--------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Estreito de Bab el-Mandeb (Portão das Lágrimas, na tradução livre), que garante acesso ao Mar Vermelho, se tornou ponto central na guerra dos EUA contra o Irã após ofensiva dos Houthis
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Brett H. McGurk, da CNN
Postado em 19 de Setembro de 2.026 às 12h00m
.#.* - Post. -- Nº.\ 12.525-- *.#.

Vista do Estreito de Bab el-Mandeb em 2 de abril de 2026 • Reuters
Antes dos conflitos atuais, essa passagem movimentava cerca de 30% do tráfego global de contêineres.
Carros, móveis, alimentos, energia — tudo isso passando por apenas cerca de aproximadamente 32 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito. Sem ele, os navios que viajam entre a Ásia e a Europa precisam contornar o sul da África e o Cabo da Boa Esperança, o que acrescenta milhares de milhas e dias de viagem, além de elevar os preços das mercadorias.
Leia Mais
O conflito em curso com o Irã concentrou as atenções no Estreito de Ormuz e na dependência mundial do fluxo de energia que passa por lá. O Irã tem atacado navios em Ormuz para aumentar a pressão sobre Washington, visando interromper a guerra e buscar a paz. É uma tática que o Irã aperfeiçoou anos atrás em Bab el-Mandeb — e que está pronto para repetir após uma nova ofensiva dos Houthis, grupo apoiado por Teerã no Iêmen, ocorrida na semana passada.
Bab el-Mandeb traduz-se literalmente como "Portão das Lágrimas". Algumas lendas atribuem o nome a antigos terremotos e inundações que separaram a África da Arábia, matando um número incalculável de pessoas. Seja qual for a origem precisa, o nome não remete a coisas boas.
Irã tira proveito da situação
Desde 1979, o governo revolucionário do Irã busca expandir sua ideologia e influência por todo o Oriente Médio, principalmente por meio do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica e de sua elite, a Força Quds — literalmente, "Força de Jerusalém" —, que treina e equipa grupos armados em toda a região.
O Hezbollah no Líbano. O Hamas e a Jihad Islâmica Palestina em Gaza. Milícias no Iraque que atacaram repetidamente forças americanas, Israel e a Arábia Saudita. E, cada vez mais, os Houthis no Iêmen.
A estratégia é simples: construir redes armadas em Estados frágeis ou fragmentados, conferindo a Teerã profundidade estratégica e poder de barganha sem precisar lutar diretamente.
Os Estados Unidos, Israel e as parcerias regionais lideradas pelos EUA — particularmente com a Arábia Saudita — têm sido alvos centrais há muito tempo.
O Iêmen, situado diretamente ao sul da Arábia Saudita, foi dividido entre Norte e Sul durante a Guerra Fria, sendo unificado apenas em 1990. No entanto, a unificação nunca resolveu plenamente as profundas divisões políticas, tribais e regionais.
O movimento Houthi surgiu no norte do Iêmen, entre o final da década de 1980 e a década de 1990, a partir de um movimento de revitalização do Islã xiita zaidita. Sob a liderança de Hussein al-Houthi, o grupo tornou-se político e militante, travando sucessivas guerras contra o governo central do Iêmen.
Mais tarde, o grupo adotou o nome Ansar Allah e um slogan oficial de inspiração iraniana que não tinha nada de sutil:
“Deus é grande. Morte à América. Morte a Israel. Malditos sejam os judeus. Vitória ao Islã.”
Em 2014, os Houthis tomaram a capital do Iêmen, Sanaa, forçando o governo a recuar para o sul e desencadeando, por fim, uma intervenção militar liderada pela Arábia Saudita.
O Irã não criou os Houthis, que mantêm seus próprios interesses e ambições. Contudo, o fornecimento de armas, componentes de mísseis, drones, treinamento e expertise técnica pelo Irã ajudou a transformar uma insurgência local em uma força de relevância global.
Mudança nas políticas dos EUA
Pouco antes de Joe Biden assumir o cargo, a questão do Iêmen era uma prioridade urgente.
A Casa Branca recebeu ligações de senadores, organizações humanitárias e ativistas instando-nos a fazer o que fosse necessário para acabar com a guerra.
A guerra civil entrava em seu sétimo ano, e a situação humanitária era terrível, especialmente nas áreas controladas pelos Houthis, que canalizavam recursos para o conflito enquanto dependiam de organizações internacionais para sustentar a população civil sob seu controle.
O presidente dos EUA, Donald Trump, havia classificado os Houthis como uma Organização Terrorista Estrangeira. Grupos de ajuda humanitária alertaram que tal medida colocava em risco jurídico as operações de assistência e poderia agravar a crise humanitária, já intensificada pelos ataques aéreos sauditas contra os Houthis em Sanaa e outras áreas sob seu domínio.
Em resposta, o governo Biden revogou essa classificação, encerrou o apoio dos EUA a operações ofensivas sauditas — incluindo certas vendas de armas — e nomeou um enviado especial para buscar um cessar-fogo e uma solução política.
Quase simultaneamente, as forças armadas dos EUA retiraram recursos da região, removendo sistemas de defesa aérea da Arábia Saudita e retirando contratorpedeiros e grupos de ataque de porta-aviões do Oriente Médio.
O foco de Washington voltou-se para a diplomacia, mas sem o respaldo do poder coercitivo que muitas vezes é necessário para o sucesso da diplomacia. Enquanto os EUA recuavam, o Irã intensificava sua atuação.
O país forneceu suprimentos aos Houthis por meio de rotas de contrabando marítimas e terrestres. Integrantes do Irã e do Hezbollah também ajudaram a montar e fabricar armamentos sofisticados, à medida que os ataques Houthis contra a Arábia Saudita se intensificavam.
Em abril de 2022, os Estados Unidos ajudaram a intermediar uma trégua, viabilizada em parte pela visita do presidente Biden à Arábia Saudita naquele verão. Havia a esperança de que a trégua pudesse abrir caminho para um acordo político mais duradouro.
Em retrospecto, no entanto, a trégua acabou favorecendo os Houthis. O Irã continuou a treinar e equipar seu grupo aliado para utilizá-lo em uma estratégia regional mais ampla.
7 de outubro: a entrada dos Houthis no conflito
Em 2023, logo após os ataques do Hamas em 7 de outubro e a resposta de Israel em Gaza, grupos armados aliados ao Irã entraram no conflito a partir de várias frentes.
O Hezbollah realizou disparos a partir do Líbano, enquanto milícias apoiadas pelo Irã no Iraque e na Síria atacavam forças americanas, chegando a matar cidadãos dos EUA.
Do Iêmen, os Houthis lançaram mísseis balísticos e drones contra Israel e atacaram navios comerciais no Mar Vermelho e no estreito de Bab al-Mandeb. Alegando pressionar Israel por causa de Gaza, eles atacaram, na verdade, navios que não tinham qualquer relação com o conflito, com o objetivo de perturbar uma importante rota comercial.
Em 10 de janeiro de 2024, um diplomata americano de alto escalão se reuniu secretamente com autoridades iranianas em Omã para tentar conter a escalada regional.
Na noite anterior, os Houthis haviam realizado seu maior ataque até então contra navios comerciais e forças navais lideradas pelos EUA no Mar Vermelho, utilizando drones, mísseis de cruzeiro antinavio e mísseis balísticos. Foi o maior ataque contra a Marinha dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial.
Não houve baixas apenas graças à competência dos marinheiros e aos avançados sistemas de defesa antimíssil.
A mensagem do Irã era clara: o país apoiaria suas ambições regionais e sua diplomacia com ataques contra nós, ao mesmo tempo em que negava responsabilidade direta.
A reunião em Omã não obteve sucesso.
Na noite seguinte, o presidente Biden ordenou os primeiros grandes ataques dos EUA contra alvos militares Houthis, com o apoio do Reino Unido, Austrália, Bahrein, Canadá e Países Baixos. A campanha prosseguiu, de diversas formas, por mais de um ano.
Lições duras
Washington aprendeu da maneira mais difícil que a calmaria no Iêmen escondia uma mudança estratégica significativa.
Durante os anos em que a guerra civil esteve praticamente paralisada, o Irã ajudou a criar uma força armada capaz não apenas de ameaçar a Arábia Saudita ou de combater em uma guerra civil dentro do Iêmen, mas também de alcançar Israel e manter o comércio global refém sempre que desejasse, bloqueando o estreito de Bab al-Mandeb.
No ano passado, o presidente Trump restabeleceu a classificação dos Houthis como terroristas e intensificou os ataques dos EUA contra o grupo. Após sete semanas de ataques americanos, Omã mediou um entendimento: os Estados Unidos parariam de bombardear alvos Houthis e o grupo deixaria de atacar embarcações dos EUA.
O acordo não abrangia Israel nem a Arábia Saudita, mas parecia impor certa calmaria. Por algum tempo.
Novo ataque surpresa
Então, na semana passada, o cenário mudou novamente.
Em uma ofensiva rápida ao longo da costa do Iêmen no Mar Vermelho, forças Houthis conquistaram novas posições com vista direta para o estreito de Bab al-Mandeb. Em seguida, segundo relatos, elas avançaram para a ilha de Mayyun — também conhecida como Perim —, situada no meio do estreito.
Nic Robertson, da CNN, havia acabado de visitar a região e relatado sua vulnerabilidade.
Agora, armas convencionais dos Houthis — artilharia e foguetes — podem atingir navios, e não apenas drones e mísseis de longo alcance.
Ainda não é um novo "status quo"
Por enquanto, navios continuam passando por Bab al-Mandeb. Trump afirmou que os Houthis alegam não querer um confronto conosco e que permitirão a passagem das embarcações.
No entanto, os Houthis não precisam fechar o estreito amanhã. Sua capacidade de manter a passagem sob ameaça confere a Teerã um trunfo adicional.
Será esse o novo *status quo*?
Não necessariamente. As linhas de frente no Iêmen mudam com frequência. Há relatos de que forças governamentais preparam um contra-ataque e de que Washington pode fornecer informações de inteligência.
O comandante do CENTCOM (Comando Central dos EUA), Almirante Brad Cooper, esteve recentemente na Arábia Saudita para avaliar a situação.
Seja qual for o desdobramento, os Houthis lembraram ao mundo mais uma vez que estão posicionados para permanecer — com o apoio direto do Irã — como um fator imprevisível em qualquer disputa regional por poder e influência.
E Washington nunca mais deve confundir calmaria com paz.


Nenhum comentário:
Postar um comentário