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Levantamento realizado pela FGV mostra que taxa de investimento deve recuar 2,2% ao ano, em média, entre 2011 e 2020. Incertezas sobre a trajetória da dívida pública e endividamento elevado das empresas são principais obstáculos para retomada.
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Por Luiz Guilherme Gerbelli, G1
25/10/2020 07h29 Atualizado há 4 horas
Postado em 25 de outubro de 2020 às 11h35m

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Ao fim desta década, a economia brasileira vai ter colhido mais um indicador ruim. Entre 2011 e 2020, os investimentos deverão ter registrado queda média de 2,2% ao ano, mostra levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).
Será a primeira queda do investimento para um período de dez anos desde 1980, conhecida como a década perdida.
O investimento é mais um dado que evidencia a fraqueza econômica do
país na década atual. Outro levantamento do Ibre já apontou que o
Produto Interno Bruto (PIB) do período de 2011 e 2020 será o pior dos últimos 120 anos, pelo menos.
Nos anos recentes, o fraco desempenho dos investimentos se concentrou
de 2014 em diante, período a partir do qual a economia brasileira
enfrentou uma dura recessão até 2016, observou um triênio de lenta recuperação e, agora em 2020, passou a ser impactada pela pandemia de coronavírus, que colocou o país novamente em recessão.
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Fraco desempenho — Foto: Economia G1
"O
Brasil tem nos últimos 40 anos duas décadas perdidas, então isso
explica o fato de o país estar com esse quadro de crescimento fraco",
diz Marcel Balassiano, pesquisador do Ibre/FGV e um dos autores do
levantamento. O estudo também teve a participação dos economistas do
Ibre Claudio Considera e Juliana Trece.
Para calcular o dado do investimento na década atual, o Ibre utilizou a
projeção para o desempenho do investimento contida no relatório de
inflação, do Banco Central. A expectativa é de queda de 6,6% neste ano.
Se não houvesse a crise provocada pela pandemia, o desempenho do
investimento continuaria fraco. No relatório de inflação de dezembro do
ano passado, portanto, antes de iniciada a pandemia, a expectativa era
de alta de 4,1% para os investimentos, o que levaria a década atual a
apresentar uma queda média de 1,2%.
"O coronavírus agravou uma situação. Mas sem a doença, o Brasil
continuaria com esse problema (de fraco investimento)", afirma Juliana.
FMI reduz previsão de queda do PIB, em 2020
Incertezas travam investimentos
A taxa de investimentos é medida pela Formação Bruta de Capital Fixo
(FBCF), que apura tudo o que se investe em máquinas, bens duráveis,
aumento da capacidade produtiva e construção civil.
O avanço
deste componente do PIB é fundamental para que o país consiga colher um
crescimento mais sustentável e robusto ao longo dos próximos anos e,
assim, aumentar a riqueza da sua população, afirmam os economistas. Mas desde 1980, o avanço médio da taxa investimento no país é de apenas 0,5% ao ano.
"O
Brasil tomou a decisão de ficar parado, não tomou a decisão de crescer,
de distribuir renda", diz Considera. "O país ficou três anos crescendo
1% ao ano, é praticamente o avanço da população. É renda per capita
crescendo zero.”
Mais do que um retrovisor fraco, há uma dúvida sobre se o Brasil vai
ser capaz de recuperar a força dos investimentos no futuro.
O país lida com uma série de incertezas. A maior delas está na área
fiscal. Com a pandemia, o endividamento do governo deve se aproximar de
100% do PIB neste ano, um patamar considerado alta para uma economia
emergente como a brasileira.
A principal dúvida na área fiscal é se o governo vai manter o teto de
gastos, que limita o crescimento das despesas à inflação do ano
anterior. Na leitura do mercado, uma eventual deterioração das contas
públicas pode levar a uma fuga de investidores do país, o que provocaria
uma depreciação do câmbio e um consequente aumento da taxa básica de
juros – hoje em 2% ao ano.
Juros mais altos encarecem a tomada de crédito pelas empresas para realizar novos investimentos.
"Existe
o receio de que a trajetória da dívida pública cause ainda mais
problemas", diz Considera. "Não cumprir o teto traz muita insegurança
para os investidores. E a situação do capital externo, que está mais
saindo do que entrando, pode se agravar ainda mais."
Investimentos estrangeiros no Brasil registram quedas em 2020
Há ainda uma agenda longa e já antiga de reformas estruturais que o
Brasil precisa endereçar, como a tributária, para melhorar o ambiente de
negócios. "As reformas são na direção de atrair investimentos. É
fundamental que sejam realizadas", afirma Considera.
Empresas endividadas
Além de provocar uma piora do cenário macro, a pandemia afetou a saúde financeira das maiores empresas do Brasil, com o aumento do endividamento, o que também se torna um empecilho para a retomada dos investimentos.
No primeiro semestre, a relação entre endividamento líquido sobre
capital próprio das companhias chegou a 73,5%, segundo levantamento do
Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Isso quer
dizer que, para cada R$ 1 em dinheiro dos sócios, as empresas têm quase
R$ 0,74 em financiamentos.
No primeiro semestre de 2019, essa relação era de 58,7%.
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Mais dívida — Foto: Economia G1
"Esse
é um quadro que dificulta muito o investimento. É preciso lembrar que
são duas crises próximas e que já houve um bom aumento do endividamento
das empresas na crise anterior" , afirma o economista-chefe do Iedi,
Rafael Cagnin. "A primeira onda de endividamento ainda não tinha sido
totalmente digerida pelas empresas."
O levantamento do Iedi foi realizado com 240 empresas não-financeiras
Influência dos juros e de leilões de infraestrutura
A retomada dos investimentos no país passa pelo cenário de juros baixos
- o que reforça a necessidade de acerto das contas públicas - e pela
retomada dos leilões de infraestrutura.
Na última recessão, entre o fim de 2014 e 2016, o cenário para a
melhora dos investimentos era considerado até mais difícil, avalia o
diretor do ASA Investments, Carlos Kawall. Naquela ocasião, os juros
estavam mais altos e a Operação Lava Jato provocava estragos econômicos
em boas parte das maiores construtoras do país.
"A taxa de juros a 2% está ajudando numa retomada imobiliária, por
exemplo", diz Kawall. "O financiamento imobiliário é um das poucas
modalidades (de crédito) que sofreu pouco ou quase não sofreu com a
crise e logo se recuperou."
Desde que assumiu, a equipe econômica sempre defendeu que a
participação da iniciativa privada deveria liderar a retomada dos
investimentos em infraestrutura no país. Mas, em quase dois anos, o
governo conseguiu tirar pouca coisa do papel.
Em janeiro deste ano, a equipe econômica esperava leiloar ao menos seis estatais.
"O
cenário é bom para a infraestrutura. A retomada dos leilões se dá em
outra base (em relação ao governo Dilma). Dessa vez, com a atratividade
adequada", afirma Kawall. "O único problema é que se trata de um
processo lento, na medida em que toda a parte regulatória é demorada."
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