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domingo, 12 de julho de 2026

Nova medição amplia tamanho estimado da Via Láctea em cerca de 10%

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Pesquisa baseada em ecos de raios X de três explosões extragalácticas indica que os braços espirais mais externos ficam mais distantes do centro galáctico do que apontavam estimativas anteriores.
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TOPO
Por Óscar del Barco Novillo

Postado em 12 de Julho de 2.026 às 07h00m
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Uma imitação da Via Láctea — Foto: Kevin Morefield/Astronomy Photographer of the Year
Uma imitação da Via Láctea — Foto: Kevin Morefield/Astronomy Photographer of the Year

Nosso planeta está longe de ser o centro do Universo, como proclamavam na Antiguidade sábios como Aristóteles ou Ptolomeu. Estamos na zona exterior de uma galáxia espiral com quatro braços característicos chamada Via Láctea.

Por estarmos imersos no plano galáctico, não dispomos da perspectiva necessária — ou visão panorâmica — para conhecer sua aparência precisa, assim como também não é fácil determinar com exatidão seu tamanho. Felizmente, com os dados disponíveis da missão europeia Gaia e observando outras galáxias semelhantes à nossa, podemos inferir com bastante detalhe sua forma e estimar com eficácia seu tamanho.

Nesse sentido, uma equipe de astrônomos descobriu recentemente que os braços espirais externos da Via Láctea poderiam se estender 10% além do que se pensava.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores realizaram medições precisas das distâncias até nuvens de poeira nos braços espirais da nossa galáxia, utilizando dados dos observatórios de raios X Chandra, da NASA e XMM-Newton, da Agência Espacial Europeia (ESA).

A estrutura da Via Láctea

Estima-se que a Via Láctea abrigue entre 100 bilhões e 400 bilhões de estrelas. Ela tem forma de espiral com três regiões principais bem diferenciadas: o núcleo central, o disco galáctico com braços espirais e o halo, uma esfera que envolve completamente o disco e o núcleo.

A Via Láctea observada a partir de duas perspectivas distintas.  Da parte superior, ou vista aérea (imagem à esquerda), podem-se apreciar em detalhes o bulbo central e o disco galáctico, que contém os braços característicos de uma galáxia espiral. Observe a localização do sistema solar em um braço secundário (braço de Órion) nos limites da nossa galáxia. Em uma perspectiva de perfil (imagem à direita), fica evidente a espessura reduzida do disco, em comparação com seu comprimento total — Foto: ESA., CC BY
A Via Láctea observada a partir de duas perspectivas distintas. Da parte superior, ou vista aérea (imagem à esquerda), podem-se apreciar em detalhes o bulbo central e o disco galáctico, que contém os braços característicos de uma galáxia espiral. Observe a localização do sistema solar em um braço secundário (braço de Órion) nos limites da nossa galáxia. Em uma perspectiva de perfil (imagem à direita), fica evidente a espessura reduzida do disco, em comparação com seu comprimento total — Foto: ESA., CC BY

O disco tem um diâmetro aproximado de cerca de 100 mil anos-luz e é muito fino, com apenas 1.000 anos-luz de espessura. Ele não é totalmente plano, mas tem uma forma levemente curvada. Nosso Sistema Solar está localizado em um dos braços externos do disco, a cerca de 26 mil anos-luz do buraco negro supermaciço Sagitário A* em seu centro.

Uma galáxia com quatro braços espirais

Possivelmente, a característica mais bela desse tipo de galáxia seja a existência de braços espirais em seu disco.

Essas estruturas são zonas de grande concentração de gás e matéria estelar, com tons mais azulados do que o restante do disco. Isso indica que as estrelas que as compõem são extremamente maciças e muito jovens, queimando sua grande reserva de combustível nuclear em um ritmo acelerado. Como consequência, os braços espirais estão associados a regiões ativas onde se formam estrelas continuamente.

Em particular, a Via Láctea é composta por dois braços principais (Escudo-Centaurum e Perseus) e dois braços secundários proeminentes (Norma e Sagitário). Além disso, encontramos o braço de Órion, um ramal secundário localizado entre os braços de Sagitário e Perseu, onde está situado nosso Sistema Solar, e mais um braço externo.

Representação artística da Via Láctea, incluindo os nomes dos quatro braços característicos da nossa galáxia. — Foto: NASA/JPL-Caltech/R. Hurt (SSC/Caltech)., CC BY
Representação artística da Via Láctea, incluindo os nomes dos quatro braços característicos da nossa galáxia. — Foto: NASA/JPL-Caltech/R. Hurt (SSC/Caltech)., CC BY

Agora, com os resultados dessa pesquisa inovadora, as distâncias entre os braços mais externos e o centro galáctico mudaram significativamente. Como isso é possível?

Ecos de três explosões extragalácticas

A chave está no estudo das ondas de raios X que ricochetearam nas nuvens de poeira localizadas nos braços espirais mais externos. Essa radiação intensa proveio de fora da Via Láctea e teve origem em fenômenos extremamente violentos, como o colapso de estrelas maciças ou a fusão de estrelas de nêutrons (as chamados explosões de raios gama ou GRB, na sigla em inglês).

Os ecos de raios X têm estrutura anular e seus diâmetros, observados pelo telescópio espacial Chandra, permitem determinar a distância em relação à Terra. Assim, os anéis de maior tamanho correspondem a nuvens de poeira mais próximas de nós.

Anéis de raios X gerados por uma explosão de raios gama (e refletidos nas nuvens de poeira dos braços externos da Via Láctea) registrados pelo telescópio espacial Chandra. Raios X: NASA/CXC/INAF/B. Vaia et al.; Ótica: Pan-STARRS; Processamento de imagem: — Foto: NASA/CXC/SAO/N. Wolk & P. Edmonds., CC BY
Anéis de raios X gerados por uma explosão de raios gama (e refletidos nas nuvens de poeira dos braços externos da Via Láctea) registrados pelo telescópio espacial Chandra. Raios X: NASA/CXC/INAF/B. Vaia et al.; Ótica: Pan-STARRS; Processamento de imagem: — Foto: NASA/CXC/SAO/N. Wolk & P. Edmonds., CC BY

Especificamente, os pesquisadores analisaram três fontes dessa potente radiação, denominadas GRB 031203, GRB 160623A e a mais recente, GRB 221009A (o nome de cada explosão indica o ano, mês e dia da observação, nessa ordem).

Um tamanho maior do que já conhecíamos

Ao analisar essas três explosões de raios gama, os pesquisadores calcularam as distâncias até três braços espirais da Via Láctea — em ordem crescente de distância a partir do centro galáctico: o braço de Perseu, o braço externo e o braço de Escudo-Centaurum.

Na direção de um dos GRBs, os astrônomos descobriram que tanto o braço externo quanto o braço de Escudo-Centaurum estão aproximadamente 10% mais distantes do que se pensava até agora.

Representação artística da Via Láctea detalhando as mudanças nas distâncias entre os braços mais externos de nossa galáxia (imagem à esquerda, as dimensões da Via Láctea com os dados utilizados até o momento; imagem à direita, as novas dimensões com base no novo estudo). — Foto: NASA/CXC/A. Hobart., CC BY
Representação artística da Via Láctea detalhando as mudanças nas distâncias entre os braços mais externos de nossa galáxia (imagem à esquerda, as dimensões da Via Láctea com os dados utilizados até o momento; imagem à direita, as novas dimensões com base no novo estudo). — Foto: NASA/CXC/A. Hobart., CC BY

Essa forma de calcular distâncias baseia-se na geometria, enquanto a maioria dos outros métodos depende de suposições sobre como a Via Láctea gira, com alto grau de incerteza sobre as regiões externas.

Desvantagens e um futuro promissor

Mas embora essa técnica original tenha melhorado significativamente a precisão na medição do tamanho da nossa galáxia, ela não poderá ser utilizada de forma sistemática para obter medições futuras. O problema reside no fato de que as intensas explosões de raios gama visíveis através do plano galáctico são muito raras. E, sem elas, não é possível estudar os ecos de raios X.

Mesmo assim, o conhecimento sobre a Via Láctea continuará a crescer nos próximos anos.

Não serão fundamentais apenas os dados cada vez mais detalhados do observatório Gaia, mas também a futura contribuição do NewAthena, o observatório de raios X de nova geração da ESA, que permitirá aos cientistas explorar ecos de raios X muito mais fracos nas regiões periféricas da nossa galáxia.

Óscar del Barco Novillo é Professor Ayudante Doutor do Departamento de Física (área de Astronomia e Astrofísica), da Universidade de Múrcia. Ele não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

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Seria possível 'desarmar' um super El Niño com nuvens artificiais? Ciência testa a ideia, ainda distante da prática

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Simulação usou como ponto de partida um acidente da natureza — a fumaça dos incêndios florestais que varreram a Austrália em 2019 e 2020 — para calcular se uma técnica de geoengenharia poderia amortecer os estragos de eventos como o que está se formando agora no Pacífico.
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Por Roberto Peixoto, g1

Postado em 12 de Julho de 2.026 às 06h00m
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O que é o El Niño e como ele pode afetar o seu dia a dia
O que é o El Niño e como ele pode afetar o seu dia a dia

Um grupo de cientistas dos Estados Unidos publicou um estudo que soa quase como ficção científica, mas que nasceu de uma tragédia real.

Os incêndios florestais que consumiram a Austrália no verão de 2019 para 2020, conhecidos como "Black Summer", lançaram tanta fumaça na atmosfera que ela chegou a alterar o comportamento das nuvens sobre o Oceano Pacífico.

O fenômeno, batizado por outra equipe de pesquisa em 2023, teria ajudado a resfriar as águas do Pacífico e contribuiu para a formação de uma La Niña que durou de 2020 a 2023.

Foi esse acaso climático que deu a pesquisadores dos Estados Unidos a ideia para o novo estudo, publicado recentemente na revista científica "Science Advances".

A pergunta que eles quiseram responder: se a fumaça dos incêndios conseguiu "empurrar" o clima do Pacífico para o lado mais frio, seria possível repetir esse efeito de propósito — e usá-lo para enfraquecer um El Niño antes que ele cause estragos? 

 🌊 Entenda: O El Niño e a La Niña são as duas fases do mesmo fenômeno climático, chamado ENOS (El Niño-Oscilação Sul). O El Niño é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico equatorial.

O fenômeno ocorre com frequência a cada dois a sete anos, tem duração média de doze meses e gera impacto direto no aumento da temperatura global. A La Niña é o oposto: um resfriamento dessas mesmas águas, com efeitos igualmente significativos, mas em direção contrária (entenda mais abaixo).

Imagens do satélite mostram variações no nível do mar em junho de 2026; áreas em vermelho indicando águas mais elevadas no Pacífico equatorial, sinal típico associado ao desenvolvimento do El Niño. — Foto: Sentinel-6 Michael Freilich/NASA/NOAA
Imagens do satélite mostram variações no nível do mar em junho de 2026; áreas em vermelho indicando águas mais elevadas no Pacífico equatorial, sinal típico associado ao desenvolvimento do El Niño. — Foto: Sentinel-6 Michael Freilich/NASA/NOAA

A técnica testada nos computadores se chama clareamento de nuvens marinhas (ou MCB, na sigla em inglês).

A ideia é borrifar partículas de sal do mar na atmosfera para deixar as nuvens baixas mais brancas e mais refletivas, fazendo com que uma parte maior da luz do sol volte para o espaço em vez de esquentar o oceano.

É um tipo de geoengenharia solar, a mesma categoria de tecnologia que, até agora, era discutida sobretudo como ferramenta para conter o aquecimento global no longo prazo — e, por isso mesmo, sempre envolta em controvérsia.

Usando um modelo climático de última geração, a equipe simulou o que teria acontecido se esse clareamento artificial de nuvens tivesse sido aplicado antes de dois dos El Niños mais fortes das últimas décadas: o de 1997-1998 e o de 2015-2016.

O resultado, segundo os autores, foi animador do ponto de vista físico: a intervenção conseguiu, nas simulações, enfraquecer a força desses eventos — desde que fosse aplicada cedo o suficiente e por tempo suficiente.

"Uma das maiores preocupações sociais em torno da geoengenharia é o fato de que, se a usarmos para reduzir riscos climáticos de longo prazo, temos que aplicá-la continuamente, por tempo indefinido", explica Jessica Wan, pesquisadora que liderou o estudo e hoje é pós-doutoranda na Universidade de Chicago.

"Se conseguíssemos atuar sobre a variabilidade natural, poderíamos obter alguns dos benefícios da geoengenharia sem precisar empregá-la indefinidamente."

TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE O EL NIÑO:

É essa a diferença que os autores destacam em relação a outras propostas de geoengenharia: em vez de tentar segurar o termômetro do planeta ano após ano — um compromisso de décadas, com todos os riscos políticos e técnicos que isso implica —, a ideia seria agir só durante a janela de alguns meses em que um El Niño está se formando.

Katharine Ricke, professora da Scripps Oceanography e coautora do estudo, costuma estar do lado dos cientistas que pedem cautela com a geoengenharia.

Mas, segundo ela, esse experimento acidental da natureza deu um fôlego extra à pesquisa.

"Foi o avanço-chave para que isso se tornasse uma pergunta de pesquisa viável", afirma. "Sem essa oportunidade de validação, acho que nossas descobertas não seriam tão confiáveis."

Nas simulações, quanto mais cedo o clareamento das nuvens começava — no início da fase de formação do El Niño — e quanto mais tempo durava, maior era o efeito de conter o fenômeno. Já intervenções tardias, feitas só no auge do evento, tinham pouquíssimo impacto.

Os pesquisadores também encontraram um efeito colateral que não pode ser ignorado: nas simulações mais bem-sucedidas em enfraquecer o El Niño, a La Niña seguinte tendia a chegar mais cedo e, em alguns cenários, mais intensa — um lembrete de que mexer em uma peça do sistema climático quase sempre move outras.

Mesmo assim, para Ricke, a ideia merece ser levada a sério. "É uma forma diferente de pensar a geoengenharia", diz a pesquisadora.

"Precisamos entender muito mais, mas, se existe uma maneira de usar isso, somada às demais ferramentas de redução de risco, para mitigar El Niños, por que não considerar?" 

Um resultado de laboratório

Vale reforçar: nada disso foi testado no mundo real, e os próprios autores tratam o trabalho como uma prova de conceito, não como um plano de ação.

⚠️ Toda a análise foi feita dentro de um único modelo climático e os pesquisadores não têm conhecimento de nenhuma proposta para aplicar a técnica no El Niño que está se formando agora, em 2026, apontado por previsões sazonais como potencialmente forte.

Especialistas independentes ouvidos pelo Science Media Centre da Espanha, que não participaram do estudo, reforçam essa cautela.

Carlos García-Soto, pesquisador do CSIC (Instituto Espanhol de Oceanografia), destaca que o próprio time de autores foi transparente sobre os limites do trabalho.

"O estudo é uma contribuição científica interessante porque explora uma possibilidade física por meio de simulação climática. No entanto, convém interpretar seus resultados com prudência (...) modificar deliberadamente um sistema climático tão complexo quanto o El Niño exige um nível de evidência muito superior ao necessário para demonstrar que uma hipótese é fisicamente plausível", avalia.

Já o meteorologista Ernesto Rodríguez Camino, presidente da Associação Meteorológica Espanhola, vê no estudo a abertura de uma nova frente de pesquisa, ainda que distante de qualquer aplicação prática.

"É de se supor que este trabalho dará origem a muitos outros trabalhos que explorem formas de mitigar extremos meteorológicos e climáticos, origem de tantas perdas humanas e materiais", diz.

Por trás da cautela dos especialistas está o tamanho do que está em jogo: segundo os próprios autores do estudo, eventos de El Niño de grande magnitude já custaram à economia global a marca de trilhões de dólares em prejuízos — o tipo de conta que ajuda a explicar por que, mesmo cercada de incertezas, a ideia de tentar "desarmar" um El Niño antes que ele aconteça já é considerada, por essa equipe de cientistas, uma pergunta que vale a pena continuar investigando.

🌎 O que é o El Niño — e por que ele importa tanto

O El Niño é um aquecimento fora do normal das águas do Oceano Pacífico na faixa próxima à linha do Equador.

Ele faz parte de um ciclo natural do clima que alterna fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e neutras — com impactos em várias regiões do planeta.

Esse aquecimento muda a circulação da atmosfera e altera o padrão de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.

No Brasil, os efeitos costumam ser desiguais: o Sul tende a ter mais chuva, enquanto áreas do Norte e do Nordeste podem enfrentar períodos mais secos.

O fenômeno também influencia a temperatura global. Em anos de El Niño mais intenso, o planeta costuma registrar calor acima da média, somando-se ao aquecimento global.

A intensidade varia de um evento para outro, assim como os impactos. E, com o planeta já mais quente, mesmo episódios moderados podem ter efeitos mais fortes do que no passado.


Condições geradas por El Niño podem facilitar as queimadas e impactar produções agrícolas. — Foto: Michael Dantas/AFP via DW
Condições geradas por El Niño podem facilitar as queimadas e impactar produções agrícolas. — Foto: Michael Dantas/AFP via DW

🌧️ Possíveis impactos no Brasil

Historicamente, o El Niño altera o padrão de chuva e temperatura no país e causa:

  • aumento de chuva no Sul, com risco maior de eventos extremos;
  • redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste;
  • mais irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste;
  • maior frequência de ondas de calor.

Segundo especialistas, um dos principais efeitos esperados é o aumento de períodos prolongados de calor, especialmente na primavera e no verão.

Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator por trás das mudanças no clima.

Com os oceanos já mais quentes do que a média histórica, a expectativa é de que os próximos meses sigam registrando temperaturas elevadas em várias regiões do planeta.

El Niño e La Niña — Foto: Arte g1/Luisa Rivas
El Niño e La Niña — Foto: Arte g1/Luisa Rivas

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sábado, 11 de julho de 2026

Tensão aumenta em território remoto do Ártico — e não é Groelândia; entenda

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Enquanto gelo derrete em ritmo acelerado, Svalbard se consolida como um dos principais focos da disputa geopolítica entre Noruega, Rússia, China e Estados Unidos
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Laura Paddison, da CNN
11/07/26 às 15:00 | Atualizado 11/07/26 às 15:03
Postado em 11 de Julho de 2.026 às 15h25m
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O assentamento de pesquisa de Ny-Ålesund em Svalbard
O assentamento de pesquisa de Ny-Ålesund em Svalbard  • Julian Quinones, CN
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A retirada de um par de imponentes leões de granito na entrada de um edifício no coração do Círculo Polar Ártico pode passar despercebida por muitos. Mas isso revela muito sobre a geopolítica cada vez mais tensa no "topo" do mundo.

Os leões "guardavam" uma estação de pesquisa operada pela China no assentamento de Ny-Ålesund, em Svalbard, um arquipélago situado entre a Noruega continental e o Polo Norte.

Em maio, eles foram removidos pela empresa estatal norueguesa que administra o assentamento; em junho, a companhia também retirou uma placa do edifício que dizia "Estação Rio Amarelo".

A medida da Noruega está sendo vista por alguns especialistas como parte das tentativas de reforçar sua soberania sobre essa porção do Ártico diante das mudanças geopolíticas e climáticas drásticas.

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Embora a Groenlândia domine as preocupações no Ártico, já que o presidente Donald Trump tenta reivindicá-la para os Estados Unidos, outra disputa potencialmente explosiva está se desenrolando em Svalbard — onde a China e a Rússia já têm presença.

E alguns temem que o mundo não esteja dando a devida atenção.

Svalbard é um arquipélago único. Possui apenas cerca de 3.000 habitantes, mas não tem população nativa e as mulheres não podem dar à luz lá.

Ele abriga a cidade permanentemente habitada mais setentrional do mundo, Longyearbyen, e é o lugar que está aquecendo mais rapidamente no planeta, com temperaturas entre seis e sete vezes superiores à média global.

Um tratado centenário concede à Noruega plena soberania, mas também permite que pessoas de quase 50 países signatários, incluindo China e Rússia, vivam e trabalhem em Svalbard sem visto.

Ao longo das últimas décadas, tornou-se o principal centro mundial de ciência no Ártico e um raro local de cooperação internacional.

"Pessoas de todo o mundo, com enormes diferenças culturais... reúnem-se para colaborar", disse Hedda Andersen, uma glaciologista que trabalha na Estação de Pesquisa de Ny-Ålesund.

Mas essa harmonia está se deteriorando à medida que a configuração única de Svalbard entra em conflito com as relações internacionais cada vez mais fragmentadas e com a busca de influência dos países no Ártico.

Estamos vendo o contexto geopolítico mais amplo se infiltrar no território de uma forma que não acontecia nas décadas anteriores, disse Otto Svendsen, pesquisador associado do CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais).

Posição privilegiada para satélites e minerais

A geografia de Svalbard é um dos principais atrativos do arquipélago. Seu oceano oferece ricas áreas de pesca e minerais essenciais no fundo do mar. Sua localização é privilegiada para o controle e a transferência de dados de satélites em órbita polar, utilizados para ciência, previsão do tempo e defesa.

Além disso, fica perto da Península de Kola, na Rússia, uma das regiões militares mais importantes do país em termos estratégicos, onde se encontra grande parte do arsenal nuclear marítimo do país.

O arquipélago é de fácil acesso. Voos regulares partindo da Noruega continental permitem que as pessoas cheguem ao Alto Ártico em questão de horas.

Dezenas de países têm presença em Svalbard, incluindo Rússia, China, Reino Unido, Itália, Japão e Polônia. Suas estações de pesquisa fornecem uma porta de entrada para a influência no Ártico, quase como uma moeda geopolítica, disse Serafima Andreeva, pesquisadora associada do Instituto Ártico, um centro de estudos.

Durante décadas, o lema na região foi "Alto Norte; baixa tensão", disse Eivind Vad Petersson, secretário de Estado do Ministério das Relações Exteriores da Noruega, mas "essa já não é uma descrição precisa da realidade".

A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 abalou profundamente a ideia de que o Ártico era imune às adversidades geopolíticas e evidenciou a dissonância de a Rússia ter um acordo em território da Otan, a aliança militar ocidental.

Barentsburg, um posto avançado de mineração e pesquisa em Svalbard, é habitado quase inteiramente por russos e é vigiado por um enorme busto de Vladimir Lenin.

As ações russas em Svalbard acirraram ainda mais as tensões. Em 2023, a Rússia realizou um desfile militar em Barentsburg, com direito a comboio de caminhões e motos de neve ostentando bandeiras russas e um helicóptero voando em baixa altitude, o que resultou em multa pela autoridade de aviação norueguesa.

No ano passado, o parlamentar russo Sergey Mironov sugeriu que Svalbard fosse renomeada como Ilhas Pomor, em referência a um grupo de caçadores e exploradores russos presentes no arquipélago séculos atrás.

A Rússia também tem usado o mesmo tipo de linguagem que utiliza para justificar suas ações na Ucrânia, argumentando que precisa proteger os falantes de russo em Svalbard, disse Svendsen, do CSIS. E tem acusado repetidamente a Noruega de tentar militarizar as ilhas.

Nikolay Korchunov, embaixador da Rússia na Noruega, afirmou que a Noruega "confunde os limites" da estipulação do Tratado de Svalbard de que as ilhas não devem ser usadas para "fins bélicos".

A Rússia nunca questionou a soberania da Noruega, acrescentou Korchunov, mas está, ao contrário, "tentando esclarecer" como o país exerce essa soberania.

O secretário de Estado norueguês, Petersson, rejeitou as alegações de militarização, afirmando à CNN que o Tratado de Svalbard impede o estabelecimento de uma base da Otan nas ilhas ou o seu uso para fins bélicos, mas que isso é "muito mais restrito e algo muito diferente de ser uma zona desmilitarizada".

Svalbard faz parte da Noruega; Svalbard faz parte da Otan; Svalbard faz parte dos planos de defesa noruegueses, disse ele.

Preocupação em Svalbard vai além da Rússia

Mas poucos acreditam que a Rússia esteja trilhando um caminho rumo a uma ação militar direta. Ela já possui quase tudo o que deseja em Svalbard e está com suas forças dispersas na Ucrânia, afirmou Andreas Østhagen, pesquisador sênior do Instituto Fridtjof Nansen, em Oslo.

Em vez disso, a Rússia parece querer usar Svalbard como um local "para mostrar que não se deixará intimidar pela Noruega, ou pela Otan em geral", disse ele.

Uma foca solitária banha-se no gelo marinho ao largo da costa noroeste da Gronelândia • Jeremy Harlan/CNN
Uma foca solitária banha-se no gelo marinho ao largo da costa noroeste da Gronelândia • Jeremy Harlan/CNN

Mas não são apenas as ações da Rússia em Svalbard que têm gerado preocupação. Há também a China.

Ao contrário da Rússia, a China não é uma potência ártica, mas tem ambições.

Em seu documento estratégico para o Ártico de 2018, autodenominou-se um Estado quase ártico e fez repetidas referências a Svalbard.

Também possui planos para uma rota da seda polar, um corredor de infraestrutura e transporte marítimo que atravessaria o extremo norte do planeta.

Em 2024, enquanto a China celebrava o 20º aniversário de sua estação de pesquisa de Ny-Ålesund, uma empresa de turismo chinesa levou mais de 100 turistas para Svalbard.

Alguns acenavam com bandeiras; um deles vestia um traje camuflado com o que parecia ser um emblema militar chinês.

O incidente gerou alarme na Noruega, onde crescem as preocupações sobre as intenções da China em Svalbard. Houve "alertas do serviço de segurança da polícia e do serviço de inteligência militar sobre as intenções chinesas", disse Østhagen.

Um porta-voz da Embaixada da China na Noruega afirmou que o país participa dos assuntos do Ártico "de acordo com o direito internacional" e que suas intenções na região são "salvaguardar os interesses comuns de todos os países".

Realidade ameaça Svalbard, mas Noruega não abre mão

E há outro personagem importante nessas tensões: as mudanças climáticas provocadas pela ação humana.

No verão de 2024, Svalbard bateu todos os recordes anteriores de derretimento de gelo, perdendo mais de 60 gigatoneladas de gelo, cerca de 1% do total, devido a um aumento de temperatura de 7 graus Fahrenheit acima da média.

Quatro dos últimos cinco anos estabeleceram novos recordes de perda de gelo na região.

"As mudanças climáticas são, em muitos aspectos, o que impulsiona o interesse geral pelo Ártico, disse Østhagen. Existe uma narrativa de que o derretimento do gelo abrirá oportunidades econômicas e estratégicas.

A realidade é mais complexa; há décadas que se prevê um fluxo de navios através do Oceano Ártico e uma explosão de petróleo, gás e minerais provenientes das suas águas gélidas — mas isso ainda não aconteceu. A região continua inóspita e hostil.

Ilha mais ao norte da Groelândia • Morten Rasch/University of Copenhagen
Ilha mais ao norte da Groelândia • Morten Rasch/University of Copenhagen

Se o derretimento do gelo acabar ou não por abrir a região, não importa, disse Torbjørn Pedersen, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nord.

O medo de ficar de fora está impulsionando os países a marcarem presença no Ártico e a exercerem influência política, acrescentou.

E, à medida que isso acontece, a Noruega parece estar reforçando seu controle sobre Svalbard.

Em 2022, o governo alterou as regras de votação para impedir que pessoas não norueguesas votassem nas eleições de Longyearbyen, a menos que tivessem residido na Noruega continental por três anos.

"Isso fazia parte de um esclarecimento necessário; Svalbard não é uma zona internacional", afirmou o secretário de Estado Petersson.

A Noruega também deixou clara sua ambição de explorar uma vasta extensão do leito marinho do Ártico ao redor de Svalbard e além, em busca de minerais críticos.

O plano foi contestado pela Rússia — gostaríamos de lembrar mais uma vez ao lado norueguês que ele não exerce soberania incondicional sobre Svalbard, disseram autoridades russas em um relatório de 2023.

Em seguida, veio a remoção dos leões chineses, juntamente com outros símbolos nacionais, dos edifícios de outros países em Ny-Ålesund.

"Não há nenhuma estação de pesquisa chinesa em Svalbard", afirmou Petersson.

"Há uma estação de pesquisa norueguesa com inquilinos chineses. Essa é uma distinção importante", adicionou.

Por enquanto, a Noruega está confiante de que será capaz de "manter um certo nível de estabilidade nesta região", disse Petersson.

Mas o mundo está mudando rapidamente. À medida que Trump repete suas afirmações de que os EUA deveriam possuir a Groenlândia, a aliança da Otan sofre crescente pressão e os países buscam cada vez mais se posicionar como potências fortes no Ártico em uma região em rápida transformação.

Os países podem começar a pensar que "o que importa agora é o poder e a capacidade de exercê-lo", destacou Østhagen, "e não necessariamente as normas e leis que estabelecemos ao longo do último século".

*Julian Quinones, da CNN, contribuiu para esta reportagem

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