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quarta-feira, 10 de abril de 2024

IPCA: preços sobem 0,16% em março, com alta mais branda de alimentos

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País tem uma inflação acumulada de 3,93% em 12 meses. É a menor variação para março desde 2020 (0,07%). Resultado veio abaixo das expectativas do mercado financeiro, que esperavam alta de 0,25% no mês.
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Por Raphael Martins, g1

Postado em 10 de abril de 2024 às 09h50m

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IPCA: preços sobem 0,16% em março, com alta de alimentos mais branda

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, mostra que os preços subiram 0,16% em março, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O maior impacto do mês veio novamente do grupo Alimentação e bebidas, com alta de 0,53% e peso de 0,11 ponto percentual (p.p.) no índice geral. É uma variação mensal menor que fevereiro, quando os preços do grupo haviam subido 0,93%. (saiba mais abaixo)

Assim, o resultado final do mês representa uma desaceleração contra o mês anterior, já que o IPCA havia fechado fevereiro com alta de 0,83%. E em março de 2023, teve alta de 0,71%. É a menor variação para março desde 2020 (0,07%).

Com isso, o país tem uma inflação acumulada de 3,93% em 12 meses. No acumulado do ano, a alta é de 1,42%.

O resultado de março veio abaixo das expectativas do mercado financeiro, que esperavam aumento de 0,25% dos preços. No acumulado, era esperada uma alta de 4,01%.

Entre os nove principais grupos do IPCA, seis apresentaram altas em março. Além dos alimentos, houve alta relevante em Saúde e cuidados pessoais, com aumento de 0,43% no mês, representando 0,06 p.p. do índice.

No mês passado também saíram da conta os reajustes anuais do grupo Educação, que trazem um impacto de alta recorrente ao mês de fevereiro. No mês passado, os reajustes trouxeram alta de 4,98%. Em março, o aumento foi de 0,14%.

Veja o resultado dos grupos do IPCA:

  • Alimentação e bebidas: 0,53%;
  • Habitação: 0,19%;
  • Artigos de residência: -0,04%;
  • Vestuário: 0,03%;
  • Transportes: -0,33%;
  • Saúde e cuidados pessoais: 0,43%;
  • Despesas pessoais: 0,33%;
  • Educação: 0,14%;
  • Comunicação: -0,13%.

Para André Almeida, gerente da pesquisa do IBGE, os preços dos alimentos ainda são os protagonistas do IPCA por conta de fatores sazonais, somados à influência do fenômeno El Niño.

Em meses de calor e chuva, a safra de alimentos in natura sofre impacto e reduz a oferta de determinados produtos. Em março, altas da cebola (14,34%), do tomate (9,85%), das frutas (3,75%) e do leite longa vida (2,63%).

O ovo de galinha também teve destaque por conta da Páscoa, quando as demais proteínas são substituídas no fim de semana em questão. Houve alta de 4,59% no mês.

A Alimentação no domicílio, que mede esses preços, subiu 0,59% em março. Em fevereiro, a alta havia sido de 1,12%. Em janeiro, de 1,81%.

"Precisamos aguardar quando esses efeitos deixarão de ser sentidos. Historicamente, vemos a inflação de alimentos se reduzindo, mas não podemos dizer como vão se comportar nos próximos meses porque não sabemos quanto os efeitos do El Niño prejudicou as safras", diz Almeida.

O pesquisador também aponta outros dois fatores que auxiliaram a desaceleração da inflação em março, ambos vindos do grupo Transportes: uma alta menor dos preços de gasolina e uma deflação das passagens aéreas.

O grupo como um todo passou da alta de 0,72% em fevereiro para uma queda de 0,33% em março. No mesmo intervalo, a gasolina saiu de 2,93% para 0,21%. O combustível ainda acumula ganho de 4,30% em 12 meses.

No subgrupo, os combustíveis tiveram alta de 0,17%. O etanol também teve alta (0,55%), enquanto o gás veicular (-2,21%) e óleo diesel (-0,73%) tiveram deflação.

Por fim, o recuo nos preços da passagem aérea foi de 9,14%. Passados os meses de férias, há uma diminuição natural da demanda por passagens. Houve também uma redução de custos, por meio do barateamento do querosene de aviação. Agora, são três quedas consecutivas do subitem, mas em 12 meses ainda há alta de 18%.

Resultado abaixo do esperado

Para o mercado financeiro, a inflação veio bem abaixo da projeção, mas ainda não afasta a preocupação com a inflação de serviços. Os serviços subjacentes, um núcleo focado em serviços e que exclui itens mais voláteis, teve alta levemente mais forte que o mês anterior, de 0,44% para 0,45%.

"O ponto de preocupação continua sendo os serviços subjacentes, que, ao se manterem praticamente estáveis, continuam em um patamar incompatível com as metas de inflação – e deverão continuar justificando a cautela do Banco Central", diz Helena Veronese, economista-chefe da B. Side.

A meta central de inflação é de 3% neste ano, e será considerada formalmente cumprida se o índice oscilar entre 1,5% e 4,5%. Na última reunião do Copom, em março, o comitê alterou o trecho presente em comunicados anteriores que indicava novos cortes da Selic nos próximos encontros, o que indica cautela no ritmo de redução da Selic.

"Em função da elevação da incerteza e da consequente necessidade de maior flexibilidade na condução da política monetária, os membros do Comitê, unanimemente, optaram por comunicar que anteveem, em se confirmando o cenário esperado, redução de mesma magnitude na próxima reunião", disse o comunicado.

INPC tem alta de 0,19% em março

Por fim, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) — que é usado como referência para reajustes do salário mínimo, pois calcula a inflação para famílias com renda mais baixa — teve alta de 0,19% em março. Em fevereiro, a alta foi de 0,81%.

Assim, o INPC acumula alta de 1,58% no ano e de 3,40% nos últimos 12 meses. Em março de 2023, a taxa foi de 0,64%.

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terça-feira, 9 de abril de 2024

Adeus ao tijolo, areia e reboco; entenda como é construída a casa impressa em 3D

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Imóvel de 57m² com sala, banheiro, cozinha e dois quartos custa R$ 120 mil. Segundo o Crea, construção deve seguir as mesmas determinações legais que obras tradicionais.
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Por Alex Araújo, g1 Minas — Belo Horizonte

Postado em 09 de abril de 2024 às 07h00m

#.*Post. - N.\ 11.167*.#

Casa impressa em 3D tem 52m² — Foto: Grupo Katz/Divulgação
Casa impressa em 3D tem 52m² — Foto: Grupo Katz/Divulgação

Já imaginou morar em uma casa que não foi construída com tijolo, areia e reboco? Essa realidade já é possível e tem um exemplar à mostra em Nova Lima, na Grande BH. O imóvel foi impresso em 3D e tem acabamentos, louças e mobiliário – e custa R$ 120 mil.

De acordo com a empresa responsável pela construção, a técnica utilizada possibilita a criação de estruturas feitas a partir de microconcreto, matéria-prima que promete garantir mais resistência, durabilidade e economia.

Segundo Daniel Katz, presidente do Grupo Katz e cofundador da Cosmos 3D, empresa responsável pela construção do protótipo, o primeiro imóvel vendido será construído na região da Costa do Descobrimento, na Bahia.

Veja mais fotos da casa impressa em 3D ao final desta reportagem.

Impressão

A impressora usada na construção pesa quase três toneladas e ocupa um espaço de 11,91 metros de comprimento, 6,58 metros de largura e 4,22 metros de altura.

A casa de 57m² tem sala, cozinha, banheiro, dois quartos – ou um quarto e um escritório.

Por ser controlada por um software e um robô, a impressora chama a atenção pelo grau de precisão, reduzindo o desperdício a quase zero.

Neste primeiro modelo foram necessários oito dias para a conclusão da obra, sendo quatro para o processo de impressão, dois para a montagem e outros dois para acabamentos e decorações. Mesmo sendo impressa com tecnologia 3D, a obra precisa de fundação, segundo informou Katz.

A Cosmos 3D está desenvolvendo o projeto de um prédio de até cinco pavimentos para habitação popular. A impressora oferece infinitas possibilidades de execução, para os mais variados projetos, o que oferece extrema flexibilidade de ideias para os clientes tanto para impressão de casas quanto para mobiliários e afins, disse.
Modelo de casa impressa em 3D que custa R$ 120 mil — Foto: Grupo Katz/Divulgação
Modelo de casa impressa em 3D que custa R$ 120 mil — Foto: Grupo Katz/Divulgação

Legislação

O gerente do Departamento de Fiscalização do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG)Nicolau Neder, disse que, independentemente do tipo de obra, de alvenaria ou impressa em 3Do trabalho tem que seguir determinações legais e da engenharia civil.

Além disso, Neder falou que o projeto arquitetônico precisa sempre de aprovação da prefeitura da cidade onde a obra será realizada.

Na impressão 3D as regras não mudam. É preciso ter os projetos da fundação, arquitetônico, hidrossanitário e de eletricidade (leia mais abaixo).

Para a construção em 3DNeder explicou que o responsável técnico também é uma das exigências mantidas.

Ele falou ainda que o profissional que executa o projeto e a construtora têm que ser habilitados.

O engenheiro afirmou que todas os projetos de construção civil devem ter segurança, porque a técnica utilizada é de responsabilidade de quem executa o trabalho.

O profissional habilitado é a garantia de que o serviço será realizado da melhor forma possível, ressaltou.

O gerente disse também que toda construção deve apresentar projetos complementares, como o de eletricidade e o hidrossanitário (leia mais abaixo).

Projetos

  • Hidrossanitário

projeto hidrossanitário engloba toda a distribuição de água fria, água quente, esgoto e água pluvial na edificação. Ele é essencial para que a água que vem da concessionária chegue até as peças de utilização, como chuveiro e torneiras, por exemplo.

  • Fundação

projeto de fundação é o responsável por garantir a estabilidade e a segurança da estrutura, seja ela uma casa, um prédio, uma ponte, etc.

  • Arquitetônico

projeto arquitetônico ou projeto de arquitetura é a atividade técnica da criação de uma obra de arquitetura.

  • Eletricidade

projeto de eletricidade garante a correta instalação elétrica em uma obra. Arquitetos e engenheiros devem seguir uma série de cálculos que são aplicados de acordo com as normas.

Veja fotos da casa

Projeto de casa impressa em 3D é sustentável ambientalmente — Foto: Grupo Katz/Divulgação
Projeto de casa impressa em 3D é sustentável ambientalmente — Foto: Grupo Katz/Divulgação


Banheiro construído em impressão 3D — Foto: Grupo Katz/Divulgação
Banheiro construído em impressão 3D — Foto: Grupo Katz/Divulgação


Casa em 3D pode ter dois quartos ou um quarto e um escritório — Foto: Grupo Katz/Divulgação
Casa em 3D pode ter dois quartos ou um quarto e um escritório — Foto: Grupo Katz/Divulgação


Parede feita em microconcreto e impressa em 3D — Foto: Grupo Katz/Divulgação
Parede feita em microconcreto e impressa em 3D — Foto: Grupo Katz/Divulgação

  • Veja vídeo de quando a primeira casa de tecnologia 3d foi colocada à venda nos EUA, em 2021:

Primeira casa com tecnologia 3D está à venda nos EUA
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segunda-feira, 8 de abril de 2024

Arqueólogos descobrem a 'mais antiga indústria da pedra lascada' de SP, com 3,8 mil anos, no Morumbi, Zona Sul

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Arqueólogos descobrem a 'mais antiga indústria da pedra lascada' de SP, com 3,8 mil anos, no Morumbi, Zona Sul Segundo os pesquisadores, sítio lítico [local utilizado pelo ser humano para a fabricação de objetos em pedra] do Morumbi é o mais antigo já encontrado na cidade de São Paulo. Amostras de carvão e solo preservadas permitiram a datação do terreno. Mais de 2 mil exemplares de pedras lascadas foram coletados para novos estudos e registro histórico.
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Por Renata Bitar, g1 SP — São Paulo

Postado em 08 de abril de 2024 às 06h10m

#.*Post. - N.\ 11.166*.#

Lasca de silexito descoberta do Sítio Morumbi, na Zona Sul de SP — Foto: Reprodução/Zanettini Arqueologia
Lasca de silexito descoberta do Sítio Morumbi, na Zona Sul de SP — Foto: Reprodução/Zanettini Arqueologia

Uma "indústria da pedra lascada" foi descoberta em plena região do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo. Segundo os pesquisadores, o sítio arqueológico é o mais antigo da capital e tem vestígios de vida humana que datam entre 3.800 e 820 anos.

O terreno no bairro Jardim Panorama foi localizado pela primeira vez em 1964, mas estimar sua idade só se tornou possível recentemente, com amostras de carvão, solo e rochas coletadas em 2022 pela equipe dos arqueólogos Letícia Cristina Corrêa, da Universidade de São Paulo (EACH-USP), e Paulo Eduardo Zanettini, da empresa Zanettini Arqueologia.

A grande maioria das pedras encontradas no local são de silexito, uma rocha composta por grãos muito finos de quartzo que tem boa capacidade de lascamento, podendo ser utilizada na ponta de lanças ou flechas, por exemplo.

"Na bacia sedimentar de São Paulo, aconteceu esse caso raro geológico que é existir na região do Morumbi o afloramento de um tipo de pedra com características adequadas para a produção de ferramentas. Essa rocha existe em profundidades muito grandes e, nesse caso, ela chegava até o solo", contou Paulo Zanettini.

Pesquisa realizada no Sítio Morumbi e lasca de silexito descoberta no local — Foto: Reprodução
Pesquisa realizada no Sítio Morumbi e lasca de silexito descoberta no local — Foto: Reprodução

Há dois anos, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) requisitou novas escavações no sítio, como condição para autorizar a construção de imóveis residenciais no terreno onde ele fica, que é particular.

"A gente tinha que falar para o Iphan qual era o estado do sítio arqueológico e se restava alguma porção preservada dele, onde desse para escavar e tirar alguma informação", explicou Letícia Corrêa, coordenadora de campo do estudo.

Até então, pesquisas realizadas no local apontavam que o terreno já havia sido muito mexido, perdendo seu contexto arqueológico e tornando inviável a datação do sítio (entenda mais abaixo).

Contudo, o novo estudo descobriu aspectos inéditos do sítio arqueológico que foram documentados em um relatório entregue ao Iphan, ao qual o g1 teve acesso.

Confira a história do Sítio Morumbi, de sua descoberta à datação, nesta linha do tempo:

Déc.1960 - primeiros registros

"O sítio é fruto do que a gente chama de um achado fortuito", descreveu o arqueólogo Paulo Zanettini.

Tendo conhecimento prévio sobre arqueologia, Luchsinger decidiu coletar uma amostra de rochas e lascas, que eram abundantes no local, e encaminhá-la para o então Instituto de Pré-História da USP, cujo acervo atualmente compõe o Museu de Arqueologia e Etnologia da universidade.

Junto às pedras, o engenheiro enviou um material descritivo da amostra e um mapa elaborado à mão, que indicava a localização do sítio arqueológico e os pontos onde havia concentração de artefatos. Segundo o documento, a descoberta do "sítio lítico [local utilizado pelo ser humano para a fabricação de objetos em pedra] do Morumbi" ocorreu em maio de 1964. Já o mapa, foi elaborado três anos depois, em outubro de 1967.

Déc.1990 - redescoberta

Segundo Zanettini, por um motivo desconhecido, a pesquisa de Luchsinger não foi levada adiante na época da descoberta. Passados quase 30 anos, os registros do engenheiro foram encontrados por um membro do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da Prefeitura de São Paulo.

Por meio deles, Astolfo Araújo conseguiu localizar o sítio e retomar as pesquisas no local. Lá, encontrou matacões – blocos com mais de 25 cm de diâmetro – de silexito.

Registro de matacão de silexito feito em 1993 pelo arqueólogo Astolfo Araújo — Foto: Reprodução/PMSP via Zanettini Arqueologia
Registro de matacão de silexito feito em 1993 pelo arqueólogo Astolfo Araújo — Foto: Reprodução/PMSP via Zanettini Arqueologia

"Esses matacões na área externa permitem materializar um pouco o que é esse sítio arqueológico, um lugar onde homens, mulheres e crianças trabalharam durante um período muito longo, extraindo e produzindo seus utensílios. Eu precisava afiar minha flecha de madeira, abater animais, cortar madeira, produzir minha canoa, minha flauta de osso... e esse utensílios vão ganhando múltiplas formas para atender às demandas que existiam", explica Paulo Zanettini. 
Anos 2000 - escavações

No início do milênio, o terreno do sítio foi adquirido para a construção de um condomínio de casas. Devido à relevância histórica do local, o comprador precisou contratar uma empresa de arqueologia para fazer escavações e estudar a área, visando obter uma liberação para intervir no solo.

Entre 2001 e 2006, a empresa responsável coletou mais de 200 mil peças identificadas como produtos de lascamento (veja nas imagens abaixo).

Escavações no Sítio Morumbi em 2001


Escavações no Sítio Morumbi em 2001


Escavações no Sítio Morumbi em 2001

Também foram obtidas amostras de carvão e rochas com marcas de queima, materiais que podem ser utilizados para a datação de sítios arqueológicos – nesse caso, para identificar há quanto tempo o local tem registro de presença humana.

Contudo, os pesquisadores da companhia não consideraram os itens como "confiáveis" para essa finalidade. Isso porque, segundo eles, o contexto arqueológico de onde foram coletados não parecia conservado — o solo poderia ter sido revolvido, misturando camadas de terra antigas e recentes, deslocando vestígios existentes de suas posições originais.

Ainda nessa época, em 2004, Astolfo Araújo emitiu um laudo que confirmava que fundações colocadas no local para a construção de casas haviam alterado severamente o cenário do sítio. Com isso, os donos tiveram que assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para não serem punidos pelo Iphan.

Esse acordo previa medidas compensatórias pelos danos causados, dentre elas a elaboração de um Centro de Referência Arqueológica para registro e divulgação de informações arqueológicas no município de São Paulo. Com o cumprimento do TAC, as obras puderam ser retomadas.

2022 - datação e resultados

Há dois anos, após o auge da pandemia de Covid-19, o dono do terreno optou por mudar o tipo de empreendimento que seria construído no local. Em vez de um condomínio de casas de luxo, seria erguido um prédio de moradias com função social.

Com a mudança, o Iphan determinou uma nova leva de pesquisas para "esgotar" as possibilidades de coleta de informações no sítio arqueológico, antes que ele sofresse ainda mais alterações por maquinários.

Foi nesse contexto que houve a contratação da empresa Zanettini Arqueologia, que, junto a pesquisadores da Universidade de São Paulo, realizou novas escavações no local.

"As nossas pesquisas, desenvolvidas entre eu, o Paulo e o professor Astolfo, tiveram um resultado inédito, que foi mostrar que ainda tinha uma parte preservada do sítio", afirmou a arqueóloga Letícia Corrêa, que coordenou o trabalho de campo das equipes.

De acordo com a pesquisadora, ao notar a semelhança entre algumas pedras durante as escavações em uma pequena área do terreno, ela conseguiu fazer uma espécie de quebra-cabeça com os materiais. Essas "lascas térmicas" seriam resultado de exposição a altas temperaturas, ou seja, causadas de forma natural, sem interferência humana. Remontá-las foi considerado um indicador de que aquele solo permanecia em sua posição original, tornando possível a datação do sítio.

"A remontagem foi o que deu a certeza pra gente de que os carvões estavam em contexto, o material arqueológico estava em contexto, tudo ali estava preservado", declarou Corrêa.

A arqueóloga contou ao g1 que foram coletadas nove amostras de carvão (restos de fogueiras, por exemplo) e outras nove de solo. Por meio delas, conseguiram fazer análises e determinar que houve atividade humana no sítio há pelo menos 3800 anos – data que poderia ser ainda mais antiga caso fosse possível estudar as áreas do terreno que já não estão preservadas.

Armazenamento das amostras de carvão coletadas no Sítio Morumbi em 2022 — Foto: Reprodução
Armazenamento das amostras de carvão coletadas no Sítio Morumbi em 2022 — Foto: Reprodução

"As amostras de carvão, elas datam precisamente o evento da queima. Então, a gente consegue saber muito preciso quando estava ali. Tendo esse contexto preservado, a gente consegue associar 'bom, esse carvão tem ferramenta de pedra lascada junto, então ele é seguro para datar'", explicou.

"O solo é uma outra maneira de se datar o sítio. Se a gente não tivesse o carvão em hipótese alguma, a gente poderia usar o solo. Esse método de datação, ele permite a gente entender quando aquela terra recebeu a luz solar pela última vez. Então, considerando que ela está coberta por sucessivas camadas, a gente faz a coleta sem contaminação da luz solar atual e aí ela também permite datar o sítio arqueológico".

Escavação realizada no Sítio Morumbi em 2022 — Foto: Reprodução
Escavação realizada no Sítio Morumbi em 2022 — Foto: Reprodução

Ao todo, foram coletadas mais de 2,3 mil peças de matéria-prima nesse último estudo, sendo a maioria delas lascas com menos de 2 centímetros. Também foram armazenados 57 sacos de coleta amostral de solo, material que poderá ser utilizado em futuras pesquisas sobre o sítio.

O arqueólogo Paulo Zanettini, responsável pela parte científica do estudo, elaborou um relatório para o Iphan, no qual apresenta as descobertas recentes, descreve todos os procedimentos efetuados no terreno e conclui que ele já pode ser liberado para a construção de moradias.

Segundo Zanettini, o documento foi entregue em maio de 2023 e após quase um ano, o Iphan liberou em definitivo a construção do conjunto habitacional no terreno, considerando que sua área ainda preservada já foi completamente escavada ao longo das últimas décadas.

O g1 questionou o Iphan sobre o aval dado e aguarda retorno.

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