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quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

'Candida auris': o que é o 'superfungo' que matou 2 pessoas e tem 3º surto no Brasil

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Pesquisadores listam diversos fatores de risco para o surgimento de infecções por fungos. Entre eles, diabetes, uso de múltiplos antibióticos, falência renal, uso de cateter venoso central e, no caso específico de Covid-19, o uso excessivo de corticosteroides.
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TOPO
Por Matheus Magenta*, BBC — Da BBC News Brasil em Londres

Postado em 13 de janeiro de 2022 às 12h05m

Post.- N.\ 10.167

Anvisa confirma caso de Candida auris em Pernambuco, fungo que pode levar à morte
Anvisa confirma caso de Candida auris em Pernambuco, fungo que pode levar à morte

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta de ameaça à saúde pública por causa do terceiro surto no Brasil de Candida auris, fungo resistente a medicamentos e responsável por infecções hospitalares que se tornou um dos mais temidos do mundo.

Segundo o órgão, em documento de 11 de janeiro de 2022, foram identificados no primeiro mês deste ano dois casos de infecção pelo fungo envolvendo um paciente de 67 anos e outra de 70 anos que estavam internados num hospital da rede pública do Recife. Não foram divulgadas informações atualizadas sobre o estado de saúde deles.

Ao longo da pandemia de Covid-19, a Anvisa confirmou 18 casos da infecção em três surtos diferentes. O primeiro caso confirmado foi identificado em uma amostra da ponta de um cateter de paciente internado em UTI de Salvador, local dos dois primeiros surtos: um em dezembro de 2020 (com 15 casos e dois mortos em um hospital da rede privada) e outro em dezembro de 2021 (com um caso em um hospital da rede pública).

Mas pode chamar de surto com essa quantidade relativamente pequena de casos? Segundo a Anvisa, "pode-se considerar que há um surto de Candida auris porque a definição epidemiológica de surto abrange não apenas uma grande quantidade de casos de doenças contagiosas ou de ordem sanitária, mas também o surgimento de um microrganismo novo na epidemiologia de um país ou até de um serviço de saúde – mesmo se for apenas um caso. "

A infecção por C. auris é resistente a medicamentos e pode ser fatal. Em todo o mundo, estima-se que infecções fúngicas invasivas de C. auris tenham levado à morte de entre 30% e 60% dos pacientes. Mas esses números costumam variar bastante a depender das variáveis envolvidas, a exemplo da gravidade da doença que levou o paciente ao hospital (como a Covid-19) e da capacidade do fungo de resistir ou não aos medicamentos.

Segundo a Anvisa, essa espécie de fungo produz "biofilmes tolerantes a antifúngicos apresentando resistência aos medicamentos comumente utilizados para tratar infecções por Candida" e até 90% das amostras de Candida auris analisadas apontam resistência ao fluconazol, anfotericina B ou equinocandinas.

Em seu alerta, a Anvisa afirma que tem analisado casos suspeitos do fungo desde 2017, mas os primeiros só foram confirmados durante a pandemia de Covid-19. E o Brasil não foi o único a registrar infecções desse tipo nesse período ligados ao novo coronavírus.

Fungo Candida Auris — Foto: Centers For Disease Control and Prevention (CDC)
Fungo Candida Auris — Foto: Centers For Disease Control and Prevention (CDC)

Nos Estados Unidos, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) registrou 1.156 casos clínicos de Candida auris entre 1º de setembro de 2020 e 31 de agosto de 2021. Não há informações sobre o número de mortos. Até 2016, o fungo havia sido detectado em apenas 4 estados americanos. O número saltaria para 19 estados em 2020.

No México, um surto de Candida auris começou com um paciente que não estava infectado com coronavírus em maio de 2020, momento que o hospital San José Tec-Salud, no norte do país, era transformado em uma unidade de saúde exclusiva para pacientes com Covid-19.

Três meses depois, o fungo Candida auris foi detectado em três UTIs e atingiu 12 pacientes e três áreas hospitalares. Dez eram homens, 9 eram obesos e todos eles respiravam com auxílio de respiradores mecânicos, tinham cateter urinário e venoso e estavam internados de 20 a 70 dias ali. Dos 12 pacientes, 8 morreram.

Os pesquisadores que analisaram os casos listam diversos fatores de risco para o surgimento de infecções por fungos. Entre eles, diabetes, uso de múltiplos antibióticos, falência renal, uso de cateter venoso central e, no caso específico de Covid-19, o uso excessivo de corticosteroides (que tem efeito imunossupressor em neutrófilos e macrófagos, células do sistema de defesa do corpo humano).

Na Índia, o surto de candidemia atingiu 15 pacientes com coronavírus em uma UTI em Nova Déli entre abril e julho de 2020. Do total, 10 estavam infectados por Candida auris e 6 deles morreram.

No caso do Brasil, um grupo de dez pesquisadores brasileiros e holandeses investigou o primeiro surto em Salvador, em dezembro de 2020, e a relação dos casos com a Covid-19. Segundo artigo publicado em março de 2021 no Journal of Fungi, todos os pacientes atingidos eram oriundos do próprio estado (Bahia), não tinham histórico de viagem para o exterior e estavam internados na mesma UTI por causa do coronavírus.

"As restrições de viagem durante a pandemia de Covid-19 e a ausência de histórico de viagem entre os pacientes colonizados por fungos levaram à hipótese de a espécie ter sido introduzida meses antes de o primeiro caso ser identificado e/ou de ter emergido localmente na região de Salvador."

Outra hipótese levantada pelos pesquisadores aponta que os pacientes já estavam infectados com a Candida auris antes de ficarem gravemente doentes com a Covid-19. Ao serem internados em UTI, "foram intensamente expostos a antibióticos e procedimentos médicos invasivos, e desenvolveram superinfecções". A pandemia de Covid-19, portanto, "pode estar acelerando a introdução e/ou espalhando a Candida auris em ambientes hospitalares que estavam livres do fungo".

E concluem: "Num futuro próximo, a superlotação e a escassez de recursos para práticas de controle de infecções, como o uso prolongado de equipamentos de proteção pessoal por falta de disponibilidade, serão um terreno fértil para que C. auris se espalhe, colonize dispositivo invasivos (como um cateter) e deflagre infecções associadas ao tratamento de saúde".

Segundo a Anvisa, o Candida auris "pode permanecer viável por longos períodos no ambiente (semanas ou meses) e apresenta resistência a diversos desinfetantes, entre os quais, os que são à base de quaternário de amônio".

Difícil controle e prevenção

Na maioria das vezes, as leveduras do gênero Candida residem em nossa pele, boca e genitais sem causar problemas, mas podem causar infecções quando estamos com a imunidade baixa ou quando se provocam infecções invasivas, como na corrente sanguínea ou nos pulmões. No caso do C. auris, ele costuma causar infecções na corrente sanguínea, mas também pode infectar o sistema respiratório, o sistema nervoso central e órgãos internos, assim como a pele.

Esse fungo, que cresce como levedura, foi identificado pela primeira vez em 2009 no canal auditivo de uma paciente no Japão. Desde então, houve mais de 5.000 casos identificados em 47 países, entre eles Índia, África do Sul, Venezuela, Colômbia, Estados Unidos, Israel, Chile, Canadá, Itália, Holanda, Venezuela, Paquistão, Quênia, Kuwait, México, Reino Unido, Brasil e Espanha.

A taxa de mortalidade média é estimada em 39%, segundo cálculos em estudo de sete pesquisadores chineses publicado na revista científica BMC Infectious Diseases em novembro de 2020.

Segundo o infectologista Arnaldo Lopes Colombo, professor da Unifesp e especialista em contaminação com fungos, é possível ser colonizado de forma passageira pelo C. auris na pele ou na mucosa sem ter problemas. O fungo apresenta risco real se contaminar a corrente sanguínea.

Para a pessoa ser infectada, explicou ele à BBC News Brasil em 2019, é preciso que tenha sofrido procedimentos invasivos (como cirurgias, uso de cateter venoso central) ou tenha o sistema imunológico comprometido. Pacientes internados em unidades de terapia intensiva por longos períodos e com uso prévio de antibióticos ou antifúngicos também são considerados grupo de risco para a contaminação.

Em 2016, a Opas, braço da Organização Mundial da Saúde para a América Latina e o Caribe, publicou um alerta recomendando a adoção de medidas de prevenção e controle por causa de surtos relacionados ao fungo na região. O primeiro surto da região ocorreu na Venezuela, entre 2012 e 2013, atingindo 18 pacientes.

Além disso, o C. auris costuma ser confundido com outras infecções, levando a tratamentos inadequados.

"O C. auris sobrevive em ambientes hospitalares e, portanto, a limpeza é fundamental para o controle. A descoberta (do fungo) pode ser uma questão séria tanto para os pacientes quanto para o hospital, já que o controle pode ser difícil", explicou a médica Elaine Cloutman-Green, especialista em controle de infecções e professora da University College London (UCL).

Nem todos os hospitais identificam o C. auris da mesma maneira. Às vezes, o fungo é confundido com outras infecções fúngicas, como a candidíase comum.

Em 2017, uma pesquisa publicada por Alessandro Pasqualotto, da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, analisou 130 laboratórios de centros médicos de referência na América Latina e descobriu que só 10% deles têm capacidade de detecção de doenças invasivas de fungos de acordo com padrões europeus.

Segundo a Anvisa, o surto em 2016 em Cartagena, na Colômbia, é um exemplo de como o micro-organismo é difícil de identificar. Cinco casos de infecção foram identificados como três fungos diferentes até um método mais moderno de análise diagnosticar o patógeno corretamente como C. auris.

Também não é possível eliminá-lo usando os detergentes e desinfetantes mais comuns. É importante, portanto, utilizar os produtos químicos de limpeza adequados dos hospitais, especialmente se houver um surto.

Em alerta emitido em 2017, a Anvisa explicou que não se sabe ao certo qual é o modo mais preciso de transmissão do fungo dentro de uma unidade de saúde. Estudos apontam que isso pode ocorrer por contato com superfície ou equipamentos contaminados e de pessoa para pessoa. O CDC também afirma que o fungo pode permanecer na pele de pacientes saudáveis sem causar infecção e se espalhar para outras pessoas, por exemplo.

Em entrevista à BBC News Brasil em dezembro de 2020, Pasqualotto, também professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), afirmou que casos de Candida auris são como "um evento adverso do progresso da humanidade".

"À medida que a gente progride, produz mais antibióticos, que as pessoas são mais invadidas por procedimentos médicos e sobrevivem mais, passam a surgir novos patógenos que antes não causavam doenças. E, devido à pressão dos remédios, eles surgem resistentes", disse ele.

"Então, a Candida auris é só a bola da vez. Assim como já foi o Staphylococcus aureus, que desenvolveu resistência à penicilina após a Segunda Guerra Mundial; depois o Enterococo resistente à vancomicina e tantos, tantos outros. Cada vez a gente tem menos antibióticos para usar e cada vez mais patógenos resistentes."

A resistência microbiana, que envolve fungos e também bactérias, é considerada uma das maiores ameaças à saúde global pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ela acontece pois os microrganismos têm evoluído e se tornado mais fortes e hábeis em driblar medicamentos como antibióticos e antifúngicos, fazendo com que várias doenças já tenham poucas ou nenhuma opção de tratamento disponível.

Resistência a medicamentos

A resistência aos antifúngicos comuns, como o fluconazol, foi identificada na maioria das cepas de C. auris encontradas em pacientes.

Isso significa que essas drogas não funcionam para combater o C. auris. Por causa disso, medicações fungicidas menos comuns têm sido usadas para tratar essas infecções, mas o C. auris também desenvolveu resistência a elas.

"Há registro de resistência à azólicos, equinocandinas e até polienos, como a anfotericina B. Isso significa que o fungo pode ser resistente às três principais classes de drogas disponíveis para tratar infecções fúngicas sistêmicas", explicou o epidemiologista e microbiologista Alison Chaves, no Twitter, logo após a descoberta do primeiro surto em Salvador no fim de 2020.

Estima-se que mais de 90% das infecções causadas pelo C. auris são resistentes ao menos a um medicamento, enquanto 30% são resistentes a dois ou mais remédios.

Análises de DNA indicam também que genes de resistência antifúngica presentes no C. auris têm passado para outras espécies de fungo, como a Candida albicans (C. albicans), um dos principais causadores da candidíase (doença comum que pode afetar a pele, as unhas e órgãos genitais, e é relativamente fácil de tratar).

*Com informações adicionais de Mariana Alvim e Letícia Mori, da BBC News Brasil em São Paulo.

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quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Neve que brilha é encontrada no Ártico; Veja FOTOS

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Microbiologista Vera Emelianenko notou um leve brilho azul na neve ao longo da costa do Mar Branco. O efeito natural é causado por pequenas criaturas bastante incomuns.
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Por Agência Gazeta Russa

Postado em 12 de janeiro de 2022 às 15h00m

Post.- N.\ 10.166

Neve que brilha é encontrada no Ártico
Neve que brilha é encontrada no Ártico

Em uma noite de dezembro, a bióloga russa Vera Emelianenko foi passear na costa do Mar Branco com Mikhail Neretin, filho do biólogo molecular da estação, e dois cachorros.

Em um dos montes, Neretin notou um brilho azul que parecia luzes de Natal. Emelianenko pegou com as mãos um punhado dessa neve; quando espremida, a bola de neve brilhava ainda mais. Os cães correndo pela superfície nevada também deixaram um rastro brilhante. 

Neve com bioluminescência no Ártico — Foto: Reprodução/Facebook/Alexander Semenov
Neve com bioluminescência no Ártico — Foto: Reprodução/Facebook/Alexander Semenov

Na estação científica do Mar Branco, pertencente à Universidade Estatal de Moscou no Ártico, onde Emelianenko e Neretin trabalham, ninguém havia visto nada parecido durante os 80 anos de existência da base.

Neve que brilha é descoberta no Ártico — Foto: Reprodução/Facebook/Alexander Semenov
Neve que brilha é descoberta no Ártico — Foto: Reprodução/Facebook/Alexander Semenov

Neretin convidou o fotógrafo da estação, Aleksandr Semenov, para capturar as luzes. Nós ficamos pisando juntos no chão por umas duas horas para fazer as manchas brilharem mais.

Na sequência, a microbiologista decidiu levar a neve para análise e encontrou vários pequenos crustáceos bioluminescentes com alguns milímetros de comprimento, chamados copépodes.

Bioluminescência dos copépodes explica brilho na neve do Ártico — Foto: Reprodução/Facebook/Alexander Semenov
Bioluminescência dos copépodes explica brilho na neve do Ártico — Foto: Reprodução/Facebook/Alexander Semenov

Trata-se de uma espécie especial de Metridia longa que é comumente encontrada no Ártico e nas águas circundantes, bem como no Atlântico Norte e no Pacífico.

Eles estão geralmente presentes mais distantes da costa, vivendo em profundidades de até 90 metros durante o dia e subindo vários metros da superfície da água à noite.

Pontos de luz na neve encontrada no Ártico — Foto: Reprodução/Facebook/Alexander Semenov
Pontos de luz na neve encontrada no Ártico — Foto: Reprodução/Facebook/Alexander Semenov

Os copépodes brilham devido a uma substância chamada luciferina, que oxida, torna-se colorida e começa a brilhar quando interage com o oxigênio. Os copépodes usam esse brilho como proteção, assustando os potenciais predadores.

De acordo com Ksênia Kosobokova, especialista em zooplâncton marinho do Ártico da Academia Russa de Ciências em Moscou, esses Metridia provavelmente foram carregados por uma forte corrente, que anualmente passa pela costa do Mar Branco no início de dezembro, e lançados no solo pelas ondas.

Neve com pontos de bioluminescência é encontrada no Ártico — Foto: Reprodução/Facebook/Alexander Semenov
Neve com pontos de bioluminescência é encontrada no Ártico — Foto: Reprodução/Facebook/Alexander Semenov

Os crustáceos encontrados na neve já estavam ligeiramente desbotados, mas vivos, diz Kosobokova. Porém, outros cientistas suspeitam que eles possam emitir brilho mesmo após a morte, e ainda que esmagados.

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Onda de calor na América do Sul pode elevar temperaturas a quase 50 graus

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Uma onda de calor intensa atinge a região central da América do Sul nesta semana e pode fazer com que cidades na Argentina, Uruguai e Paraguai registrem temperaturas recordes, próximas dos 50ºC.
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Por Julia Braun, BBC — Da BBC News Brasil em São Paulo

Postado em 12 de janeiro de 2022 às 12h45m

Post.- N.\ 10.165

Pessoas vão à praia em Mar del Plata, na costa da Argentina, no dia 11 de janeiro. — Foto: Mara Sosti / AFP
Pessoas vão à praia em Mar del Plata, na costa da Argentina, no dia 11 de janeiro. — Foto: Mara Sosti / AFP

Uma onda de calor intensa atinge a região central da América do Sul nesta semana e pode fazer com que cidades na Argentina, Uruguai e Paraguai registrem temperaturas recordes, próximas dos 50ºC. Causado por uma massa de ar quente e seca, o fenômeno repercute também no sul do Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, onde os termômetros podem chegar a 40ºC.

Os primeiros sinais do aquecimento já são sentidos desde segunda-feira (10), quando a cidade de San Antonio Oeste, na Patagônia argentina, registrou 42,8ºC, e a província de Mendoza foi colocada sob alerta vermelho.

Nesta terça-feira (11/1), a previsão de máxima de 37ºC para Buenos Aires foi superada e os termômetros marcavam 40ºC por volta das 16h do horário local – a maior temperatura desde 1995.

Segundo o Serviço Meteorológico Nacional (SMN), a capital argentina enfrenta seu quarto dia mais quente em 115 anos, ou desde que os registros passaram a ser arquivados em 1906.

A expectativa é que o calor só cresça nos próximos dias. Os locais mais quentes da Argentina devem registrar entre 45ºC e 47ºC, de acordo com previsões feitas pela MetSul, empresa de meteorologia gaúcha. Os termômetros uruguaios devem ficar entre 41ºC e 43ºC.

Já no Brasil, as temperaturas mais altas no Rio Grande do Sul devem ser marcadas no oeste do estado, com máximas entre 10ºC e 15ºC acima da média para esta época do ano. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu aviso de perigo para 216 municípios do RS em razão da onda de calor.

De acordo com o modelo feito pela MetSul, a área da cidade de Uruguaiana pode ver uma escalada de calor com máximas de 41ºC e 42ºC nos próximos dias. Até regiões mais frias, como a Serra Gaúcha, podem ter marcas extremas no final da semana, com máximas de até 37ºC em Caxias do Sul e ao redor dos 40ºC nos vales de Farroupilha e Bento Gonçalves.

Em Porto Alegre e região, o calor será maior no final da semana e no próximo fim de semana, com marcas ao redor ou acima dos 40ºC e índices de radiação ultravioleta entre 11 e 16. A Defesa Civil do município pede cuidado extremo e recomenda que a população se proteja do sol, mantenha a hidratação constante e evite exercícios entre 10h e 16h.

A maior temperatura já registrada no Rio Grande do Sul, de acordo com os dados oficiais contabilizados desde 1910, foi de 42,6ºC, nos verões de 1917, em Alegrete, e de 1943, em Jaguarão.

Prejuízos no campo e cortes de energia

O impacto das condições climáticas extremas deve ser sentido especialmente pelos agricultores. A região que engloba o sul do Brasil, o Uruguai e a Argentina sofreu perdas significativas no cultivo com uma profunda seca que marcou o ano que passou, e as temperaturas elevadas podem agravar ainda mais a situação.

No Rio Grande do Sul, 159 municípios já estão em situação de emergência devido à estiagem que começou em novembro. Os prejuízos registrados até o momento estão espalhados pela produção de grãos, frutas, hortigranjeiros e leite.

Já no sul da Argentina, onde as chuvas não acumularam nem 200 milímetros em todo o ano de 2021, a seca atinge especialmente o polo portuário de Rosário, onde cerca de 80% das exportações agrícolas do país são carregadas.

Chuvas de verão colocam milhões de brasileiros em risco

Pessoas vão à praia em Mar del Plata, na costa da Argentina, no dia 11 de janeiro. — Foto: Mara Sosti/AFP
Pessoas vão à praia em Mar del Plata, na costa da Argentina, no dia 11 de janeiro. — Foto: Mara Sosti/AFP

"O setor agropecuário que já vinha sofrendo com a falta de chuva deve ser ainda mais castigado pelas altas temperaturas. O calor em excesso afeta diretamente o desenvolvimento das plantas e pode queimar as plantações", diz Olivio Bahia, meteorologista do Inmet.

Há ainda risco de incêndios florestais e quedas de energia. No Uruguai, os primeiros dias de 2022 já foram marcados por imagens assustadoras do fogo no oeste do país. Cerca de 37 mil hectares foram arrasados nas regiões de Paysandú e Río Negro, marcando a maior queimada da história do país.

Enquanto isso, as autoridades argentinas já alertavam desde a semana passada para a possibilidade de uma crise de abastecimento de luz com cortes de energia em Buenos Aires e outras cidades do país. Só nesta terça-feira, 11 bairros e 700 mil usuários ficaram sem luz na capital.

A falta de energia está associada à alta demanda e ao baixo nível dos rios que abastecem as usinas hidrelétricas do país.

O cenário preocupante levou o governo argentino a reunir vários ministérios e organismos para coordenar ações que possam amenizar os riscos provocados pelas altas temperaturas.

5 metros de neve na Califórnia e calor de 20º no Alasca: o estranho inverno de extremos nos EUA

No encontro realizado na segunda-feira, as autoridades discutiram a ampliação da oferta de unidades de terapia intensiva, centros de diálise e neonatologia para acompanhar a população mais vulnerável e buscaram soluções para manter o fornecimento de energia e água.

"Fizemos contato com governadores e prefeitos para unir forças e responder a esta difícil situação excepcional", disse à imprensa o ministro chefe da Casa Civil, Juan Manzur.

O que está causando o calor extremo?

Pessoas vão à praia em Mar del Plata, na Argentina, no dia 11 de janeiro. — Foto: Mara Sosti/AFP
Pessoas vão à praia em Mar del Plata, na Argentina, no dia 11 de janeiro. — Foto: Mara Sosti/AFP

Segundo Éder Maier, especialista em climatologia da América do Sul e membro do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a onda de calor atual é consequência da massa de ar quente e seca instalada entre a Argentina e o Brasil. O fenômeno é favorecido pela área de alta pressão atmosférica que está atuando sobre o Rio Grande do Sul, inibindo a formação de nebulosidade e, consequentemente, elevando as temperaturas e reduzindo a umidade do ar.

"A baixa cobertura de nuvens e o tempo seco causam maior eficiência do sistema ambiental em converter a radiação solar em calor", diz o especialista.

O que se observa atualmente também pode ser classificado como um "extremo climático composto". O termo é utilizado pelos meteorologistas para descrever eventos climáticos extremos simultâneos, concorrentes ou coincidentes, que podem levar a impactos ainda maiores para o meio ambiente e a população.

Atualmente na América do Sul, a poderosa onda de calor é acompanhada por um quadro de estiagem forte a severa – enquanto a seca favorece as altas temperaturas, o calor também piora a estiagem.

Segundo o climatologista e professor de ciências atmosféricas da USP, Pedro Leite da Silva Dias, a onda de calor está ainda associada às fortes chuvas registradas na Bahia e em Minas Gerais nas últimas semanas. O bloqueio de alta pressão atmosférica impede que as chuvas se desloquem para o sul, fazendo com que elas fiquem retidas sobre as regiões nordeste e sudeste do Brasil.

Foto mostra inundação na cidade de Juatuba (MG), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, no dia 10 de janeiro, em meio às fortes chuvas que atingem a região. — Foto: Douglas Magno / AFP
Foto mostra inundação na cidade de Juatuba (MG), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, no dia 10 de janeiro, em meio às fortes chuvas que atingem a região. — Foto: Douglas Magno / AFP

"Funciona como uma gangorra: enquanto o centro da América Latina experimenta seca e calor, o nordeste e sudeste brasileiros sofrem com a chuva", diz.

Há ainda uma relação com o fenômeno climático La Niña, que se desenvolve quando ventos que sopram sobre o Pacífico empurram as águas quentes da superfície para o oeste, em direção à Indonésia. Isso causa grandes mudanças climáticas em diferentes partes do mundo, inclusive na América do Sul.

"A atmosfera está toda conectada e um fenômeno anômalo nunca acontece de forma isolada", explica o climatologista e professor de ciências atmosféricas da USP, Pedro Leite da Silva Dias. "O La Niña contribui não só para potencializar a intensidade da atual onda de calor, como também pode fazer com que ela demore a passar".

Há registros de eventos extremos associados ao La Niña há pelo menos 2 milhões de anos, mas já se sabe que seus efeitos negativos estão se tornando cada vez mais intensos.

Cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês) atrisbuem essa e outras mudanças do comportamento natural do planeta às mudanças climáticas. O estudo, feito por centenas de cientistas que analisam milhares de evidências coletadas ao redor do planeta, alerta para o aumento de ondas de calor, secas, alagamentos e outros eventos climáticos extremos nos próximos dez anos.

"As temperaturas máximas aumentaram significativamente nos últimos 60 anos e o aquecimento global é, sem dúvidas, um potencial candidato para explicar o aumento da intensidade das ondas de calor", diz Silva Dias.
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Últimos 7 anos foram os mais quentes já registrados, diz agência europeia

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Serviço europeu Copernicus aponta que, em 2021, temperatura global ficou 1,2 °C acima dos níveis pré-industriais. Relatório alerta também para concentração recorde de metano na atmosfera.
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Por Deutsche Welle

Postado em 12 de janeiro de 2022 às 10h00m

Post.- N.\ 10.164

Um homem com uma garrafa d'água passa por uma mulher tomando uma bebida em uma ponte sobre o rio Sena, em frente à Torre Eiffel, em Paris, na França. Parisienses se preparam para o aumento da temperatura na capital francesa com a chegada de uma nova onda de calor no norte da Europa que pode bater recordes em vários países — Foto: Philippe Lopez/AFP
Um homem com uma garrafa d'água passa por uma mulher tomando uma bebida em uma ponte sobre o rio Sena, em frente à Torre Eiffel, em Paris, na França. Parisienses se preparam para o aumento da temperatura na capital francesa com a chegada de uma nova onda de calor no norte da Europa que pode bater recordes em vários países — Foto: Philippe Lopez/AFP

Os últimos sete anos foram os mais quentes já registrados globalmente "por uma margem clara", comunicou o serviço de monitoramento do clima da União Europeia (UE) nesta segunda-feira (10). Análises preliminares apontaram que a temperatura global em 2021 ficou 1,2 °C acima dos níveis pré-industriais.

Em sua avaliação anual mais recente, o Copernicus Climate Change Service (C3S) confirmou que o ano de 2021 se juntou à sequência de calor ininterrupta desde 2015 – e alertou também sobre aumentos nas concentrações de metano na atmosfera.

A pesquisa do C3S chegou à conclusão de que o ano passado foi o quinto mais quente já registrado – ligeiramente mais quente do que 2015 e 2018. As medições remontam a meados do século 19.

"O ano de 2021 foi mais um de temperaturas extremas, com o verão mais quente da Europa, ondas de calor no Mediterrâneo, sem mencionar as altas temperaturas sem precedentes na América do Norte", disse o diretor do C3S Carlo Buontempo.

"Esses eventos são um forte lembrete da necessidade de mudar nossos caminhos, dar passos decisivos e eficazes em direção a uma sociedade sustentável e trabalhar para reduzir as emissões de carbono", afirmou Buontempo.

O relatório apontou que diversos países ao redor do mundo foram atingidos por desastres climáticos relacionados ao aquecimento global nos últimos anos. Entre os exemplos citados estão incêndios florestais recordes na Austrália e na Sibéria, uma onda de calor devastadora na América do Norte e chuvas torrenciais que causaram enormes inundações na Ásia, África, nos EUA e na Europa.

Recorde de metano na atmosfera

A agência europeia C3S também monitorou as concentrações atmosféricas dos gases de efeito estufa e concluiu que houve um aumento de dióxido de carbono e metano e afirmou não haver sinais de uma desaceleração.

Refinaria da Lagoa de Berre é vista no fim de tarde em Marignane, na França — Foto: Boris Horvat/AFP
Refinaria da Lagoa de Berre é vista no fim de tarde em Marignane, na França — Foto: Boris Horvat/AFP

A concentração de metano apresentou uma alta "muito substancial" e alcançou um recorde anual de cerca de 1.876 partes por bilhão (ppb). As taxas de crescimento para 2020 e 2021 foram de 14,6 ppb e 16,3 ppb, respectivamente. Os valores correspondem a mais do que o dobro da taxa média de crescimento anual observada nos 17 anos anteriores.

No entanto, segundo o C3S, uma série de fontes naturais e antropogênicas tornou difícil identificar por qual razão houve um aumento tão acentuado nos últimos anos. O metano (CH4) é o gás mais responsável pelo aquecimento global depois do dióxido de carbono (CO2). Embora tenha vida curta na atmosfera, o metano é muitas vezes mais potente do que o CO2.

As fontes naturais de metano incluem as zonas úmidas do globo terrestre, enquanto as fontes induzidas pelos seres humanos são as extrações de gás natural e a produção de petróleo, mineração de carvão e aterros sanitários, bem como arrozais, pecuária e manuseio de estrume.

'Um alerta para políticos e opinião pública'

Vincent-Henri Peuch, diretor do serviço de monitoramento Copernicus, que tem catalogado o aumento dos gases de efeito estufa, disse que as evidências observacionais são cruciais para direcionar os esforços para prevenir uma "catástrofe climática".

Reduzir a quantidade de metano que chega à atmosfera resultaria rapidamente numa desaceleração do aumento das temperaturas e ajudaria a fechar a lacuna entre a meta do Acordo de Paris de um limite de 1,5 °C no aquecimento e os 2,7 °C para os quais as previsões atuais estão apontando – mesmo que todas as nações honrassem suas promessas de redução de carbono.

Na COP26 no ano passado, cerca de 100 nações aderiram a uma inciativa para reduzir as emissões de metano em pelo menos 30% nesta década. As indústrias de petróleo e gás têm o maior potencial para reduções rápidas, especialmente por meio de detecção e reparo de vazamentos de gás durante a produção e o transporte.

Embora o aquecimento global possa parecer gradual, seu impacto em eventos extremos é dramático, segundo Rowan Sutton, do Centro Nacional de Ciências Atmosféricas da Universidade de Reading, no Reino Unido.

"Devemos ver os eventos recordes de 2021, como a onda de calor no Canadá e as inundações na Alemanha, como um alerta para que políticos e a opinião pública acordem para a urgência da emergência climática", disse Sutton. "Além disso, os contínuos aumentos nas concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera indicam que as causas subjacentes ainda precisam ser abordadas."

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