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Espécies do gênero Typhochlaena vivem escondidas. A combinação de raridade, cores intensas e comércio internacional pode colocar essas espécies em risco.
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Por Rodrigo Peronti, Terra da Gente
Postado em 27 de Março de 2.026 às 18h00m
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Aranhas brasileiras que parecem joias entram na mira do tráfico
Entre folhas úmidas, cascas soltas de árvores e galhos altos da Mata Atlântica vivem algumas das aranhas mais incomuns já descritas pela ciência. Pequenas, arborícolas e com cores metálicas que lembram pedras preciosas, as tarântulas do gênero Typhochlaena passam boa parte da vida escondidas no alto das árvores — mas, nos últimos anos, também apareceram em um lugar bem distante dali: o mercado internacional de animais exóticos.
A raridade dessas espécies, somada à beleza incomum, transformou essas aranhas em alvo de colecionadores e traficantes de fauna. Pesquisas científicas e relatórios sobre o tráfico de animais mostram que o comércio internacional de pets exóticos se tornou um dos principais motores da captura ilegal de espécies raras da biodiversidade brasileira.
O problema preocupa pesquisadores porque muitas dessas aranhas ainda são pouco conhecidas pela ciência.
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Aranhas que parecem "joias" são alvo de crimes — Foto: jungledweller / iNaturalist
Segundo um estudo publicado na revista científica ZooKeys, o gênero Typhochlaena reúne apenas cinco espécies conhecidas, todas endêmicas do Brasil e com distribuição geográfica extremamente restrita. Essas aranhas são descritas como pequenas caranguejeiras arborícolas com padrões de cores muito marcantes no abdômen — característica que ajuda a explicar o interesse do mercado internacional.
Os pesquisadores observam que esses animais estão se tornando cada vez mais populares entre colecionadores.
“Typhochlaena são pequenas tarântulas arborícolas com padrões de cores notáveis no abdômen e estão se tornando populares e cada vez mais requisitadas no comércio de animais de estimação”, descreve o artigo científico.
Essa popularidade, no entanto, traz um risco direto para populações naturais que já são extremamente restritas.
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Caranguejeira-Joia-Brasileira (Typhochlaena seladonia) — Foto: raynara5 / iNaturalist
Espécies raras e vulneráveis
Uma das espécies que chama atenção dos cientistas é a Typhochlaena curumim, encontrada em remanescentes da Mata Atlântica do Nordeste brasileiro.
Durante muito tempo, essa aranha era conhecida apenas a partir de três fêmeas coletadas sob cascas soltas de árvores em uma área de floresta na Paraíba. Expedições científicas posteriores encontraram novos indivíduos no Rio Grande do Norte e no Ceará, ampliando ligeiramente a área conhecida de ocorrência da espécie.
Mesmo assim, a distribuição continua extremamente limitada.
Por causa dessa raridade e da perda de habitat, a espécie foi classificada como criticamente ameaçada na lista brasileira de espécies ameaçadas.
Segundo os pesquisadores, espécies com distribuição geográfica muito restrita são particularmente vulneráveis à coleta ilegal.
“A presença de uma espécie no comércio pode afetar populações naturais, especialmente quando se trata de espécies com distribuição limitada que atraem demanda internacional”, alertam os cientistas.
Além disso, estudar e proteger invertebrados como aranhas ainda é um desafio para a ciência.
Os próprios autores ressaltam que muitas espécies são descritas a partir de poucos indivíduos coletados em apenas um local, o que dificulta estimar o tamanho real das populações.
“Existem diversas dificuldades em avaliar o risco de extinção de invertebrados, principalmente devido à escassez de dados sobre distribuição e tamanho populacional”, aponta o estudo.
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Typhochlaena curumim — Foto: anabio_93 / iNaturalist
Mercado internacional e tráfico
O comércio global de animais exóticos é considerado uma das principais ameaças à biodiversidade.
No caso das tarântulas brasileiras, a facilidade de transporte e a demanda crescente de colecionadores contribuem para alimentar esse mercado clandestino.
Pesquisadores apontam que aranhas podem ser enviadas ilegalmente para outros países por meio de pequenas encomendas postais, muitas vezes sem qualquer identificação.
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Registro de uma Caranguejeira-Joia-Brasileira (Typhochlaena seladonia) — Foto: vsmjr / iNaturalist
Esse método, conhecido como brown-boxing, permite que espécimes capturados na natureza sejam enviados discretamente para criadores ou comerciantes no exterior.
Uma vez fora do Brasil, esses animais passam a circular no mercado internacional de pets exóticos.
De acordo com os especialistas, muitos exemplares de tarântulas brasileiras acabam sendo vendidos na Europa e na América do Norte.
“Uma vez fora do país, muitos espécimes brasileiros de tarântulas são vendidos no comércio de animais de estimação”, registra o estudo.
As diferenças nas legislações entre países também dificultam o combate ao tráfico.
Enquanto no Brasil a coleta e a comercialização dessas espécies são proibidas, alguns países permitem a compra de animais exóticos sem grandes restrições, o que cria brechas para o comércio ilegal.
Um problema maior que parece
O tráfico de animais silvestres é considerado uma das atividades ilegais mais lucrativas do planeta.
Relatórios da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS) apontam que esse comércio movimenta bilhões de dólares todos os anos e envolve redes criminosas internacionais.
Segundo a organização, o problema é agravado pela falta de informação e pela baixa prioridade dada à fiscalização ambiental em muitos países.
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Cores e aparência despertam cobiça de colecionadores — Foto: ivis_lorran / iNaturalist
“A quantidade de animais traficados, os pontos de venda levantados e as ações desenvolvidas para o seu combate apontavam uma grande vantagem para os traficantes”, afirma o relatório da entidade.
Os pesquisadores também destacam que o tráfico de animais frequentemente está ligado a outras atividades criminosas.
Além disso, como se trata de um mercado ilegal, não existem números precisos sobre o volume de animais retirados da natureza.
“O tráfico de animais silvestres é uma atividade ilegal e, portanto, não conta com registros exatos”, observa o relatório da RENCTAS.
Ciência tenta proteger espécies pouco conhecidas
Enquanto o comércio clandestino cresce, pesquisadores tentam entender melhor a biologia dessas aranhas e identificar medidas de conservação.
Uma das propostas discutidas por cientistas é ampliar a proteção internacional dessas espécies.
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Exemplar de Typhochlaena curumim — Foto: alvfr / iNaturalist
A inclusão do gênero Typhochlaena em acordos internacionais de proteção, como a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES), poderia ajudar a monitorar e restringir o comércio global desses animais.
Outra medida sugerida é incluir essas espécies na Lista Vermelha global da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o que poderia chamar mais atenção das autoridades internacionais.
Para os pesquisadores, compreender e divulgar a existência dessas espécies é um passo fundamental para protegê-las.
Isso porque muitas dessas aranhas vivem em fragmentos isolados de floresta e podem desaparecer antes mesmo de serem completamente estudadas.
Pequenas, discretas e muitas vezes escondidas sob a casca de uma árvore, elas representam uma parte pouco conhecida — e extremamente vulnerável — da biodiversidade brasileira.
E, enquanto cientistas seguem tentando revelar os segredos dessas joias vivas da Mata Atlântica, a corrida entre a ciência e o tráfico internacional continua.
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Diego Garcia, localizada a cerca de 1.600 km da massa terrestre mais próxima, sempre figura nas listas das ilhas mais remotas do mundo. Nos anos 70, as autoridades britânicas expulsaram os cerca de mil habitantes com a fleuma autoritária digna dos maiores impérios da Terra. Assim, Diego Garcia torna-se uma base conjunta do Reino Unido e dos EUA. Não existem voos comerciais, e chegar por mar também apresenta dificuldades; as licenças para barcos só se concedem para as ilhas exteriores do arquipélago de Chagos e para assegurar uma passagem segura pelo Oceano Índico. Embora integre o território britânico ultramarino, as Ilhas Maurício contestam sua posse.
Veja a importância geopolítica da posse de Diego Garcia, a ilha é porta de acesso para a África, Oriente Médio e Ásia.
Britânicos prometem devolver a ilha e manter a base militar
Desde a expulsão dos moradores a Inglaterra sofre pressões e enfrenta demandas jurídicas pelos desalojados. Segundo o New Straits Times, o governo britânico tem estado sob pressão há décadas para entregar as Ilhas Chagos à Maurícios, uma antiga colônia, mas tem resistido devido à base militar na ilha de Diego Garcia, que desempenha um papel fundamental nas operações dos EUA no Oceano Índico e no Golfo’.
‘O acordo surge após quase dois anos de negociações e marca uma reviravolta significativa após décadas de rejeições britânicas das reivindicações de soberania de Maurícios. Em 2019, o Tribunal Internacional de Justiça aconselhou o Reino Unido a entregar as ilhas. Durante as audiências, o Reino Unido pediu desculpas pela expulsão “vergonhosa” dos ilhéus, mas ignorou a decisão do TIJ.
Imagem, US Navy.
Agora a situação mudou
No início das negociações em 2023, as duas partes concordaram que a base militar de Diego Garcia continuaria a funcionar independentemente do resultado. Em 2016, o Reino Unido prorrogou o contrato de arrendamento da base militar pelos EUA até 2036.
"Pela primeira vez em mais de 50 anos, o estatuto da base será indiscutível e juridicamente seguro”, declarou o Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico. Uma declaração conjunta britânica e marroquina disse que a base permaneceria aberta com um contrato de arrendamento “inicial” de 99 anos.
Assim, mais de 50 anos depois a ‘última colônia britânica na África’ como Diego Garcia foi chamada, será finalmente entregue a seus legítimos donos. A transferência legal de soberania depende da ratificação final pelos parlamentos de ambos os países. Contudo, o Reino Unido manterá os direitos administrativos e operacionais sobre a base militar de Diego Garcia por um período inicial de 99 anos.
Até o início de 2026, a implementação do tratado enfrentou atrasos legislativos e oposição política, particularmente após críticas do governo dos Estados Unidos sob a administração de Donald Trump, o que levou a uma pausa temporária no processo de ratificação no Parlamento do Reino Unido.
A bbc conseguiu entrar rm Diego Garcia
É um feito para os civis conseguirem entrar na ilha supersecreta. Mas uma equipe da BBC entrou e relatou o que viu. Alice Cuddy, da BBC, ‘Queríamos cobrir um processo judicial histórico sobre o tratamento dos tâmeis do Sri Lanka, as primeiras pessoas a apresentarem pedidos de asilo na ilha, que estão presas há três anos. Houve algumas batalhas legais complexas sobre seu destino, e um julgamento em breve determinará se as detenções ocorreram ilegalmente.
Alice fala das dificuldades de acesso, ‘para entrar na ilha, você precisa de uma licença, apenas concedida a pessoas com conexões com a instalação militar ou a autoridade britânica que administra o território. Historicamente, os jornalistas foram barrados’.
Advogados do governo tentaram barrar a entrada da BBC
Advogados do governo do Reino Unido apresentaram um desafio legal para tentar impedir a BBC de participar da audiência. Mais tarde, os Estados Unidos também se opuseram alegando que não forneceriam comida, transporte ou acomodação para todos aqueles que tentam chegar à ilha para o caso – incluindo o juiz e os advogados.
‘Como discutido anteriormente, os Estados Unidos concordam com a posição do Governo de Sua Majestade que seria preferível que os membros da imprensa observassem a audiência virtualmente de Londres, para minimizar os riscos de segurança da instalação;, disse uma nota enviada do governo dos EUA a autoridades britânicas.
Mas, afinal, o que será que os militares escondem com tanto zelo? Por que proibirem até mesmo outro braço do governo, a icônica rede BBC, de entrar no território?
Vejamos o que diz Cuddy: ‘Quando a permissão foi finalmente concedida para eu passar cinco dias na ilha, ela veio com restrições rigorosas. E não cobriram apenas a reportagem do tribunal. Elas também estenderam-se aos meus movimentos na ilha e até mesmo uma proibição de relatar quais eram as reais restrições’.
Brit 'Um dos locais mais restritos do mundo'
Alice Cuddy diz que apesar das dificuldades, ainda era capaz de observar detalhes esclarecedores, o que ajudou a pintar um quadro de um dos locais mais restritos do mundo.
‘Diego Garcia é uma das cerca de 60 ilhas que compõem o arquipélago de Chagos ou o território britânico do Oceano Índico (Biot) – a última colônia estabelecida pelo Reino Unido, separando-a das Ilhas Maurício em 1965. Ela está localizado a meio caminho entre a África Oriental e a Indonésia’.
Os acordos assinados em 1966 alugaram a ilha para os EUA por 50 anos inicialmente, com uma possível extensão por mais 20 anos. Acabaram por ampliar o acordo que vai até 2036.
‘A ilha tem uma beleza natural surpreendente, desde a vegetação exuberante até suas praias brancas intocadas, e também abriga o maior artrópode terrestre do mundo – o caranguejo de coco. Militares alertam para os perigos dos tubarões nas águas circundantes.
Detalhes da imensa base militar
As agruras pelas quais a jornalista da BBC passou decorrem da ilha ser uma imensa base militar. Matthew Savill, diretor de ciências militares do principal think tank de defesa do Reino Unido, Rusi, diz que Diego Garcia é uma base “enormemente importante”, “por causa de sua posição no Oceano Indico e das instalações que tem: porto, armazenamento e aeródromo”.
Ela já foi usada durante a guerra entre os Estados Unidos e o Afeganistão, como revela a repórter. ‘Os petroleiros que operavam a partir de Diego Garcia reabasteceram bombardeiros B-2 dos EUA, que haviam voado dos EUA para realizar os primeiros ataques aéreos no Afeganistão após os ataques de 11 de setembro. E, durante a subsequente “guerra ao terror”, aeronaves também foram enviadas diretamente da própria ilha para o Afeganistão e o Iraque’.
A base também é um dos “números extremamente limitados de lugares em todo o mundo disponíveis para recarregar submarinos” com armas como mísseis Tomahawk, diz Savill, e os EUA têm uma grande quantidade de equipamentos e lojas lá para contingências.
Alice Cuddy revela que a monitoraram de perto em todos os momentos. “Minha acomodação recebe vigilância 24 horas por dia, e os homens do lado de fora anotam quando eu saio e volto – sempre sob escolta.”
Uma Guantánamo no índico?
Esse excesso de zelo levanta suspeitas. E a jornalista confirma: “Há muito tempo circulam rumores sobre os usos de Diego Garcia, incluindo que ela tem sido um local negro da CIA – uma instalação usada para abrigar e interrogar suspeitos de terrorismo.”
‘O governo do Reino Unido confirmou em 2008 que os voos de rendição que transportavam suspeitos de terrorismo haviam desembarcado na ilha em 2002, após anos de garantias de que não tinham’.
Depois disso, várias partes do governo desmentiram as informações, até que anos mais tarde, Lawrence Wilkerson, chefe de gabinete do ex-secretário de Estado dos EUA Colin Powell, contou ao Vice News que fontes de inteligência lhe disseram que Diego Garcia servia como local “onde as pessoas estavam temporariamente alojadas e interrogadas de tempos em tempos.”
A BBC encerra com a promessa de que, ‘o processo judicial sobre o tratamento dos temeis, julgamento que ocorrerá em breve, iremos reportá-lo’.
Na verdade, o valor de Diego Garcia está na sua localização. Para o Foreign Policy o oceano Índico é um teatro crítico para o comércio global e competição geopolítica. É o lar de 33 países, representando 2,9 bilhões de pessoas, mais de um terço do tráfego de carga a granel do mundo e dois terços dos embarques de petróleo do mundo. Sem surpresa, tornou-se um foco crescente da estratégia do oceano Indico de Washington, no centro da qual está a disputada ilha de Diego Garcia.
Acidificação do oceano está à beira da transgressão