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terça-feira, 6 de junho de 2023

Como a gravidade era explicada antes de Newton

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Para responder essa pergunta, é preciso voltar na história da ciência até Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) até chegar ao físico inglês.
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TOPO
Por BBC

Postado em 06 de junho de 2023 às 11h35m

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O físico inglês Isaac Newton elaborou lei da gravitação universal — Foto: GETTY IMAGES via BBC
O físico inglês Isaac Newton elaborou lei da gravitação universal — Foto: GETTY IMAGES via BBC

A história da maçã caindo sobre a cabeça do físico inglês Isaac Newton (1643-1727) pode não passar de uma lenda. Mas é consenso que a lei da gravitação universal, o princípio que explica por que as coisas caem, foi formulado por ele na obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, em 1687.

Obviamente, as coisas já caíam antes de Newton. Mas como será que as pessoas encaravam o fenômeno? Qual era a explicação, até o século 17, para o que hoje chamamos de gravidade?

Muito anos depois de Newton, o físico alemão Albert Einstein (1879-1955) diria que "a gravidade é a primeira coisa em que não pensamos". Afinal, parece natural a ideia de que uma pedra arremessada caía, do mesmo jeito que uma fruta não colhida do pé, ou que um tropeço bobo seja prenúncio de um tombo.

No livro Por Que as Coisas Caem? Uma História da Gravidade, publicado pela editora Zahar em 2009, os astrônomos Alexandre Cherman e Bruno Rainho Mendonça partem da constatação de que a gravidade, sem dúvida, "é especial".

"Se não fosse, como explicar que os dois maiores gênios das ciências, Isaac Newton e Albert Einstein, tenham se dedicado a ela? E não só isso: tenham sido alçados a essa condição genial justamente por terem vislumbrado parte de seus segredos?", escreve Cherman.

Segundo ele, a importância da gravidade reside em dois fatores: ela é universal, "para usar uma palavra cara a Newton", e geral, "usando um termo querido de Einstein".

O marco zero do conceito de gravidade pode ser atribuído a Aristóteles — Foto: GETTY IMAGES via BBC
O marco zero do conceito de gravidade pode ser atribuído a Aristóteles — Foto: GETTY IMAGES via BBC

Mas como se explicava antes?

Para responder essa pergunta, é preciso voltar na história da ciência até Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.). O sábio grego é considerado um dos mais influentes pensadores da história ocidental — e muito da própria lógica do pensamento científico se deve a suas prerrogativas.

"Ele dividia um pouco os fenômenos a partir dos elementos, e entendia que havia uma tendência natural do objeto que pertencia a determinado elemento a voltar à posição desse elemento", explica à BBC News Brasil o físico Rodrigo Panosso Macedo, pesquisador de pós-doutorado no Instituto Niels Bohr, na Universidade de Copenhagen, na Dinamarca.

"Assim, se um objeto era feito de terra, sua tendência natural seria voltar para a terra, por isso ele cairia. Já um objeto feito de ar gasoso teria a tendência natural de voltar para o ar, por isso ele subia."

No livro em que é coautor, Bruno Rainho Mendonça volta um pouco mais no tempo e cita algumas referências à compreensão do fenômeno por parte de sábios hindus, antes mesmo de Aristóteles.

Uma representação pictórica possivelmente do século 8 a.C. indica que esses filósofos já acreditavam que a gravitação mantinha o Sistema Solar unido — e que o Sol, por ser o astro com a maior massa, deveria ocupar a posição central no modelo.

"Outro registro interessante também realizado na Índia Antiga pode ser encontrado no trabalho de um sábio hindu chamado Kanada, que viveu no século 6 a.C.", escreve.

"Foi ele quem fundou a escola filosófica de Vaisheshika."

Rainho Mendonça explica que Kanada associava "o peso" à queda, entendendo o primeiro como o causador do fenômeno.

"A intuição do sábio hindu estava no caminho certo, mas havia ainda um longo trajeto a ser percorrido em termos conceituais."

O astrônomo concorda, no entanto, que o marco zero no conceito de gravidade deve ser atribuído a Aristóteles, "pois apesar de seu trabalho nessa área não representar a realidade atual, o conhecimento nele difundido perdurou por muitos séculos após sua morte".

"Até a modernidade, com as novas pesquisas e teorias desenvolvidas na renascença […], a física aristotélica predominou em muitos centros de estudos da Antiguidade e Idade Média", diz à BBC News Brasil o físico, filósofo e historiador José Luiz Goldfarb, professor de história da ciência na PUC-SP.

"[Ele] explicava a queda dos corpos pela ideia de que a Terra era o centro do Universo, e os corpos pesados tendiam a ocupar seu lugar natural neste centro."

Em outras palavras, "é dizer que as coisas caem quando estão soltas, pois tendem a ocupar seu lugar natural no centro do Universo, a Terra", analisa Goldfarb.

Aristóteles acreditava que todos os corpos se movem em direção ao seu lugar natural — Foto: GETTY IMAGES via BBC
Aristóteles acreditava que todos os corpos se movem em direção ao seu lugar natural — Foto: GETTY IMAGES via BBC

Etimologicamente, é interessante notar que a palavra gravidade deriva do latim gravis — tem a mesma origem da palavra "grave", portanto. Seu campo semântico vai do "pesado" ao "importante", passando por sentidos como "poderoso".

Segundo o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, do filólogo e lexicógrafo Antônio Geraldo da Cunha, o termo "gravidade" já aparece a partir do século 13 — mas as variações "gravitar" e "gravitação" só surgem no século 18, indicando a repercussão da física newtoniana sobre as terminologias.

Em texto assinado por Cherman no livro Por Que as Coisas Caem?, há uma divagação sobre o termo em sânscrito para a gravidade: gurutvaakarshan.

"Repare o início da palavra: 'guru'. É justamente o termo usado para designar os respeitados mestres espirituais e chefes religiosos do hinduísmo", afirma.

"E, em uma corruptela, também resulta no grego 'barus' (pesado), origem da palavra ‘barítono’ (de voz grave)", acrescenta o astrônomo.

Já em um capítulo escrito por Rainho Mendonça no mesmo livro, ele explica que o uso do termo em latim gravis para designar o fenômeno da gravidade tem início a partir do século 8, com traduções de tratados científicos do mundo árabe para a Europa.

"E é assim que surge o termo que é objeto de nosso estudo: gravidade", diz o pesquisador.

"E no contexto que nos interessa, pois ao se referir a objetos de grande peso, as traduções latinas usavam a palavra cuja raiz é o adjetivo gravis, grave, que significa 'pesado'."

"Não é possível precisar a primeira vez que esse termo foi empregado", observa o autor.

Mas, para ele, o surgimento das primeiras universidades europeias, onde o latim era a língua oficial, contribuiu para a disseminação da nova nomenclatura. "[… nas] universidades de Bolonha, Paris, Oxford, entre outras, que utilizaram a maioria daquelas obras [árabes] traduzidas."

Outras teorias surgiram nos 2.000 anos que separam Aristóteles e Newton — Foto: GETTY IMAGES via BBC
Outras teorias surgiram nos 2.000 anos que separam Aristóteles e Newton — Foto: GETTY IMAGES via BBC

Embora o pensamento aristotélico tenha predominado, sobretudo no mundo ocidental, e a Idade Média tenha entrado para a história como a "era das trevas" no que tange à evolução do conhecimento, é inegável que houve avanços científicos nos 2.000 anos que separam Aristóteles e Newton.

"Hoje historiadores da ciência conseguem detectar pensadores da Antiguidade e da Idade Média que já elaboraram ideias com maior proximidade da teoria newtoniana do que a física aristotélica, ainda que oficialmente prevalecesse a teoria do filósofo grego", afirma Goldfarb.

O livro Por Que as Coisas Caem? oferece um panorama desse cenário. Rainho Mendonça cita, por exemplo, as pesquisas do filósofo árabe Abu Yusuf al-Kindi (801-873).

"Em seu tratado Sobre Raios (Solares), ele declarou que os astros exerceriam uma força sobre os objetos e sobre as pessoas."

"Essa força estaria associada à radiação dos astros, que se propagaria em linha reta pelo espaço e influenciaria as coisas na Terra", diz o astrônomo.

Um pouco mais tarde, o filósofo de origem judaica Solomon Ibn Gabirol (1021-1058) também se debruçou sobre o tema, "com um raciocínio simples, mas incipiente", como pondera Rainho Mendonça.

A contribuição dele foi para a noção da inércia.

"Segundo ele, substâncias extensas e pesadas seriam mais imóveis que outras mais leves", explica.

Já o filósofo e astrônomo iraniano Abd al-Rahman al-Khazini (1077-1155) apresentou a ideia de que corpos pesados em queda se moviam sempre em direção ao centro do planeta.

"Porém, ainda mais interessante foi sua proposição de que a thiql (termo em árabe que muitos autores traduzem como 'gravidade') dos corpos dependia de suas distâncias em relação ao centro da Terra", acrescenta.

Será que Isaac Newton 'descobriu' gravidade? — Foto: GETTY IMAGES via BBC
Será que Isaac Newton 'descobriu' gravidade? — Foto: GETTY IMAGES via BBC

Embora tenham surgido muitas teorias nesse intervalo de tempo, uma ideia predominou — e, de certa forma, é muito próxima ao conceito da inércia.

Segundo o físico Fábio Raia, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, "a teoria mais difundida […] era a teoria do ímpeto […], que dizia que o contínuo movimento de um corpo se dá pela ação contínua da força".

"Quando essa cessava, o corpo voltaria ao seu estado de movimento natural", diz ele à BBC News Brasil.

Rainho Mendonça ressalta, nesse ponto, o papel fundamental do filósofo alexandrino Iohannes Philoponus (490-570).

"De acordo com ele, ao ser arremessado, um corpo recebe uma espécie de força motriz, que seria transferida do lançador para o projétil, permanecendo nele mesmo após o fim do contato. Com o passar do tempo, tal 'força' se dissiparia espontaneamente, fazendo com quer o movimento se encerrasse", explica.

No caso da queda de objetos, contudo, Philoponus já entendia que essa força era provocada por algo que hoje é definido como gravidade.

"Segundo essa ideia, a Terra exercia uma atração sobre os objetos, que os puxava em direção ao seu centro", explica à BBC News Brasil o filósofo Andrey Albuquerque Mendonça, professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM-SP).

Ele lembra, no entanto, que havia vozes dissonantes, como a do filósofo e teólogo francês Jean Buridan (1301-1358), que "propôs uma teoria alternativa para explicar a queda dos objetos".

"Ele argumentou que os objetos caíam devido a uma força interna que os impelia para baixo, mas não conseguiu explicar o que causava essa força."

Vale lembrar que tanto Leonardo da Vinci (1452-1519) quanto Galileu Galilei (1564-1642) estudaram a queda dos objetos. De acordo com Albuquerque Mendonça, o primeiro "propôs que a velocidade da queda dependia da densidade do objeto e da resistência do ar", enquanto o segundo "determinou que todos os objetos caíam com a mesma aceleração, independente do seu peso".

Nenhum dos dois, no entanto, conseguiu chegar a uma lei universal para o fenômeno.

'A gravidade é a primeira coisa em que não pensamos', segundo Einstein — Foto: FERDINAND SCHMUTZER/BIBLIOTECA NACIONAL DA ÁUSTRIA
'A gravidade é a primeira coisa em que não pensamos', segundo Einstein — Foto: FERDINAND SCHMUTZER/BIBLIOTECA NACIONAL DA ÁUSTRIA

A sacada de Newton foi genial porque ele conseguiu, certamente com o conhecimento acumulado por seus antecessores, não só entender uma força universal e fundamental, como também torná-la um fenômeno explicável.

Foi uma verdadeira revolução científica.

"Ele incorporou em suas teorias as novas concepções cosmológicas, afastando-se do universo aristotélico", resume Goldfarb.

"Assim não se pensava mais na queda para o lugar natural, mas surgia a concepção da atração entre os corpos, a lei da gravitação: a matéria atrai matéria na razão direta das massas e pelo inverso do quadrado da distância entre os corpos."

Segundo ele, foi quando deixou-se de "pensar em tendências para ocupar o lugar natural" e começou-se a "entender os movimentos de queda dos corpos como o resultado da atuação da força que a Terra exerce sobre os corpos".

"Podemos concluir que a mecânica introduzida por Newton envolve profundas alterações no modo como o mundo moderno passou a conceber o cosmos, os corpos e as leis que regem seus movimentos", diz ele.

"A teoria de Newton foi um marco importante na história da ciência e é considerada uma das maiores conquistas intelectuais da humanidade", define Albuquerque Mendonça.

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Deezer propõe ferramenta para detectar música gerada por inteligência artificial

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O sistema servirá principalmente para detectar músicas que usam "vozes sintéticas de artistas existentes". Segundo a Deezer, mais de 100.000 músicas ou criações musicais entram na plataforma todos os dias.
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Por France Presse

Postado em 06 de junho de 2023 às 10h45m

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Site do serviço de música por streaming francês Deezer — Foto: Reprodução/Deezer.com
Site do serviço de música por streaming francês Deezer — Foto: Reprodução/Deezer.com

A plataforma de música Deezer apresentou nesta terça-feira (6) uma ferramenta tecnológica que permitirá identificar as músicas que clonam as vozes de cantores usando inteligência artificial (IA).

"Nosso objetivo é eliminar o conteúdo ilegal e fraudulento, aumentar a transparência e desenvolver um novo sistema de remuneração pelo qual artistas profissionais sejam recompensados pela criação de conteúdo", afirmou o CEO da Deezer, Jeronimo Folgueira, em comunicado.

"É por isso que (...) desenvolvemos ferramentas para detectar conteúdos gerado por IA", acrescentou.

O sistema servirá principalmente para detectar músicas que usam "vozes sintéticas de artistas existentes".

"As informações servirão para apontar para artistas, gravadoras e usuários o conteúdo gerado pela IA na plataforma", detalha Folgueira.

Este novo sistema visa "desenvolver um modelo de remuneração que estabeleça uma distinção entre os diferentes tipos de criação musical".

A inteligência artificial fez uma entrada relâmpago na indústria da música, como no mundo da arte em geral.

Em meados de fevereiro, o DJ francês David Guetta anunciou que usou IA para reproduzir uma voz semelhante a do rapper americano Eminem em um de seus shows.

Guetta explicou à BBC que não iria comercializar aquela música, mas que sua intenção era "abrir o debate".

Segundo a Deezer, mais de 100.000 músicas ou criações musicais entram na plataforma todos os dias.

"A IA pode ser usada para criar novos conteúdos incríveis e acredito que a IA generativa pode gerar enormes benefícios", explicou o CEO da plataforma. "Mas precisamos garantir que isso seja feito com responsabilidade", concluiu.

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domingo, 4 de junho de 2023

O que são as esferas de Klerksdorp, pedras misteriosas encontradas em rocha de 2,8 bilhões de anos?

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Descoberta de rochas que datam de período onde não havia vida inteligente na Terra alimenta teorias sobre uma presença extraterrestre.
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TOPO
Por BBC

Postado em 04 de junho de 2023 às 07h00m

 #.*Post. - N.\ 10.814*.#

As ranhuras que atravessam as esferas chamaram a atenção dos que acreditam na vida extraterrestre — Foto: GETTY IMAGES via BBC
As ranhuras que atravessam as esferas chamaram a atenção dos que acreditam na vida extraterrestre — Foto: GETTY IMAGES via BBC

Na segunda metade do século 20, começaram a surgir relatos de descobertas misteriosas nas minas perto da cidade de Ottosdal, na África do Sul.

Os artefatos encontrados eram esferas, polidas e com linhas perfeitamente esculpidas, que se assemelhavam muito a uma bola de críquete.

À primeira vista, parecia que esses objetos, que não passavam de 10 centímetros de diâmetro, haviam sido esculpidos pela mão humana e faziam parte do patrimônio arqueológico de uma civilização antiga.

No entanto, o surpreendente é que as bolas foram descobertas dentro de uma rocha de pirofilita (um mineral usado para esculturas chinesas) formada há cerca de 2,8 bilhões de anos.

Ou seja, uma época em que não havia vida inteligente na Terra.

As esferas foram levadas para a cidade de Klerksdorp, no norte da África do Sul, para serem estudadas e posteriormente expostas no principal museu da cidade.

Por esse motivo, ficaram conhecidas como esferas de Klerksdorp.

No entanto, no início dos anos 1980, artigos começaram a circular em publicações populares de pseudociência atribuindo às pedras uma origem alienígena e observando que elas eram "evidências de uma presença extraterrestre" na Terra antes do aparecimento dos humanos.

Um desses artigos foi assinado por um pesquisador chamado Michael Cremo e foi publicado em um portal de notícias.

“Essas publicações surgiram devido à falta de estudos geológicos que explicassem a verdadeira origem dessas pedras”, disse à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, o geólogo sul-africano Bruce Caircorne, da Universidade de Joanesburgo.

A pressão e o calor dentro das rochas produzem essas esferas em forma de bola de críquete — Foto: BRUCE CRAINCROSS via BBC
A pressão e o calor dentro das rochas produzem essas esferas em forma de bola de críquete — Foto: BRUCE CRAINCROSS via BBC

Cairncross aponta que as esferas estão longe de ser um mistério, muito menos um possível vestígio da passagem de seres extraterrestres em nosso planeta.

“Acreditava-se que não havia necessidade de explicar algo que parecia óbvio: que as pedras haviam sido extraídas de rochas formadas há bilhões de anos”, disse o geólogo.

"Embora possa ser entendido que eles chamam a atenção, esses tipos de esferas são muito comuns nas formações de pirofilita."

Mas como eles conseguiram essa forma?

Milhões de anos de formação

Como aponta o portal IFLScience, durante a década de 1980, vários artigos de pouca base científica passaram a apontar que as esferas de Klerksdorp haviam sido feitas por "uma civilização superior, uma civilização anterior ao grande dilúvio da qual praticamente nada sabemos".

Conforme observado por outras reportagens, como a Lapidary Magazine, alguns meios de comunicação foram além e acrescentaram que as esferas giravam sozinhas dentro da vitrine onde haviam sido colocadas.

Por isso, uma sociedade conhecida como Society for the Rational Investigation of Paranormal Phenomena buscou a colaboração de Cairncross para refutar os argumentos que ganhavam cada vez mais adeptos.

"Não bastava a explicação básica: que eles surgiram de uma formação de mais de 2,8 bilhões de anos, mas tivemos que ir mais fundo: explicar como eles se formaram", diz o acadêmico.

Para isso, ele explicou que as pedras foram encontradas em uma formação conhecida como "grupo dominante".

“A principal característica é o que forma esse conglomerado, com várias camadas de lava vulcânica que se depositaram no topo e que, depois de muita pressão e calor, se transformaram em pirofilita, que é o que recobre as esferas”, disse.

O próprio geólogo indica que a peculiaridade das pedras se deve ao fato de terem permanecido por milhões de anos sob a pressão e o calor que se formam dentro de uma rocha maior que de alguma forma as "abriga", e terem sido expostas à erosão da água.

Cairncross aponta que as esferas estão longe de ser um mistério, muito menos um possível vestígio da passagem de seres extraterrestres em nosso planeta — Foto: BRUCE CRAINCROSS via BBC
Cairncross aponta que as esferas estão longe de ser um mistério, muito menos um possível vestígio da passagem de seres extraterrestres em nosso planeta — Foto: BRUCE CRAINCROSS via BBC

"As esferas são conhecidas como concreções: objetos esféricos, elípticos ou achatados formados por diversos minerais que estão na rocha hospedeira. E são bastante comuns, tendo sido encontrados milhares ao redor do mundo", observa o geólogo.

Estas concreções, acrescenta o especialista, encontram-se em rochas de grão fino, como a pirofilita que abunda naquela região da África do Sul.

Explicações pseudocientíficas se espalharam

Cairncross aponta que uma das razões pelas quais ele decidiu dar uma explicação mais ampla sobre as esferas foi porque muita gente estava acreditando no que divulgavam as publicações pseudocientíficas.

O geólogo se refere a uma revista que noticiou que as esferas tinham sido levadas para a Agência Espacial dos Estados Unidos (NASA) e citava um relatório que indicava a suposta produção das peças "num local com gravidade zero".

Mas o especialista aceita que as esferas de Klerksdorp tenham uma particularidade que talvez não se veja em todas as esferas semelhantes que já foram encontradas no mundo: as linhas paralelas que as atravessam, aquelas que lhes dão a aparência de uma bola de críquete.

"Na verdade não são linhas, mas camadas", diz o geólogo.

"Isso é um produto dos rastros deixados pela rocha hospedeira, que se acumularam em camadas ao longo de muito, muito tempo, criando o efeito que você pode ver agora", diz ele.

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sábado, 3 de junho de 2023

Pioneiro, perigoso e desconhecido: o avião de passageiros mais rápido do mundo construído pela União Soviética

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Concebido em meio à Guerra Fria, o Tupolev Tu-144 voou antes mesmo do famoso Concorde. Mas uma carreira de mistérios, problemas operacionais e até suspeitas de espionagem levaram o modelo, apelidado de 'Concorski', ao esquecimento.
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Por Daniel Médici, g1

Postado em 03 de junho de 2023 às 06h15m

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Tupolev Tu-144, apelidado de 'Concordski', com as bandeiras da Rússia e dos EUA pintadas na cauda, é exibido em aeroporto em Moscou, em 17 de março de 1996 — Foto: AP/Arquivo
Tupolev Tu-144, apelidado de 'Concordski', com as bandeiras da Rússia e dos EUA pintadas na cauda, é exibido em aeroporto em Moscou, em 17 de março de 1996 — Foto: AP/Arquivo

No dia 31 de dezembro de 1968, em um aeroporto nos arredores de Moscou, um grupo de engenheiros soviéticos estava em êxtase: pela primeira vez, um avião de passageiros mais rápido que a velocidade do som havia saído do chão. Eles haviam largado à frente no que imaginavam ser a próxima fronteira da aviação.

Essa aeronave era o que de mais moderno havia em seu tempo. Alguns de seus feitos jamais foram superados - e, no entanto, o Tupolev Tu-144 fez pouco mais de 100 voos oficiais antes de ser aposentado, caindo no esquecimento em seguida.

Por que uma das máquinas mais pioneiras da história é tão desconhecida? E por que ela provou ser um fracasso retumbante?

A história do Tu-144 se mistura com a da Guerra Fria e envolve suspeitas de espionagem, propaganda e mistérios até hoje não esclarecidos.

A batalha pelos céus

“A gente pode afirmar que o Tu-144 foi usado como uma tremenda de uma ferramenta de propaganda”, define o consultor em aviação Gianfranco Beting.

Nos anos 1960, havia uma disputa entre a União Soviética e as potências ocidentais pela supremacia tecnológica. Enquanto EUA e Moscou tomavam a frente na corrida espacial em direção à conquista da Lua, engenheiros também desenvolviam aviões de passageiros maiores e mais velozes.

“Havia duas correntes de pensamento”, afirma Beting. “Uma que apontava para o incremento da velocidade, enquanto outra dizia que o futuro estava no incremento de tamanho [dos aviões].”

Os EUA tentaram, mas fracassaram em criar um avião de passageiros mais rápido que o som. Na Europa, as empresas British Aircraft Corporation e a francesa Sud Aviation uniram esforços para desenvolver o que seria o Concorde.

'Concordski'

No bloco soviético, os engenheiros da Tupolev tomaram as rédeas do projeto - e, para a surpresa dos ocidentais, conseguiram fazer um protótipo levantar voo cerca de dois meses antes dos europeus. A semelhança motivou o apelido jocoso do modelo: 'Concordski'.

O sucesso até hoje motiva debates sobre o possível roubo de informações do projeto do Concorde por espiões russos - algo que Beting, autor de diversos livros sobre aviação, contesta.

“Até por uma questão de guerra mesmo, de propaganda entre nações, foi muito conveniente dizer que o Tupolev 144 era uma cópia do Concorde”, ele diz.

“Mas quando a gente analisa os projetos de perto, a gente vê que não é bem assim. O 144 era mais rápido, maior, tinha uma série de soluções de engenharia muito diferentes”, explica Beting, apontando para pontos cruciais, como a posição dos motores na asa.

Tupolev Tu-144 é exibido nas cores da Aeroflot à frente de Concorde, da Air France, em museu na Alemanha — Foto: Daniel Maurer/AP/Arquivo
Tupolev Tu-144 é exibido nas cores da Aeroflot à frente de Concorde, da Air France, em museu na Alemanha — Foto: Daniel Maurer/AP/Arquivo

Em 1970, ainda em fase de testes, o Tu-144 se tornou o primeiro avião de passageiros a superar Mach 2 - ou seja, duas vezes a velocidade do som (para fins de comparação, isso seria o equivalente a quase 2.500 km/h a nível do mar). Atualmente, um avião em velocidade de cruzeiro raramente ultrapassa os 1.000 km/h.

Os avanços no projeto do Tupolev, porém, escondiam uma série de problemas que iriam se tornar fatais mais adiante.

Para Beting, as inovações de um avião supersônico estavam muito à frente das capacidades tecnológicas e industriais da União Soviética na época. A vontade política de mostrar pioneirismo fez com que o Tupolev levantasse voo com um desenho menos refinado e motores mais “beberrões” que o Concorde. Até a qualidade da borracha soviética impedia que um trem de pouso mais leve fosse instalado, por exemplo.

O acidente em Paris

Para a opinião pública, a defasagem do Tupolev foi atestada com uma tragédia durante um voo de exibição em frente aos olhos do Ocidente.

Durante o Paris Air Show de 1973, no aeroporto francês de Le Bourget, Concorde e Tupolev ficaram lado a lado. Nenhum deles havia entrado em operação regular, mas a expectativa era grande no setor.

No dia 3 de junho - há exatos 50 anos -, pouco após a demonstração do Concorde, o Tupolev Tu-144 decolou, fez um rasante sobre a pista e, em seguida, entrou em uma série manobras bruscas, que fizeram a aeronave se desintegrar em pleno ar.

Vilarejo de Goussainville, na França, em meio a escombros após a queda do Tupolev Tu-144, em 1973 — Foto: Michel Lipchitz/gk/AP/Arquivo
Vilarejo de Goussainville, na França, em meio a escombros após a queda do Tupolev Tu-144, em 1973 — Foto: Michel Lipchitz/gk/AP/Arquivo

Todos os seis ocupantes morreram, além de outras oito pessoas em solo, no vilarejo de Goussainville.

Nem as autoridades francesas, nem as soviéticas foram completamente transparentes quanto à fatalidade. Especula-se que a França tenha posicionado um caça Mirage para voar perto do Tupolev - possivelmente para coletar informações do projeto, resultando em manobras evasivas do piloto russo.

“Isso é uma questão muito difundida. O fato é que foram excedidos os limites estruturais do avião, levando à ruptura da asa. Isso está filmado, muita gente viu, muita gente testemunhou o acidente”, conta Gianfranco Beting.

O mais perigoso de todos os tempos

Uma vez em operação, também antes do Concorde, os pontos fracos do Tu-144 ficaram claros até para as autoridades soviéticas e os operadores da aeronave.

O risco era tal que, antes de levar passageiros, o primeiro avião comercial supersônico do mundo passou anos levando somente carga e correspondência entre Moscou e a cidade de Almaty, que fica no atual Cazaquistão. A rota, inclusive, foi a única em que o modelo operou em toda a sua vida útil.

Para Beting, “o 144 foi sendo produzido e testado num ritmo alucinante em relação ao desenvolvimento tecnológico. Muita coisa ficou pelo caminho e, quando o avião ficou pronto pra voar, ele começou a mostrar uma série de problemas”.

Segundo o pesquisador, foram feitos somente 55 voos com passageiros entre 1977 e 78. Contando os voos de carga, foram 103 no total: “Um projeto completamente fracassado, sob vários aspectos”.

“Isso é uma coisa incrível”, completa. “Foram 181 horas voadas e, dentro delas, foram registradas 226 falhas - oitenta delas em voo. Isso é o que está, pelo menos, guardado nos livros. Esse número pode ser ainda maior.”

Isso é o suficiente, segundo Beting, para colocar o Tu-144 no topo da lista de aviões de passageiros mais perigosos para se voar.

Perigo e desconforto

O voo supersônico não era nem ao menos agradável: a fricção do ar com a fuselagem criava um barulho ensurdecedor dentro da cabine. Passageiros relataram que não era possível sequer conversar com quem estava na poltrona do lado.

Depois de outros dois acidentes com mortos, o Tu-144 jamais voltou a ser usado na aviação civil. Ele conseguiu uma sobrevida como aeronave de teste no programa espacial soviético, nos anos 80 - e, por ironia, os americanos usaram o modelo para testes para um novo avião supersônico, na década seguinte. Mais uma vez, este acabou não saindo do papel.

Enquanto o Tupolev permanecia no chão, o Concorde permaneceu em operação até 2003, antes de ser aposentado por seus altos custos operacionais. Caso sirva de consolo para os engenheiros soviéticos, porém, ele não chegou nem perto de fazer o sucesso que se esperava.

“A despeito da qualidade dos projetos”, afirma Beting, “quando esses aviões estavam sendo projetados, o preço do petróleo era um, e quando entraram em serviço, era outro”.

Com o preço do combustível nas alturas e pressões de ambientalistas por conta do ruído e do gasto energético, a operação do Concorde também ficou muito restrita. Para que desse lucro para as empresas aéreas, os supersônicos tinham passagens caríssimas, e ficaram famosos por transportar magnatas e voos regados a champanhe - principalmente entre Londres e Nova York, num trecho que durava cerca de três horas.

Hoje, com o Concorde e o Tu-144 parados em museus, fica claro que estavam certos aqueles que, lá nos anos 1960, apostaram que o futuro estava nos grandes aviões de passageiros - mesmo que eles cruzem os céus um pouco mais devagar.

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