No entanto, durante a vida, esses indivíduos não apresentaram qualquer
sintoma da doença. Mas o que poderia estar por trás disso?
"Eles tinham uma reserva cognitiva grande o suficiente para compensar
os danos e continuar funcionando normalmente", afirma a Harvard Health
Publishing, publicação da escola de medicina da Universidade Harvard
(EUA) no artigo "O que é reserva cognitiva?".
Um outro estudo também apontou que pessoas com maior reserva cognitiva
podem evitar mais os sintomas de alterações cerebrais degenerativas
associadas à demência ou outras doenças cerebrais, como Parkinson,
esclerose múltipla ou acidente vascular cerebral.
Isso é uma boa notícia, e fica ainda mais positiva porque é possível,
ao longo da vida, tentar construir uma forte "reserva cognitiva" para
fortalecer as redes do cérebro.
Mas como?
Entre as reservas
Segundo Manuel Vázquez Marrufo, professor do departamento de psicologia
experimental da Universidade de Sevilha (Espanha), reserva cognitiva é o
que se chama de "construto" em psicologia e neurociência. Ou seja, um
conceito usado para tratar de uma teoria, mesmo que “não se saiba ao
certo quais correlatos fisiológicos estão realmente por trás disso".
O especialista define a reserva cognitiva como “uma espécie de
propriedade” que temos – um produto da experiência – e que “nos protege
efetivamente contra lesões que ocorrem no cérebro”.
Para a publicação de Harvard, é “a capacidade do nosso cérebro de
improvisar e encontrar formas alternativas de fazer tarefas”.
Vásquez explica à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) que o
cérebro possui mecanismos de plasticidade, baseados principalmente em
fatores genéticos, que permitem uma compensação quando sofremos, por
exemplo, uma lesão ou trauma.
Isso se chama reserva cerebral e está mais relacionado à capacidade do
cérebro de gerar novos neurônios, com a força da sinapse, com “o
hardware do cérebro”, com sua estrutura.
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Reserva cerebral está mais relacionada à capacidade do cérebro de gerar novos neurônios — Foto: Getty Images via BBC
A reserva cognitiva, por sua vez, é tida como o que se acumula através
de nossas atividades diárias e tem mais a ver com a atividade cognitiva
que foi desenvolvida desde o nascimento.
Dessa forma, uma combinação do que você tem em sua reserva cerebral e o
que você tem em sua reserva cognitiva deve ser determinante para "como o
cérebro lidará com lesões ou doenças neurodegenerativas", diz Vázquez.
É algo que também sugere o estudo "Questionário de reserva cognitiva:
propriedades psicométricas na população argentina", publicado na Revista
de Neurologia:
"Para o mesmo dano cerebral em dois pacientes com a mesma reserva
cerebral, o paciente com maior reserva cognitiva poderá tolerar melhor o
dano e retardar as manifestações clínicas.
Em outras palavras, reserva cognitiva designa o conjunto de recursos
cognitivos que uma pessoa consegue adquirir ao longo de sua vida, e que
conferem proteção contra o envelhecimento e lesões cerebrais".
No livro “Reserva Cognitiva: Teoria e Aplicações”, Yaakov Stern,
professor de neuropsicologia da Universidade Columbia (EUA), afirma que a
reserva cerebral é um exemplo do que poderíamos chamar de “modelo de
reserva passivo”, que deriva do tamanho do cérebro e da contagem neural.
“Por outro lado, o modelo de reserva cognitiva sugere que o cérebro
tenta ativamente lidar com danos cerebrais por meio de abordagens de
processamento cognitivo pré-existentes ou de abordagens compensatórias.”
O neurocientista, que tem estudado a reserva cognitiva por décadas,
busca entender “por que alguns indivíduos apresentam mais déficit
cognitivo que outros com o mesmo grau de patologia cerebral”.
“Minha própria pesquisa, ao lado de outros pesquisadores, tem
demonstrado que aspectos da experiência de vida, como realizações
educacionais ou ocupacionais, podem oferecer uma reserva contra a
patologia cerebral, permitindo que algumas pessoas se mantenham
funcionais por mais tempo que outras.”
Em seu livro, Stern diz que a “variabilidade individual na reserva
cognitiva pode se originar de diferenças inatas ou genéticas ou de
experiências de vida”.
O estudo das freiras
Em 1986, um jovem epidemiologista chamado David Snowdon abordou freiras
em um convento em Minnesota (EUA) para realizar um estudo que buscava
examinar os mistérios do envelhecimento e da doença de Alzheimer.
O estudo, que durou vários anos, é considerado um dos esforços mais
inovadores para entender a doença e entrou para a história como o Estudo
das Freiras.
Quase 700 freiras participaram e receberam testes de memória e cognitivos todos os anos.
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Estudo histórico com freiras trouxe pistas de como funciona a reserva cognitiva — Foto: Getty Images via BBC
"Irmã Mary, o padrão-ouro para o Estudo das Freiras, foi uma mulher
notável que obteve altas pontuações em testes cognitivos antes de sua
morte aos 101 anos de idade.
O mais notável é que ela manteve esse nível alto, apesar de ter
abundantes emaranhados neurofibrilares e placas senis, as lesões
clássicas da doença de Alzheimer", escreveu Snowdon.
O estudo teve um momento crucial quando a equipe de pesquisadores
encontrou um arquivo cheio de diários escritos pelas irmãs quando
entraram na ordem, o que rendeu o documentário da BBC Aging with Grace
(Envelhecendo com Graça, em tradução livre).
“A equipe descobriu que as irmãs que usavam frases e ideias mais complexas eram menos propensas a desenvolver Alzheimer.”
À medida que morriam, o cérebro de cada irmã foi analisado para obter
mais informações e essas amostras agora estão armazenadas na
Universidade de Minnesota.
Educação e entretenimento
Em 2017, um estudo internacional encomendado pela prestigiosa revista
científica The Lancet sobre prevenção e tratamento da demência descobriu
que indivíduos que continuam aprendendo ou treinando ao longo da vida
têm maior probabilidade de desenvolver as reservas cognitivas adicionais
desejadas.
Acredita-se que existam fatores externos que podem melhorar nossa
reserva cognitiva e não se trata apenas de educação e trabalho, mas de
estímulo às atividades recreativas da vida diária.
"A influência do meio ambiente é fundamental", diz Vásquez.
"Na neurociência e na psicobiologia, sabemos que os genes determinam
muitos aspectos do sistema nervoso, mas o ambiente também modula essa
construção."
"Vai depender de suas atividades, desses fatores externos que você
promoveu, que vão gerar reservas em alguns elementos cognitivos, como:
memória e linguagem."
O especialista ressalta que sempre foi dado um peso muito importante à
educação formal, ao aprendizado de diferentes tipos de conceitos e
disciplinas acadêmicas.
“Mas há muito debate sobre se as atividades da vida diária, como ler e
tocar um instrumento, podem ajudar na reserva cognitiva.”
"Há até resultados que sugerem que sua contribuição para a reserva
cognitiva é ainda maior do que a própria educação, não importa quantas
horas gastemos nela."
Isso é "uma controvérsia" em si, reconhece o professor, "mas o que está
claro é que as pessoas que mantêm a mente ocupada sempre aumentarão
essa reserva cognitiva e lidarão muito melhor com a deterioração do
envelhecimento".
E não necessariamente se refere a doenças neurodegenerativas, mas a outros desafios que possam surgir.
A publicação médica de Harvard indica que uma reserva cognitiva mais
forte também pode nos ajudar a “funcionar melhor por mais tempo se
expostos a eventos inesperados da vida, como estresse, cirurgia ou
toxinas ambientais”.
Vásquez, especialista em esclerose múltipla, viu como em jovens "ter
uma atividade cognitiva diária, como ler, desenvolver uma página na web,
fazer um blog pode ser positivo para lidar com a possível deterioração
cognitiva causada por doenças".
Nunca é tarde
Não importa a idade, tudo indica que a reserva cognitiva pode ser fortalecida e enriquecida.
Daí a importância de continuarmos a realizar na velhice atividades que
nos façam exercitar a memória, a atenção, a linguagem e outros aspectos
importantes ligados à reserva.
"Isso está nos protegendo do declínio cognitivo natural que ocorre com o envelhecimento", diz o acadêmico.
E quanto mais rápido você começar, melhor.
Por exemplo, tocar um instrumento musical “envolve recrutar novas
estruturas cerebrais ou pelo menos tentar fazer com que algumas que não
estavam sendo totalmente usadas sejam mais usadas”.
O bilinguismo e o falar em vários idiomas também podem ser benéficos para a reserva cognitiva.
O Centro de Diagnóstico e Intervenção Neurocognitivo de Barcelona
(Espanha), especializado em doenças neurodegenerativas e distúrbios
cognitivos, indica que práticas diárias saudáveis que ajudam a manter
uma mente ativa “são fatores potencialmente favoráveis para o
desenvolvimento da reserva cognitiva”.
E propõe algumas diretrizes:
- A leitura, pois estimula não só a atenção e a concentração, mas também a memória e a linguagem.
- Aprender
algo novo, pois ao fazê-lo não há apenas um estímulo cognitivo e uma
aquisição de novos recursos e ferramentas, "mas ao mesmo tempo gera
novas conexões sinápticas que favorecerão a plasticidade cerebral diante
das mudanças que possam ocorrer no o futuro".
- Levar uma vida social ativa.
- Não
pare de jogar, sejam jogos de tabuleiro, palavras cruzadas completas ou
as diferentes alternativas encontradas na internet. A chave é que “eles
nos permitem trabalhar habilidades como organização, planejamento,
tomada de decisão ou iniciativa, por exemplo”.
- Altere rotinas.
Embora as rotinas confiram estabilidade às nossas vidas, “automatizar
atividades diminui a ativação cerebral, pois quando repetimos tarefas, o
aprendizado diminui e a ativação cerebral é cada vez menor”. Então, às
vezes vale a pena quebrar um hábito.
Embora, como alerta o livro produzido por Stern, a reserva cognitiva
seja um conceito complexo e mais pesquisas sejam necessárias para
ampliar nossa compreensão sobre ele, é essencial ajudar o cérebro a se
manter saudável para enfrentar percalços de saúde.
Outras várias das recomendações já são bem conhecidas: não fume, faça
exercícios regularmente, mantenha um peso saudável, trate a pressão alta
e o diabetes, durma o suficiente.
Uma vida ativa sem excessos é apreciada não só pelo corpo, mas também pelo cérebro.