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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Emissão de gases de efeito estufa na atmosfera atingiu novo recorde histórico em 2018, diz estudo

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Relatório anual compilado por centenas de cientistas traz os principais fenômenos climáticos registrados pelo mundo em 2018, que está entre os quatro anos mais quentes em mais de um século, junto com 2015, 2016 e 2017.
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 Por Ana Carolina Moreno, G1  

 Postado em 13 de agosto de 2019 às 14h15m  
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Relatório divulgado nesta segunda mostra que a emissão de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, seguiu aumentando em 2018 — Foto: Luiz Souza/NSC TVRelatório divulgado nesta segunda mostra que a emissão de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, seguiu aumentando em 2018 — Foto: Luiz Souza/NSC TV
O Planeta Terra bateu um novo recorde de emissão de gases de efeito estufa na atmosfera em 2018. Segundo o relatório "Estado do Clima 2018", divulgado nesta segunda-feira (12) no Boletim da Sociedade Americana de Meteorologia, a emissão de gases como dióxido de carbono, metano e óxido nitroso seguiu aumentando e, combinados com outros gases conhecidos como halogenados, já têm um efeito de aquecimento 43% maior do que em 1990.

Além disso, 2018 entrou para a lista de quatro anos mais quentes desde pelo menos o fim do século 19, quando a medição começou a ser feita. Os únicos três anos mais quentes que 2018 foram 2015, 2016 e 2017.

"Todos os anos desde o início do século 21 têm sido mais quentes do que a média entre 1981 e 2010", diz o relatório. Entre os especialistas, essa média, também chamada de "normal climatológica" é uma taxa média anual a partir da qual as temperaturas recentes são comparadas, para se ter uma medida de quanto as temperaturas têm variado.
Essa é a 29ª edição do relatório "Estado do Clima", que é publicado anualmente, sempre na metade do ano, e é elaborado pelos centros de informação sobre o clima da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), com o apoio de centenas de especialistas no assunto pelo mundo.

O cientista peruano Jose Antonio Marengo Orsini, que vive no Brasil há 25 anos e hoje é coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), é um dos vários coautores do estudo que se ocuparam do capítulo relativo às Américas do Sul e Central.

Segundo ele, o relatório publicado nesta segunda "é como um raio-x do clima em todo o mundo", que registra os eventos particulares registrados durante cada ano. "É feito regularmente, em outubro começamos a preparar o material para publicar no próximo ano", afirmou ele em entrevista ao G1.

Além do Cemaden, as outras entidades brasileiras que colaboraram com o relatório são o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O que é o efeito estufa?
O efeito estufa é um fenômeno natural no qual a atmosfera da Terra retém o calor que é irradiado pelo Sol e reflete na superfície, ou emitido da Terra para o espaço. Porém, ele pode ser exacerbado pela ação humana, com a emissão excessiva de gases, principalmente o dióxido de carbono.

Marengo, que é membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Academia Mundial de Ciências, explica que uma das consequências naturais do efeito estufa é o fato de a temperatura na Terra ser "agradável e adequada" para as pessoas. "Se não fosse, as pessoas morreriam de frio", diz ele, ressaltando, porém, que o problema começa quando a emissão de gases passa a ser excessiva.
Para explicar o fenômeno, o cientista dá como exemplo alguém que está com frio e coloca um casaco. "Quando aumenta [a temperatura], é como se vocês colocasse seis, sete, oito casacos. Você começa a sufocar", compara José Marengo, coordenador-geral do Cemaden.
Segundo o estudo divulgado nesta segunda, "o dióxido de carbono é responsável por cerca de 65% do forçamento radiativo".
Segundo o relatório 'Estado do Clima 2018', o efeito das emissões de gases para o aquecimento da atmosfera foi 43% maior no ano passado do que em 1990 — Foto: Frank Augstein/APSegundo o relatório 'Estado do Clima 2018', o efeito das emissões de gases para o aquecimento da atmosfera foi 43% maior no ano passado do que em 1990 — Foto: Frank Augstein/AP

A temperatura no Brasil
A meteorologista brasileira Andrea Ramos, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), é outra coautora do estudo. Ela disse ao G1 que a importância do estudo é poder reunir e analisar o comportamento das temperaturas e chuvas em um determinado ano pelo mundo.

Andrea explicou que as informações sobre as chuvas e a temperatura média registradas no ano são encaminhadas à OMM (Organização Meteorológica Mundial) para, em conjunto com as informações de outros países, "analisar o comportamento das temperaturas e chuvas e, assim, embasar por meio dos registros como foi o ano correspondente, no caso, 2018, com os demais".

Um resumo técnico publicado em maio e elaborado por coautores do estudo corrobora as informações de que 2018 está entre os quatro anos mais quentes já registrados.

"Desde 2012, a temperatura média ficou em torno de 0,5°C acima da NC [a Normal Climatológica, equivalente à média de 1981 a 2010]", diz o documento.

Veja no gráfico abaixo qual foi a temperatura média de cada ano no Brasil desde 1961, e como ela se compara com a média registrada entre 1981 e 2010:
Veja qual foi a temperatura média de cada ano no Brasil desde 1961 e como ela se compara com a média registrada entre 1981 e 2010 (também chamada de Normal Climatológica) — Foto: Reprodução/Anuário Climático do Brasil - 2018Veja qual foi a temperatura média de cada ano no Brasil desde 1961 e como ela se compara com a média registrada entre 1981 e 2010 (também chamada de Normal Climatológica) — Foto: Reprodução/Anuário Climático do Brasil - 2018
"Acredito que essa seja a importância dessa coleta de informações, pois assim podemos identificar o quanto foi frio ou quente, chuvoso ou menos chuvoso, com os anos anteriores", disse Andrea Ramos, meteorologista do Inmet. 
Destaques da América do Sul
De acordo com Marengo, o capítulo do relatório dedicado à região central da América do Sul, onde fica o Brasil, o Peru, o Paraguai e a Bolívia, destacou alguns extremos de temperatura registrados no país.

No Sudeste brasileiro, por exemplo, a temperatura em 2018 foi 1º Celsius mais alta do que a média. Em abril e maio, o Sul do Brasil, assim como a Bolívia e o Paraguai, registraram temperatudas entre 2ºC e 4ºC acima da média, enquanto em julho e setembro a região tropical brasileira, a Leste dos Andes, também teve temperaturas mais altas do que o esperado.

"No inverno (junho a agosto), vários episódios de frio afetaram o Sul do Brasil, até o Oeste da Amazônia", continuou o relatório.
Marengo explica que o aquecimento global não é sinônimo apenas de temperaturas mais altas, mas sim de extremos mais intensos.

"Ainda que aparece na média um inverno mais quente que o normal, também acontecem períodos muito frios. No Brasil, em maio [deste ano] tivemos dias muito frios, e o inverno não terminou e já estamos com 30 graus de novo.
Isso é uma mostra de que os extremos estão se tornando mais extremos", disse ele.

O especialista destaca que, em 2018, o Nordeste teve chuva menor que o normal, assim como sudoeste da Amazônia e algumas regiões costeiras do Peru. "No caso do Paraguai, Bolívia, muitas chuvas intensas têm trazido enchentes e deslizamento de terra que mataram pessoas", ressalta ele.
Aquecimento global pode estar contribuindo para a elevação do nível dos oceanos mais rápido do que se imaginava — Foto: UnsplashAquecimento global pode estar contribuindo para a elevação do nível dos oceanos mais rápido do que se imaginava — Foto: Unsplash

Outros destaques do relatório
  • O nível dos oceanos subiu pelo sétimo ano consecutivo, atingiu a maior média global anual em 26 anos, chegando a 81 milímetros acima do nível médio de 1993;
  • A temperatura no Ártico em 2018 foi 1,2º Celsius acima da média entre 1981 e 2010 e, em junho de 2018, o território ártico coberto por gelo já tinha encolhido para a metade do que era há 35 anos;
  • Nos países próximos da Linha do Equador, o número de tempestades tropicais foi de 95, acima da média registrada entre 1981 e 2010, de 82 tempestades anuais;
  • A intensidade deles também foi mais alta: um exemplo é o furacão Michael, de outubro de 2018, o quarto mais forte a atingir o continente norte-americano em 168 anos;
  • Também nos Estados Unidos, os incêndios florestais foram mais devastadores em 2018 e destruíram 3,5 milhões de hectares, mais que a média de 2,7 milhões da primeira década deste século;
  • Por outro lado, na Groenlândia, as temperaturas locais no verão foram um pouco mais baixas do que a média, e um satélite que analisou 47 geleiras indicou que elas aumentaram de área pela primeira vez desde 1999.
Veja o antes e o depois da passagem do furacão Michael na Praia do México, na Flórida (EUA), em outubro de 2018 — Foto: Reprodução/NOAA

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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Usar dias frios para negar aquecimento global não faz sentido, indica pesquisa

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Pesquisas desbancam argumento comumente usado de que temperaturas frias seriam evidência de que o planeta não está aquecendo. Diversos estudos científicos comprovam que o planeta ficou 1 grau Celsius mais quente nos últimos 100 anos. E um dia mais quente no Ártico gera ondas de frio na Europa e América do Norte. Entenda!
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 Por Edison Veiga, BBC  

 Postado em 12 de agosto de 2019 às 22h30m  

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Usar dias frios para negar aquecimento global não faz sentido, indica pesquisa — Foto: BBCUsar dias frios para negar aquecimento global não faz sentido, indica pesquisa — Foto: BBC

A briga já se tornou habitual, principalmente nas redes sociais: diante de um dia mais frio, uma anormal frente fria ou um inverno mais rigoroso que o normal, negadores do aquecimento global aproveitam para atacar pesquisas sobre o assunto.

Cientistas da área, contudo, apontam justamente o contrário: tais fenômenos meteorológicos são evidência clara de que o aquecimento global existe, de que se trata de uma crise ambiental grave e de que estamos vivendo um período catastrófico, na iminência de um colapso climático.

A revista "Nature Climate Change" desta segunda-feira (12) traz mais uma pesquisa a se somar às tantas realizadas sobre o tema.
O trabalho — desenvolvido por cientistas da Universidade de Exeter, na Inglaterra, da Universidade de Groningen, na Holanda, do Centro Canadense para Análise Climática, no Canadá, do Instituto Meteorológico Real da Holanda e do Instituto de Pesquisa de Energia e Sustentabilidade em Groningen, também da Holanda — concluiu que mesmo as ondas de frio estão no contexto da crise ambiental do aquecimento global.

Exemplo do Ártico
Os cientistas também apontam que os dias mais frios têm sido exceção, não regra. "Não tem havido um aumento global nos invernos frios, em tendências de longo prazo", afirma à BBC News Brasil o pesquisador Russell Blackport, da Faculdade de Engenharia, Matemática e Ciências Físicas da Universidade de Exeter.

"Houve algumas regiões que tiveram alguns invernos particularmente severos na última década, mas estes são aumentos de curto prazo, que refletem a variabilidade natural. Tendências de longo prazo mostram que os invernos frios extremos estão se tornando menos frequentes, e isso é consistente com o aumento das temperaturas globais."

Diversos estudos científicos comprovam que o planeta ficou 1 grau Celsius mais quente nos últimos 100 anos. Métricas mostram que, desde os anos 1980, dias com recorde máximo de temperatura têm sido mais frequentes do que dias com recorde mínimo de temperatura - independentemente da região do planeta.

Contudo, um dia mais quente no Ártico pode trazer frio para regiões contíguas. Ou seja: para a Europa e a América do Norte. É um fenômeno físico: o calor acaba fazendo com que o ar frio, antes concentrado no Ártico, se espalhe por outras regiões.

E isso acarreta frentes frias fora do comum — como a onda de frio ocorrida na Europa em maio deste ano, com direito a neve em diversas localidades no período que deveria ser o auge da primavera.

Os cientistas esmiuçaram esse fenômeno. Concluíram que o degelo não pode ser apontado como a causa de um dia frio. Os acontecimentos estão em consonância, porque ambos são culpa do atual contexto chamado de aquecimento global — mas que poderia ser também chamado de colapso climático ou crise climática.

"Usamos três linhas de evidências para concluir que a redução do gelo no mar tem influência mínima nos invernos frios - muito embora a redução do gelo nos mares tenda a coincidir com invernos frios", pontua Russell.

"Descobrimos que o calor tende a fluir da atmosfera para o oceano durantes os eventos frios, o oposto do que seria esperado se houvesse uma influência do gelo marítimo. Constatamos também que o tempo frio começa antes da redução do gelo - mas não prossegue depois disso. Também realizamos modelagens para prever o cenário."

Segundo o pesquisador, todas as abordagens concordaram que a redução das geleiras tem "influência mínima" sobre os invernos frios.

Argumentos cientificamente errados
Esse tipo de fenômeno, de dias mais frios, acaba suscitando argumentos justamente por quem não acredita — por razões pessoais, interesses políticos e econômicos ou simplesmente ideologia — nas evidências de que o planeta vive um forte aquecimento.

"Se o mundo está ficando mais quente, por que, então, está fazendo tanto frio nos Estados Unidos?", tuitou recentemente o presidente americano Donald Trump, em meio a uma onda de frio ocorrida no país.

Questionamentos semelhantes também têm sido recorrentes nos círculos do poder brasileiro. "Só por curiosidade: quando está quente a culpa é sempre do possível aquecimento global e quando está frio fora do normal, como é que se chama?", escreveu, também no Twitter, o vereador Carlos Bolsonaro, um dos cinco filhos do presidente Jair Bolsonaro.

Outro cético assumido do tema é o diplomata Ernesto Araújo, atual ministro das Relações Exteriores do Brasil. Em uma recente reunião junto a especialistas do Itamaraty, ele usou uma observação pessoal para tentar desmentir o consenso científico ambiental internacional.

"Não acredito em aquecimento global. Vejam que fui a Roma em maio e estava tendo uma onda de frio enorme. Isso mostra como as teorias do aquecimento global estão erradas. Isso a mídia não noticia", afirmou ele.

Para os cientistas, esse tipo de raciocínio não encontra ecos nas aferições globais. "É um argumento que comete o erro comum de confundir tempo com clima", explica Blackpor, diante da repercussão internacional da declaração do ministro brasileiro.

"O tempo descreve a atmosfera em escalas curtas — dia a dia, semana a semana —, enquanto o clima descreve as estatísticas em escalas de tempo muito mais longas, geralmente de mais de 30 anos. Eventos climáticos de curto prazo que podem causar temperaturas extremas sempre ocorreram e continuarão ocorrendo no futuro. Contudo, tendências de longo prazo no clima mostram que dias de frio extremo estão se tornando menos prováveis e menos intensos, o que é consistente com o aumento global das temperaturas."

Degelo e anomalias
Uma potencial conexão entre a perda de gelo do Ártico e ondas de tempo frio no hemisfério norte tem sido objeto de estudos há algum tempo — observações mostram que, sempre que há uma diminuição da cobertura de gelo na região, áreas próximas sofrem com baixas temperaturas.

A pesquisa divulgada nesta segunda se baseou em uma grande quantidade de dados climáticos. Isso significa uma vasta gama de aferições, tanto geograficamente quanto cronologicamente. Assim, os cientistas podem realizar conexões estatísticas e comprovar curvas de aquecimento - sem ruídos suscitados por variações pontuais.

No caso do Ártico, os dados levam à conclusão de que invernos relativamente frios ocorrem de forma simultânea a momentos de declínio de gelo na região — mas um não é a causa do outro.

Ambos são decorrentes, na verdade, de anomalias de grande escala na circulação atmosférica, conforme pontua comunicado distribuído pela Universidade de Groningen.
Olhando por outro lado, há uma notícia que pode ser parcialmente alentadora.

"Nossas descobertas mostram que uma diminuição do gelo do Ártico em um futuro próximo não levará a mais e intensas ondas de frio no inverno", acredita o pesquisador Richard Bintanja, professor da universidade holandesa e coautor da pesquisa. "Afinal, o degelo do Ártico é resultado de circulação atmosférica de padrões incomuns, e não sua causa."

Parcialmente alentadora porque, se o degelo não irá causar invernos mais rigorosos ainda, isso não significa que os problemas climáticos não irão continuar. Muito pelo contrário. "Há muitas razões para se preocupar com a perda dramática do gelo do Ártico", pontua o professor da Universidade de Exeter James Screen, também participante da pesquisa.

"A correlação entre a redução do gelo marinho e os invernos frios não significa que um esteja causando o outro", completa Russell. "Mostramos que a causa real é a mudança na atmosfera, que leva o ar quente para o Ártico e traz o ar frio para as latitudes médias." Ou seja: o aquecimento global.

O comunicado divulgado pela Universidade de Exeter enfatiza que, "nas últimas décadas, o Ártico sofreu um aquecimento das temperaturas por causa das mudanças climáticas, o que levou a um grande declínio na cobertura de gelo".

"Essa redução na cobertura de gelo implica no aumento das áreas de mar aberto - o que, por sua vez, permite que o oceano perca mais calor para a atmosfera no inverno", aponta o texto. "Isso pode alterar o clima, mesmo fora do Ártico."

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