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sábado, 1 de fevereiro de 2025

Royal Enfield Super Meteor 650: o que faz essa custom ter seis meses de fila de espera?

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O g1 testou Estradeira de média cilindrada da marca indiana sai por R$ 34.990 e é uma das poucas opções acessíveis de motos para curtir no final de semana. Mas vale a pena esperar tanto tempo por ela?
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Por Vinicius Montoia, g1

Postado em 01 de Fevereiro de 2.025 às 06h00m

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Royal Enfield Super Meteor 650, na versão testada Celestial, tem banco com sissy bar (apoio para lombar do garupa) e para-brisa. Preço: R$ 34.990 — Foto: g1 | Fábio Tito
Royal Enfield Super Meteor 650, na versão testada Celestial, tem banco com sissy bar (apoio para lombar do garupa) e para-brisa. Preço: R$ 34.990 — Foto: g1 | Fábio Tito

As custom estão em alta. As motocicletas voltadas para estrada, popularmente conhecidas como as do estilo Harley-Davidson, tiveram um incremento importante de vendas após a pandemia, como mostrou o g1 em novembro. O crescimento do segmento foi superior a 50%, quando se compara as vendas acumuladas de 2024 com o mesmo período de 2023.

A Royal Enfield é uma das grandes responsáveis por esse incremento, com cinco modelos entre os 10 mais vendidos do segmento. A Super Meteor 650, lançada no meio de 2024 e que já tem uma fila de espera considerável.

Veja as versões:

  • Astral: R$ 33.990
  • Interestellar: R$ 34.490
  • Celestial: R$ 34.990

Por isso, o g1 colocou à prova essa que é uma das motos mais desejadas do segmento para te contar se ela é tudo o que promete. No vídeo abaixo, você confere os principais pontos positivos e negativos do modelo.

E ao longo da reportagem, detalhamos todas as característica da Super Meteor 650 (como peso, motorização, transmissão, largura, estabilidade, conforto, consumo e segurança) para você decidir se essa deve ser a motocicleta da sua garagem.

Royal Enfield Super Meteor 650: 3 pontos positivos e 3 negativos

Que modelo é esse?

As demais motos da Royal Enfield — como Hunter, Scram, Classic, Meteor, Interceptor, Continental e Himalayan — estão disponíveis à pronta entrega. A Super Meteor pode demorar até seis meses para ser chegar às mãos do novo dono. Mas o que houve?

O estoque [de Super Meteor] que acreditávamos que duraria alguns meses, durou dias. Tínhamos 650 motos para vender em um mês, mas isso aconteceu em apenas 48 horas, explicou Gabriel Patini, diretor executivo da Royal Enfield para a América Latina.

Segundo o executivo, o tempo de espera se deve à alta demanda, mas também ao tempo da moto vinda da matriz, na Índia, até o Brasil.

Ou seja, a montadora não previu o montante de pedidos que a Super Meteor teria após o lançamento e, agora, a linha de produção indiana teve que abrir mais dois turnos para suprir os pedidos brasileiros.

Além disso, o kit de peças da moto vem do país asiático e é montado na fábrica de Manaus (AM). Após essa etapa, as motos são levadas para o centro de distribuição da marca, em Louveira (SP). Esse trâmite demora cinco meses. Só então o produto chega à concessionária.

Patini afirma que os pedidos da filial brasileira já foram ampliados, mas a Super Meteor enfrenta uma fila de espera grande por conta da falta de outras customs acessíveis no mercado nacional.

É um cliente órfão de modelos mais em conta da Harley-Davidson, da Honda Shadow, da Suzuki Boulevard. É um número gigante de consumidores que estava sem nada para comprar, esclareceu o executivo. 
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Royal Enfield Super Meteor 650 — Foto: Divulgação | Royal Enfield
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Royal Enfield Super Meteor 650 — Foto: g1 | Fábio Tito
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Royal Enfield Super Meteor 650 — Foto: Divulgação | Royal Enfield
Royal Enfield Super Meteor 650
Royal Enfield Super Meteor 650
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Royal Enfield Super Meteor 650
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Royal Enfield Super Meteor 650
Royal Enfield Super Meteor 650
Royal Enfield Super Meteor 650
Royal Enfield Super Meteor 650
Royal Enfield Super Meteor 650
Royal Enfield Super Meteor 650
Royal Enfield Super Meteor 650
Royal Enfield Super Meteor 650
Royal Enfield Super Meteor 650
Boa na estrada e na cidade, mas pesada

Apesar do aspecto robusto, não se pode esquecer que a Super Meteor é uma moto de entrada entre as custom. Apesar do visual, ela tem um terço do motor de motos premium.

As Harley Davidson costumam ser equipadas com propulsores de 1.800 cilindradas ou mais. E, como diz o nome, a Super Meteor tem exatas 648 cilindradas.

Isso não tira o quão empolgante pode ser a moto em baixas e médias velocidades, mas não dá para estabelecer uma comparação entre as custom de entrada e as topo de linha. É como comparar um Hyundai HB20 com um Volkswagen Golf.

🏍️ Entretanto, apesar da "falta de motor", ela se torna uma moto leve perto das estradeiras convencionais. Para iniciantes na categoria, esse é um ponto extremamente positivo, ao não gerar receio de derrubar uma moto tão pesada.

Devido à largura, é preciso paciência para passar entre os carros — Foto: g1 | Vinicius Montoia
Devido à largura, é preciso paciência para passar entre os carros — Foto: g1 | Vinicius Montoia

Deixa a desejar, porém, quando comparamos a Super Meteor 650 com a sua principal rival, a Kawasaki Eliminator 500. Por ter 241 kg, o modelo da Royal Enfield é 65 kg mais pesado que a concorrente japonesa.

No geral, o peso extra se reflete negativamente no desempenho em alta velocidades, mas também torna manobras em baixa velocidade, principalmente entre os carros, mais difícil. É preciso um pouco de paciência para contornar outros veículos em meio ao trânsito.

Por ter apenas 47 cv — a Kawasaki tem 51 cv —, a Super Meteor tem um desempenho progressivo, que não assusta. Em outras palavras, é possível girar o manete da direita (que, inclusive, tem ótima empunhadura) sem a preocupação de ser jogado para trás com a aceleração.

E essa é uma característica deve ser valorizada por iniciantes em motocicletas de média e alta cilindradas. O torque chega às rodas sem aquela "patada" nas costas e isso, por si só, já ajuda a ter um controle maior sobre o veículo sem a necessidade de equipá-lo com controle de tração.

A Royal Enfield Super Meteor 650 tem motor de dois cilindros paralelos que entregam 47 cv — Foto: g1 | Fábio Tito
A Royal Enfield Super Meteor 650 tem motor de dois cilindros paralelos que entregam 47 cv — Foto: g1 | Fábio Tito

A Super Meteor 650 não vibra tanto em ponto morto quanto as custom de alta cilindrada, outro ponto positivo do modelo. Por outro lado, o desempenho não empolga. Para quem está acostumado a rodar com motocicletas de média e alta cilindrada, a aceleração, ultrapassagens e as retomadas podem ser enfadonhas.

Mas não adianta o motor ter bom funcionamento se o casamento com a transmissão não for harmônico. E é aí que a Royal acerta ao utilizar um câmbio de seis marchas na Super Meteor.

A sexta marcha ajuda a diminuir a vibração do motor em altas velocidades, pois ele diminui a rotação do propulsor. E o acerto das três primeiras marchas é agradável para a cidade, por não serem tão longas quanto as três últimas.

⚙️ Mas, de novo, o piloto pode sofrer um pouco ao fazer uma ultrapassagem. Por ter engrenagens mais longas, a Super Meteor tem um desempenho bastante progressivo. Ou seja, não é só o motor que a torna uma custom dócil.

Royal Enfield Super Meteor 650 — Foto: g1 | Fábio Tito
Royal Enfield Super Meteor 650 — Foto: g1 | Fábio Tito

⚠️ Outro ponto para o iniciante ficar ligado: a posição do comando de troca de marcha é avançado. O piloto fica com os pés posicionados para frente, o que tira um pouco da agilidade ao fazer curvas e manobras em baixas velocidades.

No teste do g1, após ficar 10 dias com o modelo, isso foi bastante sentido ao encarar o trânsito pesado da capital paulista.

Apesar de ter um guidão largo, não é tão difícil transitar com a Super Meteor nos corredores das grandes cidades. Mas há locais onde ela simplesmente não passa. Enquanto as city que tem 75 cm de largura, essa custom tem 89 cm de uma ponta a outra.

Porém, há modelos do segmento que são mais caros e mais difíceis de pilotar. Assim, fica evidente que a Super Meteor não carrega os grandes pênaltis das custom premium, mas também não entrega o mesmo desempenho delas.

Royal Enfield Super Meteor 650 — Foto: g1 | Fábio Tito
Royal Enfield Super Meteor 650 — Foto: g1 | Fábio Tito

O tamanho da Super Meteor é um ponto importante, especialmente para quem pode ter apenas uma moto e precisa de um modelo que atenda tanto às necessidades diárias quanto às viagens de fim de semana.

Devido às suas dimensões reduzidas em comparação com outras motos custom, a Super Meteor tem vantagens e desvantagens. Entre os prós estão o entre-eixos menor, que facilita manobras em baixas velocidades, e a facilidade de fazer curvas.

É como comparar a manobrabilidade de um Renault Kwid com uma Chevrolet S10: é óbvio qual é mais fácil de estacionar. Algumas motos estradeiras parecem ônibus de tão difíceis de manobrar, devido à grande distância entre as rodas.

🌪️ No entanto, há um ponto negativo que compromete a segurança: a 120 km/h, ela começa a "shimmar". O shimmy é um fenômeno em que a parte dianteira da moto oscila rapidamente de um lado para o outro.

Royal Enfield Super Meteor 650 — Foto: g1 | Fábio Tito
Royal Enfield Super Meteor 650 — Foto: g1 | Fábio Tito

Isso ocorre por falta de peso no eixo dianteiro, indicando uma má distribuição de massa no projeto. Quando a velocidade aumenta, o vento e a aceleração empurram o eixo dianteiro para cima e é nesse momento que a frente fica muito leve, gerando, assim, a instabilidade.

O "shimmy" de uma moto é muito arriscado porque o motociclista pode perder totalmente o controle. E a Super Meteor shimma mesmo dotada de suspensão invertida que, em tese, deveria evitar esse fenômeno.

Na versão topo de linha Celestial, o banco é maior e possui sissybar para o garupa, um pequeno apoio lombar. O assento é bastante confortável, mas pode deixar os músculos ligeiramente dormentes em viagens longas.

No quesito consumo de combustível, ela não surpreendeu. Ela manteve a média do segmento. Medindo o consumo de forma manual após cada abastecimento (pois seu computador de bordo não registra consumo), foi possível alcançar apenas 21,6 km/l de gasolina.

Um dos pontos elogiáveis da Super Meteor é seu sistema de freios, que funciona bem e é equipado com sistema anti-bloqueio (ABS) nas rodas dianteira e traseira.

Por fim, é uma moto voltada para consumidores sem muitas pretensões esportivas, mas que apreciam uma viagem tranquila e confortável aos finais de semana. Se você gosta de contemplar paisagens, a Super Meteor pode ser uma parceira acessível para curtir viagens e acumular histórias.

Pontos positivos e negativos:

  • Facilidade de pilotar;
  • ✅ Altura do assento;
  • ✅ Entre-eixos mais curto;
  • ❌ Desempenho;
  • ❌ Manobras no trânsito;
  • ❌ Peso.
Conheça as cinco motos mais econômicas do Brasil

Ficha técnica da Super Meteor 650

  • Motor: 648 cilindradas, bicilíndrico paralelo;
  • Potência: 47 cv a 7.250 rpm;
  • Torque: 5,3 kgfm a 5.650 rpm;
  • Câmbio: manual, seis marchas;
  • Comprimento: 2,26 m;
  • Largura: 0,89 m;
  • Altura: 1,15 m;
  • Entre-eixos: 1,50 m;
  • Peso: 241 kg;
  • Tanque: 15,7 litros;
  • Freio dianteiro: 320 mm com ABS;
  • Freio traseiro: 300 mm com ABS;
  • Suspensão dianteira: curso de 120 mm;
  • Suspensão traseira: curso de 101 mm;
  • Pneu dianteiro: 19 polegadas, 100/90
  • Pneu traseiro: 16 polegadas, 150/80
A estradeira vem equipada com freios ABS, inclusive na roda traseira — Foto: g1 | Fábio Tito
A estradeira vem equipada com freios ABS, inclusive na roda traseira — Foto: g1 | Fábio Tito

Oi, sumido

Como mostrou o g1 em novembro, a Royal Enfield tem navegado no segmento das custom há quase sete anos de maneira isolada com modelos de média cilindrada. Dos oito modelos à venda no Brasil, a marca comercializa quatro custom — que estão entre as cinco mais vendidas da categoria.

Essa é a principal estratégia da Royal Enfield: desbravar um segmento “abandonado”, sobretudo em uma faixa de preço em que as concorrentes não se encaixam. A Super Meteor 650 é R$ 10.500 mais barata que a sua equivalente, a Kawasaki Eliminator 500.

A líder de venda entre as custom é a Hunter 350, também da Royal Enfield, e evidencia que a marca também quer conquistar o consumidor interessado em outras categorias. Por R$ 19.990, o modelo já vem com freios ABS de dois canais e o preço inclui o frete de Manaus para qualquer local do Brasil.

Nessa faixa de preço, a montadora indiana pode incomodar até algum cliente da Honda CG e outros modelos que gravitam na casa dos R$ 20 mil, porém menos equipados.

Shineray Titanium 250 chega por R$ 23.890 com motor bicilíndrico de 19 cv e 1,8 kgfm de torque — Foto: Divulgação | Shineray
Shineray Titanium 250 chega por R$ 23.890 com motor bicilíndrico de 19 cv e 1,8 kgfm de torque — Foto: Divulgação | Shineray

O domínio do segmento pela Royal Enfield chamou a atenção da chinesa Shineray. O g1 já havia adiantado com exclusividade, no início do segundo semestre de 2024, que a marca chinesa entraria na categoria das custom com três modelos de baixa cilindrada.

Ao apagar das luzes do ano passado, a chinesa lançou as três motos prometidas.

Veja os preços:

  • Iron 250: R$ 19.990;
  • Titanium 250: R$ 23.890;
  • Denver 250: R$ 23.990.

De certa forma, o efeito "Royal Enfield" deixou claro que o consumidor brasileiro não se contenta só com moto para trabalho. Como diz a música dos Titãs, "A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte".

Shineray Denver tem visual mais clássico e custa R$ 23.990. O motor é o mesmo da Titanium, com 250 cilindradas que entregam 19 cv de potência e 1,8 kgfm de torque — Foto: Divulgação | Shineray
Shineray Denver tem visual mais clássico e custa R$ 23.990. O motor é o mesmo da Titanium, com 250 cilindradas que entregam 19 cv de potência e 1,8 kgfm de torque — Foto: Divulgação | Shineray

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sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Trump pragmático? O que explica a mudança de tom sobre a China e como isso pode impactar o Brasil

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Crítico ferrenho dos chineses durante a campanha eleitoral, o republicano ameaçou tributar em até 60% os produtos importados do país asiático. Agora, fala em possível acordo comercial e diz que prefere evitar tarifas.
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Por André Catto, g1

Postado em 31 de Janeiro de 2.025 às 05h00m

#.* Post. - Nº.\  11.491*.#

Donald Trump, presidente dos EUA, e Xi Jinping, presidente da China, em foto de 29 de junho de 2019 — Foto: Reuters/Kevin Lamarque
Donald Trump, presidente dos EUA, e Xi Jinping, presidente da China, em foto de 29 de junho de 2019 — Foto: Reuters/Kevin Lamarque

Em quase duas semanas de seu retorno à Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu especialistas e parte do mercado financeiro ao revelar uma postura mais pragmática e menos agressiva em relação à China, sua grande adversária comercial.

Se durante a corrida eleitoral o republicano disparava contra o país — prometendo tarifas imediatas e de até 60% sobre produtos importados chineses —, agora, eleito, o tom tem sido mais ameno.

O presidente norte-americano não só deixou de aplicar taxas mais altas contra os asiáticos neste primeiro momento: ele também indicou a possibilidade de que os dois países cheguem a um acordo comercial.

"Eu posso fazer isso [firmar acordos com a China] porque tenho algo que eles querem: uma mina de ouro", disse, ao ser questionado em entrevista à Fox News se seria possível firmar entendimentos com o líder chinês, Xi Jinping.

"Temos um grande poder sobre a China: as tarifas. E eles não as querem. Isso é um tremendo poder sobre o país", acrescentou o republicano.

Por mais que ainda sejam os primeiros dias de governo, a falta de ação de Trump na questão tarifária tem se refletido de forma positiva nos mercados emergentes, o que inclui o Brasil.

A mais nova prova de fogo desse otimismo ficou para este sábado (1º). Essa é a data para a qual o republicano prometeu aplicar tarifas de 25% sobre produtos do Canadá e do México, além de uma tributação adicional de 10% sobre itens da China. Ele reafirmou a promessa nesta quinta-feira (30).

Enquanto os anúncios não se confirmam, a falta de medidas concretas tem se refletido na valorização do real em relação ao dólar. Desde que o bilionário reassumiu a Casa Branca, a moeda brasileira avançou 3,13% em relação à norte-americana. Nesta quinta, fechou cotada a R$ 5,85.

Isso acontece porque o mercado financeiro já vinha esperando por um Trump bastante duro em seu protecionismo. A quebra dessa expectativa inicial fez os agentes reajustarem suas rotas, à espera de novos sinais sobre a postura do presidente.

"Fiquei surpreso. Não esperava em hipótese alguma pela falta de medidas objetivas de Trump", diz o economista Lívio Ribeiro, pesquisador associado do FGV Ibre e sócio da BRCG Consultoria. "As ameaças ficaram muito mais no discurso, pelo menos por enquanto, do que em algo genuíno."

O modo de agir de Trump é semelhante ao de seu admirador e presidente argentino, Javier Milei, que mudou completamente de discurso sobre o gigante asiático após assumir o poder.

Conforme mostrou o g1, Milei dizia em sua campanha que não faria negócios com a China e "nenhum comunista". No governo, passou a se referir ao país como "parceiro comercial muito interessante" e fez questão de marcar um encontro bilateral com Xi Jinping, no G20, em novembro do ano passado.

Para o professor Rodrigo Zeidan, da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral, tanto o presidente norte-americano quanto o argentino seguem a mesma lógica.

"Uma coisa é ser eleito. Outra, ter que governar. A China é um grande parceiro comercial dos EUA. Então, há muito interesse", diz. "Trump promete o que tem que prometer para vencer a eleição. Mas, quando tem que tomar efetivamente as medidas, negocia."

Após ameaças e sanções de Trump, Colômbia firma acordo com EUA para receber deportados

Balança comercial

De janeiro a novembro de 2024, a China correspondeu a 10,8% das importações feitas pelos norte-americanos.

O economista-chefe da consultoria Análise Econômica, André Galhardo, destaca que o país asiático foi o segundo que mais exportou para os EUA, atrás apenas do México (12,5%). Em terceiro lugar, ficou Canadá (10,1%).

Quando observadas as exportações dos norte-americanos, a China foi o terceiro principal destino, consumindo 5,38% do total das vendas. Enquanto isso, o maior comprador dos EUA foi o Canadá (12,96%), seguido pelo México (12,4%).

Relação comercial entre EUA e China. — Foto: Kayan Albertin/Arte g1
Relação comercial entre EUA e China. — Foto: Kayan Albertin/Arte g1

"Apesar de a China ser o terceiro maior importador dos EUA, os norte-americanos acumularam um déficit de US$ 267,4 bilhões com o país asiático de janeiro a novembro de 2024", diz Galhardo. "Em 2023, o rombo já havia sido parecido, de R$ 256,6 bilhões."

"Os dados mostram que o relacionamento comercial dos EUA com a China é muito pior do que com outros parceiros importantes, como o Canadá e o México", acrescenta.

Roberto Dumas, professor de economia chinesa do Insper, lembra que os norte-americanos dependem dos asiáticos, especialmente para importação de itens de tecnologia da informação, semicondutores, aparelhos elétricos e bens manufaturados — que são mais baratos quando produzidos no país.

"Taxar produtos importados pode prejudicar ambas as partes", diz. "A imposição de tarifas deve elevar a inflação nos EUA. Assim, o banco central americano vai demorar mais para cortar os juros. Isso fortalece o dólar e, consequentemente, deprecia as moedas de países emergentes."

"Então, é danoso para todo mundo. Além disso, um país vai fazer a réplica [responder com mais tarifas] e outro vai fazer a tréplica. Assim, a inflação fica mais pegajosa no mundo inteiro."

Para Dumas, o cenário é de cautela mesmo que ocorra um eventual acordo. O especialista lembra que, apesar de os países terem chegado a um acerto durante o primeiro governo de Trump para aliviar a guerra comercial, houve taxação.

Naquela ocasião, os EUA concordaram em reduzir algumas tarifas em troca de um aumento nas compras chinesas de produtos norte-americanos.

"Foi feito um acordo, mas com tarifas retaliatórias. Então, parece que o mercado financeiro está mais otimista do que deveria", afirma, ao se referir à atual queda do dólar diante da inércia de Trump.
Arma geopolítica

Como mostrou o g1 em dezembro, a "ameaça tarifária" é uma estratégia antiga e conhecida do republicano para tentar vantagens em negociações bilaterais. É uma forma de tentar colocar outros países em desvantagem em uma negociação.

Em 2018, por exemplo, Trump chegou a anunciar a criação de taxas para a importação de aço e alumínio, dois dos produtos que estão no rol de exportações brasileiras para os norte-americanos.

Pouco tempo depois, os países negociaram um esquema de cotas de importação, que permitiam a venda dos produtos com isenção ou redução de tarifa até um determinado limite.

"Trump tem sinalizado que as tarifas serão utilizadas como um instrumento não somente de imposição comercial, mas também de negociação geopolítica", afirma Lívio Ribeiro, do FGV Ibre.

Um exemplo recente é a ameaça do republicano de taxar produtos da Colômbia. O embate, que gerou uma crise diplomática no último fim de semana, aconteceu depois que o presidente colombiano, Gustavo Petro, proibiu a entrada em seu território de aviões dos EUA com deportados de seu país.

Imediatamente, Trump afirmou que aplicaria tarifas emergenciais de 25% sobre todos os produtos importados da Colômbia, aumentando essa taxa para 50% em uma semana. As ameaças comerciais deram certo: na manhã seguinte, Gustavo Petro voltou atrás.

Donald Trump, presidente dos EUA, e Gustavo Petro, presidente da Colômbia — Foto: Jim Watson, Yuri Cortez / AFP
Donald Trump, presidente dos EUA, e Gustavo Petro, presidente da Colômbia — Foto: Jim Watson, Yuri Cortez / AFP

Enquanto a Colômbia não figura nem entre os 10 principais parceiros comerciais dos EUA, a China é um mercado bastante importante para o país. Esse fato pode ajudar a explicar a postura "menos prática" de Trump contra os asiáticos neste início de governo, diz Lívio Ribeiro.

Segundo o especialista, a preocupação de Trump com a inflação norte-americana é um fator que também pode estar pesando para essa postura menos agressiva em relação às tarifas. Como já dito aqui, a taxação tende a elevar preços internos — algo que o republicano não quer.

"No curto prazo, e possivelmente a médio prazo, você não consegue compensar esse aumento do preço do produto importado com uma maximização da produção nacional", diz.

Portanto, acrescenta Ribeiro, o país terá ou a mesma quantidade de produtos a valores maiores, ou menos produtos entrando. "Ou seja, preços mais elevados."

"Esse debate possivelmente ganhou mais atenção e, talvez, esteja na raiz de não termos tido, oficialmente, nenhum tipo de medida formalizada por Trump. Mesmo o anúncio previsto para este sábado ainda está sub judice [em análise]", conclui.

Até o momento, os chineses têm se mostrado dispostos a evitar uma nova guerra comercial. Na última sexta-feira (24), a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, disse que os dois países podem resolver suas diferenças por meio do "diálogo".

"A cooperação econômica e comercial entre a China e os EUA é benéfica para ambos os lados", disse, ao declarar que seu país "nunca" busca deliberadamente ter um superávit comercial.

"Guerras comerciais e tarifárias não têm vencedores e não servem aos interesses de ninguém", completou.

Lula promete reciprocidade se Trump taxar produtos brasileiros

Quais são os impactos para o Brasil?

Medidas como o aumento de tarifas de importação e a política anti-imigração de Trump podem gerar mais inflação nos EUA. Além disso, a renúncia de impostos para favorecer as empresas norte-americanas é vista como um risco para as contas públicas do país.

Esses são apenas dois motivos que indicam que o Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, terá mais dificuldade de controlar os preços, mantendo os juros elevados no país.

Na decisão da última quarta-feira (29), a primeira com Trump de volta à Casa Branca, o Fed ignorou a pressão do republicano por cortes e manteve os juros inalterados, na faixa de 4,25% a 4,50% ao ano.

O cenário afeta o Brasil porque juros mais altos por lá fazem os títulos públicos norte-americanos renderem mais. Investidores se animam, levam recursos para os EUA e o dólar se valoriza frente a outras moedas. Esse conjunto de eventos altera o fluxo de investimentos no mundo todo.

A fuga de capital, portanto, é um fator que pode colaborar para que o Banco Central (BC) eleve a taxa Selic por aqui, gerando impacto negativo na atividade econômica brasileira. Por isso, a inflação norte-americana é tão importante — e monitorada de perto pelos agentes econômicos.

Ao considerar o cenário externo e fatores como o quadro fiscal brasileiro, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC confirmou, na quarta-feira, a elevação da taxa básica de juros brasileira em 1 ponto percentual (p.p.), para 13,25% ao ano.

Além dos reflexos cuja origem direta está nos EUA, o Brasil pode ser atingido por uma eventual desaceleração da economia chinesa caso Trump confirme uma taxação elevada contra os asiáticos.

"A China é o nosso principal parceiro comercial. Pelo que vimos no primeiro mandato de Trump, as tarifas podem implicar em um crescimento menor dos chineses. E uma China crescendo menos demanda menos commodities do Brasil", explica Galhardo, da Análise Econômica.

Isso pode gerar um impacto negativo na balança comercial brasileira, acrescenta. "Ou seja, são menos dólares entrando, e talvez um aumento do déficit das transações correntes. São potenciais impactos."

Outro reflexo para o Brasil caso Trump tarife mais a China é a sobreoferta de produtos chineses. Com os EUA importando menos do país, itens manufaturados asiáticos (e com preços muito mais baixo) tendem a buscar outros mercados.

"A China pode encontrar no Brasil uma possibilidade de substituir os EUA como 'terceiros mercados'. E nós podemos ser invadidos, mais ainda, de carros elétricos e aço chinês", diz Roberto Dumas, do Insper.

O professor explica que esse movimento traz ganhadores e perdedores. De um lado, é prejudicial para a indústria nacional, que passa a competir com produtos potencialmente mais baratos. Do outro, podem ganhar os consumidores, com a oferta de itens a custos menores.

Enquanto isso, novas tarifas dos EUA contra a China também podem favorecer o agronegócio brasileiro, destaca Lívio Ribeiro, do FGV Ibre.

"O agro brasileiro acabou sendo beneficiado na primeira rodada da guerra comercial porque uma das retaliações que a China pode fazer é deixar de comprar produtos americanos", diz.

"Esse tipo de desvio de comércio pode aparecer. Então, em princípio, o agro, individualmente, pode se beneficiar. O problema é que [com tarifas] toda a estrutura de custos muda para pior."

Apesar da eventual janela de oportunidades, o Brasil ainda carece de uma política brasileira de exportação mais afiada, pondera Rodrigo Zeidan, da New York University Shanghai e da Fundação Dom Cabral.

"A eventual taxação da China pelos EUA seria uma oportunidade se o Brasil tivesse uma política comercial decente. Mas não temos nada", avalia.

"No final das contas, todos os países do mundo podem tentar se beneficiar desse movimento de fragmentação das cadeias de suprimento globais. Mas o Brasil vai continuar do lado de fora, só olhando, porque ainda temos uma estratégia de exportação da década de 1960", finaliza.

 Banco Central do Brasil

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