Objetivo:
“Projetando o futuro e o desenvolvimento autossustentável da sua empresa, preparando-a para uma competitividade e lucratividade dinâmica em logística e visão de mercado, visando sempre e em primeiro lugar, a satisfação e o bem estar do consumidor-cliente."
Cientistas australianos analisaram material coletado no espaço por sonda japonesa. 'Descobrimos que o Itokawa é como uma almofada espacial gigante e muito difícil de destruir', afirmaram os pesquisadores. <<<===+===.=.=.= =---____-------- ----------____---------____::____ ____= =..= = =..= =..= = =____ ____::____-----------_ ___---------- ----------____---.=.=.=.= +====>>> Por Roberto Peixoto, g1 Postado em 24 de janeiro de 2023 às 08h015 #.*Post. - N.\ 10.647*.#
Representação artística de um asteroide do tipo do Itokawa. — Foto: Kevin Gill
Cientistas australianos que analisaram pequenos pedaços rochosos do asteroide Itokawa
fizeram importantes descobertas que afirmam que podem auxiliar os
estudos de defesa planetária e de objetos potencialmente perigosos ao
nosso planeta.
Os pesquisadores examinaram três estruturas que foram trazidas durante a
missão inédita da agência espacial japonesa (Jaxa) que retornou à Terra
em junho de 2010 - fragmentos esses menores do que um grão de arroz (veja imagem abaixo).
Esse tamanho diminuto, porém, não foi um empecilho para o grupo de
pesquisadores. A análise revelou que o asteroide, que está a 2 milhões
de quilômetros da Terra e tem aproximadamente 500 metros de comprimento,
é difícil de destruir e resistente a colisões.
Para chegar a essa conclusão, os cientistas estudaram o impacto de
partículas minúsculas que deixaram marcas na superfície dos grãos e
assim descobriram que o corpo celeste foi formado nos primórdios do
Sistema Solar,há cerca de 4,2 bilhões de anos.
A análise também corrobora a teoria de que o Itokawa surgiu de um
objeto muito maior, um bloco maciço de rocha que foi estilhaçado por uma
colisão, e então se transformou numa pilha de fragmentos agregados (do
inglês, rubble pile).
“Esse tempo de sobrevivência tão surpreendentemente longo para um
asteroide do tamanho de Itokawa é atribuído à essa natureza de choque
absorvente que é característica do material que forma essa pilha de
escombros", disse o principal autor do estudo, Fred Jourdan, professor
da Escola de Ciências da Terra e Planetárias da Curtin University.
“Em resumo, descobrimos que o Itokawa é como uma almofada espacial gigante e muito difícil de destruir".
Um dos pedaços do Itokawa analisados pelos cientistas. — Foto: Celia Mayers/Curtin University
“Ao contrário dos asteroides monolíticos [aqueles formados por
objetos], o Itokawa não é formado por um único pedaço de rocha, mas
pertence à família de pilhas de escombros, o que significa que ele é
inteiramente feito de pedras e rochas soltas, com quase metade sendo
espaço vazio”, acrescentou o professor Jourdan.
Com esse achado, os cientistas argumentam que a durabilidade de corpos
celestes do tipo pode ser muito maior do que imaginávamos. Isso porque,
como a formação do nosso Sistema Solar foi há aproximadamente 4,5
bilhões de anos, há um grande indicativo de que mais asteroides formados
por fragmentos agregados estejam vagando pelo cinturão de asteroides,
uma região entre as órbitas de Marte e Júpiter.
"A boa notícia é que também podemos usar essa informação a nosso
favor", acrescentou o coautor do estudo, Nick Timms, também da Escola de
Ciências da Terra e Planetárias da Curtin.
"Se um asteroide for detectado tarde demais para um impulso cinético,
podemos usar uma abordagem mais agressiva, como uma onda de choque de
uma explosão nuclear para empurrar esse asteroide de pilha de escombros
fora do seu curso, e sem destruí-lo".
(VÍDEO:Entenda o que é um asteroide, como o Itokawa.)
Pediatra esteve nos lugares mais afetados do território indígena yanomami no final de 2022 e conta como a saúde e o modo de vida da população local são afetados pelo garimpo. Ela também entende que a maior atenção à emergência de saúde nos últimos dias se deve à possibilidade de diálogo e mudanças recentes no Ministério da Saúde. <<<===+===.=.=.= =---____-------- ----------____---------____::____ ____= =..= = =..= =..= = =____ ____::____-----------_ ___---------- ----------____---.=.=.=.= +====>>> Por André Biernath, BBC 23/01/2023 20h43 Atualizado há 36 minutos Postado em 23 de janeiro de 2023 às 21h30m #.*Post. - N.\ 10.646*.#
Médicos reforça necessidade de ajuda humanitária após saída de garimpeiros de terras yanomami — Foto: EXPEDICIONÁRIOS DA SAÚDE
A pediatra Priscila Tatiana Gonçalves, de Taubaté (SP), realiza atendimentos com indígenas há quase uma década.
Ela é uma das voluntárias da ONG Expedicionários da Saúde (EDS), que
desde 2004 planeja expedições para realizar consultas, exames e
cirurgias em territórios indígenas espalhados pela Amazônia.
Em novembro de 2022, a médica integrou uma comitiva que realizou uma ação emergencial de saúde no território yanomami.
Ao longo de dez dias, ela integrou uma equipe com outro colega médico e
dois enfermeiros que visitou cinco unidades de saúde indígena
(Casai-Boa Vista, Xitei, Surucucu, Missão Catrimani e Demini), fez
atendimentos médicos e distribuiu insumos e medicamentos básicos.
Em entrevista à BBC News Brasil, Gonçalves disse que o cenário já era
"terrível" e "absurdo". Ela também explicou que a crise só ganhou uma
proporção maior agora porque há uma "abertura para diálogo" e menos
risco de represálias.
"Até recentemente, algumas enfermeiras que atuam nesses locais
compartilhavam histórias de que sofriam vários tipos de repressão.
Alguns profissionais de saúde que trabalhavam lá há anos foram demitidos
desde que a coordenação do serviço foi trocada. E os coordenadores que
foram nomeados não tinham nenhuma afinidade com o assunto, nunca
trabalharam com saúde indígena", relatou.
A pediatra também destacou alguns casos marcantes que marcaram os dez
dias de trabalho — como a morte de uma criança indígena com malária
cerebral que estava numa região remota, sem acesso a qualquer
tratamento.
Ela ainda ponderou sobre a necessidade de suporte aos indígenas assim que os garimpeiros forem expulsos da região.
"Temos que pensar como ficará a situação desses indígenas a partir de
agora. O que vai acontecer se todos os garimpeiros forem retirados dali
de uma hora para outra? Muitos jovens estão envolvidos nesse trabalho.
[...] Num primeiro momento, a saída dos garimpos será ruim para alguns.
Porque os indígenas já não têm nada e, quando sair esse garimpeiro que
dá saco de arroz e espingarda, vai demorar um certo tempo até eles
conseguirem voltar ao modo de vida que tinham antes", aponta.
Confira os principais trechos da entrevista a seguir.
BBC News Brasil - Como a senhora teve contato com os yanomami?
Priscila Tatiana Gonçalves -
Eu participo de expedições da EDS desde 2014 e 2015. As expedições são
mais voltadas para a área cirúrgica, mas também temos uma parte clínica.
Até porque nós vamos para territórios onde muitas vezes não existem
médicos fazendo atendimento clínico.
Normalmente, as equipes de saúde nesses lugares são formadas por
enfermeiros e técnicos de enfermagem. Então, funcionamos como um
complemento à expedição.
Em relação aos yanomami especificamente, nós já estávamos vendo a
situação piorar de forma muito assustadora nos últimos anos. Foi por
isso que fomos até lá. Normalmente, nós sempre ouvimos as lideranças
locais, com quem a EDS tem um contato muito próximo por causa do vínculo
que foi criado ao longo de todos esses anos.
Numa das últimas expedições, fomos até a Casa de Saúde Indígena
Yanomami, em Boa Vista, e identificamos um cenário que já era terrível.
Era exatamente o que veríamos pouco depois, nas denúncias que ganharam o
noticiário nos últimos dias.
Depois disso, começamos a entrar em contato com as lideranças, para
conseguirmos fazer as entradas nessas regiões específicas, que estavam
sem atendimento. E é muito difícil chegar até lá.
É preciso ir por via aérea e necessitamos de suporte. Normalmente, as
expedições da EDS contam com o apoio do Ministério da Defesa e da Força
Aérea Brasileira (FAB). Mas nos últimos trabalhos precisamos contactar
diretamente os representantes de cada região.
Nessa região onde vivem os yanomami, sabíamos que eles não estavam
recebendo as medicações. Também tínhamos ciência de que entrar ali era
um risco para nós mesmos. Porque estávamos num local sem acesso a água e
luz, em que precisávamos dormir dentro dos centros de saúde, cercados
pelo garimpo.
E é muito difícil falar sobre o que vimos lá. A situação era absurda.
Voltamos já pensando em um plano de ação, tentando contato com os
Médicos Sem Fronteiras e a Unicef. O déficit nutricional era gritante.
Crianças e idosos estavam muito desnutridos. Praticamente todos estavam
nessa condição.
"Crianças e idosos estavam muito desnutridos", diz médica — Foto: EXPEDICIONÁRIOS DA SAÚDE
E é curioso, porque há áreas dentro do território yanomami onde
praticamente não há desnutrição. Fomos, por exemplo, para uma região
chamada Demini e ali as crianças estão saudáveis, não tem malária, nem
garimpo.
Então vimos situações completamente diferentes dentro de um mesmo
território, uma mesma população. E não há justificativa para tudo o que
está acontecendo. Falta medicamento, falta assistência de saúde.
BBC News Brasil - Mas a senhora teve contatos anteriores com os yanomami? A situação era diferente em outras situações?
Gonçalves -
Sim, geralmente a logística é um pouco diferente quando vamos para
alguma área onde os yanomami estão próximos. Nós vamos até eles e
fazemos uma triagem, até pelo fato de ser uma comunidade coesa e não ter
muito contato com outros grupos. Nós fazemos então o atendimento deles,
muitas vezes até antes da expedição começar.
BBC
News Brasil - Mas se o problema com os yanomami já acontece há alguns
anos, por que ele ganhou essa dimensão nacional só agora? A situação de
fato piorou recentemente ou ela foi sempre ruim?
Gonçalves -
A situação é completamente diferente nas regiões de serra, pois os
yanomami que habitam esses locais já têm uma dificuldade maior de obter
alimentos. O que vimos recentemente, e está muito claro em relatórios de
outras instituições, como o Instituto Socioambiental, é o avanço das
áreas de garimpo.
Nós descemos nas mesmas pistas usadas pelos garimpeiros e eles estavam o
tempo todo com a gente. Outra coisa que observamos foi a contaminação
da água. As mulheres yanomami costumam passar o dia coletando pequenos
crustáceos em igarapés, que são uma fonte importante de proteína. Outras
fontes de proteína são a caça e a pesca. E dava pra ver que eles
simplesmente não tinham mais acesso a isso. Ou seja, não tinham como
obter os tipos de proteína mais comuns da dieta deles.
Mesmo as frutas estavam diferentes. Eles consomem o jambo, que é uma
fruta grande. Nessa última entrada, vimos indígenas comendo o fruto
pequeno, ainda verde, porque não tinham outras opções de alimento.
As crianças que atendemos estavam muito desnutridas e pareciam estar há
anos sem receber nenhum tipo de medicamento, como os vermífugos.
Algumas eliminavam vermes pela boca. Outras tinham o abdômen muito
amplo, um sinal claro de verminose, e as demais partes do corpo muito
emagrecidas, num claro sinal de desnutrição. Numa situação dessas,
qualquer problema de diarreia ou pneumonia pode levar a óbito em poucos
dias.
Ou seja, as crianças das regiões de garimpo eram muito diferentes de
qualquer indígena de outras áreas. A diferença é muito gritante. Quando
chegamos, olhamos aquilo e ficamos sem saber por onde começar. Sabíamos
que a situação era grave. Sabíamos que as crianças precisavam sair dali
para fazer uma recuperação nutricional numa clínica. Mas isso era
impossível, não conseguiríamos remover todos aqueles jovens para
deixá-los 30 ou 40 dias internados num outro lugar.
Em outros territórios indígenas, até vemos quadros de desnutrição. Mas
eles são agudos, provocados por uma deficiência nutricional específica,
porque faltou algum alimento temporariamente. Em certas regiões
yanomami, o problema era geral. Vimos desnutrição, casos de malária sem
tratamento, quadros com diarreia e pneumonia. E o pior de tudo é que
todas são doenças com tratamento. Dava pra ver que as crianças estavam
tristes, quando o estado normal delas é de alegria, de brincar o tempo
todo, de interagir com os outros.
BBC
News Brasil - Mas quantas crianças eram acometidas por esse quadro que a
senhora descreveu? Qual a proporção de afetados em relação ao tamanho
da população?
Gonçalves -
Para você ter uma ideia, visitamos regiões com cerca de 150 indígenas,
dos quais 40 eram crianças. Dessas, ao redor de 30 se encontravam num
estado de desnutrição grave e as outras 10 estavam em vias de iniciar um
quadro desses. Esses não são números exatos, mas dão uma ideia do
tamanho do problema.
Um dos enfermeiros que estava com a gente relatou que foi para o Haiti
em 2010. Naquela catástrofe, as pessoas andavam pelas ruas sem rumo. E
ali, nessa região yanomami, a sensação era a mesma. Estávamos diante da
catástrofe de toda uma população.
A região do Surucucu conta com um centro de saúde em que há um médico. E
comunidades inteiras vão para lá, após caminharem por quatro, cinco ou
seis dias. Eles preferem ficar perto desse posto porque sabem que ali há
a possibilidade de comer e receber tratamento. Eu nunca estive num
campo de refugiados de guerra, mas acredito que a situação que vimos era
similar.
BBC News Brasil - Mas esse é um problema que se acentuou nos últimos anos? Ou é algo que já se arrasta por décadas?
Gonçalves -
Eu não consigo contabilizar exatamente isso, mas o que vimos nesses
últimos quatro anos foi o fechamento de muitos dos centros de saúde da
região. Alguns deles, inclusive, foram convertidos em áreas de garimpo.
Os garimpeiros tomaram conta desses centros, a ponto de os profissionais
de saúde não conseguirem mais entrar ali.
Ou seja, a população local deixou de ter acesso às consultas de rotina e
à vacinação. Fora que, diante de um problema de saúde grave, você não
consegue transferir a criança ou o adulto para um centro mais
capacitado.
Outro ponto é que as medicações não chegavam. Na entrada que fizemos no
final de 2022, compramos remédios contra verminoses. O Ministério da
Saúde tem alguns protocolos que determinam a aplicação desses remédios
de tempos em tempos. Pelo menos uma vez por ano, você oferece esse
tratamento para eliminar os vermes daquela população.
Isso é importante para que as crianças consigam ter um desenvolvimento
nutricional adequado. Agora, se ela tem uma verminose importante, esse é
mais um motivo para que tenha uma perda de desenvolvimento.
Vimos que todas aquelas crianças estavam sem receber a medicação há
anos. Se você olhar as listas do Ministério da Saúde, há informação de
que o remédio foi comprado e entregue. Mas ele nunca chegou até lá.
BBC News Brasil - Na visão da senhora, o que levou a esse cenário? Como a situação chegou a esse ponto?
Gonçalves -
Eu não sei. Nesses últimos quatro anos, a EDS recebeu muitos pedidos de
socorro dos yanomami. Nós já fizemos expedições lá, então eles
conheciam nosso trabalho e sabiam que chegamos com uma estrutura, com a
possibilidade de fazer tratamentos médicos e prover alimentos na medida
do possível.
Quando começamos a fazer o contato para a última entrada, no final de
2022, nossos pedidos foram negados o tempo todo por parte do ministério,
da FAB e de todos os outros suportes. Então resolvemos ir até lá mesmo
assim, com o auxílio das lideranças locais, para ver se como estava essa
região do Surucucu.
Conversamos com agentes de saúde indígena, enfermeiros e técnicos de
enfermagem que trabalham no local há 10 ou 15 anos, e eles disseram que
nunca viram algo assim.
Outra coisa que chamou nossa atenção aconteceu na Casai Yanomami, que
fica em Boa Vista. Vimos dezenas de famílias inteiras que estavam ali
abandonadas. Por que esses indivíduos estavam ali? Não fazia o menor
sentido. Eles chegaram lá para fazer algum atendimento na cidade e
receberam a recomendação de suporte nutricional. Só que eles estavam lá
por um ano, sem nenhuma perspectiva de voltar para a comunidade deles.
Não fazia sentido do ponto de saúde estarem ali, pois já deveriam ter
recebido alta há tempos.
BBC
News Brasil - A senhora mencionou a falta de autorização e suporte do
Governo Federal. Existia algum bloqueio em falar sobre a crise de saúde
dos yanomami? Se sim, isso contribuiu para que o assunto só ganhasse uma
proporção maior agora, com a transição de governos?
Gonçalves -
Eu acho que as próprias mudanças recentes nas coordenadorias de saúde
indígena e no Ministério da Saúde facilitaram isso, pois abrem o diálogo
e tentam fazer uma união. Porque esse é um problema que ninguém
conseguirá resolver sozinho. Precisamos de uma frente.
Essas populações conseguem viver muito bem. Basta a gente não
atrapalhar. Agora, eles estão nessa situação de risco, então é uma
obrigação nossa de pelo menos ajudá-los a sair dessa urgência.
Acho que a gente pode falar agora, porque sabemos que eles não vão
sofrer represálias. Até recentemente, algumas enfermeiras que atuam
nesses locais compartilhavam histórias de que sofriam vários tipos de
repressão. Alguns profissionais de saúde que trabalhavam lá há anos
foram demitidos desde que a coordenação do serviço foi trocada. E os
coordenadores que foram nomeados não tinham nenhuma afinidade com o
assunto, nunca trabalharam com saúde indígena
BBC
News Brasil - Durante a última entrada no território yanomami, a
senhora testemunhou alguma história que chamou mais a sua atenção?
Gonçalves -
Sim, atendemos uma criança com malária cerebral [complicação da
infecção marcada por febre alta, dor de cabeça, sonolência, delírio,
confusão, convulsões e coma].
Ela provavelmente estava malária e começou a ter convulsões. O problema
era que só tínhamos o contato pelo rádio, porque não conseguimos chegar
aonde ela estava. Passamos a madrugada toda em contato pelo rádio,
falando com o técnico de enfermagem que estava lá. Mas ele não tinha
nenhum remédio para convulsão. Ela também não tinha iniciado o
tratamento de malária, porque esse remédio também estava em falta.
Ficamos em contato pelo rádio, mas a situação era precária. A antena
não funcionava direito. Então ficava uma pessoa segurando a antena, e
outra falando pelo aparelho. Passamos a madrugada toda tentando chamar o
socorro aéreo, para que ele fosse até a comunidade para resgatar essa
criança. No final, a criança faleceu.
Outra história que nos marcou foi a de uma criança que estava
provavelmente com infecção respiratória. Felizmente, ela conseguiu ser
levada até onde estávamos. Lá, tínhamos energia elétrica e um pequeno
gerador para fazer a oxigenação. Teve um momento, também de madrugada,
que a luz acabou e ficamos contando as horas para chegar o socorro
aéreo. Felizmente conseguimos transferi-la a tempo.
Na maioria das vezes, essas situações são evitáveis. O mínimo que
esperamos é ter oxigênio, água e medicações como analgésicos e
antibióticos. Pelo menos, assim conseguimos estabilizar o quadro e
aliviar o sofrimento enquanto não chega o transporte para um hospital.
Para piorar, muitas dessas situações estavam controladas no passado. A
malária, por exemplo, estava praticamente eliminada dessa região. Não
tínhamos quadros de desnutrição dessa gravidade. E tudo piorou de forma
absurda em poucos anos. É algo muito difícil de entender e de falar. Eu
nunca imaginei que veria uma coisa dessas.
BBC
News Brasil - Do ponto de vista técnico, como todas essas questões
engatilhadas a partir do garimpo — como a malária, a desnutrição e a
falta de assistência em saúde — afetam a saúde das crianças?
Gonçalves -
A falta de um aporte nutricional adequado faz com que a criança sofra
com o agravamento de várias outras doenças. Além disso, a desnutrição
impede o desenvolvimento do cérebro e do corpo.
E foi o que vimos nesta última entrada que fizemos. As famílias não
tinham mais roças, frutas para consumo, pesca, caça ou crustáceos. Isso
porque as comunidades geralmente ficam próximas de uma fonte de água,
como um rio ou um igarapé. Só que o garimpo se instalou junto das
aldeias.
Vimos igarapés completamente degradados, com água amarela, com manchas
de contaminação. Naquela água, não existem mais condições de vida para
os peixes.
Para completar, a presença do garimpo afasta a caça. Os garimpeiros
usam helicópteros e outras máquinas grandes e barulhentas. Isso assusta
os animais, que vão para outros lugares.
Todas essas mudanças levam, inclusive, a confrontos entre os indígenas.
Porque há grupos que são mais favoráveis aos garimpeiros, enquanto
outros são contra. Cheguei a ver crianças pequenas com espingardas nas
mãos. Essas armas eram trocadas por trabalho. Elas ficavam o dia todo
recolhendo cassiterita [um tipo de minério]. Eram quilos e quilos. Esse
material era colocado em sacolas para depois ser recolhido por um
helicóptero. Esse trabalho é pago com sacos de arroz ou pequenas
espingardas.
BBC News Brasil - Vocês sofreram alguma ameaça de garimpeiros enquanto estiveram por lá?
Gonçalves -
Nós tínhamos contato com eles o tempo todo. Durante o dia inteiro,
ouvíamos a chegada dos helicópteros dos garimpeiros. Não sei quantificar
com exatidão, mas era uma nova aeronave subindo e descendo a cada duas
horas mais ou menos. Foi aí que percebemos que estávamos trabalhando
numa situação de risco. De vez em quando, ouvíamos alguns tiros. Quando
perguntávamos para os indígenas que estavam por perto, eles diziam que
era briga.
Também temos que pensar como ficará a situação desses indígenas a
partir de agora. O que vai acontecer se todos os garimpeiros forem
retirados dali de uma hora para outra? Muitos jovens estão envolvidos
nesse trabalho de garimpo, de recolher a cassiterita. Num primeiro
momento, a saída dos garimpeiros será ruim. Porque eles já não têm nada.
Porém, quando esse garimpeiro, que dá saco de arroz e espingarda, for
embora, vai demorar um certo tempo até conseguirem voltar ao modo de
vida deles. Até esse período de adaptação, eles não terão o alimento. E
já não têm saúde.
Muitos indígenas com quem conversamos sempre falavam que o mais
importante de tudo é a saúde. E eles precisarão de algum suporte até que
decidam como vai ser a vida depois. Eles têm essa autonomia e esse
direito. Eles sabem exatamente o que querem. Basta não atrapalharmos.
Tivemos no passado outras comunidades invadidas pelo garimpo que foram
desestruturadas e depois conseguiram restabelecer os modos de vida
tradicionais. Mas eles precisarão de ajuda neste período de transição em
que passarão a viver sem os garimpeiros.
Dinâmica é um retrato da perda de espaço de produtos manufaturados brasileiros no comércio global; país tem vendido cada vez mais commodities para o mundo. <<<===+===.=.=.= =---____-------- ----------____---------____::____ ____= =..= = =..= =..= = =____ ____::____-----------_ ___---------- ----------____---.=.=.=.= +====>>> Por BBC 23/01/2023 09h58 Atualizado há 01 hora Postado em 23 de janeiro de 2023 às 11h00m #.*Post. - N.\ 10.645*.#
Presidente argentino na posse de Lula: país vizinho é o principal
destino de produtos industriais do Brasil — Foto: Ricardo Moraes/Reuters
No ano 2000, 59% do que o Brasil vendeu para o mundo foram produtos
manufaturados pela indústria. Em duas décadas, essa participação caiu a
menos da metade - 28% em 2022, conforme os dados compilados pela
Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).
Soja, milho, petróleo, minério de ferro e carne responderam por cerca
de metade de tudo o que o Brasil embarcou para o mundo no ano passado.
A mudança de perfil da pauta de exportações acabou mexendo com a lista
dos principais destinos de produtos brasileiros. Hoje, o Brasil vende
mais para o Oriente Médio, por exemplo, do que para a vizinha Argentina,
destino da primeira visita oficial do terceiro mandato do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, que desembarcou em Buenos Aires neste 22 de
janeiro.
A inversão é reflexo do avanço das commodities nas relações comerciais do Brasil com a comunidade internacional. Enquanto a Argentina
é o principal destino dos bens manufaturados produzidos pela indústria
brasileira, especialmente a automotiva, o Oriente Médio compra
principalmente carnes de aves (17%), milho (16%), minério de ferro
(14%), soja (11%), açúcares e melaços (10%) e carne bovina (5%).
O dólar e a polêmica da moeda comum
Uma das principais razões para a perda de espaço é a crise longa pela
qual passa o país vizinho, avalia José Augusto de Castro,
presidente-executivo da AEB.
"A Argentina
tem um problema sério de falta de dólares", diz ele, referindo-se ao
nível baixo de reservas cambiais, hoje em US$ 42,9 bilhões. Para efeito
de comparação, o Brasil, por exemplo, soma US$ 324,7 bilhões em reservas
internacionais.
Para evitar a saída de dólares, o governo argentino com frequência
impõe restrições às importações, o que afeta diretamente seus principais
parceiros comerciais.
Uma saída para tentar aumentar o fluxo de comércio entre Brasil e Argentina
seria transacionar em uma moeda que não fosse o dólar - daí a ideia que
circulou após a reunião entre o embaixador argentino, Daniel Scioli, e o
ministro da Fazenda, Fernando Haddad, no dia 3 de janeiro em Brasília, e
que acabou gerando ruído.
Ao sair do encontro, Scioli falou sobre a possibilidade de criação de
uma moeda comum para o Mercosul. Dias depois, Haddad se irritou ao ser
questionado por um jornalista sobre a possibilidade de adoção de uma
moeda única pelo bloco.
A ideia, de fato, não seria criar uma moeda única (como o euro), mas
uma moeda estrutural que pudesse ser usada como mecanismo de compensação
no comércio bilateral entre os dois países, diz Welber Barral,
especialista em comércio internacional e sócio-fundador da consultoria
BMJ.
Ele lembra que o Brasil já conta com um Sistema de Pagamentos em Moeda Local, em que Argentina e Uruguai podem pagar em suas respectivas moedas, mas é preciso fazer uma compensação diária em dólares.
"Na prática, [com esse sistema] persiste o problema das reservas cambiais."
Para ele, a moeda comum poderia ser um mecanismo para contornar o
problema, mas "haveria uma questão política a ser tratada com a Argentina sobre os riscos de calote". Castro, por sua vez, acha que a ideia é de difícil implementação.
O presidente argentino, Bolsonaro e Lula
A visita de Lula será a primeira de um presidente brasileiro ao líder argentino Alberto Fernández.
Jair Bolsonaro (PL) viajou ao país em 2019, quando o rival de
Fernández, Mauricio Macri, ainda estava na Casa Rosada. Desde que a
Frente de Todos - a coalizão de partidos de esquerda peronistas e
kirchneristas que ganhou as eleições - assumiu o poder, ele não foi mais
à região.
O primeiro encontro entre os dois aconteceu em junho de 2022, na Cúpula das Américas em Los Angeles.
Na visão de Barral, o distanciamento na relação bilateral nos anos de
Bolsonaro não chegou a afetar de forma significativa a relação comercial
entre Brasil e Argentina, que ele considera muito estável.
O especialista aponta, contudo, que algumas das políticas da gestão
passada acabaram contribuindo para esfriar o fluxo de comércio entre os
dois países, entre eles a interrupção do programa de financiamento às
exportações pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES). Em sua avaliação, essa era uma política que deveria ser
retomada.
De forma mais ampla, Barral afirma que o Brasil "ficou muito isolado
internacionalmente nos últimos anos" e que tem agora a oportunidade de
"retomar o protagonismo internacional, principalmente considerando os
vizinhos".
"A Argentina
vai continuar a ser um vizinho importante e o Brasil tem que melhorar o
relacionamento com ela - então essa visita é importante."
Os quadros do peronismo argentino têm proximidade com o Partido dos
Trabalhadores (PT). Na noite em que Fernández venceu as eleições, em 27
de outubro de 2019, um grupo grande de petistas participou das
comemorações em Buenos Aires. Entre militantes, integrantes da direção
do partido, parlamentares e ex-parlamentares estavam o ex-senador e
agora deputado Lindbergh Farias e o atual presidente do BNDES Aloizio
Mercadante.
O próprio presidente argentino é próximo de Lula. Ainda em campanha, em 2019, chegou a visitá-lo na prisão em Curitiba.
Recorde de exportações para o Oriente Médio
O aumento dos embarques do Brasil para o Oriente Médio, por sua vez, é
um retato da primarização da pauta de exportações brasileira.
Nos últimos anos, o país tem vendido cada vez mais produtos básicos, muitos com um nível baixo de diferenciação.
Tamer Mansour, secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira,
dá o exemplo concreto do café: o Brasil vende especialmente o grão in
natura para os países árabes, quando poderia oferecer, por exemplo, café
em pó, mais caro e com maior valor agregado.
"Nós temos os achocolatados, sucos, óleo de soja, de milho... no caso
desses produtos, infelizmente, a gente só exporta para os árabes as
commodities", comenta.
Para além da indústria alimentícia, ele diz, o Brasil teria o potencial
para vender também produtos farmacêuticos, cosméticos e relacionados à
moda à região.
"Acho que o Brasil precisa se destacar um pouco mais, precisa entender
que essa cúpula do mundo árabe, especialmente da parte do Golfo, tem
como absorver produtos de maior valor agregado de origem brasileira."
Os US$ 17,2 bilhões que o Brasil embarcou para a região em 2022 são o
maior valor da série histórica da Secretaria de Comércio Exterior, que
começa em 1997.
O primeiro destino foi o Irã. Milho e soja responderam por 80% dos US$
4.3 bilhões vendidos ao país persa. Entre os árabes, os principais
mercados foram os Emirados Árabes Unidos (US$ 3,3 bilhões), que têm se
tornado um hub de distribuição de produtos para a Ásia Central, e a
Arábia Saudita (US$ 2,9 bilhões).
Na avaliação de Mansour, parte do aumento das exportações para os
países árabes se deve à valorização dos preços de commodities no ano
passado e à Copa do Catar, que contribuiu para elevar a demanda por
produtos básicos.
A relação da gestão Bolsonaro com os países da região teve um início
turbulento com a proposta, em 2019, de transferir a embaixada brasileira
em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, cidade disputada por israelenses e
palestinos. O governo recuou da ideia e, com o tempo, passou a acenar
mais aos países da região, especialmente por meio do Ministério da
Agricultura.
"Isso nos causou um desconforto inicial. Eu acho que o governo -
especialmente, naquela época, a Tereza Cristina (ministra da
Agricultura) - conseguiu muito bem contornar a situação, absorver a
importância do mundo árabe no agro brasileiro."
Sobre o terceiro mandato de Lula, Mansour diz acreditar que a relação
com a região deve se estreitar e cita a visita do presidente ao Egito
antes de sua posse, em novembro, para participar da Conferência da ONU
sobre Mudanças Climáticas (COP 27).
"Foi o presidente Lula que desenvolveu a Cúpula Aspa [Cúpula América do
Sul - Países Árabes, inaugurada em 2005], então isso mostra como esse
governo deve olhar com profundidade para os países árabes", acrescenta.