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segunda-feira, 22 de junho de 2026

Esquerda x direita: veja como está o mapa da América do Sul após a eleição presidencial na Colômbia

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Vitória de Abelardo de la Espriella no domingo (21) mudou cenário político na Colômbia e deu à direita o 7º governo dos 12 países sul-americanos. Especialistas explicam cenário de instabilidade e polarização na região.
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Por Wesley Bischoff, g1 — São Paulo

Postado em 22 de Junho de 2.026 às 05h00m
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Abelardo de la Espriella vence as eleições presidenciais na Colômbia, aponta apuração preliminar

A vitória de Abelardo de la Espriella na eleição presidencial da Colômbia deu à direita a superioridade sobre a esquerda nos governos dos países da América do Sul.

▶️ Contexto: Abelardo de la Espriella, candidato considerado de extrema direita, foi declarado vencedor da eleição para presidente da Colômbia neste domingo (21), segundo apuração preliminar. Em uma votação apertada, o direitista foi eleito com 49,66% dos votos, contra 48,7% do esquerdista Iván Cepeda —uma margem de apenas 250 mil votos. O resultado final será divulgado nos próximos dias após apuração de todos os votos, em processo chamado "escrutínio".

Com a vitória de Espriella, a direita ultrapassou a esquerda nos governos da América do Sul, controlando sete dos 12 países sul-americanos.

A vitória marcou não apenas uma virada ideológica na Colômbia —já que o candidato do presidente esquerdista Gustavo Petro foi derrotado—, mas também uma consolidação do avanço da direita no continente, que saiu vitoriosa nas últimas três eleições presidenciais:

Veja no mapa abaixo como está a atual disposição entre direita e esquerda na América Latina.

Mapa mostra disposição entre países governados pela esquerda e pela direita na América Latina após eleição na Colômbia em junho de 2026. — Foto: Bruna Azevedo/Arte g1
Mapa mostra disposição entre países governados pela esquerda e pela direita na América Latina após eleição na Colômbia em junho de 2026. — Foto: Bruna Azevedo/Arte g1

O Peru aparece em cinza no mapa acima porque sua eleição se encontra no final da apuração, que já dura duas semanas. Apesar disso, ele é considerado o 7º país governado pela direita porque o governo que está deixando o poder é de Dina Baluarte, de direita, e a candidata direitista Keiko Fujimori está com 50,111% dos votos, 41 mil à frente do esquerdista Roberto Sánchez, com mais de 99,6% das urnas apuradas. Ou seja, a tendência política vai se manter.

Historicamente, as forças políticas da região alternam períodos de domínio. Apesar de a esquerda ter prevalecido no continente no início do século 21, com a chamada "onda rosa", a direita recuperou espaço nos últimos anos.

Nos últimos meses, a direita contou com a ajuda do Chile e da Bolívia para chegar a esse cenário a um equilíbrio de poderes. Após quase duas décadas no poder, a esquerda ficou de fora do segundo turno das eleições bolivianas. A vitória foi de Rodrigo Paz, em 19 de outubro.

Em entrevistas realizadas na época da eleição de Rodrigo Paz na Bolívia, o g1 ouviu especialistas para explicarem o cenário de instabilidade e polarização na região. Confira:

🔍 Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, explica que o continente viveu uma guinada conservadora após 2010, com o esgotamento do ciclo econômico iniciado com o boom global das commodities.

O que a gente tem agora é um continente que está bem dividido ideologicamente. O que chama atenção é termos um cenário internacional marcado por dificuldade de diálogo e cooperação de governos latino-americanos de diferentes orientações ideológicas.

🔍 Já Regiane Nitsch Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que a América Latina vive momentos pendulares na política. Segundo ela, a alternância ideológica é algo natural nas democracias, mas se torna delicada quando ocorre em contextos de fragilidade institucional.

"Existe um problema estrutural na América Latina por conta da nossa história, da nossa economia e do fato de vivermos com desigualdade e pobreza. Isso leva à descrença nas instituições democráticas. Essa alternância tão pendular, ela facilmente se move para governos autoritários."

Abelardo De La Espriella — Foto: Charlie Cordero/Reuters
Abelardo De La Espriella — Foto: Charlie Cordero/Reuters

Na história recente da América do Sul, forças de esquerda e direita têm se alternado no poder. Muitos países viveram ditaduras na segunda metade do século 20, como o Brasil. Na década de 1990, o cenário se inclinava para governos de perfil conservador, com agendas neoliberais.

🔴 Segundo o professor Maurício Santoro, o revezamento entre correntes ideológicas era raro nessa época, já que partidos mais progressistas tinham dificuldades para vencer eleições. O quadro começou a mudar no início dos anos 2000, com a chamada onda rosa.

  • O termo se popularizou após ser usado pelo jornalista Larry Rohter, do jornal americano The New York Times, depois da vitória de Tabaré Vázquez nas eleições de 2004 no Uruguai.
  • Naquele momento, havia um sentimento de mudança no continente, impulsionado pelo desejo de reduzir a pobreza e a desigualdade.
  • Os novos governos de esquerda chegaram ao poder durante a alta global das commodities, estimulada principalmente pela demanda da China.
  • Com o aumento das receitas, algumas gestões conseguiram investir em programas sociais e políticas de redistribuição de renda.

"Os produtos de exportação da América Latina, agrícolas ou minerais, estavam muito valorizados no mercado internacional. Isso deu muito dinheiro na mão dos governos, e alguns presidentes conseguiram usar esse dinheiro de uma maneira muito boa", afirma Santoro.

➡️ A professora Regiane Nitsch Bressan explica que, após a crise econômica mundial de 2008, as commodities começaram a perder valor, o que dificultou a permanência dos governos progressistas. Na década seguinte, o campo conservador voltou a ganhar espaço — movimento que também ocorreu em outras partes do mundo.

"A gente não pode deixar de observar que há uma grande força da direita, e isso não acontece só na nossa região. Esse movimento começa, eu diria, no Reino Unido, com o Brexit, que foi uma grande prova de que a esquerda estava perdendo espaço", diz.

"Depois, esse avanço se espalha para a Europa, chega aos Estados Unidos e, em seguida, à América Latina, onde ainda encontra muito espaço."

  • Em 2015, a América do Sul tinha oito governos alinhados à esquerda e quatro à direita.
  • Três anos depois, o cenário se inverteu, com avanço dos conservadores.
  • Essa tendência recuou a partir de 2020, após a pandemia.
  • A partir de 2026, seis países são governados por líderes de esquerda e seis pela direita.
Democracia e instabilidade
Manifestantes ateiam fogo em Tribunal Eleitoral de Sucre, na Bolívia, após denúncia de fraude na eleição presidencial de 2019 — Foto: Jose Luis Rodriguez/AFP
Manifestantes ateiam fogo em Tribunal Eleitoral de Sucre, na Bolívia, após denúncia de fraude na eleição presidencial de 2019 — Foto: Jose Luis Rodriguez/AFP

Mesmo com o avanço nas últimas décadas, a América do Sul ainda enfrenta desafios para consolidar as instituições democráticas. O índice de democracia do instituto sueco V-Dem mostra que a região passou por altos e baixos nos últimos 100 anos. Veja no gráfico mais abaixo.

😡 A professora Regiane Nitsch Bressan destaca que a instabilidade democrática na região tem raízes estruturais. Segundo ela, os problemas de desigualdade e pobreza são ameaças constantes por alimentarem a descrença nas instituições.

"O povo latino-americano, por estar cansado das instituições democráticas, é muito seduzido por governos populistas ou neopopulistas. Ou seja, aqueles governos que apresentam frases de efeito e dizem que vão resolver o problema a curto prazo", afirma. O fenômeno do avanço da extrema direita se repete em outras partes do mundo.

  • Discursos nesse sentido aparecem em líderes tanto de direita quanto de esquerda.
  • Como exemplo, a professora cita Hugo Chávez, ex-presidente da Venezuela, e Javier Milei, atual mandatário da Argentina.
  • Ainda segundo ela, pesquisas recentes mostram que parte da população latino-americana prefere governos que ofereçam soluções econômicas rápidas, mesmo que sejam autoritários.
  • Bressan avalia que o problema não está na ideologia política, mas no risco de surgimento de regimes autoritários.

Eu elejo um político de esquerda com esse discurso e ele não resolve o meu problema. Então vou lá e troco por um de direita. Essa alternância tão pendular facilmente se move para governos autoritários.

🤜 Também se somam a esse cenário outros desafios, como o confronto crônico entre Executivo e Legislativo — comum em regimes presidencialistas — e o uso político da Justiça em disputas de poder, o que enfraquece o Estado de Direito e esvazia as instituições.

O processo de redemocratização na América Latina ainda é muito jovem, e nós ainda não demos conta de fortalecer e consolidar as nossas instituições democráticas, afirma.

O cientista político Maurício Santoro complementa dizendo que, atualmente, um dos principais fatores de preocupação é a polarização. Segundo ele, lideranças de diferentes espectros ideológicos têm se tornado mais extremas em suas propostas e perdido a capacidade de diálogo. O Uruguai é exceção —onde direita e esquerda se revezam no poder sem presença de extremos.

A polarização regional está inviabilizando iniciativas de integração e respostas unificadas a desafios políticos e de segurança, como o avanço do crime organizado e até mesmo a longa crise venezuelana.

🌎 Santoro avalia ainda que a instabilidade política dos últimos anos na América do Sul faz parte de uma crise global mais ampla, que também afeta países da Europa, além dos Estados Unidos.

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domingo, 21 de junho de 2026

Governo investiga se sites pornôs impedem acesso de menores de idade

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Enner Valencia é o jogador mais ineficiente da Copa do Mundo 2026; veja o ranking

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Atacante do Equador perde caminhão de gols contra Curaçao e assume a ponta da lista
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Por Bruno Imaizumi e Roberto Maleson — Rio de Janeiro

Postado em 21 de Junho de 2.026 às 12h30m
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Enner Valencia perde gol na cara e Equador vai pro intervalo empatando com Curaçao
Enner Valencia perde gol na cara e Equador vai pro intervalo empatando com Curaçao

Enner Valencia assumiu a liderança do ranking de ineficiência da Copa do Mundo de 2026. No surpreendente empate em 0 a 0 com Curaçao, o centroavante do Equador finalizou seis vezes, mas não conseguiu superar o goleiro Room. A falta de pontaria nas conclusões fez ele se tornar o jogador com maior ineficiência nas finalizações de todo o Mundial.

O Gato Mestre* analisou todas as 843 finalizações da competição e elaborou a lista dos jogadores menos eficientes da disputa. Para determinar o "nível de ameaça" das jogadas concluídas por Enner Valencia, por exemplo, comparamos as características de suas finalizações com as de 843 feitas no torneio, uma métrica conhecida como "expectativa de gol" ou simplesmente "xG".

Um exemplo prático: o ex-atacante do Internacional fez cinco finalizações cara a cara com o goleiro adversário, lances em que a chance de fazer um gol é muito alta, mas nenhuma virou gol. É disso que se trata. Comparadas com todas as outras finalizações, é possível calcular qual o potencial de cada finalização virar gol. E nesse quesito, o equatoriano foi o mais ineficiente da competição.

Enner Valencia desperdiça chance cara a cara com o goleiro Room, de Curaçao — Foto: Scott Winters/Icon Sportswire via Getty Images
Enner Valencia desperdiça chance cara a cara com o goleiro Room, de Curaçao — Foto: Scott Winters/Icon Sportswire via Getty Images

No empate em 0 a 0 contra Curaçao, o goleiro Room foi o grande responsável por evitar que o Equador não saísse com a vitória. Ele fez 15 defesas na partida e bateu o recorde de defesas em um único jogo durante os 90 minutos na história da Copa do Mundo. Room ficou a uma defesa de superar o recorde histórico geral do americano Howard diante da Bélgica na Copa de 2014. A partida foi para a prorrogação e ele fez 16 defesas nos 120 minutos.

A expectativa de gols do Equador contra Curaçao indica que a seleção sul-americana deveria ter feito pelo menos dois gols, mas não conseguiu balançar a rede nenhuma vez.

Veja com mais detalhes na imagem abaixo:


xG do jogo do Equador indica que deveria ter feito pelo menos 2 gols — Foto: Gato Mestre/Bruno Imaizumi

Potencializado pela partida de ontem, o camisa 13 do Equador foi quem mais desperdiçou chances claras neste Mundial. Enner Valencia deveria já ter marcado pelo menos um gol, segundo a expectativa de gols em seus arremates.

Logo na primeira tentativa, na estreia contra Costa do Marfim, o centroavante do Pachuca finalizou dentro da área cara a cara com o goleiro Yahia Fofana e acertou a trave. Todas as demais finalizações do jogador foram de dentro da área.

Confira o ranking dos 10 jogadores mais ineficientes desta Copa do Mundo, segundo a expectativa de gols em suas finalizações:

Jogadores mais ineficientes da Copa do Mundo 2026

Jogador Finalizações xG Gol Eficiência (gols - xG)
Enner Valencia | Equador 7 1,454 0 -1,454
Tillman | Estados Unidos 5 1,019 0 -1,019
Buchanan | Canadá 4 0,879 0 -0,879
Ferran Torres | Espanha 4 0,853 0 -0,853
Éderson | Brasil 1 0,780 0 -0,780
Gül |Turquia 2 0,647 0 -0,647
Malen | Holanda 3 0,591 0 -0,591
Oluwaseyi | Canadá 3 0,591 0 -0,591
Son Heung-Min | Coreia do Sul 6 0,546 0 -0,546
Circati | Austrália 1 0,543 0 -0,543

O segundo jogador mais ineficiente da Copa do Mundo é o americano Tillman. O volante dos Estados Unidos finalizou cinco vezes até aqui no torneio. Uma de dentro da pequena área, com defesa difícil do goleiro paraguaio Gill e outra finalização cara a cara com o goleiro.

A expectativa era que ele fizesse ao menos um gol na competição até aqui, mas ele ainda não balançou as redes.

Aos 42 min do 1º tempo - chute de dentro da área defendido de Malik Tillman do Estados Unidos contra o Paraguai
Aos 42 min do 1º tempo - chute de dentro da área defendido de Malik Tillman do Estados Unidos contra o Paraguai

*Gato Mestre é formado pelos jornalistas Arthur Sandes, Davi Barros, Felipe Tavares, Guilherme Maniaudet, Gustavo Figueiredo, Leandro Silva, Lorrayne Vieira (estagiária), Roberto Maleson, Rodrigo Breves e Valmir Storti, pelos cientistas de dados Bruno Benício e Vitor Patalano e pelo programador Gusthavo Macedo.

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sábado, 20 de junho de 2026

Tarifaço de Trump: empresas dos EUA afirmam que Brasil é insubstituível e tentam barrar taxa de 25%

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Antes de audiência pública, companhias dos setores de mineração, madeira, construção e educação solicitaram isenções, argumentando que dependem de insumos vindos do mercado brasileiro.
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Por Micaela Santos, g1 — São Paulo

Postado em 20 de Junho de 2.026 às 07h00m
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Tarifa dos EUA contra Brasil é marcada por vaivém
Tarifa dos EUA contra Brasil é marcada por vaivém

Extraídas de minas brasileiras, pedras naturais como ametistas, ágatas e quartzos percorrem milhares de quilômetros até chegar aos Estados Unidos, onde são transformadas em itens de decoração, presentes e lembranças vendidos por atacadistas e varejistas.

Esse comércio, no entanto, pode ser afetado pela proposta do governo americano de novamente impor uma tarifa adicional sobre produtos brasileiros.

Por isso, até mesmo empresas americanas que dependem dessas importações passaram a pressionar Washington para retirar os produtos brasileiros da lista de sobretaxas. Elas argumentam que não há fornecedores em outros países capazes de substituir o Brasil em termos de qualidade, escala de produção e preço.

Entre essas empresas está a GeoCentral, atacadista sediada em Mason, no estado de Ohio, especializada em pedras, cristais e fósseis.

A companhia, controlada desde 2008 pela holding familiar CM Paula, pediu formalmente ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) que as pedras semipreciosas brasileiras sejam incluídas na lista de produtos isentos da medida.

Segundo a empresa, mais de 25% de todo o seu portfólio é importado do Brasil de estados como Minas Gerais e Rio Grande so Sul, incluindo a maior parte das pedras preciosas e semipreciosas comercializadas em diferentes formatos, de cristais soltos a produtos prontos para o varejo.

A GeoCentral não está sozinha. Ao menos outras 11 empresas e entidades setoriais enviaram manifestações ao USTR contestando a proposta de sobretaxa sobre mercadorias brasileiras.

Destas, pelo menos nove são companhias americanas. Em comum, elas afirmam que a medida aumentará custos, prejudicará suas operações e reduzirá a competitividade da indústria dos EUA.

‘Não existem alternativas equivalentes’

Minarais comercilizados pela GeoCentral: empresa pediu a inclusão de pedras naturais na lista de isenção do governo dos EUA — Foto: Divulgação
Minarais comercilizados pela GeoCentral: empresa pediu a inclusão de pedras naturais na lista de isenção do governo dos EUA — Foto: Divulgação

Em entrevista ao g1, o CEO da CM Paula, George White, afirmou que a empresa compra produtos brasileiros por necessidade, e não apenas por preferência.

Nós não compramos do Brasil simplesmente porque queremos. Compramos porque o país oferece a melhor combinação de qualidade e custo disponível no mundo.

Em 2025, as exportações brasileiras da categoria de pérolas e pedras preciosas ou semipreciosas, brutas ou trabalhadas, somaram cerca de US$ 45,6 milhões para os EUA. Quando se incluem joias e outros artigos de matérias preciosas ou semipreciosas, o valor supera US$ 71,8 milhões.

Segundo White, o Brasil possui uma infraestrutura mineradora difícil de ser replicada por outros países, com capacidade para extrair, cortar, polir e preparar pedras para comercialização em larga escala. Simplesmente não existem alternativas equivalentes em outros lugares, afirmou.

Em sua manifestação ao USTR, a CM Paula informou que cerca de 120 produtos comercializados pela GeoCentral seriam afetados pela tarifa e argumentou que eles não estão disponíveis em fontes alternativas com preços razoáveis, qualidade semelhante ou quantidade suficiente fora do Brasil.

Pedra ágata, importada do Brasil e vendida pela GeoCentral nos EUA — Foto: Divulgação
Pedra ágata, importada do Brasil e vendida pela GeoCentral nos EUA — Foto: Divulgação

Histórico de tarifas já afetou a empresa

White afirma que a empresa já sofreu impactos relevantes com o aumento das tarifas impostas anteriormente sobre importações brasileiras. Segundo o executivo, as sobretaxas obrigaram a companhia a reduzir despesas, demitir funcionários, diminuir investimentos em marketing e elevar preços praticados no atacado.

Parte desses valores começou a ser devolvida após decisões da Justiça americana que questionaram a legalidade de tarifas impostas pelo governo dos EUA com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). Com isso, várias cobranças foram suspensas ou passaram a ser questionadas judicialmente.

No Brasil, as sobretaxas impostas pelos EUA chegaram a 50% sobre parte dos produtos exportados em 2025.

Em 20 de novembro de 2025, porém, o presidente Donald Trump assinou um decreto que retirou a tarifa adicional de 40% aplicada a dezenas de produtos agrícolas e pecuários brasileiros, antes mesmo da decisão definitiva da Justiça americana sobre a legalidade das cobranças.

Posteriormente, após a Suprema Corte dos EUA considerar ilegais parte dessas sobretaxas, o governo americano passou a utilizar outros instrumentos legais para sustentar algumas cobranças, incluindo uma tarifa global de 10% sobre as importações.

Essa medida também foi contestada judicialmente, mas um tribunal federal de apelações decidiu mantê-la temporariamente em vigor enquanto analisa o recurso do governo.

De acordo com White, a empresa já recuperou cerca de 10% dos valores devidos e espera receber o restante até o fim deste ano ou no início do próximo. Ao todo, a companhia já apresentou 117 pedidos de restituição relacionados a importações provenientes do Brasil e da China.

Mesmo que a tarifa adicional de 25% seja implementada, a GeoCentral afirma que continuará comprando produtos brasileiros.

Continuaremos importando do Brasil. A única diferença é que teremos de arcar com custos maiores por causa das tarifas, disse White. Segundo o executivo, a companhia ainda não encontrou em outros países fornecedores capazes de substituir as pedras brasileiras. 
Empresas americanas recorrem ao USTR

A mobilização das empresas americanas ocorre após o USTR concluir uma investigação que acusa o governo brasileiro de adotar práticas que oneram ou restringemo comércio com os EUA, citando temas como o PIX, o combate ao desmatamento ilegal, a pirataria e a aplicação das leis anticorrupção.

Com base no relatório, o órgão propôs uma tarifa adicional de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros e abriu uma consulta pública para receber manifestações de empresas, associações e demais interessados.

O processo será concluído com uma audiência marcada para 6 de julho, quando representantes dos setores afetados poderão apresentar ao governo americano os impactos da medida.

  • 🔎 O número de empresas protestando só não é maior porque a proposta prevê uma longa lista de exceções. Devem ficar de fora da sobretaxa materiais informativos, doações e uma lista específica de produtos, que inclui itens como café, chá, determinadas carnes, frutas, minerais, cereais, sementes, frutos oleaginosos, plantas industriais e medicinais, além de palha e forragem. (veja a lista completa aqui)

Nas manifestações enviadas ao USTR, empresas dos setores de pisos, construção, mineração, educação e habitação sustentam que muitos produtos brasileiros não têm substitutos equivalentes no mercado americano e alertam que a tarifa aumentaria os custos para empresas e consumidores dos próprios EUA, sem fortalecer a produção doméstica.

O g1 localizou algumas delas nos pedidos de participação nas audiências públicas da investigação.

  • 🪵The Fantastic Floor: empresa do estado de Washington e especializada em pisos de madeira pediu a exclusão de espécies brasileiras como jatobá e cumaru da tarifa. Segundo a companhia, essas madeiras são nativas da América do Sul e não estão disponíveis comercialmente nos EUA.
  • 🪵Artivo Surfaces: importadora e distribuidora americana de revestimentos e pisos de madeira. Em manifestação ao USTR, afirmou que as madeiras brasileiras precisam ser processadas ainda na origem para preservar sua qualidade e que a sobretaxa não estimularia a produção doméstica. Aumentar a tarifa não beneficiará os fabricantes ou consumidores dos EUA, porque as matérias-primas são naturalmente indisponíveis e a qualidade do produto não pode ser replicada, disse.
  • 🪵Strong Flooring Solutions: empresa do setor de pisos que argumentou que não existem espécies americanas capazes de reproduzir a aparência das madeiras brasileiras. Para a companhia, consumidores interessados nesse tipo de produto não migrariam para alternativas nacionais simplesmente porque não há opção disponível.
  • 🪵Wood Timber Import: importadora de produtos de madeira que destacou a importância de molduras e componentes de construção fabricados no Brasil para o mercado imobiliário americano. Segundo a empresa, a produção doméstica não consegue atender à demanda em volume e qualidade suficientes, e novas tarifas apenas elevariam os custos dos projetos.
  • 💎JKG Inc. (Jessie Kan Granite): empresa americana distribuidora de placas de granito, mármore e quartzo, afirmou que os materiais brasileiros possuem características geológicas únicas. Em sua manifestação, alertou que a medida apenas encareceria obras e produtos finais: “Adicionar tarifas sobre pedras naturais do Brasil servirá apenas para elevar os custos de construção e aumentar os custos para os consumidores finais”.
  • 🏠Legacy Roots Housing Initiative (LRHI): organização voltada ao desenvolvimento de moradias modulares e projetos de infraestrutura habitacional nos EUA. A entidade afirmou que a tarifa sobre esses componentes criaria barreiras para pequenos incorporadores e atrasaria projetos de habitação.
  • 🦷 Lauria Dental Model: empresa americana que comercializa modelos odontológicos utilizados por universidades e cursos de formação profissional. A companhia pediu a exclusão desses produtos da medida, argumentando que eles são destinados exclusivamente ao ensino, não competem com dispositivos médicos fabricados nos EUA e que a sobretaxa apenas elevaria os custos da educação.

🌱 Entidades setoriais também entraram no debate. A American Seed Trade Association (ASTA), que representa a indústria de sementes dos EUA, pediu participação na audiência pública do USTR e defendeu que sementes para plantio sejam excluídas da tarifa proposta sobre produtos brasileiros.

Segundo a associação, a implementação da nova taxa prejudicaria a competitividade do setor americano e afetaria cadeias globais de suprimento essenciais para a inovação agrícola.

Brasil aposta em negociação antes da decisão final

Após o prazo para envio de manifestações por escrito, que se encerra em 1º de julho, e da audiência pública marcada para 6 de julho, o governo dos EUA deverá analisar as contribuições recebidas antes de tomar a decisão final.

A expectativa é que o processo seja concluído até 15 de julho, data prevista para eventual implementação das novas tarifas.

Segundo o Itamaraty, o Brasil tem atuado em duas frentes para tentar reverter a proposta: a contestação técnica da investigação conduzida pelo USTR e a negociação diplomática com Washington.

O governo brasileiro afirma já ter enviado manifestações formais ao órgão americano e estuda apresentar uma nova contribuição durante o período de consultas.

Em paralelo, o tema pode ganhar espaço na agenda política internacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da cúpula do G7, na França, e o governo brasileiro trabalha com a possibilidade de um encontro com o presidente Donald Trump, embora não haja reunião bilateral oficialmente marcada.

Nos bastidores, a avaliação é que a proposta de sobretaxa de 25% ainda pode ser negociada antes da conclusão do processo conduzido pelo USTR.

Câmara Americana de Comércio intensifica articulação

Ao g1, a Amcham Brasil, entidade que representa empresas e as relações comerciais entre Brasil e EUA, afirmou que acompanha de perto a investigação conduzida pelo governo americano e defende uma saída negociada para o impasse.

A entidade informou que vem mantendo conversas com autoridades brasileiras e americanas sobre o tema. Segundo a Amcham, foi realizada uma reunião em 15 de junho, em São Paulo, com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e representantes de cerca de 15 empresas.

No encontro, foram discutidos os possíveis impactos da imposição de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros.

A Amcham também disse que participou da consulta pública e da audiência promovidas pelo governo dos EUA e prepara uma nova manifestação à USTR.

O documento deve destacar os efeitos das sobretaxas sobre as cadeias de suprimentos, a produção e o consumo no mercado americano, além do papel do Brasil como fornecedor estratégico e do risco de que esses produtos sejam substituídos por concorrentes de outras regiões, especialmente da Ásia.

"Brasil e Estados Unidos possuem uma relação econômica altamente complementar e estratégica", afirmou a entidade, em nota. Por isso, acrescentou, "segue trabalhando para que eventuais divergências sejam tratadas por meio do diálogo e da cooperação, preservando o comércio, os investimentos e a competitividade das empresas dos dois países".

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