O problema é
que, três semanas depois do início dos ataques, o Irã segue disparando
drones e mísseis contra Israel e bases norte-americanas, e mantém o Estreito de Ormuz efetivamente bloqueado ao tráfego comercial.
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A questão
não é tática. É semântica, e carrega consequências de longo prazo que a
retórica do presidente deliberadamente obscurece.
Trump pode, de fato, encerrar a Operação Epic Fury formalmente e reivindicar vitória.
Há material para isso. Os Estados Unidos destruíram mais de cinquenta
navios de guerra iranianos, degradaram fortemente o arsenal de mísseis e
atingiram instalações nucleares adicionais. Mas fazê-lo agora
implicaria uma ressignificação silenciosa dos objetivos da operação,
reduzindo-os ao que sempre foi minimamente realizável: dano militar de
curto prazo, de caráter estritamente cinético.
Qualquer
meta de natureza política (mudança de regime, neutralização permanente
do programa nuclear, reconfiguração da ordem regional) permanece não
apenas intacta, mas em aberto de forma mais explosiva do que antes.
O senador
democrata Chris Murphy, após briefing classificado com a administração,
formulou a pergunta que ninguém na Casa Branca soube responder.
"O que
acontece quando os bombardeios cessam e o Irã retoma a produção de
mísseis e drones?” A resposta honesta é que haverá mais bombardeios. O
que configura não uma estratégia, mas um ciclo de degradação sem
arquitetura política.
As condições
iranianas para o fim da guerra ajudam a dimensionar o abismo entre a
retórica de Trump e qualquer desfecho sustentável. O presidente
Pezeshkian declarou que a única forma de encerrar o conflito é o
reconhecimento dos direitos legítimos do Irã, o pagamento de reparações e
garantias internacionais firmes contra agressões futuras.
O novo líder supremo, Mojtaba Khamenei,
tomou posse com um discurso radicalmente distinto. Afirmou que a
alavanca do bloqueio do Estreito de Ormuz deve continuar a ser utilizada
e convocou os países do Golfo a fechar as bases norte-americanas.
O regime não
foi derrubado. Foi radicalizado. O Estado iraniano sobreviveu ao ataque
que matou seu líder máximo e elegeu como sucessor o filho militar do
aiatolá, formado nos quadros da Guarda Revolucionária. É difícil
imaginar resultado mais contrário ao objetivo declarado de mudança de
regime.
Enquanto isso, os custos já se acumulam, e não apenas para o Irã.
O preço do
petróleo disparou com o bloqueio de Ormuz, que responde por cerca de 20%
do comércio global de petróleo; o Programa Alimentar Mundial alertou
para aumentos significativos e duradouros nos preços de alimentos; e
quase metade das exportações globais de ureia e enxofre passa pelo
estreito, ameaçando a segurança alimentar em escala planetária.
Cidadãos
norte-americanos já encontram nas bombas de gasolina preços iniciando em
"3", e especialistas alertam que podem chegar a "4", pressionando uma
inflação doméstica que a própria base eleitoral de Trump elenca como
prioridade número um.
Os aliados
regionais dos Estados Unidos foram atacados pelo Irã em retaliação e, ao
mesmo tempo, não receberam consulta prévia antes da operação.
Trump pediu à
França, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido que enviassem navios de
guerra ao Estreito, mas mesmo os países aliados reagiram com cautela e
várias rejeitaram o pedido.
A China, que
absorve boa parte do petróleo do Golfo e sai fortalecida como mediadora
confiável da região enquanto Washington aprofunda sua imagem de
potência desestabilizadora, não tem qualquer incentivo em ajudar a
desembaraçar a armadilha que os Estados Unidos criaram para si mesmos.
As condições
que tipicamente produzem guerras curtas - vantagem militar decisiva,
adversário disposto a negociar e um horizonte político claro - estão
conspicuamente ausentes neste conflito.
Trump pode
declarar vitória. Mas uma vitória que redefine retrospectivamente seus
objetivos para acomodar seus resultados não é vitória estratégica. É
gerenciamento de narrativa.
O caos
instalado na região não desaparecerá com um comunicado da Casa Branca.
Ele continuará se apresentando na conta da gasolina, no preço dos
alimentos, na erosão das alianças e, sobretudo, no fortalecimento de um
adversário sistêmico que observa tudo isso com a serenidade de quem não
precisou disparar um único tiro.