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domingo, 25 de agosto de 2019

Arqueólogos recriam perfume dos tempos de Cleópatra no Egito Antigo

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Perfumes mendesiano e metopiano, reconstituídos por pesquisadores, seriam como o 'Chanel n. 5 da época'.
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 Por BBC  

 Postado em 25 de agosto de 2019 às 12h00m  

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Perfumes com mirra eram celebrados no Egito Antigo — Foto: PexelsPerfumes com mirra eram celebrados no Egito Antigo — Foto: Pexels

Uma fragrância que deixou de ser desfrutada há mais de 2 mil anos voltou a dar o ar da graça no mundo com a reconstituição de um perfume egípcio por pesquisadores.

O berço deste aroma do passado é a cidade de Tmuis, no delta do rio Nilo, onde pesquisadores das universidades do Havaí em Mānoa e de Tyumen (Rússia) fazem escavações e estudos há mais de uma década.

Os coordenadores do projeto UH Tell Timai, Robert Littman e Jay Silverstein, encarregaram dois especialistas em perfumes do Egito antigo, Dora Goldsmith e Sean Coughlin, de reconstituir fragrâncias a partir de análises químicas de achados arqueológicos e fórmulas preservadas em textos da Grécia Antiga.

Os resultados vieram na forma dos perfumes tipo mendesiano e metopiano, os mais desejados naquele período – como o "Chanel n. 5" do Egito Antigo, brincou Littman. Estas fragrâncias têm como material de base a mirra, uma resina extraída de várias espécies de árvores pequenas e espinhosas.

"Que emoção, sentir um perfume que ninguém sente há dois mil anos e que Cleópatra poderia ter usado", comemorou Littman em um comunicado à imprensa, fazendo referência à última governante do Egito antes da ascendência dos romanos, que viveu de 69 a.C. a 30 a.C.
Os perfumes reconstituídos pelos pesquisadores têm como material principal a mirra — Foto: PixabayOs perfumes reconstituídos pelos pesquisadores têm como material principal a mirra — Foto: Pixabay

Goldsmith e Coughlin, pesquisadores na Alemanha, foram mais cautelosos e, em entrevista à BBC Arabic (o serviço de notícias em árabe da BBC), disseram nunca ter reivindicado que o perfume tenha sido usado por Cleópatra. Segundo eles, não há provas disso.

"O que dissemos é que nosso experimento é o mais próximo da fragrância original, segundo as práticas científicas atuais", disse Goldsmith, acrescentando que ela e sua equipe continuarão tentando alcançar uma versão mais próxima dos perfumes de Tmuis.

Silverstein também falou com a BBC. "Sabemos com certeza que Cleópatra não viveu nesta região do Delta do Nilo, mas ela tinha interesse em perfumes e pode ter usado fragrâncias desta área", explicou.

Se não é possível confirmar se Cleópatra usou ou não o perfume há mais de 2 mil anos, pelo menos no mundo de hoje, alguns felizardos – e reles mortais – puderam desfrutar do aroma reconstituído por Goldsmith e Coughlin na exposição da National Geographic Society Queens of Egypt em Washington, a capital americana.

'Fábricas' de perfume do Egito antigo
Na primeira fase do projeto UH Tell Timai, escavações revelaram resquícios desta indústria de fragrâncias do Egito Antigo.
'Fábricas' de perfume foram encontradas no local ao longo da última década — Foto: Reprodução/Facebook/Tell Timai'Fábricas' de perfume foram encontradas no local ao longo da última década — Foto: Reprodução/Facebook/Tell Timai

Foi o caso de um vasto complexo de fornos do século 3 a.C. Análises químicas encontraram indícios de que eram usados para fabricar lécitos ou vasos de perfume com argila importada.

A descoberta de uma ocupação romana posterior revelou um forno de fabricação de vidro, o que indica a transição do uso da cerâmica para o vidro em recipientes de perfumes.

Em 2012, foram encontradas moedas de prata e jóias de ouro e prata perto de um área de trabalho, o que pode indicar que se tratava da casa de um comerciante de perfumes.

Atualmente, estão sob análise ânforas antigas encontradas no local de escavação e que podem conter vestígios identificáveis ​​dos líquidos ali produzidos.

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sábado, 24 de agosto de 2019

'A floresta leva décadas ou centenas de anos pra se recuperar': O que difere os incêndios na Amazônia e no cerrado

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Enquanto o Cerrado é preparado para lidar com o fogo, a região amazônica não possui a mesma capacidade, conforme especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.
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 Por BBC  

 Postado em 24 de agosto de 2019 às 16h25m  
GIPOPE - GARIBA'S Logística for 2012 - 2013
Região amazônica não possui a mesma capacidade de lidar com o fogo do que o Cerrado — Foto: ReutersRegião amazônica não possui a mesma capacidade de lidar com o fogo do que o Cerrado — Foto: Reuters

Um incêndio na Amazônia costuma ter chamas baixas - às vezes não passam de 30 centímetros -, que avançam com lentidão. A destruição causada pelo fogo é grande e leva tempo para ser superada. No Cerrado, as chamas são altas e avançam com velocidade. No entanto, a área se recupera com rapidez.

Enquanto o Cerrado é preparado para lidar com o fogo, a região amazônica não possui a mesma capacidade, conforme especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.
Biomas mais comuns no Brasil, os dois lideram a lista dos atingidos pelas queimadas que têm sido registrados em diversos pontos do país neste ano. Em primeiro lugar aparece a Amazônia, com 52,6% dos focos de incêndios de 2019. No Cerrado foram notificados 29,8% dos casos. Os dados foram divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

As chamas registradas na Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, tiveram repercussão internacional. A situação provocou reações em líderes de todo o mundo. O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) mentiu sobre compromissos ambientais assumidos durante o encontro do G20, em Osaka, no Japão.
Neste ano, houve aumento de 85% nos registros de focos de incêndio em todo o Brasil, quando comparado a dados de 2018.

De janeiro a agosto deste ano, foram registrados, até sexta-feira (23), 76,7 mil focos de incêndio no Brasil. Os estados com mais queimadas são Mato Grosso (14,6 mil), Pará (10,2 mil), Amazonas (7.2 mil), Tocantins (5,9 mil) e Rondônia (5,8 mil). Os cinco compõem a Amazônia Legal, com áreas de Floresta Amazônica.

Com a atual situação ambiental no Brasil, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia e até a exportação de carne brasileira podem estar em risco.

Diante da pressão internacional, Bolsonaro autorizou, na tarde de sexta-feira (24), o uso de militares em uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) - quando há situações graves que demandam que o presidente da República convoque forças de segurança - para combater as queimadas na região da Floresta Amazônica.

Mas, afinal, por que os incêndios na região amazônica costumam ter consequências muito maiores que os registrados no Cerrado?
Professor Jos Barlow em estudo de campo em Santarém (PA), em 2015 — Foto: Adam RonanProfessor Jos Barlow em estudo de campo em Santarém (PA), em 2015 — Foto: Adam Ronan

As diferenças
Pesquisadora da Universidade de Oxford, a brasileira Erika Berenguer estuda os efeitos do fogo na região amazônica. Ela ressalta que os incêndios na Floresta Amazônica não acontecem de maneira natural. "É preciso que alguém coloque o fogo. Ao contrário de ecossistemas como o Cerrado, a Amazônia não evoluiu com o fogo e ele não faz parte da dinâmica dela", diz.

"No Cerrado, o fogo é natural. Assim como ele ocorre naturalmente, por exemplo, em savanas ou nas florestas da costa da Califórnia. Mas na Amazônia, o fogo não faz parte dessa dinâmica", relata à BBC News Brasil.

A especialista ressalta que a vegetação da Amazônia não tem mecanismos de proteção ao fogo, enquanto o Cerrado tem seus meios de defesa. "No Cerrado, há árvores com uma casca supergrossa, quase uma cortiça. Essa casca serve para proteger o cerne da árvore do fogo. Se o fogo queimar a casca, ela é tão grossa que não deixa a chama, nem a alta temperatura, chegar no cerne da árvore", detalha.
Britânico Jos Barlow, doutor em Ecologia e professor da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, ressalta que plantas da Amazônia nunca estiveram preparadas para enfrentar incêndios — Foto: Adam RonanBritânico Jos Barlow, doutor em Ecologia e professor da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, ressalta que plantas da Amazônia nunca estiveram preparadas para enfrentar incêndios — Foto: Adam Ronan

Enquanto no Cerrado existem árvores com dezenas de centímetros de casca, diz, na região amazônica as cascas têm poucos milímetros. "Isso significa que o fogo tem muito mais facilidade para levar essa árvore da Amazônia à morte, porque vai destruir o cerne dela."

"Essa falta de proteção ao fogo na Amazônia significa que a mortalidade de árvores é muito alta. Se uma área de floresta queima, até 50% das árvores dela morrem", acrescenta.

O britânico Jos Barlow, doutor em Ecologia e professor da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, ressalta que as plantas da Amazônia nunca estiveram preparadas para enfrentar incêndios.

"Elas não têm histórico de fogo ao longo de milhões de anos de evolução. Por isso, quando as chamas passam por lá, desmatam muitas árvores, mesmo sendo um incêndio de baixa intensidade", explica.

As chamas
Em razão das diferenças entre os biomas, as formas como o fogo atinge o Cerrado ou a Amazônia possui distinções. "No Cerrado, as chamas são altas, mais quentes e o fogo avança com velocidade", conta Barlow.

"Já na Amazônia, a estrutura do combustível é diferente. As chamas são menores e o fogo não avança muito rápido. Então, quando ele chega em uma árvore, fica por lá um tempinho, fato que ajuda a fazer um grande efeito negativo", relata o estudioso.

Sobre as consequências dos incêndios nos dois biomas, Barlow afima que mesmo com fogo de alta intensidade e chamas altas no Cerrado, o impacto é pouco. "As árvores conseguem sobreviver. Depois de seis meses ou um ano, não é possível perceber que passou fogo ali", comenta o britânico. Na Amazônia, além da morte de quase metade das árvores da floresta incendiada, as consequências do fogo são notadas até mesmo depois de décadas.
Pesquisadora da Universidade de Oxford, a brasileira Erika Berenguer estuda os efeitos do fogo na região amazônica — Foto: Erika Berenguer 
Pesquisadora da Universidade de Oxford, a brasileira Erika Berenguer estuda os efeitos do fogo na região amazônica — Foto: Erika Berenguer

Consequências
As mortes de árvores da Amazônia representam graves consequências ao meio ambiente e colaboram para alterações climáticas. "Essas árvores são grandes armazéns de carbono. Uma grande árvore na região amazônica pode ter de três a quatro toneladas de carbono armazenado. Se ela for queimada, todo esse carbono vai para a atmosfera, contribuindo para acelerar as mudanças climáticas", diz Erika.

"A Amazônia inteira estoca o equivalente a 100 anos de emissões de CO2 dos Estados Unidos. Então, queimar a floresta significa colocar muito CO2 de volta na atmosfera", acrescenta a pesquisadora.

Há mais de uma década, Erika estuda a Floresta Amazônica. Ela comenta que as queimadas que ocorrem na região são, em sua maioria, feitas por produtores rurais para o desmatamento. "Primeiro, eles derrubam as árvores com um "correntão", no qual interligam dois tratores em uma imensa corrente. Com os veículos andando, a corrente entre eles vai levando a floresta ao chão."

"A floresta derrubada fica um tempo secando no chão, geralmente por meses adentro da estação seca, para perder umidade suficiente para que possam colocar fogo nela. Fazem toda aquela vegetação desaparecer, para que possam plantar capim. Cerca de 70% da área já desmatada da Amazônia brasileira é usada para pastagem ", declara.

Erika detalha que o fogo do desmatamento pode escapar e atingir árvores que não tinham sido alvos dos "correntões" e haviam permanecido em pé.

A pesquisadora ressalta que o período de seca na Amazônia, que começa em julho e pode seguir até outubro, costuma culminar no aumento dos incêndios florestais. "O que tem de diferente em 2019 é a dimensão do problema. É o aumento do desmatamento, aliado aos inúmeros focos de queimadas e ao aumento das emissões de monóxido de carbono, o que mostra que a floresta está ardendo", afirma. Ela acredita que a tendência é que a situação na piore nos próximos dois meses.

Problemas semelhantes ao da Amazônia, porém em menor escala, são vivenciados pela região da Mata Atlântica, o terceiro bioma em que há mais focos de queimadas - 10,8% dos registros. Erika explica que se trata de uma área parecida com a região amazônica, em razão do modo como é afetada pelo fogo.

"Ela [a Mata Atlântica] não queima naturalmente e o fogo que a atinge também é causado por ação humana. Mas como ela tem 7% de cobertura de sua área original [a Floresta Amazônica tem cerca de 40%], suas florestas são muito menores. Os incêndios dela causam muitos impactos na biodiversidade e mudanças climáticas, mas por ser muito menor, escutamos muito menos sobre incêndios nela", diz a estudiosa.

Preservação
Para especialistas, medidas de preservação ambiental devem ser tomadas com urgência pelo Governo Federal. "Desde janeiro, com o atual governo, tem existido um grande desmonte nas agências ambientais brasileiras. Tanto no Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) quanto no ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade)", lamenta Erika.

Ela também cita o bloqueio do Fundo Amazônia - uma reserva de dinheiro doado internacionalmente para projetos de preservação da floresta -, suspenso em razão da política ambiental de Bolsonaro. "Esse fundo é de extrema importância, pois é responsável por financiar operações de combate ao desmatamento. Com recursos dele, foram comprados caminhões e aviões que são usados no combate às queimadas nos estados amazônicos", declara Erika.

A ausência de políticas de preservação ambiental poderá trazer um cenário ainda pior nos próximos anos, conforme os estudiosos.
Após a repercussão extremamente negativa da situação das queimadas no Brasil, o presidente afirmou, em pronunciamento na noite de sexta-feira (23), que terá "tolerância zero" com crimes ambientais. Ele declarou que o governo atuará fortemente no combate aos incêndios da Amazônia.

Recuperação da floresta
Ainda que haja redução no crescente número de queimadas na região amazônica, as consequências das áreas já afetadas irão perdurar por tempo indeterminado. A dificuldade de se recuperar é um dos maiores problemas enfrentados pelas regiões da floresta que foram atingidas pelo fogo.

"A gente tem árvores enormes caindo. Elas vão morrer. Depois, podem nascer árvores finas. Essas árvores novas crescem rápido, mas tem baixa densidade de madeira. Elas retêm pouco carbono. Não é porque temos uma árvore nascendo que ela vai corresponder à que morreu", esclarece Erika.

Conforme estudos feitos por especialistas que analisam as queimadas na Amazônia, mesmo três décadas após ser atingida pelo fogo, as florestas queimadas têm 25% menos carbono que as que não foram alvos de chamas. "Isso mostra que a gente precisa de décadas ou até mesmo centenas de anos para que as florestas se recuperem de um incêndio", lamenta a pesquisadora.


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