Há semanas as autoridades de saúde chinesas vinham repetindo que o
surto causado por uma doença desconhecida estava sob controle — apenas
algumas dezenas de casos ligados a um mercado em que eram vendidos
animais vivos. Naquele momento, entretanto, o vírus já havia ido além da
fronteira da cidade e se espalhado pelo país.
Esta é a história de cinco dias críticos no início do que se tornaria uma pandemia.
Em 30 de dezembro de 2019, muitas pessoas já haviam sido recebidas em
hospitais na cidade de Wuhan com sintomas parecidos: febre alta e
pneumonia. O primeiro caso de que se tem notícia foi de um homem que
tinha por volta de 70 anos, que adoeceu no dia 1º de dezembro.
Naquele momento, muitos dos pacientes estavam direta ou indiretamente
ligados ao mercado de peixes Huanan — o que levou os médicos a
suspeitarem que poderiam estar observando um outro tipo de pneumonia.
Amostras colhidas do pulmão de pessoas infectadas foram então enviadas a
laboratórios de sequenciamento genético para que a causa da doença
fosse identificada. Resultados preliminares indicaram, por sua vez, que
se tratava de um vírus ainda desconhecido, semelhante ao da Sars.
Autoridades de saúde locais e o Centro para Controle de Doenças do país
já haviam sido notificados, mas nada havia sido tornado público.
Hoje acredita-se que já houvesse entre 2,3 mil e 4 mil pessoas infectadas, conforme um modelo matemático desenvolvido pelo MOBS Lab, da Northeastern University, em Boston, nos EUA.
Também é provável que o surto estivesse dobrando seu alcance a cada poucos dias. Epidemiologistas dizem que, no estágio inicial de uma epidemia, cada dia e até mesmo cada hora são críticos.
30 de dezembro de 2019: um alerta
Por volta de 16h do dia 30 de dezembro, a chefe da emergência do
Hospital Central de Wuhan recebeu os resultados dos testes processados
em Pequim pelo laboratório de sequenciamento genético Capital Bio
Medicals.
Ela suava frio ao ler o relatório, conforme relatou posteriormente a uma publicação estatal chinesa.
No
topo, duas palavras alarmantes: "Sars Coronavírus". Ela as circulou em
vermelho e enviou a colegas pelo aplicativo de compartilhamento de
mensagens WeChat (semelhante ao WhatsApp).
Em uma hora e meia, a imagem granulada havia chegado ao médico do
departamento de oftalmologia do hospital Li Wenliang. Ele a dividiu, por
sua vez, com um grupo de colegas da universidade com um aviso: "Não
circulem esta mensagem fora deste grupo. Digam a seus familiares e entes
queridos que tomem precauções".
Pequim tentou acobertar a epidemia de Sars quando ela inicialmente se
espalhou no sul da China entre 2002 e 2003, insistindo que a situação
estava sob controle. A resposta, na época, foi bastante criticada pela
comunidade internacional e chegou a motivar protestos dentro do país.
Entre 2002 e 2004, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) infectou
mais de 8 mil pessoas e matou quase 800 pelo mundo.
Nas horas seguintes, imagens da mensagem de Li acabaram se espalhando
pela web e milhões de pessoas já falavam sobre Sars na China.
O laboratório de sequenciamento havia, entretanto, cometido um erro —
não se tratava da Sars, mas de um novo coronavírus, bastante semelhante.
Notícias sobre um possível surto começaram a circular.
O Comitê de Saúde de Wuhan já estava ciente de que havia algo
acontecendo nos hospitais da cidade. Naquele dia, funcionários da
Comissão Nacional de Saúde chegaram de Pequim e novas amostras foram
enviadas a pelo menos cinco laboratórios públicos em Wuhan e Pequim para
que fossem sequenciados concomitantemente.
Enquanto mensagens sobre um possível retorno da Sars viralizavam no
país, o Comitê de Saúde de Wuhan emitiu ordens aos hospitais
instruindo-os a reportar todos os casos diretamente ao órgão e a não
darem nenhum tipo de declaração sem autorização prévia.
Em 12 minutos, as ordens até então sigilosas foram vazadas online.
O tempo entre a explosão de comentários nas redes sociais chinesas e a
disseminação da notícia no resto do mundo talvez tivesse sido maior, não
fosse pela experiente epidemiologista Marjorie Pollack.
Editora da ProMed-mail, newsletter que costuma emitir alertas globais
sobre surtos de doenças, ela recebeu um e-mail de um contato em Taiwan
perguntando se tinha ouvido algo sobre os rumores que circulavam na
internet na China.
Em fevereiro de 2003, a ProMed havia sido o primeiro veículo a dar a
notícia ao mundo sobre o primeiro surto de Sars. Agora, Pollack sentia
que estava vivendo uma espécie de déjà-vu.
"Minha reação foi: 'Temos um grande problema'", contou à BBC.
Três horas depois, ela havia acabado de escrever um post pedindo a quem
pudesse que ajudasse com mais informações sobre o surto. A mensagem foi
enviada a aproximadamente 80 mil assinantes faltando um minuto para
meia-noite.
31 de Dezembro: cientistas oferecem ajuda
À medida que a notícia começou a se espalhar, o professor George F.
Gao, diretor-geral do Centro para Controle de Doenças da China, passou a
receber ofertas de ajuda vindas dos quatro cantos do mundo.
O país reativou a infraestrutura de combate a doenças infecciosas
montada depois da epidemia de Sars — em 2019, Gao havia prometido que o
amplo sistema de vigilância chinês seria capaz de antever um episódio
como aquele.
Dois dos cientistas que entraram em contato com o professor, entretanto, dizem que o CDC não parecia preocupado.
"Mandei uma mensagem longa a George Gao, me oferecendo para enviar uma
equipe para apoiá-lo em tudo o que precisasse", disse à BBC Peter
Daszak, presidente do grupo de pesquisa EcoHealth Alliance, baseado em
Nova York.
A resposta, contudo, foi breve — apenas para desejar Feliz Ano Novo.
O epidemiologista Ian Lipkin, professor da Universidade de Columbia, em
Nova York, também tentou entrar em contato com Gao — que retornou a
ligação quando Lipkin estava jantando, já próximo da meia-noite. O
relato sobre a conversa dá contorno ao discurso das autoridades chinesas
naquele momento crítico.
"Ele
disse que tinha identificado o vírus. Era um novo coronavírus. E não
era altamente transmissível. Isso não fazia muito sentido para mim
porque já tinha ouvido que muitas, muitas pessoas haviam sido
infectadas."
"Não acho que ele estava sendo dúbio, acho que ele estava apenas errado", afirma o epidemiologista.
Para o americano, o colega chinês deveria ter compartilhado naquele
momento os sequenciamentos genéticos que já tinha obtido. "Na minha
visão, seria preciso divulgar. É algo muito importante para hesitação."
Gao, que recusou os pedidos de entrevista para esta reportagem,
declarou à imprensa chinesa que os sequenciamentos foram divulgados
assim que possível, e que ele nunca afirmara publicamente que não havia
transmissão de humano para humano.
Naquele dia, o Comitê de Saúde de Wuhan publicou um comunicado em que
informava sobre 27 casos de pneumonia viral identificados na região, sem
evidência clara, entretanto, de que houvesse transmissão entre seres
humanos.
Seriam necessários mais 12 dias até que a China compartilhasse o
sequenciamento genético do patógeno com a comunidade internacional.
O governo chinês recusou vários pedidos de entrevista da BBC para
comentar o assunto. Em posicionamentos enviados por escrito, afirmou que
a China "sempre havia agido de forma aberta, transparente, com
responsabilidade e celeridade" no combate à Covid-19.
1º de janeiro de 2020: frustração internacional
A lei internacional estipula que surtos de doenças infecciosas que
possam gerar preocupação global devem ser reportados à Organização
Mundial de Saúde (OMS) em até 24 horas.
No dia 1º de janeiro, entretanto, a OMS ainda não havia sido notificada sobre o que ocorria na China.
No dia anterior, membros da organização haviam visto a publicação da
ProMed, além de algumas informações na internet, e resolveram entrar em
contato com a Comissão Nacional de Saúde do país.
"Era para ter sido reportado", diz Lawrence Gostin, professor do
O'Neill Institute for National and Global Health Law da Universidade de
Georgetown, nos EUA, e colaborador da OMS.
"A falha em reportar (o surto) foi claramente uma violação do
Regulamento Sanitário Internacional (International Health Regulations)."
A epidemiologista Maria Van Kerkhove, que se tornaria uma das
principais líderes técnicas da OMS no combate à pandemia, participou da
primeira de muitas reuniões à distância no meio da noite em 1º de
janeiro.
"Nós tínhamos uma suspeita inicial de que pudesse ser um novo
coronavírus. Para nós, não era uma questão de se havia ou não
transmissão de humano para humano, mas qual era a extensão naquele
momento e onde estava acontecendo."
Dois dias depois, as autoridades chinesas responderam à OMS. O retorno,
entretanto, foi vago — de que haviam sido registrados 44 casos de uma
pneumonia viral de causa desconhecida.
A China afirma ter se comunicado regularmente com a OMS a partir do dia
3 de janeiro. Mas registros de reuniões internas da organização obtidas
pela agência de notícias Associated Press (AP) e compartilhadas com a
BBC mostram uma realidade diferente e revelam a frustração de
funcionários de alto escalão da OMS na semana seguinte.
"Dizer
que 'não há evidência de transmissão de humano para humano' não é
suficiente. Precisamos ver os dados", diz, segundo os registros, Mike
Ryan, diretor de emergências da OMS.
A organização era legalmente obrigada a reproduzir as informações
fornecidas pela China. Ainda que houvesse suspeita de transmissão entre
humanos, a OMS só conseguiria confirmá-la três semanas depois.
"Essas preocupações nunca foram expressas publicamente. Eles apenas
reproduziram as informações dadas pela China", diz o repórter da AP Dake
Kang.
"No fim do dia, a impressão com que o mundo ficou foi aquela que as
autoridades chinesas queriam, de que tudo estava sob controle. E é claro
que não estava."
2 de janeiro: médicos silenciados
O número de infectados dobrava a cada poucos dias, e cada vez mais pessoas procuravam os hospitais de Wuhan.
Neste momento, em vez de abrir espaço para que os médicos
compartilhassem suas preocupações, a imprensa estatal deu início a uma
campanha para silenciar os profissionais de saúde.
No dia 2 de janeiro, a emissora estatal Televisão Central da China
(CCTV) veiculou uma reportagem sobre os médicos que haviam falado sobre o
surto quatro dias antes, retratando-os como "usuários da internet" que
haviam "espalhado rumores".
Em seguida, os profissionais foram chamados pela Secretaria de
Segurança Pública de Wuhan para prestar depoimento e foram "tratados de
acordo com a lei", segundo as autoridades.
Um dos médicos era Li Wenliang, o oftalmologista cujo relato havia
viralizado, que chegou a assinar uma confissão. Em fevereiro, ele morreu
de Covid-19.
O governo chinês afirma que isso não chega a ser indicativo de que
estava tentando suprimir as notícias sobre o surto, e que pedia apenas a
médicos como Li que não espalhassem informações ainda não confirmadas.
Mas o impacto da postura das autoridades chinesas foi significativo.
Enquanto ficava cada vez mais aparente para os médicos que havia, de
fato, transmissão entre humanos da doença, eles eram impedidos de se
manifestar publicamente.
Um profissional da saúde que trabalhava na mesma unidade que Li, o
Hospital Central de Wuhan, disse à reportagem que, nos dias seguintes,
"havia muitas pessoas com febre".
"Estava fora de controle. Entramos em pânico, mas o hospital nos disse que não tínhamos autorização para falar com ninguém."
Segundo o governo chinês, "é preciso seguir um rigoroso processo
científico para determinar se um vírus pode ser transmitido de pessoa
para pessoa".
As autoridades seguiriam afirmando que não havia transmissão entre seres humanos por outros 18 dias.
3 de janeiro: o memorando sigiloso
Laboratórios em todo país estavam em uma corrida contra o tempo para
fazer o sequenciamento completo do genoma do vírus. Entre eles, estava
um renomado virologista de Xangai, Zhang Yongzhen, que começou o
sequenciamento no dia 3 de janeiro.
Depois de trabalhar por dois dias consecutivos, ele obteve um genoma
completo. Os resultados revelavam um vírus semelhante ao da Sars e,
portanto, provavelmente transmissível.
No dia 5 de janeiro, o escritório de Zhang escreveu à Comissão Nacional
de Saúde recomendando a tomada de medidas de precaução em espaços
públicos.
"Naquele mesmo dia, ele estava trabalhando para ter os dados prontos
assim que possível, para que o resto do mundo pudesse saber do que se
tratava e avançássemos no diagnóstico", afirma Edward Holmes,
virologista e biólogo evolutivo da Universidade de Sidney, na Austrália,
que trabalha com Zhang.
Mas Zhang não conseguia tornar seus achados públicos. No dia 3 de
janeiro, a Comissão Nacional de Saúde havia enviado um memorando
sigiloso aos laboratórios proibindo que cientistas sem autorização
analisassem o vírus e divulgassem informações.
"Isso acabou silenciando cientistas e laboratórios, que não puderam
investigar o vírus — sob o risco de que suas análises vazassem para o
mundo externo e alarmassem as pessoas", diz o jornalista da AP Dake
Kang.
Nenhum laboratório veio a público anunciar o sequenciamento do genoma
do vírus. As autoridades continuaram afirmando que se tratava de uma
pneumonia viral sem evidência clara de transmissão entre humanos.
Apenas seis dias depois divulgariam que o patógeno era um novo
coronavírus, e, mesmo naquele momento, não compartilhariam nenhum
sequenciamento genético — o que impediu que outros países analisassem os
dados e pudessem começar a mapear a disseminação do vírus em seus
territórios.
Três dias depois, em 11 de janeiro, Zhang toma uma decisão que o coloca
em risco, mas acaba pondo um fim no impasse. Enquanto embarcava em um
voo entre Pequim e Xangai, ele autoriza o colega australiano Edward
Holmes a divulgar o sequenciamento que havia feito.
No dia seguinte, o laboratório de Zhang foi fechado para "retificação" —
mas, a partir daquele momento, outros cientistas também decidiriam
tornar públicos seus achados.
A comunidade científica internacional entrou em ação, e um kit para teste de diagnóstico estaria pronto no dia 13 de janeiro.
Apesar das evidências coletadas por médicos e cientistas, a China não
confirmaria que havia de fato transmissão entre humanos da doença até o
dia 20 de janeiro.
No começo, todo surto epidêmico é caótico, diz o especialista em saúde Lawrence Gostin.
"Seria
difícil de qualquer forma controlar o vírus, desde o dia 1. Mas, no
momento em que fomos informados de que ele era transmissível entre
humanos, a vaca já tinha ido para o brejo, o vírus já tinha se
espalhado."
"Essa foi uma oportunidade que tivemos (de tentar controlar a disseminação) e que perdemos", acrescenta.
Para o virologista que pesquisa morcegos Wang Linfa, da Escola de
Medicina Duke-Nus, em Singapura, "antes do dia 20, a China poderia ter
feito muito mais".
"Depois disso, o resto do mundo deveria estar de fato em estado de alerta e ter combatido melhor o vírus."
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