"Os EUA controlarão o Estreito de Ormuz"
Grandes
embarcações comerciais e um pequeno barco navegam pelas águas da cidade
portuária de Bandar Abbas, no sul do Irã, no Estreito de Ormuz em 21 de
junho de 2026 • Hassan Ghaedi/Anadolu via Getty Images
Trump chocou
o mundo nesta segunda-feira (13) ao anunciar com confiança que os
Estados Unidos em breve assumiriam o controle do Estreito de Ormuz como
seu “guardião” e cobrariam dos países uma taxa de 20% sobre a carga que
passasse pelo estreito.
Mas isso contradizia o que o governo havia dito anteriormente sobre a cobrança de pedágio no estreito.
“Sempre
dissemos que um sistema de pedágio no estreito seria inaceitável. Mas
não somos só nós que dizemos isso; o mundo inteiro já disse isso”,
afirmou o Secretário de Estado americano Marco Rubio em maio. Ele também
disse que seria “completamente ilegal, aliás”.
Os
comentários de Trump na segunda também levantaram a possibilidade de os
Estados Unidos precisarem de uma presença militar permanente para
controlar o estreito nos próximos anos.
Em outras palavras: parecia totalmente impraticável. E, de fato, apenas um dia depois, Trump voltou atrás.
O fato de o presidente sequer cogitar algo tão extremo e difícil sugere que ele não tem muita noção do que é viável. A CNN noticiou na terça-feira (14) que assessores se esforçaram para dissuadi-lo da ideia."A guerra será curta"
Forças norte-americanas na base aérea RAF Fairford • 17/03/2026 REUTERS/Toby Melville
Trump previu desde o início que a guerra seria breve, projetando repetidamente que duraria “de quatro a cinco semanas”.
Mais de dois
meses depois, no 1º de maio, ele disse que “não deveria durar muito”.
Já se passaram quatro meses e meio e a guerra não tem fim à vista.
Muitas das
previsões iniciais não eram definitivas, e o governo argumenta que a
guerra não estava acontecendo durante o cessar-fogo, que Trump declarou
encerrado posteriormente. Mas as projeções iniciais das autoridades
sugeriam que o governo antecipava um tipo de guerra muito diferente.
"Os líderes do Irã estão repentinamente racionais"
Figura central nas tratativas de paz entre EUA e Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf • ICANA News Agency via Getty Imag
Após os EUA e
o Irã concordarem com um memorando de entendimento no mês passado,
Trump e o vice-presidente americano, JD Vance, falaram como se os
líderes iranianos tivessem repentinamente virado seres iluminados.
“Estamos lidando com pessoas que considero muito racionais”, disse Trump em 16 de junho, acrescentando que os líderes iranianos eram “agradáveis” e “não radicalizados”.
Vance disse em entrevista ao apresentador Jake Tapper, da CNN:
“O mais interessante sobre o progresso que fizemos nas últimas semanas é
ver pessoas dentro do sistema iraniano, a alta liderança, até mesmo
oficiais da Guarda Revolucionária Islâmica, dizendo: 'Sabe de uma coisa?
Podemos ter alguma animosidade, podemos ter alguma desconfiança, mas
reconhecemos que a maneira como temos feito negócios com os Estados
Unidos por 47 anos foi um erro'”.
Não demorou
muito para o governo se arrepender dessas palavras. Após o cessar-fogo e
o memorando desmoronado na semana passada, Trump chamou os líderes do
Irã de “malucos”, “malignos”, “doentes”, “jogadores sujos” e “escória”.
Não está
claro se Trump e Vance acreditavam no que estavam dizendo antes ou se
estavam apenas sendo gentis. Mas, de qualquer forma, seus comentários
rapidamente passaram a parecer ingênuos — como muitos previram na época.
"O povo iraniano pode se rebelar"
Uma
jovem segura um retrato de Ali Khamenei e grita slogans durante o
funeral de Majid Khademi, chefe de inteligência da Guarda
Revolucionária, em Teerã, em 8 de abril de 2026. • NurPhoto via Getty
Images
Quando
lançou os primeiros ataques ao Irã no final de fevereiro, Trump estava
focado na ideia de que o povo iraniano poderia se revoltar e mudar o
regime. Ele até concluiu seu pronunciamento naquela noite enfatizando
essa ideia.
“Convoco
todos os patriotas iranianos que anseiam por liberdade a aproveitarem
este momento — a serem corajosos, ousados, heroicos e a retomarem o
controle do seu país”, disse Trump. “A América está com vocês. Fiz uma
promessa a vocês e a cumpri. O resto dependerá de vocês, mas estaremos
lá para ajudar.”
Mas, quando a
revolta popular não aconteceu, Trump rapidamente abandonou o assunto —
como se nunca tivesse sido seu objetivo. E hoje, ele fala como se fosse
impensável.
“A menos que
eles pudessem ser completamente armados, eu nunca pensei que eles
teriam esse tipo de levante, porque essas pessoas são violentas”, disse
Trump ao apresentador de rádio Hugh Hewitt na segunda. “A chamada
liderança deles é muito violenta.”
Mas Trump claramente considerou isso uma possibilidade em determinado momento. Aliás, foi um ponto crucial em sua argumentação.
"O Estreito de Ormuz não era um problema"
O
Comando Central dos EUA divulgou imagens que, segundo afirmam, mostram
ataques a sites de radar de vigilância costeira do Irã, com uma legenda
informando que interceptaram múltiplos mísseis balísticos iranianos e
drones lançados em direção ao Estreito de Ormuz e ao Golfo • Comando
Central dos EUA via X.
Quando o Irã
fez sua grande jogada para ganhar vantagem, fechando o Estreito de
Ormuz, o governo inicialmente minimizou a situação e sugeriu que a
medida não duraria.
“É algo com
que estamos lidando; temos lidado com isso”, disse o Secretário de
Defesa dos EUA Pete Hegseth em 13 de março. Ele acrescentou que as
pessoas “não precisam se preocupar com isso”.
Alguns dias antes, em 9 de março, Trump disse que o estreito “não nos afeta de verdade” porque “temos muito petróleo”.
“O Estreito de Ormuz continuará seguro”, acrescentou Trump.
O estreito
não permaneceu — ou não tem sido consistentemente — seguro. E embora
seja verdade que outros países tenham sido mais impactados pelo
fechamento do estreito pelo Irã, o fechamento também causou danos
significativos à economia dos EUA.
Isso também está dando ao Irã maior poder de barganha sobre Trump.
"Preços da gasolina cairão rapidamente para menos de US$ 3 por galão"
Gasolina entra no centro da discussão com instabilidade no tráfego em Ormuz • 05/03/2026REUTERS/Ken Cedeno
Ainda em relação ao estreito, o governo fez muitas promessas equivocadas sobre os preços da gasolina.
Em uma
entrevista com Tapper em 8 de março, o Secretário de Energia americano,
Chris Wright, disse que os preços da gasolina voltariam a ficar abaixo
de US$ 3 por galão “em breve”.
Questionado sobre quando exatamente, Wright disse que, mesmo no “pior cenário”, seriam “semanas” em vez de “meses”.
A situação
tem sido ainda pior do que o pior cenário previsto por Wright. Mais de
quatro meses depois, a gasolina ainda não está abaixo de US$ 3 por
galão. Os preços não caíram abaixo de US$ 3,70 na média nacional, de
acordo com o Gas Buddy, aplicativo utilizado para encontrar postos de
gasolina, e agora estão subindo novamente após a retomada das
hostilidades.
A previsão
equivocada ressalta como o governo parece não ter previsto completamente
o tamanho do estrago que o Irã poderia causar fechando o Estreito de
Ormuz.
"O Irã está desesperado para fechar um acordo"
Ele também
previu rotineiramente que um acordo estava prestes a ser fechado, mas os
eventos dos últimos três meses mostraram o contrário. O Irã não só se
recusou a fazer concessões muito significativas, como também descartou o
que pareciam ser termos bastante favoráveis no memorando de
entendimento do mês passado.
Talvez seja
apenas uma ilusão ou uma manobra do presidente americano, mas isso
sugere que ele não entende as motivações de seu adversário.
"Os EUA tinham livre acesso ao espaço aéreo iraniano"
Caça F-15E da Força Aérea dos Estados Unidos • Josh Plueger/U.S. Air Force
Em uma
coletiva de imprensa em 4 de março, Hegseth afirmou que os EUA e Israel
"teriam controle total do espaço aéreo iraniano" em uma semana. "E o Irã
não poderia fazer nada a respeito", disse o Secretário de Guerra.
Trump
repetiu a afirmação nas semanas seguintes. "Eles não têm equipamentos
antiaéreos. Seus radares estão 100% destruídos", disse o presidente.
"Somos imparáveis como força militar."
Mas, no início de abril, o Irã conseguiu abater duas aeronaves americanas.