Com 8.850 quilômetros, a floração de algas marinhas, conhecida como o
"grande cinturão de sargaço (sargassum) do Atlântico", foi a maior já
registrada.
Pesquisadores que analisaram imagens de satélite estimaram sua massa em
mais de 20 milhões de toneladas — mais pesada do que 200 porta-aviões
completamente carregados.
Embora o evento de 2018 tenha sido recorde, a proliferação de sargaço
gera incômodo há alguns anos no Atlântico, uma vez que prejudica a
biodiversidade costeira, a pesca e a indústria do turismo no Caribe e no
México. Barbados, por exemplo, declarou estado de emergência nacional
em junho de 2018, depois que sua costa foi tomada pelo sargaço.
"2011 foi um ponto de inflexão. Antes, não víamos muito sargaço. Depois
disso, estamos vendo florações de sargaço enormes e recorrentes na
região central do Atlântico", diz Mengqiu Wang, da University of South
Florida, uma das integrantes da equipe que descobriu a proliferação de
algas no Atlântico em 2018. As florações são maiores em junho e julho,
segundo ela.
E é um problema que parece estar piorando no Atlântico. Depois de
analisar 19 anos de dados de satélite, pesquisadores da University of
South Florida, nos EUA, descobriram que desde 2011 a floração de sargaço
acontece anualmente e está crescendo em tamanho.
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Moradores de cidades costeiras mexicanas enfrentam a difícil tarefa de
tentar limpar os montes de sargaço manualmente — Foto: Getty Images
Outros pesquisadores, como Elizabeth Johns, da Administração Nacional
Oceânica e Atmosférica dos EUA, concordam que 2011 foi um ponto de
virada para o sargaço no Atlântico, sugerindo que as florações futuras
serão provavelmente ainda maiores.
De fato, um navio de pesquisa no Caribe registrou concentrações de
sargaço 10 vezes maiores no outono de 2014 do que no episódio de 2011 — e
300 vezes maiores do que qualquer outro outono nos últimos 20 anos, de
acordo com uma pesquisa realizada pela cientista marinha Amy Siuda e
seus colegas da Sea Education Association (SEA), da instituição Woods
Hole Oceanographic, em Massachusetts, nos EUA.
Embora as causas exatas da proliferação ainda não tenham sido
descobertas, a equipe de Wang acredita que uma série de fatores
ambientais estão contribuindo para a explosão de sargaço. Entre eles,
correntes marítimas e padrões de vento anormais ligados às mudanças
climáticas.
Acredita-se que a destruição da floresta Amazônica também tenha alimentado o crescimento do sargaço. À medida que grandes áreas da floresta tropical são desmatadas, são substituídas por terras agrícolas altamente fertilizadas.
O fertilizante acaba no rio Amazonas e por fim no Atlântico, onde
inunda o oceano com nutrientes como nitrogênio. Registros mostram que
durante a grande floração de 2018, houve níveis mais elevados de
nutrientes na região central do Atlântico onde o sargaço cresce, em
comparação com 2010, acrescenta Wang.
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Em águas abertas, o sargaço oferece um habitat essencial para peixes e
outros animais marinhos — mas quando se acumula na costa, pode
dificultar a desova das tartarugas — Foto: Getty Images
Quando se dispersa em águas abertas, o sargaço — às vezes chamado de
"floresta tropical dourada flutuante" — serve como um importante viveiro
para filhotes de tartaruga e um refúgio para centenas de espécies de
peixes.
O problema surge quando o sargaço chega às praias e começa a apodrecer,
emitindo sulfeto de hidrogênio — um gás que cheira a ovo podre.
"É uma boa vegetação no oceano, na praia se transforma em algo ruim", explica Wang.
O cheiro forte e a aparência desagradável estão afastando os turistas
dos resorts à beira-mar no Caribe e na península de Yucatan, no México —
um duro golpe para a economia da região, que depende muito do turismo.
Em 2018, Laura Beristain Navarrete, prefeita da cidade costeira de
Playa del Carmen, no México, disse a um jornal local que o número de
turistas na região havia caído em até 35% devido ao sargaço.
Remover as algas das praias é um processo caro e demorado. Em 2019, o
presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, estimou o custo da
limpeza de todo o sargaço naquele ano em US$ 2,7 milhões — e convocou a
Marinha do país para ajudar.
Além do impacto catastrófico no turismo, o sargaço também é um problema
de saúde pública, segundo Wang. Quando se decompõe, ele atrai insetos
que podem causar irritação na pele; e a exposição ao sulfeto de
hidrogênio tem sido associada a sintomas neurológicos, digestivos e
respiratórios.
As algas encalhadas também representam uma séria ameaça à vida marinha
selvagem. As enormes pilhas de sargaço impedem que as tartarugas façam
ninhos e prendem golfinhos e peixes nos recifes de coral.
"O sargaço pode sufocar recifes de coral ao cobri-los e dizimar viveiros de tartarugas",
afirma Mike Allen, cientista marinho da Universidade de Exeter, no
Reino Unido, que desenvolveu uma maneira barata de converter sargaço em
biocombustíveis e fertilizantes sustentáveis.
Allen e uma equipe de pesquisadores das universidades de Exeter e Bath,
também no Reino Unido, desenvolveram um processo chamado liquefação
hidrotérmica (HTL, na sigla em inglês), que usa alta pressão e
temperatura para dividir a biomassa úmida em quatro componentes.
São eles: um bio-óleo que pode ser transformado em biodiesel; compostos
orgânicos solúveis em água usados para produzir fertilizantes;
dióxido de carbono (que os pesquisadores dizem que pretendem capturar em
vez de liberar na atmosfera); e carvão, um material sólido que contém
todos os metais presentes nas algas, que a equipe também planeja
recuperar em uma futura etapa.
"Eu comparo isso com 'geologia em uma lata'", diz Allen.
"Como as pressões e temperaturas são muito altas, podemos colocar
praticamente qualquer coisa lá. Podemos converter plástico junto com a
biomassa [de sargaço] no mesmo processo", acrescenta. Ou seja, as redes
de pesca de nylon emaranhadas nos recifes de coral também são
transformadas em fertilizantes.
No entanto, há algumas desvantagens. O processo consome muita energia e
funciona com combustíveis fósseis, diz Allen, embora o calor do
processo possa ser recuperado e reutilizado para melhorar a eficiência.
O projeto ainda está em fase de pesquisa, e os pesquisadores
converteram 100kg de sargaço até agora — mas Allen espera ampliá-lo e
fazer parcerias com empresas e governos para resolver o problema. O
objetivo é encontrar uma solução para a questão do sargaço que seja
economicamente viável e apoie a comunidade local.
"O que estamos tentando fazer é tornar a limpeza das áreas contaminadas
rentável, para que haja um incentivo para fazer isso, melhorar a
qualidade de vida e proteger o meio ambiente", explica Allen.
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Empreendedores estão descobrindo várias maneiras de transformar o
excesso de sargaço em algo útil — como papel — Foto: Getty Images
Em partes do México e do Caribe, moradores da região estão resolvendo a
questão com as próprias mãos e encontrando maneiras inovadoras de
transformar o desastre ambiental em suas costas em uma oportunidade
econômica sustentável.
Alguns estão transformando o sargaço em papel, outros em material de
construção. Em Playa del Carmen, por exemplo, um dos destinos turísticos
mais populares do México, um grupo comunitário está enfrentando a
invasão do sargaço transformando-o em sabão.
A Biomaya Initiative, organização criada para lidar com o excesso de
sargaço, contrata moradores para coletar as algas malcheirosas das
praias e, em seguida, limpá-las para remover metais e plásticos.
Na sequência, mulheres que vivem em vilas próximas, que datam do
período Maia, misturam o sargaço processado com glicerina e mel para
fazer sabonete — e vendem a barra por US$ 2 para hotéis, hospitais e
lojas da região.
"Como uma comunidade, decidimos fazer isso para proteger o planeta e
cuidar das nossas praias", afirma Gonzalo Balderas, fundador da Biomaya
Initiative.
Segundo ele, nos últimos três anos, o número de turistas despencou devido ao sargaço em Playa del Carmen.
"É para ser uma praia dos sonhos."
Enquanto isso, em St Catherine's, uma comunidade costeira no sudeste da
Jamaica, Daveian Morrison está usando sargaço para produzir ração para
animais. Morrison fundou a Awganic Inputs em 2018 depois de ouvir
relatos de sargaços empilhados a 4,6 m de altura nas praias.
"Afeta o turismo local, as atividades de lazer e sufoca peixes e filhotes de tartaruga", diz Morrison.
"Achei que era hora de agir."
Morrison queria resolver dois grandes problemas na Jamaica: o sargaço e
a falta de forragem a preços acessíveis para cabras, uma iguaria local.
O país importa atualmente US$ 15 milhões em carne de carneiro e cabra a
cada ano.
"Nossas cabras parecem muito magras, pois não consomem minerais
suficientes. O sargaço tem muitos nutrientes, minerais e sal", explica.
A Awganic Inputs compra sargaço de catadores locais e seca, limpa e
tritura as algas enquanto ainda estão frescas, antes de misturá-las com
subproduto da colheita para produzir forragem para cabras. Já o sargaço
mais podre, é transformado em carvão e vendido para uso em cosméticos.
Ela realizou recentemente um projeto piloto, convertendo 544kg de
sargaço em ração para cabras e vendendo a agricultores por US$ 0,26 o
quilo. A resposta foi muito positiva, segundo Morrison.
Embora a pandemia de coronavírus tenha paralisado a fabricação por
enquanto, ele espera aumentar sua escala de produção e começar a vender
ração barata de sargaço em toda a Jamaica no próximo ano.
"Muitas pessoas veem o sargaço como um incômodo", diz ele. "E estão felizes que algo esteja sendo feito com isso."
Esses esforços para combater o excesso de sargaço são, sem dúvida,
pequenos em comparação com os gigantescos montes em decomposição nas
praias do Atlântico.
Ração para cabras, sabonete e biocombustíveis não farão muita diferença
nessas pilhas tão cedo, mas são um sinal da resiliência costeira — e de
economias locais se adaptando para transformar um cenário de putrefação
em algo útil, seja o que for que os oceanos lancem nas praias.
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