Varejo perde força após 2 meses de relativa estabilidade, o que reforça a leitura de estagnação da economia brasileira. Hipermercados e vestuário puxam recuo.
As vendas do comércio varejista caíram 0,6% em abril, na comparação com o mês anterior, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se do pior resultado para meses de abril desde 2015 (-1%) e também a primeira contração para o mês em quatro anos.
A queda acontece após uma alta de 0,1% em março e queda de 0,1% em fevereiro, na comparação com o mês imediatamente anterior, reforçando a leitura de perda de ritmo do setor e de estagnação da economia brasileira em 2019.
Vendas do comércio mês a mês
Em %
Fonte: IBGE
Na comparação com abril de 2018, houve alta de 1,7%. Dessa forma, o setor acumulou avanço de 0,6% no ano e de 1,4% nos últimos 12 meses.
O resultado veio pior do que o esperado pelo mercado. A mediana das estimativas de 27 analistas de consultorias e instituições financeiras ouvidos pelo Valor Data era de queda de 0,2% do indicador frente a março, quando houve ligeira alta de 0,1% (dado revisado).
Perda de ritmo
Perda de ritmo
O IBGE revisou os resultados dos últimos meses. Em março, ao invés de uma alta de 0,3% como inicialmente divulgado, as vendas do setor avançaram apenas 0,1%. Em fevereiro, houve queda de -0,1% ante leitura anterior de estabilidade. Já em janeiro, a alta foi maior que a inicialmente divulgada, de 0,6%, e não de 0,5%.

Estagnação do mercado de trabalho freia avanço do comércio, aponta IBGE
Em 12 meses, as vendas do varejo ficaram praticamente estáveis, acumulando alta de 1,4%, ante 1,3% em março.
Com o resultado de abril, setor está 7,3% abaixo do recorde alcançado em outubro de 2014. Segundo a gerente da pesquisa, isso equivale a um patamar semelhante ao que o setor operava em setembro de 2015.
Ela lembrou que no ano passado, no mesmo mês, o setor acumulava avanço de 3,4%.
"Ainda tem um longo caminho a ser percorrido para que o comércio varejista volte a registrar taxas semelhantes às de 2014 [quando o setor bateu seu recorde de vendas]", afirmou.
Vendas do comércio no acumulado em 12 meses
Fonte: IBGE
Hipermercados e vestuário puxam queda
Hipermercados e vestuário puxam queda
Das 8 atividades pesquisadas, 5 registraram queda no volume de vendas em abril, na comparação com março. Segundo o IBGE, a retração no varejo foi puxada pelo segmento de hipermercados (-1,8%), que caiu pela terceira vez seguida, e vestuário (-5,5%), que teve o segundo mês negativo.
Os números do IBGE também mostram que houve queda nas vendas em 20 das 27 unidades da Federação, com destaque para: Paraíba (-3,5%) e Rio de Janeiro (-2,8%) e Pará (-2,6%).
Segundo Nunes, desde a greve dos caminhoneiros no ano passado "os alimentos mostram uma evolução de preços". Ela destacou que, em abril do ano passado, a inflação acumulada em 12 meses para os alimentos estava em -4,78%. Já em abril deste ano, o indicador registrou alta de 9,10%.
Conjunturalmente, enfatizou, o país tem um grande contingente de desempregados e um mercado de trabalho que segue estagnado. "Essa situação dificulta o crescimento da massa de rendimentos, que é o que impulsiona o consumo", afirmou a pesquisadora do IBGE.
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Supermercado em Fortaleza; vendas do segmento puxaram a queda do varejo em abril, segundo o IBGE — Foto: Walter Craveiro
O indicador de vendas do comércio varejista ampliado, que inclui as atividades de veículos, motos, partes e peças e de material de construção, ficou estável em abril, na comparação com o mês anterior.
Por sua vez, a receita nominal do varejo caiu 0,3% na passagem de março para abril. No confronto a março de 2018, a receita do setor teve alta de 7,1%.
Veja o desempenho de cada segmento em abril:
- Combustíveis e lubrificantes: 0,3%
- Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo: -1,8%
- Tecidos, vestuário e calçados: -5,5%
- Móveis e eletrodomésticos: 1,7%
- Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria: -0,7%
- Livros, jornais, revistas e papelaria: 4,3%
- Equipamentos e material para escritório, informática e comunicação: -8%
- Outros artigos de uso pessoal e doméstico: -0,4%
- Veículos, motos, partes e peças: 0,2%
- Material de construção: 1,4%
“Todas as atividades estão em trajetória descendente [em 12 meses], à exceção de outros artigos pessoal e de uso doméstico, a única que mostra crescimento, mas que tem pouca participação na receita total do setor”, destacou a gerente da pesquisa, explicando que grande deste último segmento é representada pelas lojas de departamento, virtuais e físicas, que vendem uma gama variada de produtos.
Histórico do desempenho do varejo para meses de abril
Variação do volume de vendas, na comparação com meses de março, em %,
Fonte: IBGE
Incertezas e perspectivas
Incertezas e perspectivas
Os primeiros indicadores de maio mostram que a atividade econômica segue em ritmo lento, com um nível de consumo ainda bem abaixo do período pré-recessão, em meio à incertezas sobre o ritmo de tramitação de reformas no Congresso e elevado desemprego.
A produção industrial cresceu 0,3%, em abril, na comparação com o mês imediatamente anterior, mas o avanço foi insuficiente para recuperar a perda de 1,4% de março. Nos 4 primeiros meses de 2019, o setor industrial passou a acumular uma queda de 2,7% frente ao mesmo período de 2018.
O 1º trimestre foi marcado por uma perda de força da economia, reforçando a leitura de uma atividade econômica estagnada. O PIB (Produto Interno Bruto) recuou 0,2% nos 3 primeiros meses do ano, na comparação com o 4º trimestre, a primeira retração da economia desde 2016.
O índice que mede a confiança do comércio voltou a cair em maio, retornando ao mesmo nível de setembro de 2018, segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV).
De acordo com a última pesquisa Focus do Banco Central, o mercado reduziu a projeção de alta do PIB em 2019 para 1%. Foi a 15ª queda consecutiva do indicador. E parte dos analistas já fala em PIB abaixo de 1%, abaixo do resultado registro em 2017 e 2018, quando a economia cresceu 1,1% em cada um dos anos.

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