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segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Nobel de Medicina 2025 vai para Mary E. Brunkow, Fred Ramsdell e Shimon Sakaguchi pelas descobertas sobre a tolerância imune periférica

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Vencedores levam o prêmio de 11 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,2 milhões). As láureas em Física, Química, Literatura e Paz serão entregues ao longo da semana; já a de Economia será divulgada na próxima segunda (13).
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Por Talyta Vespa, Poliana Casemiro, Roberto Peixoto, g1

Postado em 06 de Outubro de 2.025 às 08h40m
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Nobel de Medicina de 2025 vai para trio de cientistas pelas descobertas sobre a tolerância imune periférica
Nobel de Medicina de 2025 vai para trio de cientistas pelas descobertas sobre a tolerância imune periférica

Três cientistas — os americanos Mary E. Brunkow e Fred Ramsdell e o japonês Shimon Sakaguchi — levaram o Nobel de Medicina de 2025 pela pesquisa que descobriu como o sistema imunológico evita atacar o próprio corpo.

As descobertas sobre a chamada tolerância imune periférica explicam como o nosso sistema distingue o próprio tecido de agentes invasores.

➡️ Isso vem ajudando no desenvolvimento de tratamentos, por exemplo, contra o câncer, doenças autoimunes e transplantes mais bem-sucedidos. Vários tratamentos usando a descoberta na pesquisa estão em fase de testes.

Brunkow, Ramsdell e Sakaguchi dividirão o prêmio de 11 milhões de coroas suecas (R$ 6,2 milhões) concedido pela Assembleia do Nobel no Instituto Karolinska, da Suécia. O anúncio foi feito na manhã desta segunda-feira (6).

Células guardiãs

A pesquisa dos laureados revelou como o sistema imunológico é mantido sob controle e por que ele não destrói o próprio organismo.

➡️ As descobertas identificaram as chamadas células T reguladoras, que funcionam como “guardiãs” do sistema imune, impedindo que linfócitos ataquem órgãos e tecidos saudáveis.

“Essas descobertas foram decisivas para compreendermos como o sistema imunológico funciona e por que nem todos desenvolvemos doenças autoimunes graves”, afirma Olle Kämpe, presidente do Comitê Nobel de Medicina.

O trabalho de Shimon Sakaguchi, publicado em 1995, mostrou que a tolerância imunológica não ocorre apenas pela eliminação de células potencialmente perigosas no timo (processo conhecido como tolerância central), como se acreditava até então. Ele identificou um novo tipo de célula imune — as T reguladoras — capazes de proteger o corpo de doenças autoimunes.

Anos depois, em 2001, Mary Brunkow e Fred Ramsdell descobriram juntos que uma mutação no gene FOXP3 estava por trás de uma síndrome autoimune grave, o IPEX, e mostraram que o gene é essencial para o desenvolvimento dessas mesmas células T reguladoras.

Com isso, dois anos depois, Sakaguchi conseguiu demonstrar que o FOXP3 controla justamente as células que havia descrito.

Essas descobertas abriram um novo campo de pesquisa — o da tolerância periférica — e impulsionaram o desenvolvimento de tratamentos para câncer, doenças autoimunes e até transplantes, alguns já em fase de testes clínicos.

Especialistas ouvidos pelo g1 destacam que o reconhecimento do Nobel consolida um campo que redefine o entendimento sobre como o corpo equilibra defesa e autocontrole — algo essencial tanto para evitar doenças autoimunes quanto para aprimorar terapias oncológicas.

“O sistema imunológico é altamente específico: precisa reconhecer e atacar agentes estranhos, como vírus e bactérias, sem reagir contra o próprio organismo. Parte desse controle acontece dentro do timo e da medula óssea, mas outro mecanismo igualmente essencial ocorre fora desses órgãos — a tolerância imunológica periférica, tema reconhecido pelo Nobel de 2025", explica Bruno Solano, médico e pesquisador do IDOR Ciência Pioneira e da Fiocruz/BA.

Ainda segundo o pesquisador, as descobertas premiadas explicam como o corpo mantém esse equilíbrio, com a identificação das células T regulatórias e do papel do gene FOXP3, que atuam como um freio para impedir respostas autoimunes.

"Esse entendimento abre caminho para terapias mais seguras em doenças autoimunes, câncer e transplantes", detalha. 
Como isso ajuda a humanidade?

A pesquisa abriu espaço na ciência para entender o sistema e tentar reproduzi-lo para proteger o corpo, por exemplo, em casos de ataques em doenças autoimunes (em que o corpo ataca a si mesmo) e transplantes.

Jorge Kalil, membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina explica, explica a aplicação, por exemplo, no transplante. Quando um órgão é transplantado, o corpo o identifica como um "corpo estranho" e começa a se defender.

"E se eu pudéssemos desenvolver células reguladoras que permitisse uma tolerância a um órgão transplantado, isso seria muito importante. E se pensarmos no xenotransplante, por exemplo, usando órgãos de animais, isso permite desenvolver um tratamento de tolerância. Isso abre muitas portas do ponto de vista terapêutico", explica Kalil.

O mesmo pode ser aplicado, por exemplo, em casos de tratamento contra o câncer. Kalil explica que são as células reguladoras que impedem, muitas vezes, o ataque que o organismo faz contra o câncer.

Atualmente, já existem pesquisas em fase de testes que usam esse princípio em tratamentos para doenças.

Vencedores do Nobel da Medicina Mary E. Brunkow, Fred Ramsdell and Shimon Sakaguchi — Foto: Reprodução/Nobel Prize
Vencedores do Nobel da Medicina Mary E. Brunkow, Fred Ramsdell and Shimon Sakaguchi — Foto: Reprodução/Nobel Prize

A descoberta das células T reguladoras

O sistema imunológico é uma das engrenagens mais complexas do corpo humano. Ele nos protege, todos os dias, de milhares de vírus, bactérias e outros microrganismos que tentam invadir o organismo. Mas, para funcionar corretamente, precisa de controle: quando essa regulação falha, o sistema pode se voltar contra o próprio corpo — o que dá origem às chamadas doenças autoimunes.

Durante décadas, acreditava-se que o corpo eliminava naturalmente, no timo, as células capazes de atacar tecidos saudáveis — um processo conhecido como tolerância central. No entanto, os trabalhos dos três cientistas mostraram que esse mecanismo era apenas parte da história.

Em 1995, o japonês Shimon Sakaguchi, então pesquisador do Aichi Cancer Center, descobriu uma nova classe de células imunológicas — as células T reguladoras — responsáveis por impedir que o sistema imune destrua os próprios tecidos. Sakaguchi demonstrou que, além de eliminar células potencialmente perigosas, o organismo também mantém “guardas de segurança” que supervisionam a resposta imune, evitando ataques indevidos.

Anos depois, em 2001, os americanos Mary E. Brunkow e Fred Ramsdell identificaram o gene FOXP3, essencial para a formação dessas células T reguladoras. A descoberta ocorreu a partir do estudo de camundongos com uma mutação genética chamada scurfy, que apresentavam inflamações severas e morriam ainda filhotes. O mesmo defeito genético foi observado em crianças com uma doença rara e grave, a síndrome IPEX, causada por mutações no FOXP3.

Dois anos depois, Sakaguchi provou que o gene FOXP3 é o regulador direto das células que ele havia descrito anos antes — confirmando o elo entre os achados dos três pesquisadores. O trabalho conjunto lançou as bases de um novo campo científico, o da tolerância imune periférica, que explica como o corpo se protege de si mesmo.

Aplicações médicas

As descobertas transformaram a compreensão de doenças autoimunes e abriram caminho para novas terapias. Pesquisas atuais investigam como estimular as células T reguladoras para tratar enfermidades como diabetes tipo 1, lúpus e esclerose múltipla, e também como inibir sua ação em tumores, já que alguns cânceres “se escondem” atrás dessas células para escapar do sistema imune.

Ensaios clínicos em andamento testam o uso da interleucina-2, uma substância que ajuda as T reguladoras a proliferar, em pacientes com doenças autoimunes e em pessoas que receberam transplantes de órgãos. Outras linhas de pesquisa trabalham com terapia celular personalizada — multiplicando T reguladoras em laboratório e reinjetando-as no paciente para controlar inflamações graves.

O Comitê do Nobel destacou que, com essas descobertas, “os laureados lançaram as bases para o desenvolvimento de tratamentos que podem beneficiar milhões de pessoas”.

Quem são os ganhadores

  • Mary E. Brunkow, nascida em 1961, tem doutorado pela Universidade de Princeton e atua como gerente de programas sênior no Institute for Systems Biology, em Seattle, nos Estados Unidos.
  • Fred Ramsdell, nascido em 1960, doutorou-se em 1987 pela Universidade da Califórnia (UCLA) e hoje é consultor científico da Sonoma Biotherapeutics, em San Francisco, especializada em terapias celulares para doenças autoimunes.
  • Shimon Sakaguchi, nascido em 1951, formou-se em Medicina e fez doutorado na Universidade de Kyoto, no Japão. É professor emérito do Immunology Frontier Research Center, da Universidade de Osaka, e é considerado um dos pioneiros mundiais no estudo da tolerância imunológica.

As descobertas de Brunkow, Ramsdell e Sakaguchi consolidaram um novo paradigma da imunologia moderna — explicando como o corpo distingue o “eu” do “invasor” e como restaurar esse equilíbrio quando ele se perde.

Nobel 2024

No ano passado, o prêmio de Medicina foi para dois cientistas, Victor Ambros e Gary Ruvkun, pela descoberta dos microRNAs e seu papel "na regulação genética pós-transcricional", um processo fundamental para o desenvolvimento das células do nosso corpo.

Desde 1901, mais de cem Prêmios Nobel em Fisiologia ou Medicina (como é formalmente chamado) foram distribuídos.

A distinção científica de renome mundial só não foi concedida em nove ocasiões: em 1915, 1916, 1917, 1918, 1921, 1925, 1940, 1941 e 1942.

Ao longo dos anos, das 229 pessoas agraciadas com o Nobel em Medicina, apenas 13 eram mulheres.

Curiosidades sobre o Nobel de Medicina

O ganhador mais jovem foi Frederick G. Banting, que recebeu o Nobel da área em 1923, com apenas 31 anos, por descobrir a insulina. Já o mais velho foi Peyton Rous, premiado em 1966, aos 87 anos, por sua descoberta de vírus que causam tumores.

Entre os 229 vencedores do Prêmio Nobel de Medicina, 13 são mulheres. Um destaque especial é Barbara McClintock, a única mulher a ganhar o prêmio sozinha, em 1983, pela descoberta dos "elementos genéticos móveis".

Outras mulheres que marcaram a história do prêmio incluem Gerty Cori (1947), pelas descobertas sobre o glicogênio; Rita Levi-Montalcini (1986), pelos estudos sobre fatores de crescimento; Françoise Barré-Sinoussi (2008), pela descoberta do HIV.

Embora ninguém tenha recebido o Nobel de Medicina mais de uma vez, em outras categorias há pessoas que já foram premiadas duas vezes (entenda mais abaixo). Desde 1974, o prêmio NÃO pode ser entregue a pessoas falecidas, a menos que o óbito ocorra depois do anúncio oficial.

Um caso especial aconteceu em 2011, quando foi descoberto que o laureado Ralph Steinman havia falecido dias antes do anúncio, mas como o comitê não sabia de sua morte, ele manteve o prêmio.

Nobel 2025

A láurea em Medicina é sempre a primeira a ser anunciada. Os prêmios em Física, Química, Literatura e Paz serão entregues ao longo da semana; já a láurea em Economia será divulgada na próxima segunda (13). Veja o cronograma:

  • Medicina: segunda-feira, 6 de outubro
  • Física: terça-feira, 7 de outubro
  • Química: quarta-feira, 8 de outubro
  • Literatura: quinta-feira, 9 de outubro
  • Paz: sexta-feira, 10 de outubro
  • Economia: segunda-feira, 13 de outubro

Veja, abaixo, perguntas e respostas sobre o prêmio.

O que é o Prêmio Nobel?

A láurea foi criada pelo químico e empresário Alfred Nobel. Inventor da dinamite em 1867, o sueco doou a maior parte de sua fortuna em testamento para a criação de prêmios de física, química, medicina, literatura e paz (o prêmio de economia foi criado anos mais tarde).

O documento dizia que os prêmios deveriam ser concedidos "àqueles que, durante o ano anterior, tenham conferido o maior benefício à humanidade".

Um busto do fundador do Prêmio Nobel, Alfred Nobel, em exibição durante cerimônia de entrega da láurea em 2018, em Estocolmo. — Foto: Henrik Montgomery/Pool Photo via AP, File
Um busto do fundador do Prêmio Nobel, Alfred Nobel, em exibição durante cerimônia de entrega da láurea em 2018, em Estocolmo. — Foto: Henrik Montgomery/Pool Photo via AP, File

Contudo, hoje em dia, conforme explica Juleen Zierath, membro do Instituto Karolinska, o júri do Nobel de Medicina, essa regra não é mais tão levada à risca.

"Você pode ter feito essa descoberta em um estágio muito inicial de sua carreira de pesquisa, ou pode ter feito essa descoberta em um estágio muito avançado de sua carreira de pesquisador", ressalta a pesquisadora.

Como o prêmio é escolhido?

Todos os anos, o Comitê do Nobel envia um pedido de nomeação para membros da comunidade científica.

Isso significa que alguns candidatos elegíveis recebem um convite especial para enviar seus nomes. Sem esse convite, nenhum postulante pode concorrer ao prêmio.

"Você não pode se nomear, mas membros de comunidades científicas, reitores de faculdades de medicina, ex-laureados com o Prêmio Nobel e outros que trabalham no ramo científico mais amplo e que receberam esse pedido podem fazer uma indicação", diz Zierath.
Quantas pessoas podem compartilhar o mesmo prêmio?

Até três pessoas podem compartilhar um Prêmio Nobel, ou uma organização pode ganhar a láurea da Paz.

A Fundação Nobel, responsável por realizar os desejos do seu fundador, ressalta que essa regra está descrita no testamento de Alfred Nobel.

A medalha do Prêmio Nobel. — Foto: The Nobel Prize Foundation
A medalha do Prêmio Nobel. — Foto: The Nobel Prize Foundation

“Em nenhum caso o valor do prêmio pode ser dividido entre mais de três pessoas", destaca um trecho do documento. Alguns pesquisadores, porém, criticam essa escolha e afirmam que as descobertas científicas de hoje em dia são muito mais coletivas: um trabalho de vários pesquisadores.

A láurea pode ser concedida postumamente? Tem limite de idade?

Não, um Prêmio Nobel não pode ser concedido postumamente.

Apesar, disso, a Fundação ressalta que, desde 1974, se o destinatário do prêmio falecer após o anúncio, a láurea ainda poderá ser concedida.

Sobre o limite de idade, o prêmio também não tem uma regra a respeito.

"O que eu diria é que, na maioria das vezes, levamos muitos anos até que o campo científico reconheça que a descoberta que você fez é uma distinção que deveria ser considerada para um Prêmio Nobel. Então, às vezes você tem que ser bastante paciente", ressalta Zierath.

Nobel de Medicina 2024 vai para Victor Ambros e Gary Ruvkun pela descoberta dos microRNAs
Nobel de Medicina 2024 vai para Victor Ambros e Gary Ruvkun pela descoberta dos microRNAs

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domingo, 5 de outubro de 2025

EXCLUSIVO: supercomputador 6 vezes mais rápido vai mudar previsão de chuvas e desastres no Brasil; VÍDEO

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Novo supercomputador amplia o detalhe das previsões e será usado para antecipar desastres e orientar decisões na energia, agricultura e saúde. Investimento foi de R$ 200 milhões.
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Por Poliana Casemiro, g1

Postado em 05 de Outubro de 2.025 às 07h00m
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Brasil tem novo supercomputador que vai melhorar a previsão do tempo
Brasil tem novo supercomputador que vai melhorar a previsão do tempo

Se você já se pegou pensando que a previsão do tempo errou e não choveu ou o sol prometido não apareceu onde você mora, isso pode estar com os dias contados. O Brasil tem, agora, um novo supercomputador responsável por gerar os alertas meteorológicos do país. A promessa é de um nível de precis

ão inédito: será possível saber, por exemplo, em quais regiões de um bairro vai chover e em que momento.

💻 Por que um supercomputador? A previsão é feita com base em um volume imenso de dados, que vêm não só de satélites, mas também de aviões comerciais, navios, balões de monitoramento e estações espalhadas pelo planeta. Todas essas informações são processadas por uma máquina que faz trilhões de cálculos por segundo — algo impossível de ser feito por equipamentos comuns.

Até agora, o Brasil operava com o Tupã, em funcionamento desde 2010. Ele já deveria ter sido aposentado, e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável pelo sistema, vinha alertando desde 2021 para o risco de um apagão meteorológico por falta de investimento.
Supercomputador vai trazer  nível de detalhe inédito na previsão do tempo no país — Foto: Giaccomo Voccio/g1
Supercomputador vai trazer nível de detalhe inédito na previsão do tempo no país — Foto: Giaccomo Voccio/g1

Esse novo equipamento foi adquirido em 2024, com um investimento de R$ 200 milhões, e está em fase de testes no Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec), em Cachoeira Paulista (SP).

A equipe do g1 foi a primeira a entrar no centro para conhecer a máquina que promete dar ao país uma capacidade inédita em tecnologia. Com ela, o Brasil passa a contar com:

  • Processamento 6 vezes mais rápido de dados meteorológicos e climáticos;
  • Previsões geradas em minutos — antes, levavam até 3 horas;
  • Capacidade de armazenamento 24 vezes maior, permitindo modelos mais detalhados;
  • Precisão para indicar a hora e o minuto em que eventos devem ocorrer.

➡️ E mais do que isso: essa tecnologia pode salvar vidas. O novo sistema é crucial para um país que enfrenta eventos climáticos cada vez mais extremos.

No caso de São Sebastião, por exemplo, onde dezenas de pessoas morreram após uma chuva intensa em 2023, o Cemaden (órgão do governo que usa dos dados do Tupã para alerta de desastres) sabia com dois dias de antecedência que a região seria afetada.

❌ O problema era a falta de precisão para indicar exatamente quando a chuva começaria e qual parte do município seria mais atingida. Agora, com a nova estrutura, isso passa a ser possível.

Trilhões de cálculos por segundo: como o novo supercomputador funciona

O novo supercomputador do Brasil está instalado no interior de São Paulo e será o coração da previsão meteorológica no país. Mesmo em fase de testes, já funciona sem parar: 24 horas por dia, 7 dias por semana, recebendo informações e realizando trilhões de cálculos por segundo.

➡️ A base da previsão do tempo é entender o que está acontecendo agora pela sua janela: há nuvens? Tem sol? Está garoando? Está ventando? Quanto vento? Essas respostas chegam de dezenas de fontes espalhadas de Norte a Sul do país, com dados enviados por satélites, aviões comerciais, navios e estações meteorológicas.

💻 Todo esse volume de informação chega ao supercomputador, que armazena os registros e os processa em modelos matemáticos. A partir disso, é possível projetar o que deve acontecer nas próximas horas, dias, semanas e até meses.

Antigo supercomputador que teve risco de apagão meteorológico por falta de investimento — Foto: Divulgação/Inpe
Antigo supercomputador que teve risco de apagão meteorológico por falta de investimento — Foto: Divulgação/Inpe

Até então, o antigo computador realizava esse processamento apenas duas vezes ao dia. Agora, isso será feito a cada seis horas e permite acompanhar as mudanças na atmosfera quase em tempo real. A operação da máquina e o acesso às informações são públicos e geridos por órgãos do governo federal.

Segundo Ivan Márcio Barbosa, coordenador de infraestrutura de dados e supercomputação do Inpe, o Brasil já tinha capacidade técnica para fazer a melhoria, mas faltava o investimento no equipamento.

O antigo supercomputador já não supria as necessidades do Inpe nem a demanda da sociedade brasileira. A gente tinha dados suficientes, capacidade de pesquisa para desenvolver e melhorar os modelos, mas faltava um sistema de supercomputação capaz de atender à população.
— Ivan Márcio Barbosa, coordenador de infraestrutura de dados e supercomputação do Inpe

➡️ E essa precisão importa. A previsão não serve apenas para saber se vai chover ou fazer sol. Ela ajuda a identificar se há risco para a população, se uma plantação precisa de proteção, se os reservatórios exigem mais gestão ou se é preciso se preparar para uma seca severa.

Para funcionar, o equipamento exige uma infraestrutura robusta. Ele está instalado dentro de um dos maiores datacenters do país e tem alto consumo de água e energia. O custo anual só para mantê-lo ligado é de R$ 6 milhões ao ano.

Datacenter onde está a máquina exige infraestrutura de energia e refrigeração — Foto: Giaccomo Voccio/g1
Datacenter onde está a máquina exige infraestrutura de energia e refrigeração — Foto: Giaccomo Voccio/g1

Por isso, além da máquina, o investimento feito pelo governo ainda inclui a criação de um centro de energia solar que vai abastecer toda a operação. A estrutura deve começar a ser implantada em 2026.

Como isso vai mudar a previsão do tempo?

O novo supercomputador permite que a previsão chegue a um nível de detalhe inédito no país. Com a nova capacidade de processamento, será possível saber não apenas se vai chover em uma cidade, mas em qual bairro. E até em que hora e minuto uma chuva ou uma nuvem de fumaça vão atingir determinada área.

🌦️ Para entender essa mudança, é preciso olhar para a resolução da previsão:

  • ➡️ Hoje, o sistema opera com uma área de 7 km². Isso significa que tudo dentro desse quadrado de 7 quilômetros recebe a mesma informação meteorológica. Mesmo que uma parte esteja sob nuvens pesadas e outra não, o modelo trata tudo como se fosse igual.

É por isso que, às vezes, a previsão acerta a chuva para a cidade, mas ela não acontece no seu bairro. O alerta está correto para a região, mas ainda falta precisão local.

  • ➡️ Com o novo supercomputador, esse cenário muda: os modelos passam a operar com resolução de 3 km² e, em regiões metropolitanas, a previsão será feita com precisão de até 1 km².

“A gente vai conseguir saber com uma riqueza de detalhes que, em algumas regiões, vamos poder dizer em que rua chove e em qual não. Vamos poder indicar o momento exato e acompanhar o que acontece quando uma chuva chega quase que em tempo real, observando se ela vai aumentar ou diminuir, por exemplo.
— Gilvan Sampaio, especialista em meteorologia e pesquisador do Inpe

Atualmente, o Tupã ainda está funcionando, enquanto a nova máquina passa por uma fase de teste e transição dos sistemas para começar a operar. A data prevista para entrar em operação é a primeira semana de dezembro deste ano.

Buscas por desaparecidos em meio à lama de um deslizamento que derrubou casas na Vila do Sahy, em São Sebastião — Foto: Fábio Tito/g1
Buscas por desaparecidos em meio à lama de um deslizamento que derrubou casas na Vila do Sahy, em São Sebastião — Foto: Fábio Tito/g1

Muito além da previsão

Essa nova precisão vai fazer diferença em casos como os de São Sebastião e do Rio Grande do Sul. As duas chuvas estavam previstas, mas não com exatidão sobre as áreas mais afetadas nem sobre o volume de água.

Além de ajudar com os alertas de desastres, o novo supercomputador tem um papel estratégico em diversos setores da economia.

Agro depende dos dados e setor representa 23% do PIB nacional — Foto: Getty Images via BBC
Agro depende dos dados e setor representa 23% do PIB nacional — Foto: Getty Images via BBC

A atualização também vai aprimorar a chamada previsão sazonal — aquela que olha para os próximos três meses. Esses dados são essenciais para orientar a tomada de decisões em diferentes frentes. Por exemplo:

  • ➡️ Agropecuária: os dados vão indicar o melhor momento para o plantio, prever com ainda mais antecedência secas que podem comprometer a safra e apoiar estratégias de proteção contra perdas. O setor, que representa uma fatia de 23% do PIB nacional, depende cada vez mais de previsões confiáveis.
  • ➡️ Energia: as informações geradas orientam o uso das hidrelétricas e termelétricas, o que é fundamental em tempos de crise nos reservatórios. Será possível prever com mais antecedência e precisão os volumes de chuva que afetam diretamente o custo da energia.
  • ➡️ Saúde pública: o sistema vai monitorar o movimento de fumaça vinda de queimadas dentro e fora do país e poderá ajudar a emitir alertas antecipados às autoridades sanitárias sobre as áreas mais atingidas.

💻 Há ainda um ponto importante: o supercomputador também vai rodar os chamados modelos climáticos, que são aqueles que mostram as tendências de longo prazo. Enquanto a previsão do tempo olha para os próximos dias, a do clima busca entender os padrões das próximas estações, dos próximos anos e até das próximas décadas.

Em um cenário de mudanças climáticas, esses dados são cruciais. Com eles, o Brasil poderá antecipar os efeitos do aquecimento global e planejar com base em evidências ações de mitigação e adaptação.

De acordo com o Inpe, o investimento é um salto de tecnologia para o país e que o supercomputador deve atender novos projetos, o que inclui, por exemplo, o uso de inteligência artificial na previsão de mudanças climáticas no país. Com o computador antigo, isso não era possível.

O Inpe foi pioneiro em um supercomputador. Hoje, temos aqui previsões inéditas na América do Sul. Esse salto de tecnologia vai abrir portas para que o país avance não só na previsão, mas em outras áreas.
— Ivan Márcio Barbosa, coordenador de infraestrutura de dados e supercomputação do Inpe
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