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domingo, 19 de maio de 2019

O discurso escrito em caso de tragédia e outras 5 curiosidades sobre a missão que levou o homem à Lua

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Há 50 anos, um sonho de longa data foi realizado: chegar e voltar da Lua, aquele satélite tão familiar, mas tão desconhecido - uma história que tem muitos detalhes interessantes.
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Por BBC 

Postado em 19 de maio de 2019 às 21h40m 
GIPOPE - GARIBA'S Logística for 2012 - 2013


Astronauta Neil Armstrong na Lua — Foto: Divulgação/Nasa


"Decidimos ir à Lua não porque é fácil, mas porque é difícil", disse o ex-presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy (1917-1963) em setembro de 1962. A frase ficou na memória de várias gerações em relação ao evento histórico.

Mas a meta vinha acompanhada de um prazo: levar um homem à Lua e trazê-lo de volta à Terra até o fim da década.

Kennedy foi assassinado no ano seguinte e nunca chegou a saber se seu país ganhou a corrida espacial contra sua rival, a União Soviética, que já havia realizado dois feitos ao colocar em órbita o primeiro satélite, o Sputnik, em 1957, e ao mandar o primeiro homem ao espaço, Yuri Gagarin, em 12 de abril de 1961.
Em plena Guerra Fria, os Estados Unidos precisavam que seu primeiro passo nesse sentido fosse de uma magnitude igual aos de Moscou.

Pouco antes do prazo estabelecido por Kennedy expirar, a Nasa conseguiu: em 20 de julho de 1969, o astronauta Neil Armstrong (1930-2012) fez história ao se tornar o primeiro homem a pisar na Lua.
A frase que pronunciou ao colocar o pé esquerdo sobre a superfície do satélite natural da Terra se tornou uma das mais conhecidas na história: "Este é um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade".
Mas Armstrong não estava só. Na arriscada missão Apollo 11, estava acompanhado por Michael Collins e Edwin "Buzz" Aldrin.

Ainda que Collins não estivesse no módulo que aterrissou na Lua - só havia espaço para dois astronautas -, Aldrin, o piloto, estava ao lado de Armstrong e também desceu para admirar a paisagem. Mas o que ele disse ao pisar na Lua?

Esse é um dos detalhes não tão conhecidos da missão que completa 50 anos neste ano e que foi a realização de um sonho alimentado pelo homem desde o início dos tempos.

1. Envelopes assinados pelos astronautas
Apesar dos seguros terem sido criados para indenizar aqueles que se arriscavam a empreender viagens pelos mares do mundo, as empresas seguradoras resistiram a prestar seus serviços a outro tipo de viajante, o do espaço. Esta aventura lhes pareceu perigosa demais.

A Nasa deu aos astronautas um seguro de vida básico, mas Armstrong, Aldrin e Collins continuavam preocupados com o futuro de suas famílias caso ocorresse um desastre.

Eles assinaram então envelopes comemorativos da missão, adornados com imagens e selos sobre a Apollo 11. Assim, se morressem, suas famílias poderiam vendê-los a colecionadores.
Agência espacial pretende mandar novamente homem à Lua — Foto: NASAAgência espacial pretende mandar novamente homem à Lua — Foto: NASA

2. Um discurso para o caso de desastre
Os astronautas não foram os únicos a se planejar para o pior. Se tudo falhasse, quem deveria comunicar isso ao mundo seria o presidente americano na época, Richard Nixon (1913-1994) - e não seria um bom momento para improvisar.

O responsável pelos discursos presidenciais, Bill Safire (1929-2009), preparou o texto que ninguém queria escutar, lamentando a morte de Armstrong e Aldrin caso eles ficassem presos na Lua. Safire havia falado com a Nasa e sabia que havia uma boa chance de que isso ocorresse.
O texto "Em caso de desastre lunar" usa palavras edificantes para elogiar a valentia o sacrifício e o espírito explorador dos astronautas.

"O destino quis que os homens que foram à Lua para explorar em paz fiquem na Lua para descansar em paz.

Esses bravos homens, Neil Armstrong e Edwin Aldrin, sabem que não há esperança de sua recuperação. Mas eles também sabem que há esperança para a humanidade em seu sacrifício.
Esses dois homens estão dedicando suas vidas ao objetivo mais nobre da humanidade: a busca da verdade e da compreensão.

Eles serão lamentados por suas famílias e amigos; eles serão lamentados pela nação; eles serão lamentados pelas pessoas do mundo; eles serão lamentados por uma Mãe Terra que ousou enviar dois de seus filhos para o desconhecido.

Em sua exploração, eles levaram as pessoas do mundo a se sentirem como uma só; em seu sacrifício, eles fortaleceram os laços da irmandade humana.

Nos dias antigos, os homens olhavam para as estrelas e viam seus heróis nas constelações. Nos tempos modernos, fazemos o mesmo, mas nossos heróis são homens épicos de carne e osso.

Outros os seguirão e certamente encontrarão o caminho de casa. A busca do homem não será negada. Mas estes homens foram os primeiros, e permanecerão em nossos corações.

Todo ser humano que olhar para a Lua nas noites por vir saberá que há algum canto de outro mundo que é para sempre da humanidade."

3. Uma bomba nuclear a bordo
O foguete Saturn 5 levou a Apollo 11 ao espaço. Era tão poderoso que equivalia a pilotar uma bomba nuclear.

Pesava mais de 2,8 milhões de quilos. Com 111 metros de altura, superava em 18 metros a Estátua da Liberdade. Funcionava em três etapas, e cada uma se separava da nave depois de realizar seu trabalho.
O foguete gerava 34,5 milhões de newtons de empuxo no lançamento. Um newton é a força necessária para proporcionar uma aceleração de 1 m/s² a um objeto de 1 kg de massa.

Devido ao calor que produzia, exigiu uma zona de exclusão de 5 km ao redor da plataforma de lançamento. A distância era tal que os espectadores só escutaram seus motores funcionando 15 segundos depois - para eles, era como se a Apollo 11 tivesse decolado em silêncio.

4. Um foguete criado por um cientista que foi ligado ao nazismo
O diretor do Centro Marshall de voos espaciais, a sede original da Nasa, era o professor Wernher Von Braun (1912-1977), um ex-cientista nazista e o cérebro por trás do Saturn 5.

O foguete se baseava em uma tecnologia que Von Braun havia desenvolvido para o programa de foguetes V-2 de Adolf Hitler (1889-1945) durante a Segunda Guerra Mundial.

Mais tarde, já como cidadão americano, Von Braun se tornou dos físicos e engenheiros do Terceiro Reich que trabalharam para a Nasa.
Ele era conhecido por sua cuidadosa abordagem científica, mas, no entanto, alguns críticos diziam que era cauteloso demais e o culpavam pelo fato de os soviéticos terem levado um homem ao espaço primeiro.

5. Fogo na Lua
Quem melhor para cobrir a maior notícia da década - ou, dependendo do ponto de vista, do século - que não um dos mais famosos escritores americanos, Norman Mailer (1923-2007)?

Não só era um grande nome do jornalismo literário, mas também havia estudado engenharia aeroespacial na Universidade Harvard.

A revista o contratou e o enviou a Houston e a Cabo Canaveral para que testemunhasse o voo da Apollo 11 e escrevesse sobre o acontecimento inédito.

Mailer chegou com a expectativa de se ver em meio a um ambiente de emoção e magia. No entanto, enquanto perambulava pelo Centro de Naves Espaciais Tripuladas, a Nasa lhe pareceu um lugar estéril e pouco inspirador.

Em escritórios sem janelas, as pessoas comiam olhando para telas de computador. Pareciam estar apaixonadas pelas máquinas, aos olhos de Mailer, que imaginou um futuro em que tudo seria feito digitalmente, até mesmo se relacionar romanticamente com outra pessoa. Mesmo assim, foi tomado pela emoção do acontecimento.

"Todo o mundo de preparou para presenciar o grande final da semana mais importante desde o nascimento de Jesus Cristo (...)
Através da eletricidade estática dos alto-falantes, chegavam frases soltas.

'A águia está ótima, está tudo bem', chegou aos ouvidos, junto com dados sobre a altitude.
'Tudo pronto para o desembarque, fim!'
'Tudo bem, tudo pronto para o desembarque, 900 metros'.

Assim (...), eles se prepararam para entrar pelo funil de um evento histórico cuja importância poderia igualar a da morte (...)
É também assim a experiência de estar prestes a nascer? Você aguardava um em uma sala moderna, entre estranhos, enquanto números eram anunciados?: 'Alma número 77-48-16, pronto, vá para a área CX, será concebida em 16,04 horas' (...)
-'Houston, aqui a base Tranquilidade. A águia pousou.

Era a voz de Armstrong, a voz serena do maior garoto da cidade, aquele que te puxa para fora do mar quando você está se afogando e foge antes que você possa oferecer uma recompensa.
(...)

A Lua falava de buracos, torturas, cicatrizes, queimaduras e fusões de magma fervente.
Massacrada, desmembrada, esquartejada, torcida, espancada, uma terra de desertos na forma de círculos de 80 e até 130 quilômetros de diâmetro, uma terra de anéis montanhosos, alguns mais altos do que o Himalaia, uma terra de recessos ocos e crateras sem fim, crateras dentro de crateras, que, por sua vez, residiam dentro de outras crateras ...".

Essas são algumas das 115 mil palavras registradas no livro De um Fogo na Lua, publicado em três edições da revista Life, entre 1969 e 1970, e mais tarde publicado como livro.

6. A segunda pisada
Em 21 de julho, às 05h56 do horario de Brasília, Armstrong se tornou o primeiro homem a caminhar sobre a Lua.

Enquanto o astronauta pronunciava as palavras cuidadosamente escolhidas pela Nasa que fizeram história, Aldrin o filmava a partir do módulo lunar. Após 19 minutos, ele se juntou a Armstrong na superfície do satélite.

Fechou a porta da cabine com cuidado e contemplou a paisagem cinza e branca. Estavam a 380 mil km de distância da Terra, que se parecia com uma bola de gude. "Bela vista", disse Aldrin. Logo Armstrong concordou e acrescentou: "Magnífica desolação".
Mas o que disse o terceiro homem a pisar na Lua?
"Uhuuuu! Cara, esse pode ter sido um pequeno passo para Neil, mas foi um grande passo para mim", falou Charles Conrad Jr. (1930-1999), comandante da missão Apollo 12, em 20 de novembro de 1969.
Buzz Aldrin na Lua em 1969 — Foto: Nasa/Divulgação 
Buzz Aldrin na Lua em 1969 — Foto: Nasa/Divulgação

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Elas poderiam resistir em Marte e viver por 32 mil anos: conheça as plantas mais fortes do mundo

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Em face à mudança climática, cientistas estão tentando descobrir as espécies mais resilientes.
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Por BBC 

Postado em 19 de maio de 2019 às 11h00m 
GIPOPE - GARIBA'S Logística for 2012 - 2013

Pesquisadores recriaram as condições do "planeta vermelho", incluindo a radiação solar escaldante, temperaturas flutuantes, secura extrema e baixa atmosférica - para testar se essas resistentes plantas primitivas — Foto: PixabayPesquisadores recriaram as condições do "planeta vermelho", incluindo a radiação solar escaldante, temperaturas flutuantes, secura extrema e baixa atmosférica - para testar se essas resistentes plantas primitivas — Foto: Pixabay

Algumas plantas são tão resistentes que poderiam sobreviver com quase nenhum oxigênio ou nas temperaturas mais extremas.

Essa proeza atraiu cientistas dispostos a explorar como a mudança climática afetará nossa capacidade de cultivar alimentos e como as plantações podem se adaptar a novas condições.

Mas o que faz uma planta ter mais chance de sobreviver do que outra?
James Wong, botânico e apresentador da BBC, embarcou em uma jornada para encontrar a resposta. Neste processo, ele descobriu fatos estranhos e surpreendentes sobre algumas das plantas mais resistentes do nosso planeta.

1 - Vegetação antiga poderia prosperar em Marte
Cientistas na Alemanha acreditam ter identificado dois tipos de plantas resistentes o suficiente para sobreviver em Marte.

Não é de se surpreender que suas principais escolhas - líquens e cianobactérias, coletadas da Suíça e da Antártida - sejam consideradas algumas das primeiras espécies a colonizar a terra.

Os pesquisadores recriaram as condições do "planeta vermelho" - incluindo a radiação solar escaldante, temperaturas flutuantes, secura extrema e baixa atmosférica - para testar se essas resistentes plantas primitivas conseguiriam permanecer vivas.

O resultado? Estas espécies não só sobreviveram, como prosperaram: continuando a fazer fotossíntese e outros processos regulares de plantas.

2 - Clonagem é o segredo para longevidade
Acredita-se que a árvore individual viva mais antiga seja um pinheiro bristlecone no leste da Califórnia, identificada com 5.062 anos em 2012.

Mas, para alcançar uma longevidade ainda maior, algumas árvores têm um truque na manga: a clonagem.

Sim, eles se clonam e vivem no que chamamos de colônias clonais: árvores geneticamente idênticas que estão conectadas pelo mesmo sistema de raízes.

Essas colônias clonais podem sobreviver por milhares de anos - estima-se que a colônia Pando no Estado americano de Utah tenha 80 mil anos, enquanto o carvalho Jurupa, na Califórnia, tenha por volta de 13 mil anos.

3 - 'Pedras vivas' poderiam criar lavouras mais eficientes
Os lithops também são conhecidos como "pedras vivas" - basta olhar para um para entender o motivo: se parecem mais com pedras do que com uma criatura viva.

Mas esses incríveis organismos nativos do sul da África são, na verdade, plantas disfarçadas... e podem ser o segredo para lavouras mais eficientes.
Lithops também são conhecidos como "pedras vivas"  — Foto: PixabayLithops também são conhecidos como "pedras vivas" — Foto: Pixabay

Estas plantas são capazes de sobreviver em condições extremas no deserto e em terrenos rochosos, usando a camuflagem para evitar que sejam devoradas.

Embora cresçam principalmente no subsolo, os lithops têm uma camada superior translúcida para permitir a entrada da luz solar, que depois transformam em energia.

Os pesquisadores esperam que compreender a capacidade dos lithops de aproveitar tanto a luz brilhante acima do solo quanto a pouca luz abaixo dele pode nos ajudar a desenvolver plantações mais eficientes no futuro.

4 - A mudança climática poderia substituir café por cacau
Os aumentos na temperatura ameaçam matar os grãos de café mais comuns, mas um fruto mais resistente está pronto para substituí-lo: o cacau.

Os cientistas documentaram como a variedade de café arábica sofre em climas mais quentes e se torna mais suscetível à ferrugem - doença que vem dizimando os cafezais na América Central nos últimos anos.

À medida que as temperaturas aumentam, as plantações mais rasteiras estão encontrando dificuldades para produzir café de qualidade, ameaçando a subsistência de milhares de pessoas.

Assim, agricultores na Nicarágua, Honduras e El Salvador já estão passando a cultivar cacau - uma cultura resistente que prospera em climas quentes.

Não se surpreenda, portanto, se o seu café matinal for substituído por uma dose de chocolate quente dentro de alguns anos.

5 - Algumas árvores proliferam com incêndio florestal
Os eucaliptos não são apenas resistentes - podem ser perigosos também.

Eles pertencem a um tipo de planta chamada pirófitos - que se adaptaram para tolerar o fogo e, às vezes, até precisam dele para se propagar e sobreviver.

Elas produzem óleo e resinas inflamáveis ​, além de soltar folhas e cascas secas que podem pegar fogo facilmente causando incêndios florestais devastadores.

Quando o fogo começa, árvores como o eucalipto ou certos pinheiros proliferam.
Os eucaliptos não são apenas resistentes, podem ser perigosos por pegar fogo facilmente — Foto: PixabayOs eucaliptos não são apenas resistentes, podem ser perigosos por pegar fogo facilmente — Foto: Pixabay

O calor ativa suas vagens de sementes e, enquanto outras plantas lutam para se regenerar, seus brotos crescem no solo carbonizado.

Além disso, a queima da maioria das árvores grandes significa que esses brotos podem se beneficiar da luz solar extra agora disponível no solo da floresta.

6 - Plantas podem se adaptar a acidentes nucleares
A radiação perturba as células vivas e danifica o DNA, então, você pode pensar que seria impossível para as plantas sobreviverem após um acidente nuclear.

Mas os cientistas que investigaram os efeitos do desastre de Chernobyl em 1986 descobriram que nem sempre é o caso.

Ao realizar experimentos com linhaça e soja, eles constataram que as plantas foram capazes de adaptar sua biologia para prosperar no ambiente contaminado.

Os pesquisadores acreditam que essa capacidade de receber radiação nuclear pode ter se desenvolvido milhões de anos atrás, quando o planeta tinha níveis naturais de radiação muito mais altos.

7 - Sementes podem sobreviver por 32 mil anos
Pesquisadores russos "reviveram" uma planta extinta há muito tempo, usando sementes enterradas por um esquilo há 32 mil anos, durante a Era do Gelo.

As sementes da espécie Silene stenophylla, planta com flor que se adapta bem a climas frios, foram encontradas na margem congelada de um rio na Sibéria.

Os cientistas coletaram tecido das sementes e usaram para germinar novas plantas, que depois se reproduziram por conta própria.

Especialistas esperam que esta seja a primeira de muitas espécies de plantas extintas a serem "ressuscitadas" a partir de restos armazenados no permafrost (superfície que permanece congelada nas regiões polares).

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    sábado, 18 de maio de 2019

    Cidades enfrentam o desafio do planejamento

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    Por Amelia Gonzalez 
    Escreve sobre sustentabilidade e debate temas ligados a economia, meio ambiente e sociedade 
    G1 


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    Chicago está entre as cidades que já começam a levar em conta o zoneamento integrado — Foto: PixabayChicago está entre as cidades que já começam a levar em conta o zoneamento integrado — Foto: Pixabay

    A caminho do local onde eu tinha marcado para encontrar Ilan Cuperstein, diretor regional da organização de cidades C40, um mega condomínio está acabando de ficar pronto. Chamou minha atenção porque é bonito, e pela quantidade de apartamentos que possui. Eu estava a pé e fiquei imaginando: quando tudo estiver habitado, quantas pessoas a mais estarão circulando por aquela rua de Botafogo, já tão superlotada? Quantos carros a mais? E a rede de esgoto, terá capacidade? Haverá coleta consciente dos resíduos?

    Toquei nesse assunto durante a entrevista com Ilan e fiquei sabendo, por ele, que já existem cidades no mundo com um zoneamento integrado. É o que seria preciso para que uma estrutura daquela envergadura não causasse tanto impacto negativo numa região já tão populosa. Portland, Chicago, Cidade do Cabo, Buenos Aires, já começam a levar em conta este planejamento, necessário para que o espaço urbano não expulse as pessoas mais do que as agregue.

    O Rio de Janeiro, infelizmente, não tem isso. E vamos continuar a lidar com os excessos – de carros, de prédios, de poluição, de resíduos, de caos no trânsito – até que a questão do ambiente em torno passe a ter peso; que a especulação imobiliária encontre limites em políticas públicas, como já acontece em outras cidades. Não se trata de limitar o número de habitantes em cada cidade, mas de organizar a região urbana para que se tenha qualidade de vida.

    Seguimos conversando sobre este e outros tantos aspectos deste imenso desafio que são as cidades, onde mais da metade da população mundial decidiu morar, não por acaso. O C40 é uma organização híbrida que recebe doações de instituições filantrópicas. “É uma rede de cidades para cidades”, explica-me Cuperstein. Seu maior desafio, e o maior ganho para as cidades que dela fazem parte – hoje são 94, e o Rio de Janeiro está entre elas – é possibilitar aos prefeitos que troquem informações, aprendam uns com os outros.
    Abaixo, a íntegra de nossa conversa:

    O que são as cidades C40?
    Ilan Cuperstein – A ideia é que elas sejam líderes na luta contra as mudanças climáticas ou a favor de ações climáticas, tanto na mitigação quanto na adaptação. É uma rede que tanto apoia o intercâmbio de informações entre elas quanto, hoje, também oferece apoio técnico para alguns projetos. A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, atual presidente da C40, fez uma série de ações ambiciosas, entre elas tornar o centro da cidade livre de combustível a diesel. Em tudo isso, o C40 ajuda.

    O Rio de Janeiro faz parte da C40, o ex-prefeito Eduardo Paes chegou a ser presidente até 2017. A cidade pode ser líder em mitigação ou preservação?
    Ilan Cuperstein – O Rio fechou, em 2012, o maior aterro sanitário da América Latina, em Jardim Gramacho e construiu o de Seropédica, que é um centro de referência (houve um entrave da atual prefeitura para levar adiante o projeto). As ciclovias também foram uma boa ação: hoje o Rio está entre as cinco cidades da América Latina com maior rede de ciclovias.

    Os BRTs desafogaram o trânsito e estão permitindo que muitos moradores da Zona Oeste tenham duas horas a mais do dia, antes perdidas em trânsito. Isto é inclusão social. Na questão das chuvas, sim, o Rio precisa avançar e muito, na adaptação. Mas, em termos de resposta, a cidade já melhorou bastante, com a equipe do Centro de Operações do Rio (estou falando das sirenes espalhadas nas comunidades e da quantidade de dados). Mesmo com isso tudo, o caso é que a questão ambiental precisa aparecer como demanda.
    O Rio de Janeiro faz parte da C40 — Foto: PixabayO Rio de Janeiro faz parte da C40 — Foto: Pixabay

    Isto ainda é difícil, né? Há uma distância – e aí já estou falando em termos mundiais também – entre tudo o que se resolve sobre o meio ambiente em encontros, fóruns, reuniões e o que verdadeiramente é feito para melhorar a vida dos cidadãos nas cidades.
    Ilan Cuperstein – Ainda tem muitos que consideram a questão ambiental como um entrave ao desenvolvimento. Mas, na verdade, se não se cuidar do meio ambiente a região não vai se desenvolver. E as cidades, neste sentido, têm desempenhado um papel de liderança. Quem está na ponta são os prefeitos, eles são cobrados.

    Fazemos pesquisas com o que chamamos de "cobenefícios", ou seja, como as ações climáticas devem caminhar junto com os benefícios sociais. Por exemplo: se você muda os motores de ônibus numa cidade, quantos atendimentos deixa de fazer nos hospitais, com pessoas que chegam lá por causa de doenças provocadas pela má qualidade do ar?

    O que é uma cidade sustentável?
    Ilan Cuperstein – A C40 não trabalha com esta definição. Pensamos sempre em qual o grande projeto que pode colocar as cidades numa posição ambiciosa? Existe, por exemplo, um Compromisso Prazo 2020, que foi assinado por prefeitos de 72 cidades comprometendo-se a fazer um plano de ação climática, que depois vai ser implementado, para botar as cidades numa rota para zero emissões líquidas até 2050.

    Até 2020 tem que ter o plano, e a gente na verdade verifica se os planos de fato levam à neutralidade em emissões. Por exemplo: mudar a rota de desenvolvimento urbano, eletrificar todo o transporte, ou diminuir o resíduo que vai para o aterro a zero.

    O Rio assinou este Compromisso? E já entregou o Plano?
    Ilan Cuperstein - Sim, assinou em 2017, mas ainda não entregou o plano.

    Quando eu vinha caminhando para cá vi um condomínio imenso que está quase pronto. Vai complicar muito a vida de uma região já bastante populosa. Como evitar isso?
    Ilan Cuperstein – Há cidades que têm um zoneamento integrado, ou seja, quando vão construir um prédio cruzam três níveis de informação pra ver se ali é lugar pra construir. Tudo é levado em conta: o que significa para a infraestrutura, o projeto de coleta de resíduo, de água.

    É necessário muita capacidade e muito recurso porque tem que ter todas as informações, tem que ter pessoal capacitado para isso. Para um planejamento orientado de transporte, o prédio tem que ser mais próximo de um corredor de transportes. Curitiba é um modelo disso.
    Em São Francisco, nos Estados Unidos, toda nova construção precisa ter uma proporção em habitação social — Foto: PixabayEm São Francisco, nos Estados Unidos, toda nova construção precisa ter uma proporção em habitação social — Foto: Pixabay

    Nessas cidades, as construtoras já sabem que terão que cumprir regras para este planejamento?
    Ilan Cuperstein – Sim, e há uma espécie de prêmio: aquelas que constroem perto do corredor de transporte vão poder construir um prédio de 15 andares. Mas se quiser se distanciar, já vai ter que diminuir isto. Várias cidades já fazem assim: Portland, Chicago, Cidade do Cabo, Buenos Aires... Em São Francisco, por exemplo, toda nova construção precisa ter uma proporção em habitação social, e há uma exigência para que se construa infraestrutura urbana para aquelas pessoas.

    Na hora de construir, precisa saber o impacto, e a construtora tem que entrar nessa equação porque ela está criando uma demanda e tem que arcar com esse custo, porque senão o custo é pago pela sociedade. Ela lucra construindo um condomínio num local valorizado, mas tem que participar. Além disso, a população tem que entender também que talvez exista uma demanda por moradia, mas que não vai ser ali que vai poder subir um prédio de dez andares.

    Você tocou num ponto importante: a participação dos cidadãos. Acha que as cidades estão muito cheias? Gosta da ideia de se limitar número de habitantes?
    Ilan Cuperstein – Gente também pode ser solução. As cidades agregam muitos recursos. Os problemas passam pelas cidades, mas os grandes centros de pesquisa estão nas cidades, as grandes empresas que também têm que fazer parte das soluções, as grandes universidades, as mobilizações sociais.
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