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sábado, 7 de março de 2026

Como Irã criou drones 'suicidas' de baixo custo para provocar caos no Oriente Médio

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Difíceis de detectar, eles são lançados para sobrecarregar as defesas de adversários e, agora, tentam impor pressão aos Estados Unidos.
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TOPO
Por BBC

Postado em 07 de Março de 2.026 às 06h00m
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Ilustração de drone usado pelo Irã para atacar adversários no Oriente Médio — Foto: BBC
Ilustração de drone usado pelo Irã para atacar adversários no Oriente Médio — Foto: BBC

O presidente Donald Trump afirmou que os mísseis e a indústria de mísseis do Irã seriam "totalmente aniquilados" quando os Estados Unidos iniciaram os ataques aéreos contra o país no último sábado (28), mas não mencionou os drones iranianos.

Seis dias depois, o Irã lançou mais de 2.000 drones de baixo custo contra alvos em todo o Oriente Médio, em uma tentativa de sobrecarregar as defesas e semear o caos na região.

Esses drones "kamikaze", chamados de Shahed, carregam explosivos que detonam com o impacto e podem causar danos significativos. O ataque mais letal contra forças americanas até o momento se deu com um drone que atingiu uma base no Kuwait, matando seis soldados dos Estados Unidos.

A maioria dos ataques teve como alvo aliados dos EUA no Golfo Pérsico, países que abrigam, em maior ou menor grau, militares e equipamentos americanos. Mas também atingiram embaixadas, infraestrutura energética essencial, aeroportos comerciais e hotéis de luxo.

Alguns ataques ocorreram em cidades densamente povoadas, provocando medo nas ruas e nos governos dos países do Golfo Pérsico. Alguns especialistas dizem que isso pode fazer parte de uma estratégia iraniana para "impor o terror" e pressionar os EUA a encerrar o conflito.

Vídeo mostra momento em que míssil iraniano atinge base dos EUA no Bahrein 

Outro vídeo dos Emirados Árabes Unidos um drone se chocando contra um hotel em Palm Jumeirah, o luxuoso arquipélago artificial de Dubai, gerando uma enorme bola de fogo e um estrondo que reverberou pela cidade. 
Veja o momento em que hotel de luxo de Dubai é atingido por retaliação iraniana
Veja o momento em que hotel de luxo de Dubai é atingido por retaliação iraniana 

Os ataques com drones ao setor de energia na região têm sido particularmente impactantes. A maior refinaria de petróleo da Arábia Saudita, em Ras Tanura, na costa do Golfo Pérsico, interrompeu a produção após um incêndio causado por destroços de um drone interceptado.

No Catar, o maior terminal de exportação de gás natural liquefeito do mundo também foi fechado após ser alvejado por drones iranianos.

Custo baixo, engenharia potente

Os drones estão causando danos consideráveis ​​em toda a região, considerando seu design simples e custo de produção relativamente baixo. O drone de longo alcance Shahed-136, fabricado no Irã, tem um custo estimado entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, o equivalente a R$ 106,2 mil a R$ 266 mil.

Ao contrário de muitos drones comerciais, o Shahed não pode ser operado remotamente enquanto está no ar. Em vez disso, ele é pré-programado antes do lançamento para seguir uma rota definida até um alvo, utilizando um sistema de navegação por satélite. Com um alcance máximo de 2.500 km, ele poderia voar de Teerã a Atenas, por exemplo.

Embora não seja particularmente rápido, especialmente quando comparado a mísseis balísticos, o perfil fino do drone e sua capacidade de voar em baixa altitude dificultam sua detecção por radares e sistemas de alerta centrados na ameaça de mísseis.

Ficha técnica do Shahed-136, drone 'kamikaze' — Foto: BBC
Ficha técnica do Shahed-136, drone 'kamikaze' — Foto: BBC

Modelo copiado pela Rússia e pelos Estados Unidos

Esse drone foi amplamente utilizado pela Rússia na guerra da Ucrânia para atingir cidades densamente povoadas e usinas de energia, com efeitos devastadores. O Irã exportou drones Shahed para seu aliado nos últimos anos, e os russos agora também estão produzindo suas próprias variantes baseadas no projeto iraniano.

Mick Mulroy, ex-fuzileiro naval americano, oficial paramilitar da CIA e subsecretário-adjunto de Defesa para o Oriente Médio, disse à BBC News que os drones "provaram ser altamente eficazes" em conflitos anteriores, tanto que os EUA desenvolveram sua própria versão.

Os EUA não divulgaram quantos drones foram produzidos, mas dados sobre a quantidade que o Irã está lançando sobre seus inimigos estão sendo divulgados.

Os Emirados Árabes Unidos afirmam que mais de mil drones iranianos foram disparados contra o país até o momento, e 71 conseguiram ultrapassar as defesas estatais.

Mas cada interceptação tem um preço. Os drones podem ser abatidos de diversas maneiras, incluindo o uso de dispositivos especializados de interferência GPS e sistemas de armas a laser, mas muitos estão sendo abatidos por mísseis disparados de caças ou sistemas de mísseis lançados da terra, com alto custo.

Quando o Irã atacou Israel com centenas de drones em 2024, o Reino Unido teria usado caças da RAF para abater alguns drones com mísseis que custam cerca de £ 200 mil cada (cerca de R$ 1,4 milhões na cotação atual).

Drone Shahed-136, criado pelo Irã e aperfeiçoado pela Rússia, é exibido em frente à catedral de São Miguel em Kiev, na Ucrânia — Foto: Valentyn Ogirenko/Reuters
Drone Shahed-136, criado pelo Irã e aperfeiçoado pela Rússia, é exibido em frente à catedral de São Miguel em Kiev, na Ucrânia — Foto: Valentyn Ogirenko/Reuters

Forçar os EUA e seus aliados a utilizarem seus estoques de interceptores faz parte da estratégia iraniana de implantação de drones e mísseis, de acordo com Nicholas Carl, especialista em Irã do centro de pesquisa American Enterprise Institute.

Mas Carl afirmou que o regime também está tentando "impor terror e pressão psicológica" aos EUA e seus parceiros regionais para pressionar Donald Trump por um acordo de cessar-fogo.

Não se sabe por quanto tempo o Irã conseguirá manter essa pressão. Acredita-se que o país tenha produzido em massa dezenas de milhares de drones Shahed antes da guerra, mas não se sabe o quanto desse estoque permanece intacto após dias de ataques dos EUA e de Israel.

Imagens divulgadas na segunda-feira pela agência de notícias Fars, afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, mostram fileiras de drones no que parece ser um bunker subterrâneo. Mas não se sabe quando o vídeo foi gravado.

Vídeo de agência iraniana mostra suposto arsenal de drones
Vídeo de agência iraniana mostra suposto arsenal de drones

Na quinta-feira, o almirante Cooper disse que o número de drones lançados pelo Irã caiu 83% desde o primeiro dia de combates, enquanto o uso de mísseis balísticos diminuiu 90%.

"O Irã está com dificuldades para manter seus ataques com mísseis e drones, e isso pode se tornar ainda mais difícil nos próximos dias, à medida que a pressão militar dos EUA e de Israel persistir", acrescentou Carl.
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sexta-feira, 6 de março de 2026

Como funciona uma bomba atômica? Qualquer urânio serve para fabricá-la?

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Veja perguntas e respostas Estados Unidos e Israel afirmam que o governo do Irã já tem capacidade para fabricar e lançar uma bomba atômica. Entenda o que é necessário para um país atingir esse poderio bélico.
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Por Luiza Tenente, g1

Postado em 06 de Março de 2.026 às 07h00m
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Como funciona uma bomba atômica?
Como funciona uma bomba atômica?

O programa nuclear iraniano está no centro do conflito que eclodiu no último sábado (28) envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.

Nesta reportagem, entenda:

  • O que é uma bomba atômica?
  • O que significa o “235” ao lado do urânio usado nas bombas?
  • O que é enriquecimento de urânio?
  • Por que usam urânio e/ou plutônio?
  • Por que a bomba é tão devastadora? Quais os efeitos?
  • É a bomba mais poderosa do mundo?

Por meio de ataques estratégicos, o governo americano, de Donald Trump, e o israelense, de Benjamin Netanyahu, tentam neutralizar as usinas de Teerã, alegando que o regime já deteria matéria-prima e tecnologia de mísseis suficientes para produzir e lançar uma bomba atômica.

A Defesa do Irã: O governo iraniano nega qualquer intenção militar, sustentando que suas pesquisas e instalações servem apenas para fins pacíficos, como a produção de energia e avanços na medicina.

O Risco Global: Analistas alertam que essa tensão pode gerar uma "corrida por armas" na região. Até agora, nenhum artefato nuclear foi de fato utilizado nos combates.

🔴O que é uma bomba atômica?

Destruição da cidade de Hiroshima, no Japão, pela bomba atômica durante a 2ª Guerra — Foto: Arquivo Nacional dos EUA
Destruição da cidade de Hiroshima, no Japão, pela bomba atômica durante a 2ª Guerra — Foto: Arquivo Nacional dos EUA

A bomba atômica "convencional" (como as lançadas em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, na II Guerra Mundial) funciona a partir de um processo chamado fissão nuclear.

  • Toda matéria é feita de átomos, que possuem um núcleo composto por prótons e nêutrons.
  • Normalmente, os núcleos são estáveis. Mas alguns elementos específicos muito pesados, como o urânio, apresentam um equilíbrio mais frágil.
  • Se o núcleo do urânio-235, por exemplo, recebe um nêutron a mais, já fica desbalanceado e se quebra de repente, em duas ou mais partes menores.

"O princípio é quebrar núcleos atômicos e usar a energia resultante dessa quebra para a explosão", explica Leandro Tessler, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Fissão nuclear causada por uma bomba atômica. — Foto: Arte: Alberto Correa/g1
Fissão nuclear causada por uma bomba atômica. — Foto: Arte: Alberto Correa/g1

  • Quando um nêutron atinge o núcleo de um átomo instável, como o do urânio-235, ele se divide em dois elementos mais leves (como bário e criptônio) e libera três novos nêutrons, além de uma quantidade colossal de energia.
  • Esses três nêutrons atingem outros núcleos de átomos de urânio “vizinhos”. Cada um vai sofrer o mesmo processo (dividir-se em elementos mais leves, produzir energia e liberar 3 nêutrons).
  • É como uma fileira de dominós sendo derrubada: gera uma reação em cadeia descontrolada.

“A bomba atômica está baseada em juntar tanto urânio-235 que essas reações ficam incontroláveis e geram muita energia”, afirma Tessler.

Atenção: Na natureza, o U-235 sofre decaimento ao longo do tempo. Mas isso ocorre de forma lenta e não gera uma reação em cadeia.

🔴O que significa o “235” ao lado do urânio usado nas bombas?

235 é o número da massa do urânio. Vamos revisar alguns conceitos de química aprendidos na escola:

  • Massa = nº de prótons + nº de nêutrons
  • Todo átomo de urânio vai ter 92 prótons.
  • Mas há variação no número de nêutrons.
  • O urânio-235, por exemplo, que é o usado para fabricar bombas, tem 92 prótons e 143 nêutrons (92 + 143 = 235).
  • Só que ele compõe uma fração muito pequena do urânio natural (só 0,72%).
  • A maior parte do urânio natural encontrado em rochas é formada por urânio-238 (92 prótons + 146 nêutrons = 238).

Por que é importante saber essa diferença? É que, para alimentar reatores nucleares ou fabricar bombas atômicas, o desafio dos cientistas é separar o urânio-235 do resto. Esse é um processo caro e demorado.

🔴O que é enriquecimento de urânio?

  • Enriquecer urânio é aumentar a proporção do urânio-235 em relação ao urânio-238.
  • Para isso, é necessário separar o 235 do restante.
  • O processo costuma ocorrer de forma mais eficiente nas chamadas ultracentrífugas.

Como isso acontece?

  1. O urânio natural é transformado em gás e entra em um tubo, que gira a altíssima velocidade.
  2. Por causa da força centrífuga, esse gás roda – o urânio-238, que é mais pesado, vai para as bordas, e o 235, que é o usado na bomba, fica no miolo e pode ser separado.
  3. O que representava só 0,72% do total vai a uma concentração muito mais alta. Se for de mais de 85% ou de 90%, já estará no nível suficiente para produzir uma bomba nuclear.

André Scarpinati Luchetti, do Instituto de Química da Unesp Araraquara, faz uma comparação com as centrífugas de laboratórios médicos, que giram tubos de ensaio com amostras de sangue.

"Essas máquinas separam o nosso sangue: os glóbulos vermelhos, que são mais densos, vão para o fundo, enquanto o plasma, menos denso, fica por cima. O enriquecimento em ultracentrífugas segue esse princípio, mas em uma versão muito mais potente.”

Importante: O “esforço” necessário para enriquecer o urânio-235 de 0,72% para 20% é muito maior do que o exigido para elevar de 20% para 90%. Por isso, há o temor de que países com estoque dessa substância atinjam muito rapidamente o potencial necessário para criar a bomba. Veja o infográfico abaixo.

Infográfico - enriquecimento de urânio — Foto: Arte/g1
Infográfico - enriquecimento de urânio — Foto: Arte/g1

🔴Por que usam urânio e/ou plutônio?

Ambos são materiais físseis. Outros núcleos até podem sofrer fissão, mas não têm a disponibilidade, a estabilidade e/ou as propriedades nucleares adequadas.

Um material físsil é aquele que:

  • é “quebrado” ao absorver um nêutron;
  • libera energia e mais nêutrons;
  • consegue sustentar a reação em cadeia.

Os dois principais materiais físseis viáveis para armas são:

  • Urânio-235 - Existe na natureza (representa 0,72% da composição do urânio natural), mas precisa ser enriquecido.
  • Plutônio-239 - É produzido artificialmente dentro de reatores nucleares.

Apesar de o plutônio ser mais eficiente na fissão nuclear e exigir uma quantidade menor de material para fabricar uma bomba, ele oferece mais riscos de acidentes.

Como apresenta uma maior taxa de fissão espontânea, exige um sistema de implosão muito mais sofisticado, com sincronização extremamente precisa, para que a reação ocorra no momento planejado, e não “sem querer”.

Exemplos: A bomba de Hiroshima era de urânio-235, e a de Nagasaki, de plutônio-239.

🔴Por que a bomba atômica é tão devastadora? Quais os efeitos?

Imagem rara do cogumelo atômico de Hiroshima foi encontrado em arquivo de escola da cidade — Foto: AFP/Escola Honkawa
Imagem rara do cogumelo atômico de Hiroshima foi encontrado em arquivo de escola da cidade — Foto: AFP/Escola Honkawa

Para se ter uma ideia do poder de uma bomba, veja a comparação a seguir:

  • 1 kg de TNT libera aproximadamente 4 × 10⁶ joules
  • 1 kg de urânio totalmente convertido em energia liberaria cerca de 9 × 10¹⁶ joules (a eficiência real costuma ser menor)

Conclusão: o urânio gera 20 bilhões de vezes mais energia que uma dinamite por quilo.

A bomba lançada sobre Hiroshima, por exemplo, teve potência equivalente a cerca de 15 mil toneladas de TNT.

Os estragos são gigantescos, porque:

  • a energia é liberada em frações de segundo;
  • o calor aquece o ar instantaneamente;
  • o ar superaquecido expande-se de forma violenta.

Resultados:

➡️Forma-se uma onda de choque devastadora, capaz de destruir prédios e pontes, “empurrando” tudo o que existe pela frente.

➡️A radiação térmica (o tipo de calor que sentimos ao aproximar a mão de uma churrasqueira ligada, por exemplo, mas em proporções bem maiores) mata quem estiver por perto e causa queimaduras (internas, de órgãos que ficam superaquecidos e param de funcionar, e externas) em quem estiver distante.

➡️A radiação ionizante pode alterar o DNA dos seres vivos e gerar câncer (os efeitos permanecem também a longo prazo na região).

“O que acontece é uma grande onda de choque quente que incendeia e esparrama tudo. Pedaços dos tecidos biológicos (queimados) puderam ser encontrados nas regiões mais próximas dos epicentros de Hiroshima e Nagasaki”, conta Luchetti. 

🔴É a bomba mais poderosa do mundo?

Não. A chamada bomba de hidrogênio (ou bomba termonuclear) é mais potente.

Enquanto a bomba atômica tradicional funciona por fissão (quebra de núcleos pesados), a bomba termonuclear combina fissão e fusão (união de núcleos leves para formar um núcleo mais pesado).

“Normalmente, envolve isótopos [átomos com o mesmo número de prótons e diferente número de nêutrons] do hidrogênio que se fundem para formar hélio. É um processo semelhante ao que ocorre no interior do Sol”, explica André Luchetti.

Como a fusão libera ainda mais energia do que a fissão, essas bombas de hidrogênio são significativamente mais destrutivas.

🔴Do que um país precisa para fabricar uma bomba atômica?

Não basta dispor de urânio-235 ou de plutônio-239. Um país necessita de:

  • instalações de enriquecimento de urânio (como as ultracentrífugas explicadas mais acima) ou reatores capazes de produzir plutônio;
  • sistemas de blindagem e de manipulação de material radioativo;
  • especialistas em física nuclear, modelagem computacional e engenharia de materiais, por exemplo;
  • armas nucleares fabricadas com precisão, com sistemas de sincronização e de detonação;
  • “sistema de entrega” com mísseis balísticos, aviões ou submarinos nucleares.

É importante lembrar que é uma decisão política de altíssimo risco, que representa o rompimento de tratados internacionais. Ou seja: além da tragédia humanitária de enorme proporção, ainda leva a sanções econômicas e a isolamento diplomático.

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Como os líderes do Irã planejam sobreviver diante da superioridade militar americana

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Com suas capacidades militares consideradas fortemente reduzidas para lutar contra o poderio superior dos Estados Unidos e Israel, especialistas acreditam que o Irã busca estabelecer uma estratégia para ampliar e prolongar o conflito, aumentando seus custos para os adversários.
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Por BBC

Postado em 06 de Março de 2.026 às 06h00m
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A Guarda Revolucionária é um setor dominante das Forças Armadas iranianas — Foto: Getty Images via BBC
A Guarda Revolucionária é um setor dominante das Forças Armadas iranianas — Foto: Getty Images via BBC

Os Estados Unidos e Israel afirmam que seus ataques aéreos conjuntos já causaram danos significativos às instalações militares do Irã.

"Suas defesas aéreas, sua força aérea, marinha e liderança se foram", postou o presidente americano, Donald Trump, na sua plataforma Truth Social na terça-feira (3). "Eles querem conversar. Eu disse: 'Tarde demais!'"

Mas, com Israel e os Estados Unidos considerados militarmente superiores, quais opções teria o Irã nesta guerra? E qual estratégia o país está buscando seguir

Drenagem de recursos

O especialista em segurança do Oriente Médio, H. A. Hellyer, do centro de estudos britânico Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês), afirma que o atual objetivo militar do Irã não é vencer os Estados Unidos ou Israel "em uma guerra convencional", mas sim transformar o conflito em um evento "prolongado, regionalmente disperso e economicamente caro".

"O Irã não pode vencer convencionalmente", explica ele, "mas sua estratégia é garantir que a vitória dos demais permaneça cara e incerta."

A professora Nicole Grajewski, do Centro de Estudos Internacionais (Ceri, na sigla em francês) da Universidade Sciences Po, na França, é da mesma opinião.

Ela descreve a estratégia do Irã como "uma guerra de atrito", projetada para desgastar o oponente, drenando seus recursos e infligindo perdas sustentadas, até enfraquecer sua capacidade de luta.

Existe também uma dimensão psicológica.

"Durante a Guerra dos 12 Dias [contra Israel, no ano passado], o Irã se dirigiu muito mais a áreas civis", explica Grajewski.

"A precisão não foi grande preocupação. Isso instila temor psicológico e trauma entre a população."

O inventário de mísseis balísticos do Irã teria sido seriamente afetado durante a Guerra dos 12 Dias, mas "os números exatos permanecem incertos, devido ao armazenamento subterrâneo e aos esforços contínuos de reposição", segundo Grajewski.

Israel calcula que o Irã tivesse cerca de 2,5 mil mísseis em fevereiro de 2026, de curto (até 1 mil km) e médio alcance (1 mil a 3 mil km).

Autoridades iranianas afirmam terem usado sistemas como os mísseis Sejjil, descrito como tendo alcance de cerca de 2 mil km, e Fattah, caracterizado por Teerã como hipersônico, ou seja, muito mais rápido que a velocidade do som.

Casa Branca posta montagem de ataques ao Irã inspirada em videogame com música hypada
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'Cidades de mísseis'

As autoridades e a imprensa iraniana fazem frequentes referências a instalações de mísseis subterrâneas, conhecidas como "cidades de mísseis". Mas os detalhes da sua escala e inventário permanecem sem verificação.

O principal comandante americano, o general Dan Caine, afirma que os lançamentos de mísseis balísticos pelo Irã caíram em 86% desde o primeiro dia de combate, o sábado (28). E o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) informa uma queda de mais 23% na terça (3).

Ainda assim, Hellyer afirma que o Irã detém capacidade de ataque significativa para atingir "infraestrutura israelense, bases regionais americanas e aliados do Golfo, além de ameaçar os fluxos globais de energia através do Estreito de Ormuz".

"Mesmo uma paralisação limitada do Estreito pode trazer graves consequências para a economia global", destaca ele.

Cerca de 20% do petróleo do mundo passa através do Estreito. Agora, ele está efetivamente fechado pelo Irã, que prometeu atacar qualquer navio que tente transitar por ali.

O Irã pode enfrentar escassez de mísseis avançados e propelentes sólidos, mas Grajewski afirma que sua capacidade de lançar drones ainda é significativa.

Acredita-se que o país tenha produzido dezenas de milhares de drones de ataque Shahed kamikazes antes da guerra. Seu projeto foi exportado para a Rússia e até os Estados Unidos reproduziram alguns aspectos da sua tecnologia.

Eles também atendem a um objetivo estratégico além dos danos diretos. Eles "desgastam os sistemas de defesa aérea ao longo do tempo", forçando os adversários a gastar mísseis interceptadores de alto custo.

"Parte disso pretende exaurir as capacidades de interceptação", explica Grajewski.

"O Irã vem fazendo isso com UAVs [veículos aéreos não tripulados, na sigla em inglês] e drones. É algo que os russos também têm feito na Ucrânia."

Mas os Estados Unidos afirmam que os lançamentos de drones pelo Irã caíram em 73% desde o primeiro dia do conflito.

O Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS, na sigla em inglês), sediado em Tel Aviv (Israel), declarou que os Estados Unidos e Israel já realizaram mais de 2 mil ataques com múltiplas munições, enquanto o Irã lançou 571 mísseis e 1.391 drones, muitos dos quais foram interceptados.

Manter este nível de combate se tornará cada vez mais difícil para os dois lados, à medida que a guerra continua, defendem os especialistas.

Destaques do 6º dia da guerra no Oriente Médio entre Irã e Israel e Estados Unidos. — Foto: arte/ g1
Destaques do 6º dia da guerra no Oriente Médio entre Irã e Israel e Estados Unidos. — Foto: arte/ g1

Conflito prolongado

O Irã também mantém uma das maiores forças armadas do Oriente Médio.

São cerca de 610 mil militares na ativa, segundo estimativa do relatório Balanço Militar de 2025, publicado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês). Eles incluem:

  • 350 mil no exército regular; e
  • 190 mil no Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), que supervisiona os programas de mísseis e drones, além de muitas operações regionais.

O Irã também conta com uma rede de aliados regionais. Eles incluem os rebeldes houthis, no Iêmen, grupos armados do Iraque, o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, nos territórios ocupados.

Apesar das restrições atuais, o Irã tem experiência em suportar conflitos prolongados, segundo Grajewski. Sua resiliência data da Guerra Irã-Iraque (1980-1988), quando as cidades iranianas foram repetidamente atacadas, apesar da inferioridade convencional.

Mas a continuidade da estratégia iraniana pode depender da sua coesão interna.

"Realmente depende de como a elite política e de segurança permanece unida e se existem cismas", explica Grajewski. "Isso pode causar maior desarticulação, em termos de estratégia militar."

"Parece que os operadores de mísseis estão sob muita tensão e exaustão, o que causa imprecisões ou disparos acidentais contra alvos errados. Muitas operações são mais desorganizadas e existe um nível de exaustão."

E isso, combinado com os contínuos ataques às forças e estoques de mísseis do Irã, "poderá gerar uma escalada inadvertida".

'Escaladas maiores'

Vizinha do Irã, a Turquia buscou mediar as negociações entre o Irã e os Estados Unidos antes do início da guerra aérea no final de semana (28/2-1/3). O país alertou para que "todas as partes evitem tomar ações que gerem escaladas maiores".

Mas o objetivo principal do Irã é tornar as condições "tão intoleráveis" para os países vizinhos, que "possam potencialmente pressionar os Estados Unidos ou, pelo menos, tentar levar os EUA para um acordo mais negociado ou para o fim das hostilidades", explica Grajewski.

"Até aqui, não acho que isso terá sucesso, mas parece ser a aposta que o Irã tem no momento", destaca ela.

Mas esta aposta pode simplesmente sair pela culatra.

H. A. Hellyer afirma que os países do Golfo "podem decidir que, embora se oponham em princípio à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, sua própria segurança, agora, está em risco, devido às represálias iranianas contra eles. E que, por isso, faz mais sentido apoiar a campanha americana, para pôr fim à ameaça imediata do Irã."

"Não acho que os países do Golfo já tenham chegado a este ponto, mas o tempo, neste particular, está acabando", conclui ele.
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