Se não puder ir até o jardim, ele passa alguns momentos pensando sobre
as fabulosas possibilidades oferecidas pelas aeronaves e pelas viagens
espaciais. "Fico pensando em como nós estávamos tentando acender
fogueiras, apenas alguns milhares de anos atrás, e agora podemos
aterrissar com segurança em outro planeta", afirma ele.
O propósito, neste caso, é evocar o deslumbramento - que ele define como "a maravilhosa sensação de encontrar algo que não podemos explicar facilmente".
Os hábitos de Kross são baseados em evidências científicas. Como
professor de psicologia da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos,
ele sabe que as sensações de deslumbramento podem ter influência muito profunda sobre a mente
— aumentando nossa memória e criatividade, além de nos inspirar a agir
de forma mais altruísta com relação às pessoas à nossa volta. Eles podem
também ter profundo impacto sobre a nossa saúde mental, permitindo
colocar nossas ansiedades em perspectiva.
Como a maioria de nós somente ficamos admirados esporadicamente, ainda
não conhecemos seus benefícios. Quando estamos tristes, podemos ser mais
propensos a buscar alívio em uma comédia, por exemplo - procurando
sentimentos de diversão que são bem menos poderosos.
Mas gerar o deslumbramento pode trazer uma grande mudança mental.
Por isso, ele pode ser uma ferramenta essencial para melhorar nossa
saúde e bem-estar. E existem muitas formas de cultivar essa emoção na
nossa vida diária.
Pequenos terremotos
Michelle Shiota, professora de Psicologia Social da Universidade do
Estado do Arizona, nos Estados Unidos, foi uma das pioneiras na
descoberta dos benefícios do deslumbramento. O seu interesse específico
reside nas formas em que ele pode remover nossos "filtros mentais" para
incentivar maior flexibilidade de pensamento.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2022/t/y/wjey9ARgWPN8CZwORlBg/2.jpg)
Quando ficamos maravilhados com algo realmente incrível e grandioso,
"nós nos percebemos como menores e menos significativos com relação ao
resto do mundo" — Foto: Getty Images via BBC
Vamos considerar a memória. Se alguém nos contar uma história,
normalmente nos lembramos do que achamos que devemos ter escutado e não
dos detalhes específicos do evento. Isso pode indicar que perdemos
elementos incomuns ou inesperados que acrescentam a clareza e
especificidade necessária para entendermos o que aconteceu. Podemos até
formar falsas memórias de eventos inexistentes, mas que achamos que
poderiam ter acontecido nesse tipo de situação.
Alguns anos atrás, Shiota decidiu estudar se evocar uma sensação de
deslumbramento poderia evitar isso. Ela pediu aos participantes, em
primeiro lugar, que assistissem a um dentre três vídeos: um filme
científico que inspira deslumbramento, levando os espectadores em uma
viagem do espaço sideral até partículas subatômicas; um filme animador
sobre um patinador artístico que ganhou uma medalha de ouro olímpica; ou
um filme neutro sobre a construção de uma parede de blocos de concreto.
Em seguida, os participantes ouviram uma história de cinco minutos
descrevendo um casal que saía para um jantar romântico e responderam
perguntas sobre o que eles haviam ouvido. Algumas dessas perguntas
referiam-se a eventos tipicamente esperados em qualquer refeição ("o
garçom serviu o vinho?"), enquanto outras se referiam a informações
incomuns, como se o garçom estava usando óculos.
Confirmando a hipótese formulada por Shiota, os participantes que
haviam assistido ao filme científico lembravam-se com mais precisão dos
detalhes que haviam ouvido que aqueles que haviam assistido ao filme
neutro ou animador.
Qual seria o motivo? Shiota indica que o cérebro está constantemente
formando previsões do que acontecerá em seguida. Ele usa suas
experiências para formar estímulos mentais que orientam nossa percepção,
atenção e comportamento.
Experiências que inspiram o deslumbramento - com sua sensação de
grandiosidade, assombro e perplexidade - podem confundir essas
expectativas, criando um "pequeno terremoto" na mente que faz com que o
cérebro redetermine suas premissas e preste mais atenção ao que
realmente está à sua frente.
"A mente reprograma seu 'código de previsão' para simplesmente olhar em
volta e coletar informações", afirma ela. Além de ampliar nossa memória
para detalhes, isso pode melhorar o pensamento crítico, segundo Shiota,
pois as pessoas prestam mais atenção às nuances específicas de um
argumento, em vez de confiar nas suas intuições para se convencerem ou
não.
Essa capacidade de abandonar as premissas e observar o mundo e seus
problemas de uma perspectiva nova poderá também explicar por que essa
emoção contribui para maior criatividade. Existe um estudo de Alice
Chirico e seus colegas da Universidade Católica do Sagrado Coração em
Milão, na Itália, publicado em 2018.
Os participantes que caminharam por uma floresta em realidade virtual
tiveram notas mais altas em testes de pensamento original que aqueles
que observaram um vídeo mais comum de galinhas passeando na grama. Os
participantes inspirados pelo deslumbramento foram mais inovadores
quando perguntados sobre como melhorar um brinquedo infantil, por
exemplo.
Efeito Attenborough
Os efeitos mais transformadores do deslumbramento podem referir-se à forma como nos observamos.
Quando ficamos maravilhados com algo realmente incrível e grandioso,
"nós nos percebemos como menores e mais insignificantes com relação ao
resto do mundo", afirma Shiota. Uma consequência é o maior altruísmo.
"Quando estou menos concentrada em mim mesma, nos meus próprios
objetivos e necessidades e nos pensamentos que passam pela minha cabeça,
tenho mais capacidade de observar você e [perceber] o que você pode
estar vivendo", afirma ela.
Para medir esses efeitos, uma equipe liderada por Paul Piff, da
Universidade da Califórnia em Irvine, nos Estados Unidos, pediu a um
terço dos participantes que assistisse a um clipe de cinco minutos da
série Planet Earth, da BBC, composta de imagens grandiosas e
arrebatadoras de paisagens, montanhas, planícies, florestas e cânions.
Os demais assistiram a um clipe de cinco minutos de vídeos engraçados
com animais ou a um vídeo neutro do tipo "faça você mesmo".
Em seguida, os participantes avaliaram o quanto eles concordavam com
quatro afirmações, como "sinto a presença de algo maior que eu" e
"sinto-me pequeno e insignificante". Por fim, eles participaram de um
experimento conhecido como o "jogo do ditador", no qual recebem um
recurso - neste caso, 10 cupons de um sorteio de um vale-compras de US$
100 - que eles poderiam ou não dividir com um parceiro, se desejassem.
As sensações de deslumbramento produziram mudança significativa da
generosidade dos participantes, aumentando o número de cupons
compartilhados com os parceiros. As análises estatísticas que se
seguiram permitiram aos pesquisadores demonstrar que isso foi causado
pelas mudanças da sensação de si próprios. Quanto menores se sentiam os
participantes, maior a sua generosidade.
Para reproduzir a descoberta em um ambiente mais natural, um dos
pesquisadores levou os estudantes para uma caminhada por um bosque de
eucaliptos da Tasmânia - que crescem até mais de 60 metros. Enquanto os
estudantes contemplavam o esplendor das árvores, os pesquisadores
"acidentalmente" deixaram cair as canetas que estavam carregando e
observaram se os participantes se ofereciam para pegá-las.
Eles perceberam com total segurança que os participantes eram mais
prestativos durante essa caminhada inspiradora do deslumbramento que os
estudantes que haviam passado o tempo contemplando um edifício alto, mas
não tão majestoso.
Colocando em perspectiva
Além de tudo isso, os benefícios para a nossa saúde mental são enormes.
Eles são causados, como o aumento da generosidade, pela redução do
sentido de si próprio, que parece reduzir o pensamento ruminante.
Isso é potencialmente muito importante, pois a ruminação é um fator de
risco conhecido para a depressão, a ansiedade e transtornos de estresse
pós-traumático. "Você muitas vezes está tão concentrado na situação que
não pensa em mais nada", afirma Ethan Kross, cujo livro Chatter: The voice in our head, why it matters and how to harness it
("Falatório: A voz na sua cabeça, por que ela é importante e como
dominá-la", em tradução livre) explora os efeitos dessas conversas
negativas consigo mesmo.
O deslumbramento nos força a ampliar nossa perspectiva, segundo ele, de
forma a interromper o ciclo de pensamento ruminante. "Quando você está
na presença de algo vasto e indescritível, você se sente melhor e seu
falatório negativo também diminui", afirma ele.
Para comprovar seu ponto de vista, Kross indica um experimento
extraordinário realizado por pesquisadores da Universidade da Califórnia
em Berkeley, nos Estados Unidos. Os participantes eram militares
veteranos e jovens de comunidades desfavorecidas, muitos dos quais
sofriam estresse sério na vida (alguns até com sintomas persistentes de
estresse pós-traumático).
Todos eles haviam se inscrito anteriormente em uma viagem para praticar
rafting em águas claras no Rio Verde, em Utah, nos Estados Unidos,
patrocinado por uma organização filantrópica. Antes e depois da viagem,
eles foram questionados sobre seu bem-estar psicológico geral, incluindo
seus sentimentos de estresse e sua capacidade de lidar com os desafios
da vida. E, após cada dia de rafting, pediu-se aos participantes que
preenchessem um questionário, avaliando suas sensações de
deslumbramento, diversão, contentamento, gratidão, alegria e orgulho.
Como se poderia esperar, a viagem, de forma geral, foi muito agradável
para a maioria dos participantes. Mas foi a sensação de deslumbramento
que indicou as melhorias mais importantes do seu estresse e bem-estar em
geral.
Estas foram circunstâncias claramente excepcionais, mas os
pesquisadores observaram efeitos muito similares em um segundo estudo
que examinou o contato diário dos estudantes com a natureza. Novamente,
eles concluíram que as experiências de deslumbramento apresentam impacto
muito maior sobre o bem-estar dos estudantes a longo prazo, em
comparação com as sensações de contentamento, diversão, gratidão,
alegria e orgulho.
Isso é bom ou ruim?
Antes que fiquemos deslumbrados com essa pesquisa, Shiota alerta que os
cientistas ainda precisam examinar se essa potente emoção tem algum
efeito negativo. Ela suspeita, por exemplo, que o deslumbramento pode
explicar o apelo exercido por muitas teorias da conspiração - com suas
explicações intricadas e misteriosas do funcionamento do mundo. Mas, de
forma geral, os benefícios do deslumbramento precisam ser considerados
sempre que sentirmos que nosso pensamento ficou preso em uma rotina
improdutiva ou prejudicial.
"A capacidade [que temos] de sair de nós mesmos é uma técnica muito
valiosa", afirma Kross. Ele acredita que andar no jardim público do seu
bairro e pensar em viagens espaciais traz os sentimentos necessários de
assombro, respeito e reverência, mas indica que cada um de nós terá suas
preferências pessoais. "Tente identificar quais são os seus próprios
gatilhos", sugere ele.
Para Michelle Shiota, as possibilidades são tão infinitas quanto o
universo. "As estrelas no céu noturno nos relembram do universo além da
nossa experiência. O som do oceano nos relembra suas imensas
profundezas; o pôr do sol brilhante nos relembra como é vasta e espessa a
atmosfera em volta do nosso planeta", afirma ela. Isso sem mencionar as
sublimes experiências oferecidas pela música, cinema ou arte.
"Tudo é questão de experimentar e prestar atenção no extraordinário à
nossa volta, em vez daquilo que, para nós, é rotina", conclui ela.
*David
Robson é escritor de ciências residente em Londres. O seu último livro,
O efeito da expectativa: como o seu pensamento pode transformar a sua
vida (em tradução livre do inglês) foi publicado no Reino Unido em 6 de
janeiro de 2022 e, nos EUA, será publicado em 15 de fevereiro de 2022.
Sua conta no Twitter é @d_a_robson.
------++-====-----------------------------------------------------------------------=================--------------------------------------------------------------------------------====-++-----