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domingo, 28 de fevereiro de 2021

A reversão dos polos magnéticos que causou o fim dos neandertais

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A inversão geomagnética desencadeou uma série de eventos dramáticos, desde a destruição da camada de ozônio até uma mudança violenta nos padrões climáticos da Terra. 
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TOPO
Por Chris Fogwill, Alan Hogg, Chris Turney e Zoë Thomas, BBC  
26/02/2021 10h35  Atualizado há 2 dias
Postado em 28 de fevereiro de 2021 às 08h00m


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Há 42 mil anos, o mundo enfrentou alguns séculos de condições apocalípticas causadas por uma reversão dos polos magnéticos da Terra combinada com mudanças no comportamento do Sol.

Essa é a principal descoberta de nosso novo estudo multidisciplinar, publicado na revista Science.

Esta última grande reversão geomagnética desencadeou uma série de eventos dramáticos que tem consequências de longo alcance para o nosso planeta.

O que se desenrolou parecia o enredo de um filme de terror: a camada de ozônio foi destruída, tempestades elétricas varreram os trópicos, ventos solares geraram espetáculos de luz (auroras), o ar ártico se espalhou pela América do Norte, os mantos de gelo e geleiras aumentaram e os padrões climáticos mudaram violentamente.

Durante esses eventos, a vida na Terra foi exposta à intensa luz ultravioleta. Neandertais e a megafauna foram extintos, enquanto os humanos modernos encontraram proteção em cavernas.

O polo norte magnético, para onde a agulha da bússola aponta, não tem localização permanente. Na realidade, geralmente oscila perto do polo norte geográfico — o ponto em torno do qual a Terra gira — ao longo do tempo devido aos movimentos dentro do núcleo do planeta.

Por razões que ainda não estão totalmente claras, os movimentos dos polos magnéticos às vezes podem ser mais extremos do que uma simples oscilação. Uma das migrações mais dramáticas desses polos ocorreu há cerca de 42 mil anos e é conhecida como o evento Laschamps, em homenagem à cidade francesa onde foi descoberto.

Cientistas europeus anunciaram descoberta revolucionária de neandertais e denisovanos
Cientistas europeus anunciaram descoberta revolucionária de neandertais e denisovanos

O evento Laschamps tem sido observado em todo o mundo, inclusive recentemente a ocorrência foi verificada na Tasmânia, Austrália. Mas, até agora, não estava claro se essas mudanças magnéticas tiveram algum impacto no clima e na vida no planeta.

Nosso novo trabalho reúne várias evidências, sugerindo fortemente que os efeitos foram globais e de longo alcance.

Árvores kauri

As árvores kauri da Nova Zelândia revelaram um aumento prolongado nos níveis de radiocarbono atmosférico causado pelo colapso do campo magnético da Terra quando os polos mudaram. — Foto: Getty Images via BBC
As árvores kauri da Nova Zelândia revelaram um aumento prolongado nos níveis de radiocarbono atmosférico causado pelo colapso do campo magnético da Terra quando os polos mudaram. — Foto: Getty Images via BBC

Para investigar o que aconteceu, analisamos as antigas árvores Kauri da Nova Zelândia, que foram preservadas em turfas e outros sedimentos por mais de 40 mil anos.

Usando os anéis de crescimento anual das árvores kauri, fomos capazes de criar uma escala de tempo detalhada de como a atmosfera da Terra mudou durante este período.

As árvores revelaram um aumento prolongado nos níveis de radiocarbono atmosférico causado pelo colapso do campo magnético da Terra quando os polos mudaram. Isso forneceu uma maneira de vincular com precisão registros amplamente dispersos geograficamente.

"As árvores kauri são como a Pedra de Roseta, ajudando-nos a juntar os registros das mudanças ambientais em cavernas, núcleos de gelo e turfas ao redor do mundo", diz o professor Alan Cooper, que co-lidera este projeto de pesquisa.

Usando a escala de tempo recém-criada, pudemos mostrar que os cinturões de chuva do Pacífico tropical e os ventos ocidentais do Oceano Antártico mudaram abruptamente ao mesmo tempo, causando condições áridas em lugares como a Austrália.

Por sua vez, uma variedade de megafauna, incluindo os cangurus gigantes e wombatídeos, foi extinta.

Mais ao norte, a vasta camada de gelo Laurentide cresceu rapidamente no leste dos Estados Unidos e no Canadá, enquanto na Europa os neandertais foram extintos.

Modelo climático

Trabalhando com um programa de computador que simulava interações globais entre a química e o clima, investigamos o impacto de um campo magnético mais fraco e as mudanças na força do Sol.

É importante ressaltar que, durante a mudança magnética, a intensidade do campo caiu para menos de 6% do que é hoje. Uma bússola daquela época teria dificuldade em encontrar o norte.

Sem nenhum campo magnético, nosso planeta perdeu completamente seu escudo eficaz contra a radiação cósmica e muitas partículas penetrantes do espaço entraram na parte superior da atmosfera.

Além disso, o Sol experimentou vários "grandes mínimos solares", durante os quais a atividade foi muito menor, mas também mais instável, enviando inúmeras explosões solares massivas que permitiram que poderosos raios cósmicos ionizantes atingissem a Terra.

Nossos modelos mostraram que essa combinação de fatores teve um efeito amplificador.

Raios cósmicos de alta energia da galáxia e também enormes explosões de raios de erupções solares foram capazes de penetrar na alta atmosfera, carregando as partículas no ar e causando mudanças químicas que causaram a perda de ozônio estratosférico.

As simulações entre química e clima são consistentes com os movimentos ambientais observados em muitos arquivos de mudanças climáticas naturais.

Essas condições também teriam espalhado os espetáculos de luzes deslumbrantes da aurora pelo mundo; por vezes as noites podiam ser tão claras quanto o dia.

Sugerimos que mudanças dramáticas e altos níveis sem precedentes de radiação ultravioleta levaram os primeiros humanos a buscar refúgio em cavernas, o que explica o aparente florescimento repentino da arte rupestre em todo o mundo há 42 mil anos.

O evento Adams

Devido à coincidência de eventos cósmicos aparentemente aleatórios e mudanças ambientais extremas encontradas em todo o mundo há 42 mil anos, chamamos esse período de "Evento de Adams", uma homenagem ao grande escritor de ficção científica Douglas Adams.

Adams escreveu "O Guia do Mochileiro das Galáxias" e identificou "42" como a resposta para a vida, o universo e tudo mais.

Douglas Adams realmente gostava de algo grande e o mistério que resta é como ele sabia disso.

* Este artigo foi escrito por Chris Fogwill, Professor de Glaciologia e Paleoclimatologia na Universidade Keele; Alan Hogg, acadêmico da Universidade de Waikato; Chris Turney, professor de Ciências da Terra e Mudanças Climáticas; e Zoë Thomas, membro do Australian Research Council. O artigo apareceu originalmente no The Conversation e é publicado aqui sob uma licença Creative Commons.

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sábado, 27 de fevereiro de 2021

Primeiro satélite totalmente brasileiro, Amazônia 1 será lançado neste domingo na Índia

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Equipamento foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, e levado para estação na Índia. O lançamento está previsto para às 1h54.  
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Por G1 Vale do Paraíba e Região  
27/02/2021 08h00 Atualizado há 2 horas
Postado em 27 de fevereiro de 2021 às 10h00m


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Primeiro satélite totalmente brasileiro, Amazônia 1 é lançado neste domingo na Índia — Foto: Divulgação/Governo Federal
Primeiro satélite totalmente brasileiro, Amazônia 1 é lançado neste domingo na Índia — Foto: Divulgação/Governo Federal

O primeiro satélite completamente brasileiro, o Amazônia 1, será lançado na madrugada deste domingo (28). O equipamento foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos, e levado para a Índia, onde vai ser lançado. O satélite é o terceiro a formar o sistema Deter e vai auxiliar na observação e monitoramento do desmatamento na região amazônica.

O Amazônia 1 é o primeiro satélite observação terrestre completamente projetado e operado pelo Brasil. O projeto começou há oito anos e teve investimento de R$ 400 milhões e envolvimento de diversos pesquisadores.

O satélite tem quatro metros de comprimento e no espaço vai ficar a uma altitude 752 quilômetros. Em órbita, ele vai tirar fotos em alta resolução de todo o território nacional e terá órbita com rota entre os polos norte e sul.

Do espaço, o equipamento vai enviar sinal para três estações de monitoramento no Brasil. Uma em Cuiabá (MT), a outra em Alcântara (MA) e a terceira em Cachoeira Paulista (SP), e todos os movimentos do satélite serão coordenados de uma outra estação, que fica no Inpe, em São José dos Campos.

Satélite Amazônia 1 será lançado na Índia
Satélite Amazônia 1 será lançado na Índia


Amazônia 1: satélite brasileiro do Inpe entra em fase final de testes antes de lançamento — Foto: André Luis Rosa/TV Vanguarda
Amazônia 1: satélite brasileiro do Inpe entra em fase final de testes antes de lançamento — Foto: André Luis Rosa/TV Vanguarda

Após oito anos para construção, com ameaças de paradas no projeto por falta de orçamento, ele foi concluído para testes em dezembro de 2020. No Inpe, o equipamento passou por uma bateria de análises até a liberação para transporte, no mesmo mês.

Foi montado um esquema de transporte com o satélite desmontado. Ele foi levado por um avião cargueiro e passou pelo Senegal antes de chegar a seu destino final, na Índia.

Satélite Amazônia 1 foi transportado para Índia em dezembro — Foto: André Rosa/TV Vanguarda
Satélite Amazônia 1 foi transportado para Índia em dezembro — Foto: André Rosa/TV Vanguarda

Inicialmente, o lançamento estava previsto para o dia 22 de janeiro, mas a data foi remarcada. A mudança foi feita a pedido da equipe de lançamento, que solicitou mais tempo para as etapas finais de preparação. Com isso, a data foi alterada para este domingo (28), às 1h54 da manhã, no horário de Brasília.

O Inpe vai transmitir o lançamento, com uma cerimônia online marcada para começar às 1h24 deste domingo. Embarcaram para acompanhar o envio do satélite o diretor do Inpe, Clézio de Nardin, e o Ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes.

Sede do Inpe fica em São José dos Campos — Foto: Wilson Araújo/TV Vanguarda
Sede do Inpe fica em São José dos Campos — Foto: Wilson Araújo/TV Vanguarda

Verba

Pouco antes do lançamento, o Inpe suspendeu as bolsas de 107 pesquisadores no instituto por falta de verba. A modalidade de bolsas cortadas é a PCI, que mantém pesquisadores em atividades de trabalho, não só pesquisa, dentro do instituto.

A medida atingiu sete pesquisadores do setor do Amazônia 1, envolvidos nas etapas finais e plano de vôo do lançamento. Sem recursos do Ministério da Ciência e Tecnologia, eles estavam impedidos de trabalhar e, com isso, o lançamento do equipamento estaria em risco.

Para manter a data, a Agência Espacial Brasileira (AEB) teve de intervir e custear as bolsas dos pesquisadores ligados ao satélite. Pouco antes de embarcar à Índia, o ministro Marcos Pontes afirmou que a verba será remanejada e as bolsas mantidas.

O G1 pediu ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) detalhes sobre a fala do ministro e aguardava retorno até a publicação da reportagem.

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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

'Metade fêmea, metade macho': pássaro raro é fotografado nos EUA

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Jamie Hill, que capturou as imagens impressionantes do cardeal-do-norte, disse que foi "um encontro único em sua vida". 
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TOPO
Por BBC  
25/02/2021 14h21  Atualizado há 21 horas
Postado em 26 de fevereiro de 2021 às 11h25m


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Jamie Hill disse que tirar fotos impressionantes do cardeal-do-norte foi "um encontro único em sua vida" — Foto: Jamie Hill
Jamie Hill disse que tirar fotos impressionantes do cardeal-do-norte foi "um encontro único em sua vida" — Foto: Jamie Hill

Um pássaro que parece ser metade fêmea e metade macho foi fotografado na Pensilvânia (EUA) por um observador que saiu correndo com sua câmera quando soube que uma amiga havia avistado o cardeal-do-norte (Cardinalis cardinalis).

Embora não seja um fato inédito, pássaros de sexo misto são raros.

Embora não seja inédito, pássaros de sexo misto são raros — Foto: Jamie Hill/BBC
Embora não seja inédito, pássaros de sexo misto são raros — Foto: Jamie Hill/BBC

Os cardeais-do-norte machos são vermelhos brilhantes, mas as fêmeas têm uma coloração marrom clara, sugerindo que este espécime pode ser uma mistura dos dois sexos.

O ornitólogo aposentado Jamie Hill, 69, disse à BBC que foi "um encontro único em sua vida".

Uma amiga de Hill lhe contou que tinha avistado um "pássaro incomum" no condado de Warren, no Estado da Pensilvânia (EUA).

Inicialmente, Hill se perguntou se o pássaro era leucístico — um termo que significa que o espécime teria uma perda de pigmentação em suas penas.

Mas depois de ver fotos de celulares, ele suspeitou que o animal tinha o que é chamado de ginandromorfismo, quando uma ave tem um ovário e um testículo funcionando.

Ele visitou a casa onde o cardeal havia sido visto. Ao longo de uma hora, foi capaz de fotografar o pássaro incomum.

"Depois de capturar as imagens, meu coração bateu forte pelas cinco horas seguintes, até que pudesse chegar em casa e processar as imagens para ver o que tinha conseguido", diz.

"Tenho procurado pelo extinto pica-pau-bico-de-marfim há quase duas décadas, e fotografar esta versão rara de um de nossos pássaros de quintal mais comuns, este cardeal-do-norte ginandromorfo, foi quase tão emocionante quando se eu realmente encontrasse o pica-pau e conseguisse fotografá-lo", acrescenta.

Jamie Hill observa pássaros há 48 anos — Foto: Jamie Hill
Jamie Hill observa pássaros há 48 anos — Foto: Jamie Hill

Aves metade fêmeas e metade machos são um fenômeno muito raro, explica à BBC o professor Brian Peer, da Western Illinois University (EUA), que pesquisou cardeais-do-norte ginandromorfos bilaterais (tipo de ginandromorfismo em que as regiões feminina e masculina ficam divididas na metade do corpo do animal) nos Estados Unidos.

Peer destaca que os cardeais-do-norte são pássaros muito comuns na América do Norte. Como o macho e a fêmea são tão diferentes na aparência, é mais fácil localizar um espécime ginandromorfo.

Mas, acrescenta, o fenômeno pode passar despercebido em algumas espécies.

Este possível cardeal-do-norte ginandromorfo não é o primeiro a ser visto na área — Foto: Jamie Hill/BBC
Este possível cardeal-do-norte ginandromorfo não é o primeiro a ser visto na área — Foto: Jamie Hill/BBC

"O ginandromorfismo bilateral é aparentemente causado por um erro durante a divisão celular", diz ele.

"Um óvulo e seu corpo polar associado são fertilizados por espermatozoides separados. O indivíduo resultante é uma quimera macho-fêmea", completa.

Este possível cardeal-do-norte ginandromorfo não é o primeiro a ser visto na área.

Em 2019, um casal avistou um pássaro semelhante nos arredores, de acordo com a revista National Geographic. Hill especula que o cardeal que viu poderia ser o mesmo.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Dólar: por que a moeda americana não cai no Brasil, na contramão do mundo

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Moeda brasileira trilhou caminho contrário às divisas de muitos países, inclusive emergentes, registrando forte desvalorização frente ao dólar no ano passado, apesar de recuperar-se um pouco nos últimos meses.
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TOPO
Por BBC
25/02/2021 09h01 Atualizado há 2 horas
Postado em 25 de fevereiro de 2021 às 11h05m


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Real registrou forte desvalorização frente do dólar no ano passado — Foto: Getty Images via BBC
Real registrou forte desvalorização frente do dólar no ano passado — Foto: Getty Images via BBC

Nunca antes na história dos Estados Unidos tantos dólares foram emitidos. A decisão do Fed (banco central dos EUA) de imprimir dinheiro foi tomada para combater os efeitos da recessão econômica causada pela pandemia de covid-19.

Paralelamente, a taxa de juros foi reduzida e hoje está próxima de zero. Quando isso acontece, o país tende a ficar "menos atraente" aos olhos dos investidores estrangeiros, que tendem a buscar outros mercados com retornos maiores sobre seu capital.

Como resultado, o dólar perdeu valor ante as principais moedas globais. Mas não frente ao real.

Na verdade, a moeda brasileira se provou uma exceção, trilhando um caminho contrário às divisas de outros muitos países, inclusive emergentes: registrou forte desvalorização frente ao dólar no ano passado e recuperou-se um pouco nos últimos meses.

A série de gráficos a seguir, elaborados por Henrique Castro e Claudia Yoshinaga, professores da Fundação Getulio Vargas (FGV), a pedido da BBC News Brasil, mostra o comportamento do real frente ao dólar em três períodos diferentes, de 31 de janeiro de 2020 a 29 de janeiro de 2021, de 31 de julho de 2020 a 29 de janeiro de 2021 e, por fim, de 30 de outubro de 2020 a 29 de janeiro de 2021.

Variação cambial frente ao dólar — Foto: Henrique Castro/Claudia Yoshinaga/BBC
Variação cambial frente ao dólar — Foto: Henrique Castro/Claudia Yoshinaga/BBC


Variação cambial frente ao dólar — Foto: Henrique Castro/Claudia Yoshinaga/BBC
Variação cambial frente ao dólar — Foto: Henrique Castro/Claudia Yoshinaga/BBC


Variação cambial frente ao dólar — Foto: Henrique Castro/Claudia Yoshinaga/BBC
Variação cambial frente ao dólar — Foto: Henrique Castro/Claudia Yoshinaga/BBC

Como se pode observar, no primeiro período, de 31 de janeiro de 2020 a 29 de janeiro de 2021, ou seja, desde o início da pandemia do coronavírus, o real perdeu quase 22% de seu valor frente à moeda americana, deixando para trás o limite "psicológico" de R$ 4 por dólar. Foi o pior desempenho entre as 30 moedas mais negociadas do mundo mais o peso argentino.

A partir de agosto, a sangria foi estancada, mas a moeda brasileira seguiu apresentando desvalorização em relação à americana, porém, menor, de cerca de 5%. Ainda assim, permaneceu como a de pior desempenho. E, por fim, nos últimos três meses, desde novembro, o real reverteu parcialmente a queda, valorizando-se em 5,6% ante a moeda americana. Ainda assim, sobre uma base anteriormente baixa.

Apesar disso, nos último dias, o dólar voltou a se apreciar em relação ao real. Na segunda-feira (21/02), a moeda americana abriu em forte alta depois após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) interferir no comando da Petrobras e indicar o general Joaquim Silva e Luna para comandar a estatal. Além disso, Bolsonaro disse um dia antes que vai "meter o dedo na energia elétrica", e que, "se a imprensa está preocupada com a troca de ontem, na semana que vem teremos mais".

Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, esse 'descolamento' do real das moedas de outros países, inclusive emergentes, se deveu principalmente a questões internas, como risco fiscal e as incertezas sobre a trajetória da dívida pública brasileira - ao passo que as reformas prometidas pelo governo, principalmente aquelas que melhoram as contas do governo, não foram aprovadas.

"Não há dúvida de que o fator doméstico preponderou no direcionamento da taxa de câmbio. Se não fossem esses problemas locais bastantes significativos, por causa da questão fiscal, era para a nossa taxa de câmbio estar bem abaixo de R$ 5 por dólar", diz à BBC News Brasil Silvio Campos Neto, economista e sócio da Tendência Consultoria, em São Paulo.

Claudia Yoshinaga, da FGV-SP, concorda. Ela acrescenta que as reformas prometidas pelo presidente Jair Bolsonaro, com exceção da da Previdência, não saíram do papel.

"A situação fiscal do Brasil é preocupante. Existia uma perspectiva de melhoria com a eleição de Bolsonaro, mas reformas aguardadas não se concretizaram, com exceção da da Previdência, que não cumpriu exatamente o que se esperava dela", assinala.

"No passado recente, tivemos a renúncia do presidente da Eletrobras, as privatizações que não saíram do papel… A discussão agora é sobre a prorrogação do auxílio emergencial, pois existe a preocupação de que esse benefício crie um rombo que o governo não vai conseguir tapar", acrescenta.

No início de fevereiro, o presidente Jair Bolsonaro sinalizou que o governo federal e o Congresso estão buscando formas de prorrogar o auxílio emergencial. As negociações apontam que ele voltará em quatro parcelas a serem pagas a partir de março ou abril deste ano. O benefício, lançado para ajudar pessoas em situação de vulnerabilidade durante a pandemia, acabou no final de 2020. Por meio dele, 67,9 milhões de beneficiários receberam parcelas de R$ 600 e depois R$ 300, ao custo de R$ 293 bilhões para os cofres públicos.

Além disso, por causa da pandemia, o governo teve que expandir gastos. O rombo nas contas do Tesouro foi de R$ 743 bilhões. Esse déficit ajudou a aumentar a dívida pública, que foi de 74,3% para 89,3% do PIB (Produto Interno Bruto, ou a soma dos bens e serviços produzidos por um país) em um ano.

E o governo precisará pagar 57% dessa fatura, de R$ 1,4 trilhão, até o 1º semestre deste anoNão é uma tarefa fácil. Segundo análise da IFI (Instituição Fiscal Independente) do Senado, o teto dos gastos públicos, aprovado em 2016 durante o governo de Michel Temer, corre riscos elevados de ser descumprido neste ano.

Tudo isso preocupa os investidores — e impacta evidentemente o comportamento do real frente ao dólar, assinalam os especialistas.

Segundo economistas, risco fiscal no Brasil teve impacto negativo na taxa de câmbio — Foto: Getty Images via BBC
Segundo economistas, risco fiscal no Brasil teve impacto negativo na taxa de câmbio — Foto: Getty Images via BBC

Futuro

Mas qual será o comportamento do dólar daqui em diante?

"O colapso do dólar apenas começou", disse Stephen Roach, professor da Universidade Yale, nos EUA, e ex-presidente do banco de investimentos Morgan Stanley na Ásia, à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Roach prevê que a moeda poderá cair mais de 35% até o final deste ano com base em três grandes motivos.

O primeiro é que há um aumento acentuado do déficit em conta corrente dos EUA, ou seja, o país paga mais no exterior pela troca de bens, serviços e transferências do que recebe. Sua projeção é de que esse déficit continue a impulsionar a queda da moeda.

A segunda é a valorização do euro, depois que os governos da Alemanha e da França concordaram com um pacote de estímulo fiscal, além da emissão de títulos. E a terceira é que Roach prevê que o Banco Central americano pouco faria para impedir a queda do dólar.

Com os EUA cada vez mais dependentes de capital estrangeiro para compensar seu crescente déficit de poupança interna, explica ele, e com as políticas adotadas pelo Fed que criam um grande excesso de liquidez, "o argumento para um forte enfraquecimento do dólar parece mais convincente do que nunca", argumenta.

Em relação aos efeitos que uma desvalorização do dólar tem sobre os mercados emergentes (como Brasil, México, Argentina, Colômbia, Peru ou Chile na América Latina), o especialista sugere que podem ocorrer aumentos em algumas bolsas desses países.

Enquanto o Federal Reserve não aumentar as taxas de juros, que é o que Roach presume que acontecerá, "a fraqueza do dólar deve causar aumentos nos mercados acionários estrangeiros em geral e nas ações dos mercados emergentes em particular."

"Sem exageros"

No entanto, outros economistas argumentam que, embora a moeda esteja um pouco fraca este ano, em nenhum caso um "crash" deve ser esperado.

"A queda do dólar não deve ser exagerada", escreveu Mark Sobel, presidente para os EUA do Fórum Oficial de Instituições Monetárias e Financeiras (OMFIF), no início de janeiro no site do centro de estudos.

Em sua visão, há uma perspectiva "desalentadora" para o dólar.

"O dólar pode cair neste ano, mas uma perspectiva muito negativa não se justifica", disse Sobel.

Um dos argumentos é que o dólar já caiu bastante (13% em 2020 em relação ao pico em março). Outra é que em meio às incertezas globais, não é tão certo que os investidores prefiram arriscar e apostar em outras moedas que não o dólar.

Paralelamente, Sobel também diz acreditar que pode haver condições monetárias relativamente mais favoráveis nos EUA e que o atual ciclo de dólar forte está simplesmente chegando ao fim. Ou seja, se as medidas de estímulo para a retomada da economia no país forem bem-sucedidas, muito provavelmente, o dólar pode voltar a se valorizar.

De fato, os juros de longo prazo nos EUA tiveram o maior aumento em um ano, indicando a possibilidade de que esse cenário se concretize.

Em linha com a visão de Sobel, Campos Neto, da Tendências Consultoria, diz não acreditar em uma forte queda do dólar. Falando sobre o Brasil, ele nota que "apesar das dificuldades que temos, a percepção é que vai se fazer o mínimo para solucionar esse problema (fiscal). Com isso, nossa taxa de câmbio pode se aproximar do que o fator externo sugere, uma taxa bem mais baixa", diz o economista, ressalvando "que todo esse risco fiscal gera muita volatilidade".

Sua previsão é ligeiramente melhor do que a do mercado, que calcula que o dólar fechará 2021 cotado a R$ 5,05.

Yoshinaga, da FGV-SP, lembra que o comportamento do real frente do dólar deve depender da taxa de vacinação do Brasil.

"Se a população é vacinada mais rapidamente, a atividade econômica tende a se recuperar também com mais rapidez e a situação do país melhora", diz. 
Quem ganha e quem perde

O real desvalorizado tem impacto não apenas no bolso de quem quer ou precisa comprar dólares ou de quem adquire produtos importados.

A indústria nacional consome uma série de insumos importados, como é o caso do segmento eletrônico. E há uma série de itens cuja formação de preços acaba sendo influenciada pelas cotações internacionais, como é o caso dos combustíveis e das commodities em geral.

O "dilema do arroz" é ilustrativa nesse sentido. A desvalorização — além da maior demanda internacional, que tende a elevar os preços — tende a aumentar a receita em reais de quem vende para fora. Assim, o produtor às vezes prefere exportar do que vender no mercado interno. A menor disponibilidade no mercado interno, por sua vez, empurra o preço para cima no mercado doméstico.

A mesma lógica vale para o milho, para a soja, para o açúcar… Essa dinâmica ajuda a explicar porque os alimentos subiram tanto de preço nos últimos meses.

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