já em países como Índia, Indonésia e Filipinas, as pessoas comem dezenas de variedades diferentes de bananas, com sabores, cheiros e tamanhos diferentes. Mas elas são difíceis de cultivar e exportar na escala da Cavendish, que foi criada para suportar o transporte através dos oceanos.

Em seu laboratório na Holanda, García-Bastidas e seus colegas estão usando as mais recentes técnicas de sequenciamento de DNA para identificar genes resistentes ao TR4 e produzir bananas que podem suportar a doença e ser comercialmente viáveis.

"Temos centenas de variedades de maçãs", ressalta. "Por que não começar a oferecer diferentes variedades de bananas?"
A melhor esperança é que uma banana resistente à exportação surja nos próximos cinco a 10 anos. Mas essa não é uma bala de prata. Depois de enfrentar não uma, mas duas pandemias no século passado, dessa vez a indústria da banana terá que buscar mais do que apenas introduzir outro clone no mercado.

Dan Bebber, professor associado de ecologia da Universidade de Exeter, no Reino Unido, passou os últimos três anos estudando os desafios ao sistema para manter o suprimento de bananas como parte de um projeto financiado pelo governo britânico, o BananEx.
Segundo ele, a melhor maneira para a indústria de banana sobreviver ao TR4 é mudar a forma como essa fruta é cultivada.

No momento, as bananas Cavendish são cultivadas em uma vasta monocultura, o que significa que não apenas o TR4, mas todas as doenças se espalham rapidamente. Durante o período de crescimento, as bananas podem ser pulverizadas com fungicidas de 40 a 80 vezes.
"Isso pode ter grandes impactos na microbiota do solo", diz Bebber. "Para cuidar das bananas, é preciso cuidar do solo."

Bebber aponta para relatos das Filipinas de que as fazendas orgânicas se saíram melhor contra o TR4 porque a microbiota no solo é capaz de combater a infecção.

Ele diz que as fazendas de bananas devem procurar adicionar matéria orgânica e talvez implantar um sistema de rotação de culturas para aumentar a proteção e a fertilidade, usando micróbios e insetos em vez de produtos químicos como "defensivos agrícolas", além de deixar mais espaços livres no terreno para incentivar a vida selvagem.

Isso pode significar um aumento no preço das bananas, mas a longo prazo elas seriam mais sustentáveis.

Segundo Bebber, as bananas são muito baratas hoje. Não apenas porque o custo ambiental de uma monocultura com produtos químicos pesados não foi levado em consideração, mas principalmente o custo social de empregar pessoas com salários muito baixos.

A ONG Banana Link, que faz campanhas sobre o assunto, culpa os supermercados por forçar preços cada vez mais baixos, comprometendo o meio ambiente, a saúde dos trabalhadores e, por fim, a vitalidade da safra de banana.

As bananas produzidas para o comércio popular garantem de alguma maneira que os agricultores recebam um preço justo por elas, mas Bebber diz que trabalhadores de todo o setor estão começando a exigir melhores salários.

Mais uma vez, ele diz que isso alimenta o TR4, já que eles precisam ser pagos de maneira justa para garantir que as fazendas sejam mais bem gerenciadas para a prevenção de doenças.

"Durante anos, falhamos em levar em consideração o custo social e ambiental das bananas", diz ele. "É hora de começar a pagar um preço justo, não apenas pelos trabalhadores e pelo meio ambiente, mas pela saúde das próprias bananas."

Pandemia da banana pode ter resultados positivos se nos forçar a cultivar bananas de maneira mais ecológica e a comer uma variedade maior de frutas, diz cineasta — Foto: Marco Aurélio/Prefeitura de UberabaPandemia da banana pode ter resultados positivos se nos forçar a cultivar bananas de maneira mais ecológica e a comer uma variedade maior de frutas, diz cineasta — Foto: Marco Aurélio/Prefeitura de Uberaba'Bananageddon'
Jackie Turner, uma cineasta americana que questiona como as bananas são cultivadas desde que trabalhou em uma plantação como estudante, concorda que a solução está na justiça e na diversidade.

Em seu filme Bananageddon (uma combinação das palavras banana e armageddon), ela conversa com cientistas que tentam impedir a disseminação do TR4, especialistas em segurança alimentar que alertam sobre a escassez e trabalhadores nas plantações preocupados com seus meios de subsistência.

"O TR4 é muito parecido com a Covid-19, pois não tem tratamento", diz ela. "É um cenário de 'dia do juízo final' para as bananas", afirmou.

Depois de viajar pelo mundo por dois anos para observar o impacto que o TR4 já está causando, Turner está convencida de que as bananas precisam ser cultivadas de uma maneira diferente, o que significa introduzir novas variedades.

Ela diz que isso não só será melhor para o meio ambiente e para a proteção contra doenças, mas também para o consumidor.
Para tentar incentivar o público a apoiar pequenos agricultores que cultivam variedades diferentes, ela criou a The Banana List (A Lista das Bananas, em tradução livre).

A compilação reúne as lojas que vendem diferentes variedades de bananas, para que consumidores possam experimentá-las e uma nova demanda surgir.

Por exemplo, a nanica vermelha, que tem um sabor que lembra framboesas, a dedo de moça, menor e mais doce que a Cavendish, ou a Blue Java, com gosto de sorvete de baunilha. As bananas não são apenas deliciosas, mas ajudarão a criar um tipo diversificado de agricultura, mais resistente a doenças.

Para Turner, a pandemia da banana pode ter resultados positivos se nos forçar a cultivar bananas de maneira mais ecológica e a comer uma variedade maior de frutas.

"Talvez a gente coma menos bananas e pague mais por elas", admite. "Mas sabemos que serão bananas melhores."

Esta reportagem faz parte do Follow the Food, uma série que investiga como a agricultura está respondendo aos desafios ambientais. Follow the Food traça as respostas emergentes para esses problemas — de alta e baixa tecnologia, local e global — de agricultores, produtores e pesquisadores dos seis continentes.

CORONAVÍRUS


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Coronavírus: imagens microscópicas revelam 'tentáculos' nas células infectadas

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Equipe internacional identificou ‘tentáculos’ em células humanas provocadas pelo vírus e que podem facilitar seu alastramento.  
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Por BBC  
03/07/2020 16h13  Atualizado há 4 horas 
Postado em 03 de julho de 2020 às 20h20m

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A célula infectada, seguindo as instruções do vírus (em azul), desenvolve longos tentáculos que permitem a infecção de outras células — Foto: Elizabeth Fischer/Microscopy Unit NIH/NIAID/BBCA célula infectada, seguindo as instruções do vírus (em azul), desenvolve longos tentáculos que permitem a infecção de outras células — Foto: Elizabeth Fischer/Microscopy Unit NIH/NIAID/BBC

Se a devastação causada pelo coronavírus no mundo é mais do que conhecida, o que ele faz dentro do corpo e em nível microscópico ainda é uma área carente de respostas.

Responder a isso é crucial não só para a produção de conhecimento científico sobre a doença como também para o desenvolvimento de medicamentos potencialmente capazes de contê-la.
Uma equipe internacional de cientistas que vem explorando a atuação do vírus dentro do corpo descobriu algumas pistas de como o Sars-Cov-2 infecta células — e obteve também imagens disso.

A descoberta mais surpreendente é a de que as células humanas infectadas com o coronavírus sofrem uma transformação "sinistra".

Seguindo as instruções do vírus, as células desenvolvem filopódios — filamentos longos, semelhantes a tentáculos. Estas protuberâncias não são muito comuns, mas já foram observadas em outros vírus, como o vírus de Marburg.

Nestes casos conhecidos, foi observado que os vírus recorrem a esses tentáculos tanto para sair da célula afetada quanto para alcançar células próximas e, assim, acelerar a infecção.
O que já sabemos e o que ainda é incerto sobre o Coronavírus? O que já sabemos e o que ainda é incerto sobre o Coronavírus?

"O que descobrimos é que o vírus induz a célula a criar essas protuberâncias, que são como galhos longos ou tentáculos", explicou à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, um dos autores da pesquisa, o professor Pedro Beltrao, pesquisador do Instituto Europeu de Bioinformática do Laboratório Europeu de Biologia Molecular (EBI-EMBL), em Cambridge, Inglaterra.

A pesquisa, que teve parte de seus resultados publicada no periódico Cell, teve também a colaboração de pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco e da Escola Icahn de Medicina Mount Sinai (ambas nos EUA), do Instituto Pasteur na França e da Universidade de Freiburg na Alemanha.
As imagens reveladas pelo estudo mostram células humanas infectadas com um detalhamento inédito — Foto: Elizabeth Fischer/Microscopy Unit NIH/NIAID/BBCAs imagens reveladas pelo estudo mostram células humanas infectadas com um detalhamento inédito — Foto: Elizabeth Fischer/Microscopy Unit NIH/NIAID/BBC

"Em outros vírus, já foi observado que (essas protuberâncias) desempenham um papel na rápida disseminação da infecção, porque elas ajudam o vírus a invadir células próximas."

Embora o papel dos filopódios na infecção não tenha sido demonstrado neste estudo, os pesquisadores acreditam que existe uma "alta probabilidade" de que o Sars-Cov-2 também esteja usando esses tentáculos para acelerar sua propagação.

O que essa pesquisa já conseguiu foi produzir imagens impressionantes da célula infectada, mostrando-a como nunca vista antes, inclusive com as estranhas estruturas dos filopódios.

As fotografias, capturadas por Elizabeth Fischer, da Unidade de Microscopia dos Laboratórios Rocky Mountain, nos Estados Unidos, e cientistas da Universidade de Freiburg, revelam como o vírus brota dos filopódios e se expande através de uma ramificação.
Entenda algumas das expressões mais usadas na pandemia do covid-19
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Maquinário celular 'violado' pelo vírus
Os pesquisadores também descobriram que o vírus, além de causar a criação desses "tentáculos", provoca outros comportamentos atípicos dentro da célula infectada.

"O principal objetivo do estudo era tentar encontrar drogas que impedissem o vírus de fazer alterações na célula humana", explica Pedro Beltrao. "Mas, para conseguir isso, primeiro precisamos entender como o vírus controla os mecanismos da célula para realizar sua própria replicação."

Um vírus que entra no corpo humano "quer" sobretudo criar cópias de si mesmo para espalhar a infecção.

Mas o vírus não pode criar essas cópias por conta própria. Ele precisa entrar em uma célula, assumir o controle do maquinário celular e manipulá-lo para se reproduzir.

"O vírus não consegue se replicar sozinho porque tem um número muito pequeno de proteínas, por isso precisa assumir o controle das proteínas na célula humana", diz Beltrao.
O vírus usa os filopódios para sair da célula infectada e infectar outras células próximas — Foto: Elizabeth Fischer/Microscopy Unit NIH/NIAID/BBCO vírus usa os filopódios para sair da célula infectada e infectar outras células próximas — Foto: Elizabeth Fischer/Microscopy Unit NIH/NIAID/BBC

Entre essas proteínas, existem várias que são essenciais, as chamadas enzimas quinases — capazes de realizar modificações em outras proteínas que já foram produzidas.

O vírus então assume o controle dessas enzimas para realizar modificações e regular a atividade da célula.
Ao alterar os padrões de proteínas celulares, o vírus pode promover sua propagação para outras células.

Os três mecanismos do vírus dentro da célula
Depois de mapear as modificações que o vírus provoca, os cientistas destacaram três comportamentos principais na célula infectada.

"Um desses comportamentos é a criação das protuberâncias, os longos tentáculos", enumera Pedro Beltrao à BBC News Mundo.

"Outro comportamento visto é que a célula para de se dividir em um determinado ponto do ciclo de divisão e acreditamos que isso favorece a replicação do vírus."

"E o terceiro comportamento que detectamos é um aumento na produção de citocinas, responsáveis pela resposta inflamatória. Acreditamos que este pode ser um dos fatores causando uma inflamação exagerada nos estágios avançados da Covid-19", acrescenta o pesquisador.

Descobertas podem ajudar a encontrar tratamento
Outro avanço do estudo é a indicação de que medicamentos existentes e que podem ser bons candidatos para interromper o coronavírus. Esses tratamentos, muitos dos quais usados contra o câncer, parecem bloquear os sinais químicos que desencadeiam a formação dos tentáculos.

Regular as enzimas quinases também pode ser um mecanismo de ação chave em um eventual tratamento para a Covid-19
Filopodia não são comuns, mas foram observados em outros vírus como o Marburg — Foto: Elizabeth Fischer/Microscopy Unit NIH/NIAID/BBCFilopodia não são comuns, mas foram observados em outros vírus como o Marburg — Foto: Elizabeth Fischer/Microscopy Unit NIH/NIAID/BBC

Os cientistas testaram cerca de 70 medicamentos existentes e identificaram sete, principalmente tratamentos anticâncer e anti-inflamatórios, que demonstraram inibir a atividade da quinase.

Agora, os pesquisadores esperam iniciar ensaios clínicos para testar os tratamentos em humanos.

A equipe também comemora a colaboração internacional e a conquista rápida de descobertas.

"Para mim, pessoalmente, foi um projeto científico fantástico, porque não é todo dia que você pode trabalhar em conjunto com tantos pesquisadores brilhantes de diferentes partes do mundo", afirmou Pedro Beltrao à BBC News Mundo.

"Este é um projeto que, em outra época, levaria de três a cinco anos e foi concluído em três meses. Isso, para mim, foi algo incrível", acrescenta o cientista.

CORONAVÍRUS

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