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sábado, 9 de dezembro de 2023

Terra está perto de atingir 5 pontos de não retorno; veja quais são e entenda a crise em gráficos

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Constatação é de um estudo de pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido. "Pontos de inflexão representam uma 'ameaça para a humanidade de uma magnitude sem precedentes", alerta líder de estudo sobre o tema.
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Por Roberto Peixoto, g1

Postado em 09 de dezembro de 2023 às 07h15m

#.*Post. - N.\ 11.037*.#

O mundo está perto de atingir 5 pontos de não retorno que podem desencadear catástrofes ambientais irreversíveis. E o aquecimento global tem culpa nisso, alertaram cientistas nesta semana.

Ou seja, se não controlarmos o aumento global da temperatura, eventos como o colapso de corais de águas quentes, o degelo do permafrost e o derretimento de grandes porções de gelo no Ártico e na Antártida se tornariam cada vez mais prováveis (entenda mais abaixo).

A constatação é de um estudo de pesquisadores da Universidade de Exeter, no Reino Unido, e financiado pelo Fundo Bezos Earth, do empresário norte-americano Jeff Bezos.

"Esses pontos de inflexão [como também são chamados] representam uma 'ameaça para a humanidade de uma magnitude sem precedentes', alertou à AFP o chefe do relatório, Tim Lenton, especialista em sistemas terrestres da Universidade de Exeter.

2023 deve ser o ano mais quente em 125 mil anos, diz observatório europeu
2023 deve ser o ano mais quente em 125 mil anos, diz observatório europeu

Abaixo, entenda por que a preocupação com os 5 sistemas abaixo:

  1. Corais de águas quentes
  2. Manto de gelo da Groelândia
  3. Manto de gelo da Antártida Ocidental
  4. Permafrost - solo congelado do Ártico
  5. Circulação do Atlântico Norte

1. Corais de águas quentes

Ao todo, o relatório descreve 26 pontos de inflexão, porém os mais dramáticos são os 5 que vamos explicar aqui. Segundo os cientistas, esses processos parecem já estar atingindo seu limite.

No caso dos corais de águas quentes não é difícil entender o motivo.

Francyne Elias-Piera, PhD em Ciência e Tecnologia Ambiental pela Universitat Autònoma de Barcelona, explica que os recifes de corais de águas quentes são ecossistemas altamente sensíveis às mudanças climáticas, sendo particularmente vulneráveis ao aumento da temperatura da água e à acidificação dos oceanos.

Eles estão localizados em áreas ao redor do equador onde a água é mais quente e, como mostram dados globais (veja o gráfico abaixo), eventos moderados e severos de branqueamento estão acontecendo cada vez mais nos últimos anos.

Isso porque devido ao aumento da temperatura da água, desencadeado pelo aquecimento global, os corais expulsem as algas simbióticas que vivem em seus tecidos, resultando na perda da coloração que ameaça a saúde dos recifes.

Um estudo de 2020 inclusive, publicado pela Rede Global de Monitoramento de Recifes de Coral (GCRMN), revelou que o mundo perdeu cerca de 14% de seus recifes de coral desde 2009. Este relatório, pioneiro em sua categoria, baseou-se em dados coletados em mais de 12.000 locais de coleta em 73 países ao longo de um período de mais de 40 anos (1978-2019).

Por isso, Francyne sugere algumas ações práticas que no futuro podem salvar os corais, como por exemplo:

  1. Monitoramento eficaz: o uso de tecnologias como drones e satélites para observar de perto a temperatura da água e a saúde dos corais.
  2. Cooperação entre cientistas e comunidade: compartilhamento de informações sobre práticas sustentáveis de pesca, evitando poluição e práticas prejudiciais ao ambiente marinho.
  3. Apoio a iniciativas existentes: suporte a projetos que já trabalham no plantio de corais e na recuperação de recifes danificados.
  4. Estabelecer áreas protegidas: a criação de zonas onde a pesca é controlada, permitindo a recuperação dos ecossistemas.

"A comunidade científica necessita estar unida com a comunidade local, para que passe as informações dos estudos científicos para a população e para que a população local também passe informações do que está acontecendo no ecossistema", diz.

Coral embranquecido é visto no local onde redes de pesca abandonadas o cobriram em um recife na área protegida de Ko Losin, na Tailândia, depois que um grupo de mergulhadores voluntários e o Centro de Pesquisa de Recursos Costeiros, auxiliado pela Marinha Real da Tailândia, removeram 2.750 m² de rede, no dia 20 de junho de 2021.  — Foto: Jorge Silva/Reuters
Coral embranquecido é visto no local onde redes de pesca abandonadas o cobriram em um recife na área protegida de Ko Losin, na Tailândia, depois que um grupo de mergulhadores voluntários e o Centro de Pesquisa de Recursos Costeiros, auxiliado pela Marinha Real da Tailândia, removeram 2.750 m² de rede, no dia 20 de junho de 2021. — Foto: Jorge Silva/Reuters

2. Circulação do Atlântico Norte

Adriana Lippi, mestranda em ciência e tecnologia do mar na Unifesp, explica que temos no nosso planeta um grande distribuidor de calor, a chamada circulação termohalina, que é movida principalmente pelas diferenças de temperatura e salinidades entre regiões equatoriais e polares.

"Com o aquecimento global, todo o oceano tem se aquecimento [veja gráfico abaixo] e as regiões mais frias estão cada vez mais aquecidas e isso desacelera a circulação termohalina", diz.

Como cerca de 90% do calor global está armazenado nos oceanos, as mudanças nessas correntes influenciam o clima em diversas regiões do globo.

E alguns estudos indicam que já estamos tendo uma desaceleração de 15% no sistema de correntes atlânticas desde meados do século 20, especialmente na corrente do Giro Subpolar do Atlântico Norte, localizada perto das costas da Groelândia e Labrador.

Segundo o IPCC, tanto nesse Giro Subpolar, no Mar do Labrador e nos Mares Nórdicos, foram observadas grandes mudanças na salinidade que foram associadas a alterações nas entradas de água doce (derretimento do gelo, circulação oceânica e escoamento fluvial).

Por isso, de acordo com os cientistas, a única maneira de impedir a paralisação desse sistema é reduzir as emissões de gases do efeito estufa e o consequente aquecimento do planeta.

3. Manto de gelo da Groelândia

O planeta está esquentando, e isso já é sabido há algum tempo. Desde a Revolução Industrial, a temperatura média subiu em torno de 1,1°C a 1,2°C. Contudo, os impactos não se limitam à nossa atmosfera; eles alcançam os oceanos, gerando transformações significativas.

Francyne explica que correntes atmosféricas e marinhas agora estão mais quentes. Por isso, quando atingem áreas como a Groenlândia, causam o derretimento do manto de gelo. E esse processo é uma peça-chave no aumento do nível do mar, podendo atingir proporções alarmantes.

"Nesses locais, as montanhas e as rochas são de uma cor escura, e sem o gelo, ficam expostas. As rochas escuras absorvem o calor do sol, esquentando ainda mais o local", diz a pesquisadora.

No relatório, os pesquisadores citam ainda um ponto crítico a considerar nessa questão. Se o manto de gelo da Groenlândia se desintegrar, isso pode levar a uma mudança abrupta na Circulação Meridional Atlântica, uma corrente crucial que fornece a maior parte do calor à Corrente do Golfo. Esse evento, por sua vez, pode intensificar o fenômeno El Niño, um dos padrões climáticos mais poderosos do planeta, que já está trazendo diversas transformações ao nosso clima nos últimos meses.

E em 2023, a Groenlândia perdeu gelo pelo 27º ano consecutivo. O derretimento foi alto em julho, com chuvas e neve acima do normal na primavera e início do verão no Hemisfério Norte (veja gráfico abaixo).

Por isso os cientistas alertam que a possibilidade de chegarmos a um ponto de não retorno na Groelândia não está tão longe, onde o desaparecimento do manto de gelo se torna irreversível. É um cenário desafiador que exige atenção imediata, considerando as implicações não apenas para o nível do mar, mas também para padrões climáticos globais.


4. Manto de gelo da Antártida Ocidental

Na Antártida a situação é bem parecida, como evidenciado pelo recorde de menor extensão do gelo marinho em julho de 2023, desde que os registros por satélite contínuos começaram em 1978 (veja gráfco abaixo).

E isso também é resultado do aquecimento global, que está fazendo a água do oceano aquecer e o gelo derreter.

E há algum tempo os cientistas alertam em específico sobre o derretimento acelerado da camada de gelo na Antártida Ocidental, impulsionado pelo aquecimento do Oceano Austral, especialmente na região do Mar de Amundsen.

Icebergs no Mar de Amundsen, na costa oeste da Antártida, em foto de outubro de 2015. — Foto: ESA/
Icebergs no Mar de Amundsen, na costa oeste da Antártida, em foto de outubro de 2015. — Foto: ESA

5. Permafrost - solo congelado do Ártico

O permafrost é um tipo de solo congelado que geralmente é encontrado em regiões muito frias, como o Ártico, incluindo lugares como a Groenlândia, o estado norte-americano do Alasca, Rússia, China e a Europa Oriental.

O descongelamento desse solo, que cobre cerca de 23 milhões de km² no norte do planeta, não é facilmente visível, pois ele fica abaixo da superfície, mas representa um problemão.

Isso porque, segundo estudos mais recentes, o permafrost como um todo armazena uma enorme quantidade de carbono, aproximadamente 1.700 bilhões de toneladas.

"O descongelamento do permafrost pode levar a uma série de impactos significativos, incluindo a liberação de gases de efeito estufa armazenados, mudanças na hidrologia local e instabilidade do solo", alerta Francyne.

E por causa do aquecimento global, as temperaturas do permafrost estão subindo mais rápido que a temperatura do ar no Ártico, aumentando entre 1,5 a 2,5 graus Celsius nos últimos 30 anos. Isto é, as camadas de permafrost já estão derretendo.

E um aumento de 3 graus Celsius nas temperaturas globais pode derreter cerca de 30 a 85% das camadas superiores de permafrost no Ártico, causando danos à infraestrutura e mudanças irreversíveis nas paisagens e ecossistemas únicos do mundo.

"Entre as estratégias preventivas a abordagem mais eficaz é a redução global das emissões de gases de efeito estufa para limitar o aquecimento global e, assim, reduzir o descongelamento do permafrost", acrescenta.

Aquecimento global é natural? Não tem nada que a gente possa fazer?
Aquecimento global é natural? Não tem nada que a gente possa fazer?
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sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

INFOGRÁFICO: como é a fronteira do Brasil com Essequibo, território na Guiana cobiçado pela Venezuela

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São cerca de 790 km que se estendem por 6 municípios, habitados por 141 mil brasileiros, sendo 37 mil deles indígenas. "A gente se sente muito inseguro", diz líder Wapichana.
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Por Arthur Stabile, Gabriel Croquer, Valéria Oliveira, g1 — São Paulo

Postado em 08 de dezembro de 2023 às 11h30m

#.*Post. - N.\ 11.036*.#

Infográfico mostra como é a fronteira entre o Brasil e Essequibo, região da Guiana que a Venezuela quer anexar. — Foto: Editoria de Arte/g1
Infográfico mostra como é a fronteira entre o Brasil e Essequibo, região da Guiana que a Venezuela quer anexar. — Foto: Editoria de Arte/g1

Metade dos 1,6 mil quilômetros de fronteira da Guiana com o Brasil estão na região de Essequibo, o território do país vizinho que o governo de Nicolás Maduro, da Venezuela, quer anexar.

São cerca de 790 km que se estendem do Parque Nacional Monte Roraima até Oriximiná, no Pará, com uma geografia que, segundo especialistas, favorece o uso do território brasileiro como passagem em uma eventual ação militar venezuelana – uma manobra, entretanto, considerada improvável por eles (leia mais abaixo).

Esses 790 km se estendem por 6 municípios de Roraima (5) e Pará (1), em que moram 141 mil brasileiros 37 mil são indígenas, a maioria vive em 6 Terras Indígenas – a maior delas é a Raposa Serra do Sol, com 1,7 milhão de hectares e 25.077 habitantes dos povos Ingarikó, Macuxi, Patamona, Taurepang e Wapichana (clique aqui para ver todas).

Em geral, esses municípios têm territórios grandes e núcleos urbanos pequenos (veja as populações aqui). Os de Bonfim – onde fica o principal cruzamento por terra entre Brasil e Guiana , e também entre a Venezuela e a Guiana –, Normandia e Uiramutã (a cidade mais indígena do Brasil) ficam a poucos quilômetros do país vizinho. Já o de Oriximiná, no Pará, está a 400 km.

A região tem como principais motores da economia o comércio entre as populações brasileira e guianense – Lethem, a cidade mais próxima, é considerado um paraíso de compras baratas para os moradores de Roraima –, o turismo – um dos principais destinos, o Monte Roraima, fica na região – e o garimpo ilegal.

"Aqui está tudo tranquilo, não tem movimentação nenhuma. O que há é só a preocupação do povo com a possibilidade de se fechar a fronteira", conta ao g1 Joner Chagas (Republicanos), prefeito de Bonfim, cidade de 13,9 mil habitantes por onde passa a principal ligação por terra entre Brasil e Guiana.

O sentimento dos indígenas que vivem na borda do país é outro.

"Nossa comunidade está há 800, 1 mil metros da fronteira", conta Lázaro Wapichana, líder indígena da região do Pium, que fica em Bonfim. "A gente se sente muito inseguro [com um possível conflito] porque eles não vão respeitar os povos indígenas e nem ninguém, porque uma guerra é uma guerra".

O Brasil possui 12 bases militares em Roraima – a maioria delas em Boa Vista, a cerca de 50 km da região de fronteira com Essequibo. Para ampliar a segurança no território brasileiro, Ministério da Defesa determinou o envio de 28 veículos blindados e um contingente de até 150 militares.

Saiba mais sobre a fronteira:

Quais são as cidades e qual é a população delas?

  • Bonfim (RR) - 13.897 habitantes, 6.463 indígenas
  • Caracaraí (RR) - 20.957 habitantes, 1.273 indígenas
  • Caroebe (RR) - 10.656 habitantes, 810 indígenas
  • Normandia (RR) - 13.669 habitantes, 12.144 indígenas
  • Oriximiná (PA) - 68.294 habitantes, 3.805 indígenas
  • Uiramutã (RR) - 13.751 habitantes, 13.283 indígenas
Quais são as terras indígenas existentes na região, e quais povos vivem nelas?

  • Raposa Serra do Sol: 25.077 habitantes dos povos Ingarikó, Macuxi, Patamona, Taurepang e Wapichana;
  • São Marcos: 9.033 (Macuxi, Taurepang e Wapichana);
  • Manoa/Pium: 2.576 (Macuxi e Wapichana);
  • Jacamim: 1.167 habitantes (Wapichana);
  • Waiwái: 500 habitantes (Waiwai);
  • Bom Jesus: 43 habitantes (Macuxi e Wapichana).
Atrações turísticas
Monte Roraima, destino turístico na tríplice fronteira entre Brasil, Guiana e Venezuela — Foto: Divulgação/Embratur
Monte Roraima, destino turístico na tríplice fronteira entre Brasil, Guiana e Venezuela — Foto: Divulgação/Embratur

O turismo está entre as atividades econômicas que movimentam a região de Bonfim e Pacaraima. Há o temor de que, em caso de um conflito armado, as fronteiras sejam fechadas.

Visitantes dos países vizinhos e de outros estados têm o Monte Roraima, no norte do estado brasileiro – com acesso pela Venezuela– como um dos principais atrativos. Há também, na fronteira com Essequibo, fazenda com lago natural e pontos de vendas de açaí (do lado brasileiro, em Bonfim), e de outros produtos naturais típicos da região, como a de Moco Moco, na Guiana.

Além da vinda de estrangeiros ao Brasil, brasileiros também visitam Essequibo. Um dos locais visados é Lethem, cidade na Guiana que possui cachoeiras bastante buscadas por brasileiros.

Assim como outras áreas de Roraima, a região próxima a Essequibo tem registros de garimpo ilegal.

Nessa área, o principal palco de exploração é a terra Indígena Raposa Serra do Sol, uma das maiores terras indígenas do país, segundo o Conselho Indígena de Roraima (CIR).

Monitoramento feito em julho deste ano identificou pontos de extração ilegal nas áreas de Água Fria, Igarapé do Trovão e Igarapé do Kai da TI Raposa Serra do Sol.

Presença das Forças Armadas Brasileiras

12 unidades das Forças Armadas no estado de Roraima (veja no infográfico acima), segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública – 9 do Exército, 2 da Aeronáutica e 1 da Marinha.

O presidente Lula (PT) determinou que o Ministério da Defesa enviasse 28 veículos blindados (veja detalhes aqui) e um efetivo entre 130 e 150 militares para reforçar a fronteira – um esquadrão foi transformado em regimento de cavalaria para abrigar o reforço.

Modelos dos blindados que reforçarão a fronteira — Foto: Exército Brasileiro/Divulgação
Modelos dos blindados que reforçarão a fronteira — Foto: Exército Brasileiro/Divulgação

Para Vitelio Brustolin, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, a chance de uma investida da Venezuela contra a Guina é praticamente nula. Ele avalia que uma ação militar representaria o fim da carreira política de Nicolás Maduro.

"O que a Venezuela pode fazer: invadir o território com o risco de ter uma guerra com o Brasil. O que Maduro vai fazer? Bombardear a Guiana? O que os Estados Unidos querem é uma união mundial para tirar o Maduro do poder", analisa.

Na hipótese remota de a Venezuela decidir atacar, haveria duas possibilidades: uma incursão por ar e água, com ataques aéreos e tropas invadindo a Guiana por navios; ou, então, por terra. E é aqui que entra o Brasil.

A fronteira da Venezuela com a Guiana é formada por uma mata densa que impossibilita a passagem de veículos blindados e grandes tropas ao mesmo tempo. A alternativa seria por estradas e só no Brasil há uma ligação assim com a Guiana.

Segundo Vitério, o Brasil tem cerca de 5 mil militares na região de Roraima -- somado o reforço prometido pelo governo federal.

"É suficiente [para evitar uma invasão], até porque seria temerário a Venezuela usar o território brasileiro de passagem"

O Ministério da Defesa foi procurado, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Nesta quinta-feira (7), um caminhão do Exército pegou fogo na BR-101, que liga o Brasil com a Guiana. Dois militares tiveram ferimentos leves.

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quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Essequibo brasileiro: parte do território que a Venezuela quer anexar já foi do Brasil

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País foi derrotado em disputa com a Inglaterra, que colonizou a Guiana, no início do século 20. Hoje, Venezuela reivindica território.
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Por Felipe Gutierrez

Postado em 07 de dezembro de 2023 às 06h25m

#.*Post. - N.\ 11.035*.#

Venezuela x Guiana: o que acontece após referendo ser aprovadoVenezuela x Guiana: o que acontece após referendo ser aprovado

No último domingo, a Venezuela organizou um referendo no qual 95% dos eleitores que votaram escolheram que o país deveria incorporar o território de Essequibo, uma área de 159 mil km² que hoje pertence à Guiana.

O presidente Nicolás Maduro tem mostrado um mapa da Venezuela que já incorpora o território --nessa região, está incluída uma área mais ao sul que nunca havia sido disputada pelos venezuelanos, mas, sim, pelo Brasil.

O Brasil e a Inglaterra, que colonizou a Guiana, tiveram uma disputa territorial no início do século 20 em que o Brasil saiu derrotado. Essa área, conhecida como a região do Rio Pirara (a sílaba tônica é a paroxítona, como se fosse "Pirára"), está hoje em Essequibo. A história é conhecida como "A Questão do Rio Pirara". O consultor da Câmara dos Deputados José Theodoro Mascarenhas Menck escreveu um livro com esse nome, publicado em 2009.

Mapa mostra região do litígio da Questão do Rio Pirara — Foto: arte/ g1
Mapa mostra região do litígio da Questão do Rio Pirara — Foto: arte/ g1

A única derrota em negociações

A perda da região do Rio Pirara, que hoje faz parte de Essequibo, na Guiana, foi o único caso em que o território brasileiro encolheu após uma arbitragem (o Brasil perdeu o território que hoje é o Uruguai, mas isso foi em uma guerra, e não em uma negociação).

Durante o século 19, o Brasil se envolveu em outras duas disputas, uma pelo Amapá, outra pelo oeste de Santa Catarina. Nessas duas ocasiões, o país saiu vitorioso.

A terceira disputa territorial foi com a Inglaterra, que na época era a metrópole da Guiana.

Inglaterra, França e Holanda

Durante o século 17, os territórios que hoje formam Guiana Francesa, Suriname e Guiana pertenciam todos à Holanda. Os holandeses ficaram só perto do litoral da Guiana, mas o interior do país --ou seja, as regiões mais ao sul, próximas do Brasil, eram de mato e difíceis de penetrar.

Isso ficou assim até o início do século 19, quando um general francês se tornou imperador e começou uma campanha militar na Europa na qual conquistou diversos países –inclusive a Holanda. O imperador francês Napoleão Bonaparte conquistou territórios da Holanda fora do continente europeu, e tomou da Holanda essa região da América do Sul. Napoleão foi derrotado, e um terceiro país virou o dono dessa parte da América do Sul: a Inglaterra.

Após a derrota da França napoleônica, os países europeus se reuniram no Congresso de Viena, em 1815, para discutir como seriam divididos os territórios. A solução foi dividir a região da América do Sul em três:

  • A parte mais ao leste para os franceses (hoje Guiana Francesa).
  • A parte central para os holandeses (hoje Suriname)
  • A parte mais ocidental para os ingleses (hoje Guiana)
A disputa por território entre Brasil e Guiana

No começo do século 19, as fronteiras ainda estavam pouco definidas. Na década de 1830, um explorador britânico, Roberto Hermann Schomburgk, fez uma série de visitas exploratórias à região. Ele foi financiado por uma sociedade inglesa privada que patrocinava expedições pelo mundo --era o mesmo grupo que pagava pelas viagens do explorador David Livingstone pela África.

"Ele sugere uma fronteira que invade o lado brasileiro, porque a 'linha Schomburgk' se estende para oeste além da linha do rio que até então marcava a divisão. Ele leva essa demarcação para Londres, que aceita a linha como a demarcação da fronteira", diz Menck.

Só que, para o Brasil, a divisão que deveria valer era uma que havia sido estabelecida no Tratado de Utrecht, no comecinho do século 18, pelo qual o limite do território brasileiro era demarcado por diversos rios, como o Tacutu, que pertencem à bacia de um rio maior, o rio Essequibo.

Tanto o Brasil como a Venezuela, então, contestam a demarcação da "linha Schomburgk", e essas duas disputas vão ser definidas pela forma mais comum de resolução desses problemas na época: uma arbitragem internacional.

Arbitragem é um método alternativo de resolução de disputas. As partes em disputa submetem o litígio a um árbitro ou um tribunal arbitral, que vai tomar uma decisão que deverá ser respeitada pelas partes. Este processo acontece fora dos tribunais tradicionais. O árbitro do caso entre Inglaterra e o Brasil foi o rei da Itália na época, Vitório Emanuel III.

Brasil e Inglaterra

A Inglaterra venceu o Brasil nessa arbitragem em 1904. Foi uma vitória parcial, pois a Guiana ficou com dois terços do território em disputa, e o Brasil, um terço. Na prática, o Brasil perdeu o acesso à bacia do rio Essequibo.

Menck considera que dois fatores pesaram na decisão pró-Guiana na época:

  • O rei Vitório Emanuel III se aconselhou com acadêmicos de geografia e de direito internacional de universidades italianas, que disseram para o árbitro adotar conceitos que estavam sendo aplicados desde a Conferência de Berlim, em 1885, que determinava, grosso modo, que quem chegava primeiro podia ocupar. Acontece que o Brasil não era participante da Conferência de Berlim e não deveria estar sujeito a essas regras, diz Menck.
  • Os documentos do Brasil que mostravam que o território brasileiro era mais extenso eram dos séculos 17 e 18, anteriores às regras então usadas para resolver disputas. O árbitro entendeu que ninguém conseguiu provar posse do território, mas repartiu a área em dois terços para Inglaterra e um terço para o Brasil.

Menck afirma que o Brasil então enfrentou um dilema: se o país questionasse a arbitragem, colocaria em risco as então recentes vitórias em Santa Catarina e no Amapá, que foram bem mais significativas.

A mesma "linha Schomburgk" traçada por um explorador britânico que contrariou o Brasil foi contestada pela Venezuela.

O caso da Venezuela com a Inglaterra também foi para uma arbitragem, mas, nesse caso, foi um tribunal arbitral. Era um grupo composto por cinco árbitros: um deles era um diplomata russo importante na época; dois foram indicados pela Inglaterra, e dois pela Venezuela, que apontou juízes de um órgão que havia sido criado fazia pouco tempo nos Estados Unidos, a Suprema Corte de Justiça.

Houve uma negociação secreta entre os árbitros, e o tribunal acabou decidindo dar vitória à Inglaterra. Décadas mais tarde, no começo dos anos 1960, um dos juízes americanos que tinha participado da arbitragem revelou que houve negociações secretas nessa decisão. Em 1963, a Venezuela passou a afirmar que houve conversa prévia antes da arbitragem e, portanto, o tribunal era viciado por um conluio para prejudicar a Venezuela.

Por que a Venezuela pede território que nunca foi dela, mas do Brasil?

Menck afirma que quando começou o processo de arbitragem para decidir o litígio entre Venezuela em Inglaterra, um agente do governo colonial inglês na Guiana mandou um mapa para o tribunal em que apareciam os dois territórios que a Inglaterra disputava, com a Venezuela e com o Brasil. "Foi um erro burocrático, mandaram um mapa com a parte de cima (ou seja, no norte) e a parte de baixo (do sul, que foi disputada com o Brasil."

O tribunal de arbitragem fez a linha de litígio com base nesse mapa, e é esse o mapa que, agora, Nicolás Maduro usa para dizer qual é a área de Essequibo que a Venezuela quer.

Na época da arbitragem entre Venezuela e Inglaterra, um dos representantes do Brasil era Joaquim Nabuco. Ele chegou a mandar uma petição dizendo que o mapa estava errado, pois incluía o território que o Brasil reivindicava. Mas, na época, entendeu-se que isso seria decidido no segundo caso, alguns anos mais tarde.

Governo da Venezuela quer anexar território de Essequibo

Cartaz de campanha para o referendo sobre a região de Essequibo convocada pela Venezuela. Votação será no domingo (3/12) — Foto: Reuters

Maduro segura novo mapa da Venezuela com anexação de Essequibo — Foto: Zurimar Campos/Presidência da Venezuela
 
Mapa mostra rios na região de fronteira entre Brasil e Guiana — Foto: Reprodução de A Questão do Rio Pirara, de José Theodoro Mascarenhas Menck
Regime chavista fez um referendo e enviou um projeto de lei para incorporar território ao mapa venezuelano
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