No caso de petroleiros carregados com petróleo bruto, em média, apenas dois ou três navios do tipo VLCC (Superpetroleiro) transitaram
pelo estreito diariamente desde 7 de julho, segundo a Kpler, empresa
que monitora navios utilizando transponders e dados de satélite.
Esse número contrasta com a média de cerca de oito trânsitos diários de VLCCs antes da guerra.
No entanto,
apesar da redução no número de travessias, volumes crescentes de
petróleo estão contornando totalmente o estreito ou dependendo da
proteção dos EUA e de transferências de navio para navio para retirar o
petróleo do Golfo Pérsico de forma sigilosa.
Um Estreito
de Ormuz "permeável" enfraquece a barganha energética de Teerã e, ao
mesmo tempo, alivia parte da pressão sobre os preços do petróleo bruto —
e, consequentemente, da gasolina —, concedendo ao presidente dos EUA, Donald Trump, mais tempo para prolongar o atual impasse, na esperança de que o Irã recue.
Os Estados
Unidos apostam que a pressão econômica alcançará o que a força militar
não conseguiu até agora: forçar o regime iraniano a ceder.
No final da quarta-feira (19), Trump ameaçou impor "consequências econômicas ENORMES"
a qualquer país que ofereça "qualquer tábua de salvação ao Irã", em uma
publicação na Truth Social na qual declarou um "Dia D econômico".

No entanto, o Irã
não dá sinais de que vá ceder, apesar da pressão crescente sobre sua
economia e as vendas de petróleo. O país continua atacando navios na
região, prejudicando o fornecimento de energia para os mercados globais.
"Agora é uma
questão de quem recua primeiro — se é que alguém vai recuar", disse
Jorge Leon, chefe de análise geopolítica da Rystad, uma consultoria do
setor de energia.
"Existe essa
dicotomia... o impacto econômico é maior para o Irã do que para os EUA
neste momento, mas, o que é importante, a pressão política sobre o Irã é
muito menor", afirmou ele à CNN.
A economia de sobrevivência do Irã
A economia
do Irã já sofreu um duro golpe devido à guerra. O Fundo Monetário
Internacional prevê uma retração superior a 5% neste ano, o que
representaria a pior contração em quase quatro décadas.
A inflação
está próxima de 80%, e a moeda local, o rial, atingiu mínimas históricas
em relação ao dólar, forçando muitos iranianos a comprar até mesmo
itens essenciais no crédito.
No entanto, Trump pode estar subestimando o limite de tolerância do Irã
ao sofrimento. As dificuldades econômicas são uma realidade conhecida
pelos cidadãos do país e, até o momento, não houve manifestações
generalizadas contra o regime, que parece apenas ter se fortalecido com a
guerra.
"A liderança
do Irã está preparada para suportar muito mais sofrimento econômico",
afirmou Gregory Brew, analista sênior do Eurasia Group, uma consultoria
de risco político. O país "suportou anos de sanções dos EUA e, agora,
uma longa guerra, sem recuar".

Vida
cotidiana em Teerã em meio a um cessar-fogo entre os EUA e o Irã •
Pessoas passam por uma faixa com uma foto do falecido comandante da
Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), Mohammad Pakpour, no Bazar de
Teerã, em meio a um cessar-fogo entre os EUA e o Irã, em Teerã, Irã, 21
de abril de 2026. Majid Asgaripour/WANA (Agência de Notícias da Ásia
Ocidental) via REUTERS
Os EUA estão apertando o cerco ao sufocar as exportações de petróleo do Irã por meio de um bloqueio aos portos iranianos.
O volume de
petróleo carregado em navios-tanque iranianos caiu para uma fração dos
níveis registrados entre fevereiro e abril, segundo a Kpler.
O país já
possui cerca de 80 milhões de barris em trânsito marítimo — fora do
alcance do bloqueio — destinados principalmente à China, o que lhe
renderá cerca de US$ 1,5 bilhão (cerca de 7,7 bilhões de reais) por mês
aos preços atuais, afirmou Homayoun Falakshahi, chefe de análise de
petróleo bruto da Kpler.
No entanto, o
tempo está passando. Com uma taxa de desembarque de 650 mil barris por
dia, Teerã terá o equivalente a cerca de quatro meses de receitas de
exportação, acrescentou ele. "É mais como uma morte lenta do que uma
queda abrupta", disse ele à CNN.
Por outro
lado, a economia dos EUA tem estado comparativamente protegida dos
efeitos da guerra, mas a alta nos preços da gasolina — que agora
superam, em média, US$ 4 o galão — está prejudicando muitos americanos e
testando a popularidade de Trump antes das eleições de meio de mandato, em novembro.
Ainda assim,
o presidente norte-americano mantém sua posição. "A guerra impopular e
os preços mais altos da gasolina trazem prejuízos políticos a Trump, mas
uma retirada caótica do Oriente Médio seria pior", afirmou Dan
Alamariu, estrategista-chefe de geopolítica da Alpine Macro, uma empresa
da Oxford Economics.
"Os eleitores americanos não gostam de presidentes que perdem guerras", escreveu ele em um relatório na semana passada.
A batalha de Ormuz
O governo Trump tem exaltado sua capacidade de escoltar navios pelo estreito, mas vários analistas que conversaram com a CNN
afirmaram que o Irã continua a exercer influência significativa sobre a
via navegável, embora as opiniões dos especialistas divirjam.
“O Irã
exerce controle quase total sobre o Estreito de Ormuz”, mantido por
meio da “ameaça de ataque”, afirmou Dimitris Maniatis, CEO da Marisks,
uma empresa de segurança marítima sediada na Grécia.
Apesar da influência de Teerã, uma média de até 15 milhões de barris de petróleo sai do Golfo diariamente, incluindo o fluxo pelo estreito e por meio de oleodutos, segundo o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright.
Esse volume
representa uma parcela significativa dos 20 milhões de barris que a
região exportava diariamente antes do conflito envolvendo o Irã.
Serviços de
rastreamento de embarcações, como a Kpler, apontam números bem mais
baixos, mas analistas admitem que está cada vez mais difícil monitorar
as movimentações.
Muitos
petroleiros tentam realizar travessias “às escuras”, desligando seus AIS
(Sistemas de Identificação Automática) para evitar detecção e, em
alguns casos, recorrendo a transferências de carga entre navios fora de
Ormuz para ocultar ainda mais seus movimentos.
É provável
que o Irã esteja fazendo vista grossa para essas passagens, que em
muitos casos envolvem petroleiros pertencentes, em última análise, a
interesses iranianos, russos, chineses ou turcos, segundo Maniatis.
“Uma
embarcação que desliga seu AIS não fica invisível... Essa enorme massa
de metal sobre a água emite muitas outras transmissões eletrônicas além
do seu transponder AIS”, disse ele à CNN, observando que até mesmo um micro-ondas ou uma geladeira na cozinha do navio emitem sinais detectáveis.
“Se os iranianos quiserem atacar uma embarcação, eles não dependem do AIS dela”, acrescentou.
O próprio
Wright reconheceu que o Irã — que, segundo ele, havia “acumulado um
arsenal gigantesco” — estava “causando dificuldades na região” e “para a
economia mundial”. No entanto, ele argumentou que a capacidade do país
de fazer isso estava diminuindo.
“Nossa
capacidade de escoltar embarcações e retirar produtos daquela região
está aumentando”, disse ele em entrevista à Fox News na semana passada.
Os dados da
Kpler parecem confirmar isso: Falakshahi afirmou que 72 dos 84
petroleiros carregados com petróleo bruto — ou seja, 86% — que
transitaram pelo estreito desde 7 de julho navegaram com os sistemas de
rastreamento desligados e provavelmente utilizaram a rota autorizada
pela ONU através de águas de Omã.
Ele ressaltou, no entanto, que não se sabe disso "com certeza".
Seis das 84 embarcações
utilizaram a rota iraniana, enquanto as outras seis se dividiram entre a
rota de Omã e uma passagem utilizada antes do conflito entre os dois
países, embora esta última provavelmente estivesse mais próxima da rota
iraniana, acrescentou ele.
"Parece cada vez mais que o Irã perdeu, pelo menos parcialmente, o controle do estreito", disse Falakshahi à CNN.
Por
enquanto, o fluxo através de Ormuz proporciona um alívio muito
necessário ao mercado de petróleo. No entanto, isso pode acabar,
ironicamente, prolongando ainda mais a guerra.
“O fluxo de
barris passando (por Ormuz) aumenta a probabilidade de uma guerra mais
longa, possivelmente estendendo-se até bem dentro de 2027”, disse
Alamariu, da Alpine Macro. “Nenhum dos lados sente urgência se o preço
do petróleo não sofrer alteração significativa e o Irã continuar
ganhando o suficiente para sustentar o regime”, acrescentou.
David Goldman contribuiu com a reportagem.