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sábado, 17 de outubro de 2026

Por que pessoas ainda procuram a Arca de Noé em uma formação rochosa natural na Turquia

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Especialista em cristianismo primitivo explica como uma formação conhecida como Durupınar, a apenas alguns quilômetros da fronteira com o Irã, vem sendo associada à Arca de Noé há quase 70 anos
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TOPO
Por The Conversation Brasil

Postado em 17 de Outubro de 2.026 às 10h00m
 
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Algumas pessoas acreditam que a formação de Durupınar seja os restos fossilizados da Arca de Noé, mas todos estudos feitos até agora indicam ser proveniente de processos geológicos naturais — Foto: Mfikretyilmaz via Wikimedia Commons, CC BY
Algumas pessoas acreditam que a formação de Durupınar seja os restos fossilizados da Arca de Noé, mas todos estudos feitos até agora indicam ser proveniente de processos geológicos naturais — Foto: Mfikretyilmaz via Wikimedia Commons, CC BY

Uma equipe de pesquisadores da Universidade Cumhuriyet de Sivas na Turquia está investigando uma alegação de longa data: de que uma formação geológica em forma de barco, localizada no leste do país, conteria os restos da Arca de Noé.

No livro bíblico do Gênesis, Deus decide destruir o mundo com um dilúvio. Seguindo as instruções de Deus, Noé constrói uma arca – uma grande embarcação de madeira – para salvar a si mesmo, sua família e animais de todos os tipos.

A formação em questão, conhecida como Durupınar, vem sendo associada à Arca de Noé há quase 70 anos. Mas essa nova equipe de pesquisa chamou a atenção das redes sociais por meio de uma parceria com uma organização cristã sediada nos Estados Unidos chamada Noah’s Ark Scans. Esse grupo vem promovendo Durupınar como o local de repouso da Arca de Noé desde pelo menos 2021.

Durupınar é uma formação geológica natural composta por material sedimentar rico em óxidos de ferro. Está localizada perto da cidade de Doğubayazıt, a apenas alguns quilômetros da fronteira com o Irã.

Declarações oficiais dos pesquisadores envolvidos no projeto afirmam que as análises laboratoriais ainda estão em andamento. Os pesquisadores, no entanto, descreveram algumas descobertas preliminares como potencialmente consistentes com uma estrutura semelhante a um navio, enquanto afirmações que circulam nas redes sociais têm sido mais categóricas, alegando que as imagens de varredura confirmaram que a formação é de origem humana e “100% não geológica”.

Afirmações de que a formação é de origem humana também apareceram na cobertura do caso pela imprensa britânica e americana.

Como estudioso do cristianismo primitivo, estudo textos bíblicos e sua interpretação. Certas alegações sobre a formação de Durupınar vêm circulando há décadas e oferecem uma oportunidade de examinar como as pessoas leem e interpretam a história bíblica do dilúvio.

Para compreender as alegações atuais, no entanto, é útil perguntar em primeiro lugar como essa formação passou a ser associada à Arca de Noé.

Uma forma de barco no leste da Turquia

A formação de Durupınar leva o nome do capitão do Exército turco İlhan Durupınar, que percebeu a forma semelhante a um barco ao examinar fotografias aéreas da região em 1959. Devido à sua proximidade com um pico conhecido desde a Idade Média como Monte Ararat, que, segundo o relato do dilúvio do Gênesis, é o local onde a Arca de Noé veio a repousar, Durupınar questionou se essa formação poderia ser os restos petrificados da arca, preservados na paisagem ao longo do tempo.

No ano seguinte, Durupınar juntou-se a uma equipe patrocinada pela Fundação de Pesquisa Arqueológica dos Estados Unidos em uma expedição ao local. Liderada por George Vandeman, um evangelista televisivo, e Arthur Brandenberger, um especialista que utilizava fotografias aéreas para medir e mapear a paisagem, a equipe viajou até o local com o objetivo explícito de confirmar se se tratava, de fato, dos restos petrificados da lendária Arca de Noé.

A expedição foi tema de um breve artigo na edição de 5 de setembro de 1960 da revista LIFE. O artigo observou que, embora um integrante da expedição permanecesse cético quanto à possibilidade de a natureza, por si só, ser responsável por uma forma como essa, as pesquisas realizadas acabaram por “não revelar nenhum indício de que o objeto fosse de origem humana”. A expedição, portanto, concluiu que se tratava de uma formação geológica natural. Em outras palavras, não eram os restos petrificados da Arca de Noé bíblica.

Como Durupınar se tornou a Arca de Noé

Após a expedição de 1960, o interesse por Durupınar diminuiu, e o caso foi ignorado por um tempo. O local, porém, voltou a chamar a atenção do público no final da década de 1970, quando Ron Wyatt, um enfermeiro anestesista e arqueólogo amador, inspirado pelo artigo da LIFE, viajou para Durupınar para investigar por conta própria.

Enquanto estava no local, Wyatt realizou uma série de testes e acabou afirmando que a formação era, na verdade, os restos da Arca de Noé. Ele argumentou que o radar e outras varreduras mostravam evidências de paredes, conveses, madeira petrificada, acessórios de metal e outros materiais que se poderia esperar encontrar nas ruínas de um navio de madeira. Wyatt também ficou intrigado com grandes pedras próximas ao local, que, segundo ele, teriam sido penduradas no barco para mantê-lo estável enquanto estava flutuando.

Inicialmente, Wyatt conseguiu convencer outro arqueólogo amador dos EUA, David Fasold, de que suas alegações eram verdadeiras. De fato, em 1988, Fasold publicou um livro no qual argumentava que a formação de Durupınar era a Arca de Noé.

Ilustração da Arca de Noé no Monte Ararat, feita pelo pintor flamenco Simon de Myle. — Foto: Sotheby's Paris, 23 de junho de 2011 via Wikimedia Commons
Ilustração da Arca de Noé no Monte Ararat, feita pelo pintor flamenco Simon de Myle. — Foto: Sotheby's Paris, 23 de junho de 2011 via Wikimedia Commons

O entusiasmo de Fasold pelo local, no entanto, durou relativamente pouco, e menos de 10 anos após a publicação de seu livro sobre o tema, ele foi coautor de um artigo científico com o geólogo Lorence Collins que refutou suas conclusões anteriores. Após uma avaliação completa das evidências disponíveis, Fasold concluiu que “a suposta Arca perto de [Doğubayazıt] é uma formação rochosa totalmente natural. Não pode ter sido a Arca de Noé, nem mesmo um modelo construído pelo homem”.

Geólogos qualificados tendem a concordar com a avaliação de Fasold e Collins: Durupınar é uma formação geológica natural, e não os restos de um navio de madeira. O geólogo Murat Avcı, por exemplo, identifica a formação em forma de barco como um grande bloco de calcário que desceu a encosta em um deslizamento de terra e foi posteriormente moldado por um fluxo de terra e outros processos geológicos.

Análises geológicas identificaram o material que Wyatt descreveu como madeira petrificada como rocha comum, e os objetos descritos como suportes de ferro como material vulcânico intemperizado. Os padrões que foram interpretados como compartimentos da arca são consistentes com a estrutura natural e as fraturas da formação, enquanto as supostas “pedras de âncora” são, na verdade, compostas de rocha vulcânica local.

Nova pesquisa, mito antigo

Todos os resultados do projeto de pesquisa mais recente são, no momento, ainda preliminares e inconclusivos. As amostras aguardam análise em laboratórios, e comunicados oficiais da universidade afirmam que a avaliação das evidências se estenderá até 2027.

Como estudioso da Bíblia, porém, estou mais interessado em nosso fascínio contínuo pelas histórias do dilúvio.

A maioria dos estudiosos da Bíblia interpreta a história do dilúvio no Gênesis como parte de uma tradição muito mais antiga de mitologia de um dilúvio do antigo Oriente Próximo. Escritores da antiga Mesopotâmia contavam várias versões de uma história na qual os deuses enviam um dilúvio catastrófico, mas avisam um homem, que então constrói uma grande arca para salvar sua família e os animais.

No Épico de Atrahasis, conhecido por manuscritos que datam do segundo milênio a.C., por exemplo, esse sobrevivente é Atrahasis. Outra versão da mesma história também aparece na Epopeia de Gilgamesh, onde o sobrevivente do dilúvio Utnapishtim constrói uma grande embarcação para resistir à tempestade.

O Gênesis não se limita a copiar essas histórias mais antigas; ele as reformula. Em Atrahasis, os humanos barulhentos se tornam um incômodo para os deuses, então os deuses os afogam. O Gênesis, por outro lado, apresenta a violência e a corrupção como o principal problema. O final do Gênesis também segue uma direção diferente. Em vez de impor novos limites à reprodução humana, como faz o épico de Atrahasis, Deus, no Gênesis, abençoa a família de Noé, diz a eles para “serem fecundos e se multiplicarem” e estabelece uma aliança com toda a Humanidade e com todos os seres vivos .

Uma das coisas mais interessantes sobre a história do dilúvio no Gênesis é que o dilúvio, na verdade, não consegue resolver o problema que o causou inicialmente. Antes do dilúvio, a Humanidade já se inclinava para o mal. Após o dilúvio, o problema persiste. Mas a história, em última análise, não trata da eliminação da maldade humana; trata de como a vida continua, apesar das falhas persistentes da Humanidade.

A pesquisa atual em Durupınar, assim como as que a precederam, parte do pressuposto de que, por trás da história bíblica, há evidências tangíveis apenas esperando para serem encontradas. Por quase 70 anos, essa formação geológica em formato de barco manteve essa possibilidade viva.

As antigas histórias sobre o dilúvio e como elas se transformaram ao longo das diferentes culturas podem revelar como as pessoas interpretavam as catástrofes, a violência humana e a possibilidade de recomeçar. Uma forma de barco no leste da Turquia provavelmente não consegue fazer isso.

Eric Vanden Eykel é professor Associado de Estudos Religiosos do Ferrum College. Ele não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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194 anos: O segredo de Jonathan, o animal terrestre mais velho do mundo

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Cientistas descobriram o que torna o animal terrestre mais velho do mundo tão resistente à passagem do tempo. Contemporâneo de Darwin, bicho sobreviveu a duas guerras mundiais e grandes pandemias.
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TOPO
Por Deutsche Welle

Postado em 17 de Outubro de 2.026 às 06h00m
 
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Jonathan conserva mecanismos de reparação celular próprios de tartarugas muito mais jovens, diz estudo — Foto: St Helena/PA Media/dpa/picture alliance
Jonathan conserva mecanismos de reparação celular próprios de tartarugas muito mais jovens, diz estudo — Foto: St Helena/PA Media/dpa/picture alliance

Ele foi contemporâneo de Charles Darwin (1809–1882), pai da teoria da evolução, e sobreviveu a duas guerras mundiais e grandes pandemias, da gripe espanhola à covid-19.

Jonathan, o animal terrestre mais longevo do mundo, tem 194 anos de idade. Uma análise de sua genética privilegiada revelou o segredo de sua eterna juventude.

Este exemplar de tartaruga-gigante foi levado das Ilhas Seychelles para a ilha de Santa Helena (um território britânico ultramarino situado a 1.860 quilômetros da costa de Angola) em 1882, como um presente para Sir William Grey Wilson, que, pouco depois de recebê-lo, foi nomeado governador da ilha.

A tartaruga já tinha 50 anos quando se instalou nos jardins da residência do governador de Santa Helena, e lá permanece há 144 anos.

Embora pertença a uma espécie muito longeva – a das tartarugas-gigantes-das-Seychelles (Aldabrachelys gigantea hololissa), que podem viver cerca de cem anos –, Jonathan quebrou todos os recordes de longevidade, o que levou uma equipe internacional de cientistas vinculados a centros dos Estados Unidos, Reino Unido, Dinamarca e Alemanha a investigar o motivo.

Jonathan chegou à ilha de Santa Helena como um presente para o governador local, sir William Grey-Wilson — Foto: St. Helena Presseamt/dpa/picture alliance
Jonathan chegou à ilha de Santa Helena como um presente para o governador local, sir William Grey-Wilson — Foto: St. Helena Presseamt/dpa/picture alliance

Análise de uma longevidade extraordinária

Os pesquisadores coletaram material genético de Jonathan por meio de raspagens na bochecha e de um exame de sangue com coleta pela boca, no qual o animal foi atraído com comida de um modo que o levou a abrir bastante suas mandíbulas.

Da mesma forma, os cientistas obtiveram material genético de outras quatro tartarugas-das-Seychelles – jovens e mais velhas – para fins de comparação. Um artigo científico publicado na última quarta-feira (7) na revista científica Science Advances descreve as descobertas resultantes do estudo de seu genoma e metiloma, bem como da comparação com os de outros exemplares de sua espécie.

O sequenciamento de seu genoma revelou que a tartaruga não apenas possui bons genes, como a maioria de sua espécie, mas também não apresenta sinais de deterioração genética. E é aí que reside a chave de sua extraordinária longevidade.

Os cientistas identificaram 287 variantes genéticas únicas que reduzem os efeitos habituais do envelhecimento.

Essas variantes controlam processos fundamentais do organismo que impedem o envelhecimento celular, como o reparo de danos no DNA, a redução da inflamação, a regulação da insulina e a supressão do câncer.

O segredo está no metiloma

Em termos mais técnicos, os cientistas estudaram o metiloma completo de Jonathan, ou seja, o conjunto de "marcas" químicas em seu DNA que regula quais genes são ativados ou desativados nas células ou, dito de outra forma, as instruções precisas que orientam o desenvolvimento e o funcionamento do corpo da tartaruga.

A entropia da metilação do DNA analisa a heterogeneidade ou o "ruído" que pode existir nessas marcas químicas (grupos metil) em uma população de células.

No caso da tartaruga mais longeva do mundo, observou-se que esse "ruído" é mínimo nos genes relacionados à função mitocondrial, ao processamento de RNA e ao reparo do genoma.

Ao que tudo indica, a tartaruga possui o que se chama de "transcrição genética de alta fidelidade", o que lhe confere uma resistência única ao envelhecimento. Os pesquisadores compararam o metiloma de Jonathan com o de tartarugas-gigantes mais jovens da mesma espécie e observaram que os interruptores que controlam os genes de reparo do DNA e do metabolismo de Jonathan são muito semelhantes aos de seus parentes mais jovens.

"Em Jonathan, os reguladores genéticos envolvidos na produção de energia e no reparo do DNA permaneceram incrivelmente estáveis durante quase dois séculos, o que é notável, pois geralmente eles se deterioram com o tempo", aponta um dos autores, Justin Gerlach, pesquisador de ecologia de tartarugas-gigantes na Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

"O genoma de Jonathan nos oferece um modelo de resiliência celular. Agora, nosso objetivo é aproveitar esses conhecimentos evolutivos e traduzi-los imediatamente em tratamentos práticos e acessíveis para as pessoas comuns", destaca outro autor, Stephen Clark, diretor da Fundação Kallel, que estuda os processos de envelhecimento.

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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Desmatamento na Amazônia e no Cerrado cai ao menor nível da série histórica, aponta Inpe

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Amazônia teve 3.335 km² desmatados, menor área desde 1988. No Cerrado, destruição da vegetação caiu para 5.516,69 km², menor marca desde 2001.
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Por Roberto Peixoto, Rafaela Rosa, Poliana Casemiro, g1 e TV Globo

Postado em 16 de Outubro de 2.026 às 16h00m
 
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Drone mostra reflorestamento da Amazônia na Fazenda Turmalina, em Mãe do Rio, no Pará, no dia 29 de setembro de 2025. — Foto: Wagner Santana/Reuters
Drone mostra reflorestamento da Amazônia na Fazenda Turmalina, em Mãe do Rio, no Pará, no dia 29 de setembro de 2025. — Foto: Wagner Santana/Reuters

O desmatamento na Amazônia e no Cerrado caiu ao menor nível de suas respectivas séries históricas entre agosto de 2025 e julho de 2026, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados nesta sexta-feira (16).

Na Amazônia, a área desmatada foi de 3.335 km², o menor valor desde o início do monitoramento, em 1988. O resultado representa uma redução de aproximadamente 41,8% em relação ao ciclo anterior, quando foram registrados 5.731 km².

No Cerrado, a destruição da vegetação nativa também atingiu um recorde de baixa: 5.516,69 km², o menor patamar da série histórica iniciada em 2001. A queda foi de aproximadamente 23,8% em comparação com os 7.235,27 km² registrados no período anterior.

Desmatamento na Amazônia e no Cerrado — Foto: Arte/g1
Desmatamento na Amazônia e no Cerrado — Foto: Arte/g1

Os números foram apresentados pelo governo federal em evento no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), e fazem parte do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Inpe.

➡️ ENTENDA: O Prodes é o sistema que calcula a taxa oficial de desmatamento no Brasil. Feito pelo Inpe com uma análise mais detalhada das imagens de satélite, ele mede a área efetivamente desmatada a cada ano, de agosto a julho. Já o Deter, também do Inpe, funciona como uma ferramenta de alerta rápido para orientar a fiscalização (entenda mais ABAIXO).

Amazônia em 4 anos: de 11 mil para 3 mil km²

A queda nos dois biomas também aparece quando os resultados são comparados aos de quatro anos atrás. Segundo o levantamento do Inpe, o desmatamento na Amazônia diminuiu 71,2% nesse período, enquanto no Cerrado a redução chegou a 48,4%.

Na Amazônia, a área desmatada havia chegado a 11.594 km² em 2022. Desde então, foram registradas quedas sucessivas, até atingir os 3.335 km² estimados para 2026.

No Cerrado, a área desmatada chegou a 11.012 km² em 2023 e também passou a apresentar reduções nos anos seguintes. O novo resultado representa menos da metade da área destruída quatro anos antes.

"Temos hoje planos para enfrentar desafios em todos os biomas brasileiros. Estamos fortalecendo as ações do Ibama, ampliando o quadro de pessoal e os recursos para melhorar a fiscalização, com mais tecnologia e inteligência", afirmou André Lima, secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). 
O que explica a queda?

Essa redução acompanha o endurecimento da fiscalização e do controle sobre o desmatamento ilegal nos últimos anos. Um dos marcos desse movimento foi a retomada, em 2023, do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm).

Criado em 2004, o plano reúne ações de diferentes ministérios e esteve por trás da forte queda do desmatamento registrada entre 2004 e 2014. Planos semelhantes também foram elaborados para os demais biomas, entre eles o Cerrado.

Na prática, essas medidas buscam aumentar o risco de punição para quem desmata ilegalmente. Um dos instrumentos usados são os embargos remotos: áreas desmatadas sem autorização são identificadas por imagens de satélite e bloqueadas sem a necessidade de uma operação em campo.

Com o embargo, o proprietário fica impedido de usar a área e de comercializar o que for produzido nela. Somam-se a isso a atuação dos estados nas ações de controle, o aumento de autuações do Ibama e a maior atenção dos bancos aos dados de desmatamento na concessão de crédito rural.

Assim, propriedades com desmatamento irregular passam a ter mais dificuldade para conseguir financiamento.

Para Claudio Almeida, coordenador do Programa BiomasBR, a redução do desmatamento é fruto de um trabalho de controle e fiscalização, apoiado em um monitoramento preciso e rápido. "Todo processo de planejamento das ações de controle de desmatamento criados pelo PPCDAM parte dos resultados do monitoramento realizado pelo Programa BiomasBR, que depois vão balizar a avaliação das políticas implementadas", comenta Almeida.

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, aponta que a queda do desmatamento mostra que é possível ampliar a produção econômica sem aumentar a destruição da vegetação nativa.

"A falsa narrativa, que às vezes é muito usada, de que meio ambiente atrapalha o desenvolvimento do país, cai por terra exatamente com esses números", afirmou ao g1.

"A floresta, quando ela é preservada, ela traz uma série de ativos para o país, na agenda de clima e na agenda econômica. Quando ela é destruída, ela traz uma série de problemas para o nosso país", acrescenta.

Luciana Gatti, pesquisadora do Inpe e cientista climática, reforça que os números são resultados de "vontade política". "Esses dados mostram como a política pública a esforço contra o desmatamento funcionam. É o resultado de um esforço conjunto e de vontade política de proteger a Amazônia."

A coordenadora de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, Cristiane Mazzetti, diz que o dado é um marco histórico, resultado de políticas públicas e instituições fortes.

"Manter a queda do desmatamento dependerá muito da atuação do governo federal e da forma como ele conduz o tema. Colocaremos tudo em risco se tivermos um governo antiambiental novamente", afirma Cristiane.

Para o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), a redução do desmatamento mostra que, quando há ampliação das ações de comando e controle, é possível conservar nossas riquezas naturais e aproximar-se do cumprimento das metas assumidas pelo Brasil.

"O desafio é transformar isso em compromisso permanente de Estado que independa dos ciclos políticos”, avalia André Guimarães, diretor executivo do IPAM. 
Contexto do Cerrado

No Cerrado, porém, a queda vem sendo mais lenta, e parte da explicação está na própria legislação.

O Código Florestal permite desmatar uma parcela das propriedades rurais, desde que haja autorização do órgão ambiental estadual. Na Amazônia, essa parcela é pequena. No Cerrado, é bem maior.

Por isso, grande parte da perda no Cerrado acontece em propriedades privadas regularizadas, dentro do limite permitido.

Como esse tipo de desmatamento não é alcançado por embargos e multas, que miram a derrubada ilegal, reduzir o ritmo no bioma depende de outros caminhos, como incentivos econômicos para que o produtor mantenha a vegetação nativa e regras mais rígidas para as autorizações concedidas pelos estados.

Uma visão de drone mostra a devastação de um incêndio florestal em meio à fumaça na Amazônia, em Lábrea (AM) e 6 de setembro de 2024. — Foto: Bruno Kelly/Reuters
Uma visão de drone mostra a devastação de um incêndio florestal em meio à fumaça na Amazônia, em Lábrea (AM) e 6 de setembro de 2024. — Foto: Bruno Kelly/Reuters

Pará lidera desmatamento na Amazônia

Na Amazônia, o Pará continuou registrando a maior área desmatada entre os estados, com 1.130 km², o equivalente a 33,9% do total estimado para o bioma.

Apesar de permanecer na liderança, o estado teve uma redução de 45,3% em relação ao ciclo anterior, quando a área desmatada havia sido de 2.064 km².

Em seguida aparecem Mato Grosso, com 849 km², e Amazonas, com 525 km². Os dois estados também tiveram quedas expressivas, de 46,7% e 46,4%, respectivamente.

Juntos, Pará, Mato Grosso e Amazonas concentraram aproximadamente 75% de toda a área desmatada na Amazônia no último ciclo.

Roraima, por outro lado, apresentou um pequeno aumento. A área desmatada passou de 285 km² para 286 km², uma alta de 0,4%.

Os demais estados tiveram as seguintes estimativas de área desmatada: Acre, com 252 km²; Rondônia, com 149 km²; Maranhão, com 128 km²; Amapá e Tocantins, ambos com 8 km².

Deter x Prodes

🚨 O Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), é o sistema responsável pela taxa oficial de desmatamento no Brasil.

Ele calcula, a cada ano, a área de vegetação nativa efetivamente suprimida, sempre considerando o período de agosto a julho.

Para isso, o sistema usa imagens de satélite de maior resolução e passa por uma análise mais detalhada, o que leva mais tempo. O Prodes mapeia o chamado corte raso, ou seja, a remoção completa da vegetação, em áreas a partir de 6,25 hectares (0,0625 km²).

Na Amazônia, a série histórica começa em 1988.

Já o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), também do Inpe, funciona como uma ferramenta de alerta.

Ele emite sinais diários sobre mudanças na cobertura vegetal e serve principalmente para orientar a fiscalização.

Por isso, os números dos dois sistemas não são diretamente comparáveis. A taxa do Prodes costuma, inclusive, ser superior à área apontada pelos alertas do Deter.

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