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terça-feira, 27 de abril de 2021

O plano trilionário para capturar CO2 do ar e esfriar a Terra

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Para fazer isso, seria necessária uma nova e gigantesca indústria global — mas como ela funcionaria? Essa resposta pode ser chave para evitar um futuro trágico por causa das mudanças climáticas.
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TOPO
Por Frank Swaine, BBC

Postado em 27 de abril de 2021 às 15h25m


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A Carbon Engineering está planejando construir, no Texas, a maior usina de captura direta de ar do mundo — Foto: Carbon Engineering via BBC
A Carbon Engineering está planejando construir, no Texas, a maior usina de captura direta de ar do mundo — Foto: Carbon Engineering via BBC

O ano é 2050. Saia do Museu do Petróleo da Bacia do Permiano, no Estado americano do Texas, e dirija em direção ao norte atravessando a vegetação castigada pelo sol, onde algumas bombas de óleo remanescentes compõem a paisagem, e você vai se deparar com um palácio cintilante.

A terra aqui é espelhada: as ondas azul-prateadas de um imenso painel solar se estendem em todas as direções.

Ao longe, eles esbarram em uma parede cinza colossal de cinco andares de altura e quase um quilômetro de comprimento. Atrás deste muro, você avista as tubulações e pórticos de uma fábrica de produtos químicos.

Conforme você se aproxima, vê que a parede está se movendo — ela é inteiramente composta de ventiladores enormes que giram em caixas de aço. Parece um aparelho de ar-condicionado gigantesco, soprando em proporções inacreditáveis.

De certa forma, é exatamente isso. Você está olhando para uma usina de captura direta de ar (DAC, na sigla em inglês), uma das dezenas de milhares do tipo em todo o mundo. Juntas, elas estão tentando resfriar o planeta sugando dióxido de carbono do ar.

Esta paisagem texana ficou famosa pelos bilhões de barris de petróleo extraídos de suas profundezas durante o século 20. Agora, o legado desses combustíveis fósseis — o CO2 em nosso ar — está sendo bombeado de volta para os reservatórios vazios.

Se o mundo deseja cumprir as metas do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5 °C até 2100, paisagens como esta podem ser necessárias em meados do século.

Mas voltemos por um momento até 2021, para Squamish, na Província canadense de British Columbia, onde, em contraste com um horizonte bucólico de montanhas nevadas, estão sendo feitos os últimos retoques em um dispositivo do tamanho de um celeiro coberto com uma lona azul.

Quando entrar em operação, em setembro, o protótipo da usina de captura direta de ar da Carbon Engineering começará a remover 1 tonelada de CO2 do ar todos os anos.

A usina piloto da Carbon Engineering em British Columbia, no Canadá, será o modelo para usinas de DAC muito maiores — Foto: Carbon Engineering via BBC
A usina piloto da Carbon Engineering em British Columbia, no Canadá, será o modelo para usinas de DAC muito maiores — Foto: Carbon Engineering via BBC

É um pequeno começo, e uma usina um pouco maior no Texas está em andamento, mas esta é a dimensão típica de uma usina de DAC hoje.

"As mudança climática estão sendo causadas pelo excesso de CO2", diz Steve Oldham, executivo-chefe da Carbon Engineering. "Com a DAC, você pode remover qualquer emissão, em qualquer lugar, a qualquer momento. É uma ferramenta muito poderosa."

A maior parte da captura de carbono se concentra na limpeza das emissões na fonte: purificadores e filtros em chaminés que evitam que gases nocivos atinjam a atmosfera.

Mas isso é impraticável para pequenas e numerosas fontes pontuais, como os cerca de 1 bilhão de automóveis do planeta. Tampouco pode combater o CO2 que já está no ar. É aí que entra a captura direta.

Se o mundo quer evitar mudanças climáticas catastróficas, migrar para uma sociedade neutra em carbono não é suficiente.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) alertou que limitar o aquecimento global a 1,5 °C até 2100 exigirá tecnologias como a DAC para "implantação em larga escala de medidas de remoção de dióxido de carbono" — larga escala, neste caso, são vários bilhões de toneladas a cada ano.

O empreendedor Elon Musk prometeu recentemente US$ 100 milhões para desenvolver tecnologias de captura de carbono, enquanto empresas como Microsoft, United Airlines e ExxonMobil estão fazendo investimentos de bilhões de dólares nesta área.

"Os modelos atuais sugerem que vamos precisar remover 10 bilhões de toneladas, ou gigatoneladas, de CO2 por ano até 2050 e, no fim do século, esse número precisa dobrar", diz Jane Zelikova, cientista do clima da Universidade de Wyoming, nos Estados Unidos.

No momento, "não estamos removendo praticamente nada". "Precisamos começar do zero".

A usina da Carbon Engineering em Squamish foi projetada como uma plataforma de testes para diferentes tecnologias. Mas a empresa tem um projeto para uma usina muito maior nos campos de petróleo do oeste do Texas, que capturaria 1 milhão de toneladas de CO2 por ano.

"Uma vez que estiver pronto, é como uma forma, você simplesmente constrói réplicas dessa usina", diz Oldham.

Ele admite, no entanto, que o volume de trabalho pela frente é vertiginoso. "Precisamos extrair 800 gigatoneladas da atmosfera. Isso não vai acontecer da noite para o dia."

Céu azul

A instalação da Climeworks perto de Zurique, na Suíça, vende o CO2 que captura para as estufas de produtores de hortaliças da região — Foto: Alamy via BBC
A instalação da Climeworks perto de Zurique, na Suíça, vende o CO2 que captura para as estufas de produtores de hortaliças da região — Foto: Alamy via BBC

A ciência da captura direta de ar é simples. Há várias maneiras de fazer isso, mas o sistema da Carbon Engineering usa ventiladores para puxar ar contendo 0,04% de CO2 (níveis atmosféricos de hoje) por meio de um filtro embebido em solução de hidróxido de potássio — produto químico conhecido como potassa cáustica, usado na fabricação de sabão e vários outros produtos.

O hidróxido de potássio absorve CO2 do ar. O líquido é canalizado para uma segunda câmara e misturado com hidróxido de cálcio, a cal usada na construção civil, que se prende ao CO2 dissolvido, produzindo pequenos flocos de calcário.

Esses flocos são peneirados e aquecidos em uma terceira câmara, de calcinação, até que se decomponham, liberando CO2 puro, que é capturado e armazenado. Em cada etapa, os resíduos químicos são reciclados.

Com as emissões globais de carbono continuando a aumentar, a meta climática de 1,5 °C parece cada vez menos provável de ser alcançada sem intervenções como essa.

"O número de coisas que teriam que acontecer sem a captura direta de ar é tão extenso e variado que é altamente improvável que sejamos capazes de cumprir o Acordo de Paris sem ela", diz Ajay Gambhir, pesquisador sênior do Instituto Grantham para Mudança Climática da Universidade Imperial College London, no Reino Unido, e um autor de um artigo sobre o papel da DAC na mitigação do clima.

O IPCC apresenta alguns modelos de estabilização do clima que não dependem da captura direta de ar, mas Gambhir adverte que eles são "extremamente ambiciosos" em suas previsões sobre os avanços na eficiência energética e a disposição das pessoas em mudar seu comportamento.

"Passamos do ponto em que a redução das emissões precisava ocorrer", acrescenta Zelikova. "Estamos confiando cada vez mais na DAC."

A DAC está longe de ser a única maneira de o carbono ser retirado da atmosfera. Ele pode ser removido naturalmente por meio de mudanças no uso da terra, como o plantio de florestas.

Mas é algo lento e exigiria grandes extensões de terras valiosas — reflorestar uma área do tamanho dos Estados Unidos, segundo alguns estimam, e aumentar o preço dos alimentos em cinco vezes no processo.

E, no caso das árvores, o efeito da remoção do carbono é limitado, uma vez que elas acabarão morrendo e liberando o carbono armazenado, a menos que possam ser derrubadas e queimadas em um sistema fechado.

O tamanho do desafio para a remoção de carbono usando tecnologias como a DAC, em vez de plantas, não é menor.

O artigo de Gambhir calcula que simplesmente manter o ritmo das emissões globais de CO2 — atualmente, 36 gigatoneladas por ano — exigiria construir cerca de 30 mil usinas de DAC de larga escala, mais de três para cada central elétrica a carvão em operação no mundo hoje.

A construção de cada usina custaria até US$ 500 milhões — chegando a um custo de até US$ 15 trilhões.

Cada uma dessas unidades precisaria ser abastecida com solvente para absorver o CO2. O abastecimento de uma frota de usinas grande o suficiente para capturar 10 gigatoneladas de CO2 por ano vai exigir cerca de 4 milhões de toneladas de hidróxido de potássio, o equivalente a uma vez e meia todo o fornecimento anual global deste produto.

E uma vez que essas milhares de usinas forem construídas, elas também vão precisar de energia para funcionar.

"Se esta fosse uma indústria global absorvendo 10 gigatoneladas de CO2 por ano, você estaria gastando 100 exajoules, cerca de um sexto da energia global total", diz Gambhir.

Estimular o crescimento de hortaliças em estufas pode se uma aplicação para o CO2 capturado do ar pela DAC — Foto: Alamy via BBC
Estimular o crescimento de hortaliças em estufas pode se uma aplicação para o CO2 capturado do ar pela DAC — Foto: Alamy via BBC

A maior parte dessa energia é necessária para aquecer a câmara de calcinação a cerca de 800 °C — quente demais para a energia elétrica sozinha, então, cada planta de DAC precisaria de um aquecedor a gás e de uma boa fonte de gás.

As estimativas de quanto custa capturar uma tonelada de CO2 do ar variam amplamente, de US$ 100 a US$ 1 mil por tonelada.

Oldham diz que a maioria dos números é excessivamente pessimista — ele está confiante de que a Climate Engineering pode remover uma tonelada de carbono por apenas US$ 94, especialmente quando se tornar um processo industrial difundido.

Um problema maior é descobrir para onde enviar a conta. Incrivelmente, salvar o mundo acaba sendo algo muito difícil de vender, comercialmente falando.

A captura direta de ar resulta, no entanto, em uma mercadoria valiosa: milhares de toneladas de CO2 comprimido.

Isso pode ser combinado com o hidrogênio para produzir um combustível sintético neutro em termos de carbono. E poderia então ser vendido ou queimado nos aquecedores a gás da câmara de calcinação (onde as emissões seriam capturadas e o ciclo continuaria novamente).

Surpreendentemente, um dos maiores clientes do CO2 comprimido é a indústria de combustíveis fósseis.

À medida que os poços secam, não é incomum espremer o óleo restante do solo pressionando o reservatório usando vapor ou gás em um processo chamado recuperação aprimorada de petróleo.

O dióxido de carbono é uma escolha popular para isso e vem com o benefício adicional de reter esse carbono no subsolo, completando o estágio final de captura e armazenamento de carbono.

A Occidental Petroleum, que se associou à Carbon Engineering para construir uma planta de DAC em larga escala no Texas, usa 50 milhões de toneladas de CO2 todos os anos na recuperação aprimorada de petróleo.

Cada tonelada de CO2 usada dessa forma vale cerca de US$ 225 somente em créditos fiscais.

Talvez seja apropriado que o CO2 presente no ar acabe sendo devolvido ao subsolo dos campos de petróleo de onde veio, embora possa ser irônico que a única maneira de financiar isso seja buscando ainda mais óleo.

A Occidental e outras empresas esperam que, ao bombear CO2 no solo, possam reduzir drasticamente o impacto do carbono do petróleo: uma operação típica de recuperação aprimorada sequestra uma tonelada de CO2 para cada 1,5 tonelada que libera de óleo fresco.

Portanto, embora o processo reduza as emissões associadas ao petróleo, ele não equilibra as contas.

Outras alternativas

Mas há outros usos que podem se tornar mais viáveis ​​comercialmente. A Climeworks, empresa de captura direta de ar, tem 14 unidades de menor escala em operação sequestrando 900 toneladas de CO2 por ano, que vende para uma estufa para estimular o crescimento da plantação de picles.

E agora está trabalhando em uma solução de longo prazo: uma usina em construção na Islândia vai misturar CO2 capturado com água e bombeá-lo até 500 ou 600 metros abaixo do solo, onde o gás reagirá com o basalto ao redor e se transformará em pedra.

Para financiar isso, ela oferece às empresas e aos cidadãos a possibilidade de comprar crédito de carbono, a partir de meros 7 euros por mês. Será que o resto do mundo pode ser convencido a fazer isso?

"A DAC sempre custará dinheiro e, a menos que você seja pago para isso, não há incentivo financeiro", diz Chris Goodall, autor de What We Need To Do Now: For A Zero Carbon Future (O que precisamos fazer agora: para um futuro com carbono zero, em tradução livre).

A Climeworks pode vender créditos para pessoas virtuosas, firmar contratos com a Microsoft e a Stripe para tirar algumas centenas de toneladas de carbono por ano da atmosfera, mas isso precisa ser aumentado em um milhão de vezes, e requer que alguém pague por isso.

"Há subsídios para carros elétricos, financiamento barato para usinas solares, mas você não vê isso para DAC", diz Oldham.

"Há tanto foco na redução de emissões, mas não existe o mesmo grau de foco no resto do problema, o volume de CO2 na atmosfera. O grande impedimento para a DAC é que a ideia não está nas políticas".

Zelikova acredita que a DAC seguirá um caminho semelhante ao de outras tecnologias climáticas e se tornará mais acessível.

"Temos curvas de custo bem desenvolvidas que mostram como a tecnologia tem o custo reduzido muito rapidamente", afirma.

"Superamos obstáculos semelhantes com a energia eólica e solar. O principal é implementa-las ao máximo. É importante que o governo apoie a comercialização — ele tem um papel como primeiro cliente, e um cliente com o bolso cheio de dinheiro."

Instalações na Islândia pretendem mineralizar o CO2 para mantê-lo fora de circulação na atmosfera como uma solução de longo prazo — Foto: Sandra O Snaebjornsdottir via BBC
Instalações na Islândia pretendem mineralizar o CO2 para mantê-lo fora de circulação na atmosfera como uma solução de longo prazo — Foto: Sandra O Snaebjornsdottir via BBC

Goodall defende um imposto global sobre o carbono, o que tornaria caro emitir carbono, a menos que os créditos fossem adquiridos.

Mas ele reconhece que essa ainda é uma opção politicamente impopular. Ninguém quer pagar impostos mais altos, especialmente se os efeitos do nosso estilo de vida de alta demanda energética — incêndios florestais crescentes, secas, inundações, aumento do nível do mar — forem vistos como sendo arcados por outra pessoa.

Zelikova acrescenta que também precisa haver um diálogo mais amplo na sociedade sobre quanto devem custar esses esforços.

"Há um custo enorme nas mudanças climáticas, nos desastres naturais induzidos ou exacerbados. Precisamos acabar com a ideia de que a DAC deveria ser barata". 
Risco e recompensa

Mesmo se concordarmos em construir 30 mil usinas de DAC em escala industrial, encontrar os materiais químicos para opera-las e o dinheiro para pagar por tudo isso, ainda não estaremos fora de perigo.

Na verdade, podemos acabar em uma situação pior do que antes, graças a um fenômeno conhecido como dissuasão da mitigação.

"Se você acha que a DAC estará lá no médio a longo prazo, você não fará tanta redução de emissões no curto prazo", explica Gambhir.

"Se a ampliação der errado — se for difícil produzir o adsorvente, ou se degradar mais rapidamente, se for mais complicado tecnologicamente, se acabar sendo mais caro do que o esperado —, então, de certa forma, por não ter agido rapidamente no curto prazo, você efetivamente se vê encurralado em um caminho de temperaturas mais altas."

Os críticos da DAC apontam que grande parte de seu apelo reside na promessa de uma tecnologia hipotética que nos permite continuar vivendo nosso estilo de vida rico em carbono.

Mesmo assim, Oldham argumenta que, para algumas indústrias difíceis de descarbonizar, como a da aviação, os créditos que financiam a DAC podem ser a opção mais viável.

"Se for mais barato e mais fácil retirar o carbono do ar do que parar de voar, talvez seja esse papel que a DAC desempenha no controle de emissões."

Gambhir argumenta, por sua vez, que não é uma situação do tipo "isso ou aquilo". "Precisamos reduzir rapidamente as emissões no curto prazo, mas, ao mesmo tempo, desenvolver a DAC com determinação para ter certeza de que poderemos contar com ela no futuro."

Zelikova concorda: "A DAC é uma ferramenta fundamental para equilibrar o orçamento de carbono, de forma que o que não podemos eliminar hoje possa ser removido mais tarde."

Enquanto Oldham busca expandir a Carbon Engineering, o fator primordial é provar que a DAC em larga escala é "viável, acessível e disponível".

Se ele for bem-sucedido, o futuro do clima do nosso planeta pode mais uma vez ser decidido nos campos de petróleo do Texas.

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A verdadeira razão pela qual as estátuas do Egito têm os narizes quebrados

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A passagem de milhares de anos torna inevitável o desgaste de qualquer obra, mas por que há tantas estátuas cuja única parte que faltava era o nariz? Elas não são assim por acaso.
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TOPO
Por BBC

Postado em 27 de abril de 2021 às 13h15m


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Pesquisa revelou que a ausência dos narizes, como nesta cabeça de uma estátua de um rei da Trigésima Dinastia (por volta de 370 aC), não era casual — Foto: Getty Images/Via BBC
Pesquisa revelou que a ausência dos narizes, como nesta cabeça de uma estátua de um rei da Trigésima Dinastia (por volta de 370 aC), não era casual — Foto: Getty Images/Via BBC

Por várias décadas, este foi um mistério não solucionado entre especialistas e entusiastas do Antigo Egito, uma das civilizações mais antigas e duradouras do mundo.

À primeira vista, parece algo esperado: a passagem de milhares de anos torna inevitável o desgaste de qualquer obra. Mas por que havia tantas estátuas imaculadas em que a única parte que faltava era o nariz?

Representações bidimensionais também apresentam o mesmo tipo de danos, como nesta, da 19ª Dinastia, por volta de 1200 a.C., em homenagem ao deus Ptah — Foto: Getty Images/Via BBC
Representações bidimensionais também apresentam o mesmo tipo de danos, como nesta, da 19ª Dinastia, por volta de 1200 a.C., em homenagem ao deus Ptah — Foto: Getty Images/Via BBC

Talvez porque, afinal, se algo corre o risco de quebrar, é aquela parte proeminente, a mais exposta.

Veja um vídeo sobre a descoberta, no início de abril, de uma cidade soterrada no Egito.

VÍDEO: Imagens mostram sítio apelidado por arqueólogos como 'Pompeia do Egito'
VÍDEO: Imagens mostram sítio apelidado por arqueólogos como 'Pompeia do Egito'

No entanto, se for assim, como explicar que obras de representação bidimensional geralmente apresentem os mesmos danos?

O assunto deu origem a suposições, incluindo uma hipótese amarga que continua recorrente, embora tenha sido refutada: a de que teria sido uma tentativa dos colonialistas europeus de apagar as raízes africanas dos antigos egípcios.

Tutancâmon com a coroa azul (sem nariz), século 14 aC. Tutancâmon reinou entre 1333 e 1323 a.C. e ele era um faraó da 18ª Dinastia do Antigo Egito — Foto: Getty Images/Via BBC
Tutancâmon com a coroa azul (sem nariz), século 14 aC. Tutancâmon reinou entre 1333 e 1323 a.C. e ele era um faraó da 18ª Dinastia do Antigo Egito — Foto: Getty Images/Via BBC

No entanto, especialistas afirmam que essa teoria é infundada, entre outras razões porque os narizes não são a única evidência física dessas origens. E eles concordam que, apesar dos muitos horrores do imperialismo, este não seria um deles.

Então, o que poderia ter acontecido?

Poderes divinos

A resposta mais confiável neste ponto se resume em uma palavra: iconoclastia (do grego Eikonoklasmos, que significa "quebra de imagens").

Estátua egípcia: imagem mostra que falta o nariz — Foto: Getty Images/Via BBC
Estátua egípcia: imagem mostra que falta o nariz — Foto: Getty Images/Via BBC

Não estamos falando dos seguidores da corrente do século 8 que rejeitaram o culto às imagens sagradas, destruíram-nas e perseguiram aqueles que as veneravam. Nesse caso, o termo é usado de forma mais ampla para se referir à crença social na importância da destruição de ícones e outras imagens ou monumentos, muitas vezes por motivos religiosos ou políticos.

E faz muito sentido quando você considera que, para os antigos egípcios, as estátuas eram o ponto de contato entre os seres divinos e os terrenos.

Os antigos egípcios acreditavam que as imagens poderiam abrigar poder sobrenatural, como explica Edward Bleiberg, o curador sênior de arte egípcia, clássica e do antigo Oriente Médio do Museu do Brooklyn nos Estados Unidos.

Bleiberg explorou a questão motivado pelo fato de que a indagação mais comum dos visitantes do museu era "por que seus narizes estão quebrados?". Ele explica que as palavras "escultura" e "escultor" enfatizam que as imagens estão vivas.

A palavra "escultura" significa literalmente "algo criado para viver", enquanto um escultor é "alguém que lhe dá vida".

Objetos que representavam a forma humana, em pedra, metal, madeira, argila ou mesmo cera, podiam ser ocupados por um deus ou um humano que faleceu e se tornou um ser divino, podendo assim atuar no mundo material.

Isto se conta sobre Hathor, a deusa do amor e da fertilidade, em uma inscrição nas paredes do templo de Dendera, provavelmente construído pelo Faraó Pepy I (2310-2260 a.C):

"(…) Voa do céu para entrar no Horizonte de sua Alma [isto é, seu templo] na Terra, voa em direção ao seu corpo, se une à sua forma."

Nem mesmo a bela Cleópatra (69 a.C-30 a.C) foi poupada — Foto: Getty Images/Via BBC
Nem mesmo a bela Cleópatra (69 a.C-30 a.C) foi poupada — Foto: Getty Images/Via BBC

Nesse caso, a deusa imbui uma figura tridimensional, mas no mesmo templo fala-se sobre como Osíris (um dos deuses mais importantes do Egito Antigo) se funde com uma representação em relevo de si mesmo:

"Osiris... vem como um espírito ... Ele vê sua forma misteriosa representada em seu lugar, sua figura gravada na parede; entra em sua forma misteriosa, apoia-se em sua imagem."

Uma vez ocupadas, as imagens tinham poderes que podiam ser ativados por meio de rituais. E também podiam ser desativados por danos deliberados.

Mas por que fazer isso?

Os motivos eram muitos, desde raiva e ressentimento contra os inimigos que queriam ferir neste mundo e no próximo, ao terror da vingança do defunto sentido pelos ladrões de túmulos, bem como o desejo de reescrever a história ou sonhos de mudar toda a cultura.

Quando o pai de Tutancâmon, Akhenaton, que governou entre 1353-1336 a.C, quis que a religião egípcia girasse em torno de um deus, Aton, uma divindade solar, ele enfrentou um ser poderoso: o deus Amon.

Sua arma foi a destruição de imagens.

A situação foi revertida quando Akhenaton morreu e o povo egípcio retomou o culto tradicional: templos e monumentos em homenagem a Aton e o falecido Faraó foram, desta vez, os que enfrentaram a destruição.

Mas devemos lembrar que não eram apenas os deuses que podiam habitar as imagens, mas também os humanos que tinham morrido e, após a longa e tortuosa jornada até o Salão da Dupla Verdade, demonstrado sua decência no Julgamento da alma, convertendo-se em seres divinos.

Saber que seus ancestrais continuam a acompanhá-lo apesar da morte pode ser reconfortante... mas também preocupante, principalmente se você for alguém poderoso e não quiser que o passado o ofusque.

E as lutas pelo poder costumam deixar cicatrizes.

Quando Tutemés III, que governou de 1479 a 1425 a.C, quis ter certeza de que seu filho o sucederia, ele tentou apagar sua antecessora e madrasta Hatshepsut da história, destruindo a evidência física de sua existência. E ele quase conseguiu.

Preocupação constante

Esses exemplos podem dar a impressão de que isso só aconteceu em casos extremos, mas a destruição de representações de divindades ou humanos era tão comum que, como documentou o egiptólogo Robert K. Ritner, era uma preocupação constante no Egito Antigo.

Entre os vários textos que expressam essa preocupação está um decreto real do Primeiro Período Intermediário (cerca de 2130-1980 a.C):

"Quem em toda esta terra fizer algo nocivo ou perverso às suas estátuas, lajes, capelas, carpintarias ou monumentos que se encontrem no recinto de algum templo, Minha Majestade não permitirá que sua propriedade ou a de seus pais permaneçam com eles, ou se junte aos espíritos da necrópole, ou permaneça entre os vivos."

Os ataques contra os túmulos eram igualmente graves e temidos.

Um homem chamado Wersu de Coptos, que viveu durante a 18ª Dinastia (por volta de 1539-1295 a.C), registrou uma ameaça que dizia:

"Quanto a qualquer um que ataque meu cadáver na necrópole, e que tire minha estátua de meu túmulo, [o deus do sol] Rá o odiará. Ele não terá água do altar de [deus] Osíris, ele nunca passará sua propriedade para seus filhos."

E o nariz?

As mutilações tinham então a intenção de restringir o poder e isso poderia ser feito de diferentes maneiras.

Se você quisesse evitar que os humanos representados fizessem oferendas aos deuses, você poderia remover o braço que era comumente usado para tal tarefa: o esquerdo.

Se você quisesse que o deus não os ouvisse, você removia as orelhas da divindade.

Se sua intenção era acabar com todas as possibilidades de comunicação, separar a cabeça do corpo era uma boa opção.

Mas talvez o método mais eficaz e rápido de realizar seus desejos fosse remover o nariz.

"O nariz era a fonte do fôlego, o fôlego da vida; a maneira mais fácil de matar o espírito interior era sufocá-lo removendo o nariz", explica Bleiberg.

Alguns golpes de martelo e cinzel e o problema estava resolvido.

O paradoxo, afinal, é que essa compulsão de destruir as imagens é a prova de como elas foram importantes para aquela grande civilização.

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segunda-feira, 26 de abril de 2021

Onde 'Professor Polvo' aprendeu? Estudos de brasileira figuram no filme que levou o Oscar

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Tatiana Leite é referência mundial e sua pesquisa aparece em cena de 'Professor polvo'. Ela fala sobre características do molusco no filme e além dele: esperto, sonhador e canibal.
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Por Rodrigo Ortega, G1

Postado em 26 de abril de 2021 às 20h45m


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Pesquisa de brasileira na tela do mergulhador Craig Foster em cena do filme 'Professor Polvo' — Foto: Reprodução / Netflix
Pesquisa de brasileira na tela do mergulhador Craig Foster em cena do filme 'Professor Polvo' — Foto: Reprodução / Netflix

No filme "Professor Polvo", que ganhou o Oscar de melhor documentário neste domingo (25), um mergulhador fica tão fascinado por um molusco que resolve pesquisar tudo sobre ele. Entre as referências que ele encontra - e aparecem na tela - está o nome da brasileira Tatiana Leite.

Tatiana estuda polvos há 25 anos. Se o sul-africano ficou um ano atrás de um molusco, a professora do departamento de Zoologia e Ecologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) passou uma década só em Fernando de Noronha para fazer mestrado e doutorado sobre essas espécies.

A cientista potiguar falou com o G1 sobre suas impressões do filme e sobre características dos polvos além das que aparecem no documentário. Veja os principais pontos:

  • A inteligência e a capacidade dos polvos de criar relações com humanos não são exagero do filme. Ela passou por situações em que os polvos pareciam estudá-la. Tatiana já até desistiu de tirar um indivíduo do mar e coletá-lo para pesquisa por ele ter se aproximado demais dela.
  • Mas que aspecto do filme não é bem assim na realidade? Tatiana diz que a cena em que um suposto filhote da polvo fêmea é encontrado é altamente improvável.
  • E o que há além do filme? Em uma cena, Craig se pergunta se os polvos sonham. Tatiana acaba de participar de uma pesquisa que indica que eles são, sim, capazes de sonhar.
  • Mas os moluscos sonhadores também são motivo de pesadelo entre eles. Isso a Netflix não mostra: eles são altamente competitivos e podem praticar o canibalismo.
  • Em resumo, Tatiana acha que o filme faz um ótimo retrato desse mundo dos polvos, e que ele é importante para atrair a atenção para espécies marinhas que as pessoas viam como distantes ("nem as espécies terrestres a gente trata bem...", Tatiana lamenta).
A pesquisadora brasileira Tatiana Leite, que estuda polvos há 25 anos — Foto: Arquivo / Projeto Cephalophoda
A pesquisadora brasileira Tatiana Leite, que estuda polvos há 25 anos — Foto: Arquivo / Projeto Cephalophoda

Doutora polva

A brasileira tem como mentora Jennifer Mather, pesquisadora da Universidade de Lethbridge, no Canadá. Jennifer foi consultora científica de "Professor Polvo". "Ela foi a minha coorientadora no doutorado, passei um ano com ela no Canadá. Trabalhamos juntas em alguns artigos", diz Tatiana.

"Ela é uma senhora de 74 anos que mergulha até hoje atrás de polvos. Eu segui essa linha dela e trouxe para o Brasil", diz a brasileira. "Foi quando passei dez anos em Noronha. Lá aprendi a achar os rastros dos polvos para encontrá-los e me aproximar", ela diz, descrevendo processo semelhante ao do filme.

"Inclusive Craig dooou fotografias da polva para pesquisas nossas sobre padrões corporais. A Jennifer está vindo para o Brasil daqui a um ano", conta a parceira da UFSC. Tatiana é coordenadora do Projeto Cephalophoda, rede de pesquisadores sobre polvos no Brasil e no mundo.

Veja o trailer de 'Professor polvo'
Veja o trailer de 'Professor polvo'

Polvo sonhador

A cena em que Craig se questiona se o polvo dorme e sonha marcou Tatiana, pois ela fez parte de uma grande pesquisa recente que indicou que o "polvo sonhador" é realidade.

A pesquisa tem como autora principal Sylvia Medeiros, e também tem participação do neurocientista Sidarta Ribeiro, ambos do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

"A pesquisa demostra pela primeira vez que o invertebrado é capaz de ter um sono ativo. O período do sono onde os vertebrados, numa analogia, tem os sonhos, e quando se concretizam aprendizados e memórias", explica Tatiana.

Mas o que demonstra, na prática, a possibilidade do sonho do molusco? "Foram dois sinais importantes: ele entra em sono muito profundo, não reage a estímulos, nem a som nem a imagem. E ao mesmo tempo estava mudando de cor muito rapidamente, e a pupila se movendo rápido", ela diz, explicando que são os mesmo sinais desse estágio de sono em humanos.

Tatiana Leite em pesquisa sobre polvos — Foto: Arquivo / Projeto Cephalophoda
Tatiana Leite em pesquisa sobre polvos — Foto: Arquivo / Projeto Cephalophoda

Filhote ou fake?

Se os polvos podem ser até mais surpreendentes do que no filme, em um ponto o documentário exagera e embarca em uma hipótese improvável. O mergulhador acha um filhote de polvo e viaja na suposição de que ele pode ser filho da fêmea que ele acompanhou durante um ano.

"Essa espécie tem uma estratégia de dispersão dos ovos. Eles ficam na coluna de água de um a três meses. A chance de ele aparecer no mesmo lugar é muito baixa", ela explica.

O polvo não é bobo - nem manso

"Professor Polvo" ganhou o Oscar de melhor documentário  — Foto: Divulgação
"Professor Polvo" ganhou o Oscar de melhor documentário — Foto: Divulgação

Por fim, o filme não explora um lado sombrio dos incríveis polvos. "Nos meus estudos eu já vi canibalismo entre espécies diferente e indivíduos da mesma espécie, dos maiores com os menores", diz Tatiana.

Os polvos são animais escaldados e parecem saber desse risco: "Eles começam em tocas próximas e depois se afastam um dos outros, para evitar o canibalismo, além das brigas de competição, machos brigando entre eles. Os dominantes podem atacar", ela diz.

Até nas brigas os polvos têm um comportamento fascinante. "O interessante que a gente viu é que antes de se atacar existe uma briga de cores." Os mais dominantes têm as cores mais escuras e ficam com essa coloração diante do outro, diz Tatiana.

Entre os projetos dos quais ela participa está a tentativa de demonstrar a autoconsciência dos polvos. Mas ela se importa com a consciência humana também: "Esse Oscar foi muito bom para sensibilizar as pessoas sobre o mar, e para fazer as pessoas olharem os seres diferentes da gente com empatia".

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