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quarta-feira, 21 de julho de 2021

Com pandemia, indústria perde ainda mais participação no PIB e agronegócio ganha protagonismo

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Peso da indústria vem encolhendo continuamente nos últimos anos e fatia do setor manufatureiro no PIB atingiu 11,3% no 1º trimestre – menor percentual desde 1947.
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Por Darlan Alvarenga, G1

Postado em 21 de julho de 2021 às 10h00m


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Fábrica da Audaces em Palhoça (SC), que produz máquinas inteligentes de corte e softwares para o segmento têxtil. Empresa é exemplo raro de indústria brasileira 4.0 que tem conseguido crescer mesmo durante a pandemia — Foto: Audaces/Divulgação
Fábrica da Audaces em Palhoça (SC), que produz máquinas inteligentes de corte e softwares para o segmento têxtil. Empresa é exemplo raro de indústria brasileira 4.0 que tem conseguido crescer mesmo durante a pandemia — Foto: Audaces/Divulgação

O processo de desindustrialização da economia brasileira se acentuou com a pandemia do novo coronavírus. Levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) mostra que a participação do setor manufatureiro no PIB (Produto Interno Bruto) atingiu novas mínimas históricas e que a indústria continua perdendo protagonismo na economia brasileira.

O peso da indústria de transformação (que reúne todo o setor manufatureiro) caiu de 11,79% do PIB em 2019 para 11,30% em 2020, se mantendo nesse patamar no 1º trimestre de 2021. Trata-se do menor percentual desde 1947, ano em que se inicia a série histórica das contas nacionais calculadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A série mostra que a indústria vem sofrendo um retrocesso quase contínuo desde o início dos anos 2000, evidenciando tanto as dificuldades de competitividade como também de recuperação das perdas provocadas pela crise da Covid-19. No melhor momento, em 1985, o peso do setor manufatureiro chegou a 24,5% do PIB. Ou seja, de lá para cá a participação encolheu para menos da metade de sua máxima histórica. Veja no gráfico abaixo:

Indústria de transformação perde participação no PIB — Foto: Economia G1
Indústria de transformação perde participação no PIB — Foto: Economia G1

Já a participação da indústria geral (que inclui também extrativa, construção civil e atividades de energia e saneamento) no PIB caiu de 21,4% em 2019 para 20,4% em 2020 e nos 3 primeiros meses deste ano – também nova mínima.

O levantamento, elaborada pela economista Silvia Matos, mostra a evolução da participação dos diferentes setores no PIB brasileiro, excluídos os impostos, utilizando a metodologia de preços correntes corrigidos.

Agro ganha protagonismo com crise da Covid-19

A perda de relevância da indústria no PIB é um fenômeno mundial e estrutural. Nas últimas décadas, em diversos países do mundo, a diminuição do peso do setor manufatureiro tem sido acompanhada por um avanço de setores de serviços destinados a atender uma demanda cada vez maior por atividades como serviços de tecnologia e informação, serviços pessoais, de saúde e educação.

No Brasil, no entanto, o processo de desindustrialização tem sido há tempos classificado como "prematuro", por se dar numa velocidade mais rápida do que a verificada em outras economias e por ocorrer antes de o país ter atingido um maior nível de desenvolvimento e de renda per capita. Os economistas destacam também que os serviços que mais crescem no país costumam empregar profissionais com pouca especialização e baixos salários.

"O que tem de novidade na pandemia é que o agronegócio vem ganhando protagonismo como a gente nunca viu. Tudo caiu, só o agro se beneficiou, ficando praticamente imune à crise na maioria dos países. O mundo continuou demandando muito alimentos, teve um boom de commodities e é um setor que continua inovando muito, com adoção de tecnologias", afirma a pesquisadora do Ibre/FGV.

O levantamento mostra que o setor de serviços – o mais afetado pelas medidas de restrição para conter a propagação do coronavírus – viu seu peso no PIB cair de 73,5% em 2019 para 71,7% no 1º trimestre de 2021. Já a participação do agronegócio saltou no mesmo período de 5,1% para 7,9% – maior percentual trimestral desde 1996. Veja no gráfico abaixo:

Agropecuária e serviços ganham participação — Foto: Economia G1
Agropecuária e serviços ganham participação — Foto: Economia G1

Na avaliação da pesquisadora do Ibre, o agronegócio tende a continuar sendo favorecido pela forte e crescente demanda mundial por alimentos como soja, milho e carnes. Mas, com o avanço da vacinação e o gradual fim das medidas de restrição, a tendência é que o setor de serviços volte a recuperar rapidamente uma boa parte da fatia perdida no PIB.

"O setor de serviços foi o que mais sofreu. O país parou de consumir serviços. Então, acabando a pandemia, o natural é que o setor volte a crescer", afirma Matos.

Já para a indústria os desafios são maiores, uma vez que não dependem apenas da reabertura total da economia e da recuperação da demanda interna, mas também do enfrentamento de questões estruturais que se arrastam há anos e de problemas novos como falta de insumos, inflação elevada e aumento do custo do crédito em meio à elevação da taxa básica de juros.

Após 3 quedas seguidas, produção industrial cresce 1,4% em maio, mas não elimina perdas dos meses anteriores.
Após 3 quedas seguidas, produção industrial cresce 1,4% em maio, mas não elimina perdas dos meses anteriores.

Desafios da indústria para recuperar perdas da pandemia

Matos lembra que a continuidade do processo de desindustrialização durante a pandemia se deu mesmo diante de alguns fatores que beneficiaram segmentos manufatureiros. A forte desvalorização do dólar no ano passado favoreceu as exportações e as mudanças na cesta de consumo dos brasileiros durante a quarentena, por exemplo, impulsionaram as vendas de produtos como material de construção, eletrodomésticos e móveis.

"O resultado da indústria poderia ser até pior", afirma a pesquisadora, acrescentando que segmentos relacionados ao agronegócio como indústrias de alimentos processados e de máquinas também se deram bem, na contramão da economia e da média do setor.

Pesquisa mensal do IBGE mostrou que a produção industrial brasileira voltou a crescerem maio, após 3 meses consecutivos de queda, mas que o setor ainda eliminou as perdas dos meses de fevereiro, março e abril.

Dos 26 setores acompanhados pelo IBGE, 13 setores, ou seja, metade deles, ainda se encontram abaixo do pré-pandemia. Veja no gráfico abaixo:

Apenas metade das atividades industriais retomaram em maio o patamar pré-pandemia, segundo o IBGE. — Foto: Economia/G1
Apenas metade das atividades industriais retomaram em maio o patamar pré-pandemia, segundo o IBGE. — Foto: Economia/G1 

Baixa produtividade e competitividade

Estudo recente divulgado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostrou que a parcela da manufatura no PIB brasileiro em 2020 ficou 4,7 pontos percentuais (p.p.) abaixo da média global em 2020 e 2,1 p.p. ao excluir a China da média mundial.

"Desde o início do século XXI, o grau de industrialização brasileiro tem sido menor que da economia mundial e essa diferença vem aumentando. Em síntese, é um retrocesso de longo prazo que reforça a tese de que se trata de um problema estrutural com vários componentes – entre eles o Custo Brasil – e não circunscrito a apenas um governo", destacou o Iedi.

A recuperação de um maior protagonismo da indústria na economia é apontada como essencial para o país alcançar maiores taxas de crescimento do PIB e níveis mais elevados de desenvolvimento, uma vez que produtos industriais são os que mais possuem ramificações e conexões com múltiplos setores e pela capacidade de reduzir custos e agregar valor a produtos básicos e por seu papel ofertante e demandante de tecnologias e inovação.

Para Matos, no entanto, mais importante do que elevar o percentual de participação da indústria no PIB, é buscar ganhos de produtividade e uma maior eficiência e competitividade da economia brasileira como um todo.

"O importante é ser eficiente, não importa em qual setor. Mas a produtividade do Brasil é inferior a de lá de fora em todos os setores, e a indústria sofre mais porque é um segmento intensivo em capital e cada vez mais também em tecnologia e mão de obra qualificada, e isso é uma carência do Brasil", afirma a economista. 
Indústria de SC cresce ao oferecer soluções para indústrias virarem 4.0

Na contramão do setor manufatureiro, a Audaces é exemplo raro de indústria brasileira que tem conseguido crescer mesmo durante a pandemia.

A empresa de Santa Catarina desenvolve softwares e produz maquinários para outras indústrias, sobretudo para o segmento têxtil, e registrou um crescimento de 20% no faturamento em 2020. Com o aumento do número de clientes, o número de funcionários que era de 170 antes do início da pandemia aumentou para 200.

A estratégia é focada na inovação e no desenvolvimento de produtos e soluções que ajudam outras empresas a reduzir custos, automatizar processos e melhorar a eficiência na indústria de moda.

Audaces, de Santa Catarina, fabrica máquinas de corte de tecidos automatizadas, que reduzem custos e o desperdício dos materiais utilizados. — Foto: Divulgação/Audaces
Audaces, de Santa Catarina, fabrica máquinas de corte de tecidos automatizadas, que reduzem custos e o desperdício dos materiais utilizados. — Foto: Divulgação/Audaces

A empresa nasceu em 1992 atuando apenas no desenvolvimento de softwares e, desde 2000, se transformou também em indústria. Atualmente, possui mais de 15 mil clientes em mais de 70 países.

A companhia fabrica máquinas digitais e automáticas para confecções têxteis, e desenvolveu também uma plataforma de gestão com tecnologias que integram desde a etapa de criação de peças e moldes até o controle da ordem de produção, permitindo que dados sejam enviados remotamente, até mesmo de fora da fábrica, para os equipamentos de corte automatizados.

"Não é só uma máquina que corta sozinha. Temos clientes que conseguiram reduzir em mais de 30% o seu tempo de criação de coleção e uma redução de mais de 20% do consumo de tecidos", afirma o diretor executivo Matheus Fagundes. "Quando tem uma crise, as empresas acabam olhando para dentro, como podem se tornar mais eficiente. Então, neste momento, a gente acaba ganhando espaço e as nossas soluções têm ajudado também a indústria a se tornar mais 4.0".

"Não importa quanto a indústria vai ter de participação no PIB. A indústria vai ganhar mais protagonismo se for mais eficiente, não com protecionismo ou subsídio. Por isso, a agenda precisa ser pró-produtividade, de melhora do ambiente de negócios, de reforma tributária, de melhoria da educação e de adoção de tecnologias", resume Matos.


Conceito de indústria 4.0 ganha força com a pandemia
Conceito de indústria 4.0 ganha força com a pandemia

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terça-feira, 20 de julho de 2021

Chuva causa alagamentos e deixa mortos em província na região central da China

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Em apenas uma hora moradores ficaram ilhados em escolas e locais de trabalho na província de Henan; ao menos 12 pessoas morreram e 100 mil foram levadas para locais mais seguros. Estações de metrô foram inundadas e bairros inteiros ficaram cobertos de água.
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TOPO
Por Associated Press

Postado em 20 de julho de 2021 às 21h15m


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Inundação na China deixa passageiros presos em vagões do metrô
Inundação na China deixa passageiros presos em vagões do metrô

Ao menos 12 pessoas morreram e 100 mil tiveram que ser levadas para locais mais seguros devido a graves enchentes na capital da província de Henan, na região central China, nesta terça-feira (20). Alagamentos deixaram pessoas presas em metrôs, escolas e locais de trabalho durante toda a noite em Zhengshou.

Segundo a agência oficial de notícias chinesa Xinhua, com dados da agência meteorológica de Henan, apenas entre as 16h e às 17 horas, foram 20 centímetros de chuva, que transformaram as ruas em riachos de forte correnteza, prendendo carros e inundando estações de metrô.

Vídeos postados online mostravam bairros inteiros cobertos de água na altura da cintura e veículos flutuando na água lamacenta.

Veículos presos após forte chuva em Zhengzhou, capital da província de Henan, na China, na terça-feira (20) — Foto: Chinatopix Via AP
Veículos presos após forte chuva em Zhengzhou, capital da província de Henan, na China, na terça-feira (20) — Foto: Chinatopix Via AP

Ao norte, o famoso Templo Shaolin, conhecido pelo domínio das artes marciais de seus monges budistas, foi duramente atingido. A província de Henan abriga muitos locais culturais e uma importante base para a indústria e agricultura.

Pessoas ilhadas passaram a noite em seus locais de trabalho ou se hospedaram em hotéis próximos, sem conseguir chegar em suas casas.

Wang Guirong, uma gerente de restaurante de 56 anos, disse que planejava dormir no sofá de seu restaurante após ser informada de que não havia eletricidade em seu bairro. A State Grid Zhengzhou Power Supply Co. disse que uma subestação no centro da cidade foi forçada a fechar por causa da chuva.

Pessoas tentam atravessar ruas alagadas após forte chuva em Zhengzhou, capital da província de Henan, na China, na terça-feira (20) — Foto: Chinatopix Via AP
Pessoas tentam atravessar ruas alagadas após forte chuva em Zhengzhou, capital da província de Henan, na China, na terça-feira (20) — Foto: Chinatopix Via AP 

“Vivi em Zhengzhou toda a minha vida e nunca vi uma tempestade tão forte como hoje”, disse Wang.

A China sofre inundações regulares durante os meses de verão, mas o crescimento das cidades e a conversão de terras agrícolas em subdivisões aumentaram o impacto de tais eventos.

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segunda-feira, 19 de julho de 2021

A revolta causada pela seca que enfraqueceu um dos impérios mais poderosos do mundo

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Assim como no caso do Império Otomano, mudanças climáticas agem como 'multiplicador de ameaças' — quando agitação social coincide com condições meteorológicas extremas, pode haver consequências devastadoras.
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TOPO
Por BBC

Postado em 19 de juho de 2021 às 08h00m


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Mudanças climáticas agem como 'multiplicador de ameaças' — quando agitação social coincide com condições meteorológicas extremas, pode haver consequências devastadoras — Foto: Getty Images
Mudanças climáticas agem como 'multiplicador de ameaças' — quando agitação social coincide com condições meteorológicas extremas, pode haver consequências devastadoras — Foto: Getty Images

No fim do século 16, centenas de bandidos invadiram os campos rurais da Anatólia a cavalo, saqueando vilas, incitando a violência e desestabilizando o poder do sultão.

Quatrocentos anos depois e a algumas centenas de quilômetros de distância, onde hoje é a Síria, uma série de protestos generalizados se transformou em 2011 em uma sangrenta guerra civil que perdura até hoje.

Esses episódios sombrios da história do Mediterrâneo compartilham características-chave que servem de alerta para o futuro: ambos os eventos forçaram muitas pessoas a deixar suas casas. Da mesma forma, ambos tiveram origem na política e resultaram em consequências políticas dramáticas.

E ambos foram impulsionados por temperaturas extremas que costumam ser associadas às mudanças climáticas.

Como historiadora ambiental, pesquisei e escrevi extensivamente sobre conflitos e pressões ambientais na região do Mediterrâneo Oriental.

Embora secas severas, furacões, aumento do nível dos oceanos e migração climática possam parecer fenômenos novos e únicos do nosso tempo, crises passadas como a que acabei de mencionar, assim como outras, oferecem lições importantes sobre como as mudanças climáticas podem desestabilizar as sociedades humanas.

Vamos analisar isso mais de perto.

Seca no coração de um império

Vivemos em uma era de aquecimento global devido em grande parte às práticas humanas insustentáveis.

Geralmente conhecida como Antropoceno, esta era é amplamente considerada como tendo surgido no século 19, na esteira de outro período de grande mudança climática global chamado de Pequena Era do Gelo.

A Pequena Era do Gelo levou temperaturas mais frias do que a média, assim como um clima extremo, a várias partes do mundo.

Diferentemente do aquecimento antropogênico atual, provavelmente foi causada por fatores naturais, como a atividade vulcânica, e afetou diferentes regiões em momentos distintos, em diferentes graus e de maneiras bastante distintas.

Seu início no fim do século 16 foi particularmente notável na Anatólia, uma região predominantemente rural que chegou a ser o coração do Império Otomano e cujos limites são aproximadamente os da atual Turquia.

Tradicionalmente, grande parte de suas terras se destinava ao cultivo de grãos ou ao pasto de ovelhas e cabras. Eram uma importante fonte de alimento para a população rural, assim como para os moradores da movimentada capital otomana, Istambul (antes chamada de Constantinopla).

As duas décadas em torno do ano 1600 foram especialmente difíceis.

A Anatólia passou por alguns de seus anos mais frios e secos da história, sugerem os anéis das árvores e outros dados paleoclimatológicos.

Esse período também teve secas frequentes, assim como geadas e inundações. Ao mesmo tempo, os habitantes da região sofreram devido a uma praga animal e políticas estatais opressivas, incluindo a apreensão de grãos e carnes para enfrentar uma guerra custosa na Hungria.

As rebeliões Celali

As fracas colheitas prolongadas, a guerra e as dificuldades expuseram deficiências importantes do sistema de abastecimento otomano.

As intempéries paralisaram os esforços do Estado para distribuir suprimentos limitados de alimentos, a fome se espalhou pelo zona rural até Istambul, acompanhada por uma epidemia mortal.

Em 1596, uma série de levantes coletivos conhecidos como rebeliões Celali estouraram, se convertendo na ameaça interna mais duradoura ao poder do Estado nos seis séculos de existência do Império Otomano.

Camponeses, grupos seminômades e líderes provincianos contribuíram para esse movimento com uma onda de violência, vandalismo e instabilidade que durou até o século 17.

Com a persistência da seca, das doenças e do derramamento de sangue, o povo abandonou as fazendas e vilarejos, fugindo da Anatólia em busca de áreas mais estáveis, enquanto a fome matava muitos que não tinham recursos para partir.

O enfraquecimento do Império Otomano

Antes desse ponto, o Império Otomano havia sido um dos regimes mais poderosos do início da era moderna.

Abrangia grandes territórios na Europa, Norte da África, Oriente Médio e controlava os lugares mais sagrados do Islã, do Cristianismo e do Judaísmo.

Durante o século anterior, as tropas otomanas haviam entrado na Ásia Central para anexar grande parte da Hungria. Também avançaram para o Império dos Habsburgo, ameaçando Viena em 1529.

As rebeliões Celali deixaram consequências políticas importantes.

O governo otomano conseguiu restaurar a relativa calma nas zonas rurais da Anatólia em 1611, mas a um custo.

O controle do sultão sobre as províncias enfraqueceu irreversivelmente, e o controle interno sobre a autoridade otomana ajudou a conter seu movimento de expansão.

As rebeliões Celali fecharam a porta da "Era de Ouro" otomana, colocando este império monumental em uma espiral de descentralização, reveses militares e fraqueza administrativa que atormentaria o Estado otomano durante os três séculos restantes de sua existência.

Mudanças climáticas: um multiplicador de ameaças

Quatrocentos anos depois, o estresse ambiental voltou a coincidir com a agitação social e lançou a Síria em uma duradoura e devastadora guerra civil.

Este conflito surgiu no contexto de opressão política e do movimento da Primavera Árabe, e no final de uma das piores secas da Síria na história moderna.

A magnitude do papel do meio ambiente na guerra civil síria é difícil de se medir porque, como nas rebeliões Celali, seu impacto esteve indelevelmente ligado a pressões sociais e políticas.

Mas a combinação brutal dessas forças não pode ser ignorada. É por isso que especialistas militares hoje falam da mudança climática como um "multiplicador de ameaças".

Entrando agora em sua segunda década, a guerra da Síria expulsou mais de 13 milhões de sírios de suas casas.

Anatólia chegou a ser o coração do Império Otomano — Foto: Getty Images
Anatólia chegou a ser o coração do Império Otomano — Foto: Getty Images

Cerca de metade se deslocou internamente, enquanto o restante buscou refúgio em países vizinhos, na Europa e mais além, intensificando consideravelmente a crise global de refugiados.

Lições para hoje e para o futuro

A região do Mediterrâneo pode ser particularmente propensa aos efeitos negativos do aquecimento global, mas essas duas histórias estão longe de ser casos isolados.

À medida que as temperaturas do planeta sobem, o clima vai dificultar cada vez mais as questões humanas, exacerbando os conflitos e impulsionando a migração.

Nos últimos anos, países de baixa altitude como Bangladesh foram devastados por enchentes, enquanto a seca afetou vidas no Chifre da África e na América Central, enviando um grande número de migrantes para outros países.

A história do Mediterrâneo oferece três lições importantes para abordar os atuais problemas ambientais globais:

  • Em primeiro lugar, os efeitos negativos das mudanças climáticas recaem desproporcionalmente sobre indivíduos pobres e marginalizados, que têm menos capacidade de reagir e se adaptar;
  • Em segundo lugar, os desafios ambientais tendem a afetar mais quando combinados com movimentos sociais, e os dois estão frequentemente indistintamente conectados;
  • Terceiro, a mudança climática tem o potencial de impulsionar a migração e o reassentamento, estimular a violência, derrubar regimes e transformar dramaticamente as sociedades humanas em todo o mundo.

Em última análise, a mudança climática afetará a todos nós, de maneiras dramáticas, angustiantes e imprevistas. Mas, à medida que contemplamos o futuro, podemos aprender muito com nosso passado.

* Andrea Duffy é diretora de Estudos Internacionais da Universidade do Estado do Colorado, nos EUA.

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domingo, 18 de julho de 2021

Como os cosmonautas russos conquistaram o espaço

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Enquanto os rostos dos sete primeiros astronautas selecionados pela Nasa eram divulgados pela imprensa mundial, os cosmonautas russos treinavam em segredo.
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TOPO
Por BBC

Postado em 18 de julho de 2021 às 16h15m


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Enquanto os rostos dos sete primeiros astronautas selecionados pela Nasa eram divulgados pela imprensa mundial, os cosmonautas russos treinavam em segredo — Foto: Getty Images/BBC
Enquanto os rostos dos sete primeiros astronautas selecionados pela Nasa eram divulgados pela imprensa mundial, os cosmonautas russos treinavam em segredo — Foto: Getty Images/BBC

Em 13 de abril de 1961, o correspondente especial do jornal soviético Izvestia, Georgi Ostroumov, se encontrava com o primeiro homem enviado ao espaço.

Um dia depois de retornar à Terra, o "piloto espacial" Yuri Gagarin estava, conforme relatou Ostroumov, "animado, forte e saudável... um sorriso maravilhoso ilumina seu rosto".

"De vez em quando, covinhas aparecem em suas bochechas", escreveu Ostroumov.

"Ele aprecia a curiosidade com que é pressionado pelos detalhes do que viu e vivenciou durante a uma hora e meia que passou fora da Terra."

Em um livreto publicado para comemorar a façanha, Soviet Man in Space, a entrevista com Gagarin continua por várias páginas.

O cosmonauta descreve a experiência: "O horizonte apresenta uma visão única e extraordinariamente bela."

E enaltece a União Soviética: "Dedico meu voo a... todo o nosso povo que está marchando na vanguarda da humanidade e construindo uma nova sociedade".

Em um sistema político em que o jornalismo tende à propaganda, no lugar de um retrato realista dos fatos, é fácil argumentar que as aspas de Gagarin são inventadas.

Mas, embora possam ter sido filtradas por censores, há uma boa chance de que sejam as palavras reais dele.

Piloto de combate que cresceu em um pequeno vilarejo russo, Gagarin era um homem de família benquisto.

Ele era bonito, agradável e, mais importante, um membro fiel de carteirinha do partido comunista.

Embora o passo a passo do primeiro programa espacial tripulado da Nasa, a agência espacial americana, tenha sido acompanhado pelo público, só recentemente veio à tona a história completa de como a União Soviética selecionou e treinou seus cosmonautas.

O império comunista fez questão de encorajar a visão de que a seleção estava aberta a todos, e que os primeiros homens enviados ao espaço — e a primeira mulher, Valentina Tereshkova — eram voluntários.

Mas isso não é bem verdade.

Depois de se qualificar como piloto de combate, Gagarin ficou baseado em um campo de pouso russo remoto na divisa com a Noruega, pilotando caças a jato MiG-15 na fronteira ocidental da Guerra Fria.

No fim do verão de 1959, dois médicos chegaram à base área para entrevistar um grupo pré-selecionado de aviadores.

Após começar com uma lista de cerca de 3,5 mil candidatos em potencial, os médicos restringiram sua busca a aproximadamente 300 pilotos em todo o oeste do país.

"Os caras que estão sendo entrevistados não têm ideia do por que realmente estão sendo entrevistados", diz Stephen Walker, autor do livro Beyond, que passou anos vasculhando arquivos russos para contar a história completa da missão de Gagarin.

União Soviética investiu pesado no programa espacial, mas oficialmente ele não existia — Foto: Getty Images/BBC
União Soviética investiu pesado no programa espacial, mas oficialmente ele não existia — Foto: Getty Images/BBC 

A entrevista consistia em um bate-papo aparentemente casual sobre carreira, aspirações e família. Alguns dos homens eram convidados então a uma segunda conversa.

Embora os médicos insinuassem que estavam procurando candidatos para pilotar um novo tipo de máquina voadora, em nenhum momento eles revelavam sua verdadeira motivação.

"Eles estão procurando pilotos militares, pessoas que já aceitaram a possibilidade de morrer por seu país, que é realmente do que se trata, porque as chances de voltar com vida não são necessariamente muito grandes", explica Walker.

Enquanto a Nasa recruta pilotos de teste militares como seus primeiros astronautas a pilotar a complexa espaçonave Mercury, a cápsula soviética Vostok foi projetada para ser controlada remotamente a partir do solo.

Exceto em caso de uma emergência, os pilotos não chegariam a pilotar muito.

"Eles não estão procurando pessoas com muita experiência", afirma Walker.

"O que eles estão procurando basicamente é uma versão humana de um cão — alguém que possa sentar lá e aguentar a missão, lidar com as forças de aceleração e voltar vivo."

E assim como os cães espaciais que os cientistas de foguetes soviéticos vinham lançando ao espaço há mais de uma década, os cosmonautas teriam que estar em forma, ser obedientes e pequenos o suficiente para caber na cápsula apertada.

Número de integrantes da primeira turma de cosmonautas em potencial caiu para 20, incluindo Yuri Gagarin, o segundo da esquerda — Foto: Getty Images/BBC
Número de integrantes da primeira turma de cosmonautas em potencial caiu para 20, incluindo Yuri Gagarin, o segundo da esquerda — Foto: Getty Images/BBC 

Por fim, 134 indivíduos selecionados — todos jovens pilotos com menos de 1,68 m de altura — tiveram a oportunidade de se "voluntariar" para esta nova missão ultrassecreta.

Alguns foram informados que seriam treinados para pilotar uma espaçonave, outros acreditavam que se tratava de um novo modelo de helicóptero.

Nenhum dos pilotos tinha permissão para discutir a oferta com seus colegas ou consultar suas famílias.

Em paralelo, em abril de 1959, os Estados Unidos anunciavam os nomes dos primeiros sete astronautas da Mercury.

Os candidatos foram submetidos a uma série exaustiva de testes físicos, médicos e psicológicos — detalhados no livro Os Eleitos, de Tom Wolfe (assim como no filme subsequente e na série de TV de mesmo nome).

Quando questionados em uma entrevista coletiva para a imprensa sobre qual dos testes eles menos gostaram, o então candidato a astronauta John Glenn respondeu:

"É difícil escolher um porque se você souber quantas aberturas existem no corpo humano, e quão longe você pode ir em qualquer uma delas... você responde qual seria a mais difícil para você."

Mas, com tantas questões em aberto sobre como os humanos vão lidar com o rigor de um voo espacial — as acelerações, a ausência de gravidade e o isolamento —, havia todos os motivos para escolher os mais aptos física e psicologicamente.

O homem encarregado de testar os candidatos espaciais soviéticos foi Vladimir Yazdovsky, professor do Instituto de Aviação e Medicina Espacial de Moscou.

Ele já havia supervisionado o programa de cães espaciais e era descrito por colegas (privadamente) como um homem severo e arrogante.

"Ele é tipo um daqueles personagens aterrorizantes de James Bond", diz Walker. "E é brutal com esses caras."

Treinamento soviético teve menos ênfase em técnicas de pilotagem do que o da Nasa — Foto: Getty Images/BBC
Treinamento soviético teve menos ênfase em técnicas de pilotagem do que o da Nasa — Foto: Getty Images/BBC 

Em quase todos os casos, os testes soviéticos eram mais longos, mais difíceis e mais rigorosos do que os enfrentados pelos astronautas americanos.

Ao longo de um mês, os candidatos foram injetados, examinados e espetados.

Eles foram colocados em salas com temperaturas elevadas a 70 °C, câmaras onde ficavam progressivamente sem oxigênio e assentos vibratórios para simular o lançamento.

Alguns candidatos desmaiaram, outros simplesmente desistiram.

Durante todo o processo, eles eram proibidos de contar a seus familiares e amigos o que estavam fazendo.

Mesmo naquele mês de testes, alguns ainda não sabiam para o que estavam sendo testados.

Por fim, 20 desses jovens foram aprovados para serem treinados em um novo centro de cosmonautas.

Mais tarde, o centro receberia o nome de Cidade das Estrelas, mas inicialmente era formado apenas por algumas cabanas militares em uma floresta perto de Moscou.

Não houve entrevista coletiva para a imprensa ou qualquer anúncio. Oficialmente, o programa de voos espaciais tripulados por humanos da União Soviética não existia.

Cosmonautas russos tiveram que passar por muitos testes semelhantes aos dos astronautas da Nasa, como o treinamento de gravidade zero — Foto: Getty Images/BBC
Cosmonautas russos tiveram que passar por muitos testes semelhantes aos dos astronautas da Nasa, como o treinamento de gravidade zero — Foto: Getty Images/BBC 

"Se eles deixam a base, são orientados a não contar a ninguém o que estão fazendo, por que estão lá; se alguém perguntar, eles devem dizer que fazem parte de um time esportivo", diz Walker. Tudo é controlado, tudo é segredo. Tudo acontece a portas fechadas."

O programa de treinamento em si é semelhante ao dos americanos, mas com menos ênfase no controle da espaçonave.

Assim como os cães espaciais, os homens são girados em centrífugas com acelerações vertiginosas, lacrados em câmaras de isolamento à prova de som por dias a fio e submetidos a avaliações físicas e psicológicas quase constantes.

Uma diferença significativa em relação ao programa americano é a quantidade de treinamento de paraquedas que os russos receberam.

É que eles precisariam se ejetar de suas espaçonaves à medida que se aproximassem do solo para evitar serem gravemente feridos pelo impacto.

O fato de a cápsula e seu piloto pousarem separadamente é outro segredo que só seria revelado anos depois.

Com vários outros candidatos reprovados, um grupo inicial de seis cosmonautas é selecionado para os primeiros voos.

Após a Nasa declarar publicamente que espera lançar seu primeiro homem ao espaço na primavera de 1961, o chefe do programa soviético, Sergei Korolev, sabe que tem uma janela estreita de oportunidade.

Em 5 de abril de 1961, os cosmonautas chegaram ao que hoje é conhecido como Cosmódromo de Baikonur, no deserto do Cazaquistão, onde o foguete R7 de Korolev estava sendo preparado.

Naquele momento, nenhum deles sabia quem seria o primeiro a ser enviado ao espaço. Finalmente, apenas alguns dias antes do lançamento, Gagarin recebeu o aval.

Só depois de uma transmissão oficial, quando Gagarin está na órbita da Terra, que as pessoas, exceto as mais próximas do programa espacial, viriam a saber seu nome.

De acordo com Ostroumov, correspondente especial do jornal Izvestia, na manhã de 12 de abril, Gagarin deu "um último aceno aos amigos e camaradas lá embaixo [do foguete] e entrou na espaçonave, alguns segundos depois o comando foi dado... a gigantesca espaçonave se ergueu de uma nuvem de fogo em direção às estrelas".

Ele voltaria à Terra como o garoto-propaganda da União Soviética — o piloto espacial eleito da Rússia.

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