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quarta-feira, 24 de maio de 2023

Mais de 10 milhões deixaram pobreza em 2022, aponta estudo; em 9 estados, pobres são maioria da população

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Segundo o estudo, dois fatores principais estão por trás da queda de pobreza em 2022, que impactou todos os estados brasileiros: a melhora do mercado de trabalho e a expansão de programas de transferência de renda, como o Auxílio Brasil. Taxa de pobreza brasileira caiu de forma geral entre 2021 e 2022, mas número de pobres no país ainda é elevado: são mais de 70 milhões de brasileiros.
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Por Clara Velasco, g1 — São Paulo

Postado em 24 de maio de 2023 às 08h00m

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Mulher vasculha lixo no entorno do Maracanã. Brasil ainda tem mais de 70 milhões de pessoas vivendo em situação de pobreza, aponta estudo. — Foto: Marcos Serra Lima/g1
Mulher vasculha lixo no entorno do Maracanã. Brasil ainda tem mais de 70 milhões de pessoas vivendo em situação de pobreza, aponta estudo. — Foto: Marcos Serra Lima/g1

Mais de 10 milhões de brasileiros saíram da linha de pobreza no país em 2022. Mesmo assim, a maioria da população de nove estados segue na pobreza -- ou seja, vive com uma renda mensal de até R$ 665,02.

Estas são as conclusões de um levantamento do Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), obtido com exclusividade pelo g1 e feito com base em dados de 2022 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE. O IJSN é um órgão ligado à Secretaria de Estado de Economia e Planejamento (SEP) do Espírito Santo.

O levantamento aponta que:

  • a taxa de pobreza brasileira caiu de 38,2% para 33% entre 2021 e 2022, para um nível mais próximo de 2020;
  • mesmo com a queda, o número de pobres no país ainda é alto: são 70,7 milhões de brasileiros vivendo em situações precárias; eram 81,2 milhões em 2021
  • todos os estados do país tiveram queda nas taxas de pobreza no último ano;
  • os estados com as maiores reduções foram Roraima (11,7 pontos percentuais) e Sergipe (9,7 p. p.), mas eles seguem com taxas elevadas, acima de 45%;
  • mesmo com queda, Maranhão segue como o estado com os maiores indicadores: seis a cada dez maranhenses vivem na pobreza.

Segundo o estudo, dois fatores principais estão por trás da queda de pobreza em 2022: a melhora do mercado de trabalho e a expansão de programas de transferência de renda, como o Auxílio Brasil (leia mais sobre isso abaixo). O programa foi turbinado no último ano do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), quando ele disputou e perdeu a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Melhora após recorde de pobreza em 2021

Mesmo com a melhora, os dados apontam que os indicadores continuam elevados de forma geral.

"A taxa de pobreza alcançada em 2022 retornou a um patamar próximo ao observado em 2020, que era de 32,7%”, diz Pablo Lira, doutor em Geografia e Diretor-Presidente do IJSN.

A queda do ano passado fica ainda mais evidente porque 2021 teve a taxa de pobreza mais alta dos últimos 11 anos.

Segundo dados divulgados pelo IBGE no final do ano passado, a pandemia da covid-19 fez disparar a pobreza no Brasil. Com isso, o número de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza bateu recorde em 2021 - fato que é confirmado pelos dados da pesquisa do IJSN, como é possível ver no gráfico abaixo.

A pesquisa mostra ainda que o número de brasileiros vivendo na extrema pobreza -- ou seja, com até R$ 208,73 por mês -- também diminuiu, recuando de 20 milhões em 2021 para 13,7 milhões em 2022. Isso significa que, no ano passado, 6,4% da população vivia nestas condições.

O pico também foi em 2021, com 9,4%. Mas o estudo destaca que, mesmo com a queda em 2022, os números também são considerados altos.

“A taxa de miséria brasileira mais recente é superior aos valores constatados em países como Colômbia (6,6%) e México (3,1%), segundo as estatísticas do Banco Mundial”, diz Lira. 
O cenário nos estados brasileiros

A pesquisa também destaca um dado alarmante: das 27 unidades da federação, 9 têm a maior parte da população composta por pessoas em situação de pobreza. Veja a lista:

  • Maranhão (58,9%)
  • Amazonas (56,7%)
  • Alagoas (56,2%)
  • Paraíba (54,6%)
  • Ceará (53,4%)
  • Pernambuco (53,2%)
  • Acre (52,9%)
  • Bahia (51,6%)
  • Piauí (50,4%)

Como é possível ver acima, os estados estão concentradas no Norte e no Nordeste -- regiões que tiveram os maiores avanços na pobreza durante a pandemia, como o IBGE apontou no final de 2022.

Essa situação fica evidente no mapa abaixo, em que é possível perceber que os estados do Norte e do Nordeste têm, de fato, indicadores mais altos que o resto do país -- quanto mais escuro for o vermelho, maior é a proporção da população que vive abaixo da linha da pobreza.

Maranhão, inclusive, já encabeçava o ranking de estado com a população mais pobre do país em 2021, segundo o levantamento. Mas o indicador do estado melhorou de um ano para o outro: passou de 67,5% da população para 58,9%.

Vendedora ambulante não consegue pagar R$ 1 em refeição popular em São Luís (MA)Vendedora ambulante não consegue pagar R$ 1 em refeição popular em São Luís (MA)

A pobreza afeta pessoas como a vendedora ambulante Madalena Pereira, que mora numa comunidade na periferia de São Luís. Ela vive com a neta e tem renda de R$ 600 mensais. Madalena costuma fazer uma das refeições em um restaurante popular mantido pelo governo do Maranhão que oferece comida a R$ 1, mas lida com a falta de recursos.

"Às vezes a gente não tem nem esse um real [para pagar o prato de comida]", diz.

Já as menores taxas de 2022 foram contabilizadas no Rio Grande do Sul (18,2%), no Distrito Federal (17,3%) e em Santa Catarina (13,9%).

Veja o ranking completo dos estados:

Proporção da população que vive abaixo da linha de pobreza:

  1. Maranhão: 58,9%
  2. Amazonas: 56,7%
  3. Alagoas: 56,2%
  4. Paraíba: 54,6%
  5. Ceará: 53,4%
  6. Pernambuco: 53,2%
  7. Acre: 52,9%
  8. Bahia: 51,6%
  9. Piauí: 50,4%
  10. Amapá: 49,4%
  11. Pará: 49,1%
  12. Sergipe: 47,9%
  13. Roraima: 46,8%
  14. Rio Grande do Norte: 46,2%
  15. Tocantins: 35,8%
  16. Rondônia: 31,1%
  17. Rio de Janeiro: 29,1%
  18. Minas Gerais: 27,5%
  19. Espírito Santo: 26,8%
  20. Goiás: 24%
  21. Mato Grosso: 23,3%
  22. Mato Grosso do Sul: 23%
  23. Paraná: 21,3%
  24. São Paulo: 20,4%
  25. Rio Grande do Sul: 18,2%
  26. Distrito Federal: 17,3%
  27. Santa Catarina: 13,9%
O que está por trás da queda em 2022?

O levantamento destaca que, depois de picos históricos registrados em 2021, as taxas de pobreza e extrema pobreza caíram em 2022 por conta, em parte, da expansão de programas de transferência de renda, como o Auxílio Brasil.

“Em 2022, ano eleitoral, o governo federal buscava implementar o Auxílio Brasil com valor de R$ 400. Esse valor foi elevado para R$ 600 pela atuação do Congresso Nacional, o que contribuiu para diminuir a vulnerabilidade social", diz Pablo Lira.

O estudo aponta que o alcance do Auxílio Brasil cresceu muito entre 2021 e 2022. Em 2021, 8,6% dos domicílios brasileiros eram de beneficiários do programa; um ano depois, a proporção aumentou para 16,9%.

Segundo anúncio do próprio governo federal em novembro do ano passado, o programa bateu recorde naquele mês ao atingir 21,53 milhões de famílias.

Em dezembro de 2022, o Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que a quantidade de famílias beneficiadas aumentou de 18 milhões em março de 2022 para 21,1 milhões em outubro - o que foi considerado pelo tribunal um excesso, já que análises estimavam que o número de famílias elegíveis para o programa em 2022 era de 17,62 milhões.

Auxílio Brasil foi criado em dezembro de 2021, por meio de lei que extinguiu o Bolsa Família. O valor do benefício chegou a R$ 600 em 2022, o que ajudou a diminuir os indicadores de pobreza no país, segundo o estudo. — Foto: Divulgação via BBC
Auxílio Brasil foi criado em dezembro de 2021, por meio de lei que extinguiu o Bolsa Família. O valor do benefício chegou a R$ 600 em 2022, o que ajudou a diminuir os indicadores de pobreza no país, segundo o estudo. — Foto: Divulgação via BBC

"Ademais, vários governos estaduais e municipais expandiram [programas de transferência de renda] ao longo dos últimos anos. O Espírito Santo é um exemplo disso. O estado conta com o Bolsa Capixaba e outros benefícios que complementam os repasses para pessoas inscritas no CadÚnico”, detalhou Lira.

O pesquisador também diz que, de forma nacional, “foi observada uma melhoria nos indicadores de mercado de trabalho".

"Uma evidência disso foi o recuo na taxa de desemprego de 13,2% em 2021 para 9,3% em 2022, segundo informações da PNAD/IBGE”, diz Lira.
Políticas públicas e transferência de renda

O pesquisador afirma ainda que, nos últimos anos, o país retornou ao Mapa da Fome da ONU e a questão histórica da miséria voltou a atormentar a vida dos brasileiros.

“É fato que a pobreza e extrema pobreza reduziram em 2022. Entretanto, ainda há um longo caminho para a reconstrução e reestruturação de políticas públicas de assistência social efetivas e com caráter de estado, que perpassem governos. Nesse sentido, será possível consolidar uma tendência de diminuição desses problemas”, diz Lira.

“Por fim, considerando os recentes aprimoramentos proporcionados pela retomada do programa Bolsa Família, bem como levando em conta os efeitos do Benefício Assistencial à Pessoa com Deficiência (BPC-LOAS) e de outras políticas públicas de assistência social nas escalas federal, estadual e municipal, a pobreza e a extrema pobreza provavelmente seguirão em tendência de redução em 2023”, afirma.

Como as taxas são feitas

O Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN) é uma autarquia governamental vinculada à Secretaria de Economia e Planejamento (SEP) do Estado do Espírito Santo.

Para o cálculo das taxas, foram consideradas as linhas de pobreza e extrema pobreza estabelecidas pelo Banco Mundial -- ou seja, US$ 6,85 per capita/dia e US$ 2,15 per capita/dia, respectivamente.

Os valores foram convertidos pela Paridade de Poder de Compra (PPC/2017), que é um método alternativo à taxa de câmbio e leva em conta o valor demandado para adquirir a mesma quantidade de bens e serviços no mercado interno de cada nação em comparação com o mercado norte-americano.

Assim, as referências mensais das linhas de pobreza e extrema pobreza tomadas como limites foram R$ 665,02 e R$ 208,73, a valores de 2022.

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terça-feira, 23 de maio de 2023

Tumba de mais de mil anos descoberta no Peru revela vida luxuosa de 'senhor das águas'

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Tumba com características únicas foi descoberta por arqueólogos na região de Lima.
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TOPO
Por BBC

Postado em 23 de maio de 2023 às 11h00m

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Cova de seis metros de profundidade é a mais antiga e profunda já encontrada no cemitério Matacón, que vem sendo estudado desde 2018 — Foto: EPA/via BBC
Cova de seis metros de profundidade é a mais antiga e profunda já encontrada no cemitério Matacón, que vem sendo estudado desde 2018 — Foto: EPA/via BBC

Um grupo de arqueólogos peruanos descobriu o que parece ser uma tumba pré-incaica, de 1.200 a 1.400 anos atrás, de uma "personalidade da elite" provavelmente dedicada a "atividades marinhas".

A tumba foi encontrada no vale de Chancay, a nordeste de Lima, e faz parte do que é conhecido como cemitério Matacón.

A cultura Chancay se desenvolveu na costa central do país, nos vales de Fortaleza, Pativilca, Supe, Huaura, Chancay, Chillón, Rímac e Lurín.

Os arqueólogos concluíram que a tumba recém-descoberta, a maior e mais antiga já encontrada na região, deve ter pertencido a uma pessoa de alto escalão na comunidade, pois foram encontrados os restos mortais dela com os de mais cinco pessoas — possivelmente parentes ou empregados que foram sacrificados, segundo disse à agência de notícias EFE o arqueólogo Pieter Van Dalen Luna.

Também foram encontrados 25 recipientes que continham comida e os restos mortais de quatro lhamas.

Foram encontrados restos mortais de seis pessoas e também de animais — Foto: EPA/via BBC
Foram encontrados restos mortais de seis pessoas e também de animais — Foto: EPA/via BBC


Objetos com tom de terra, e arqueólogo ao fundo subindo escada — Foto: EPA/via BBC
Objetos com tom de terra, e arqueólogo ao fundo subindo escada — Foto: EPA/via BBC

Os arqueólogos dizem que ainda são necessárias mais evidências e mais análises sobre os achados na tumba para que se possa chegar mais perto da identidade do dono da tumba.

Um remo foi encontrado. Segundo explicou o professor Van Dalen Luna à emissora da Universidade de San Marcos, este objeto não tinha sido encontrado em nenhuma das outras 80 tumbas que haviam sido escavadas anteriormente no cemitério.

“Pode ter sido uma pessoa dedicada à atividade marítima, de repente pescando ou coletando mariscos”, diz Van Dalen.

Esta cultura pré-incaica fez parte das chamadas populações aimarás. Elas povoaram áreas da Bolívia, do Peru e do Chile antes da expansão do império inca. Seu declínio coincidiu com a expansão de Tahuantinsuyo — que era como os incas se referiam à sua própria cultura.

A cerca de 50 metros da escavação estão algumas casas que podem ter sido chave para que o túmulo não fosse saqueado — Foto: EPA/via BBC
A cerca de 50 metros da escavação estão algumas casas que podem ter sido chave para que o túmulo não fosse saqueado — Foto: EPA/via BBC


O grupo de arqueólogos que fez a descoberta acredita que filhos e servos sacrificados foram enterrados ao lado do ‘senhor das águas’ — Foto: EPA/via BBC
O grupo de arqueólogos que fez a descoberta acredita que filhos e servos sacrificados foram enterrados ao lado do ‘senhor das águas’ — Foto: EPA/via BBC


Objetos encontrados no túmulo — Foto: EPA/via BBC
Objetos encontrados no túmulo — Foto: EPA/via BBC

O cemitério está localizado perto de uma área residencial, ocupada atualmente.

A cerca de 50 metros da escavação estão algumas casas que podem ter sido chave para que o túmulo não fosse saqueado.

“Se é verdade, por um lado, (que) a instalação das casas ocupou parte da zona arqueológica, por outro lado também tem permitido que os saqueadores (de sítios arqueológicos) não cheguem aqui”, disse o professor.

Ele destacou que são necessários recursos e apoio das autoridades para manter intacto esse tesouro arqueológico, que pode nos ajudar a entender melhor como os povos se estabeleceram nas Américas na antiguidade.

"Por que não pensar que este vale foi povoado por populações aimarás antes do ano 0 e do início desta era?", sugere Van Dalen.

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Por que os bancos brasileiros resistem melhor às altas de juros do que os americanos?

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Nos Estados Unidos, três bancos já quebraram e outros passam por dificuldades. Em contrapartida, as instituições brasileiras continuam lucrando, já que o sistema é mais concentrado e regulado, o que ajuda a explicar a resiliência. 
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Por Bruna Miato, g1

Postado em 23 de maio de 2023 às 06h10m

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Agência do First Republic Bank, em Nova York. — Foto: Reuters
Agência do First Republic Bank, em Nova York. — Foto: Reuters

Apesar dos últimos aumentos feitos nas taxas de juros, os bancos brasileiros continuam entregando resultados bilionários. No primeiro trimestre de 2023, o lucro agregado das quatro principais instituições financeiras do país foi de R$ 23,35 bilhões.

Curiosamente, essa realidade contrasta bastante com a situação dos bancos nos Estados Unidos.

Por aqui, o Banco do Brasil foi o banco com o maior lucro líquido do período: R$ 8,6 bilhões, alta de 29% no primeiro trimestre em relação a igual período de 2022. Em seguida, o Itaú Unibanco acumulou R$ 8,43 bilhões. Bradesco e Santander reportaram uma queda no resultado, mas ainda assim lucraram R$ 4,28 bilhões e R$ 2,14 bilhões, respectivamente.

Já na maior economia do mundo, desde meados de março, não param de surgir bancos com graves problemas, causados justamente pela elevação das taxas no país, que hoje chegam a 5,25% ao ano.

Esta matéria vai abordar:

  1. O que está acontecendo nos Estados Unidos
  2. Qual o "segredo" dos bancos brasileiros
  3. A prática dos bancos brasileiros com o sobe e desce dos juros
  4. As estratégias de investimentos adotadas pelos bancos americanos que não deram certo
  5. A concentração dos sistemas bancários nos dois países
  6. A forte regulamentação dos bancos no Brasil
O que está acontecendo nos Estados Unidos?

Com a disparada dos juros, que haviam sido zerados pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) no começo da pandemia, os clientes — tanto pessoas físicas quanto empresas — passaram a retirar seus recursos, que estavam rendendo muito pouco, dos bancos.

Parte desse dinheiro foi utilizada para pagar as contas, já que a inflação está alta no país, mas o outro montante foi reinvestido em outras instituições e aplicações financeiras, que ofereciam uma rentabilidade melhor.

Assim, parte dos bancos americanos sofreu uma grande quantidade de saques com os quais não estavam preparados para lidar.

No dia 10 de março, o primeiro caso de quebra veio do Silicon Valley Bank (SVB), banco regional que atendia muitas empresas de tecnologia, principalmente startups.

Apenas dois dias depois, o Signature Bank foi fechado por órgãos do sistema financeiro americano, também por problemas de liquidez. O mesmo aconteceu com o First Republic Bank, que no começo de maio foi comprado pelo gigante J.P. Morgan.

Qual o 'segredo' dos bancos brasileiros?

Não que os juros altos não atinjam os bancos brasileiros, mas isso ocorre de forma diferente. O grande problema de uma Selic maior é o crescimento da inadimplência (a quantidade de pessoas que fica devendo para o banco), que elevam também as provisões dessas instituições financeiras.

As provisões são valores reservados pelos bancos para cobrir eventuais calotes, e servem para garantir a saúde financeira e operacional dessas instituições.

Assim, quanto maior o juro, maior tende a ser o grau de endividamento das famílias — o que, consequentemente, aumenta os índices de inadimplência dos bancos e a quantia destinada a provisões, impactando negativamente no lucro dessas companhias.

No caso do Bradesco e do Santander, por exemplo, a inadimplência subiu a 5,1% e 3,2%, respectivamente, o que explica, em parte, a queda nos lucros desses bancos.

Já no Itaú Unibanco, a taxa se manteve estável em 2,9%. O Banco do Brasil também apresentou estabilidade, em 2,62%.

Mas há uma série de fatores que explicam por que uma quebra dos bancos no Brasil está tão distante, mesmo em um ambiente como esse. Segundo especialistas ouvidos pelo g1, as principais razões são:

  • 📈 o Brasil já é mais acostumado a viver com juros altos e longos ciclos de aperto monetário;
  • 💵 os bancos brasileiros têm uma estratégia de investimentos diferente dos americanos, que, na pandemia, investiram em títulos que os colocaram em um problema de liquidez, ou seja, não tinham dinheiro suficiente em caixa para os saques;
  • ⚖️ o Brasil conta com uma regulamentação mais conservadora e rígida para os bancos, como forma de proteger o sistema contra quebras;
  • 🏦 o sistema bancário brasileiro é bem mais concentrado que o americano, com poucos bancos contando com dezenas de milhões de clientes, o que reduz o risco de quebra.
Entenda mais detalhes abaixo.
Taxa Selic: entenda o que é a taxa básica de juros da economia brasileiraTaxa Selic: entenda o que é a taxa básica de juros da economia brasileira

Sobe e desce dos juros é comum no Brasil

Alexandre Silverio, diretor-executivo da Tenax Capital, explica que o Brasil já é um país acostumado com ciclos de aperto na política monetária e, por isso, os bancos sabem navegar na maré dos juros altos.

Dessa forma, quando a taxa Selic voltou a subir em 2021, em uma tentativa do Banco Central do Brasil de controlar a inflação, as principais instituições financeiras do país já começaram a projetar a possibilidade de os juros caminharem até um patamar de dois dígitos, o que de fato aconteceu.

Os bancos brasileiros também costumam adotar estratégias de investimentos que possam oferecer bons resultados em diversas situações.

Charbel Zaib, economista-chefe da Arcani Investimentos, afirma que, por aqui, as instituições costumam alocar boa parte de seus recursos nos títulos pós-fixados, que são aqueles que têm seu rendimento atrelado à variação da taxa de juros. Assim, se a Selic sobe, o título também vai render mais.

Estratégia de investimento equivocada

Nos Estados Unidos, a estratégia de investimentos foi outra: os bancos optaram por títulos prefixados. Esses títulos, como o próprio nome sugere, têm uma rentabilidade definida já no momento da compra. Ou seja, não variam se a taxa de juros sobe. E a escolha foi tomada justamente pela "falta de prática" dessas instituições com os juros altos.

Silverio diz que, desde a crise financeira de 2008, o Fed vinha trabalhando com taxas de juros baixas, que estimulam a economia em momentos difíceis.

Isso se intensificou em 2020, com a pandemia de Covid-19. Com as paralisações de atividade, o Fed passou a oferecer incentivos a pessoas e empresas para reduzir os impactos econômicos do período. Naquele momento, as taxas de juros foram zeradas.

De acordo com Zaib, parte desses incentivos econômicos foi usada pela população e pelas empresas para o pagamento das contas básicas, mas outra porção foi guardada nos bancos. Por se tratar de um momento de incerteza, a grande parte dos depósitos foi feita à vista, modalidade mais tradicional e que permite ao cliente pode sacar o dinheiro quando quiser.

Com as taxas de juros zeradas, parte dos bancos investiu os recursos depositados pelos clientes em um dos títulos do Tesouro americano, que oferecia uma rentabilidade acima da média, de cerca de 1,5% ao ano, mas que tinha um prazo de duração longo.

Conforme a inflação passou a subir e o Fed iniciou uma política de alta nos juros, a estratégia se mostrou ruim. Isso porque os clientes passaram a solicitar saques do dinheiro depositado e os bancos precisaram se livrar dos títulos do Tesouro com prejuízo.

"Daí o que aconteceu é até fácil de entender: se a pessoa tinha um recurso depositado no banco sem retorno algum e, de uma hora pra outra, os juros sobem para mais de 5% ao ano, ela retira esse dinheiro de onde está para investir em outra coisa que ofereça mais rentabilidade", diz Zaib.

Com a informação de dificuldades dos bancos se espalhando, ocorreram as chamadas "corridas bancárias" de clientes com medo de que as instituições quebrassem e lhes desse um calote.

Funciona como uma "profecia autorrealizável": quando muitas pessoas têm medo de que um banco quebre e correm para sacar o dinheiro, ele realmente quebra porque não tem recursos em caixa para atender toda a demanda.

Concentração do sistema bancário

Um consenso entre os especialistas é que é bastante improvável que uma corrida bancária no Brasil tenha os mesmos impactos que nos Estados Unidos. E isso pode ser explicado por um motivo simples: há um número muito menor de instituições financeiras, com muito mais clientes.

Marcelo Malta, diretor-executivo da Arcani Investimentos, destaca que os cinco principais bancos do país possuem dezenas de milhões de consumidores e, exatamente por isso, a probabilidade de que uma corrida bancária atinja uma porcentagem relevante dos clientes é muito pequena.

Já nos Estados Unidos, o sistema financeiro é muito pulverizado: há centenas de bancos, e a grande maioria deles conta com um percentual menor clientes em relação ao total da população.

"Em um banco com 500 mil ou um milhão de clientes, se 50% das pessoas resolvem sacar o dinheiro, isso com certeza vai quebrar o banco, porque o número total de contas é muito menor do que em bancos maiores, como os que existem no Brasil", aponta Malta.

Vale lembrar que os três bancos que quebraram nos Estados Unidos eram bancos regionais, de pequeno ou médio porte. Os riscos de que a crise chegue nos grandes bancos americanos são bem menores, de acordo com todos os especialistas consultados pela reportagem.

Para Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa, é justamente a forte pulverização naquele país que torna mais difícil que todo o sistema bancário americano quebre, já que se uma das centenas de bancos de pequeno ou médio porte quebrar, o impacto econômico será menor.

"Fazendo um paralelo com o Brasil, se um dos principais bancos daqui quebrasse seriam muitos milhões de clientes impactados, o que traria um problema enorme para todo o sistema. Então, mesmo que seja difícil, se um banco quebrasse no Brasil, o risco para toda a economia seria maior do que nos Estados Unidos", diz Sanchez.
Especialista diz se crise dos bancos nos EUA pode chegar no BrasilEspecialista diz se crise dos bancos nos EUA pode chegar no Brasil

Forte regulamentação brasileira

Matheus Amaral, analista de bancos do Inter Research, reafirma que o grande problema nos Estados Unidos é o "descasamento entre ativos e passivos", ou seja, o fato de os bancos não terem dinheiro em caixa suficiente para arcar com os saques.

Além das escolhas estratégicas de investimentos que não deram certo para aquelas instituições, o especialista destaca que a regulamentação dos bancos lá fora é bem menos rígida que no Brasil.

Há um órgão global, o Comitê de Basiléia, que prevê recomendações de regulações e reúne as melhores práticas bancárias para a promoção e a manutenção da estabilidade dos sistemas financeiros nos países.

No final dos anos 90, após a implementação do Plano Real e da falência de alguns bancos brasileiros, o país adotou as recomendações desse comitê, mas optou por aplicar medidas ainda mais restritivas para garantir a segurança.

Com as regras adotadas naquele momento, as instituições financeiras brasileiras passaram a ter a obrigação de manter um montante de patrimônio líquido mínimo para garantir a liquidez, por exemplo.

Essa reserva deve conter, para além da proporção indicada pelo Comitê de Basiléia, montantes específicos para arcar com os riscos de crédito de diferentes tipos de ativos.

Nos Estados Unidos, conforme explicam os especialistas, essas reservas são menores. Assim, os bancos do país operam com mais riscos, ponto que pode ser prejudicial em momentos, como o atual, de incertezas econômicas.

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