No entanto, esses tipos de ataques são considerados os mais arriscados e potencialmente mais prejudiciais, pois os destroços de satélites explodidos podem permanecer em órbita por anos — correndo o risco de desencadear uma sequência de colisões com quaisquer satélites próximos.
Os ataques não cinéticos, por outro lado, podem ser usados para interferir na operação de satélites inimigos sem contato mecânico direto. É o caso de lasers de alta frequência, interferência de sinal e ataques cibernéticos (como invasão hacker ou corrupção de dados).
Impactos além do campo militar
As consequências de ataques no espaço podem ir muito além do campo militar. Os satélites em órbita são amplamente utilizados, em países do mundo todo, para serviços de comunicação, navegação, vigilância e até monitoramento de violações de direitos humanos.
Setores da economia, como a produção agrícola, dependem diretamente dessa tecnologia para atividades básicas, como a previsão do tempo.
Desestabilizar satélites dos quais o mundo depende poderia atrasar a resposta a desastres, afetar serviços bancários, interferir no transporte de cargas e impedir até atividades mais simples, como o envio de carros por aplicativo e o despacho de ambulâncias.
Assim, ataques que interfiram nos sinais ou no monitoramento desses equipamentos podem afetar a infraestrutura civil e gerar impactos econômicos significativos.
Disputa com a Rússia e a China
As armas anunciadas pelos EUA estão sob comando da Força Espacial, um braço militar criado durante o primeiro mandato de Donald Trump com o objetivo de atuar em um domínio cada vez mais disputado.
Trump afirma que a Força Espacial é um passo histórico para fortalecer as capacidades de defesa dos EUA em meio a uma corrida armamentista em avanço, na qual China e Rússia têm desafiado a dominância americana no espaço.
"A China desenvolve e opera capacidades espaciais e contraespaciais como parte de uma estratégia de modernização militar", afirma a Força Espacial em seu site, enquanto "a Rússia vê o espaço como um domínio de combate e acredita que a supremacia espacial será um fator decisivo em conflitos futuros."
Autoridades militares dos EUA têm alertado repetidamente que os dois países estão testando novas capacidades ofensivas no espaço, citando exemplos como missões de treinamento de constelações de satélites russos que Washington afirma poder demonstrar "táticas de ataque e defesa" para combates futuros e o desenvolvimento pela China de um míssil hipersônico de órbita parcial com capacidade nuclear.
Conforme a CNN noticiou em 2024, informações de inteligência dos EUA sugerem que a Rússia enviou esforços para desenvolver uma arma nuclear baseada no espaço que utilizaria uma onda de energia massiva, conhecida como pulso eletromagnético, para potencialmente neutralizar uma grande parcela de satélites comerciais e governamentais — alegação que Moscou negou.
O vice-ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, condenou o anúncio dos EUA sobre as armas no espaço e afirmou que os americanos usam "pretextos incendiários" e "argumentos espúrios" para justificar a medida.
Já a China pediu que os Estados Unidos interrompam o reforço de suas capacidades militares no espaço, com a mídia estatal chinesa alertando para uma corrida armamentista global.
“A China defende o uso pacífico do espaço sideral e a sua segurança, e opõe-se a qualquer corrida armamentista no espaço ou a qualquer tentativa de militarizá-lo e transformá-lo em uma zona de guerra”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, em uma coletiva de imprensa.
Legislação espacial e suas lacunas
O espaço possui um arcabouço legal internacional, mas ele é considerado ainda muito vago. Embora o Tratado do Espaço Exterior de 1967, elaborado no contexto pós-Guerra Fria, proíba armas nucleares ou armas de destruição em massa em órbita, ele não veda o uso de armas convencionais no espaço nem o emprego de armas baseadas em terra contra ativos espaciais — o que abre margem para interpretações.
Os EUA se comprometeram, em 2022, a nunca mais testar armamento armas antissatélite lançadas a partir do solo para atingir um satélite em órbita. Mas o texto não exclui a possibilidade de usar, por exemplo, uma espaçonave para se aproximar diretamente de um satélite inimigo em órbita.
Em dezembro de 2025, Trump assinou uma ordem executiva que considerava a superioridade dos EUA no espaço "uma medida de visão e força de vontade nacional", com ênfase no desenvolvimento de tecnologias de defesa antimíssil de última geração e na garantia de sua capacidade de neutralizar ameaças, incluindo "qualquer colocação de armas nucleares no espaço".
* Com informações da Reuters e da CNN Internacional