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quarta-feira, 1 de setembro de 2021

PIB do Brasil recua 0,1% no 2º trimestre e recuperação perde fôlego

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Maior queda foi da agropecuária (-2,8%), seguida pela Indústria (-0,2%). Serviços cresceram 0,7% e consumo das famílias ficou estagnado. Apesar do resultado frustrante, economia brasileira se manteve no patamar pré-pandemia.
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Por Darlan Alvarenga e Daniel Silveira, G1 — São Paulo e Rio de Janeiro

Postado em 01 de setembro de 2021 às 13h25m


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Movimentação na Ladeira Porto Geral, no Centro de São Paulo (SP), no dia 30 de agosto. — Foto: Romeo Campos/Futura Press/Estadão Conteúdo
Movimentação na Ladeira Porto Geral, no Centro de São Paulo (SP), no dia 30 de agosto. — Foto: Romeo Campos/Futura Press/Estadão Conteúdo

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil recuou 0,1% no 2º trimestre de 2021, na comparação com os três meses imediatamente anteriores, conforme divulgado nesta quarta-feira (1) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os números do IBGE mostram que a economia brasileira perdeu fôlego, após ter avançado de 1,2% nos 3 primeiros meses do ano, completando 3 trimestres seguidos de alta.

Apesar do resultado frustrante, o PIB se manteve no patamar entre dezembro de 2019 e janeiro de 2020, período pré-pandemia, segundo o IBGE. Porém, ele está 3,2% abaixo do ponto mais alto da série histórica, alcançado no primeiro trimestre de 2014.

Em valores correntes, o PIB chegou a R$ 2,1 trilhões. Ele é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país e durante um certo período e serve como uma espécie de termômetro da evolução da atividade e da capacidade de uma economia gerar riqueza e renda.

O resultado veio mais fraco que o esperado pelos analistas. A expectativa em pesquisa da Reuters era de um crescimento de 0,2% no segundo trimestre, na comparação trimestral.

Variação trimestral do PIB desde 2016 — Foto: Elcio Horiuchi e Guilherme Luiz Pinheiro/G1
Variação trimestral do PIB desde 2016 — Foto: Elcio Horiuchi e Guilherme Luiz Pinheiro/G1

A surpresa negativa é explicada principalmente pela retração da agropecuária, indústria e dos investimentos, e pela estagnação do consumo das famílias. 

Principais destaques do PIB no 2º trimestre:
  • Agropecuária: -2,8%
  • Indústria: -0,2%
  • Serviços: 0,7%
  • Consumo das famílias: zero
  • Consumo do governo: 0,7%
  • Investimento (FBCF): -3,6%
  • Importação: -0,6%
  • Exportação: 9,4%
  • Construção: 2,7%
  • Comércio: 0,5%
PIB brasileiro encolhe 0,1% no segundo trimestre
PIB brasileiro encolhe 0,1% no segundo trimestre

Alta de 6,4% no semestre

Frente ao 2º trimestre de 2020, o PIB cresceu 12,4% – maior taxa trimestral de toda a série histórica do PIB, iniciada em 1996.

O IBGE ponderou, no entanto, que este salto se deve à comparação com o trimestre que registrou a taxa negativa mais intensa de toda a série histórica, de -9% na comparação com o trimestre imediatamente anterior e -10,9% na comparação anual.

“Estamos comparando este resultado [interanual] com o pior trimestre da pandemia”, destacou a coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, Rebeca Palis.

No primeiro semestre, o PIB acumulou alta de 6,4% na comparação com os 6 primeiros meses do ano passado. No acumulado dos quatro trimestres terminados em junho, o avanço foi de 1,8%.

VÍDEO: 'O PIB decepcionou', diz Miriam Leitão
VÍDEO: 'O PIB decepcionou', diz Miriam Leitão

Agricultura e indústria em queda

A maior queda foi da agropecuária (-2,8%), afetada por quebra de safras , seguida pela Indústria (-0,2%), que vem sendo abalado pela falta de insumos e custo elevado das matérias-primas.

Por outro lado, os serviços cresceram 0,7% na comparação com o 1º trimestre, diante da reabertura da economia com o alívio nas medidas de contenção da Covid-19.

Entre as atividades industriais, o pior desempenho foi o das indústrias de transformação (-2,2%) e da atividade de Eletricidade e gás, água, esgoto, atividades de gestão de resíduos (-0,9%). Por outro lado houve avanço de 5,3% nas indústrias extrativas e de 2,7% na construção.

"O consumo de energia está acompanhando a retomada da economia, mas os custos, com o acionamento das termelétricas por conta da crise hídrica, estão puxando para baixo o valor adicionado ao PIB", destacou Palis.

PIB pela ótica dos setores da economia — Foto: Elcio Horiuchi e Guilherme Luiz Pinheiro/G1
PIB pela ótica dos setores da economia — Foto: Elcio Horiuchi e Guilherme Luiz Pinheiro/G1

Setor de serviços ainda não recuperou patamar pré-pandemia

Dentre os três grandes setores da economia, apenas o de serviços não recuperou o patamar pré-pandemia, operando ainda 0,9% abaixo do 4º trimestre de 2019. Já indústria e agropecuária ficaram, respectivamente, 1,6% e 3,3% acima do patamar observado antes da crise sanitária. “Lembrando que a agropecuária não sofreu quase nenhum efeito da pandemia”, ponderou a gerente da pesquisa.

Sobre o baixo desemprenho dos serviços, a pesquisadora destacou que as atividades listadas como outros serviços ficaram 7,2% abaixo do patamar pré-Covid, enfatizando os efeitos provocados pela crise sanitária sobre a economia.

"Os outros serviços são aqueles mais dependentes do atendimento presencial e têm um peso bastante grande dentro do próprio setor. Ou seja, são eles que estão puxando para baixo o setor, segurando o retorno dos serviços ao patamar pré-pandemia", explicou Palis.

Os destaques positivos do setor de serviços na composição do PIB do segundo trimestre foram as atividades de informação e comunicação (5,6%), e outras atividades (2,1%), que englobam os serviços prestados às famílias. Comércio (0,5%), atividades imobiliárias (0,4%), atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados (0,3%) e transporte, armazenagem e correio (0,1%) também avançaram.

Apenas administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social ficou estagnada (0,0%) no trimestre, na comparação com os 3 primeiros meses do ano.
PIB pela ótica da demanda — Foto: Elcio Horiuchi e Guilherme Luiz Pinheiro/G1
PIB pela ótica da demanda — Foto: Elcio Horiuchi e Guilherme Luiz Pinheiro/G1

Consumo estagnado

Pela ótica da despesa, consumo das famílias teve variação zero na comparação com o 1º trimestre. Os investimentos tiveram queda de 3,6%. Já o consumo do governo teve alta de 0,7%.

O desemprego elevado e a alta da inflação observada desde o começo do ano tiveram impacto negativo direto sobre a retomada da economia.

“Apesar dos programas de auxílio do governo, do aumento do crédito a pessoas físicas e da melhora no mercado de trabalho, a massa salarial real vem caindo, afetada negativamente pelo aumento da inflação. Os juros também começaram a subir. Isso impacta o consumo das famílias”, destacou Palis.

Segundo a pesquisadora, o consumo das famílias, que pesa mais de 60% do PIB, ainda se encontra 1,6% abaixo do patamar pré-pandemia. “A gente vem observando melhora no mercado de trabalho, com geração de empregos, mas não houve crescimento da massa salarial. E a inflação tem um impacto bastante relevante sobre a renda”, destacou.

Rebeca ressaltou, ainda, que a alta da inflação vinha sendo puxada, desde o final do ano passado, pela alta de preços de alimentos e bebidas e este ano passou a ser muito impactada também pelo encarecimento dos combustíveis.
Bares cheios na zona norte do Rio de Janeiro, em imagem do dia 10 de julho — Foto: Jorge Hely/Framephoto/Estadão Conteúdo
Bares cheios na zona norte do Rio de Janeiro, em imagem do dia 10 de julho — Foto: Jorge Hely/Framephoto/Estadão Conteúdo

Exportações têm alta de 9,4%

A balança comercial brasileira teve uma alta de 9,4% nas exportações de bens e serviços no 2 trimestre, a maior variação desde o 1º trimestre de 2010.

Segundo o IBGE, o principal destaque foi a safra de soja estimulada pelos preços favoráveis. Por outro lado, as importações caíram 0,6% na comparação com os 3 primeiros meses do ano.

Investimentos em queda

Os investimentos medidos pela formação bruta de capital fixo (FBCF), que reúnem os gastos das empresas e do governo com máquinas e equipamentos, infraestrutura, construção e inovação, voltaram a cair (-3,6%) após 3 trimestres seguidos de alta.

A taxa de investimento no segundo trimestre de 2021 foi de 18,2% do PIB, contra 15,1% no mesmo período do ano anterior (15,1%), mas ainda distante do patamar de 2013 (20,9%).

A gerente da pesquisa ponderou que os resultados negativos investimentos, assim como das importações, comparados ao primeiro trimestre do ano refletem a incorporação de bens pelo Repetro.

“O Repetro ainda estava impactando esses dois componentes no primeiro trimestre. Agora no segundo trimestre, essa entrada pelo Repetro diminuiu bastante, refletindo negativamente quando se compara as taxas do segundo trimestre contra o primeiro. Com o passar do tempo, essa influência vai diminuindo”, apontou.

Poupança recorde

A taxa de poupança bateu recorde histórico neste segundo trimestre. Ela ficou em 20,9%, ante 15,7% no 2º trimestre de 2020, e foi a maior já registrada na série histórica que, para este indicador, teve início em 2000.

De acordo com a gerente da pesquisa, esse resultado tem relação direta com os efeitos da pandemia sobre o consumo, sobretudo, de serviços, paralisados diante das medidas de restrição à circulação de pessoas.

Os serviços são mais consumidos pelas famílias mais ricas que, segundo a pesquisadora, não o reverteram em consumo de bens, mas em poupança.

O que disse o governo

Em nota, a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia avaliou que o resultado negativo do PIB no segundo trimestre ocorreu no período de três meses com maior número de mortes pela Covid-19 e com efeitos setoriais relevantes, acrescentando que o crescimento do PIB acumulado em 4 trimestres mostra "boa posição da economia brasileira".

"Mais relevante do que observar o número do crescimento, é analisar a sua qualidade. Importantes reformas pró-mercado e medidas de consolidação fiscal estão sendo aprovadas, lançando as bases para o crescimento sustentável do país no longo prazo", afirmou. 
Piora das expectativas

Apesar do avanço da vacinação contra a Covid-19 e do fim das medidas de restrição de horários e público em boa parte do país, a inflação persistente, a tensão política e "riscos fiscais" (sustentabilidade das contas públicas) têm elevado nas últimas semanas o nível de incerteza sobre o ritmo da retomada e provocado revisões para baixo das previsões econômicas.

A expectativa do mercado financeiro para o crescimento da economia em 2021foi reduzida de 5,27% para 5,22%, segundo a última pesquisa Focus do Banco Central. Para 2022, a média das projeções está em 2%, mas parte dos analistas já vê um crescimento mais próximo de 1,5%.

Em 2020, no primeiro ano da pandemia, a economia brasileira caiu 4,1%, registrando a maior contração desde o início da série histórica atual do IBGE, iniciada em 1996, o que tirou o Brasil da lista das 10 maiores economias do mundo.

Economistas avaliam que o aquecimento do setor de serviços – o que mais emprega no país e com maior peso no PIB – deve ajudar na melhora do mercado de trabalho e garantir que o PIB do terceiro e do quarto trimestre fiquem no azul, mas alertam para o riscos de novos freios para a recuperação, incluindo a perspectiva de novas elevações na taxa básica de juros (Selic), de agravamento da crise hídrica e piora do ambiente político, em razão das reiteradas ameaças do presidente Jair Bolsonaro à ordem democrática.

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Desempenho do PIB do Brasil no 2º trimestre fica em 38º em ranking de 48 países

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Lista da Austin Rating leva em conta crescimento recuo de 0,1% da economia em relação ao 1º trimestre.
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Por G1

Postado em 01 de setembro de 2021 às 12h10m


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O desempenho do Produto Interno Bruno (PIB) brasileiro no segundo trimestre de 2021 ocupa o 38º lugar dentro de um ranking com quase 50 países, segundo levantamento elaborado pela Austing Rating. A lista traz os resultados das maiores economias do mundo.

A comparação leva em conta a queda de 0,1% da economia no 2º trimestre deste ano, na comparação com o trimestre anterior, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). O Brasil está abaixo de países como China, Itália, França, Japão e Reino Unido (veja mais abaixo o ranking completo).
Variação do PIB dos países no 2º trimestre — Foto: Elcio Horiuchi e Guilherme Luiz Pinheiro/G1
Variação do PIB dos países no 2º trimestre — Foto: Elcio Horiuchi e Guilherme Luiz Pinheiro/G1

O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país e serve para medir a evolução da economia.

VÍDEO: 'O PIB decepcionou', diz Miriam Leitão
VÍDEO: 'O PIB decepcionou', diz Miriam Leitão

Veja ranking completo abaixo:

  1. Portugal: 4,9%
  2. Reino Unido: 4,8%
  3. Letônia: 4,4%
  4. Áustria: 4,3%
  5. Islândia: 4,2%
  6. Israel: 3,6%
  7. Indonésia: 3,3%
  8. Holanda: 3,1%
  9. Espanha: 2,8%
  10. Hungria: 2,7%
  11. Itália: 2,7%
  12. Dinamarca: 2,3%
  13. Finlândia: 2,1%
  14. Polônia: 2,1%
  15. Eslováquia: 2,0%
  16. Eslovênia: 1,9%
  17. Romênia: 1,8%
  18. Alemanha: 1,6%
  19. Estados Unidos: 1,6%
  20. México: 1,5%
  21. Bélgica: 1,4%
  22. China: 1,3%
  23. Arábia Saudita: 1,1%
  24. Estônia: 1,1%
  25. Noruega: 1,1%
  26. Chile: 1,0%
  27. Lituânia: 1,0%
  28. República Tcheca: 1,0%
  29. França: 0,9%
  30. Suécia: 0,9%
  31. Peru: 0,9%
  32. Turquia: 0,9%
  33. Coreia do Sul: 0,7%
  34. Bulgária: 0,4%
  35. Tailândia: 0,4%
  36. Japão: 0,3%
  37. Chipre: 0,2%
  38. BRASIL: -0,1%
  39. Croácia: -0,2%
  40. Canadá: -0,3%
  41. Ucrânia: -0,8%
  42. Hong Kong: -0,9%
  43. Taiwan: -1,1%
  44. Filipinas: -1,3%
  45. Cingapura: -1,8%
  46. Malásia: -2,0%
  47. Tunísia: -2,0%
  48. Colômbia: -2,4%

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil recuou 0,1% no 2º trimestre de 2021 na comparação com os três meses imediatamente anteriores. Frente ao mesmo trimestre de 2020, o crescimento foi de 12,4% – alta largamente explicada pela base fraca de comparação.

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terça-feira, 31 de agosto de 2021

A luta para combater 'nuvens' de metano tão grandes que podem ser vistas do espaço

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Avanços tecnológicos permitem que frota de satélites cada vez maior tente ajudar a conter esses vazamentos identificando-os do espaço; para especialistas, missão é vital na luta contra aquecimento global.
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TOPO
Por Cheryl Katz, BBC

Postado em 31 de agosto de 2021 às 11h50m


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Pluma de metano detectada pela Nasa no verão de 2020, identificada como um vazamento de gás na Califórnia. O operador conseguiu confirmar e reparar o vazamento — Foto: NASA/JPL-CALTECH
Pluma de metano detectada pela Nasa no verão de 2020, identificada como um vazamento de gás na Califórnia. O operador conseguiu confirmar e reparar o vazamento — Foto: NASA/JPL-CALTECH

Deter os vazamentos de metano de aterros, campos petrolíferos, tubulações de gás natural e outras fontes é uma das ferramentas mais poderosas que temos para reduzir rapidamente o aquecimento global.

A ameaça era invisível para os olhos: toneladas de metano subindo para o céu, escapando de gasodutos de gás natural serpenteando pela Sibéria. Tempos atrás, as plumas de potentes gases do efeito estufa liberados pelas operações petrolíferas russas no ano passado poderiam haver passado despercebidas. Mas, equipado com novas e poderosas tecnologias de imagens, um satélite "caçador" de metano "farejou" as emissões e as rastreou até as suas fontes.

Graças aos rápidos avanços tecnológicos, uma frota de satélites cada vez maior tenta agora ajudar a conter esses vazamentos identificando-os do espaço. A missão é vital e diversos relatórios recentes fizeram soar o alarme cada vez mais urgente para o corte das emissões de metano.

Embora tenha vida mais curta e seja menos abundante que dióxido de carbono (CO2), metano é muito mais poderoso na captura de calor e seu impacto sobre o aquecimento global é mais de 80 vezes maior (que o CO2) a curto prazo. Cerca de 60% das emissões mundiais de metano são produzidas por atividades humanas - a maior parte, da agricultura, descarte de resíduos e produção de combustível fóssil. Segundo estimativas do Fundo de Defesa do Meio Ambiente (EDF, na sigla em inglês), o metano gerado pela atividade humana é responsável por pelo menos 25% do aquecimento global atual.

Estancar essas emissões é a nossa maior esperança para frear rapidamente o aquecimento global, como destaca a nova Avaliação do Metano Global (em tradução livre do inglês), do Programa Ambiental das Nações Unidas.

"Esta é a ferramenta mais poderosa que temos para reduzir o aquecimento global e todos os efeitos decorrentes das mudanças climáticas nos próximos 30 anos", afirma Drew Shindell, professor de Ciências da Terra da Universidade de Duke e o principal autor do relatório da ONU. Os cientistas salientam que reduções consideráveis de dióxido de carbono e metano são fundamentais para evitar mudanças climáticas extremas. "Elas não substituem a redução de CO2, mas a complementam", segundo Shindell.

Apesar da pandemia, 2020 presenciou o maior salto já registrado das concentrações de metano na atmosfera em um ano.

Segundo a avaliação da ONU, as cerca de 380 milhões de toneladas de metano liberadas anualmente por atividades humanas poderiam ser reduzidas praticamente pela metade nesta década com os métodos disponíveis — e que são, em sua maioria, economicamente viáveis. Isso evitaria cerca de 0,3 °C de aquecimento até os anos 2040 — e ganharíamos tempo precioso para controlar as emissões de outros gases do efeito estufa.

Os ganhos mais fáceis podem ser obtidos reparando-se vazamentos em tubulações, impedindo liberações deliberadas — como a ventilação de gases indesejados de sondas de perfuração — e outras ações na indústria do petróleo e gás, segundo o relatório da ONU. A captura de gases de materiais em decomposição em aterros e a redução das emissões de gases de ruminantes em rebanhos também ajudariam.

No momento, entretanto, a tendência é seguir na direção oposta: a concentração de metano na atmosfera da Terra vem crescendo ao longo dos últimos cinco anos, segundo o Índice Anual de Gases do Efeito Estufa (em tradução livre do inglês) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (Noaa, na sigla em inglês).

E, apesar da pandemia, 2020 presenciou o maior salto já registrado em um ano. As causas do recente pico são incertas, mas podem incluir fraturamento hidráulico ("fracking") de gás natural, aumento das emissões de micróbios produtores de metano estimulado pela elevação das temperaturas ou uma combinação de fontes naturais e de origem humana.
Satélites detectaram vazamentos de metano em todo o mundo, incluindo em tubulações de gás em países como o Cazaquistão — Foto: COPERNICUS/KAYRROS
Satélites detectaram vazamentos de metano em todo o mundo, incluindo em tubulações de gás em países como o Cazaquistão — Foto: COPERNICUS/KAYRROS

Tudo isso, segundo os especialistas, enfatiza a necessidade de rastrear e eliminar todos os vazamentos ou fontes que podem ser controlados. Mas o rastreamento das emissões até a sua fonte não é uma tarefa fácil. Os vazamentos muitas vezes são intermitentes e passam facilmente despercebidos. Os sensores terrestres podem detectá-los em áreas locais, mas sua cobertura é limitada. Pesquisas com aviões e drones são caras e demoradas e o acesso aéreo é restrito em boa parte do mundo.É aqui que entra uma sofisticada frota de satélites — alguns lançados recentemente e outros a serem colocados em órbita em breve.

Um conjunto de satélites lançados por agências espaciais nacionais e companhias privadas ao longo dos últimos cinco anos aprimorou nosso conhecimento sobre quais vazamentos de metano estão ocorrendo e onde.

Nos próximos dois anos, novos projetos de satélites estão programados para lançamento — incluindo o Mapeador de Carbono ("Carbon Mapper"), uma parceria público-privada da Califórnia, e o MethaneSAT, uma subsidiária do Fundo de Defesa do Meio Ambiente — que ajudarão a preencher o quadro com alcance e detalhes sem precedentes.

Segundo os especialistas, esses esforços serão fundamentais, não apenas para identificar vazamentos, mas também para desenvolver normas e orientar sua execução, duas medidas seriamente em falta.

"Você não pode reduzir o que não consegue medir", afirma Cassandra Ely, diretora da MethaneSAT.

Satélites mais antigos, como o Gosat, da Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial, lançado em 2009, conseguiam detectar metano, mas sua resolução não era suficiente para identificar as fontes específicas.

Mas a tecnologia espacial agora está avançando rapidamente, ampliando a resolução dos sensores, reduzindo seu tamanho e atingindo uma série de capacidades de ponta. Novos e poderosos olhos nos espaço incluem o Sentinel 5P da Agência Espacial Europeia (lançado em 2017), o Prisma da Agência Espacial Italiana (lançado em 2019) e os sistemas operados pela companhia privada canadense GHGSat (com satélites lançados em 2016, 2020 e 2021).

Companhias como a francesa Kayrros estão usando inteligência artificial para amplificar a formação de imagens via satélite, ao lado de dados aéreos e terrestres, para fornecer relatórios detalhados sobre metano.

No ano passado, satélites "caçadores" de metano fizeram várias descobertas preocupantes. Entre elas: apesar da pandemia, as emissões de metano de operações de petróleo e gás na Rússia aumentaram em 32% em 2020. Os satélites também observaram liberações consideráveis em gasodutos do Turcomenistão, um aterro em Bangladesh, um campo de gás natural no Canadá e em minas de carvão na Bacia dos Apalaches, nos Estados Unidos.

A todo momento, segundo a Kayrros, existem cerca de cem vazamentos de metano em alto volume em todo o mundo, além de uma enorme quantidade de vazamentos menores que aumentam significativamente o volume total. Observar as emissões do espaço em escala global fornece "uma nova e importante ferramenta para combater as mudanças climáticas", segundo a Agência Espacial Europeia.

Agora, o Mapeador de Carbono está desenvolvendo o que promete ser a ferramenta mais precisa e sensível já criada para localizar fontes pontuais. O projeto pretende lançar dois satélites em 2023, aumentando até atingir uma constelação de até 20 satélites que fornecerão monitoramento de metano e CO2 quase constante em todo o mundo.

Os parceiros incluem o Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, o Conselho de Recursos Atmosféricos da Califórnia, a companhia privada de satélites Planet, universidades e organizações sem fins lucrativos, com financiamento de grandes doadores privados, como a Bloomberg Philanthropies.

A inspiração é a atual ausência de monitoramento global, afirma Riley Duren, cientista de sensoriamento remoto da Universidade do Arizona e executivo-chefe do Mapeador de Carbono. "Não há uma única organização que tenha a cultura institucional, a autorização e os recursos necessários para fornecer um sistema de monitoramento operacional para gases do efeito estufa", segundo Duren. "Pelo menos não no prazo necessário." Duren compara o Mapeador de Carbono com o Sistema Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos, pois ele fornecerá um "serviço público essencial" com seu monitoramento contínuo e rotineiro de gases do efeito estufa.
Regiões que não produzem petróleo ou gás também possuem grandes concentrações de metano, potencialmente devido à manutenção das tubulações — Foto: CRÉDITO: COPERNICUS/KAYRROS/US EIA
Regiões que não produzem petróleo ou gás também possuem grandes concentrações de metano, potencialmente devido à manutenção das tubulações — Foto: CRÉDITO: COPERNICUS/KAYRROS/US EIA

O foco principal do projeto é encontrar os superemissores, afirma Duren. Ele e seus colegas conduziram um estudo anterior por meio de pesquisas com aviões sensores de metano em operações de petróleo e gás, aterros, estações de tratamento de esgoto e áreas agrícolas na Califórnia e concluíram que cerca de metade das emissões de metano do Estado vêm de menos de 1% da sua infraestrutura. Os aterros produziram a maior parcela do total das emissões do Estado, segundo a pesquisa, seguidos pela agricultura e, em seguida, por petróleo e gás.

A pesquisa indicou a necessidade de "escalonamento e operacionalização global, indo para o espaço", afirma Duren. Os satélites empregarão espectrômetros de "hiperespectro" projetados pelo Laboratório de Propulsão a Jato, que, segundo o website do projeto, fornecerão "sensibilidade, resolução e versatilidade sem paralelo". Os satélites, do tamanho de frigobares, serão capazes de localizar emissões com precisão de até 30 m, suficiente para identificar o equipamento específico que está causando o vazamento.

Quando forem detectadas emissões, os assinantes de um serviço de alerta rápido serão notificados em até 24 horas pela Planet, uma operadora de satélites privada com sede em San Francisco que construirá e administrará os satélites Mapeadores de Carbono.

Os satélites reforçarão o monitoramento do Conselho de Recursos Atmosféricos da Califórnia com cobertura mais ampla e frequente, afirma John Herner, chefe do programa de monitoramento de emissões do Conselho. O monitoramento agora é feito uma vez por trimestre, segundo ele. Quando a constelação completa de satélites Mapeadores de Carbono for lançada, será feito quase diariamente. "Teremos um controle muito melhor do que está acontecendo [e] quando", afirma Herner, "e poderemos cuidar de eventuais vazamentos com mais rapidez."

Também estará se unindo aos "caçadores" em órbita o satélite MethaneSAT, que varrerá áreas mais amplas — até 200 km por faixa, mas com menor resolução, de 100 m. Este programa utiliza um algoritmo especial que calcula a taxa de fluxo a partir dos dados do satélite. "Por isso, em vez de apenas fotografar, na verdade você consegue um filme", segundo a diretora da MethaneSAT, Cassandra Ely. Isso é inédito em sensoriamento por satélite e um trunfo no rastreamento de plumas sopradas pelo vento até a sua fonte, afirma ela.

O MethaneSAT se concentrará na indústria global de petróleo e gás e pretende ser suficientemente sensível para revelar a enorme quantidade de pequenos vazamentos de metano que podem representar a maioria das emissões, afirma Ely. As descobertas serão fornecidas para operadores da indústria, reguladores, investidores e para o público, quase em tempo real. Os dados, segundo ela, ajudarão a "priorizar o que fizer mais sentido em termos de redução e mitigação das emissões".

Mas, embora a capacidade global de eliminar emissões de metano esteja crescendo, as políticas globais necessárias para fazer algo sobre isso ainda não foram tomadas.

Uma pluma de metano detectada pela Nasa no verão de 2020 identificou uma linha de vazamento de gás na Califórnia. O operador conseguiu confirmar e reparar o vazamento — Foto: NASA/JPL-CALTECH
Uma pluma de metano detectada pela Nasa no verão de 2020 identificou uma linha de vazamento de gás na Califórnia. O operador conseguiu confirmar e reparar o vazamento — Foto: NASA/JPL-CALTECH

Grande parte da abordagem atual de controle de metano depende de ações voluntárias da indústria de petróleo e gás. Os satélites podem ajudar com isso, segundo Shindell, o principal autor do relatório da ONU, e outros, identificando vazamentos que, se estancados, trarão economia ou lucros para essas companhias. "Se você capturar o metano em vez de deixá-lo escapar para a atmosfera, isso será muito útil", afirma Shindell. "Por isso, existe um bom incentivo financeiro para evitar o desperdício."

Mas, se os preços do gás não forem suficientemente altos, os operadores podem achar que as despesas para encontrar, estancar e utilizar emissões fugitivas não valem a pena. "É realmente fundamental ter regulamentações mais rigorosas", afirma Shindell.

As regulamentações sobre as emissões de metano atuais são uma colcha de retalhos de medidas locais e nacionais, com poucos acordos internacionais definindo alvos específicos, segundo indica o relatório da ONU. Nos Estados Unidos, as políticas estaduais variam de controles razoavelmente rigorosos em alguns Estados, como a Califórnia e o Colorado, até pouca implementação no Texas e em outros.

Enquanto isso, a União Europeia está atualmente elaborando novas regulamentações para emissões do setor energético. Mas outros grandes emissores, como a Rússia, quase não têm políticas de restrição de metano em vigor, segundo a análise da Agência Internacional de Energia.

Antecipando-se à conferência sobre mudanças climáticas das Nações Unidas em novembro, a COP26, o Fórum Internacional de Energia lançou este mês o seu Projeto de Metodologia de Medição de Metano, fornecendo aos países membros acesso a dados do satélite Sentinel 5P e análises da Kayrros, para oferecer melhor controle das emissões da indústria energética.

Os dados de satélites poderão fornecer uma ferramenta política útil para forçar os países a coibir suas emissões, segundo os cientistas. Medições precisas dos vazamentos em tubulações russas, por exemplo, poderão permitir que a União Europeia, como importante consumidora de petróleo e gás da Rússia, imponha barreiras tarifárias com base nas emissões na produção e no transporte. Melhor monitoramento poderá também auxiliar em ações recentes de acionistas e juízes obrigando as principais empresas de combustível fóssil a refrear suas emissões de gases do efeito estufa.

Sejam quais forem as medidas que entrarem em vigor, os legisladores e reguladores necessitarão de olhos no espaço para controlar se essas normas estão funcionando, apontar violadores e incentivar mudanças.

Como ressalta Duren, dos Mapeadores de Carbono: "Existem muitas formas de tornar visível o invisível."

Este artigo foi publicado originalmente pela Yale Environment 360 e republicado com autorização. Leia a versão original desta reportagem (em inglês) nos sites Yale e360 e BBC Future.

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