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Chefe da missão diz que veículo-robô fez descoberta que vai “entrar nos livros de História”
RIO – Explorando a superfície de Marte deste o início de agosto, o veículo-robô Curiosity pode ter finalmente descoberto sinais de que o planeta já abrigou vida.
Os rumores sobre o achado cresceram nos últimos dias depois que o cientista-chefe da missão da Nasa, John Grotzinger, afirmou em entrevista nesta semana à rádio pública dos EUA, a NPR, que os dados enviados por um dos equipamentos a bordo do Curiosity prometem “entrar nos livros de História”.
A descoberta dos sinais de vida teria sido feita pelo instrumento SAM, sigla em inglês para “análise de amostras em Marte”. O SAM é um laboratório de química a bordo do Curiosity capaz de identificar compostos orgânicos que formam os “tijolos” da vida como conhecemos e teria verificado sua presença em uma amostra de solo coletada pelo braço robótico do veículo recentemente.
A confirmação da descoberta, no entanto, só deve vir no início do mês que vem, durante a reunião anual da União Americana de Geofísica, que acontece entre 3 e 7 de dezembro em São Francisco, na Califórnia. A possibilidade do anúncio foi confirmada pelo próprio Grotzinger em entrevista ao site americano Space.com.
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qua, 21/11/12
por Cássio Barbosa
Está rolando uma história interessante na internet e logo mais vai bombar nas
redes sociais. É o seguinte:
Marte sempre atiçou o imaginário das pessoas, desde o século 19, pelo menos.
Os mapas de Giovanni Schiaparelli feitos durante a “grande oposição” de Marte em
1877 retratavam “mares”, “continentes” e “canais”. Os mares e continentes
simplesmente refletiam padrões claros/escuros da geologia do planeta, já os
canais nada mais eram que ilusões de óptica, como foi provado posteriormente. Só
que a tradução para o inglês foi feita de maneira errada, dando a ideia de que
seriam canais artificiais e não a intenção de Schiaparelli de serem leitos de
rios secos.
Depois, Percival Lowell repercutiu essa ideia como novos mapas, afirmando que
os canais eram construções de uma civilização inteligente que conduzia água dos
polos para os equador. Os claros/escuros da superfície marciana seriam na
verdade regiões desérticas e florestas, respectivamente. Eu tive a oportunidade
de segurar um catálogo com esses mapas pintados à mão. São obras impressionantes
de bonitas.
Mesmo com a Mariner 4 mostrando nos anos 1960 que não há canal algum (no
sentido de obras de irrigação) a ideia de que havia vida inteligente em Marte
nunca deixou de ser popular. Basta lembrar das inúmeras obras com esse tema, a
começar pelo livro “Guerra dos Mundos” de H.G. Wells, que virou um programa de
rádio e dois filmes, que eu saiba.
Tirando essa parte da ficção, Marte parece ser mesmo o lugar no nosso Sistema
Solar mais promissor para abrigar (ou ter abrigado) vida. Evidências de água no
passado, de água no subsolo, atmosfera tênue, temperaturas que podem chegar a
valores positivos algumas vezes, enfim, condições favoráveis ao desenvolvimento
de vida já foram encontradas.
Começando com as sondas Viking, que pousaram na superfície de Marte na década
de 1970, volta e meia as sondas que lá pousam carregam algum tipo de experimento
com o objetivo de investigar a possibilidade de haver ou ter havido vida. Os
experimentos da Viking mostraram resultados inconclusivos, as evidências obtidas
poderiam ter origem biológica, mas também poderiam ser resultado de reações
puramente químicas. Mais recentemente, um experimento na Mars Polar Lander
também falhou por conta de reações químicas imprevistas com uma amostra de solo
aquecida.
Agora é a vez do Curiosity, um jipe robô de quase uma tonelada e movido a
energia nuclear em atividade em Marte. O Curiosity é um verdadeiro laboratório
sobre rodas, carregando 11 instrumentos, entre sensores, espectrômetros e
câmeras. Claro, entre seus objetivos está pesquisar a chance de haver, ou ter
havido vida no planeta.
O que está rolando nos sites de notícias é uma especulação de que a Nasa
teria resultados bombásticos para revelar e estaria mantendo segredo. Essas
especulações ganharam força depois de uma entrevista em uma rádio nos EUA do
investigador principal da missão, John Grotzinger. Ele disse literalmente e ao
vivo que “enquanto nós estamos aqui sentados e conversando, o SAM está coletando
dados e eles parecem realmente interessantes.” O SAM é o analisador de amostras
em Marte, um instrumento com um vasto leque de ferramentas para vaporizar
amostras de solo e rochas, analisando a abundância de elementos químicos leves,
como carbono, oxigênio e nitrogênio, comumente associados à vida.
Ninguém do time de pesquisadores do Curiosity está autorizado a falar
qualquer coisa. A cautela tem razão de ser: qualquer resultado científico só
pode ser ser divulgado após todos os esforços e testes para confirmar sua
veracidade, ainda mais em se tratando de Marte.
Erros já aconteceram antes. Em 1996, um meteorito de origem marciana que
parecia mostrar vestígio de vida acabou sendo contestado, pois a divugação dos
fatos foi feita prematuramente, antes de uma revisão por outros pesquisadores.
Os neutrinos mais rápidos que a luz são outro caso de precipitação. Mesmo o
Curiosity já sofreu com isso: a análise de uma amostra de atmosfera marciana
mostrou a presença de gás metano. Esse gás é produzido por bactérias e é um dos
possíveis indicadores da presença de vida, mas a possibilidade de ter havido
contaminação do instrumento com uma amostra de ar da Flórida, local de
lançamento do Curiosity não podia ser descartada. Ressabiado, o time de
pesquisadores resolveu realizar uma nova medição e, nela, o metano não deu as
caras.
Grotzinger, nessa mesma entrevista, disse que toda a equipe estava
“mastigando” os dados para ter certeza dos resultados, mas que eles iriam entrar
para os “livros de história”. Mas o que poderia ser? Não dá para ter certeza,
ninguém fala nada mais a respeito e enquanto não há uma palavra oficial, o que
pode ser feito é especular.
Um resultado digno de entrar para os livros, como disse Grotzinger, seria a
detecção de vida. Mas isso é improvável, até mesmo pelo próprio instrumento, que
tem por objetivo fazer análises químicas e não biológicas. Mas a detecção de
simples moléculas orgânicas seria notável, apesar de ser mais ou menos esperado.
Nesse caso, bastaria água, que havia em Marte no passado, para que as chances de
ter havido condições para que a vida surgisse fossem bem grandes.
Entretanto, se o SAM encontrar indícios de moléculas orgânicas complexas,
estaremos vivenciando um momento histórico. Moléculas assim são esperadas como
resquícios de atividade de formas de vida mais complexas. As chances disso
acontecer em uma amostra de solo escolhida aleatoriamente são muito pequenas,
mas como a especulação está liberada, por que não?
Os resultados, mantidos em segredo por enquanto, devem ser anunciados em
breve na reunião anual da União Geofísica Americana, que acontece em San
Francisco entre 3 e 7 de dezembro. Se não vazar alguma coisa antes disso, muita
especulação vai rolar por aí até o evento. Também não acredito que iam fazer
tanto alarde para pouca coisa. Só nos resta aguardar!!!
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