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domingo, 16 de agosto de 2026

Trilionário por 2 meses: a ‘marcha à ré’ da SpaceX que fez Elon Musk perder bilhões de dólares

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A receita da empresa quase dobrou em um ano, mas os investimentos dispararam. IA e Starship consomem bilhões, enquanto o Starlink, principal negócio lucrativo, enfrenta novos desafios.
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Por Janize Colaço, g1 — São Paulo

Postado em 16 de Agosto de 2.026 às 07h00m

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Uma transmissão ao vivo mostra o CEO da SpaceX, Elon Musk, no dia da oferta pública inicial (IPO) da SpaceX no Nasdaq MarketSite, na cidade de Nova York, EUA, 12 de junho de 2026. — Foto: REUTERS/Jeenah Moon
Uma transmissão ao vivo mostra o CEO da SpaceX, Elon Musk, no dia da oferta pública inicial (IPO) da SpaceX no Nasdaq MarketSite, na cidade de Nova York, EUA, 12 de junho de 2026. — Foto: REUTERS/Jeenah Moon

Dizem que foguete não dá ré, mas o da SpaceX dá — e a fortuna de Elon Musk também. O empresário, que já era o homem mais rico do mundo, tornou-se o primeiro trilionário da história graças, em grande parte, à valorização da empresa espacial.

Só que a marca durou pouco: em apenas dois meses, sua fortuna encolheu US$ 146,5 bilhões (R$ 764,65 bilhões), em meio à queda no valor da companhia.

As ações da empresa recuaram 31% desde a máxima de US$ 201,8 (R$ 1.053,27), alcançada em junho, e Musk é dono de 42% da SpaceX.

Por isso, quando o valor da companhia cai, a participação do empresário também passa a valer menos — e sua fortuna encolhe.

SpaceX cresce em ritmos diferentes

O primeiro balanço divulgado desde a abertura de capital mostra uma empresa em forte expansão, mas que é formada por negócios com características diferentes entre si.

A receita quase dobrou em um ano, mas a expansão também exigiu investimentos pesados: foram US$ 18,37 bilhões (R$ 95,9 bilhões) em apenas três meses, mais de seis vezes o valor registrado no mesmo período de 2025.

As três principais áreas da companhia crescem em ritmos distintos. A internet via satélite já é lucrativa, enquanto inteligência artificial e lançamentos espaciais ainda priorizam expansão e investimentos. (veja mais no infográfico abaixo)

É essa diferença que Andrew Menzies, diretor de operações da Openbook Analytics, considera central para entender as contas da SpaceX.

Em relatório, o especialista destaca que, em 2025, o segmento de conectividade gerou US$ 4,42 bilhões (R$ 23,07 bilhões) em lucro operacional. Já a área de IA acumulou prejuízo operacional de US$ 6,35 bilhões (R$ 33,14 bilhões).

Para Nicolas Owens, analista de ações da Morningstar, o resultado mostra uma empresa que está crescendo enquanto faz uma aposta pesada no futuro.

A maior gama de resultados potenciais do valor futuro da SpaceX reside em seus empreendimentos de inteligência artificial, afirma Owens.

Segundo ele, o mercado precisa decidir quanto está disposto a pagar hoje por negócios que ainda terão de provar seu potencial nos próximos anos.

Onde a SpaceX está colocando seus bilhões — Foto: Arte/g1
Onde a SpaceX está colocando seus bilhões — Foto: Arte/g1

IA e Starship: as apostas bilionárias

A maior parte dos investimentos da SpaceX no segundo trimestre foi direcionada à inteligência artificial. Entre os movimentos estão:

  • 🖥️ Ampliação da infraestrutura de computação em nuvem e de projetos como o Colossus II, os planos de usar chips da Nvidia em satélites voltados à inteligência artificial.
  • 🤝 Acordo de US$ 60 bilhões (R$ 313,16 bilhões) para adquirir a Cursor, ampliando a oferta de ferramentas de IA para empresas.

É esse movimento que Menzies resume como uma fase de reinvestimento agressivo.

A companhia está canalizando capital para o desenvolvimento do Starship, para a fabricação de satélites e infraestrutura de IA", diz o diretor da Openbook Analytics.

O desafio, segundo Owens, é fazer com que toda essa infraestrutura comece a gerar receita e justifique o dinheiro investido.

Mesmo com sua volatilidade acentuada desde o IPO, acreditamos que os investidores ainda estão considerando cenários mais otimistas para a reusabilidade do Starship e para a vantagem comercial de datacenters orbitais do que o que é mais provável neste momento.

Mas a inteligência artificial não é a única aposta de longo prazo da SpaceX. O desenvolvimento do Starship, principal projeto da área espacial, também consome bilhões.

  • 🚀 Em 2025, a empresa investiu mais de US$ 3 bilhões (R$ 15,66 bilhões) no projeto, além de outros US$ 930 milhões (R$ 4,85 bilhões) no primeiro trimestre deste ano.

Para o mercado, portanto, não basta que a SpaceX cresça. É preciso saber se os investimentos feitos agora serão capazes de criar negócios grandes o suficiente para justificar o dinheiro gasto.

A SpaceX desenvolveu um sistema que permite ao Starship voltar à base após o lançamento e ser recuperado na própria plataforma de onde partiu. — Foto: Reprodução

Starlink paga a conta — mas também enfrenta pressão

É nesse ponto que a importância do Starlink ganha mais destaque. O serviço de internet via satélite é hoje um dos principais negócios da SpaceX e ajuda a financiar a expansão das outras áreas.

A base de clientes dobrou em um ano, para 12 milhões, mas a receita média por usuário caiu de US$ 85 (R$ 443,65) para US$ 66 (R$ 344,48) entre o segundo trimestre de 2025 e o mesmo período deste ano.

Segundo Menzies, a própria SpaceX espera que esse valor continue recuando à medida que avance para mercados de menor renda e ofereça preços mais competitivos.

Por enquanto, o crescimento do número de clientes compensa a queda da receita média por usuário. Mas, se o Starlink precisar crescer cada vez mais para sustentar os investimentos nas demais áreas, a evolução de sua rentabilidade passa a ser uma questão importante para o mercado.

"Uma queda contínua na receita por assinante, se não for compensada pelo crescimento do volume, comprimiria as margens do segmento de conectividade — a única parte do negócio que atualmente gera lucro operacional significativo."

Para os especialistas, a empresa ainda tem dinheiro para continuar investindo e expandindo seus negócios. O que mudou é a percepção do mercado sobre essas apostas: quanto elas vão valer — e quanto tempo vão levar para dar retorno?

A resposta pode determinar não apenas o valor da SpaceX, mas também o rumo da fortuna de Musk.

'Ao me ver, chore': A história por trás das 'pedras da fome' da Europa

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Marcos de séculos atrás que relembram períodos de estiagem devastadores voltam a emergir à medida que os rios da Europa recuam. Entre as mais famosas está uma pedra do rio Elba com a mensagem "ao me ver, chore".
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TOPO
Por Brenda Haas

Postado em 16 de Agosto de 2.026 às 06h00m

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As chamadas “pedras da fome” ficam expostas com a queda do nível do rio Reno, perto de Worms, na Alemanha, em 4 de agosto de 2026. — Foto: Andreas Buerger/Reuters
As chamadas “pedras da fome” ficam expostas com a queda do nível do rio Reno, perto de Worms, na Alemanha, em 4 de agosto de 2026. — Foto: Andreas Buerger/Reuters

À medida que os rios da Europa recuam durante os períodos de seca, ressurgem vestígios do passado há muito escondidos.

Ao lado de naufrágios da era nazista, bombas não detonadas da Segunda Guerra Mundial e restos de mamutes pré-históricos, alguns rios revelam a história literalmente escrita em pedra.

Uma dessas inscrições, em alemão, diz Wenn du mich siehst, dann weine ("ao me ver, chore"). Essas palavras estão gravadas em uma pedra da fome no rio Elba, perto de Decin, na República Tcheca, próximo à fronteira com a Alemanha.

Por que "fome"?

As pedras da fome, ou Hungersteine em alemão, são pedras do leito dos rios que geralmente permanecem submersas e escondidas, mas ficam expostas quando os níveis dos rios caem significativamente durante as secas prolongadas.

Ao contrário de uma marca de cheia, que registra o nível mais alto da água, a pedra da fome marca o nível mais baixo.

Durante séculos, as comunidades esculpiram datas ou inscrições nessas pedras sempre que as águas de rios como o Elba, o Danúbio ou o Reno recuavam drasticamente. Algumas pedras da fome trazem listas de anos, incluindo 1616, 1746 e 1842.

Em um estudo de 2019 intitulado Secas extremas e respostas humanas a elas: as terras tchecas no período pré-instrumental, o historiador e climatologista tcheco Rudolf Brazdil e seus colegas recorreram a crônicas, registros administrativos e outras fontes documentais para examinar como as comunidades afetadas pela seca viviam muito antes das medições meteorológicas sistemáticas.

Para as pessoas que viviam ao longo de rios como o Elba, a baixa das águas criava uma série de problemas. Barcas transportando madeira, grãos e outras mercadorias enfrentavam dificuldades para navegar em canais rasos, interrompendo o comércio ao longo de uma das rotas de transporte vitais da Europa Central. Em casos graves, a navegação teve que ser restringida ou interrompida completamente.

Além disso, a seca também significava quebra de safra, aumento de preços, e fome.

Mais do que apenas memoriais das secas

Embora as pedras da fome fossem frequentemente tratadas como lembretes simbólicos da seca, elas provaram ser mais do que isso.

Um estudo de 2020 publicado no periódico científico Climate of the Past descobriu que muitas das datas e marcas nas pedras da fome do Elba correspondiam de perto a períodos documentados de níveis de água excepcionalmente baixos. Os pesquisadores concluíram que muitas das inscrições tinham a intenção de registrar o quão baixo o rio havia chegado, em vez de simplesmente marcar os anos de seca.

O estudo também documentou marcas de anos de secas na pedra de Decin que remontam até ao menos ao século 16, ressaltando que a famosa inscrição "ao me ver, chore", de 1904, representa apenas um capítulo na história muito mais longa das pedras da fome.

As chamadas “pedras da fome” ficam visíveis com o baixo nível do rio Reno, perto de Worms, na Alemanha, em 4 de agosto de 2026. — Foto: Andreas Buerger/Reuters
As chamadas “pedras da fome” ficam visíveis com o baixo nível do rio Reno, perto de Worms, na Alemanha, em 4 de agosto de 2026. — Foto: Andreas Buerger/Reuters

Pedra que pressagia a desgraça?

No entanto, sua fama reside principalmente em sua mensagem aparentemente sinistra. Seu avistamento durante as secas europeias mais recentes de 2020 e 2022 inspirou cobertura da mídia, descrevendo sua mensagem como "arrepiante", "sombria" ou um "presságio de tempos difíceis".

Em seu estudo de 2019, Die Botschaft der Hungersteine ("A mensagem das pedras da fome"), Bernd Gross se baseou em reportagens de jornais, cartões-postais e registros históricos locais para reconstruir a história da pedra da fome de Decin e observou que sua inscrição pode ter sido inspirada por uma mais antiga.

Gross citou reportagens de jornais da década de 1890 que descreviam uma pedra da fome perto de Techlovice, um rio acima de Decin, que supostamente continha inscrições em alemão como: "Nós choramos, nós choramos – e vocês chorarão."

O homem mais frequentemente associado à inscrição da pedra de Decin é F. Mayer, um dono de pousada e barqueiro local, membro da comunidade marítima do Elba. Segundo Gross, Mayer mandou gravar a frase, agora famosa, na pedra durante a seca de 1904, datada de 18 de julho, juntamente com seu nome.

"Pedra da fome" de Decin com a inscrição "ao me ver, chore" — Foto: Wikimedia
"Pedra da fome" de Decin com a inscrição "ao me ver, chore" — Foto: Wikimedia

Uma pedra conhecida

Na época, os jornais se referiam a ela como a pedra da fome de Bodenbach ou Tetschen, em referência às cidades vizinhas que hoje fazem parte de Decin e que até 1945 eram habitadas por alemães étnicos. Eles noticiaram a pedra exposta e sua mensagem, enquanto relatos contemporâneos descreviam os milhares de visitantes que iam vê-la.

Cartões-postais com a imagem da pedra da fome também circularam amplamente, espalhando o conhecimento do local muito além do Vale do Elba.

O jornal Reichenberger Zeitung, em circulação de 1860 a 1938, noticiou em 28 de agosto de 1904: "Dia após dia, grupos se reúnem na rocha; todos querem pisar nela pelo menos uma vez. No entanto, as marcas esculpidas no arenito provavelmente perderão sua visibilidade devido ao frequente pisoteio."

Os visitantes ficavam intrigados não apenas com a inscrição, mas também com as datas antigas esculpidas na rocha, registrando anos de seca que remontavam a séculos.

A pedra que quase desapareceu

Ironicamente, a seca de 1904, que colocou a pedra de Decin e sua inscrição no mapa, quase causou sua destruição. As autoridades fluviais locais decidiram remover rochas e outros obstáculos do Elba para melhorar a navegação, e o estudo de Gross afirma que havia preocupações de que a pedra da fome de Decin também pudesse ser removida.

Após a intervenção da Cooperativa de Barqueiros de Tetschen, que fez uma petição às autoridades imperiais, a pedra foi poupada. Notícias relataram que as autoridades concordaram em desviar as obras fluviais planejadas ao redor dela, a fim de preservar o que já era considerado um marco histórico do Elba.

Enquanto outros obstáculos foram removidos do rio, a pedra da fome de Decin sobreviveu.

Mas, sua história não terminou aí. Quando outra seca severa a expôs em 1911, a famosa inscrição de Mayer teria sido gravada novamente, desta vez mais profundamente. Mais tarde, em 1938, uma inscrição em tcheco foi adicionada ao lado das marcas mais antigas.

Juntas, essas datas e inscrições registram séculos da história da pedra e seu papel como um marcador de níveis de água excepcionalmente baixos no Elba.