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domingo, 1 de fevereiro de 2026

Investir em ouro é boa saída em tempos de turbulência na economia?

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O preço do ouro subiu acima de US$ 5 mil por onça pela primeira vez na história, com os investidores buscando segurança em meio às incertezas políticas e econômicas. Mas o ouro realmente é um porto seguro?

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TOPO
Por BBC

Postado em 01 de Fevereiro de 2.026 às 09h00m
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O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.
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O preço do ouro bateu uma série de recordes nos últimos tempos, em meio à incertezas da geopolítica global. — Foto: Reuters via BBC
O preço do ouro bateu uma série de recordes nos últimos tempos, em meio à incertezas da geopolítica global. — Foto: Reuters via BBC

O preço do ouro ultrapassou os US$ 5 mil (cerca de R$ 26,4 mil) por onça troy (31,1034768 gramaspela primeira vez na história, dando continuidade a uma alta inédita que fez o metal subir em mais de 60% em 2025.

O aumento vem em um momento em que as tensões entre os Estados Unidos e a Otan em relação à Groenlândia fizeram crescer as preocupações mundiais em relação às incertezas financeiras e geopolíticas.

A política comercial do presidente americano, Donald Trump, também vem preocupando os mercados. No sábado (24/1), ele ameaçou impor uma tarifa de importação de 100% ao Canadá, se o país celebrar um acordo comercial com a China.

O ouro e outros metais preciosos são considerados ativos seguros para os investidores em tempos de incerteza.

Na sexta-feira (23/1), a prata atingiu US$ 100 (cerca de R$ 530) a onça pela primeira vez, em novo aumento somado aos quase 150% do ano passado.

Diversos outros fatores também alavancaram a demanda por metais preciosos. Eles incluem a inflação mais alta que o habitual, a fraca cotação do dólar americano, a compra dos metais por bancos centrais de todo o mundo e a expectativa de que o Federal Reserve (o Banco Central dos Estados Unidos) venha a reduzir novamente as taxas de juros este ano.

'As pessoas vão para o ouro'

As preocupações com a economia podem ajudar a elevar o preço do ouro, mas a cotação do metal também tende a subir quando os investidores esperam redução das taxas de juros.

Taxas mais baixas normalmente indicam menores retornos para investimentos como títulos do governo. Por isso, os investidores buscam ativos como o ouro e a prata.

Grande parte do mercado espera que o Federal Reserve reduza sua principal taxa de juros duas vezes em 2026.

"A relação é inversa porque o custo de oportunidade de manter o dinheiro em um título do governo, na verdade, não vale mais a pena. Por isso, as pessoas vão para o ouro", explica o estrategista de pesquisa Ahmad Assiri, da corretora australiana Pepperstone.

Será que o ouro é realmente um porto seguro? — Foto: Reuters via BBC
Será que o ouro é realmente um porto seguro? — Foto: Reuters via BBC

As guerras na Ucrânia e na Faixa de Gaza, além da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por Washington, também ajudaram a elevar o preço do ouro.

Quando os mercados financeiros desabam, pode haver uma súbita "corrida do ouro", com um grande número de compradores (incluindo governos e investidores individuais) buscando comprar o metal precioso, segundo o historiador da economia Philip Fliers, da Universidade de Belfast, no Reino Unido.

O ouro teve um ano de destaque em 2025. Muitos investidores migraram para os metais preciosos, gerando o maior aumento anual do preço do ouro desde 1979.

Com os mercados financeiros assustados por diversas preocupações, como as tarifas de importação de Donald Trump e o receio de que as ações relacionadas à inteligência artificial estejam supervalorizadas, o ouro atingiu repetidos recordes de alta.

Susannah Streeter é a estrategista-chefe de investimentos do Wealth Club, uma plataforma de investimentos voltada a clientes de alto padrão. Ela afirma que o ouro "parece não conhecer fronteiras", em meio às atuais incertezas políticas.

"A corrida para o porto seguro dourado continua, com o preço do metal precioso subindo cada vez mais", segundo ela.

Streeter destaca as tensões comerciais geradas pela ameaça de tarifas de Trump contra o Canadá, que "deixaram os investidores inquietos".

Disparada

Nem todos os que investem em ouro compram o metal precioso em forma física. Alguns investidores colocam seu dinheiro em produtos financeiros, como fundos de investimento negociados em bolsa (ETFs), que são atrelados ao ouro.

"O ouro é um investimento 'seguro', mas isso não significa que ele não apresente riscos", explica Fliers.

Em janeiro de 2020, no início da pandemia de covid-19, os preços do ouro dispararam. Mas, em março do mesmo ano, eles começaram a cair.

"Quando a confiança nos ativos financeiros e na estabilidade política começa a oscilar, o ouro tende a reagir primeiro, como o principal metal monetário", explica a planejadora financeira Anita Wright, da empresa britânica Ribble Wealth Management.

O ouro sempre teve importância simbólica e religiosa ao longo da história humana. — Foto: Reuters via BBC
O ouro sempre teve importância simbólica e religiosa ao longo da história humana. — Foto: Reuters via BBC

Da máscara mortuária do faraó Tutancâmon, no Egito Antigo, até o Banco de Ouro da nação Asante, em Gana, e os Tronos de Ouro do Templo Padmanabhaswamy, na Índia, o metal sempre teve importância simbólica e religiosa ao longo da história humana.

Um dos maiores apelos do ouro é sua relativa escassez.

Foram mineradas até hoje apenas cerca de 216.265 toneladas do metal, segundo o Conselho Mundial do Ouro. Esta quantidade é suficiente para encher três a quatro piscinas olímpicas.

A maior parte deste volume só foi extraída de 1950 para cá, com os avanços da tecnologia de mineração e a descoberta de novos depósitos.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos calcula que outras 64 mil toneladas de ouro ainda poderão ser extraídas das reservas subterrâneas. Mas a previsão é que o abastecimento do metal atinja um nível estável nos próximos anos.

Compras em volume

Não surpreende que muitas pessoas busquem o investimento em ouro como uma forma confiável de proteger seu patrimônio.

O valor dos objetos e joias de ouro guardados em casa, muitas vezes, não é afetado pelas alterações dos mercados financeiros globais.

"Quando você tem ouro, não está preso à dívida de outra pessoa, como um título ou ação, quando o desempenho de uma empresa define o desempenho" do investimento, explica Nicholas Frappell, chefe global de mercados institucionais da empresa ABC Refinery. "É uma ótima opção de diversificação, em um mundo com muitas incertezas."

Mas qualquer grande investimento pode ficar à mercê das ações dos grandes operadores financeiros.

Fliers suspeita que grande parte do recente aumento dos preços do ouro "seja causado pelos bancos centrais dos governos, aumentando seus estoques de ouro".

Eles costumam comprar ouro em grandes volumes para ampliar suas reservas, fugindo de investimentos em ações em tempos de incerteza.

Longo prazo

No ano passado, os bancos centrais acumularam centenas de toneladas de lingotes nas suas reservas, segundo o Conselho Mundial do Ouro.

"Existe um claro afastamento do dólar americano, o que beneficia imensamente o ouro", segundo Nikos Kavalis, diretor-gerente da consultoria de metais preciosos Metals Focus.

No início deste ano, o ouro continuou a subir, mas Frappell alerta que as notícias, que "orientam o mercado", também poderão resultar na queda das cotações.

"É preciso haver escopo para notícias inesperadas que poderão realmente ser positivas para o mundo, mas não necessariamente para o ouro", afirma ele.

Ou seja, investir no metal precioso pode trazer seus riscos.

"Ainda é uma estratégia arriscada especular no aumento do preço do ouro, pois, assim que os mercados se acalmarem e os governos recobrarem o juízo, as pessoas irão deixar novamente o ouro", explica Fliers.

"Eu diria que o investimento em ouro é algo que se faz a longo prazo."

Em muitas culturas, o ouro é comprado durante festivais ou oferecido como presentes em comemorações. — Foto: Getty Images via BBC
Em muitas culturas, o ouro é comprado durante festivais ou oferecido como presentes em comemorações. — Foto: Getty Images via BBC

Mas nem todos compram ouro puramente por razões de investimento.

Em muitas culturas, o metal é adquirido durante festivais ou oferecido como presente em comemorações, como casamentos.

Na Índia, o festival anual Diwali é considerado uma ocasião auspiciosa para comprar metais preciosos que irão trazer sorte e riqueza.

Segundo o banco de investimentos americano Morgan Stanley, as famílias indianas possuem US$ 3,8 trilhões (cerca de R$ 20 trilhões) em ouro. Este valor equivale a 88,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Já a vizinha China é o maior mercado consumidor de ouro do mundo. Muitos acreditam que comprar o metal traz boa fortuna.

"Costumamos observar um pico sazonal da demanda perto do Ano Novo Chinês, como estamos verificando no momento, até certo ponto", explica Kavalis. Ele se refere ao Ano do Cavalo, que começa em fevereiro.

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As previsões sobre inteligência artificial de 70 anos atrás que são realidade hoje

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Desde os anos 1950, a trajetória da IA tem sido marcada pelos mesmos dilemas: medo de que máquinas substituam humanos, a tendência de humanizar a tecnologia e o apego emocional por ela e promessas ambiciosas que raramente se cumprem.
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Por Luiz Fernando Toledo

Postado em 01 de Fevereiro de 2.026 às 08h15m
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Joseph Weizenbaum, criador do primeiro chatbot, Eliza, de 1966. — Foto: Getty Images via BBC
Joseph Weizenbaum, criador do primeiro chatbot, Eliza, de 1966. — Foto: Getty Images via BBC

Recorrer a um chatbot (como o ChatGPT, Gemini ou Claude) em busca de terapia, ou até mesmo de um novo amigo, pode soar como uma história controversa dos nossos tempos, coisa do século 21.

Mas não é uma questão exatamente inédita.

Desde os anos 1950, a trajetória da inteligência artificial tem sido marcada pelos mesmos dilemas: medo de que máquinas substituam humanos, a tendência de humanizar a tecnologia, o apego emocional que muitas pessoas desenvolvem por ela e as promessas ambiciosas que raramente se cumprem — mas que continuam a atrair investimentos e atenção.

O cenário do século passado e de agora são diferentes, no entanto, em um aspecto principal: o tanto de dinheiro e recursos que se está investindo nessas tecnologias nos dias atuais.

"Existe uma diferença de que hoje estamos em um contexto do capital financeiro e dos investimentos que essas empresas atraem, o espaço que elas conseguem junto a governos", disse à BBC News Brasil Bernardo Gonçalves, pesquisador de inteligência artificial, filósofo e tecnologista do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC).

"Mas as questões, eu diria que são as mesmas", completa.

Em entrevista à reportagem, Gonçalves fez um resgate dos debates históricos em torno da inteligência artificial, de momentos em que cientistas projetaram o futuro e os problemas da IA — muitos debates que ainda permanecem vivos.

Confira alguns deles a seguir.


Para Bernardo Gonçalves, pesquisador de inteligência artificial, questões sobre a IA permanecem as mesmas há mais de 50 anos. — Foto: Arquivo pessoal via BBC
Para Bernardo Gonçalves, pesquisador de inteligência artificial, questões sobre a IA permanecem as mesmas há mais de 50 anos. — Foto: Arquivo pessoal via BBC

O apego emocional às máquinas

O professor do MIT e cientista Joseph Weizenbaum criou um programa, ainda na década de 60, que é hoje considerado o primeiro chatbot a se tornar conhecido no mundo.

Batizado de Eliza, o programa rodava em um computador IBM 7094, uma máquina de grande porte, que à época custava milhões de dólares, e era capaz de simular conversas.

O programa seguia um conjunto de regras pré-definidas para analisar o que era digitado e responder de forma automática.

No fundo, a máquina não entendia o que estava sendo dito, mas imitava uma conversa.

Em um dos testes, Weizenbaum programou Eliza para agir como uma terapeuta. O chatbot reformulava o que o "paciente" dizia, transformando frases em perguntas, o que criava a ilusão de diálogo.

  • PACIENTE: Meu namorado me fez vir aqui.
  • ELIZA: Seu namorado te fez vir aqui.
  • PACIENTE: Ele diz que estou deprimida a maior parte do tempo.
  • ELIZA: Lamento que você esteja deprimida.

Naquela época, como relatou Weizenbaum em um capítulo de livro, alguns pesquisadores começaram a prever que, no futuro, máquinas poderiam oferecer terapia de verdade, até mesmo em hospitais.

O próprio criador da tecnologia se espantou com essa possibilidade. "Sem dúvida há técnicas para facilitar a projeção do terapeuta na vida do paciente. Mas que fosse possível a um psiquiatra defender que esse componente crucial do processo terapêutico pudesse ser substituído, isso eu não tinha imaginado", escreveu.

O interesse por Eliza era tanto que, certa vez, sua secretária pediu que ele saísse da sala para poder ter uma conversa particular com o programa.

"Por mais inteligentes que as máquinas possam vir a ser, há certos atos de pensamento que devem ser tentados apenas por seres humanos", disse ele no livro Computer Power and Human Reason, em 1976.

A tendência de tratar máquinas como pessoas

Turing questionava se máquinas podem pensar e antecipou críticas da época, publicadas em jornais ingleses. — Foto: Getty Images via BBC
Turing questionava se máquinas podem pensar e antecipou críticas da época, publicadas em jornais ingleses. — Foto: Getty Images via BBC

No artigo considerado pioneiro na discussão sobre inteligência artificial, Computing Machinery and Intelligence (1950)o cientista britânico Alan Turing propôs a pergunta que ecoa até hoje: as máquinas podem pensar?

Antecipando objeções que já circulavam na imprensa britânica, Turing reuniu no artigo algumas das críticas mais comuns.

Havia as teológicas, segundo as quais "pensar é uma função da alma imortal do homem", e as filosóficas, que argumentavam que "somente quando uma máquina for capaz de escrever um soneto ou compor um concerto a partir de pensamentos e emoções sentidos — e não pela simples combinação de símbolos — poderemos concordar que ela é igual ao cérebro humano".

Talvez tenha sido essa última objeção, sobre a consciência e a criação genuína, a que mais inquietou seus contemporâneos.

O pesquisador Bernardo Gonçalves lembra que esses críticos diziam que os termos usados por Turing, que faziam alusões ao cérebro ou ao pensamento humano, eram inadequados.

"O Turing já tinha sido exposto como uma pessoa que estimulava o uso de certos termos que outros eram contra, como cérebro eletrônico ou se referir à capacidade de armazenamento de uma máquina como memória."

Anos depois da publicação do artigo de Turing, uma conferência na Dartmouth College, em 1956, ficaria conhecida como o momento de nascimento do termo "inteligência artificial".

E o conceito tentou evitar justamente essa definição que mistura máquinas e mentes humanas.

"Eles definiram o campo como: máquinas que se comportam de tal forma que, se fosse um humano, seria dito que são inteligentes", lembra Gonçalves.

"Essa tradição de antropomorfizar continua até hoje, impulsionada por histórias de Hollywood que combinam a ideia de IA com antigas representações de criações humanas, que de repente ganham vida", afirma a jornalista Karen Hao em seu livro Império da AI (Empire of AI), que conta a história e os bastidores da criação e evolução da OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT.

"Desenvolvedores de IA falam com frequência sobre como seus softwares aprendem, leem ou criam, como os humanos. Isso não só alimentou a percepção de que as tecnologias atuais de IA são muito mais capazes do que realmente são, como também se tornou uma ferramenta retórica para que empresas evitem responsabilidade legal", argumenta, citando exemplos de artistas e escritores que processaram essas empresas por não terem dado consentimento de uso de suas obras para treinar os modelos de linguagem.

Gonçalves avalia que a crítica de Karen Hao é muito semelhante à feita nos anos 50.

Ele lembra de um debate entre Turing e o matemático Douglas Hartree na década de 40, que já foi tema de um de seus artigos.

Em outubro de 1945, poucos meses após o fim da 2ª Guerra Mundial, Alan Turing foi contratado pelo Laboratório Nacional de Física britânico (National Physical Laboratory, ou NPL) para liderar o projeto de construção de uma máquina de computação.

A iniciativa buscava consolidar a posição do Reino Unido na corrida tecnológica que emergia do pós-guerra.

O projeto recebeu o nome de Automatic Computing Engine (ACE) e se tornaria um dos primeiros computadores eletrônicos programáveis da história.

Era um momento em que governos e cientistas começavam a vislumbrar usos civis e militares para essas novas máquinas capazes de armazenar instruções em memória, avanço decisivo em relação aos computadores criados durante o conflito.

"Depois da guerra se constroem os computadores capazes de armazenar um programa em memória", lembra Gonçalves. "Havia interesse em financiar esses projetos no contexto militar". 
Máquinas para ajudar os humanos ou substituí-los?
Tradição de antropomorfizar IA continua até hoje, diz a jornalista Karen Hao, autora do livro Empire of AI. — Foto: BBC
Tradição de antropomorfizar IA continua até hoje, diz a jornalista Karen Hao, autora do livro Empire of AI. — Foto: BBC

Na proposta apresentada ao NPL, Turing incluía algumas das suas primeiras reflexões sobre o futuro da computação.

Entre elas, a ideia de que máquinas poderiam aprender tarefas complexas, como jogar xadrez.

Já Douglas Hartree era considerado um dos principais especialistas em computação do Reino Unido e se tornaria membro do comitê executivo do próprio Laboratório Nacional de Física (NPL).

Enquanto Turing olhava para o futuro filosófico das máquinas, tentando compreender se elas poderiam, um dia, pensar, Hartree mantinha a cabeça na aplicação prática daquelas invenções.

Em 1946, ele publicou um artigo na revista Nature advertindo para o uso exagerado de metáforas humanas ao descrever computadores.

"Parece-me que a distinção é importante e que o termo cérebro eletrônico a obscurece e é enganoso, pois atribui à máquina capacidades que ela não possui; e é por isso que espero que o uso desse termo seja evitado no futuro", escreveu.

Hartree temia que expressões como essa criassem a ilusão de que as máquinas pudessem replicar a mente humana, confusão que desviaria a atenção do verdadeiro propósito da computação: o de ampliar a capacidade de cálculo e auxiliar o raciocínio humano, não substituí-lo.

Turing chegou a prever que seria tão fácil fazer uma pergunta a uma máquina quanto a uma pessoa no futuro. Hartree, por outro lado, via nesse entusiasmo um risco moral e político: acreditava que desprezar a razão humana e superestimar a das máquinas poderia abrir caminho para formas de autoritarismo, como aquelas que a Europa acabara de testemunhar.

Turing, vale lembrar, ajudou os Aliados e teve papel-chave na guerra, ao quebrar o código secreto nazista, que permitiu ler as mensagens navais alemãs cifradas com a máquina Enigma.

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Uma máquina de criptografia Enigma modelo I é vista em Bletchley Park, perto de Milton Keynes, ao norte de Londres, em 26 de outubro de 2023 — Foto: Getty Images via BBC
Uma máquina de criptografia Enigma modelo I é vista em Bletchley Park, perto de Milton Keynes, ao norte de Londres, em 26 de outubro de 2023 — Foto: Getty Images via BBC

'São tecnologias que deslocam poder'

Para o pesquisador Bernardo Gonçalves, as disputas em torno da inteligência artificial têm a ver com o poder e quem irá exercê-lo.

"Por que temos controvérsia? Essa analogia com o humano, no fundo, é uma expansão do espaço da máquina na sociedade, que vai impactar no espaço do humano. Por exemplo, no que é um posto de trabalho", diz.

A própria história da computação, destaca Gonçalves, mostra como essas transformações sempre tiveram efeitos sociais concretos. Nos anos 1940 e 1950, o termo "computador" ainda designava pessoas, em especial mulheres, que realizavam cálculos complexos.

"Temos aí uma informação histórica que funciona como uma cápsula do tempo. A própria profissão de computador foi extinta pela construção dessas máquinas", explica.

Com o avanço da automação, essas tecnologias passaram a concentrar poder e alterar estruturas de trabalho"Estamos falando de coisas que têm uma repercussão social muito forte e clara", afirma.

"São tecnologias de automação que deslocam poder, fazem impacto na vida das pessoas, na economia."

O ciclo de promessas e frustrações com a IA

O CEO da OpenAI, Sam Altman, testemunha perante a Comissão do Senado para o Comércio, Ciência e Transportes no Senado americano. — Foto: Getty Images via BBC
O CEO da OpenAI, Sam Altman, testemunha perante a Comissão do Senado para o Comércio, Ciência e Transportes no Senado americano. — Foto: Getty Images via BBC

Nos anos 1970, o Reino Unido viveu um "inverno da IA", após o matemático James Lighthill publicar um relatório afirmando que o campo "vivia de especulações sem fundamento".

"Faz-se todo um glamour, mas não se alcançam esses resultados. Promete-se ir muito longe", afirma Gonçalves.

"Alguns pesquisadores começaram a dizer: a gente precisa parar de prometer tudo isso, porque depois isso queima a área."

Hoje, segundo ele, o ciclo se repete, agora impulsionado por empresas de tecnologia com alcance global e orçamentos bilionários.

"A polarização é tão forte que parece que ou esses sistemas vão logo se transformar em superinteligências e tomar o poder, ou são burros, estúpidos, meros papagaios estocásticos. Mas, na verdade, a área segue se desenvolvendo."

Mesmo com o ceticismo de parte da comunidade científica, Gonçalves destaca que o poder econômico e político dessas corporações sustenta o ritmo das inovações.

"Desde 2022, quando surge o ChatGPT, esses sistemas vêm melhorando. E aí não estou falando do que se promete, mas do que de fato se observa."

"É um tipo de pesquisa que, se bem-sucedida, tem impacto muito grande. Você poder automatizar mais e mais atividades intelectuais, de escritório, que foram as mais preservadas da automação das primeiras revoluções industriais, que eram mais mecânicas", diz.

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