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domingo, 1 de novembro de 2026

Robô da Nasa descobre poeira ultrafina em Marte que pode afetar futuros astronautas

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Material encontrado pelo Perseverance é cerca de 500 vezes mais fino que um fio de cabelo humano. Descoberta deve ajudar no desenvolvimento de trajes espaciais e equipamentos para missões tripuladas ao planeta vermelho.
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TOPO
Por Will Dunham

Postado em 01 de Novembro de 2.026 às 09h00m

 
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Rover Perseverance faz selfie em Marte em setembro de 2021, 198º dia da missão. — Foto: NASA/JPL-Caltech
Rover Perseverance faz selfie em Marte em setembro de 2021, 198º dia da missão. — Foto: NASA/JPL-Caltech

Marte é um lugar empoeirado. A poeira é espalhada pelos ventos cotidianos, por redemoinhos chamados “demônios de poeira” e por grandes tempestades de poeira em escalas local, regional e global.

A poeira é um fator que precisa ser levado em conta em qualquer missão tripulada a Marte, e novos dados de um rover da Nasa revelam o tamanho do desafio que ela pode representar.

O rover Perseverance da Nasa, que opera dentro e ao redor de uma área chamada Cratera Jezero, no hemisfério norte marciano, desde seu pouso em 2021, detectou as partículas mais finas de poeira já registradas no vizinho planetário da Terra.

Ele registrou partículas ultrafinas com largura de cerca de 100 nanômetros, aproximadamente 500 vezes mais finas que um fio de cabelo humano.

“Um tamanho menor de partícula não torna necessariamente a poeira mais perigosa, mas partículas menores têm maior potencial de penetrar mais profundamente no corpo humano e são mais difíceis de serem eliminadas pelo organismo”, disse o cientista planetário Scott VanBommel, da Universidade de Washington em St. Louis, membro da equipe científica do Perseverance e autor principal de um estudo que descreve as descobertas na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

“Como qualquer substância, a toxicidade depende da dose e da duração. A poeira marciana contém sílica, compostos de ferro e compostos de cloro, como o perclorato, que são conhecidos por serem prejudiciais em doses suficientemente altas na Terra”, afirmou VanBommel.

O Perseverance mediu partículas de poeira que aderiram ao equipamento do rover, incluindo materiais de trajes espaciais transportados a bordo do veículo robótico de seis rodas, com o objetivo de observar como elas se comportam no ambiente hostil do planeta.

Medições anteriores identificaram partículas de poeira marciana com diâmetro de até cerca de 3 micrômetros.

Mas o Instrumento Planetário para Litoquímica de Raios X (PIXL) do Perseverance registrou duas categorias de partículas ainda menores.

Robô Perseverance da NASA coleta amostras de rocha do solo de Marte
Robô Perseverance da NASA coleta amostras de rocha do solo de Marte

Além das partículas ultrafinas, havia uma categoria de partículas finas com menos de 2,5 micrômetros de diâmetro, ou 30 vezes mais finas que um fio de cabelo.

Partículas tão minúsculas poderiam ser pequenas o suficiente para penetrar nos pulmões de um astronauta, entrar na corrente sanguínea e, potencialmente, causar danos a órgãos vitais.

Outra preocupação é que o ambiente marciano e as propriedades físicas da poeira possam degradar, com o tempo, os materiais dos trajes espaciais e dos habitats.

Com isso em mente, o Perseverance transporta amostras de possíveis materiais para trajes espaciais, como a fibra sintética Vectran e o revestimento protetor Teflon, cada uma com cerca de três quartos de polegada (20 mm) de lado.

“Não temos evidências de que a poeira tenha danificado os materiais dos trajes espaciais, apenas de que os materiais tendiam a interagir com a poeira de maneiras diferentes”, disse VanBommel.

“O Vectran parecia reter partículas maiores de poeira, com maior prevalência na parte inferior de sua trama. A amostra de Teflon reteve menos poeira, mas a poeira retida era mais fina, refletindo diferenças na forma como as propriedades eletrostáticas podem fazer com que partículas de diferentes tamanhos adiram preferencialmente a cada material.”

A Nasa pretende enviar astronautas a Marte já na década de 2030.

“Essas descobertas ajudarão a orientar o projeto de futuros sistemas de suporte humano para missões tripuladas a Marte, incluindo a escolha de materiais para trajes espaciais e habitats, bem como métodos de limpeza eficazes para partículas com tamanhos submicrométricos.

Elas também contribuem para as diretrizes e protocolos que a Nasa estabeleceu para riscos toxicológicos”, disse VanBommel.

A Nasa tem experiência com os efeitos da poeira desde os pousos lunares dos astronautas da missão Apollo, de 1969 a 1972.

A poeira lunar degradou as camadas externas dos trajes espaciais, danificou vedações e arranhou viseiras. Ela também pode ter sido associada a sintomas semelhantes à febre do feno em alguns astronautas.

Mas a poeira marciana difere da poeira lunar.

“Na Lua, a poeira é gerada principalmente por impactos na superfície, inclusive por micrometeoritos. Sem atmosfera ou vento para desgastá-las, as partículas lunares permanecem afiadas e angulares. A maior parte da preocupação com a poeira lunar vem de sua forma, enquanto que, no caso da poeira marciana, sua composição química e o tamanho das partículas são as principais preocupações”, declarou VanBommel.

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sábado, 31 de outubro de 2026

Reforma tributária: novo imposto sobre consumo pode ficar acima de 30% e superar o de países ricos; veja a comparação

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Depois da divulgação de proposta do TCU, em patamar acima do esperado, analistas passaram a apontar que o imposto brasileiro será de ao menos 30% em 2033.
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Por Alexandro Martello, g1 — Brasília

Postado em 31 de Outubro de 2.026 às 07h00m
 
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O cálculo foi feito por técnicos do tribunal com base em dados da Receita Federal. O percentual será encaminhado ao Congresso Nacional, que poderá concordar ou não.

Caberá ao Senado, até 15 de dezembro, fixar o valor final da alíquota, que será cobrada a partir de 2027.

▶️Para mensurar o valor da CBS, técnicos do tribunal estimaram quanto seria arrecadado com os impostos que estão sendo extintos no fim de 2026 (PIS, Cofins e grande parte do IPI). Isso porque, uma das premissas da reforma sobre o consumo, é manter o atual patamar da carga tributária.

TCU propôs alíquota de 11,3% pra imposto sobre o consumoTCU propôs alíquota de 11,3% pra imposto sobre o consumo 

🔎 Em 2024, o governo estimou que a alíquota da CBS seria de 8,8%. Cálculo da consultoria Roit apontava para uma alíquota de 9,43% em 2027. Estimativas divulgadas em julho pelo Comitê Gestor do IBS, dos estados, apontam que a CBS teria uma taxa de cerca de 9,2% no próximo ano.

Imposto total

▶️Além da CBS do governo federal, a reforma tributária também contempla a cobrança do IBS estadual e municipal, que terá uma alíquota marginal de 0,1% até 2028. A partir de 2029, os estados e municípios começam a aumentar, gradualmente, a cobrança do IBS. A cobrança integral começa em 2033.

▶️Antes de a alíquota da CBS ser proposta pelo TCU, estimativa do Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (CGIBS) apontava que a alíquota cheia estiver sendo cobrada do imposto sobre o consumo do governo federal, estados e municípios, somaria cerca de 28%.

▶️Depois da divulgação da proposta do tribunal para a CBS, bem acima do esperado, analistas passaram a apontar que o imposto brasileiro será de ao menos 30% em 2033 — o primeiro ano com tributação cheia. O g1 considerou o patamar de 30% para comparação internacional.

▶️ Se confirmada, seria maior do que a alíquota de todos os países desenvolvidos, segundo ranking da Tax Foundation — organização sem fins lucrativos que faz avaliações sobre impostos e coleta dados sobre tributos ao redor do mundo.

▶️De acordo com o levantamento, alíquota média dos impostos gerais sobre o consumo nos países da OCDE foi de 19,4%, bem abaixo do valor estimado para o futuro IVA brasileiro. O ranking, com dados de 2026, foi divulgado em 19 de outubro (veja abaixo).

Alíquotas do imposto sobre o consumo — Foto: Ranking da Tax Foundation e estimativa de analistas para o Brasil
Alíquotas do imposto sobre o consumo — Foto: Ranking da Tax Foundation e estimativa de analistas para o Brasil

➡️O governo federal, por sua vez, alega que, atualmente, os impostos cobrados sobre o consumo no país são ainda maiores, com tributação média de cerca de 34% – mas que há dificuldade em calcular o peso dos impostos pois o sistema é muito complexo, há exceções. Além disso, alguns tributos incidem sobre si mesmos (por dentro, em cascata).

➡️Este modelo "por dentro" torna mais difícil identificar quanto de imposto está efetivamente embutido no preço de um produto ou serviço. Por isso, as notas fiscais trazem apenas uma estimativa "do valor aproximado de tributos". Com a reforma tributária, eles passarão a ser cobrados por fora (aparecerão separados do valor do produto ou serviço).

Porque a alíquota é alta

➡️Um dos problemas que resultaram em um alto imposto sobre o consumo no Brasil foi a decisão do governo do presidente Lula, e de legisladores, de terem proposto e aprovado que o atual peso dos impostos nessa base de tributação fosse mantido.

🔎A consequência da concentração maior da carga tributária brasileira sobre o consumo no Brasil é o alto grau de "regressividade" (se arrecada proporcionalmente mais de quem ganha menos) — prejudicando, dessa forma, os mais pobres.

Para Luís Garcia, advogado tributarista pela USP/SP e sócio do Tax Group, o alto patamar do endividamento do setor público e a rigidez das despesas mantêm a pressão por arrecadação e impedem que a reorganização dos tributos, isoladamente, produza alívio fiscal.

“A reforma tributária pode significar simplificação, mas jamais redução de carga tributária enquanto o Brasil continuar refém de uma política fiscal irresponsável”, avaliou o tributarista Luís Garcia.

▶️Outro entrave, este relacionado ao fato de que a alíquota proposta pelo TCU ficou acima do estimado anteriormente por analistas, tem a ver com as exceções aprovadas na tramitação da reforma tributária no Congresso Nacional, ou seja, com os benefícios concedidos na aquisição de determinados produtos e serviços.

Considerando a premissa básica de que a reforma deve manter o atual nível de arrecadação dos tributos sobre o consumo, os benefícios concedidos a determinados produtos e setores resultam em uma alíquota de referência mais elevada para as atividades que não contam com incentivos fiscais, algo que já havia sido apontado, à época, por representantes da indústria nacional.

  • Entre os benefícios aprovados na tramitação da reforma tributária, estão alíquota zero para a cesta básica, incluindo as proteínas (o que, segundo especialistas, beneficia a população mais rica), para uma lista de medicamentos e dispositivos médicos.
  • O Congresso aprovou ainda alíquotas reduzidas para serviços de educação e saúde; medicamentos e dispositivos médicos; produções artísticas, culturais, jornalísticas e audiovisuais nacionais; atividades desportivas; e profissões regulamentadas e fiscalizadas por conselhos profissionais.
Setores reclamam

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) manifestou preocupação com a alíquota de referência de 11,3% pois ela reforça o risco de aumento da carga tributária para as empresas. A preocupação é especialmente relevante para prestadores de serviços sujeitos atualmente à alíquota conjunta de 3,65% de PIS/Cofins no regime cumulativo.

"A substituição por uma CBS com referência de 11,3% representa uma elevação expressiva da alíquota nominal, embora o impacto efetivo dependa dos créditos e do tratamento tributário de cada atividade. Empresas intensivas em mão de obra ficam mais expostas, pois a folha de pagamentos não gera créditos", avaliou a CNC, por meio de nota.

A Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA) informou considerar preocupante a proposta de fixação da alíquota de referência de 11,3% para a CBS, bem acima das estimativas anteriores. Avalia que uma diferença dessa magnitude "ameaça elevar a carga tributária das empresas, com efeitos que podem se refletir nos preços ao consumidor".

"A definição da alíquota não deve ignorar os impactos sobre a produção, os investimentos e o custo dos alimentos. Além de aumentar os preços, uma alíquota elevada da CBS ameaça ampliar a pressão sobre o orçamento das famílias de menor renda, comprometendo seu acesso à alimentação", acrescentou a ABIA, em nota.

Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), disse que o patamar de 11,3% estimado pelo TCU quebra a premissa central da reforma tributária de manutenção da carga fiscal.

Segundo ele, estudos técnicos apontavam equilíbrio em torno de 9% para o imposto, e que a nova projeção retira da economia mais de R$ 100 bilhões em tributos adicionais já em 2027, empurrando o IVA Dual (CBS + IBS) para além de 30% - a maior taxa do mundo.

"A produção, os investimentos e o emprego não suportam mais impostos. O reequilíbrio fiscal do Brasil exige corte e controle de gastos públicos, e não aumento de arrecadação sobre quem produz. Esperamos o bom senso do Senado Federal para corrigir essa distorção", declarou o presidente da Fiesp.

A Conexis Brasil Digital, Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel, Celular e Pessoal, informou ter recebido com preocupação a proposta de fixação da alíquota de referência de 11,3% para a CBS.

"A alíquota proposta é bem superior à alíquota neutra do setor de telecomunicações. Isso representará aumento da carga tributária de telecom, prejudicando investimentos em inovação e expansão da rede, com impacto no custo do serviço para o consumidor”, disse Marcos Ferrari, presidente-executivo da Conexis Brasil Digital.

— Foto: Divulgação/MPAM
— Foto: Divulgação/MPAM

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IA virou um problema para as gigantes de tecnologia?

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Entenda o tombo bilionário nas bolsas Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft perderam quase US$ 900 bilhões em valor de mercado após balanços. Investidores questionam se os aportes bilionários em inteligência artificial vão se transformar em receita e lucro.
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Por Ismael Jales, g1 — São Paulo

Postado em 31 de Outubro de 2.026 às 05h35m
 
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Trump e big techs anunciam acordo para autorregulação da IA nos Estados UnidosTrump e big techs anunciam acordo para autorregulação da IA nos Estados Unidos 

As gigantes de tecnologia estão gastando cada vez mais dinheiro para avançar na corrida pela inteligência artificial (IA). Mas, em vez de empolgar, os investimentos bilionários começaram a acender um alerta na bolsa: o mercado quer saber quando essas empresas vão conseguir transformar tanto dinheiro gasto em lucro.

Na quinta-feira (29), após a divulgação dos resultados trimestrais, as ações da Alphabet, dona do Google, despencaram 12,64%, na maior queda diária da empresa desde sua abertura de capital, em 2004. Os balanços trouxeram números elevados de investimentos em infraestrutura de IA e projeções de novos gastos bilionários, aumentando a preocupação dos investidores com o ritmo de expansão das empresas.

Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta, a desvalorização fez a companhia perder US$ 493,9 bilhões em valor de mercado em um único pregão. Para se ter uma ideia, o montante equivale a 55,82% de todo o valor de mercado das empresas listadas na bolsa brasileira, estimado em US$ 885 bilhões.

A queda ajudou a pressionar Wall Street e fez parte de um movimento mais amplo de desvalorização entre empresas do setor.

  • 📲 Após o fechamento, a Amazon também sofreu uma forte queda, de aproximadamente 7%, que retirou quase US$ 200 bilhões de seu valor de mercado. Juntas, Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft perderam quase US$ 900 bilhões em valor de mercado após a divulgação dos resultados do terceiro trimestre.

A pressão se intensificou ao longo do pregão desta sexta-feira (30). No fechamento, o Nasdaq recuou 2,9%, aos 25.437 pontos, depois de atingir o menor nível em quase três meses. O S&P 500 caiu 1,8%, aos 7.580 pontos, enquanto o Dow Jones perdeu 1,1%, aos 51.770 pontos.

A pressão também atingiu as gigantes de tecnologia e as fabricantes de chips. No fechamento, a Amazon recuou 1,49%, enquanto a Alphabet também terminou em queda, após despencar 12,64% na véspera.

A Intel teve um dos piores desempenhos do pregão: suas ações desabaram 28,6%, na maior queda diária desde 1974. A desvalorização, porém, também reflete problemas próprios da companhia. A fabricante alertou que deve consumir caixa neste ano, diante da fraqueza do mercado de computadores pessoais, de dificuldades na fabricação de chips e dos altos investimentos para ampliar sua capacidade de produção.

O movimento também atingiu outras empresas do setor. A Nvidia caiu 4,2%, a AMD perdeu 10,9% e o índice de semicondutores recuou 7,2%.

  • ➡️ Em outubro, o Nasdaq 100 acumulava queda superior a 5,8%. A desvalorização poderia eliminar mais de US$ 2 trilhões em valor de mercado do índice no mês.
Tombo das ações reduz em US$ 70 bilhões fortuna de três bilionários

A desvalorização das gigantes de tecnologia também atingiu o patrimônio de alguns dos homens mais ricos do mundo.

Como boa parte da fortuna desses empresários está ligada às participações que mantêm nas empresas que fundaram, a queda das ações na bolsa reduz o valor estimado de seus bens.

Segundo o Bloomberg Billionaires Index, Larry Page e Sergey Brin, cofundadores do Google, tiveram uma redução conjunta de US$ 60,7 bilhões em suas fortunas na quinta-feira (29). Page perdeu aproximadamente US$ 31,6 bilhões, enquanto a fortuna de Brin encolheu US$ 29,1 bilhões.

Jeff Bezos, fundador da Amazon, também foi afetado. O empresário registrou uma redução estimada de US$ 9,48 bilhões em seu patrimônio no mesmo dia. Somadas, as perdas dos três bilionários chegaram a US$ 70,18 bilhões.

A redução não significa que os empresários tenham retirado esse dinheiro de suas contas bancárias ou vendido ações com prejuízo. Trata-se de uma queda no valor estimado de suas fortunas, influenciada principalmente pela desvalorização das participações que possuem nas companhias.

Investimentos em IA disparam, mas mercado cobra resultados

Por trás da pressão sobre as ações está o tamanho dos investimentos que as empresas estão fazendo para desenvolver e ampliar seus negócios de inteligência artificial (IA).

Segundo a Reuters, Amazon, Meta, Microsoft e Alphabet elevaram juntas os investimentos em infraestrutura de US$ 113 bilhões para US$ 207 bilhões em um ano. A previsão é de outros US$ 232 bilhões em investimentos no trimestre seguinte.

Para 2026, os gastos de capital dessas quatro empresas podem chegar a US$ 740 bilhões, segundo estimativas citadas pela agência. Os recursos são destinados principalmente à construção de centros de processamento de dados, compra de chips e expansão da infraestrutura necessária para treinar e operar sistemas de inteligência artificial.

A Amazon, por exemplo, investiu cerca de US$ 75,9 bilhões no terceiro trimestre, acima dos US$ 58,7 bilhões esperados pelo mercado. A Alphabet destinou mais de US$ 50 bilhões à expansão de sua infraestrutura. A Microsoft investiu US$ 45,2 bilhões, enquanto a Meta registrou gastos de US$ 35 bilhões no período.

Em outro levantamento, também divulgado pela Reuters, os números mostram o peso desses investimentos sobre o caixa das companhias. Dessa vez, a análise considera cinco empresas: Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle.

Nos primeiros nove meses de 2026, as cinco empresas investiram juntas US$ 556,9 bilhões, valor superior aos US$ 542,9 bilhões que geraram com suas operações no mesmo período. Com isso, o grupo passou de um saldo positivo de US$ 143,5 bilhões em fluxo de caixa livre nos primeiros nove meses de 2025 para um resultado negativo de US$ 14 bilhões neste ano.

O fluxo de caixa livre é o dinheiro que sobra depois que a empresa paga suas despesas operacionais e investimentos. Quando esse indicador fica negativo, significa que os recursos gerados pelas operações não foram suficientes para cobrir os gastos do período.

Analistas apontam que a questão é que esses investimentos levam tempo para gerar retorno. Enquanto as empresas gastam bilhões para ampliar sua capacidade, os investidores querem entender quando esse dinheiro vai se transformar em novas receitas e, principalmente, em lucro.

"O mercado continua confiante na demanda por inteligência artificial, como mostram os resultados crescentes da área de computação em nuvem. Mas os investidores passaram a cobrar mais das empresas: não basta anunciar grandes investimentos em IA, é preciso mostrar que eles estão se transformando em receita e, principalmente, em geração de caixa", afirma Nickolas Lobo, especialista de investimentos da Nomad.

Ou seja, não basta mostrar que a empresa está construindo centros de dados e comprando chips. Os investidores querem ver se a estrutura vai gerar dinheiro suficiente para compensar o que foi gasto.

"São bilhões de dólares destinados a centros de dados, chips e infraestrutura, enquanto a capacidade de transformar tudo isso em receita ainda está sendo construída", diz Celso Camilo, doutor em inteligência artificial e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG). 
Empresas também recorrem a empréstimos

Até agora, parte importante dos investimentos vinha do próprio dinheiro gerado pelos negócios. Com os gastos cada vez maiores, porém, as empresas também têm recorrido à emissão de dívidas e de ações para levantar recursos.

A Microsoft, por exemplo, levantou US$ 25 bilhões em uma emissão de títulos de dívida. Segundo a empresa, os recursos poderão ser utilizados para diferentes finalidades corporativas, incluindo investimentos de capital.

O movimento ocorre em um momento em que os investidores também acompanham a possibilidade de juros mais altos nos próximos anos. Com juros maiores, os empréstimos ficam mais caros e podem aumentar o custo dos projetos.

"A escala de gastos não tem precedentes. O ciclo começou com recursos próprios, avançou para a emissão de dívidas e agora chega à captação de recursos no mercado de ações", afirma.

Ele se refere também à possibilidade de as empresas emitirem novas ações para captar dinheiro. Nesse caso, os acionistas existentes podem ter sua participação proporcional reduzida, caso não acompanhem a operação.

O risco é uma bolha de investimentos?

A queda das ações reacendeu a discussão sobre uma possível bolha em torno da inteligência artificial. Isso não significa, porém, que os especialistas considerem a tecnologia uma promessa sem fundamento.

"A tecnologia é real, já está sendo utilizada e tem capacidade de transformar diversos setores da economia. O que considero exagerado são algumas expectativas de valorização", afirma Celso Camilo.

Para ele, o risco está na diferença entre o potencial da tecnologia e o preço que os investidores aceitam pagar hoje pelas ações, considerando lucros que ainda não chegaram.

Lobo também pondera que a discussão não deve ser resumida à ideia de que a IA é uma bolha. Na avaliação dele, o mercado está mais atento ao ritmo de crescimento dos investimentos e à capacidade de as empresas transformarem esse dinheiro em resultados.

"O vencedor da próxima etapa não será necessariamente quem investe mais, mas quem gera retorno sobre o capital investido", afirma.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões de pessoas sem renda suficiente para manter alimentação saudável

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Relatório da ONU mostra que a insegurança alimentar diminuiu no país, mas próximo governo Lula terá o desafio de preservar os avanços e alcançar as famílias mais vulneráveis.
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Por Paula Salati, g1 — São Paulo

Postado em 30 de Outubro de 2.026 às 13h00m
 
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Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões que não conseguem pagar por alimentação saudável. — Foto: Getty Images
Fora do Mapa da Fome, Brasil ainda tem 44,8 milhões que não conseguem pagar por alimentação saudável. — Foto: Getty Images

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu o terceiro mandato com o “compromisso número 1” de tirar o Brasil do Mapa da Fome, pela segunda vez. A promessa foi cumprida em julho do ano passado, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou que o país havia deixado o indicador.

Mas o desafio que fica para o seu quarto mandato, não é pequeno: 44,8 milhões de brasileiros — cerca de um quinto da população — ainda não têm renda suficiente para manter uma alimentação saudável, composta por cereais, frutas, verduras, leguminosas e fontes de proteína, nas quantidades recomendadas pela ONU. (veja detalhes abaixo)

O dado consta do relatório "O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi)", da agência da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), publicado em julho deste ano, com dados até 2025.

Pessoas que não conseguem pagar por uma alimentação saudável. — Foto: Arte/g1
Pessoas que não conseguem pagar por uma alimentação saudável. — Foto: Arte/g1

A pesquisa também aponta que 20,3 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave entre 2023 e 2025, ou seja, não tiveram acesso regular a alimentos nutritivos em quantidade suficiente para uma vida saudável. Entre 2021 e 2023, esse número era maior: 39,7 milhões.

Onde estão essas pessoas? Nos domicílios chefiados por mulheres. No recorte racial, nos chefiados por mulheres negras. No regional, no Norte e no Nordeste.
— José Graziano, ex-diretor-geral da FAO e idealizador do programa Fome Zero

Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, relaciona esse cenário às condições precárias de trabalho enfrentadas por essas populações, como baixos salários, informalidade e instabilidade de renda.

“A trabalhadora doméstica, por exemplo, tem muita descontinuidade na renda. Por isso, sua família fica mais sujeita à insegurança alimentar”, exemplifica.

'Não conhecia rúcula, salsa, couve': como a agricultura mudou vidas em um deserto alimentar do Brasil
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Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), órgão consultivo da Presidência da República, acrescenta que as políticas públicas ainda têm dificuldade para alcançar e atender de forma contínua pessoas em situação de extrema vulnerabilidade.

Segundo ela, o problema nem sempre é a completa ausência de contato com o Estado, mas a falta de continuidade no atendimento e de integração entre os serviços públicos.

“Uma pessoa em situação de rua, por exemplo, chega a um abrigo, a um centro de saúde. Em algum lugar, ela chega. O problema é que ela chega e vai embora. Ninguém a acolhe no sentido de dizer: ‘Fique aqui, você não precisa só de um curativo'.”

Questionados sobre o que o próximo governo deve fazer para reduzir a vulnerabilidade alimentar, os especialistas são unânimes: o Brasil não pode retroceder nas políticas de combate à fome. Isso porque o país entrou e saiu do Mapa em um intervalo relativamente curto de tempo.

A primeira saída aconteceu em 2014, mas o Brasil voltou ao Mapa da Fome em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), em um contexto de avanço da pobreza, agravado pela pandemia de Covid-19 e por um enfraquecimento de políticas de apoio à produção e distribuição de alimentos.

Naquele ano, o relatório da ONU mostrou que 61,3 milhões de brasileiros enfrentavam insegurança alimentar. Além disso, 4,1% da população vivia em situação de subnutrição, o equivalente a 8,6 milhões de pessoas.

  • 🔎 O indicador de subnutrição é conhecido como "Mapa da Fome" e mede a parcela de pessoas cujo consumo habitual de calorias é insuficiente para viver.

Três anos depois, em julho de 2025, o relatório mostrou que a parcela de brasileiros em situação de subnutrição ficou abaixo de 2,5%, confirmando a saída do Mapa da Fome.

Segundo especialistas, a melhora dos indicadores foi impulsionada por políticas de recuperação da renda e ampliação do acesso a alimentos. Entre elas, destacam-se a retomada dos reajustes do salário mínimo acima da inflação e a recuperação de programas de segurança alimentar, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

  • ➡️ O PAA atua em duas frentes: o poder público compra alimentos de agricultores familiares, o que gera renda no campo, e os destina a pessoas em situação de vulnerabilidade social, escolas e hospitais.
Execução do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). — Foto: Arte/g1
Execução do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). — Foto: Arte/g1

Avançar no combate à insegurança alimentar exige garantir que as políticas públicas alcancem as populações mais vulneráveis e ampliar o acesso a alimentos saudáveis. Para isso, é preciso elevar a renda, apoiar a produção agrícola e assegurar recursos contínuos aos programas de segurança alimentar.

"Embora a Constituição brasileira garanta o direito à alimentação, as políticas de segurança alimentar no Brasil não são políticas de Estado, como são as de saúde e educação, em que uma percentagem do orçamento é garantida", destaca Graziano.

O que explica o desperdício de alimentos no Brasil, enquanto milhões passam fome
O que explica o desperdício de alimentos no Brasil, enquanto milhões passam fome

O que é alimentação saudável para a ONU?

Para estimar quantas pessoas não conseguem pagar por uma alimentação saudável, a ONU compara o custo de uma cesta variada de alimentos com a renda que sobra após o pagamento de despesas básicas, como moradia, vestuário e transporte.

Essa cesta reúne 11 alimentos capazes de fornecer, juntos, cerca de 2.330 calorias diárias por pessoa. A ONU seleciona os produtos mais baratos disponíveis em cada país que atendam às recomendações de uma alimentação equilibrada.

Os alimentos são divididos em seis grupos: cereais, raízes e tubérculos; carnes, peixes, ovos e laticínios; leguminosas, castanhas e sementes; óleos e gorduras; frutas; e verduras e legumes.

O g1 perguntou à FAO quais alimentos foram usados no cálculo do custo de uma dieta saudável no Brasil, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

E qual é a situação do Brasil?

O relatório da ONU aponta que o custo de uma alimentação saudável no país vem subindo ano a ano. Em 2025, chegou a 4,89 dólares internacionais por pessoa, por dia, ante 3,97 dólares internacionais em 2021.

Custo diário de uma alimentação saudável por pessoa. — Foto: Arte/g1
Custo diário de uma alimentação saudável por pessoa. — Foto: Arte/g1

  • 💵 O dólar internacional não é uma moeda que pode ser comprada ou trocada, mas uma medida usada para comparar o poder de compra entre países. O cálculo considera quantos reais são necessários para comprar, no Brasil, o equivalente ao que um dólar compra nos EUA. Como essa comparação leva em conta os preços dos produtos, e não a taxa de câmbio, não é possível converter o valor em reais pela cotação do dólar.

Já o número de pessoas que não consegue pagar por uma alimentação saudável atingiu o pico em 2021, no auge da pandemia, e vem recuando desde então. Apesar da queda, especialistas avaliam que o número ainda é elevado, pois representa cerca de um quinto da população.

Para Graziano, a valorização do salário mínimo nos últimos anos ainda não foi suficiente para garantir que as famílias tenham acesso a uma alimentação saudável.

“O custo de uma cesta básica saudável no Brasil hoje seria de R$ 240 a R$ 250 por mês por pessoa. Para uma família de quatro pessoas, isso representa cerca de R$ 1 mil, quase todo o salário mínimo (de R$ 1.621). Só pode pagar quem ganha mais que o mínimo”, diz Graziano.

Um agravante é que os reajustes salariais não conseguiram acompanhar a alta dos preços dos alimentos, o que reduziu o poder de compra da população. Segundo Graziano, é preciso considerar ainda que os preços dos alimentos frescos sobem mais rápido que dos ultraprocessados.

"A salsicha sobe menos do que o preço da alcatra, da picanha. Varia menos. Alimentos frescos e carnes dependem de transporte refrigerado e armazenagem especial, o que encarece o produto final", diz.

Segundo Zimmermann, da Rede Penssan, os ultraprocessados custam menos porque utilizam matérias-primas mais baratas e amplamente produzidas no Brasil, como açúcar, gorduras e derivados de soja.

“Se a gente pensar nos produtos pré-prontos, nas massas, nos biscoitos, chocolates, muitos têm soja na composição. Isso acontece porque a gente produz muita soja, então o custo fica muito mais barato que outros componentes", diz.

Variação da inflação dos alimentos consumidos em casa, em janeiro de cada ano, e reajustes reais do salário mínimo. — Foto: Arte/g1
Variação da inflação dos alimentos consumidos em casa, em janeiro de cada ano, e reajustes reais do salário mínimo. — Foto: Arte/g1

Os desafios para reduzir preços

Zimmermann destaca que os preços das hortaliças oscilam mais, sobretudo quando comparados aos dos alimentos ultraprocessados.

Como esses cultivos têm ciclo curto de plantio e colheita, eventos climáticos, como secas e enchentes, podem destruir lavouras inteiras, reduzindo a oferta e encarecendo os produtos em poucos dias. Segundo ela, esse problema se agravou nos últimos anos com o aumento dos eventos climáticos extremos.

A especialista destaca que as oscilações do mercado internacional e as tensões geopolíticas também afetam a produção de hortaliças. Combustíveis e fertilizantes importados, por exemplo, estão sujeitos às variações de preços no exterior.

Nos últimos anos, conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia encareceram esses insumos, elevando os custos de produção e transporte, que acabam repercutindo no preço dos alimentos.

Para Graziano, outro entrave é a distribuição desigual dos investimentos em pesquisa agropecuária no Brasil. Segundo ele, os recursos são “fortemente enviesados” para produtos de exportação, como soja, milho e carne bovina, enquanto frutas, verduras, legumes e alimentos básicos, como arroz e feijão, recebem menos atenção.

“A Embrapa Hortaliças, por exemplo, tem desenvolvido novas variedades, assim como a Embrapa Feijão. Mas esses avanços ainda são pequenos quando comparados ao progresso de outros segmentos, como o da soja", diz Graziano.

  • 🌱 Na prática, a pesquisa pode ajudar a aumentar a produção de hortaliças com o desenvolvimento de variedades mais resistentes à seca e ao calor, além de técnicas de cultivo que reduzam as perdas provocadas por eventos climáticos extremos.
Diversidade e produção local

Elisabetta Recine, presidente do Consea, destaca que até mesmo polos de produção de frutas no Brasil são voltados ao mercado externo. É o caso do Vale do São Francisco (PE), que produz manga e uva principalmente para exportar à Europa e aos EUA.

"Esses polos dão preferência para a produção de frutas que os outros países estão querendo ao invés de olhar para a região e pensar: 'bom, quais são as frutas tradicionais daqui? As frutas nativas ou que têm uma relação histórica ou social com o local?'", diz.

"Não faz sentido, por exemplo, você produzir maçã em Santa Catarina, e levá-la para Manaus. Não quer dizer que as pessoas não têm direito de comer maçã. Quer dizer que a gente reduziu tanto a nossa diversidade que depende de circuitos longos. E isso impacta qualidade e preço do produto. Porque tem custo de transporte, de armazenagem e refrigeração."

Uma das saídas seria estimular a produção local e a venda direta ao consumidor, com medidas como a criação de feiras livres e outros pontos de venda, além da isenção de taxas para feirantes.

Outra ação importante é reforçar os investimentos na agricultura familiar, responsável por 60% da produção de hortaliças. Isso pode ser feito por meio da ampliação de programas já existentes, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Desertos e pântanos alimentares

Encurtar o caminho entre a produção e o consumo também é importante para ampliar a oferta de alimentos frescos em desertos e pântanos alimentares no Brasil. Segundo Recine, essas barreiras de acesso ajudam a explicar a dificuldade de pagar por uma alimentação saudável.

  • Desertos alimentares são regiões onde há pouca ou nenhuma oferta de alimentos frescos e saudáveis, o que obriga moradores a percorrer longas distâncias para comprá-los.
  • Já nos pântanos alimentares, há mais estabelecimentos que vendem ultraprocessados, como refrigerantes, salgadinhos e biscoitos, do que locais que oferecem alimentos saudáveis.

Dados do Ministério do Desenvolvimento Social mostram que cerca de 25 milhões de brasileiros viviam em desertos alimentares entre 2023 e 2024. Desse total, 6,7 milhões eram de baixa renda ou viviam em situação de pobreza.

Já os pântanos alimentares abrigavam cerca de 15 milhões de pessoas, das quais aproximadamente 104 mil viviam em favelas e comunidades urbanas.

"As periferias urbanas são extremamente desabastecidas. Se você entra num mercadinho, você vai encontrar os produtos básicos secos — como arroz e feijão — porque eles têm um tempo de prateleira grande. De fresco, encontra uma banana, uma batata, uma cebola", ressalta.

Graziano afirma que, nas periferias das grandes cidades brasileiras, é fácil encontrar barracas de cachorro-quente, mas difícil comprar uma maçã.

"Somado a isso, a rotina de trabalho e a falta de tempo reduziram o preparo doméstico de alimentos frescos de cozimento longo — como feijão e mandioca —, empurrando as famílias para o consumo de ultraprocessado."

Zimmermann conta que, em maio de 2026, o Brasil propôs à Organização Mundial da Saúde (OMS) a criação de regras globais para a venda e a publicidade de ultraprocessados, com foco na proteção de crianças e adolescentes.

Na ocasião, o governo anunciou que buscaria apoio de outros países para levar a proposta à votação em 2027.

Integrar serviços para combater a fome

Para alcançar os 20,3 milhões de brasileiros que ainda enfrentam insegurança alimentar, Elisabetta Recine afirma que o principal desafio é fazer com que as políticas públicas cheguem, de fato, a essas pessoas.

Segundo ela, parte dessa população vive em situação de extrema vulnerabilidade e enfrenta dificuldades para acessar até mesmo o Bolsa Família.

Uma forma de alcançar esse grupo é aproveitar o contato que essas pessoas já têm com os serviços públicos. Recine explica que mesmo quem vive nas ruas passa, em algum momento, por uma unidade de saúde, uma cozinha solidária ou uma equipe de assistência social.

O desafio é fazer com que esse atendimento pontual seja o início de um acompanhamento contínuo. É para enfrentar esse problema que foi criado, por exemplo, o Protocolo Brasil Sem Fome, que está sendo implantado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS).

Enquanto o Plano Brasil Sem Fome reuniu políticas e estratégias que ajudaram a tirar o Brasil do Mapa da Fome, o protocolo representa uma segunda etapa, voltada a alcançar as pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Para isso, o governo identificou municípios com os piores indicadores de insegurança alimentar e nutricional e busca integrar, nesses territórios, três redes de atendimento: saúde, assistência social e segurança alimentar.

A ideia é evitar que o atendimento termine no primeiro serviço procurado. Se uma pessoa chega a uma unidade de saúde, por exemplo, ela pode ter outras necessidades identificadas e ser encaminhada para serviços de assistência social ou de segurança alimentar. O mesmo deve ocorrer quando a porta de entrada é uma cozinha solidária ou um serviço da assistência social.

Na prática, o objetivo é criar uma rede de proteção para que a pessoa não receba apenas um atendimento pontual, mas continue sendo acompanhada pelos serviços públicos e tenha acesso aos programas de que precisa.

Silvia Zimmermann acrescenta que essa integração deve incluir a busca ativa — ou seja, as equipes públicas precisam ir atrás das famílias, em vez de esperar que elas procurem ajuda.

Segundo ela, cruzar dados dos serviços de saúde, assistência social e segurança alimentar com os do Cadastro Único — base do governo que reúne informações sobre famílias de baixa renda e é usada para acessar diversos programas sociais — ajuda a localizar essas pessoas e entender o que dificulta seu acesso às políticas públicas.

O trabalho inclui orientar as famílias e, quando necessário, ajudá-las a se inscrever ou atualizar seus dados no cadastro. Assim, o contato com um serviço pode abrir caminho para uma rede de apoio capaz de enfrentar as diferentes causas da insegurança alimentar.

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