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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Da praia à pista de skate: reciclagem de bitucas de cigarro faz lixo virar negócio de R$ 3 milhões

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Empresa criada em Ubatuba investe em tecnologia para transformar um dos resíduos mais poluentes do mundo em matéria-prima e faturamento dentro da economia circular.
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Por PEGN

Postado em 03 de Fevereiro de 2.026 às 06h00m
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Como a reciclagem de bitucas de cigarro virou um negócio milionário no litoral de São Paulo
Como a reciclagem de bitucas de cigarro virou um negócio milionário no litoral de São Paulo

Pequenas, quase invisíveis na areia ou no asfalto, as bitucas de cigarro estão entre os resíduos mais comuns — e mais poluentes — do mundo.

No litoral norte de São Paulo, um empreendedor decidiu olhar para esse problema de outra forma: transformando o descarte em matéria-prima, inovação e negócio.

Em Ubatuba, Marcos Poiato comanda uma empresa especializada na reciclagem de bitucas de cigarro.

O projeto começou há cerca de 16 anos, depois de muita pesquisa e investimento, e hoje alia sustentabilidade, educação ambiental e geração de renda.

Eu descrevo a minha empresa como uma empresa de conceito inovador. A gente trabalha com um resíduo que é complexo e que, por hábito, as pessoas descartam indevidamente no chão, explica Marcos.

Como a reciclagem de bitucas de cigarro virou um negócio milionário no litoral de São Paulo — Foto: Reprodução/PEGN
Como a reciclagem de bitucas de cigarro virou um negócio milionário no litoral de São Paulo — Foto: Reprodução/PEGN

As bitucas podem levar até 15 anos para se decompor e, nesse período, liberam substâncias tóxicas que contaminam o solo, a água e afetam a vida marinha.

Com experiência anterior na indústria farmacêutica, Marcos percebeu que poderia aplicar conhecimento técnico para enfrentar o problema ambiental.

O primeiro desafio foi a coleta. O empreendedor começou instalando cerca de 150 coletores na cidade onde o projeto teve início.

Hoje, a rede cresceu: são cerca de 9 mil pontos de coleta espalhados por diferentes estados brasileiros, muitos deles em praias, espaços públicos e áreas de grande circulação. Mas recolher era só o começo. A grande pergunta era como tratar o material.

A resposta veio após Marcos conhecer uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Brasília (UNB), que resultou em uma tecnologia capaz de eliminar as toxinas presentes nas bitucas e reaproveitar o resíduo com segurança.

Foi quando fechamos o ciclo, resume Thérèse Hofmann, pesquisadora da Universidade de Brasília (UNB), ao explicar a parceria de licenciamento da tecnologia.

Como a reciclagem de bitucas de cigarro virou um negócio milionário no litoral de São Paulo — Foto: Reprodução/PEGN
Como a reciclagem de bitucas de cigarro virou um negócio milionário no litoral de São Paulo — Foto: Reprodução/PEGN

Entre o desenvolvimento do processo e a viabilização do negócio, Marcos investiu cerca de R$ 1 milhão ao longo de seis anos. O esforço deu resultado. Em 2025, a empresa faturou aproximadamente R$ 3 milhões.

Depois de tratadas, as bitucas se transformam em uma massa de celulose — um material versátil, sem odor e livre de toxinas. Aqui é o resultado da reciclagem. A bituca deixa de ser um plástico poluente e vira celulose, pronta para ser reaproveitada, explica o empreendedor.

Essa massa é destinada a artesãos, artistas e projetos sociais, que usam o material para criar produtos e gerar renda.

Também ganha aplicações menos óbvias, como na construção civil. Em Ubatuba, uma pista de skate sustentável foi construída com a celulose reciclada misturada ao concreto.

O custo final da pista caiu entre 30% e 40%, e ainda reduzimos o impacto ambiental, conta o pesquisador e skatista George Rotatori, que acompanha o desempenho do material. É incrível andar de skate sabendo que aquilo poderia estar poluindo praias, ruas e bueiros.

Como a reciclagem de bitucas de cigarro virou um negócio milionário no litoral de São Paulo — Foto: Reprodução/PEGN
Como a reciclagem de bitucas de cigarro virou um negócio milionário no litoral de São Paulo — Foto: Reprodução/PEGN

Além da reciclagem, a empresa investe em educação ambiental. Em parceria com prefeituras, ONGs e associações de bairro, promove palestras, oficinas de arte e ações educativas para conscientizar a população sobre o descarte correto das bitucas.

Para a bióloga e educadora Paula Borges, o projeto une sustentabilidade e economia de forma prática. Quando a gente transforma um resíduo tão poluente em matéria-prima, reduz custos, gera trabalho e cria produtos, estamos falando de sustentabilidade real, afirma.

Para Marcos, os resultados são fruto de persistência. Alguns negócios demoram um, dois anos para vingar. O nosso demorou mais. Mas tivemos resiliência, calma e a certeza de que o resultado viria, diz. Talvez muita coisa ainda aconteça depois de mim, mas eu sei que o caminho já está trilhado. 

POIATO RECICLA LTDA.
  • 📍Rua Domingos Arruda Ferraz, 51 - Parque Jataí - Votorantim /SP - CEP: 18.117-236
  • 📞Telefone: (15) 3242-6140
  • 📧Email: contato@poiatorecicla.com.br
  • 🌐Site: www.poiatorecicla.com.br
  • 📸Instagram: https://www.instagram.com/poiatorecicla/

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Índia firma acordo comercial com EUA uma semana depois de fechar com Europa Detalhes ainda não estão claros, mas pivô em direção aos europeus pode ter servido de incentivo para Trump

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Detalhes ainda não estão claros, mas pivô em direção aos europeus pode ter servido de incentivo para Trump
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Blog
Lourival Sant'Anna
Analista de Internacional. Fez reportagens em 80 países, incluindo 15 coberturas de conflitos armados, ao longo de mais de 30 anos de carreira. É mestre em jornalismo pela USP e autor de 4 livros
02/02/26 às 22:25 | Atualizado 02/02/26 às 22:25
Postado em 03 de Fevereiro de 2.026 às 05h00m
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Como todo acordo anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o dessa segunda-feira (2), entre ele e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, é vago e repleto de incertezas.

Mesmo assim, é um acordo muito importante, e revelador das táticas de Trump, para ser ignorado.

Trump escreveu em sua rede social, Truth Social, que Modi concordou em por fim à importação de petróleo da Rússia, que havia motivado a imposição de uma alíquota adicional de 25% sobre os produtos indianos, além dos 25% em tarifa recíproca.

Por sua vez, em sua postagem na rede X, o primeiro-ministro indiano não fez referência a esse compromisso.

Ele confirmou que a tarifa americana para produtos indianos passa a ser de 18%, mas não fez menção à alíquota zero sobre todos os produtos americanos, anunciada por Trump.

Modi também não citou o compromisso de “comprar produtos americanos a um nível muito mais alto, além de mais de US$ 500 bilhões em energia, tecnologia, produtos agrícolas, carvão e muitos outros”.

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Mas o aspecto mais revelador do acordo é que ele foi firmado apenas seis dias depois do anúncio do acordo de livre comércio entre Índia e União Europeia, ao fim de duas décadas de negociações.

O incentivo para ambas as partes foi precisamente a postura predatória de Trump no comércio e de abandono de compromissos na área de defesa.

Além da eliminação de tarifas, o acordo com os europeus tem também um componente cooperação na área militar.

Mais da metade do arsenal indiano é de origem russa, e o país se vê pressionado pelo crescente fornecimento de armas da China para o Paquistão, com o qual mantém disputas territoriais que levam a conflitos armados periódicos.

Trump por sinal alega ter mediado a solução do último, travado entre 7 e 10 de maio do ano passado.

A Índia é um dos países mais protecionistas do mundo. A aceitação de alíquota zero para os produtos americanos seria uma mudança muito significativa de política por parte de Nova Délhi.

Entre janeiro e novembro do ano passado, a Índia exportou US$ 95 bilhões para os EUA e importou apenas US$ 42 bilhões.

Importação de petróleo

A eliminação de toda a importação do petróleo russo também seria a renúncia a um negócio altamente lucrativo. Em novembro, a Índia importou 1,7 milhão de barris de petróleo russo.

Em dezembro, esse volume caiu para 1,2 milhão. Isso representa entre 30% e 40% das importações de petróleo pela Índia.

Desde a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2002, e consequente imposição de sanções pela Europa e Estados Unidos, a Índia e a China – que por sinal nunca foi sequer ameaçada de tarifas por esse motivo por Trump – se beneficiam da compra de petróleo russo a descontos de US$ 6 a US$ 8 por barril.

O petróleo é refinado na Índia; parte é consumida por seu mercado interno e a outra parte, vendida para a Europa. Recentemente os governos europeus se deram conta de que estavam indiretamente violando suas sanções contra a Rússia por meio desse triângulo com a Índia, e estão fechando essa brecha.

Por esse prisma talvez já tivesse se tornado mais interessante para a Índia oferecer essa concessão a Trump, em troca da eliminação da tarifa adicional e redução da alíquota “recíproca”.

Quanto a Trump, ele nunca perde a oportunidade de anunciar um bom negócio, mesmo se os detalhes não forem exatamente como ele diz.

CNN Brasil
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Polilaminina: a molécula descoberta no Brasil 'por acaso' que virou esperança para reverter lesões na medula

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Molécula desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é estudada há 28 anos e entrará na fase inicial para estudos clínicos ainda em 2026.
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TOPO
Por BBC

Postado em 02 de Fevereiro de 2.026 às 18h00m
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A polilaminina é uma versão modificada da laminina, proteína produzida pelo corpo humano — Foto: Cristália/Via BBC
A polilaminina é uma versão modificada da laminina, proteína produzida pelo corpo humano — Foto: Cristália/Via BBC

Uma substância estudada há quase três décadas no Brasil surge como uma nova esperança para vítimas de lesões na medula — embora ainda esteja nas fases iniciais dos testes clínicos.

Trata-se da polilaminina, versão derivada da laminina — uma proteína produzida naturalmente pelo nosso corpo — e que foi desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

No início deste ano, o medicamento foi autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a iniciar a fase 1 de estudos clínicos.

Essa é a primeira etapa necessária para avaliar com rigor uma substância antes que ela possa ser comercializada no país. Ainda será preciso passar por outras duas fases para avaliar a segurança e a eficácia da molécula, algo que pode levar alguns anos.

A autorização para o início dos testes é considerada um marco para pesquisadores que investigam a molécula há muitos anos e têm obtido resultados promissores em modelos experimentais para tratar lesões medulares.

"Neste momento, não tenho certeza absoluta ainda que estaremos diante de algo espetacular, mas isso é possível", destaca a professora e pesquisadora Tatiana Sampaio, que lidera as pesquisas na UFRJ.

Apesar de ainda estar longe de ter uma autorização para ser comercializada e usada em tratamentos, pessoas com diferentes tipos de lesão na medula têm obtido acesso ao tratamento por meio de liminares expedidas pela Justiça e têm relatado bons resultados.

Um caso recente foi o da nutricionista Flávia Bueno, de 35 anos, que ficou tetraplégica após sofrer um acidente ao mergulhar no mar nos primeiros dias do ano. Após a aplicação da proteína, em 23 de janeiro, no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde ela está internada, a nutricionista voltou a mexer o braço direito, segundo sua família.

Para Sampaio, do ponto de vista científico, o uso de um tratamento experimental dessa forma é "errado", embora a pesquisadora ressalte que há aspectos humanos que devem serem considerados para um juiz tome uma decisão sobre determinado caso, como a gravidade da lesão e a qualidade de vida do paciente.

Lesões medulares geralmente acontecem após acidentes, como quedas ou batidas de carro e moto, ou episódios de violência com armas brancas ou armas de fogo.

Existem ainda outras condições que podem danificar a medula, como doenças infecciosas e autoimunes.

Pacientes com lesões na medula recuperam movimentos com tratamento brasileiro em fase experimental
Pacientes com lesões na medula recuperam movimentos com tratamento brasileiro em fase experimental

A depender do lugar da medula e da gravidade da lesão, as consequências são bem graves e podem levar à paraplegia (paralisia dos membros inferiores) ou tetraplegia (paralisia de braços e pernas).

Nos casos mais sérios, quando acontece a lesão completa da medula, cirurgia e programas de reabilitação até podem ajudar, mas não existe nenhum tratamento disponível para recuperar plenamente os movimentos.

É nesse contexto que a expectativa em torno da polilaminina vem crescendo.

No ano passado, a equipe de Sampaio divulgou os resultados de um estudo preliminar — que não teve revisão por pares, ou especialistas independentes — com oito pacientes.

Nos testes, conduzidos pela UFRJ em parceria com a farmacêutica Cristália, a substância foi aplicada diretamente na medula espinhal durante uma cirurgia e apresentou resultados variados.

Alguns pacientes tiveram alguma evolução, enquanto outros apresentaram recuperação significativa dos movimentos — um efeito considerado "sem precedentes" pelos autores.

O que é a polilaminina e como ela funciona?

A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, uma proteína produzida pelo nosso corpo, principalmente na placenta.

Ela é muito presente durante a formação e o desenvolvimento do embrião, onde exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular.

Segundo Sampaio, a laminina é uma proteína muito "potente" e desempenha diversas funções importantes no sistema nervoso, "dentre elas fazer o crescimento dos axônios, a parte do neurônio que é rompida em uma lesão medular".

Como um complexo de moléculas de laminina, a polilaminina funcionaria como uma espécie de andaime, ao oferecer suporte para que células nervosas da medula lesionada reconstruam os axônios — um mecanismo que foi observado em modelos experimentais.

"Você tem uma proteína que já é muito poderosa, e temos ela agora em uma forma, vamos dizer assim, melhorada em laboratório", descreve Sampaio.

Rogério Almeida, vice-presidente de Pesquisa e Desenvolvimento da farmacêutica Cristália — que trabalha junto com a UFRJ na produção do medicamento —, explica que a polilaminina não é uma proteína recombinante, ou seja, feita 100% em laboratório.

Para obter a proteína em sua forma mais próxima da estrutura humana, ela é extraída da placenta, um material naturalmente rico em laminina.

Segundo Almeida, esse processo é feito por meio de parcerias da Cristália com alguns hospitais do interior de São Paulo, onde gestantes são convidadas a doar a placenta, material que geralmente é descartado após o parto.

"Durante o pré-natal, a gente apresenta um projeto para essas parturientes, e elas se dispõem a doar a placenta. A gente acompanha a saúde dessas mulheres para entender que a placenta que elas vão doar é saudável, para garantir que não vou trazer nenhum vírus dessas doadoras para o produto final."

A partir daí, inicia-se o processo de extração e purificação da laminina, separando-a de outras proteínas presentes na placenta.

Esse produto final purificado vai ser usado para produzir a polilaminina, um processo que, segundo Almeida, só acontece no centro cirúrgico, no momento da aplicação na medula do paciente.

"São enviados dois frascos para o centro cirúrgico. Daí o médico mistura o diluente com a laminina."

Segundo o especialista, isso permite que as lamininas se organizem e formem uma espécie de "rede" no local onde elas serão aplicadas — geralmente no trecho acima e abaixo de onde ocorreu a lesão na medula.

A descoberta da molécula

O estudo da polaliminina começou meio por acaso.

Anos atrás, um pesquisador da UFRJ comprou a laminina para um experimento, mas acabou não usando a proteína.

Sampaio se interessou pelo material e começou a fazer testes, sem imaginar, naquele momento, o potencial da substância que ela iria encontrar para tratamento de lesões medulares.

"A princípio, eu não sabia nem para que servia aquilo. Eu não estava procurando um medicamento para lesão medular e aí encontrei a polilaminina. Foi o contrário: eu tinha uma coisa chamada polilaminina, que nós que demos o nome, que era um complexo de moléculas da laminina", explica.

À época, já se sabia que a laminina desempenha um papel fundamental no crescimento dos axônios — estruturas que são rompidas em uma lesão medular.

A conexão parecia clara. "Nós pensamos que [esse composto] poderia ser usado como medicamento, assumindo que ele seria mais potente, mais estável", conta Sampaio.

A partir dessa hipótese, a equipe passou a testar a polilaminina primeiro em células isoladas e, depois, em diferentes modelos de trauma medular em ratos.

Segundo a bióloga, os resultados se repetiam de forma consistente.

"Sempre funcionava. Independentemente do tipo de lesão, os axônios voltavam a crescer. Foi isso que nos deu confiança para seguir adiante", afirma ela.

Questionada pela BBC News Brasil se esses resultados preliminares causaram surpresa, a pesquisadora disse que não.

"O esperado é que a polilaminina funcione. Na verdade, nossa surpresa é que sempre imaginamos que algo vai dar errado, que é tudo muito bom para ser verdade", confessa ela.

Evidências até o momento

Uma das pesquisas conduzidas pela UFRJ envolveu um grupo de oito pacientes com lesões medulares completas, classificadas como tipo A — casos em que a recuperação espontânea dos movimentos é rara.

As lesões medulares são classificadas segundo o local, ou a altura, que elas aconteceram, e também de acordo com a gravidade, numa escala que vai de A (a mais grave e com maior número de complicações) até E (seriedade menor e maiores perspectivas de recuperação plena).

Segundo médicos consultados pela BBC News Brasil, é normal que um paciente receba uma classificação logo após a lesão — quando o trauma, o edema e o inchaço ainda são volumosos — e isso se modifique para melhor com o passar do tempo.

Ou seja: um paciente pode ser classificado com uma lesão B no início, mas, com os cuidados hospitalares, isso evolua positivamente para um C, por exemplo.

No estudo experimental com a polilaminina, metade dos voluntários tinha lesões na região cervical (mais perto do pescoço) e a outra metade na região torácica (na região do tórax), grupo que, segundo Sampaio, apresenta perspectivas ainda mais limitadas de evolução segundo as evidências e o histórico de casos.

Eles receberam a aplicação da polilaminina em caráter experimental, em uma espécie de teste-piloto.

O estudo foi realizado em ambiente universitário, em parceria com a Cristália, e utilizou dados históricos amplamente documentados na literatura como referência, para comparar a evolução esperada entre esses pacientes.

"A gente não precisou ter dois grupos, um de pacientes tratados e um de controle, que não faria o tratamento, para comparar os resultados. Pudemos aproveitar que existe um 'grupo de controle universal' e fazer um estudo clínico com um grupo único", explica a pesquisadora Tatiana Sampaio.

Durante o estudo, dois pacientes morreram em decorrência da lesão, mas os outros seis recuperaram o controle dos movimentos.

O resultado indicou uma taxa de 75% de recuperação de movimentos — um percentual muito superior aos 15% observados em dados históricos da literatura científica que acompanharam pacientes com lesões semelhantes, que fizeram intervenções como cirurgias para descomprimir a coluna, sessões de fisioterapia e medicações para lidar com a dor e a inflamação.

Vale lembrar que essa pesquisa foi divulgada como um pré-print — tipo de artigo que não recebeu uma avaliação de especialistas independentes, que não estavam envolvidos com a pesquisa.

Sampaio ainda pondera que o estudo ainda não reúne todas as características necessárias para afirmar a eficácia da polilaminina, mas a diferença observada sugere a existência de um resultado promissor.

"Acho que o valor dessa diferença [de 15% para 75%] que nós conseguimos encontrar foi grande o suficiente para convencer pelo senso comum", afirmou.

Além disso, um dos seis pacientes recuperou os movimentos, apresentando uma melhora considerada "extraordinária" pelos pesquisadores.

Segundo Sampaio, esse paciente ficou em um hospital de excelência e recebeu mais estímulos durante o tratamento, o que pode ajudar a explicar a diferença no resultado.

"A regeneração que esperamos com o tratamento significa que um axônio, que é a parte do neurônio que foi rompida, vai crescer em um ambiente inóspito. Não basta que ele readquira o potencial de crescimento, é importante essa estrutura 'saiba' para onde ir e seja estimulado para isso", diz a pesquisadora.

"Em outras palavras, quero dizer que a fisioterapia é absolutamente essencial, porque esses axônios têm que ser instruídos. Eles têm que saber o que eles vão fazer e para onde eles vão. Então você precisa de estimulação pelo próprio exercício."

O que acontece a partir de agora

A partir dessas evidências, a Anvisa e o Ministério da Saúde aprovaram o início de estudos clínicos de fase 1 com a polilaminina.

Essa fase vai avaliar a segurança da substância em cinco pacientes, para conferir se a aplicação é bem tolerada e não provoca efeitos colaterais graves.

Sampaio explica que todos os cinco pacientes terão o tipo mais severo de lesão medular, a lesão modular completa, e na região torácica. A injeção da substância deverá ocorrer em até 72 horas após o acidente.

"A maioria dos pacientes que sofrem uma lesão medular tem necessidade de uma abordagem cirúrgica de emergência, então, a aplicação é feita nesse momento", destacou.

O estudo será conduzido em parceria com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, instituições que contam com cirurgiões treinados para a aplicação da substância.

Já a etapa de reabilitação contará com o apoio da AACD, organização sem fins lucrativos dedicada ao tratamento de pessoas com mobilidade reduzida permanente ou temporária.

A previsão é que essa etapa seja concluída em cerca de um ano. Se os resultados forem considerados positivos, o estudo avança para a fase 2, cujo objetivo é determinar a eficácia do tratamento.

Em seguida, uma eventual fase 3 combina análises de segurança e eficácia, com ainda mais rigor.

Somente após concluir esse processo, a Anvisa poderá avaliar a aprovação da polilaminina como tratamento para todos os pacientes que se encaixarem no perfil avaliado.

Segundo Rogério Almeida, da Cristália, a ideia é concluir a fase 1 até o fim deste ano e evitar que cada etapa ultrapasse um ano de duração.

"Agora, precisamos gerar os dados clínicos, em seres humanos, dentro de todo o rigor regulatório que um estudo para registro de produto pede", diz Almeida.

"Se tudo correr bem, em 2028, a gente conseguiria submeter o pedido de registro definitivo."

Uso experimental por meio de liminares

Mesmo sem autorização para comercialização, e ainda em uma fase inicial de pesquisas, a polilaminina tem levado pessoas, com diferentes tipos de lesão medular, a entrar na Justiça para obter acesso ao tratamento por meio de liminares.

Para Sampaio, do ponto de vista científico, o uso de um tratamento experimental dessa forma é "errado, inadequado e impróprio"

"É errado do ponto de vista ético, porque a pessoa está fazendo uso de um tratamento experimental sem os resultados, sem que haja garantia de coleta de dados a partir desse uso", avalia ela.

"Imagina se tiver um efeito adverso que acontece uma em cada cem pessoas. Ele ainda pode aparecer e a gente talvez não fique sabendo", complementa a cientista.

Ao mesmo tempo, Sampaio destaca que é preciso também considerar o aspecto humano de uma situação dessas.

"Eu sou uma pessoa. Então, quando estou diante de um indivíduo que diz para mim: 'Meu parente não tem nenhuma perspectiva de melhora. Tem uma lesão muito alta, vai ter uma qualidade de vida péssima. Me ajuda, por favor.'"

"E ela me pergunta: 'Você acha que pode funcionar?' Eu respondo: 'Sim, acho.' E aí eu ajudo", declarou ela.

"Felizmente, eu não posso tomar essa decisão, mas um juiz pode."

Para a médica fisiatra Ana Rita Donati, que não esteve envolvida diretamente nas pesquisas com a polilaminina, ainda é cedo para qualquer uso amplo ou fora de protocolos de pesquisa.

Ela pondera que é fundamental ter cautela, especialmente porque há casos de lesão medular em que o paciente pode apresentar melhora, mesmo sem o uso de novos remédios.

"A gente sempre tem que ter muita atenção quando fala em recuperação neurológica, porque já se espera algum grau de melhora mesmo sem a introdução de um medicamento novo", explica a médica, que trabalha na AACD.

A médica reconhece a urgência sentida por quem está diante de uma lesão medular, mas lembra que avanços terapêuticos em outras áreas seguiram caminhos longos até chegar ao uso na prática clínica.

"A gente fica com expectativa, né? A gente quer dar a melhor condição para o paciente", admite a especialista.

"Mas, nessas horas, a gente que tem o conhecimento, tem que ter mais tranquilidade para falar: 'Calma, vamos respirar. Vamos ver como vai o desenrolar disso'", prossegue.

"Vamos ainda precisar de um bom tempo para tentar entender. E um bom número de pacientes também, para a gente conseguir chegar a algumas conclusões [sobre a polilaminina]."

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