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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Desmatamento na Amazônia e no Cerrado cai ao menor nível da série histórica, aponta Inpe

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Amazônia teve 3.335 km² desmatados, menor área desde 1988. No Cerrado, destruição da vegetação caiu para 5.516,69 km², menor marca desde 2001.
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Por Roberto Peixoto, Rafaela Rosa, Poliana Casemiro, g1 e TV Globo

Postado em 16 de Outubro de 2.026 às 16h00m
 
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Drone mostra reflorestamento da Amazônia na Fazenda Turmalina, em Mãe do Rio, no Pará, no dia 29 de setembro de 2025. — Foto: Wagner Santana/Reuters
Drone mostra reflorestamento da Amazônia na Fazenda Turmalina, em Mãe do Rio, no Pará, no dia 29 de setembro de 2025. — Foto: Wagner Santana/Reuters

O desmatamento na Amazônia e no Cerrado caiu ao menor nível de suas respectivas séries históricas entre agosto de 2025 e julho de 2026, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados nesta sexta-feira (16).

Na Amazônia, a área desmatada foi de 3.335 km², o menor valor desde o início do monitoramento, em 1988. O resultado representa uma redução de aproximadamente 41,8% em relação ao ciclo anterior, quando foram registrados 5.731 km².

No Cerrado, a destruição da vegetação nativa também atingiu um recorde de baixa: 5.516,69 km², o menor patamar da série histórica iniciada em 2001. A queda foi de aproximadamente 23,8% em comparação com os 7.235,27 km² registrados no período anterior.

Desmatamento na Amazônia e no Cerrado — Foto: Arte/g1
Desmatamento na Amazônia e no Cerrado — Foto: Arte/g1

Os números foram apresentados pelo governo federal em evento no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), e fazem parte do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), do Inpe.

➡️ ENTENDA: O Prodes é o sistema que calcula a taxa oficial de desmatamento no Brasil. Feito pelo Inpe com uma análise mais detalhada das imagens de satélite, ele mede a área efetivamente desmatada a cada ano, de agosto a julho. Já o Deter, também do Inpe, funciona como uma ferramenta de alerta rápido para orientar a fiscalização (entenda mais ABAIXO).

Amazônia em 4 anos: de 11 mil para 3 mil km²

A queda nos dois biomas também aparece quando os resultados são comparados aos de quatro anos atrás. Segundo o levantamento do Inpe, o desmatamento na Amazônia diminuiu 71,2% nesse período, enquanto no Cerrado a redução chegou a 48,4%.

Na Amazônia, a área desmatada havia chegado a 11.594 km² em 2022. Desde então, foram registradas quedas sucessivas, até atingir os 3.335 km² estimados para 2026.

No Cerrado, a área desmatada chegou a 11.012 km² em 2023 e também passou a apresentar reduções nos anos seguintes. O novo resultado representa menos da metade da área destruída quatro anos antes.

"Temos hoje planos para enfrentar desafios em todos os biomas brasileiros. Estamos fortalecendo as ações do Ibama, ampliando o quadro de pessoal e os recursos para melhorar a fiscalização, com mais tecnologia e inteligência", afirmou André Lima, secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). 
O que explica a queda?

Essa redução acompanha o endurecimento da fiscalização e do controle sobre o desmatamento ilegal nos últimos anos. Um dos marcos desse movimento foi a retomada, em 2023, do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm).

Criado em 2004, o plano reúne ações de diferentes ministérios e esteve por trás da forte queda do desmatamento registrada entre 2004 e 2014. Planos semelhantes também foram elaborados para os demais biomas, entre eles o Cerrado.

Na prática, essas medidas buscam aumentar o risco de punição para quem desmata ilegalmente. Um dos instrumentos usados são os embargos remotos: áreas desmatadas sem autorização são identificadas por imagens de satélite e bloqueadas sem a necessidade de uma operação em campo.

Com o embargo, o proprietário fica impedido de usar a área e de comercializar o que for produzido nela. Somam-se a isso a atuação dos estados nas ações de controle, o aumento de autuações do Ibama e a maior atenção dos bancos aos dados de desmatamento na concessão de crédito rural.

Assim, propriedades com desmatamento irregular passam a ter mais dificuldade para conseguir financiamento.

Para Claudio Almeida, coordenador do Programa BiomasBR, a redução do desmatamento é fruto de um trabalho de controle e fiscalização, apoiado em um monitoramento preciso e rápido. "Todo processo de planejamento das ações de controle de desmatamento criados pelo PPCDAM parte dos resultados do monitoramento realizado pelo Programa BiomasBR, que depois vão balizar a avaliação das políticas implementadas", comenta Almeida.

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, aponta que a queda do desmatamento mostra que é possível ampliar a produção econômica sem aumentar a destruição da vegetação nativa.

"A falsa narrativa, que às vezes é muito usada, de que meio ambiente atrapalha o desenvolvimento do país, cai por terra exatamente com esses números", afirmou ao g1.

"A floresta, quando ela é preservada, ela traz uma série de ativos para o país, na agenda de clima e na agenda econômica. Quando ela é destruída, ela traz uma série de problemas para o nosso país", acrescenta.

Luciana Gatti, pesquisadora do Inpe e cientista climática, reforça que os números são resultados de "vontade política". "Esses dados mostram como a política pública a esforço contra o desmatamento funcionam. É o resultado de um esforço conjunto e de vontade política de proteger a Amazônia."

A coordenadora de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, Cristiane Mazzetti, diz que o dado é um marco histórico, resultado de políticas públicas e instituições fortes.

"Manter a queda do desmatamento dependerá muito da atuação do governo federal e da forma como ele conduz o tema. Colocaremos tudo em risco se tivermos um governo antiambiental novamente", afirma Cristiane.

Para o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), a redução do desmatamento mostra que, quando há ampliação das ações de comando e controle, é possível conservar nossas riquezas naturais e aproximar-se do cumprimento das metas assumidas pelo Brasil.

"O desafio é transformar isso em compromisso permanente de Estado que independa dos ciclos políticos”, avalia André Guimarães, diretor executivo do IPAM. 
Contexto do Cerrado

No Cerrado, porém, a queda vem sendo mais lenta, e parte da explicação está na própria legislação.

O Código Florestal permite desmatar uma parcela das propriedades rurais, desde que haja autorização do órgão ambiental estadual. Na Amazônia, essa parcela é pequena. No Cerrado, é bem maior.

Por isso, grande parte da perda no Cerrado acontece em propriedades privadas regularizadas, dentro do limite permitido.

Como esse tipo de desmatamento não é alcançado por embargos e multas, que miram a derrubada ilegal, reduzir o ritmo no bioma depende de outros caminhos, como incentivos econômicos para que o produtor mantenha a vegetação nativa e regras mais rígidas para as autorizações concedidas pelos estados.

Uma visão de drone mostra a devastação de um incêndio florestal em meio à fumaça na Amazônia, em Lábrea (AM) e 6 de setembro de 2024. — Foto: Bruno Kelly/Reuters
Uma visão de drone mostra a devastação de um incêndio florestal em meio à fumaça na Amazônia, em Lábrea (AM) e 6 de setembro de 2024. — Foto: Bruno Kelly/Reuters

Pará lidera desmatamento na Amazônia

Na Amazônia, o Pará continuou registrando a maior área desmatada entre os estados, com 1.130 km², o equivalente a 33,9% do total estimado para o bioma.

Apesar de permanecer na liderança, o estado teve uma redução de 45,3% em relação ao ciclo anterior, quando a área desmatada havia sido de 2.064 km².

Em seguida aparecem Mato Grosso, com 849 km², e Amazonas, com 525 km². Os dois estados também tiveram quedas expressivas, de 46,7% e 46,4%, respectivamente.

Juntos, Pará, Mato Grosso e Amazonas concentraram aproximadamente 75% de toda a área desmatada na Amazônia no último ciclo.

Roraima, por outro lado, apresentou um pequeno aumento. A área desmatada passou de 285 km² para 286 km², uma alta de 0,4%.

Os demais estados tiveram as seguintes estimativas de área desmatada: Acre, com 252 km²; Rondônia, com 149 km²; Maranhão, com 128 km²; Amapá e Tocantins, ambos com 8 km².

Deter x Prodes

🚨 O Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), é o sistema responsável pela taxa oficial de desmatamento no Brasil.

Ele calcula, a cada ano, a área de vegetação nativa efetivamente suprimida, sempre considerando o período de agosto a julho.

Para isso, o sistema usa imagens de satélite de maior resolução e passa por uma análise mais detalhada, o que leva mais tempo. O Prodes mapeia o chamado corte raso, ou seja, a remoção completa da vegetação, em áreas a partir de 6,25 hectares (0,0625 km²).

Na Amazônia, a série histórica começa em 1988.

Já o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), também do Inpe, funciona como uma ferramenta de alerta.

Ele emite sinais diários sobre mudanças na cobertura vegetal e serve principalmente para orientar a fiscalização.

Por isso, os números dos dois sistemas não são diretamente comparáveis. A taxa do Prodes costuma, inclusive, ser superior à área apontada pelos alertas do Deter.

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Cientista brasileiro mostra como pode ser a 1ª estação espacial comercial da história; VÍDEO

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Primeira estação espacial comercial do mundo, módulo da empresa Vast tem lançamento previsto para 2027. Neurocientista brasileiro Alysson Muotri quer estudar o Alzheimer em minicérebros a bordo.
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Por Poliana Casemiro, g1

Postado em 16 de Outubro de 2.026 às 13h00m
 
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Como vai ser a Haven-1, a primeira estação espacial comercial
Como vai ser a Haven-1, a primeira estação espacial comercial

Em 2027, pela primeira vez, astronautas devem dormir, trabalhar e fazer pesquisa numa estação espacial que não pertence e não é operada por nenhum governo, batizada de Haven-1. Uma das pesquisas que deve ir à bordo é a do neurocientista brasileiro Alysson Muotri, que pretende levar minicérebros humanos à órbita para estudar o Alzheimer.

Alysson Muotri é professor da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD) e um dos mais respeitados cientistas do mundo em transtornos do desenvolvimento neurológico, principalmente o autismo. Ele vai levar ao espaço seu projeto de minicérebros, estruturas criadas em laboratório a partir de células-tronco que imitam o cérebro de um bebê em formação.

A Haven-1, da empresa Vast, será a primeira estação comercial do mundo, um projeto sem precedentes que transforma a órbita em espaço para alugar. Como num hotel, laboratórios vão poder contratar sua “estadia” para desenvolver pesquisas.

Por dentro, ela também rompe com o que se conhece: camas infláveis, paredes brancas e lisas e compartimentos reservados aos experimentos de diferentes clientes.

O pesquisador brasileiro Alysson Muotri — Foto: Arquivo pessoal/Alysson Muotri
O pesquisador brasileiro Alysson Muotri — Foto: Arquivo pessoal/Alysson Muotri

O pesquisador chegou a ser cotado para uma viagem ao espaço em 2023, à bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), que ainda está em órbita, mas teve a ida suspensa, segundo ele por cortes de orçamento na agência espacial americana, Nasa.

No vídeo, ele mostra um protótipo da estação, que está em San Diego, na Califórnia.

“Esse daqui é o futuro laboratório espacial para crescimento dos minicérebros. A gente vai usar essa estrutura para acomodar os nossos minicérebros, envelhecê-los e trazê-los de volta para a Terra para fazer uma série de análises”, explica. 
Como vai funcionar a estação

A Haven-1 vai subir no foguete Falcon 9, da SpaceX. Cerca de um mês depois de entrar em órbita, deve receber os primeiros astronautas, que chegarão na cápsula Dragon, também da SpaceX, acoplada ao módulo.

Diferentemente da ISS, construída e operada por um consórcio de países, a nova estação é um empreendimento privado e será montada por etapas. A Haven-1 é o primeiro de uma série de módulos planejados pela Vast.

Desde o início, a ideia é que a estação funcione como plataforma de pesquisa aberta a empresas. As chamadas operadoras de carga científica levam a bordo experimentos próprios ou de clientes, que ocupam compartimentos lado a lado. Depois das análises, eles voltam para a Terra.

Com isso, o módulo inicial já deve abrigar ciência e inaugurar a transição da ISS para estações operadas pela iniciativa privada.

Um interior pensado para quem mora nele

A Haven-1 também rompe com o padrão visual das estações em operação hoje. A ISS acumula estruturas tubulares metálicas, cabos e equipamentos expostos, resultado de um projeto guiado pela necessidade.

Já o módulo da Vast tem paredes lisas, linhas limpas e um layout pensado para o conforto de quem passa semanas sem gravidade.

Heaven-1 vai ter camas infláveis — Foto: Vast
Heaven-1 vai ter camas infláveis — Foto: Vast

A entrada é feita pela porta de acoplamento da cápsula Dragon, ao lado da área de comunicação com a equipe em terra.

As camas da tripulação ficam nas laterais, junto aos compartimentos de armazenamento. Elas podem ser infladas para manter o corpo preso durante o sono, já que, sem gravidade, nada fica parado no lugar. Para Muotri, é uma forma de dormir no espaço muito melhor do que a disponível hoje na ISS.

Barras distribuídas pelas paredes servem de apoio para os astronautas se deslocarem flutuando pelo módulo.

Estação tem design diferente de estações já lançadas — Foto: Vast
Estação tem design diferente de estações já lançadas — Foto: Vast

Um trecho ainda em definição vai receber equipamentos de análise para os cientistas trabalharem a bordo. Os espaços de trabalho são compactos, com pontos de apoio para o pesquisador se fixar e, como brinca Muotri, “até olhar para cima quando tiver saudades da Terra”.

Um brasileiro cotado para a missão

Muotri dirige o programa de células-tronco da UCSD e colabora em pesquisas com a Nasa. A missão que pode levá-lo à Haven-1 como cientista-astronauta ainda está sendo desenhada e não tem data.

Segundo ele, o embarque depende de quando ficarão prontos os equipamentos de análise necessários a bordo.

  • Muotri será considerado o 1º cientista no espaço já que Marcos Pontes, o primeiro brasileiro, é engenheiro de formação e militar.

A Haven-1 é um projeto sem precedentes. Até hoje, todas as estações espaciais tripuladas foram construídas e operadas por governos. Nenhuma empresa privada jamais lançou e operou uma estação espacial própria, independente, que receba tripulação.

O cientista afirma acompanhar de perto o desenvolvimento da estação, inclusive os testes pré-voo, e diz não ter receio de participar de uma iniciativa sem precedentes.

“Estou confiante de que a Haven-1 será um sucesso”, afirmou.

Se o cronograma se cumprir, a órbita baixa terá em 2027 seu primeiro endereço privado. Antes mesmo de ganhar novos módulos, a Haven-1 vai testar se uma estação menor, mais confortável e compartilhada por empresas consegue sustentar a ciência que hoje depende da ISS.

Minicérebros para estudar o Alzheimer

O laboratório de Muotri vai abrigar minicérebros, nome popular dos organoides cerebrais. São estruturas cultivadas em laboratório que reproduzem o desenvolvimento e parte das funções do cérebro de um bebê.

Elas são produzidas a partir de células-tronco pluripotentes induzidas, as iPS: células adultas reprogramadas para voltar a um estágio semelhante ao embrionário, a partir do qual podem originar neurônios. Com elas, os cientistas estudam doenças neurológicas, o envelhecimento cerebral e o efeito de medicamentos.

O que são minicérebros? — Foto: Luisa Rivas e Ana Moscatelli | Arte g1
O que são minicérebros? — Foto: Luisa Rivas e Ana Moscatelli | Arte g1

O plano é fazer os organoides crescerem, amadurecerem e envelhecerem a bordo e depois trazê-los de volta para análise. Segundo o pesquisador, o ambiente espacial acelera o envelhecimento dos minicérebros, processo que deve ser descrito num estudo a ser publicado nas próximas semanas.

Organoides cerebrais já foram ao espaço uma vez, mas sem um cientista por perto. Agora, a proposta é conduzir os experimentos dentro da estação.

A primeira leva deve mirar doenças neurodegenerativas, sobretudo o Alzheimer. Também vão para a órbita moléculas da biodiversidade amazônica selecionadas por povos originários. A hipótese é que algumas delas ajudem a tratar essas doenças ou protejam os neurônios contra danos.

Derretimento de 'Geleira do Juízo Final' pode ter impacto duas vezes maior do que se imaginava no nível do mar, aponta estudo

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Pesquisa publicada na revista científica "Nature Communications" estima que a geleira localizada na Antártida Ocidental pode contribuir em até três centímetros para a elevação média global do nível do mar até 2100.
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Por Júlia Carvalho, g1

Postado em 16 de Outubro de 2.026 às 09h10m
 
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Geleira Thwaites, conhecida como 'Geleira do Juízo Final'. — Foto: NASA/James Yungel
Geleira Thwaites, conhecida como 'Geleira do Juízo Final'. — Foto: NASA/James Yungel

O derretimento da geleira Thwaites, conhecida como a "Geleira do Juízo Final", pode ter um impacto bem maior do que se imaginava na elevação do nível do mar.

Segundo uma pesquisa publicada na revista científica "Nature Communications" a geleira, localizada na Antártida Ocidental, pode contribuir em até três centímetros para a elevação média global do nível do mar até 2100.

⚠️O valor é aproximadamente o dobro da média de projeções anteriores consideradas pelos pesquisadores, mesmo em um cenário sem aquecimento climático adicional.

"Há décadas documentamos e quantificamos os impactos das mudanças climáticas sobre os mantos de gelo sensíveis do nosso planeta, mas a percepção crescente, nos últimos anos, do que está acontecendo na parte inferior de geleiras como a Thwaites está provocando uma sensação ainda maior de preocupação", afirmou Eric Rignot, coautor do estudo e professor de Ciências do Sistema Terrestre na Universidade da Califórnia, em Irvine.

De acordo com Rignot, o novo modelo desenvolvido pelo grupo traz uma representação física mais completa da região e foi capaz de mostrar que a entrada de água do oceano sob o gelo tem um papel importante no recuo da geleira.

Ao incorporar esse processo a um modelo computacional e compará-lo com observações de quase três décadas, os cientistas conseguiram reproduzir melhor as mudanças registradas na velocidade, na espessura e na posição da geleira.

Timelapse mostra geleira da Antártida recuando em ritmo recorde
Timelapse mostra geleira da Antártida recuando em ritmo recorde

Como a água do mar acelera o derretimento

A geleira Thwaites é conhecida como "Geleira do Juízo Final" pelo risco que seu derretimento representa ao planeta. Mas o tamanho da contribuição desse processo à elevação do nível do mar ainda é muito incerta.

Desde meados da década de 1990, a parte ocidental do bloco, por onde o gelo escoa mais rapidamente, recuou cerca de 25 quilômetros.

Esse recuo é impulsionado, em parte, pela água relativamente quente do oceano, que derrete a parte inferior do gelo. O processo ocorre especialmente na chamada "zona de aterramento", região de transição em que a geleira deixa de estar apoiada no fundo do mar e passa a flutuar.

Segundo os pesquisadores, muitos modelos computacionais tratam essa transição como uma fronteira estreita entre o gelo apoiado no leito marinho e o gelo flutuante, quase como uma linha.

Com isso, deixam de representar adequadamente a entrada de água do mar por quilômetros sob a geleira e o derretimento provocado por essa infiltração.

Mattia Poinelli, autor principal do estudo e também pesquisador da Universidade da Califórnia explica que, para corrigir essa limitação, a equipe desenvolveu um modelo que considera zonas de aterramento com entre dois e cinco quilômetros de largura.

"Observações por satélite demonstram a existência de uma 'zona de aterramento', que às vezes tem vários quilômetros de largura, onde a água quente do oceano alcança regiões profundas sob os mantos de gelo e provoca um derretimento intenso", detalha, em comunicado.

Os resultados indicaram que essa abordagem foi fundamental para reproduzir as mudanças observadas na Thwaites entre 1996 e 2023.

Geleira pode se desprender de elevação submarina

O estudo também aponta que a Thwaites permanece parcialmente estabilizada pela Crista Mouginot, uma elevação do fundo do mar que funciona como um ponto de apoio para o gelo.

Com o avanço do derretimento, a geleira pode perder esse apoio e recuar em direção a outra elevação submarina, chamada Crista Sul.

🗻Nas simulações, a probabilidade de a geleira se desprender da Crista Mouginot até 2100 chegou a aproximadamente 60% quando o modelo considerou zonas de aterramento de quatro a seis quilômetros, dimensão compatível com observações recentes por satélite. Nesse conjunto de simulações, o desprendimento poderia ocorrer já em 2038.

O momento em que isso acontecer influencia a quantidade de gelo perdida e, consequentemente, a contribuição da geleira para a elevação do nível do mar.

Os pesquisadores estimaram diferentes contribuições da geleira para a elevação média global do nível do mar até o fim do século, conforme a largura considerada para a zona de aterramento.

➡️As principais conclusões foram:

  • Sem representar a zona de aterramento: contribuição estimada de 8,3 milímetros
  • Com uma zona de aterramento de aproximadamente um quilômetro: 1,43 centímetros
  • Com uma zona de aproximadamente três quilômetros: 1,94 centímetros
  • Com uma zona de aproximadamente cinco quilômetros: 3,01 centímetros, com incerteza de 5,7 milímetros.

A última projeção é aproximadamente o dobro da contribuição média de 1,52 centímetros estimada pelo conjunto de modelos internacionais usados como referência no estudo.

Os cálculos foram feitos considerando condições climáticas médias do período de 1996 a 2023 mantidas ao longo das simulações.

Portanto, o cenário funciona como uma estimativa de limite inferior, que permite isolar o efeito do derretimento na zona de aterramento sem incorporar um aquecimento futuro adicional do clima.

Limitações do estudo

Os autores ressaltam que o modelo não representa todos os processos que podem influenciar a evolução da geleira.

Entre as limitações estão a ausência de mudanças na posição da frente de gelo provocadas pelo desprendimento de blocos e o uso de uma representação simplificada do derretimento causado pelo oceano, em vez de uma simulação completa da circulação da água sob a plataforma de gelo.

Além disso, a extensão da zona de aterramento foi mantida fixa nas simulações, embora possa variar conforme as características do fundo marinho, a inclinação do gelo, as marés e a pressão da água sob a geleira.

Os pesquisadores defendem que novas medições diretas de temperatura, salinidade e circulação da água sob o gelo são necessárias para reduzir essas incertezas e aperfeiçoar as projeções.

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