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quarta-feira, 19 de maio de 2021

Vacinas contra Covid-19 só chegarão para todo mundo no fim de 2023 no ritmo atual, calcula editor-chefe da Lancet

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Cientista acredita que ‘luz no fim do túnel’ não deve ficar restrita aos mais ricos e entende que a solução para a pandemia depende de ações globais.
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TOPO
Por André Biernath, BBC

Postado em 19 de maio de 2021 às 13h15m


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Especialista acredita que países mais ricos devem pensar em doar doses excedentes de vacinas contra a Covid-19 para os locais que não têm condições de comprar vacinas por conta própria — Foto: Getty Images via BBC
Especialista acredita que países mais ricos devem pensar em doar doses excedentes de vacinas contra a Covid-19 para os locais que não têm condições de comprar vacinas por conta própria — Foto: Getty Images via BBC

O microbiologista John McConnell tem um privilégio único: ler em primeiríssima mão os estudos que avaliam a segurança e a eficácia das vacinas contra a Covid-19.

O cientista é editor-chefe da The Lancet Infectious Diseases, revista científica que publicou as mais importantes pesquisas sobre a pandemia e os imunizantes nos últimos meses.

Ele é responsável por receber os manuscritos originais, enviados por laboratórios e especialistas de várias partes do mundo, e encaminhá-los para o time de editores independentes, que faz a revisão e a análise do conteúdo antes da divulgação.

Formado em microbiologia clínica e parasitologia pela Universidade East London, na Inglaterra, McConnell atua na The Lancet desde 1990.

Em 2001, ele foi um dos fundadores e logo tornou-se editor-chefe da The Lancet Infectious Diseases, uma revista voltada 100% para as doenças infecciosas.

No final de abril e no começo de maio, o cientista foi convidado para uma série de webinários no Brasil promovidos pela Elsevier, empresa de informação analítica responsável por diversas publicações científicas, incluindo a própria The Lancet.

Numa entrevista à BBC News Brasil feita por e-mail, McConnell avaliou o atual ritmo de vacinação no mundo e destacou que o fim da pandemia está necessariamente vinculado às ações globais.

"Acredito que nós conseguiremos sair juntos dessa pandemia, desde que não percamos o foco. Só assim faremos que a luz no fim do túnel não seja destinada apenas para ricos e afortunados, mas para todos", disse.

Sobre a situação particular do Brasil, o microbiologista entende que nosso país precisa aliar duas estratégias: acelerar a imunização e promover as medidas preventivas.

"As duas ações precisam andar de mãos dadas. Depender inteiramente da vacina significa que o progresso será lento. Precisamos proteger as pessoas por meio de intervenções não farmacológicas, dando-as a oportunidade de serem vacinadas no futuro", analisou.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - Num feito inédito, a humanidade conseguiu desenvolver, testar e aprovar várias vacinas contra uma mesma doença em pouco menos de um ano. Como o senhor avalia esse progresso?

John McConnell - Acho que é o culminar de muitos anos de trabalho no desenvolvimento das tecnologias, o que nos permitiu gerar vários tipos diferentes de vacinas, que agora estão sendo aplicadas em bilhões de pessoas.

Uma dessas tecnologias, que usa vírus inativados, já existe há um século ou mais. A tecnologia que utiliza as chamadas subunidades proteicas é aplicada às vacinas contra a hepatite B, por exemplo, há muitos anos.
Infográfico mostra como funcionam vacinas inativadas contra o coronavírus — Foto: Anderson Cattai/G1
Infográfico mostra como funcionam vacinas inativadas contra o coronavírus — Foto: Anderson Cattai/G1


Infográfico mostra como funcionam vacinas de subunidades de proteínas contra o coronavírus — Foto: Anderson Cattai/G1
Infográfico mostra como funcionam vacinas de subunidades de proteínas contra o coronavírus — Foto: Anderson Cattai/G1

E mesmo as vacinas de vetores virais, como as de Johnson & Johnson e AstraZeneca/Oxford, se valem de uma tecnologia que vem sendo usada em ensaios clínicos há cerca de 20 anos, principalmente em três imunizantes licenciados contra o ebola.
Infográfico mostra como funcionam vacinas de vetor viral contra o coronavírus — Foto: Anderson Cattai/G1
Infográfico mostra como funcionam vacinas de vetor viral contra o coronavírus — Foto: Anderson Cattai/G1

E, embora se acredite amplamente que as vacinas de mRNA, como as de Pfizer/BioNTech e Moderna, são novas e essa é a primeira vez em que se utiliza tal tecnologia, a verdade é que o trabalho de desenvolvimento de produtos semelhantes está em andamento por quase 30 anos.

Antes da Covid-19, havia vacinas em testes clínicos usando a tecnologia de mRNA contra doenças como Aids, zika e raiva, por exemplo.

Portanto, embora as vacinas de Pfizer/BioNTech e Moderna sejam as primeiras a usar essa tecnologia em uma escala muito grande em seres humanos, elas se baseiam em um conhecimento existente e bem testado.
Infográfico mostra como funcionam vacinas de RNA contra o coronavírus — Foto: Anderson Cattai/Arte G1
Infográfico mostra como funcionam vacinas de RNA contra o coronavírus — Foto: Anderson Cattai/Arte G1

Então, de certa forma, tivemos sorte que a pandemia surgiu em um momento em que temos algumas formas muito bem estabelecidas de produzir vacinas, bem como um conjunto de novas tecnologias, para as quais havia um pouco de experiência clínica.

BBC News Brasil - Como o senhor mesmo mencionou, temos diversas plataformas tecnológicas bem-sucedidas neste momento. Qual a importância dessa variedade nos tipos de imunizantes?

McConnell - Nunca foi garantido que uma determinada tecnologia funcionaria, então acho que era muito importante ter uma gama de tentativas diferentes, mesmo que, quando aplicadas na vida real, elas sejam comparáveis ​​em relação à eficácia.

É importante ter vacinas que possam ser distribuídas de diferentes maneiras. Por exemplo, as vacinas de Pfizer/BioNtech e Moderna precisam de uma cadeia de frio para distribuição que requer congelamento, enquanto as vacinas de AstraZeneca/Oxford e Johnson & Johnson requerem apenas geladeiras regulares. Já a vacina da Bharat Biotech pode ser mantida em temperatura ambiente.

Precisamos de uma gama de tecnologias que podem ser levadas para diferentes contextos ao redor do mundo.

Também é importante ter vacinas que possam ser modificadas conforme surgem novas variantes do coronavírus. Algumas das tecnologias são mais facilmente adaptáveis do que as outras.

Devo acrescentar também que, ao usar diferentes formas de produção de vacinas, estamos aproveitando ao máximo as instalações de fabricação disponíveis em todo o mundo. Se dependêssemos apenas da tecnologia de mRNA, não haveria nenhuma maneira de produzir doses suficientes para 2022 ou 2023, mesmo nos países de alta renda.

Se você espalhar as vacinas por diferentes tecnologias, poderá usar a gama de instalações disponíveis em todo o mundo.

BBC News Brasil - E como foi acompanhar tantas novidades e saber, em primeira mão, os resultados de segurança e eficácia das vacinas, que o mundo inteiro aguardava com tanto interesse?

McConnell - É uma grande honra ser o canal através do qual fluem essas pesquisas incrivelmente importantes durante a maior emergência de saúde pública do mundo nos últimos 100 anos.

É um verdadeiro privilégio ver esse material e organizar sua revisão antes da publicação. Sinto-me realmente em uma posição honrada e espero que o que estamos fazendo enquanto editores tenha algum impacto em controlar a pandemia o mais rápido possível.

BBC News Brasil - Em alguns países, como Israel, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido, a campanha de imunização contra a Covid-19 está bem adiantada. O que essa experiência de vida real nos revela sobre a efetividade das vacinas disponíveis?

McConnell - As vacinas parecem ser ainda mais efetivas quando aplicadas a grandes populações do que nos ensaios clínicos. Os dados provenientes de Israel e do Reino Unido mostram cerca de 90% de eficácia na prevenção de todas as formas de Covid-19 para a vacina de Pfizer/BioNTech e algo em torno de 88% para a vacina de AstraZeneca/Oxford.

É bastante encorajador que as vacinas que estão sendo usadas em todo o mundo pareçam ser amplamente eficazes contra as variantes do vírus, particularmente em termos de prevenção de doenças graves e morte, embora não necessariamente previnam a infecção em si.

Se você olhar os gráficos, pode ver o quanto a taxa de novas infecções diminui nas populações que foram vacinadas, em comparação com aquelas que não receberam as doses ainda.

O Chile é um bom exemplo de como as vacinas estão realmente funcionando. Lá está claro que os casos se estabilizaram ou estão diminuindo nos indivíduos que foram vacinados, enquanto continuam a aumentar naqueles que não foram imunizados.

O motivo do aumento de casos, portanto, não é o fato de a vacina eventualmente não estar funcionando, mas porque ela ainda não foi administrada em um número suficiente de pessoas.

BBC News Brasil - Se, por um lado, a campanha deslancha em alguns lugares, outros países estão lidando com a escassez ou a falta absoluta de vacinas. Como o senhor avalia essa desigualdade global?

McConnell - Existe um mecanismo global chamado Covax, que foi projetado para comprar vacinas e distribuí-las a países que não têm condições de financiar seus próprios programas de vacinação.

No atual momento, esse programa foi elaborado para ajudar a vacinar apenas 20% das pessoas nessas nações de baixa e média renda.

Na atual progressão, levará até o final de 2023 para que as vacinas estejam disponíveis para todas as pessoas do mundo.

É imperativo que outros países, quando tiverem vacinado totalmente as suas populações, disponibilizem as doses restantes aos governos que não têm condições de pagá-las.

BBC News Brasil - O senhor acredita que é possível resolver esse problema da desigualdade global?

McConnell - É muito importante que os governos levem em consideração o interesse global para minimizar a quantidade de vírus em circulação em todo o mundo.

Quando os programas de vacinação nesses locais estiverem concluídos, e com o planejamento para os reforços necessários num futuro próximo, os países com estoques remanescentes precisarão considerar seriamente a doação de doses excedentes.

Enquanto o vírus permanecer em circulação, sempre existe a chance de ocorrer uma mutação para a qual alguns imunizantes atuais podem não ser eficazes.

Deixo aqui uma sugestão, sobre a qual não tenho opinião formada ou dados suficientes. Mas será que deveríamos priorizar a vacinação de crianças, que não são particularmente suscetíveis a essa doença e é extremamente improvável que tenham sintomas graves ou morram? Ou deveríamos priorizar os idosos e pessoas vulneráveis ​​dos países de baixa e média renda?

Para encurtar esse prazo de 2023, quando o mundo inteiro estará vacinado segundo as projeções atuais, precisamos nos fazer perguntas sobre nossas prioridades, e não apenas olhar para a realidade interna de nossos próprios países.

BBC News Brasil - Como o senhor vê a situação do Brasil? Nós temos um Programa Nacional de Imunizações reconhecido internacionalmente, mas a campanha contra a Covid-19 avança lentamente…

McConnell - As vacinas parecem ser eficazes contra a variante P.1 e proteger até mesmo contra as formas mais graves da doença. Parece que o número de casos está começando a diminuir no Brasil.

Agora, o único caminho a seguir no Brasil é combinar uma distribuição ampla e rápida da vacina com a continuação das medidas de distanciamento físico. Isso tem se mostrado eficaz tanto em Israel quanto no Reino Unido.

As duas ações precisam andar de mãos dadas. Depender inteiramente da vacina significa que o progresso será lento. Precisamos proteger as pessoas por meio de intervenções não farmacológicas, dando-as a oportunidade de serem vacinadas no futuro.

BBC News Brasil - Mesmo com as primeiras vacinas contra a Covid-19 aprovadas, nós temos uma série de outras candidatas que continuam em estudo. Por que é importante ter mais opções de imunizantes contra a Covid-19?

McConnell - Pois bem, as vacinas que ainda estão em desenvolvimento terão a oportunidade de modificar suas formulações, para que sejam direcionadas contra as novas variedades do coronavírus.

O maior problema é que simplesmente não há vacina suficiente para todos. Atualmente, existem muitas fábricas no mundo que produzem os imunizantes. Se os diferentes países possuem suas próprias instalações de produção de vacinas e podem atender às suas demandas, isso é extremamente importante para controlar a pandemia o mais rápido possível.

Além disso, há também uma questão de preço. Alguns fabricantes, devido ao tipo de tecnologia que estão usando, produziram vacinas muito mais baratas e de distribuição muito mais fácil do que aquelas que foram desenvolvidas pela Pfizer/BioNTech, por exemplo.

Não consigo imaginar como todas as pessoas no mundo serão vacinadas se contarmos apenas com a vacina da Pfizer/BioNTech.

Assim como temos um arsenal muito amplo de antibióticos, por exemplo, acredito que precisamos de um arsenal variado de vacinas.

BBC News Brasil - Como a vacinação ajudará a tirar o mundo desta pandemia? O senhor já vê alguma luz no fim do túnel?

McConnell - Sim, certamente há uma luz no fim do túnel. Para os países que implementaram seu programa de vacinação rapidamente, essa luz está muito forte.

Israel já reabriu completamente e o Reino Unido está a caminho disso. A França teve que introduzir um novo bloqueio, mas a combinação da vacinação com as medidas de restrição está levando esse país a uma posição em que poderá começar a aliviar as políticas em breve.

Até mesmo os Estados Unidos estão virando esse jogo, embora não seja a mesma realidade para todos os estados. No entanto, os locais onde há uma ampla aceitação da vacina e onde as medidas de distanciamento físico têm sido mais rigorosas estão definitivamente evoluindo bem.

Alguns dados publicados pela autoridade de saúde pública na Inglaterra (Public Health England) indicam que quase 70% de todos os doadores de sangue têm anticorpos contra o coronavírus.

Esses 70% são o número estabelecido como a soroprevalência necessária para que exista uma imunidade coletiva. Ainda não podemos traçar uma linha rígida sobre isso, mas acredita-se que essa seja uma taxa importante.

Também sabemos que menos de 20% dessa soroprevalência é causada pela infecção natural. Então, a maior parte disso veio da vacinação.

Ainda precisamos de organização e disponibilidade de uma variedade de vacinas, mas há uma esperança real.

Essa luz ainda está escura para países do Sul da Ásia, como Paquistão, Bangladesh e Nepal, que não têm condições de pagar pelas vacinas. Nessa mesma linha, menos de 2% de toda a população do continente africano já recebeu suas doses. Portanto, algumas partes do mundo estão muito atrasadas.

Acredito que nós conseguiremos sair juntos dessa pandemia, desde que não percamos o foco. Só assim faremos que a luz no fim do túnel não seja destinada apenas para ricos e afortunados, mas para todos.

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Arco de Darwin, formação rochosa em Galápagos, sofre erosão e desmorona

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Processo de desgaste foi natural, diz Ministério do Meio Ambiente. Agora, restam apenas dois pilares.
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Por G1

Postado em 19 de maio de 2021 às 12h05m


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Animação mostra antes e depois do desmoronamento do Arco de Darwin — Foto: Galapagos National Park via AP e Hector Barrera/Ecuador's Ministry of Environment/AFP

O Arco de Darwin, formação rochosa no arquipélago de Galápagos (Equador), sofreu erosão e desmoronou no Oceano Pacífico nesta semana. O fenômeno foi observado por mergulhadores na manhã de segunda-feira (17).

Segundo o Ministério do Meio Ambiente do país, o processo de desgaste foi natural. No lugar do antigo arco, restaram apenas dois pilares.

Ao site do jornal britânico The Guardian, a representante de uma entidade ambiental ressaltou que era impossível evitar o desmoronamento, mas reforçou a importância dos esforços de preservação da natureza local.

"O colapso do arco é um lembrete de como o mundo é frágil. Há muito pouco o que podemos fazer para impedir processos geológicos como a erosão, mas nós temos o dever de proteger as ilhas e sua preciosa vida marinha", afirmou Jen Jones, do "Galápagos Conservation Trust".

Por mais que a área fosse isolada, sem permissão para a entrada de visitantes, atraía a atenção de mergulhadores no entorno. A região é repleta de tubarões, tartarugas e golfinhos.
Após o desmoronamento, restaram apenas dois pilares — Foto: Hector Barrera/Ecuador's Ministry of Environment/AFP
Após o desmoronamento, restaram apenas dois pilares — Foto: Hector Barrera/Ecuador's Ministry of Environment/AFP

Batizada com o nome de Darwin

Arco de Darwin, em foto tirada antes do desmoronamento  — Foto: Galapagos National Park via AP
Arco de Darwin, em foto tirada antes do desmoronamento — Foto: Galapagos National Park via AP

A formação rochosa recebeu este nome depois que o cientista Charles Darwin visitou a Ilha de Galápagos em 1835. Naquela ocasião, ele examinou aves chamadas tentilhões e desenvolveu a famosa teoria de evolução das espécies.

Mais de um século depois, em 1978, a ilha foi declarada Patrimônio Mundial da Unesco, por causa da fauna e da flora da região.

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terça-feira, 18 de maio de 2021

Por que é provável que tenhamos 'contaminado' Marte com vida

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A humanidade enviou cerca de 30 espaçonaves e módulos de aterrisagem a Marte desde o início da era espacial. Agora sabemos quais micróbios poderiam ter sobrevivido à viagem.
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TOPO
Por Christopher Mason*, BBC

Postado em 18 de maio de 2021 às 18h45m


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Será que um rastro de bactéria ou esporo vindo da Terra foi acidentalmente transportado para o espaço e sobreviveu à jornada para fazer do planeta vermelho seu novo lar? — Foto: Nasa/JPL-Caltech
Será que um rastro de bactéria ou esporo vindo da Terra foi acidentalmente transportado para o espaço e sobreviveu à jornada para fazer do planeta vermelho seu novo lar? — Foto: Nasa/JPL-Caltech

O fato de podermos percorrer a superfície de Marte é extraordinário.

O robô Perseverance, que é do tamanho de um carro, pousou em segurança na superfície marciana no dia 18 de fevereiro. Só pode avançar a uma velocidade máxima de 152 metros por hora, mas carrega em si uma série de instrumentos com os quais fez experimentos com resultados revolucionários.

A bordo do robô de três metros de comprimento está uma máquina que converteu o ar marciano (fino e cheio de dióxido de carbono) em oxigênio, bem como um helicóptero que fez o primeiro voo motorizado em outro planeta.

O helicóptero, chamado Ingenuity, fez três voos bem-sucedidos, cobrindo distâncias cada vez maiores.

Mas é possível que algo mais tenha chegado a Marte com todos esses dispositivos? Será que um rastro de bactéria ou esporo vindo da Terra foi acidentalmente transportado para o espaço e sobreviveu à jornada para fazer do planeta vermelho seu novo lar?

'Quase impossível' de evitar

A NASA e seus engenheiros do Jet Propulsion Laboratory (JPL) têm protocolos precisos e abrangentes para garantir que suas espaçonaves estejam livres de quaisquer organismos que possam inadvertidamente entrar em uma missão espacial.

No entanto, dois estudos recentes expõem como alguns organismos podem ter sobrevivido ao processo de limpeza e também à viagem a Marte, bem como a rapidez com que as espécies microbianas podem evoluir no espaço.

Em primeiro lugar, vamos abordar como o Perseverance foi construído, bem como a maioria das espaçonaves fabricadas na Spacecraft Assembly Facility (SAF) do JPL.

As naves são construídas meticulosamente, camada por camada, como uma cebola, e cada parte é limpa e esterilizada antes da montagem. Essa metodologia garante que quase nenhuma bactéria, vírus, fungo ou esporo contamine o equipamento que será enviado em uma missão.
A Nasa tem protocolos rígidos para áreas estéreis que visam minimizar a contaminação biológica de veículos espaciais — Foto: Nasa/JPL-Canaltech
A Nasa tem protocolos rígidos para áreas estéreis que visam minimizar a contaminação biológica de veículos espaciais — Foto: Nasa/JPL-Canaltech

Eles são construídos em salas com filtros de ar e procedimentos de controle biológico rigorosos, projetados de forma a garantir que apenas algumas centenas de partículas possam estar presentes e, idealmente, não mais do que algumas dezenas de esporos por metro quadrado.

Mas é quase impossível ter biomassa zero.

Os micróbios estão na Terra há bilhões de anos e estão em toda parte. Eles são encontrados em nossos corpos e ao nosso redor. Alguns podem se infiltrar até nos lugares mais estéreis.

Como saber?

No passado, os testes de contaminação biológica baseavam-se na capacidade de aumentar a vida (em colheitas) a partir de amostras retiradas de um objeto, como uma nave espacial.

Agora usamos métodos mais novos. Pegamos uma determinada amostra, extraímos todo o DNA e então fazemos uma "abordagem da escopeta" ou sequenciamento shotgun.

O termo é usado porque é como colocar as células da amostra em uma espingarda, "disparando" em bilhões de pequenos pedaços de DNA e, em seguida, sequenciando cada pedaço.

Cada sequência "lida" pode ser atribuída a genomas de espécies conhecidas que já estão presentes em bancos de dados de sequenciamento.

Como agora podemos sequenciar todo o DNA que está presente em ambientes estéreis, e não apenas aqueles que podem ser cultivados, temos uma imagem mais completa de quais tipos de micróbios podem ser encontrados lá e se eles poderiam sobreviver ao vácuo do espaço.

VÍDEO: Helicóptero da Nasa faz primeiro voo em Marte
VÍDEO: Helicóptero da Nasa faz primeiro voo em Marte

Nos ambientes estéreis do JPL, foram encontradas evidências de micróbios que podem ser problemáticos durante as missões espaciais.

Esses organismos possuem um maior número de genes de reparo de DNA, o que lhes confere maior resistência à radiação, são capazes de formar biofilmes (comunidades biológicas com um elevado grau de organização) em superfícies e equipamentos, sobrevivem à dessecação (perda de umidade) e prosperam em ambientes frios.

Acontece que nesses ambientes estéreis um processo de seleção evolucionária pode estar ocorrendo para os insetos mais resistentes que mais tarde teriam uma chance maior de sobreviver a uma viagem a Marte.

A 'poluição interplanetária'

Essas descobertas têm implicações para a chamada "poluição interplanetária" proveniente da Terra.

É importante garantir a segurança e preservação de qualquer vida que possa existir em outras partes do universo, uma vez que organismos vindos de outros ecossistemas podem causar estragos.

Os humanos têm uma história negativa disso em nosso próprio planeta.

A varíola, por exemplo, se espalhou entre os povos indígenas na América do Norte no século 19 por meio de cobertores doados. Mesmo agora, não fomos capazes de conter a rápida disseminação do vírus que causa a covid-19, o SARS-CoV-2.

A contaminação direta também é indesejável do ponto de vista científico.

Os cientistas, se descobrirem qualquer tipo de vida em outro planeta, devem garantir que seja genuinamente nativo e não um falso registro de algo com uma aparência extraterrestre, mas originário da Terra.

É que seus genomas podem mudar tanto que podem parecer ser de outro mundo, como vimos recentemente com os micróbios que evoluíram na Estação Espacial Internacional.

Por que isso seria prejudicial?

Embora a Nasa trabalhe duro para evitar a introdução de tais espécies no solo marciano, qualquer sinal de vida em Marte teria que ser cuidadosamente examinado para garantir que não se originou aqui na Terra.

Não fazer isso pode levar a um mal-entendido sobre as características da vida marciana.

Micróbios transportados para o espaço também podem ser uma preocupação mais imediata para os astronautas, colocando em risco sua saúde. Podem até mesmo fazer com que o equipamento de suporte à vida funcione mal, caso fique cheio de colônias de microrganismos.

Mas a proteção planetária é bidirecional.

Devemos também evitar trazer de volta "poluentes" de outro planeta que possam nos colocar em perigo.

Esta tem sido a base de muitos filmes de ficção científica, onde um malvado invasor "alienígena" ameaça exterminar toda a vida na Terra.

Mas pode se tornar em parte realidade com a missão que a Nasa e a Agência Espacial Europeia planejam enviar a Marte em 2028 e que, se planejada, em 2032 trará de volta as primeiras amostras do planeta vermelho.

No entanto, considerando que as duas primeiras sondas soviéticas pousaram na superfície marciana em 1971, seguidas pela sonda US Viking 1 em 1976, é provável que já existam alguns fragmentos de DNA microbiano, e talvez humano, no planeta vermelho.

Detectar sua origem

Mesmo que o Perseverance, ou as missões que o precederam, tenham acidentalmente levado organismos ou DNA da Terra para Marte, temos maneiras de diferenciá-la de qualquer vida que seja de origem verdadeiramente marciana.

Ocultas na sequência de DNA estarão informações sobre de onde os organismos vieram.

Um projeto em andamento chamado Metasub está sequenciando o DNA encontrado em mais de 100 cidades ao redor do mundo.

Pesquisadores de nosso laboratório, as equipes do Metasub e um grupo na Suíça acabaram de publicar esses e outros dados metagenômicos globais para criar um "índice genético planetário" de todo o DNA sequenciado já observado.

Ao comparar qualquer DNA encontrado em Marte com sequências vistas nos ambientes estéreis do JPL, o mundo subterrâneo, amostras clínicas, esgoto ou a superfície do robô Perseverance antes de deixar a Terra, deve ser possível ver se eles são realmente desconhecidos.

Mesmo que nossa exploração do sistema solar tenha inadvertidamente transportado micróbios para outros planetas, eles provavelmente não são os mesmos de quando deixaram a Terra.

Os ensaios de viagens espaciais e os ambientes incomuns em que estão os fazem evoluir. Se um organismo na Terra se adaptou ao espaço, ou Marte, as ferramentas genéticas à nossa disposição podem nos ajudar a descobrir como e por que os micróbios mudaram.

Na verdade, as novas espécies recentemente descobertas na Estação Espacial Internacional por cientistas do JPL e de nosso laboratório eram semelhantes às encontradas em salas limpas (capazes de suportar altos níveis de radiação).

Um aspecto positivo

À medida que a biologia cada vez mais extrema é registrada em um programa chamado Extreme Microbiome Project, também existe a possibilidade de usar ferramentas evolutivas para trabalhos futuros aqui na Terra.

Podemos usar suas adaptações para buscar novos filtros solares, por exemplo, ou novas enzimas de reparo de DNA que podem nos proteger contra mutações prejudiciais que levam ao câncer, ou ajudar no desenvolvimento de novos medicamentos.

Eventualmente, os humanos colocarão os pés em Marte, levando conosco o coquetel de micróbios que vivem em nossa pele e dentro de nossos corpos.

É provável que esses micróbios também se adaptem, sofram mutações e evoluam.

E também podemos aprender com eles, pois genomas únicos que são adaptados ao ambiente marciano podem ser sequenciados, transmitidos à Terra para posterior esquematização e, então, usados ​​para terapia e pesquisa em ambos os planetas.

Dadas todas as missões marcianas planejadas, estamos à beira de uma nova era de biologia interplanetária, na qual aprenderemos sobre as adaptações de um organismo em um planeta e as aplicaremos em outro.

As lições da evolução e das adaptações genéticas estão inscritas no DNA de cada organismo, e o ambiente marciano não será diferente.

Marte deixará sua marca nos organismos que veremos quando os sequenciarmos, abrindo um novo catálogo de literatura evolucionária.

Isso não apenas alimentará nossa curiosidade, mas é um dever de nossa espécie proteger e preservar todas as outras espécies.

Apenas os humanos entendem a extinção e, portanto, apenas os humanos podem evitá-la.

E isso é verdade hoje, mas será daqui a bilhões de anos, quando os oceanos da Terra começarem a ferver e o planeta ficar quente demais para a existência de vida nele.

Nossa inevitável violação da proteção planetária ocorrerá quando começarmos a nos dirigir a outras estrelas, mas, nesse caso, não teremos outra escolha.

Eventualmente, a poluição interplanetária cuidadosa e responsável é a única maneira de preservar a vida, e é nesta direção que temos de caminhar nos próximos 500 anos.

*Christopher Mason é Professor de Genômica, Fisiologia e Biofísica na Weill Cornell Medicine, Cornell University em Nova York. Ele investiga os efeitos moleculares e genéticos de longo prazo dos voos espaciais humanos, além de tocar um projeto sobre novos tipos de células para a terapia do câncer.

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