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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Vendas do comércio recuam 0,8% em julho, na terceira queda seguida

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Nos sete primeiros meses do ano, no entanto, o indicador ficou positivo em 0,4%, mas no acumulado de 12 meses o recuo é de 1,8%. Desde maio, queda chega a 2,7%.
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Por Marta Cavallini, g1

Postado em 14 de setembro de 2022 às 10h00m

 #.*Post. - N.\ 10.471*.#

Vendas do comércio  — Foto: Helena Pontes/Agência IBGE Notícias
Vendas do comércio — Foto: Helena Pontes/Agência IBGE Notícias

As vendas do comércio recuaram 0,8% em julho em relação a junho, segundo divulgou nesta quarta-feira (14) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se da terceira queda seguida.

Nos sete primeiros meses do ano, no entanto, o indicador ficou positivo em 0,4%, voltando a recuar 1,8% no acumulado dos últimos 12 meses.

A terceira queda seguida após meses de alta mostra uma retomada da trajetória irregular detectada desde o período mais grave da pandemia, explica o gerente da pesquisa, Cristiano Santos.

O mês de abril foi o último com crescimento. Desde então, maio, junho e julho acumulam recuo de 2,7%.

Por conta disso, o setor se encontra praticamente no mesmo nível do período pré-pandemia, ou seja, fevereiro de 2020, com variação de 0,5%.

"O setor repete a trajetória que vem acontecendo desde março de 2020, com alta volatilidade. Esse patamar já esteve muito mais alto. Em julho de 2021, ficou 5,3% acima de fevereiro de 2020”, diz Santos.

Na comparação com julho de 2021, o comércio varejista recuou 5,2%.

Veja abaixo o resumo do desempenho do setor:

  • Terceira taxa negativa mensal seguida no ano (-0,8%), após 4 taxas positivas: predomínio das taxas negativas em 7 das 8 atividades
  • Terceira taxa negativa consecutiva na comparação interanual (-5,2%): predomínio das taxas negativas em 5 das 8 atividades
  • Após duas taxas negativas, o acumulado do ano tem a quinta taxa positiva seguida (0,4%): predomínio de taxas positivas em 6 das 8 atividades
  • Terceira taxa negativa no acumulado de 12 meses (-1,8%), após 55 taxas positivas: taxas negativas em 4 das 8 atividades

7 das 8 atividades tiveram taxas negativas

Em julho, em relação a junho, sete das oito atividades pesquisadas tiveram taxas negativas:

  • Tecidos, vestuário e calçados (-17,1%)
  • Móveis e eletrodomésticos (-3,0%)
  • Livros, jornais, revistas e papelaria (-2,0%)
  • Equipamentos e material para escritório informática e comunicação (-1,5%)
  • Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria (-1,4%)
  • Hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-0,6%)
  • Outros artigos de uso pessoal e doméstico (-0,5%)

Apenas a atividade de Combustíveis e lubrificantes mostrou crescimento (12,2%) - resultado da política de redução do preço dos combustíveis, segundo Santos, destacando a deflação de 14,15% no item mostrado pelo IPCA de julho.

No comércio varejista ampliado, ambos os setores tiveram queda: Veículos e motos, partes e peças (-2,7%) e Material de construção (-2,0%).

O maior recuo foi em Tecidos, vestuário e calçados. Para Santos, o comportamento na atividade tem alguns fatores.

“Algumas das grandes cadeias comerciais apresentaram redução na receita, sobretudo na parte de calçados. Além disso, pode haver também escolhas do consumidor, considerando a redução da capacidade do consumo atual”, afirma.

No varejo ampliado, que engloba também as vendas de veículos e materiais de construção, a queda foi de 0,7%, a segunda seguida.

Desigualdades na comparação com o pré-pandemia

Dos 10 principais segmentos, apenas 4 se encontravam em julho acima do patamar de fevereiro de 2020 (pré-pandemia). Veja no gráfico abaixo:

Na comparação com o nível pré-pandemia, segundo o IBGE, o comércio varejista mostra desigualdades em termos setoriais.

Há atividades muito acima, como Artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e de perfumaria, Combustíveis e lubrificantes, Material de construção e Hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo.

Já outras estão em patamar muito abaixo, caso de Livros, jornais, revistas e papelaria, com uma trajetória de perda muito por conta da própria lógica contemporânea do mercado, além de Tecidos, vestuário e calçados, Móveis e eletrodomésticos e Veículos e motos, partes e peças.

Queda em 20 unidades da Federação

Na passagem de junho para julho, 20 unidades da Federação tiveram queda, com destaque para Bahia (-3,1%), Rio de Janeiro (-3,1%) e Maranhão (-2,8%). Por outro lado, das sete UFs que apresentaram taxas positivas, destaca-se Mato Grosso (3,5%), Paraná (1,7%) e Amapá (1,5%).

Já no confronto com julho de 2021, também houve queda em 20 das 27 UFs, com destaque para Rondônia (-24,1%), Tocantins (-11,4%) e Acre (-11,3%), enquanto, no lado das altas, ressalta-se a influência de Roraima (10,1%), Alagoas (5,8%) e Ceará (2,5%).

Queda vem de juros e endividamento, dizem economistas

Para economistas, a queda nas vendas do comércio tem relação com a elevação das taxas de juros e do endividamento da população.

Claudia Moreno, economista do C6 Bank, destaca as vendas dos setores sensíveis a crédito, como móveis, veículos e materiais de construção, que caíram mais do que a dos sensíveis a renda. "No mês, o recuo das categorias sensíveis a crédito foi de 2,5%, enquanto nos sensíveis a renda a retração foi de 0,7%. Esse comportamento mostra como os juros altos começam a impactar o consumo", diz.

Ela prevê que a economia como um todo comece a desacelerar no segundo semestre e feche o ano com crescimento de 2,3%. "Mas o pagamento de benefícios sociais mais altos e o aumento da massa salarial podem atenuar um pouco essa desaceleração para o segmento do varejo".

Rodolfo Margato, economista da XP, aponta que o aperto das condições monetárias e o elevado grau de endividamento das famílias vêm pesando sobre as vendas no varejo.

Em sua opinião, a demanda pelos bens mais sensíveis ao crédito deve permanecer em tendência de queda.

Ainda assim, ele acredita que a recuperação do mercado de trabalho em conjunto com estímulos fiscais adicionais de curto prazo irão suavizar o arrefecimento do comércio varejista ao fornecer sustentação à demanda pelos bens mais sensíveis à renda. Mas não descarta "certa estagnação para o varejo total nos próximos meses, com sinais heterogêneos entre as categorias".

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terça-feira, 13 de setembro de 2022

Destroços de caça da FAB desaparecido há 40 anos são encontrados na Lagoa dos Patos, no RS; veja fotos

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Velejador e piloto de linha aérea indicou local à Aeronáutica após ter sido alertado por pescador. Piloto Edson Luiz Chiapetta Macedo desapareceu em 1982 durante treinamento na região e não foi encontrado. 
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Por Gustavo Chagas, g1 RS 

Postado em 13 de setembro de 2022 às 17h15m

 #.*Post. - N.\ 10.470*.#

Peças encontradas no fundo da Lagoa dos Patos — Foto: FAB/Divulgação
Peças encontradas no fundo da Lagoa dos Patos — Foto: FAB/Divulgação

Um mistério de 40 anos começou, enfim, a ser respondido no Rio Grande do Sul. Em 28 de julho de 1982, um caça da Força Aérea Brasileira (FAB) pilotado pelo tenente aviador Edson Luiz Chiapetta Macedo desapareceu na Lagoa dos Patos, ao sul de Porto Alegre, durante um treinamento militar. O piloto nunca foi encontrado. A história, que nunca teve respostas concretas desde então, ganhou um novo capítulo após uma peça ter sido encontrada por um pescador na laguna, recentemente.

A Aeronáutica confirmou que a peça encontrada era mesmo do caça F5E Tiger II, o FAB 4831, depois de uma operação militar que durou quatro dias, feita entre 7 e 10 de setembro.

A operação foi feita depois que o velejador e piloto de linha aérea Cristian Yanzer, de 44 anos, conversou com pescador Josoé Ortiz, que encontrou a peça de avião presa a uma rede de pesca.

Cristian resolveu ir até o ponto indicado pelo pescador e utilizou um veleiro com sistema para detecção de objetos embaixo d’água. Por meio do equipamento, ele encontrou outras peças do avião desaparecido.

"[Eram] vários pedaços pequenos, alguns grandes. Imediatamente, eu entrei em contato com o 5º Comar", afirma Cristian.

Segundo o 5º Comando Aéreo Regional (Comar), a operação mapeou destroços da aeronave na região, que foram retirados e analisados. Com isso, foi possível confirmar que as peças eram do avião desaparecido.

Equipes que atuaram nas buscas por restos de caça desaparecido na Lagoa dos Patos — Foto: Cristian Yanzer
Equipes que atuaram nas buscas por restos de caça desaparecido na Lagoa dos Patos — Foto: Cristian Yanzer

Pescaria e mapeamento

A localização dos restos do avião foi possível graças ao trabalho do velejador e piloto de linha aérea Cristian Yanzer, de 44 anos. "Eu ouvia falar quando ia pescar com o meu pai naquela região. Como eu queria ser piloto de caça, essa história sempre ficou na minha cabeça", conta.

Já adulto, quando se tornou velejador, começou a investigar e a trocar informações com moradores da região. Foi por meio de um deles que Cristian teve sinais concretos de que poderia encontrar o caça. O pescador Josoé Ortiz, de Palmares do Sul, cidade do Litoral Norte a 90 km de Porto Alegre, viu uma peça prender na sua rede. O homem contatou o piloto, que resolveu ir até o local em meados de agosto.

Caça da Força Aérea Brasileira desaparecido desde 1982 na Lagoa dos Patos — Foto: FAB/Divulgação
Caça da Força Aérea Brasileira desaparecido desde 1982 na Lagoa dos Patos — Foto: FAB/Divulgação

O veleiro do piloto, batizado de "Vikyng", é equipado com um sistema de sonar utilizado para busca e detecção de objetos embaixo d’água. Só que, além das imagens, ele conseguiu algo mais.

"Eu fui lá para fazer a imagem e acabei conseguindo, sem querer, puxar um pedaço grande. Era uma seção de um dos motores. Realmente, confirmou a história. Já não tínhamos nenhuma dúvida", relata.

Imagens de sonar de peça do caça encontrada no fundo da Lagoa dos Patos — Foto: Cristian Yanzer
Imagens de sonar de peça do caça encontrada no fundo da Lagoa dos Patos — Foto: Cristian Yanzer

Buscas

Com as autoridades militares informadas, uma operação de buscas teve início no dia 7 de setembro. As equipes saíram em direção à Itapuã, onde o Guaíba desagua na Lagoa dos Patos.

"Antes de iniciarmos a missão, fizemos briefings sobre os aspectos técnicos da aeronave F-5, sobre o local dos destroços, além da definição dos procedimentos de busca", explica o chefe da Assessoria de Segurança de Voo da Base Aérea de Canoas, major Aviador Cyríaco Bernardino Duarte de Almeida Brandão Júnior.

O avião foi, então, localizado a uma profundidade de 7,5 metros. Os destroços estavam em uma região da laguna mais distante da costa, ao sul de Viamão e Porto Alegre.

"Foi uma grande surpresa, embora já vinha procurando há muito tempo. Foi crucial o acaso do pescador encontrar os pequenos pedaços", diz Cristian.

No local, foram encontrados motores, trem de pouso, canhão, pilones, pedaços da fuselagem, fragmentos das asas, entre outros componentes do caça.

"Foi possível recolher todos os destroços que foram mapeados, nos dando a certeza de pertencerem à aeronave desaparecida há 40 anos", diz o comandante do 5º Comando Aéreo Regional (Comar), major-brigadeiro do ar Marcelo Fornasiari Rivero.

Embarcações auxiliaram nas buscas por destroços de caça no RS — Foto: Cristian Yanzer
Embarcações auxiliaram nas buscas por destroços de caça no RS — Foto: Cristian Yanzer

Piloto desaparecido

O então tenente Edson Luiz Chiapetta Macedo foi promovido, após a morte, ao posto de major. Segundo a FAB, a medida se deu para expressar o reconhecimento ao militar morto no cumprimento do dever ou em consequência disto.

Para Cristian Yanzer, o trabalho na localização do avião pode servir de alento para a família do piloto, que ainda não teve o corpo encontrado.

"A família pôde, finalmente, descansar. Porque, durante todos esses anos, eles não haviam tido informações. Hoje a família tem a certeza de que ele morreu no efetivo cumprimento da missão", fala.

A FAB contou com o apoio da Marinha do Brasil e do Corpo de Bombeiros Militar do RS nas buscas.

Equipe que atuou nas buscas de caça desaparecido havia 40 anos no RS — Foto: FAB/Divulgação
Equipe que atuou nas buscas de caça desaparecido havia 40 anos no RS — Foto: FAB/Divulgação

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segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Alertas de desmate na Amazônia têm segundo pior agosto na série histórica, aponta Inpe

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Série histórica de novas medições do Instituto começou em 2015; índice atual ficou abaixo apenas do recorde de 2019/2020 quando a área foi de 1.714 km².
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Por Roberto Peixoto, g1

Postado em 12 de setembro de 2022 às 07h40m

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Imagem de sobrevoo de 30 de agosto do Greenpeace. Região exata ainda está sendo georreferenciada pela organização. — Foto: © Nilmar Lage / Greenpeace / Divulgação
Imagem de sobrevoo de 30 de agosto do Greenpeace. Região exata ainda está sendo georreferenciada pela organização. — Foto: © Nilmar Lage / Greenpeace / Divulgação

O acumulado de alertas de desmatamento em agosto de 2022 na Amazônia foi de 1.661 km², segundo dados divulgados nesta sexta-feira (9) pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). É o segundo pior agosto da série histórica do Deter, atrás apenas de 2019, quando a área foi de 1.714 km².

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Fonte: Deter/Inpe

Quando comparada toda a série de 2021-2022, o acumulado de alertas de desmatamento em 2022 na Amazônia foi de 8.590 km², terceiro ano consecutivo da gestão do presidente Jair Bolsonaro (PL) que os alertam ficam acima da marca de 8 mil.

“Bolsonaro pode sair do governo, mas deixa de herança para seu sucessor uma crise ambiental na Amazônia como não se via desde os anos 1990 e uma crise social sem precedentes", avalia Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

"O crime organizado dominou a região, e a liberação de armas para civis torna muito mais perigosa a tarefa de retomar a fiscalização e o controle do desmatamento”, complementa.

"O avanço da estação seca, o chamado “verão” amazônico, após um primeiro quadrimestre de muita chuva, está dando aos desmatadores a oportunidade de queimar a floresta derrubada no ano passado, quando a região viu a maior taxa de desmate em 15 anos", pontua o OC.

Recordes em janeiro e fevereiro

Como dezembro, janeiro, fevereiro e março são meses chuvosos na maioria dos estados que englobam o bioma, as taxas de desmatamento são tipicamente menores durante esses meses.

No entanto, as taxas registradas no começo do ano se comparam aos registros da estação seca em anos onde houve maior ação contra os crimes ambientais.

Em janeiro foram 430,44 km² de área sob alerta de desmatamento. A média para o mês no período entre 2016 e 2021 é de 162 km²; a taxa atual foi 165% maior.

Já em fevereiro foram 199 km² de áreas sob alerta de desmate; a média entre 2016 e 2021 é de 135 km²: o número registrado neste ano foi 47% maior.

Compromisso desafiador

No ano passado, durante a COP 26, o Brasil foi um dos 127 países signatários da Declaração dos Líderes de Glasgow sobre Florestas e Uso da Terra, documento que declara o comprometimento coletivo de deter e reverter a perda de florestas até 2030.

Para Kuczach, diretora-executiva da Rede Nacional Pró Unidades de Conservação, o Brasil está indo na contramão da busca de soluções no combate das mudanças climáticas e, cada vez mais, se transformando “num pária internacional”.

“Exemplos recentes disso pode ser a diminuição que aconteceu essa semana da Floresta Nacional de Brasília, num ataque surpresa promovido pelo Senado; e a extinção do Parque Estadual do Cristalino, no Mato Grosso, esse em âmbito judicial e com a clara influência de uma empresa vinculada ao maior desmatador da Amazônia, ou seja, nem dentro das unidades de conservação a floresta está de fato protegida”.

Deter x Prodes

Os alertas de desmatamento foram feitos pelo Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Inpe, que produz sinais diários de alteração na cobertura florestal para áreas maiores que 3 hectares (0,03 km²), tanto para áreas totalmente desmatadas como para aquelas em processo de degradação florestal (exploração de madeira, mineração, queimadas e outras).

O Deter não é o dado oficial de desmatamento, mas alerta sobre onde o problema está acontecendo. A medição oficial do desmatamento, feita pelo sistema Prodes, costuma superar os alertas sinalizados pelo Deter.

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domingo, 11 de setembro de 2022

O biólogo que tentou revelar segredos da indústria pesqueira e desapareceu no oceano

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 "A conclusão inevitável é que algo devia ter acontecido com ele. Até hoje, estou convencido de que ele viu algo que as pessoas que estavam naquele navio não queriam que ele visse", diz um amigo de Keith Davis
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TOPO
Por Rachel Monroe*, BBC — Do Texas (EUA)

Postado em 11 de setembro de 2022 às 07h35m

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Davis trabalhava como observador de pesca — Foto: BBC
Davis trabalhava como observador de pesca — Foto: BBC

O ativista Keith Davis desapareceu no mar a milhares de quilômetros de casa. Seu corpo nunca foi encontrado. Agora, o mistério de sua morte chama atenção para um setor que normalmente passa desapercebido da maioria das pessoas: o setor pesqueiro.

Em um mercadinho local do Texas, nos EUA, é possível comprar uma lata de atum por menos de US$1 (cerca de R$ 5,20). Mas, como muitas coisas que parecem baratas, esses preços baixos só são possíveis por causa do trabalho perigoso e em grande parte invisível de pessoas em locais distantes.

Davis, um tocador de ukulele idealista e aventureiro do Arizona, trabalhou para tornar visível o mundo da pesca comercial de atum. E ele pode ter pago um preço por isso.

"Ele era muito impulsivo, muito romântico, agia no calor do momento", diz Anik Clemens, seu amigo e colega. "Ele era muito apaixonado pelo que fazia. Queria proteger os oceanos, queria proteger os pescadores e sua indústria."

Em 2015, no meio de uma viagem aparentemente rotineira no navio Victoria 168, parte de uma frota de navios pesqueiros de propriedade de um conglomerado de Taiwan, o homem de 41 anos desapareceu a centenas de quilômetros da costa do Equador.

 — Foto: MRAG AMERICAS/BBC
— Foto: MRAG AMERICAS/BBC

A tripulação vasculhou o navio, mas não encontrou nenhum sinal dele. Quando a notícia de seu desaparecimento chegou a seus amigos e colegas no continente, muitos ficaram imediatamente desconfiados.

"Ele tinha 16 anos de serviço. E não há dúvida de que ele era o mais profissional, cuidadoso e seguro possível", diz Bubba Cook, amigo de Davis e gerente do Programa de Atum do Pacífico Ocidental e Central da ONG de proteção ambiental WWF (World Wildlife Foundation).

"A conclusão inevitável é que algo devia ter acontecido com ele. Até hoje, estou convencido de que ele viu algo que as pessoas que estavam naquele navio não queriam que ele visse."

O novo podcast da BBC, Lost At Sea (Perdido no Mar), investiga seu desaparecimento.

Keith Davis was passionate about his work, says friend Anik Clemens — Foto: BBC
Keith Davis was passionate about his work, says friend Anik Clemens — Foto: BBC

Observador da Pesca

Davis era um biólogo marinho que trabalhava como observador de pesca, uma profissão pouco conhecida e muito arriscada. Os estimados 2.500 observadores vivem a bordo de navios de pesca por meses a fio, aventurando-se a centenas de quilômetros da costa para proteger essas águas da pesca excessiva e coletar observações científicas que nos ajudam a entender a saúde de nossos oceanos e vida marinha.

Observadores vivem entre a tripulação, trabalhando as mesmas horas extenuantes nas mesmas condições adversas. Mas às vezes também são vistos com desconfiança, porque parte de seu trabalho é relatar atividades ilegais.

Mas o que Davis pode ter testemunhado que poderia colocá-lo em risco? O alto mar, onde a jurisdição legal é complexa e há pouca fiscalização, é conhecido pela atividade ilegal - nomeadamente o tráfico de drogas e armas e, por vezes, o tráfico de seres humanos. No entanto, para ser claro, a BBC não encontrou nada que apontasse que Davis testemunhou qualquer uma dessas atividades no Victoria 168.

O barco em que ele estava trabalhando no momento do desaparecimento estava envolvido no que é conhecido como transbordo. Os navios de transbordo abastecem os barcos de pesca de atum com suprimentos frescos e transportam o peixe recém-pescado de volta à costa. Esse processo pode permitir que alguns pesqueiros de atum fiquem no mar por anos, o que pode ajudar a economizar custos - e permitir que a lata de atum custe US$ 0,99.

Observadores que testemunham atividades ilegais estão em uma posição incrivelmente vulnerável. Quando Davis estava trabalhando no Victoria 168, seu único meio de comunicação com a costa era através do computador do capitão.

As pessoas que fazem o trabalho dele às vezes são treinadas para falar em código caso vejam algo muito sensível para dizer em voz alta. Embora Davis adorasse ser um observador, ele também estava ciente dos perigos do trabalho. "Muitos de nós testemunharam atividades com armas, brigas de facas, escravidão... muitas das quais temos que engolir como 'parte do trabalho'", escreveu ele no Facebook um ano antes de desaparecer.

Ainda mais alarmante, a suposta morte de Davis dificilmente é um incidente isolado. Vários observadores desapareceram ou morreram em circunstâncias misteriosas - houve mais dois incidentes durante os meses em que a BBC trabalhou no podcast.

A maioria desses casos tem muito menos visibilidade do que Davis teve. Isso porque muitos observadores não são homens americanos aventureiros, como Davis, mas sim habitantes das ilhas do Pacífico que trabalham para sustentar suas famílias.

São muitas vezes de comunidades com um forte histórico de pesca artesanal - uma indústria local que, em muitos casos, foi devastada por frotas pesqueiras globalizadas que usam o transbordo.

Davis adorava viajar - aqui na Bolívia — Foto: BBC
Davis adorava viajar - aqui na Bolívia — Foto: BBC

Quando homens como Charlie Lasisi, um observador de Papua Nova Guiné, ou Eritara Aati Kaierua, do Kiribati, morreram em circunstâncias suspeitas, as notícias não tiveram destaque. Mas são observadores como esses que carregam o peso do nosso desejo de comprar atum.

"Achamos a falta de conclusão sobre o que aconteceu com Keith extremamente perturbadora, não há muito mais que possamos fazer", diz a empresa MRAG Americas, que o empregava, em comunicado. "Continuamos a lutar pela máxima segurança para nossos observadores no mar e em terra".

O Grupo Gilontas, proprietário do Victoria 168, afirmou que "o Grupo Gilontas cooperou com as autoridades que conduziram a investigação".

Oficialmente, não sabemos se Davis morreu acidentalmente, tirou a própria vida ou foi morto. Mas o que sabemos é que grande parte da atividade ilegal que ocorre no mar se baseia na ideia de que o que acontece longe da costa, onde não há sinal de celular ou câmeras de segurança, é essencialmente invisível para nós no continente.

O trabalho dos observadores, de testemunhar o que acontece no mar, pode torná-los vulneráveis.

"Os observadores não têm apoio da indústria pesqueira. Eles não têm apoio das agências. Eles não têm apoio de seus empregadores, os empreiteiros. No final, eles estão sozinhos", diz Liz Mitchell, o ex-presidente da Associação de Observadores Profissionais.

Bubba Cook, do WWF, acompanha as mortes inexplicáveis ​​de observadores há mais de uma década. "Um dos maiores problemas é que simplesmente não sabemos quantos observadores sumiram", diz ele. "Aqui no Pacífico, tem sido cerca de um observador por ano. E isso é apenas [desde] que começamos a manter registros. Quantos antes disso morreram no mar sob várias circunstâncias, ou nunca voltaram para casa?"

Há também o mapa Global Fishing Watch (observatório global de pescaria), uma ferramenta de acesso aberto que mostra a localização de mais de 65 mil navios de 2012 até hoje.

*Rachel Monroe é narradora e repórter do podcast da BBC Lost At Sea. Ela colabora para a revista New Yorker e é escritora.

- Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/geral-62824145

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