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quinta-feira, 3 de março de 2022

Café ☕ faz bem ou faz mal? Saiba quantas xícaras é possível tomar sem ter complicações

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Limite não é universal, muda de acordo com perfil do consumidor e pode ficar entre uma ou quatro xícaras por dia. Estudo de julho do ano passado com 17 mil pessoas aponta que consumo de seis xícaras foi associado ao aumento de risco de demência e derrame.
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Por g1*

Postado em 03 de março de 2022 às 07h05m

Post.- N.\ 10.232

Segundo especialistas, o ideal é consumir até 4 xícaras de café coado no dia. — Foto: Pixabay
Segundo especialistas, o ideal é consumir até 4 xícaras de café coado no dia. — Foto: Pixabay

Qual é a linha que separa os benefícios do café de eventuais efeitos prejudiciais sobre a nossa saúde? Em um caso que não tem relação direta com o consumo da bebida, mas com o uso da cafeína como um suplemento em pó, um personal trainer morreu após tomar o equivalente a 200 doses de café.

Para além do uso do suplemento, que deve ser visto com muitas ressalvas e ser evitado, o tradicional cafezinho é associado a efeitos benéficos para a saúde, sobretudo do coração e atuação contra doenças degenerativas. O excesso, como para todos os alimentos, é prejudicial. E, no caso do café o limite pode ser de uma até quatro xícaras por dia, de acordo com a pessoa.

“Estudos já demonstraram que o café é capaz de proteger a saúde do coração e prevenir doenças degenerativas, como Alzheimer e Parkinson”, apontou a médica Cíntia Cercato, endocrinologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Por outro lado, abusar do café pode causar arritmia, agitação, irritabilidade, nervosismo e insônia. Em gestantes, o consumo acima da quantidade segura pode causar atraso na formação cerebral do feto.

Um estudo da USP divulgado na revista "Clinical Nutrition" em julho de 2019 também concluiu que o consumo acima de 3 xícaras (720 ml) de café pode causar pressão alta em pessoas predispostas a desenvolver hipertensão. A dose vai variar conforme a constituição da pessoa.

Quantidade segura

Um estudo publicado em julho do ano passado que avaliou mais de 17 mil pessoas, conduzido pela University of South Australia, apontou que pessoas que tomaram mais de seis xícaras de café por dia tiveram um aumento de 53% no risco de demência ou derrame.

A endocrinologista Cercato afirma que não há problema tomar café todos os dias, mas alerta, citando a European Food Safe Authority, que a dose diária de cafeína depende de cada pessoa:

  • Adulto saudável com cerca de 70 kg: de 300 a 400 miligramas de cafeína (o equivalente a 4 xícaras de café coado)
  • Crianças (a partir de 2 anos) e adolescentes: 100 miligramas de cafeína (cerca de 1 xícara coado)
  • Gestantes e lactantes: 200 miligramas de cafeína (cerca de 2 xícaras coado)
  • Sensíveis à cafeína: de 100 a 200 miligramas de cafeína

O café expresso tem o triplo de cafeína que o coado. Para fazer o cálculo de quantas xícaras tomar, deve-se considerar que:

  • 125 ml (meia xícara) de café coado tem 85 mg de cafeína
  • Apenas 30 ml de café expresso tem 60 mg de cafeína

Vale lembrar que a cafeína está presente no cacau, no guaraná e em alguns chás. Por isso, não deve ser contabilizada somente a cafeína do café, mas de tudo o que consumimos no dia (por exemplo: chocolate, achocolatado, refrigerante à base de guaraná ou cola, chá etc).

Além de grávidas, sensíveis à cafeína e crianças e adolescentes, Cercato alerta que devem consumir café com moderação os cardiopatas e as pessoas que fazem uso de suplementos de academia, produtos ricos em cafeína.

“O café não é proibido aos cardiopatas, mas eles devem fazer uso moderado para não sentirem seus efeitos colaterais, como a arritmia”, explica a endocrinologista do HC da USP.

Café antes do esporte: pode?Café antes do esporte: pode?

Café vicia?

Segundo Cercato, não há estudos científicos que comprovem que o consumo do café pode causar vício.

Como adoçar

A nutricionista e doutora em Nutrição Humana pela Universidade de Brasília, Alessandra Gaspar Sousa, explica que o ideal é tomar o café puro, mas se quiser adoçar, deve-se substituir o açúcar branco por:

  • Melado de cana
  • Açúcar demerara
  • Açúcar de coco
  • Açúcar mascavo
  • Adoçantes à base de stévia

A barista Isabela Raposeiras explica que o café "não precisa ser amargo. O café de qualidade, aliás, não é amargo." Por isso, se você não tolera tomar café sem açúcar, pode ser culpa do tipo de café que toma.

Composição

Praticamente livre de contraindicações quando consumido puro e dentro do que os médicos chamam de “quantidade segura”, o café vai muito além da cafeína, famosa substância estimulante que aumenta a concentração, a disposição, a atenção, além de ajudar no desempenho esportivo.

“O café é rico em antioxidantes, minerais, vitaminas e flavonoides, mesma substância encontrada no vinho”, explica Cercato, endocrinologista do HC da USP.

Enquanto antioxidantes são substâncias químicas que ajudam a proteger nossas células de substâncias prejudiciais produzidas durante o metabolismo, os flavonoides ajudam na circulação sanguínea.

Além dessas substâncias, a ingestão de café ajuda nosso cérebro a liberar os seguintes estimulantes naturais:

  • Dopamina: popularmente conhecida como “hormônio da felicidade”, está relacionada com a motivação.
  • Adrenalina: hormônio relacionado com a euforia e a disposição.
Café engorda?

De acordo com o médico Audie Nathaniel Momm, nutrólogo do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, “não há correlação de ganho de peso com o consumo de café puro, exceto se o mesmo for servido com açúcar."

O nutrólogo lembra que muitos associam o café a perda de peso por causa da sua ação termogênica e estimulante, o que acelera o metabolismo. "Isso é verdade, mas [para ajudar na dieta] seu consumo deve fazer parte de hábitos alimentares e exercícios físicos regulares", explica Momm, afirmando que somente o café não faz milagres.

Mitos e verdades sobre o caféMitos e verdades sobre o café

Crianças podem tomar café?

A resposta divide os especialistas, mas ainda não há estudos que comprovem malefícios do café aos pequenos.

“A recomendação geral é que crianças menores de dois anos não tomem café. Acima disso, podem consumir, mas moderadamente. Por exemplo: não vemos problema em uma pequena quantidade de café misturada no leite no café da manhã. É melhor do que usar o achocolatado”, recomenda Cercato.

Café tem mais de mil compostos que fazem bem para a saúde, diz estudoCafé tem mais de mil compostos que fazem bem para a saúde, diz estudo

Cuidado com o café velho

A nutricionista Sousa explica que o café deve ser consumido em até 30 minutos após o preparo.

"Após 30 minutos, o café fresco pode começar a ter um sabor ruim. Isso ocorre porque inicia-se o processo de oxidação do café, gerando a degradação das substâncias da bebida, alterando com isso o paladar e o aroma" diz Sousa.

Cuidado com o café velho, não é só questão de paladar, mas também de saúde.

"O café oxidado pode provocar efeitos prejudiciais na saúde, como problemas gastrointestinais e náuseas", explica a nutricionista.

(*Com informações de reportagem publicada em 09/06/2020)

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quarta-feira, 2 de março de 2022

Lavrov diz que 3ª guerra seria atômica e destrutiva, e Rússia inicia exercícios nucleares

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No último domingo (27), presidente russo deu ordem para colocar armas nucleares de represália em posição de alerta grave. Movimentação ocorre longe do campo de batalha na Ucrânia.
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Por g1

Postado em 02 de março de 2022 às 08h45m

Post.- N.\ 10.231

Sergei Lavrov, ministro de Relações Exteriores da Rússia, em imagem de 18 de fevereiro de 2022 — Foto: Maxim Shemetov / Pool / AFP
Sergei Lavrov, ministro de Relações Exteriores da Rússia, em imagem de 18 de fevereiro de 2022 — Foto: Maxim Shemetov / Pool / AFP

O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, disse nesta quarta-feira (2) que, se uma Terceira Guerra Mundial ocorresse, envolveria armas nucleares e seria destrutiva, informou a agência de notícias RIA.

Também nesta quarta-feira, as Forças Armadas do Kremlin iniciaram exercícios com submarinos nucleares e lança-mísseis terrestres em regiões na Rússia — mas longe do campo de batalha na Ucrânia.

Onde as forças estão agindo

Os submarinos navegavam pelo Mar de Barents, ao leste da Finlândia, e os lançadores de mísseis percorriam estradas na Sibéria, no centro-norte russo.

A Frota do Norte da Rússia disse em um comunicado que vários de seus submarinos nucleares estavam envolvidos em exercícios projetados para “treinar manobras em condições adversas”. O comando informou ainda que vários navios de guerra encarregados de proteger o noroeste da Península de Kola, onde estão localizadas várias bases navais, se juntariam às manobras.

Já o Ministério da Defesa afirmou que unidades das Forças Estratégicas de Mísseis mobilizaram lançadores de mísseis balísticos intercontinentais Yars em florestas na região de Irkutsk, no leste da Sibéria.

Os militares não disseram se os exercícios estavam ligados à ordem de Putin no domingo para colocar as forças nucleares do país em alerta máximo em meio à guerra da Rússia na Ucrânia. Também não ficou claro se os exercícios representavam uma mudança nas atividades ou posturas normais de treinamento nuclear do país.

Entenda por que americanos não estão em alerta com a ameaça nuclear de Vladimir PutinEntenda por que americanos não estão em alerta com a ameaça nuclear de Vladimir Putin

Nesta terça, o Jornal Nacional ouviu estudiosos sobre as ameaças do presidente russo aos países que declararam apoio à Ucrânia.

No discurso em que anunciou a invasão à Ucrânia, o presidente russo mandou um recado para as potências ocidentais. Putin disse "para qualquer um de fora que considere interferir, se o fizer, enfrentará consequências maiores do que qualquer outra que já se enfrentou na história".

Agora, 60 anos depois, Vladimir Putin anunciou que colocou o arsenal nuclear russo em alerta especial. Foi uma ameaça aos países da Otan para tentar desencorajar o envio de armas ao Exército ucraniano e adoção de novas sanções econômicas à Rússia.

Historiador da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em Rússia, Angelo Segrillo interpreta o anúncio de Putin como uma ameaça que não tem o objetivo de ser cumprida, mas de manter as tropas da Otan fora da guerra.

“Se a Rússia não tivesse armas nucleares, talvez isso até entrasse no cálculo da Otan. Uma ajuda militar direta localizada na Ucrânia. Agora, com a Rússia tendo armas nucleares, isso não entra na cogitação deles porque isso seria um risco para os próprios países da Otan”, explicou Segrillo.

Professora da Escola de Comando e Estado-maior do Exército, Mariana Carpes concorda que a intenção de Putin é aumentar a tensão na guerra contra a Ucrânia e não começar uma guerra mundial.

“Eu quero crer que dentro do jogo político, por maior animosidade e agressividade que se veja no teatro de guerra, que o entendimento de que as armas nucleares são uma 'não arma'. Ou seja, são um armamento de não uso. Que ele prevaleça”, disse Mariana. 
Debandada em discurso

Dezenas de diplomatas abandonam discurso de Lavrov durante Conferência da ONUDezenas de diplomatas abandonam discurso de Lavrov durante Conferência da ONU

Nesta terça (1º), mais de 100 diplomatas organizaram um boicote e deixaram a sala onde estava sendo realizada a Conferência sobre o Desarmamento da ONU, em Genebra, na Suíça, durante uma fala transmitida por vídeo de Lavrov (assista acima).

Os representantes de cerca de 40 países – ocidentais e aliados, incluindo o Japão – fizeram o ato como uma forma de protesto contra a invasão russa à Ucrânia. O diplomata que representava o Brasil não saiu da sala.

Em seu discurso, o ministro russo acusou a União Europeia de se envolver em um "frenesi russofóbico" por meio do fornecimento de armas letais para a Ucrânia durante a "campanha militar" iniciada pela nação liderada por Vladimir Putin na última quinta-feira (24).

"A Ucrânia ainda tem tecnologia soviética e meios de conseguir essas armas, nós não podemos deixar de responder a esse perigo real", afirmou Sergei Lavrov.

Segundo o chanceler russo, membros da União Europeia teriam feito uma espécie de "bloqueio aéreo" a seu trajeto à sede da ONU.

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terça-feira, 1 de março de 2022

Entenda por que americanos não estão em alerta com a ameaça nuclear de Vladimir Putin

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Jornal Nacional ouviu estudiosos sobre as ameaças do presidente russo aos países que declararam apoio à Ucrânia e sobre a declaração de que colocou as forças nucleares russas em alerta máximo.
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Por Jornal Nacional

Postado em 01 de março de 2022 às 23h20m

Post.- N.\ 10.230

Entenda por que americanos não estão em alerta com a ameaça nuclear de Vladimir Putin
Entenda por que americanos não estão em alerta com a ameaça nuclear de Vladimir Putin

O Jornal Nacional foi ouvir estudiosos sobre as ameaças de Vladimir Putin aos países que declararam apoio à Ucrânia e sobre a declaração de que colocou as forças nucleares russas em alerta máximo.

A frase teve um tom de ameaça. No discurso em que anunciou a invasão à Ucrânia, o presidente russo mandou um recado para as potências ocidentais. Vladimir Putin disse "para qualquer um de fora que considere interferir, se o fizer, enfrentará consequências maiores do que qualquer outra que já se enfrentou na história".

Imediatamente, o secretário-geral da Otan, Jen Stoltenberg, declarou que a aliança militar do ocidente não tem tropas na Ucrânia nem planos de enviar. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, também afirmou que nenhuma tropa americana será envidada para o conflito.

De um lado e do outro da guerra de palavras, estão líderes que controlam os botões vermelhos: o poder sobre a maior parte do arsenal nuclear mundial.

Segundo a Federação Americana de Cientistas, o mundo tem perto de 12.700 ogivas nucleares, 90% delas estão nos arsenais da Rússia e dos Estados Unidos. Os outros 10% pertencem à China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte.

A Ucrânia chegou a ser a terceira maior potência nuclear, com as ogivas que herdou com a dissolução da União Soviética, da qual fazia parte. Mas o país abriu mão dessas armas com o Memorando de Budapeste, em 1994. O tratado também foi assinado pela Rússia, e garantia o respeito à soberania e às fronteiras da Ucrânia.

Para entender o poder das armas de destruição em massa, basta dizer que uma ogiva nuclear moderna equivale a centenas - às vezes milhares - de bombas atômicas como as que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, na Segunda Guerra Mundial.

Depois dos Estados Unidos, a antiga União Soviética também desenvolveu a bomba atômica, no início dos anos 1950. E as duas potências militares começaram uma corrida armamentista. No auge da Guerra Fria, nos anos de 1980, o mundo chegou a ter mais de 70 mil bombas. Mas o número começou a cair depois do acordo assinado pelos dois países em 1987.

O raciocínio por trás da corrida nuclear foi definido pela sigla em inglês “mad” que, traduzida, significa destruição mútua assegurada. Se dois lados de um conflito têm armas suficientes para se aniquilar, nenhum deles vai cometer a imprudência de lançar a primeira bomba.

A teoria foi posta à prova em 1962, na crise dos mísseis de Cuba. Os americanos descobriram que os soviéticos instalavam uma base de lançamento de mísseis na ilha e navios das duas potências ameaçaram começar uma guerra atômica no mar do Caribe. Na última hora, os dois recuaram.

Agora, 60 anos depois, Vladimir Putin anunciou que colocou o arsenal nuclear russo em alerta especial. Foi uma ameaça aos países da Otan para tentar desencorajar o envio de armas ao Exército ucraniano e adoção de novas sanções econômicas à Rússia.

O historiador da Universidade de São Paulo (USP), especialista em Rússia, Angelo Segrillo, interpreta o anúncio de Putin como uma ameaça, que não tem o objetivo de ser cumprida, mas de manter as tropas da Otan fora da guerra.

“Se a Rússia não tivesse armas nucleares, talvez isso até entrasse no cálculo da Otan. Uma ajuda militar direta localizada na Ucrânia. Agora, com a Rússia tendo armas nucleares, isso não entra na cogitação deles porque isso seria um risco para os próprios países da Otan”, explicou Angelo Segrillo.

A professora da Escola de Comando e Estado-maior do Exército, Mariana Carpes, concorda que a intenção de Putin é aumentar a tensão na guerra contra a Ucrânia e não começar uma guerra mundial.

“Eu quero crer que dentro do jogo político, por maior animosidade e agressividade que se veja no teatro de guerra, que o entendimento de que as armas nucleares são uma 'não arma'. Ou seja, são um armamento de não uso. Que ele prevaleça”, diz Mariana Montez Carpes.
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Guerra na Ucrânia: sanções financeiras à Rússia podem levar mundo à recessão?

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Retaliações econômicas devem ter consequências negativas aos próprios países que estão impondo as sanções e à economia global como um todo. Para o Brasil, podem resultar em mais juros e menos crescimento.
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TOPO
Por BBC

Postado em 01 de março de 2022 às 13h40m

Post.- N.\ 10.229

Sanções fazem russos correrem aos bancosSanções fazem russos correrem aos bancos

A nova rodada de sanções financeiras à Rússia pode levar o mundo de volta à recessão menos de dois anos após a contração da economia global resultante da pandemia de covid-19?

Analistas avaliam neste momento que não. Mas acreditam que as retaliações econômicas à invasão da Ucrânia por Vladimir Putin devem ter consequências negativas aos próprios países que estão impondo as sanções e à economia global como um todo.

Sob forte estresse, o sistema financeiro russo pode não ser capaz de honrar suas obrigações, alertou o banco J.P. Morgan em relatório nesta segunda-feira (28/2). Isso teria consequência sobre instituições financeiras de outros países, credores de dívidas russas.

Além disso, a nova rodada de sanções mantém a pressão sobre o preço de commodities como petróleo, gás natural, trigo e milho, com impacto adicional sobre uma inflação global que já vinha muito pressionada pelos efeitos da pandemia.

Segundo Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, esse cenário pode levar os bancos centrais de todo o mundo a elevar juros de forma mais rápida, numa tentativa de conter uma escalada inflacionária. Com mais juros, a economia global tende a crescer menos do que os 4% a 4,5% anteriormente esperados por organismos internacionais como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial.

No Brasil, as exportações podem ser afetadas caso esse cenário todo resulte em um crescimento menor na China, avalia Vale. E, com as pressões inflacionárias adicionais, o Banco Central do Brasil pode ser levado a elevar a Selic (taxa básica de juros da economia brasileira) acima dos 12,25% esperados atualmente, ampliando as chances de recessão em 2022 para um PIB que já era esperado próximo de zero.

As sanções financeiras impostas à Rússia

União Europeia, Estados Unidos, Reino Unido e outros países anunciaram no fim de semana um conjunto sem precedentes de sanções financeiras à Rússia, em resposta à invasão do país à Ucrânia.

Entre as medidas estão a exclusão de bancos russos do sistema de transferências financeira internacionais Swift e o congelamento de boa parte das reservas do Banco Central da Rússia mantidas no exterior.

As sanções têm por objetivo levar a economia russa à recessão, pressionando a opinião pública contra a ação militar de Putin no país vizinho.

Como consequência da nova leva de retaliações econômicas, o rublo russo desabou nesta segunda-feira (28/2), chegando a perder 30% do valor em relação ao dólar. Para conter a queda, a autoridade monetária russa elevou a taxa básica de juros local de 9,5% para 20%.

Diante do temor de restrições aos saques, filas se formaram em bancos e caixas eletrônicos na Rússia. O Banco Central Russo, no entanto, pediu calma e disse ter "os recursos necessários e ferramentas para manter a estabilidade financeira".

"Este conjunto de sanções está atingindo os russos comuns de uma forma que as sanções anteriores não atingiram e as pessoas agora estão se conscientizando disso", diz Chris Weafer, executivo-chefe da consultoria Micro-Advisory, baseado em Moscou.

"As pessoas estão com muito mais medo. Já se fala que algumas empresas terão que reduzir o horário de trabalho ou até suspender a produção porque não conseguem acessar partes importantes do Ocidente devido a sanções ou limitações comerciais, então há uma grande preocupação nas ruas", relata o analista.

Russos fazem fila para sacar dinheiro em caixa eletrônico em São Petersburgo no domingo (27) — Foto: Anton Vaganov/Reuters
Russos fazem fila para sacar dinheiro em caixa eletrônico em São Petersburgo no domingo (27) — Foto: Anton Vaganov/Reuters

Possíveis impactos das sanções

Banir os bancos russos do sistema de transferências internacionais Swift pode ter efeitos colaterais para empresas e instituições financeiras que têm dinheiro a receber de contrapartes russas.

Em 2018, os Estados Unidos impuseram restrições ao uso do sistema Swift por bancos iranianos, mas tratava-se de uma economia muito menor do que a russa e, na ocasião, a medida enfrentou oposição de diversos governos europeus.

A Alemanha está em posição particularmente sensível no cenário atual, pois depende da Rússia para obter cerca de dois terços das suas necessidades de gás natural. Assim, o país impôs um sacrifício a si mesmo, ao suspender a certificação do gasoduto Nord Stream 2, construído para transportar gás da Rússia à Alemanha.

Autoridades nos Estados Unidos, Europa e Reino Unido esperam minimizar os efeitos das sanções sobre suas próprias economias permitindo a continuidade de transações financeiras internacionais russas ligadas ao setor de energia e alimentos. Mas como essa filtragem será feita, ainda não está claro.

Apesar de a exclusão do sistema Swift provavelmente ter forte impacto para a Rússia, há um sistema alternativo chamado SPFS (sigla para Sistema para Transferência de Mensagens Financeiras), criado pela Rússia após a crise da Crimeia em 2014.

A China também possui um sistema secundário chamado CIPS, ou Sistema de Pagamento Interbancário Transfronteiriço.

Efeitos sobre a inflação, economia mundial e Brasil

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o principal risco da "guerra econômica" contra a Rússia continua sendo o de uma maior pressão inflacionária que leve os bancos centrais de todo o mundo a uma alta de juros mais enérgica.

"São sanções em cima de um país que tem um peso econômico frágil, mas que tem um peso em commodities relevante", observa Vale.

Nesta segunda-feira, os contratos futuros de trigo na bolsa de Chicago chegaram a subir 3,7%, os de milho 3% e os de soja, 2,5%. Rússia e Ucrânia respondem por cerca de 29% das exportações globais de trigo, 19% da oferta de milho e 80% das vendas mundiais de óleo de girassol, que compete com o óleo de soja.

Já o petróleo do tipo Brent chegou a superar os US$ 105 por barril no início das negociações nesta segunda-feira, posteriormente amortizando a alta para US$ 101. O petróleo WTI, referência para o mercado americano, bateu em US$ 99 o barril, depois indo a US$ 95.

"Estamos colocando um choque inflacionário em cima de uma inflação já muito pressionada no Brasil, Estados Unidos e Europa. Isso coloca dificuldades importante para a condução da política monetária", avalia o analista.

Para Vale, a asfixia econômica de instituições financeiras russas via exclusão do sistema Swift pode resultar em calotes e quebra de bancos, mas o impacto disso para a economia mundial é limitado.

"A asfixia rápida e intensa pode matar vários dos bancos russos, porque foi usada uma 'arma nuclear' que é o sistema Swift. Mas não estamos falando de China, EUA ou Europa, não há impacto para gerar uma recessão mundial", afirma.

Segundo o analista, uma outra consequência pode ser uma busca mais ativa dos países europeus pela transição energética, visando uma menor dependência do petróleo e gás natural e das exportações russas.

Para Vale, a possibilidade de uma recessão global só se tornaria mais palpável caso o conflito se generalize, deixando a esfera restrita da Ucrânia, caso a Rússia se sinta empoderada a estender sua ação rumo a outros países. Mas, diante da resposta dos países à invasão da Ucrânia e do poder de advertência das graves sanções financeiras impostas, o economista avalia que essa escalada é por ora improvável.

"A guerra da Ucrânia pode tirar pontos de crescimento [da economia mundial em 2022], por conta desse impacto de inflação e juros. É provável que a gente escorregue para um crescimento que fique abaixo dos 4% a 4,5% estimados pelo FMI e Banco Mundial, para algo mais próximo de 3% a 3,5%. Mas precisaremos ver ainda os impactos adicionais."

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