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quinta-feira, 16 de junho de 2022

Cidade de 3,4 mil anos reaparece no Iraque devido à seca

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Arqueólogos alemães e curdos aproveitaram breve período em que a cidade esteve visível para realizar escavações e documentações. Pesquisa trouxe revelações surpreendentes sobre o ainda pouco conhecido Império Mitani.
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Por Alexander Freund, Deutsche Welle

Postado em 16 de junho de 2022 às 14h35m

 #.*Post. - N.\ 10.367*.#

Sítio arqueológico de Kemune na área seca do reservatório de Mosul  — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen
Sítio arqueológico de Kemune na área seca do reservatório de Mosul — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen

Há meses o sul do Iraque vem sofrendo com uma seca extrema. Desde dezembro de 2021, grande volume de água foi desviado da represa de Mosul, o reservatório mais importante do país, para evitar que as colheitas fossem totalmente perdidas.

Devido ao baixo nível hídrico, as ruínas de uma cidade de 3.400 anos, desaparecida há décadas, emergiram à beira do reservatório.

"Vi em imagens de satélite que o nível da água estava baixando, mas não estava claro quando a água voltaria a subir. Então tínhamos uma janela de tempo indeterminada", explica a arqueóloga alemã Ivana Puljiz, professora da Universidade de Freiburg.

Arqueólogos e trabalhadores descobrem paredes de adobe de edifícios no antigo complexo da cidade de Kemune — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO
Arqueólogos e trabalhadores descobrem paredes de adobe de edifícios no antigo complexo da cidade de Kemune — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO

Apesar das dificuldades e da urgência, os arqueólogos sabiam que o local, conhecido como Kemune, era interessante, pois já haviam estado lá.

Assim, Puljiz se reuniu com Hasan Ahmed Qasim, arqueólogo curdo, diretor da Organização de Arqueologia do Curdistão, e Peter Pfälzner, professor de Arqueologia da Universidade de Tübingen, para realizar uma escavação espontânea de resgate.

Na foto, tijolos de barro dos edifícios da Idade do Bronze aparecem encharcados pela água da albufeira, mas ainda puderam ser identificados e expostos — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO
Na foto, tijolos de barro dos edifícios da Idade do Bronze aparecem encharcados pela água da albufeira, mas ainda puderam ser identificados e expostos — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO

Eles reuniram rapidamente uma equipe de arqueólogos alemães e curdos para documentar o máximo possível do grande sítio. Desta forma, por sete semanas, entre janeiro e fevereiro, a equipe pesquisou a cidade da Idade do Bronze, antes que ela voltasse a ser completamente inundada.

Grandes edifícios

Durante uma fase de seca semelhante no Iraque em 2018, os pesquisadores haviam descoberto um palácio semelhante a uma fortaleza, localizado nas proximidades de uma pequena colina e delimitado por um grande muro.

Vista aérea das escavações de Kemune com arquitetura da Idade do Bronze parcialmente submersa no lago — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO
Vista aérea das escavações de Kemune com arquitetura da Idade do Bronze parcialmente submersa no lago — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO

Na época, a equipe de Ivana Puljiz encontrou restos de pinturas murais em tons de vermelho e azul brilhantes, considerados uma característica típica desses palácios.

O fato de os pigmentos terem sido preservados apesar das inundações foi "uma sensação arqueológica", disse Puljiz à DW, após sua visita ao local em 2022.

"É claro que tínhamos grandes esperanças", afirmou, referindo-se à nova expedição. "Com base no que encontramos em 2018, sabíamos que esse local poderia trazer descobertas interessantes. Mas não sabíamos exatamente o que encontraríamos", explicou Puljiz.

Foto mostra os grandes edifícios escavados do período Mittani sendo medidos e documentados arqueologicamente — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO
Foto mostra os grandes edifícios escavados do período Mittani sendo medidos e documentados arqueologicamente — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO

Todo o esforço não foi em vão: durante a escavação recente, os arqueólogos conseguiram descobrir outros grandes edifícios, como uma enorme fortificação com muro e torres que cercavam a cidade.

Uma cidade poderosa que dominava a área

A descoberta de um grande armazém de vários andares foi particularmente surpreendente: "Só o tamanho desse edifício mostra que ele deve ter abrigado uma enorme quantidade de mercadorias. E elas tiveram que ser produzidas e levadas para lá", disse Puljiz. Isso sugere que a cidade obtinha suprimentos de uma área circundante.

Puljiz explica que as descobertas iniciais sugerem que o extenso complexo da cidade poderia ser a antiga Zachiku, um importante centro do Império Mitani (por volta de 1.550 a 1.350 a.C.), que controlava grande parte do norte da Mesopotâmia e da Síria.

No entanto, não se sabe muito sobre Zachiku. "Há pouquíssimas menções ao nome desta cidade em outras fontes. Só agora estamos adquirindo novos conhecimentos sobre ela."

Vasos de cerâmica com mais de 100 inscrições

Um dos vasos com tabuletas cuneiformes é inspecionado antes de ser recuperado — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO
Um dos vasos com tabuletas cuneiformes é inspecionado antes de ser recuperado — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO

Segundo Ivana Puljiz, apesar de serem feitas de tijolos de adobe não queimados que estão debaixo d'água há décadas, as paredes e fundações do edifício parecem estar em condições surpreendentemente boas.

Acredita-se que um grande terremoto que atingiu a cidade por volta de 1.350 a.C. tenha ajudado a preservar essas paredes: quando o prédio foi destruído, os escombros que caíram podem ter coberto as partes inferiores das paredes, preservando-as.

Foto mostra um dos vasos de cerâmica com tabuletas cuneiformes, incluindo uma tabuleta de barro ainda em sua tampa de barro original — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO
Foto mostra um dos vasos de cerâmica com tabuletas cuneiformes, incluindo uma tabuleta de barro ainda em sua tampa de barro original — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO

Um dos achados mais fascinantes, disse a pesquisadora, foi a descoberta de cinco vasos de cerâmica contendo mais de 100 tábuas cuneiformes – uma das formas de escrita mais antigas do mundo –, como se proviessem de uma espécie de arquivo.

Recipientes de cerâmica em que as tabuletas cuneiformes foram armazenadas no canto de uma sala do período assírio médio (cerca de 1350-1100 a.C.) — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO
Recipientes de cerâmica em que as tabuletas cuneiformes foram armazenadas no canto de uma sala do período assírio médio (cerca de 1350-1100 a.C.) — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO

Algumas das tábuas de argila foram encontradas em "envelopes", também de argila. "Essas tábuas de argila sólida, não queimada, ficaram debaixo d'água por tanto tempo e sobreviveram. Esperamos que em breve possam ser lidas por um filólogo. Isso é realmente uma sensação", destacou Puljiz.

Império Mitani

As tábuas de argila foram criadas no período da Assíria Média, logo após o devastador terremoto, quando a população pode ter começado a se estabelecer novamente nas ruínas da cidade antiga.

Os textos cuneiformes poderão fornecer informações sobre o fim do período Mitani e o início do domínio assírio na região. O Império Mitani ainda é um dos menos estudados da Antiguidade.

Durante seu apogeu, em meados do segundo milênio a.C., se estendia da costa mediterrânea, através da atual Síria até o norte do Iraque.

Guerra prejudica descobertas

Acredita-se que a realeza de Mitani mantinha uma boa relação com os faraós egípcios e governantes babilônicos. Mas, por volta de 1.350 a.C., o reino foi conquistado pelos vizinhos hititas e assírios.

Os eventos que levaram à queda da cidade de Zachiku permanecem obscuros. Para saber mais sobre o Império Mitani, os pesquisadores precisariam investigar o centro do antigo império – que provavelmente estava localizado no norte da Síria, explica Puljiz.

No entanto, os muitos anos de guerra na região tornaram impossíveis tais escavações arqueológicas.

Após a conclusão do trabalho da equipe de pesquisa, a escavação será coberta em uma grande área com lonas plásticas para protegê-la da subida das águas do reservatório de Mossul — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO
Após a conclusão do trabalho da equipe de pesquisa, a escavação será coberta em uma grande área com lonas plásticas para protegê-la da subida das águas do reservatório de Mossul — Foto: Universidades de Freiburg e Tübingen, KAO

"Sem encontrar textos notáveis ​​no centro do império, é muito difícil ter uma ideia de como ele funcionava, o que o mantinha unido ou o que os proprietários de terras faziam. Até agora, só temos focos isolados de luz em áreas periféricas, como agora o que provavelmente é a antiga Zachiku. Mas a área central permanece no escuro", ressalta Puljiz.

Antes que a cidade em ruínas fosse novamente submersa pelo reservatório, os arqueólogos cobriram os edifícios escavados com película plástica e cascalho, na esperança de protegê-los de mais danos. Com sorte, a cidade perdida reaparecerá um dia.

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Cientista encontra fósseis de árvores com cerca de 290 milhões de anos no Paraná; veja fotos

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Cientista da UFPR descobriu o material em Ortigueira. Floresta é a terceira localizada na América do Sul - e a única com bom estado de conservação, segundo a pesquisadora.
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Por Bárbara Hammes, g1 PR — Ponta Grossa

Postado em 16 de junho de 2022 às 13h00m

 #.*Post. - N.\ 10.366*.#

Floresta de 290 milhões de anos é descoberta no Paraná — Foto: Arquivo Pessoal/Thammy Mottin
Floresta de 290 milhões de anos é descoberta no Paraná — Foto: Arquivo Pessoal/Thammy Mottin

Uma floresta de fósseis de árvores com cerca de 290 milhões de anos foi descoberta em Ortigueira, no Norte Pioneiro do Paraná. O achado foi publicado pela pesquisadora Thammy Mottin, doutoranda da Universidade Federal do estado (UFPR).

Veja, abaixo, uma galeria de fotos da descoberta.

Ao g1, a cientista conta que o material foi encontrado por acaso durante uma pesquisa na região.

Inicialmente, a busca era por informações da glaciação registrada entre os períodos Carbonífero (359,2 milhões a 299 milhões de anos atrás) e o Permiano (299 milhões a 251 milhões de anos atrás) e a passagem para uma fase pós-glacial.

Mas, em novembro de 2018, a equipe identificou o grupo de mais de 150 licófitas, plantas quase completamente extintas, em pé, em posição de vida, perpendiculares às camadas de rocha.

Na América do Sul florestas semelhantes foram descobertas em apenas outros dois lugares: na Patagônia argentina e no Rio Grande do Sul. Em Ortigueira, a surpresa foi ainda maior para os pesquisadores por conta da boa preservação das estruturas.

Segundo Thammy Mottin, árvores nesta posição são comuns na América do Norte, mas na América do Sul sempre foram encontradas deformadas e em número muito inferior ao registrado no Paraná.

"Fiquei emocionada de verdade. Nunca imaginei descobrir algo tão grandioso e lindo. Tem importância nacional e em toda a área do hemisfério sul. Ocorrências de plantas tão antigas e tão bem preservadas, além da forma de conservação bastante incomum, são raras em todo o mundo", disse.

Conforme o estudo, as evidências geológicas mostram que a floresta ficava às margens de um rio e acabou soterrada por conta de uma inundação com a água carregada de sedimentos.

"Esse soterramento foi tão rápido na escala de tempo geológica que as árvores morreram em posição vertical. No âmbito científico, as licófitas encontradas no Paraná diferem bastante das vistas na América do Norte e Europa. Há potencial para a realização de estudos adicionais na área de Ortigueira que podem impactar em temas globais como a colonização do ambiente terrestre, evolução deste grupo de plantas e comparação com o registro do hemisfério norte atual", explicou.

A cientista explica que os indícios são de que o soterramento foi tão rápido que é como se a floresta estivesse "congelada no tempo, da exata maneira como existia, há centenas de milhões de anos".

A doutoranda reforçou a importância de preservar o achado para que essa parte da história continue sendo acessada. De acordo com ela, é necessária atuação de órgãos ambientais para a conservação do local, sob risco de interferência humana.

O Governo do Paraná informou que não foi comunicado formalmente da descoberta, mas que entrou em contato com a pesquisadora após ter conhecimento da pesquisa. O g1 tenta contato com a Prefeitura de Ortigueira sobre a descoberta.

"Eu queria enfatizar também a importância do apoio à pesquisa. Essa descoberta só foi possível graças ao investimento em pesquisa por órgãos de fomento como a CAPES e CNPq", finalizou a pesquisadora.

Além de Thammy, participaram da pesquisa e da elaboração do artigo científico o co-orientador da doutoranda, o paleobotânico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Roberto Iannuzzi, o orientador da UFPR, Fernando Vesely, e os pesquisadores americanos Isabel Montanez, Neil Griffis Alex Lombardo.

FOTOS

Floresta de 290 milhões de anos é descoberta no Paraná — Foto: Arquivo Pessoal/Thammy Mottin
Floresta de 290 milhões de anos é descoberta no Paraná — Foto: Arquivo Pessoal/Thammy Mottin


Floresta de 290 milhões de anos é descoberta no Paraná — Foto: Arquivo Pessoal/Thammy Mottin
Floresta de 290 milhões de anos é descoberta no Paraná — Foto: Arquivo Pessoal/Thammy Mottin


Floresta de 290 milhões de anos é descoberta no Paraná — Foto: Arquivo Pessoal/Thammy Mottin
Floresta de 290 milhões de anos é descoberta no Paraná — Foto: Arquivo Pessoal/Thammy Mottin



Floresta de 290 milhões de anos é descoberta no Paraná — Foto: Arquivo Pessoal/Thammy Mottin
Floresta de 290 milhões de anos é descoberta no Paraná — Foto: Arquivo Pessoal/Thammy Mottin
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quarta-feira, 15 de junho de 2022

Ratanabá: arqueólogo explica por que lenda de 'cidade perdida na Amazônia' não faz sentido

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Nos últimos dias, suposta revelação de civilização antiga de tecnologia avançada virou um dos assuntos mais comentados das redes sociais. Arqueólogo que faz pesquisas na região há três décadas explica principais erros do boato que circula pela internet.
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Por André Biernath, BBC — Da BBC News Brasil em Londres

Postado em 15 de junho de 2022 às 09h15m

 #.*Post. - N.\ 10.365*.#

Boato defende que civilização teria construído 'capital do mundo' na Amazônia há 600 milhões de anos, quando não existiam nem os dinossauros — Foto: Getty Images via BBC
Boato defende que civilização teria construído 'capital do mundo' na Amazônia há 600 milhões de anos, quando não existiam nem os dinossauros — Foto: Getty Images via BBC

Nos últimos dias, a suposta descoberta de Ratanabá, uma civilização secreta no coração da Amazônia, se espalhou com grande velocidade pelas redes sociais.

De acordo com as postagens, que viralizaram no TikTok, no Twitter e no Instagram, a cidade seria "maior que a Grande São Paulo", era "a capital do mundo" e "esconde muita riqueza, como esculturas de ouro e tecnologias avançadas de nossos ancestrais".

Algumas teorias da conspiração foram além e disseram que a descoberta ajudaria a explicar "o verdadeiro interesse de dezenas de homens poderosos na Amazônia" e até o desaparecimento do jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira.

Essas informações, porém, não fazem o menor sentido. "Tudo isso é um delírio", avalia o arqueólogo Eduardo Goés Neves, professor do Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Laboratório de Arqueologia dos Trópicos do Museu de Arqueologia e Etnologia da mesma instituição.

Há mais de 30 anos, o especialista integra uma rede de pesquisadores que trabalham para revelar o passado da Amazônia e dos povos que viveram (e ainda vivem) por lá.

Na avaliação dele, o surgimento de histórias como a de Ratanabá, que não têm fundamento algum nas publicações científicas recentes, presta um "desserviço à arqueologia".

"Há mais de 20 anos, os arqueólogos que atuam na região defendem que existiam cidades na Amazônia, mas isso era visto como coisa de maluco", conta.

"Com o passar do tempo, a perspectiva foi mudando e a comunidade acadêmica começou a aceitar que, sim, existem evidências de sítios de grande dimensão, estradas e aterros construídos há muito tempo", continua o especialista, que reforça que essas descobertas não têm nada a ver com civilizações antigas ou tesouros ocultos.

"Agora, todo o nosso esforço pode quase voltar à estaca zero com a história de Ratanabá e a propagação de informações das maneiras mais estapafúrdias possíveis", completa.

A seguir, confira por que os principais argumentos utilizados para falar sobre a "cidade perdida na Amazônia" não fazem sentido — e o que as evidências científicas revelam sobre a ocupação humana na maior floresta tropical do mundo.

Uma conta que não fecha

O primeiro detalhe que chama a atenção nas postagens sobre Ratanabá são as datas utilizadas. Em alguns textos, está escrito que a civilização teria existido ali há 350, 450 ou até 600 milhões de anos.

"Isso não faz o menor sentido do ponto de vista da história geológica e biológica do nosso planeta", responde Neves.

"Para ter ideia, nem os dinossauros existiam há 350 milhões de anos. Nossos ancestrais mais antigos viveram há mais ou menos 6 milhões de anos. Mas a nossa espécie mesmo, o Homo sapiens sapiens, surgiu há 350 mil anos na África", estima.

Ou seja: há um erro de cálculo de, pelo menos, 349.650.000 anos nessa história.

Na era paleozoica (entre 542 e 241 milhões de anos atrás), animais viviam majoritariamente em ambientes aquáticos — Foto: Getty Images via BBC
Na era paleozoica (entre 542 e 241 milhões de anos atrás), animais viviam majoritariamente em ambientes aquáticos — Foto: Getty Images via BBC

"Se alguém falasse que existiram cidades na Amazônia há 3.500 anos eu até pensaria que essa era uma questão para tentar entender melhor e pesquisar. Agora, uma civilização há 350 milhões de anos? Não existe a menor possibilidade disso", assinala o arqueólogo.

Metrópoles do passado, pequenas cidades de hoje

A segunda informação completamente errada sobre Ratanabá tem a ver com o suposto tamanho da cidade. Algumas postagens dizem que ela seria maior que a Grande São Paulo.

Mais uma vez, isso está em desacordo com as evidências científicas. "Ainda não temos uma estimativa exata de quantas pessoas viviam nessas cidades da Amazônia, mas certamente elas não tinham o tamanho de São Paulo de jeito nenhum", diz Neves.

"Para ter ideia, no século 16, as cidades mais populosas do mundo provavelmente eram Istambul, na Turquia, e Tenochtitlán, no México. E elas tinham 50 mil, no máximo 200 mil habitantes", calcula o professor da USP.

Atualmente, a Grande São Paulo abriga cerca de 22 milhões de habitantes.

Neves calcula que, antes da chegada dos europeus nas Américas, existiam cerca de 10 milhões de indígenas em toda a Amazônia. "E esse número caiu muito a partir do século 17 por conta das guerras e das epidemias", ensina.

Linhas retas no meio da selva

O terceiro argumento que confere musculatura aos boatos sobre Ratanabá tem a ver com túneis encontrados na região amazônica ou com imagens aéreas, que mostram linhas retas e quadrados perfeitos, visíveis entre as copas das árvores.

Esses túneis, defendem as postagens nas mídias sociais, serviriam de passagem secreta e conectariam diversas partes da América do Sul.

As linhas retas, por sua vez, não existem na natureza e seriam fruto de trabalho humano, garantem os boatos.

Neves esclarece que realmente existem túneis na Amazônia. "As imagens divulgadas provavelmente vêm da região do Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, que era um posto colonial português."

Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, quase na divisa entre Brasil e Bolívia, foi construído no século 18 — Foto: Divulgação/Roberto Castro/Ministério do Turismo
Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, quase na divisa entre Brasil e Bolívia, foi construído no século 18 — Foto: Divulgação/Roberto Castro/Ministério do Turismo

"Essas construções estão relacionadas às disputas de fronteira entre Espanha e Portugal nas proximidades do rio Guaporé ao longo do século 18", complementa.

Mas e as linhas retas? Pelas poucas imagens disponíveis, Neves acredita que elas sejam de uma região próxima da fronteira entre os estados do Mato Grosso, Pará e Amazonas.

"Essas formações são conhecidas há muito tempo e realmente parecem linhas perpendiculares, o que é uma coisa incomum", avalia.

"As principais suspeitas são de que seja uma formação natural de calcário ou algum tipo de rocha que segue esse padrão", diz o arqueólogo.

"É improvável que aquilo seja de autoria humana. Mas, caso realmente tenha sido feito pelos povos locais, essas construções não devem ter mais do que 2,5 mil anos", completa.

O que pode estar por trás do interesse no tema

Neves, que não possui nenhum perfil nas redes sociais, confessa que nunca tinha ouvido falar de Ratanabá até a segunda semana de junho de 2022.

"Quando começaram a me perguntar sobre isso, até fui pesquisar e consultar outros colegas que estudam a arqueologia amazônica, mas ninguém conhecia essa história", relata.

Embora existam perfis nas redes sociais e até livros publicados sobre a tal "civilização perdida" nos últimos anos, o tema só ganhou o interesse popular e foi virar um assunto amplamente comentado nos últimos dias.

Na avaliação de Neves, o fenômeno pode ser explicado por uma série de fatores.

"Me parece uma mistura da ingenuidade das pessoas, que querem acreditar nesse tipo de coisa, com interesses econômicos de exploração da Amazônia", especula o especialista, que lembra de outras lendas parecidas, como a cidade de Eldorado, alvo de exploradores ao longo dos séculos por supostamente ser feita de ouro.

Na ilustração, explorador europeu vislumbra ao longe a cidade de Eldorado, que segundo as lendas era feita de ouro maciço — Foto: Getty Images via BBC
Na ilustração, explorador europeu vislumbra ao longe a cidade de Eldorado, que segundo as lendas era feita de ouro maciço — Foto: Getty Images via BBC

"E também não podemos ignorar o racismo nesse contexto. Quando se fala que existiram civilizações 'avançadas' há 300 milhões de anos, você está retirando dos povos ancestrais, que são os antepassados dos indígenas de hoje, a autoria de todas aquelas construções", acrescenta.

"É algo parecido ao que vemos no livro Eram os Deuses Astronautas?, de Erich von Däniken. Ali, soa mais fácil explicar que as pirâmides do Egito foram construídas por seres extraterrestres do que dar o crédito aos povos africanos", compara.

"E tudo isso denota um profundo racismo com todas as populações não europeias, como os indígenas e os africanos, como se elas não fossem capazes", interpreta.

Por fim, o arqueólogo opina que o fato de lendas do tipo ganharem fôlego justamente agora serve como uma espécie de balão de ensaio.

"Elas funcionam como cortina de fumaça num momento em que temos duas pessoas desaparecidas e desviam a atenção do real problema da violência na Amazônia", completa.
(Falta de) pedras no caminho

Neves explica que a arqueologia amazônica enfrentou grandes percalços ao longo das últimas décadas.

"De forma geral, a Amazônia tem poucas rochas. Então, a principal matéria-prima utilizada nas construções do passado eram terra e madeira", contextualiza.

"Para compreender esses períodos, precisamos de uma equipe multidisciplinar, capaz de trabalhar com objetos que foram deixados e resistiram ao tempo, como cerâmicas, restos orgânicos, amostras de solo, pedaços de comida, sementes e ossos", exemplifica.

Para ilustrar essa dificuldade, Neves cita como exemplo um artigo publicado há poucas semanas no periódico científico Nature por especialistas de universidades britânicas e alemãs.

A pesquisa revelou os detalhes de dois grandes sítios arqueológicos de 147 e 315 hectares (uma área equivalente a 205 e 441 campos de futebol, respectivamente), inclusive com a existência de pirâmides, na Amazônia boliviana.

"Essas estruturas de terra são conhecidas há 60 anos, mas era muito difícil definir se eram naturais ou foram construídas por seres humanos", avalia o arqueólogo.

"Só foi possível obter essa resposta agora, porque temos uma tecnologia chamada Lidar capaz de fazer esse tipo de análise."

O futuro depende do passado

Mas, afinal, diante das evidências científicas disponíveis no momento, o que os cientistas sabem sobre a história dos povos que habitaram essa região?

"Sabemos que a Amazônia foi densamente ocupada no passado e que os povos que viveram lá deixaram marcas muito visíveis do modo de vida que tinham, com valas em formato geométrico e estradas lineares", resume Neves.

"E temos dados que nos mostram de forma muito segura uma relação direta entre os indivíduos que fizeram essas construções no passado e os povos indígenas de hoje."

"Não se trata, portanto, de uma civilização perdida, que desapareceu há milhões de anos", assegura o pesquisador.

De acordo com o Painel Científico para a Amazônia, publicação coordenada pela Organização das Nações Unidas (ONU) que tem um capítulo sobre os povos que viviam na região antes da chegada dos europeus, há evidências de que essa floresta tropical é ocupada por indígenas há 12 mil anos.

"Durante essa longa história, as sociedades indígenas desenvolveram tecnologias que eram altamente adaptadas às condições locais e otimizadas para a expansão do sistema de produção de alimentos", escreve o grupo de especialistas que assinam o documento, liderado por Neves.

"A arqueologia amazônica mostra quão profunda é a história indígena na região, caracterizada pela diversidade cultural e agro-biológica. Trata-se de um dos poucos centros independentes de domesticação de plantas no planeta e um dos primeiros centros produtores de cerâmica no Novo Mundo", segue o texto.

"Todas essas tecnologias podem inspirar novas formas de urbanismo, manejo dos dejetos e sistemas integrados do uso da terra", finalizam os autores.

Para Neves, esse conjunto de evidências permite enxergar a Amazônia como um "patrimônio biocultural", com uma interação entre a ação humana e a natureza ao longo de milênios.

"Portanto, para proteger a Amazônia, precisamos fortalecer as populações locais, como os indígenas, os ribeirinhos, os quilombolas e os caboclos, porque elas têm um papel muito importante na construção e na manutenção desse patrimônio biocultural", conclui o arqueólogo.

Este texto foi originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-61803303

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