Entre elas estão a atualização até 2022 das metas de redução de
emissões de gases de efeito estufa e a eliminação gradual dos subsídios
que reduzem artificialmente o custo de combustíveis fósseis como carvão,
petróleo e gás natural.
Um relatório publicado na última semana sobre o impacto do conflito
causado pela invasão russa ao território ucraniano no combate às
mudanças climáticas aponta a existência de uma espécie de "febre do
ouro" global para a construção de infraestruturas de produção,
transporte e processamento de combustíveis fósseis, em especial gás
natural liquefeito (GNL).
O documento foi elaborado pelo Climate Action Tracker (CAT, na sigla em
inglês), projeto independente que monitora as ações dos governos para
enfrentar as mudanças climáticas e as contextualiza com o objetivo
estabelecido pelo acordo de Paris de "manter o aquecimento bem abaixo de
2°C e fazer esforços para limitar o aquecimento a 1,5°C".
O relatório destaca, por exemplo, os planos de construção de novas
usinas de GNL na Alemanha, na Itália, na Grécia e na Holanda, enquanto
países como Estados Unidos, Canadá, Catar, Egito e Argélia planejam
aumentar suas exportações do combustível.
Em paralelo, muitos países produtores de combustíveis fósseis
incrementaram a produção e governos em mais de uma dezena de países
desenvolvidos estão reduzindo impostos sobre o consumo de combustível ou
de energia, incentivando, assim, o consumo.
A ideia de aumentar o consumo de combustíveis fósseis para responder à
atual crise energética foi questionada na terça-feira (14/6) pelo
secretário-geral da ONU, António Guterres, que argumentou que investir
recursos em carvão, petróleo ou gás para enfrentar as consequências da
guerra na Ucrânia é "ilusório".
A BBC News Mundo (serviço em língua espanhola da BBC) conversou com
Niklas Höhne, especialista do NewClimate Institute, organização sem fins
lucrativos com sede em Berlim que é parte do consórcio que elabora o
CAT, sobre os achados do estudo e sobre as necessidades que existem hoje
no contexto do combate às mudanças climáticas.
BBC
News Mundo - O Climate Action Tracker elaborou um estudo sobre a
resposta global à guerra da Ucrânia na perspectiva do combate às
mudanças climáticas. Quais as conclusões?
Niklas Höhne -
No momento há governos que estão tratando de fazer as coisas de maneira
diferente por causa da crise energética. Têm que responder à atual
situação em que não podem seguir importando combustíveis fósseis da
Rússia.
E eles podem fazer duas coisas: tentar obter combustível de outro lugar
ou trabalhar para aumentar a eficiência e aproveitar melhor a energia
renovável.
Infelizmente, descobrimos que a maioria dos países está passando por
uma espécie de "febre do ouro" em busca de novas infraestruturas em
torno dos combustíveis fósseis, novos gasodutos de gás natural
liquefeito (GNL), novos portos de GNL e novos campos de óleo e gás.
Isso é muito contraproducente para a política de combate à mudança
climática porque, uma vez construída essa infraestrutura, ela será usada
por várias décadas e nos prenderá a um futuro com muito carbono.
BBC News Mundo - Por que as novas infraestruturas seriam usadas por várias décadas?
Höhne - A
questão sobre as novas infraestruturas é que é caro construir um
gasoduto, por exemplo, e isso significa que, uma vez que você o
constrói, os investidores vão querer usá-lo por décadas.
O problema é que queremos reduzir o consumo de gás para zero
globalmente até meados do século — e se agora construirmos uma nova
infraestrutura, essa redução será muito difícil. Esses investimentos nos
vincularão a altas emissões de gases de efeito estufa ou acabarão como
ativos ociosos.
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Para importar GNL, os países precisam de terminais portuários
construídos especificamente para este fim — Foto: BBC/GETTY IMAGES
BBC
News Mundo - O senhor se mostra preocupado com a construção dessas
novas infraestruturas. Mas de que outras maneiras os governos estão
trabalhando contra as metas climáticas em meio à crise atual?
Höhne - O
principal problema é a infraestrutura, mas há outra questão - quase
todos os governos que avaliamos têm acenado aos consumidores com
reduções de impostos sobre combustíveis fósseis. Isso não é uma boa
ideia.
Entendo que os governos queiram ajudar os consumidores e a indústria,
mas devem apoiar apenas aqueles que realmente necessitam, mais para a
população pobre ou para a indústria que está realmente em perigo.
Mas o que estão fazendo é reduzir os impostos sobre os combustíveis
fósseis [de maneira ampla], reduzindo assim os custos para todos os
cidadãos e empresas petrolíferas, mesmo aqueles que podem pagar e que
podem abandonar os combustíveis fósseis. Isso também não é uma boa
ideia.
BBC
News Mundo - Mas no contexto atual, em que a inflação e os preços da
energia estão tão altos, quais são as alternativas para os governos?
Muitas pessoas hoje têm dificuldade de encher o tanque para ir
trabalhar. Existe alguma solução viável?
Höhne -
Sim, se a ideia é compensar o aumento dos preços de energia, então
deve-se compensar as famílias mais pobres, e não as mais ricas.
Alguns sugeriram uma política de compensação com base per capita, para
que cada pessoa recebesse a mesma quantia. Outros dizem que é melhor
passar pelo sistema tributário, para que a população pobre receba um
incentivo fiscal adicional ou dinheiro extra no bolso, o que
definitivamente seria possível e seria uma opção melhor.
A verdadeira solução a longo prazo, entretanto, é economizar energia e
usar mais energia renovável. Economizar energia é sempre uma opção
lucrativa.
Por exemplo, dirigir mais devagar, diminuir um pouco o aquecimento no
inverno, restringir o acesso de carros às cidades para que as pessoas
usem o transporte público. Subsidiar mais o transporte público para que
as pessoas não usem carros, mas sim transporte coletivo — são muitas as
opções para os governos ajudarem seus cidadãos e empresas nesta crise.
BBC
News Mundo - No relatório, o senhor aponta que a maioria dos países
ocidentais procurou reduzir ou parar completamente de comprar
combustíveis fósseis da Rússia, e muitos anunciaram metas ambiciosas
para a transição para fontes de energia renováveis, como eólica e solar.
Isso não é bom para a luta contra as mudanças climáticas?
Höhne -
Sim, há coisas que alguns países estão fazendo bem. Vários aumentaram
suas metas para energia renovável e alguns também introduziram subsídios
para o transporte público.
Tudo bem, mas estamos tão atrasados na política climática e
precisamos cortar as emissões tão drasticamente que não temos tempo para
cometer erros.
A Agência Internacional de Energia diz que, a partir de agora, não
devemos investir em nenhuma nova infraestrutura de combustíveis fósseis.
E se agora vemos uma "corrida do ouro" em investimentos em
infraestrutura de energia de combustíveis fósseis, isso seria um
problema sério nesse sentido.
Neste momento, devemos usar o mesmo dinheiro, esforço e tempo para
impulsionar a eficiência energética e energia renovável, e não expandir a
infraestrutura de combustíveis fósseis.
BBC News Mundo - Mas é realmente possível aproveitar no curto prazo as fontes renováveis para resolver a crise atual?
Höhne - Bom,
a expansão das energias renováveis não é rápida, mas a construção de
um novo gasoduto ou a construção de um novo terminal de GNL também não.
Na essência, é o mesmo problema.
O mais rápido é reduzir o consumo de energia — dirigindo mais devagar
ou diminuindo o aquecimento. Isso seria muito rápido, mas infelizmente
muitos governos não estão usando essa opção.
BBC
News Mundo - O relatório do CAT não menciona a China, o maior
consumidor de energia do mundo. Qual sua opinião sobre a resposta de
Pequim a esta crise?
Höhne -
Acho que a China tem sido um pouco menos afetada pela crise. O país tem
algum comércio de energia com a Rússia, mas não é tão dependente quanto
a Europa.
A China também está pensando em aumentar suas metas para energia
renovável. Isso seria bom. Mas, ao mesmo tempo, tem considerado comprar
petróleo e gás mais baratos da Rússia. Em condições de mercado, até
poderia ser, mas por outras razões isso não seria um bom sinal.
A China é muito importante do ponto de vista climático. É responsável
por um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, e o que
acontece lá é muito importante para as emissões globais e o clima do
planeta.
BBC News Mundo - E a América Latina? Não há menção a países latino-americanos no relatório.
Höhne - Não. Atualmente, as exportações de GNL e gás estão mais concentradas na América do Norte, África e Ásia.
Mas há outra coisa positiva que vimos: alguns governos estão fazendo
acordos para fornecer ou comprar hidrogênio verde. Acho que é uma nova
oportunidade. Pensávamos que isso aconteceria em cinco anos ou mais, mas
já está acontecendo agora. Portanto, há uma aceleração que é boa.
A América Latina tem muito potencial para energia renovável. Poderia
pensar em exportar hidrogênio verde feito a partir de energia renovável e
vendê-lo para a Europa ou outras regiões, e acho que seria uma boa
oportunidade de negócio.
BBC News Mundo - O senhor tem outras recomendações ou soluções alternativas para esta crise?
Höhne -
Tem mais uma coisa. Muitas empresas de combustíveis fósseis estão tendo
lucros recordes porque os preços da energia estão altos, enquanto os
custos de produção permanecem os mesmos.
Alguns governos começaram a tributar esses lucros adicionais e investir
os recursos arrecadados em energias renováveis. Apenas alguns,
entretanto, o fizeram — e essa poderia ser outra medida tomada pelos
governos neste momento.
- Este texto foi originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/geral-61805434
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