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sábado, 3 de maio de 2025

Por que maioria dos economistas diz que tarifas não funcionam — e o que argumenta quem as defende

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Muitos economistas acreditam que o livre comércio é o modelo mais benéfico para a economia global; ainda assim, o protecionismo tem seus defensores.
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TOPO
Por Guillermo D Olmo, BBC

Postado em 03 de Maio de 2.025 às 05h05m

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Trump anuncia tarifas recíprocas — Foto: REUTERS/Carlos Barria
Trump anuncia tarifas recíprocas — Foto: REUTERS/Carlos Barria

Poucas ideias geram tanto consenso entre economistas quanto o fato de que tarifas de importação são uma má ideia.

Apesar de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar estar convencido de que a imposição de tarifas sobre importações de outros países vai gerar "resultados históricos" que tornarão seu país "rico de novo", a maioria dos economistas considera essa medida um obstáculo ao progresso.

Trump impôs tarifas pesadas e as transformou em uma das bandeiras do seu segundo mandato.

Mas a maioria dos especialistas aponta que essa medida vai ser prejudicial, e que os principais prejudicados provavelmente serão os consumidores e as empresas americanas.

Como a ciência econômica chegou a essa conclusão negativa sobre as tarifas?

O que são tarifas e o que dizem seus defensores?

Tarifas são impostos cobrados sobre produtos importados que são pagos na alfândega pelos importadores.

Por exemplo, se uma empresa americana quiser importar madeira no valor de US$100 (R$ 568) e o governo americano tiver aplicado uma tarifa de 10% sobre o país de origem do produto, a empresa vai ter que pagar US$ 110.

Durante décadas, as tarifas foram um instrumento de políticas econômicas protecionistas, usadas em diferentes países por governos que buscavam proteger a indústria local da concorrência externa.

Os defensores do protecionismo acreditavam que a imposição de tarifas favoreceria o desenvolvimento da indústria nacional, que eles consideravam fundamental para o desenvolvimento econômico, e que estaria sendo prejudicado pela entrada de produtos estrangeiros.

Foi essa lógica defendida, entre outros, por Alexander Hamilton, um dos "pais fundadores" dos Estados Unidos, que propôs a imposição de tarifas para frear as importações da Grã-Bretanha e permitir que a indústria da jovem república americana decolasse.

A teoria protecionista sustentava que as restrições à concorrência estrangeira ajudariam a indústria nacional, que, com menos concorrentes de fora, poderia aumentar seus lucros e empregar mais trabalhadores locais. Além disso, equilibraria a balança comercial e contribuiria para a capitalização do país.

É a mesma lógica aparentemente adotada por Trump mais de dois séculos depois, ao defender que os carros americanos sejam fabricados dentro dos Estados Unidos e que a receita gerada pelos impostos sobre importação compense a arrecadação perdida com a redução de tributos que ele prometeu.

Tarifas de Trump podem levar à enxurrada de produtos chineses no Brasil
Tarifas de Trump podem levar à enxurrada de produtos chineses no Brasil

O que dizem os economistas de hoje sobre as tarifas

Há décadas, a ideia de que tarifas sobre importações fazem mais mal do que bem é dominante.

Nas palavras de Erika York, analista da Tax Foundation, um centro de análises dos Estados Unidos, "barreiras comerciais, como as tarifas, têm demonstrado causar mais prejuízos econômicos do que benefícios".

"[As tarifas] aumentam os preços, reduzem a oferta de bens e serviços, o que resulta em queda na renda, redução de emprego e uma menor produção", diz York.

Atualmente, a principal preocupação é que as tarifas provoquem um efeito imediato de alta nos preços, em um momento em que os Estados Unidos e o mundo começam a superar a onda de inflação dos últimos anos.

As tarifas impactam as margens de lucro dos fabricantes e importadores, o que em muitos casos vai impactar no preço final dos produtos, contribuindo para uma possível queda do consumo e, consequentemente, do crescimento econômico.

"Quando um produto é mais caro para uma empresa, ele será vendido por um preço mais alto para o consumidor, e o consumidor vai ter que pagar mais ou decidir não comprar, o que vai desacelerar a economia", explica Sebnem Kalemli-Özcan, professora de economia da Universidade Brown.

Por isso, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, alertou que as tarifas propostas por Trump têm "alto risco de gerar mais desemprego e mais inflação".

Os especialistas também criticam a "obsessão" de usar a balança comercial como um indicador da prosperidade de um país.

Trump costuma dizer que o déficit comercial dos Estados Unidos é prova de que seu país está sendo explorado pelo resto do mundo há anos.

Contudo, a balança comercial é apenas um indicador que mede o fluxo de bens e serviços e de capital, o que reflete nos fluxos financeiros, mas não necessariamente na saúde da economia.

York dá um exemplo de por que se focar apenas na balança pode ser enganoso.

Imagine que uma empresa americana envia um carregamento no valor de US$ 100 milhões à França. Como a quantia está saindo do país, ela é registrada como déficit para os Estados Unidos.

Se após vender os produtos na França, esse mesmo navio volta com mercadorias francesas avaliadas em US$ 30 milhões para serem vendidas, há uma redução no déficit na balança comercial, mas ele ainda soma US$ 70 milhões.

Só que, no fim das contas, essa empresa americana vendeu um total de US$ 130 milhões entre os dois países.

Outro ponto levantado pelos especialistas é que o protecionismo foi abandonado devido à percepção de que, embora possa trazer benefícios a curto prazo para um determinado setor industrial, a longo prazo acaba sendo prejudicial para a economia no geral.

Os agricultores locais, por exemplo, podem aumentar suas vendas e sua participação de mercado quando não têm que enfrentar concorrência estrangeira.

Mas, em larga escala, a falta de concorrentes levará a um encarecimento dos preços dos produtos e, possivelmente, a uma queda da qualidade que acabará afetando todos os consumidores.

"À medida que os consumidores gastam mais em produtos sobre os quais foi imposto a tarifa de importação, eles têm menos dinheiro para gastar em outros. Assim, uma indústria é sustentada às custas de outras", explica York.

As tarifas também são consideradas um imposto pouco justo, uma vez que incidem sobre os produtos sem considerar o nível de renda dos consumidores.

Como geralmente resultam em aumento dos preços, acabam afetando mais as pessoas com menos renda.

Por exemplo, se o preço dos abacates sobe 15% como resultado das tarifas, o impacto será maior para as famílias que têm pouca ou nenhuma margem financeira para lidar com esse aumento.

Segundo um estudo publicado por um grupo de economistas na revista acadêmica Journal of Purchasing and Supply Management, as tarifas acabam sendo prejudiciais até mesmo para setores que deveriam ser protegidos por elas.

"Ainda que as tarifas possam oferecer alguma proteção a certas indústrias, elas também podem criar ineficiências" tanto para essas empresas quanto para seus parceiros e clientes na cadeia de suprimentos, afirma o estudo.

Trump admite 'problemas de transição' com tarifas
Trump admite 'problemas de transição' com tarifas

O que a história nos ensina sobre as tarifas

A ideia de que o livre comércio é uma forma de prosperidade está presente entre os economistas clássicos há muitos séculos.

Adam Smith, considerado o pai da ciência econômica moderna, já defendia essa ideia em seu livro A riqueza das nações, de 1776.

Smith argumentou que o livre comércio permitiria a cada país se especializar nos produtos que lhe eram mais convenientes e com os quais obteria mais lucro, em vez de ter que produzir toda a demanda do seu mercado.

Várias experiências do passado levaram os economistas ao consenso atual sobre as tarifas e o protecionismo.

Robert Gulotty, professor de Ciência Política da Universidade de Chicago, lembra da Lei de Embargo de 1807, aprovada nos Estados Unidos para restringir o comércio com a Grã-Bretanha e a França.

"[A lei] teve como efeito uma redução drástica das importações e exportações dos Estados Unidos e a expansão do comércio britânico na América do Sul, o que levou à guerra de 1812", entre os Estados Unidos e sua antiga metrópole.

Recentemente, Joseph S. Stiglitz, Nobel de Economia, disse em uma conferência que o programa protecionista implementado pelos Estados Unidos na década de 1930, quando o país sofria uma grave crise econômica provocada pelo colapso da Bolsa em 1929, foi "um fator importante que contribuiu para a Grande Depressão".

"Não foi um programa de criação de emprego. Foi um programa de destruição de emprego", disse Stiglitz, alertando que a imposição de tarifas por um país pode desencadear medidas de retaliação de outros, algo que acontece há anos entre os Estados Unidos e China, as duas maiores economias do mundo.

"Sabemos que esse tipo de guerra comercial leva a uma redução nas condições de vida da população", afirmou Stiglitz.

Castigados por experiências como a da década de 1930, os líderes mundiais optaram, após o fim da Segunda Guerra, por remover barreiras comerciais no mundo todo, um movimento impulsionado, sobretudo, pelos Estados Unidos.

A assinatura em 1948 pelo Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT, na sigla em inglês) resultou em um sistema de maior abertura comercial e na eliminação generalizada de tarifas, o que levou à criação da Organização Mundial do Comércio em 1995, um legado que é visto positivamente pela maioria dos economistas.

Foi na era da globalização que, segundo Erika York, "o mundo abandonou as políticas comerciais protecionistas, movendo em direção a um sistema de comércio aberto baseado em regras", algo que "tem gerado benefícios, em geral, como aumento de renda, preços mais baixos e mais opções para os consumidores"

Após a Segunda Guerra Mundial, também se iniciou um processo de integração, que levou à criação da União Europeia, fundamental para a reconstrução do continente após o desastre deixado pela guerra e para o desenvolvimento que a Europa tem experimentado desde então.

Além disso, estudos sobre os episódios mais recentes, como as tarifas impostas a produtos chineses durante a primeira presidência de Trump, também revelaram mais prejuízos do que benefícios, e mostraram que quem acabou sofrendo o impacto dessa medida foram os consumidores americanos.

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sexta-feira, 2 de maio de 2025

Dune: o megaprojeto internacional que tenta desvendar a origem do universo - e a participação fundamental do Brasil

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Sediado nos EUA, experimento de R$ 20 bilhões tem estrutura grandiosa e quer responder perguntas sobre a formação de buracos negros e o surgimento da matéria.
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Por Yasmin Castro, g1 Campinas e Região

Postado em 02 de Maio de 2.025 às 07h30m

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Dune: o megaprojeto internacional que tenta desvendar a origem do universo

Um megaprojeto científico, considerado por especialistas como um dos mais ambiciosos da atualidade, vai contar com uma participação fundamental da ciência brasileira para responder perguntas sobre a origem do universo a partir do estudo de neutrinos, partículas subatômicas que surgiram após o Big Bang.

🤯 Mistérios como o surgimento da matéria e a formação dos buracos negros podem ser desvendados pelo Projeto Dune, que tem uma estrutura grandiosa – ligando dois estados norte-americanos – e receberá o investimento total de U$ 3,7 bilhões, aproximadamente R$ 20 bilhões.

Traduzido da sigla em inglês, o Experimento Subterrâneo Profundo de Neutrino (Deep Underground Neutrino Experiment) vai buscar respostas a partir da análise dessas partículas minúsculas que estão por toda a parte, inclusive, ao nosso redor (abaixo, entenda o que são os neutrinos).

Para isso, foram construídas duas cavernas a 1,6 quilômetro abaixo da superfície. Com 150 metros de altura por 150 metros de comprimento, elas contarão com quatro detectores de tamanho aproximado ao de um prédio de sete andares – recheados, cada um, com 17 mil toneladas de argônio líquido puríssimo, produzido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A universidade do interior de São Paulo também é responsável por um sistema de detecção de luz, o X-Arapuca, que vai garantir que cada reação seja registrada. O Projeto Dune está sediado no Fermilab, laboratório especializado em física de partículas de alta energia do Departamento de Energia dos Estados Unidos, do governo norte-americano, e deve iniciar os experimentos até 2030.

O g1 conversou com o professor Pascoal Pagliuso, coordenador da pesquisa pela Unicamp, para entender mais sobre o trabalho.

  1. O que são neutrinos
  2. Como o estudo dos neutrinos vai ajudar a entender a origem do universo
  3. Qual é a participação brasileira no Projeto Dune
  4. Como o Projeto Dune contribuirá com avanços científicos
  5. Quais os investimentos e quando será o start
Dune: megaprojeto internacional desvenda origem do universo — Foto: Arte g1
Dune: megaprojeto internacional desvenda origem do universo — Foto: Arte g1

1. O que são os neutrinos?

Os neutrinos são misteriosas partículas subatômicas – menores que um átomo – que surgiram segundos após o Big Bang – teoria mais aceita pela ciência para a origem e desenvolvimento do universo. São a segunda partícula elementar mais abundante, atrás apenas dos fótons.

Eles estão por toda parte, inclusive no planeta Terra – onde chegam, principalmente, por meio de reações nucleares naturais do Sol – e atravessam nossos corpos a todo instante como se fôssemos invisíveis: estamos mergulhados em um mar de neutrinos. 🌊

Apesar disso, não nos fazem nenhum mal. Na verdade, são imperceptíveis e praticamente indetectáveis. Passam por toda parte sem serem notados e sequer podem ser vistos – nem pelos microscópios mais potentes.

2. Como o Projeto Dune pode desvendar a origem do universo?

Os neutrinos raramente interagem com a matéria e justamente por isso é tão difícil estudá-los. No entanto, Pascoal explica que as propriedades deles estão fortemente relacionadas aos principais mistérios do universo e de sua criação.

É que a ciência já sabe que essas partículas estão presentes em alguns fenômenos desde o início da existência, mas ainda resta entender o porquê e qual a importância delas nesses processos – e é exatamente isso que o Dune busca compreender.

🌌 Big Bang e o equilíbrio entre matéria e antimatéria

A primeira pergunta que os cientistas esperam responder com a ajuda dos neutrinos é por que a matéria venceu a antimatéria na origem do universo. Entenda:

  • matéria é tudo o que podemos tocar, ver ou sentir, que tem massa e ocupa espaço, como o ar ou nosso próprio corpo;
  • antimatéria é o oposto, como a luz, que é energia, e o som, que é vibração no ar (esse, sim, é matéria).

Após o Big Bang, o universo passou a criar partículas de matéria e antimatéria em quantidades iguais. No entanto, algo quebrou esse equilíbrio e a matéria sobressaiu à antimatéria, levando ao surgimento dos planetas e, consequentemente, da vida. Uma das hipóteses, segundo Pascoal, é que os neutrinos tenham contribuído para que isso ocorresse.

💫 Formação de buracos negros

Outro mistério é a formação dos buracos negros que, normalmente, surgem a partir da explosão de uma estrela. "Quando uma estrela sofre uma explosão e vai colapsar para uma estrela de nêutrons ou para um buraco negro, dependendo da massa, uma das primeiras emissões que ela faz na explosão é um feixe de neutrinos", explica o pesquisador.

"Os neutrinos emitidos nessa explosão trazem informação do processo de formação do buraco negro. Dessa forma, estudando os neutrinos, nós podemos responder como ocorre a formação dos buracos negros e como que ele se desenvolve, como uma estrela, ao colapsar, desenvolve um buraco negro ou estrela de nêutrons e assim por diante".

🪐 Decaimento dos prótons

O próton é uma das partículas que formam o núcleo dos átomos. Pelos padrões da física, ele é considerado estável. No entanto, teorias avançadas sugerem que ele deveria decair, isto é, desintegrar e se transformar em uma partícula menor, como o neutrino.

Esse processo levaria bilhões de anos para acontecer e nunca foi, de fato, observado pela ciência. Como o argônio líquido puríssimo é rico em prótons e, durante o experimento, estará em um ambiente propício para esse tipo de evento, pode ser possível observá-lo caso ocorra.

O decaimento nunca foi testemunhado na prática: ele é apenas teoria. Se o fenômeno for observado e comprovado, deve tornar os modelos físicos mais completos, inclusive, ajudando a desvendar a Teoria de Campo Unificado, levantada por Albert Einstein – que poderia explicar os fenômenos eletromagnéticos e os unificar com a gravitação.

3. Qual é a participação brasileira no Projeto Dune?
Projeto Dune: túnel onde argônio líquido puríssimo será despejado para ação dos neutrinos — Foto: Fermilab/Divulgação
Projeto Dune: túnel onde argônio líquido puríssimo será despejado para ação dos neutrinos — Foto: Fermilab/Divulgação

Pascoal diz que o projeto Dune será responsável pelo “feixe de neutrinos mais intenso que a humanidade já produziu”. Porém, a análise de suas reações só será possível com a atuação de duas tecnologias desenvolvidas por cientistas da Unicamp: o processo de purificação de argônio líquido e o detector de luz X-Arapuca.

🧪 O argônio é um gás nobre sem cor, sem cheiro e muito estável. Quando resfriado a -184ºC, vira líquido. No experimento, a substância serve como meio para a ação dos neutrinos. É nela que a partícula vai "navegar" e ter suas reações. Além disso, existe a possibilidade de um neutrino interagir diretamente com o núcleo do argônio, gerando um efeito específico a ser estudado.

“Esse argônio líquido tem que ser ultra puro. É, mais ou menos como, você não poder ter uma gotinha de oxigênio numa piscina olímpica. Se você tiver uma gotinha de oxigênio líquido numa piscina cheia de argônio, vai estragar o experimento. E nós [Unicamp] desenvolvemos o método de purificação para fazer o argônio que será usado”, pontua Pascoal.

🌟 O X-Arapuca, por sua vez, é um dispositivo que captura a interação entre o neutrino e o argônio líquido. Quando o neutrino colide contra um átomo da substância, é gerado um clarão de luz UV. A ferramenta é capaz de "capturar" essa luz e transformá-la em algo visível, possibilitando a análise dos cientistas. Isso quer dizer que os neutrinos não serão vistos, mas suas interações, sim.

⚛️ Entenda como funcionará o experimento:

  1. os neutrinos serão gerados por meio de um acelerador de partículas em Chicago, no estado de Illinois;
  2. de lá, viajarão por 1,3 mil quilômetros até Dakota do Sul, por baixo da superfície;
  3. no trajeto, os neutrinos passarão por gigantescos detectores de partículas, recheados de argônio líquido puríssimo;
  4. o neutrino vai interagir com o núcleo do argônio, emitindo partículas carregadas de luz e cintilações de argônio;
  5. a luz será captada pelo X-Arapuca – serão 1,5 mil módulos desse tipo.

✨ Resumindo: as cintilações e cargas elétricas produzidas no argônio pela passagem do feixe de neutrinos informarão os cientistas sobre as transformações sofridas por essas partículas depois de viajarem debaixo da terra.

Essas reações podem trazer respostas para, pelo menos, três perguntas:

  • Por que a matéria predominou a antimatéria na formação do universo?
  • Como a explosão das estrelas cria buracos negros?
  • Os prótons podem decair? E, se sim, o que isso revela sobre a relação entre a estabilidade da matéria e a grande unificação de forças?

“Argônio é o meio, é o alvo do neutrino, é o meio pelo qual o neutrino vai passar e vai permitir a criação de partículas devido à passagem dele. Existe uma probabilidade de quando ele passar, ele criar outras partículas pela interação com o núcleo do argônio”, explica o professor.
4. Avanço científico e protagonismo para o Brasil

Pascoal Pagliuso ressalta que grandes experimentos científicos, como o Dune, trazem impactos tecnológicos relevantes para toda a sociedade. O próprio trabalho da Unicamp, por exemplo, deu origem a um método inovador de purificação de gases e líquidos, que poderá, no futuro, ser usado em outras situações.

“Estamos usando para o argônio líquido, é verdade, mas isso pode se aplicar em qualquer outro gás ou líquido, até para purificar oxigênio hospitalar ou reservar hidrogênio para combustíveis. A gente desenvolveu uma tecnologia que pode se converter em vários outros aspectos, de outras formas diferentes. Tanto que nós temos patente dessa tecnologia”, comenta.

Detector de lux X-Arapuca foi desenvolvido pela Unicamp e será utilizado no megaexperimento científico Dune — Foto: Felipe Bezerra/Unicamp
Detector de lux X-Arapuca foi desenvolvido pela Unicamp e será utilizado no megaexperimento científico Dune — Foto: Felipe Bezerra/Unicamp

O pesquisador também destaca a importância científica que o Brasil terá a partir da pesquisa. Para ele, sem a tecnologia criada pela Unicamp, o Projeto Dune não seria viável – ele define a instituição como uma líder integradora entre os envolvidos. Além disso, outras empresas do país também contribuem com o emprego de tecnologia e conhecimento.

“É um protagonismo que eu desconheço que o Brasil tenha tido no passado. Realmente, é muito importante porque é um experimento, um dos mais importantes da ciência no mundo na atualidade, que vai durar por muito tempo, né? Durante 20, 30 anos, a Unicamp e o Brasil estarão na vitrine da ciência e da tecnologia mundial”.
Quais são os investimentos e quando será o start

O Dune é um projeto internacional com a participação de 1,4 mil cientistas de todo o mundo – são mais de 200 instituições de 37 países.

A Unicamp é a principal representante brasileira, coordenando as equipes de pesquisa, e conta com a parceria do Grupo Akaer, de São José dos Campos (SP), e outras empresas coexecutoras, na produção das tecnologias desenvolvidas na instituição.

O investimento total corresponde a cerca de R$ 20 bilhões, sendo a maior fatia aplicada pelo próprio Departamento de Energia dos EUA. O Brasil aplica cerca de R$ 200 milhões – dos quais R$ 88,6 mi são aporte da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Caverna de 150 metros de altura e comprimento integra megaprojeto Dune — Foto: Ryan Postel/Fermilab
Caverna de 150 metros de altura e comprimento integra megaprojeto Dune — Foto: Ryan Postel/Fermilab

As escavações das cavernas terminaram em agosto de 2024. Agora o projeto está na etapa de construção dos equipamentos que vão compor a estrutura, como o acelerador de partículas, responsável pela emissão do feixe de neutrinos, o purificador de argônio, os detectores e o X-Arapuca.

A expectativa é que o primeiro feixe de neutrinos seja lançado em 2030, quando o experimento começará oficialmente. Pascoal Pagliuso explica, entretanto, que a estrutura pode começar a ser usada um pouco antes.

"É possível que a partir do ano de 2028 ou 2029, os detectores estarão prontos e já completos com o argônio líquido puro. Então, em princípio, o Dune pode funcionar no final de 2028 ou começo de 2029, estudando os neutrinos atmosféricos, ou seja, gerados pelo Sol ou por fontes do espaço".
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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Protecionismo de Trump aumenta aproximação entre países do Sul Global

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Brics fala em expandir ainda mais o grupo, que já dobrou de tamanho; Brasil vai atrás de investimentos na China
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Saulo Tiossida CNN , São Paulo
30/04/2025 às 22:41 | Atualizado 30/04/2025 às 23:06
Postado em 01 de Maio de 2.025 às 07h45m

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Na quarta-feira (30), o governo brasileiro concluiu a segunda viagem oficial à China em poucos dias. No último dia, a comitiva liderada pelo ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, cumpriu uma série de compromissos em Xangai. Entre eles, uma reunião com a presidente do Banco de Desenvolvimento dos Brics, Dilma Roussef.

Rui Costa também se encontrou com executivos da Spacesail, empresa chinesa de internet via satélite. Na pauta, investimentos em energia renovável e o desenvolvimento de tecnologia aeroespacial no Brasil.

“Teremos anúncios novos de investimentos, de parcerias entre empresas brasileiras e empresas chinesas para produzir no Brasil e desenvolver tecnologia”, disse o ministro nas redes sociais.

Na semana passada, o titular da pasta de Minas e Energia, Alexandre Silveira, também esteve no gigante asiático. Entre os compromissos, uma visita à montadora BYD em Shenzen. Foram discutidos mais investimentos em carros elétricos e em baterias de estabilização do sistema interligado nacional, que conecta grande parte da rede elétrica brasileira.

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A aproximação entre os dois países é reflexo da guerra tarifária de Donald Trump, que também impulsionou a busca pela expansão dos Brics. O grupo tem hoje dez países como membros plenos além de outros oito, com status menor, na qualidade de parceiros.

“Entendemos que os países parceiros serão candidatos prioritários à adesão plena. Não tenho dúvidas de que o processo de expansão será retomado muito em breve”, disse o chanceler russo, Sergei Lavrov nesta terça-feira (29) durante encontro dos ministros das Relações Exteriores do Brics, realizado no Rio de Janeiro.

Durante o evento, Lavrov ressaltou que os Bancos Centrais seguem com a tarefa de buscar meios independentes de pagamentos e que 65% das negociações dentro do Brics já acontecem em moedas locais.

A aliança de nações emergentes busca a independência do dólar, tentando se impor como uma força do multilateralismo frente ao protecionismo de Donald Trump, sob a bandeira de uma nova governança mundial.

“Não como um bloco de confronto, mas como uma coalizão de cooperação. devemos liderar pelo exemplo, reafirmando nossa crença em um mundo multipolar, onde a segurança é privilégio de poucos, mas um direito de todos”, disse o chanceler brasileiro Mauro Vieira.

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