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domingo, 12 de janeiro de 2025

Entenda como descoberta de petróleo na África pode indicar existência de possível 'sucessor do pré-sal' no Brasil

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Bacia de Pelotas, no Sul do Brasil, compartilha a mesma formação geológica da Namíbia. Regiões estavam 'coladas' durante a Pangeia, quando todos os continentes eram unidos. Descoberta de petróleo no país africano reacendeu o interesse por jazidas no RS e em SC.
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Por Gustavo Chagas, Vitor Januário, g1 RS

Postado em 12 de Janeiro de 2.025 às 08h20m

#.* Post. - Nº.\  11.467*.#

Mais de 6 mil km separam o Brasil da Namíbia, através do Oceano Atlântico. Contudo, a descoberta de petróleo na costa do país africano é vista com animação por aqui. Como a América do Sul e a África estiveram unidas há 115 milhões de anos, os continentes compartilham semelhanças geológicas que indicam a possibilidade da presença do combustível na Região Sul, mais precisamente na Bacia de Pelotas, entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

🛢️ Contexto: nos últimos anos, a Namíbia fez uma série de descobertas de petróleo. As estimativas são de que a costa do país tenha jazidas superiores a 10 bilhões de barris. As descobertas mais recentes aconteceram nos últimos oito anos, fazendo com que o interesse pela Bacia de Pelotas reacendesse devido à semelhança geológica entre ambas as regiões no passado.

Ainda não há a confirmação de que, de fato, exista petróleo região. Mas as perspectivas coincidem com a busca de um "sucessor do pré-sal".

Na Bacia de Pelotas, especialistas preveem uma extração de petróleo semelhante à da Namíbia. Mas isso só deve acontecer caso todos os testes exploratórios, licenças ambientais e outros processos forem feitos com sucesso. Esse procedimento pode levar até o início da década de 2030. (Veja esses detalhes mais abaixo)

O diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Rodolfo Saboia, explica que o Brasil espera aumentar sua produção de petróleo até 2030, quando os níveis dos campos do pré-sal tenderão a cair. Nesse cenário, a Bacia de Pelotas se tornaria importante para a segurança energética do país.

"Grande parte da produção vem das bacias de pré-sal, e lá essa produção tende a cair, a declinar a partir de 2030. Então, a partir daí, o Brasil tem que fazer a seguinte escolha: ou ele busca as chamadas novas fronteiras, ou se torna importador de petróleo novamente. E entre essas novas fronteiras que nós deslumbramos, hoje existem duas grandes possibilidades: a famosa Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas", diz Saboia.

  1. O que a Namíbia tem a ver com isso?
  2. Afinal, tem petróleo em Pelotas?
  3. Onde fica a Bacia de Pelotas?
  4. Qual a situação da Bacia de Pelotas agora?
  5. Quais as etapas até a extração de petróleo?
  6. Quais as preocupações ambientais?
  7. Quais os reflexos na economia?
1. O que a Namíbia tem a ver com isso?





























O professor do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Juliano Kuchle explica que a região da Namíbia tem "depósitos arenosos marinhos profundos" - formações sedimentares encontradas no fundo dos oceanos, compostas principalmente por areia.

Até cerca de uma década atrás, não havia indicativos da presença de petróleo na costa da Namíbia. Contudo, nos últimos anos, "foram descobertos reservatórios de petróleo de grande porte em camadas de rocha que datam entre 125 e 110 milhões de anos atrás", relata Kuchle.

Na mesma época em que essas camadas de rocha se formaram, o Sul do Brasil e o Uruguai estavam "colados" na Namíbia.

"Os continentes se separaram entre 115 e 120 milhões de anos atrás. O Gondwana – que era América do Sul, África, Austrália e Índia – estava todo junto. A separação abre um oceano, o Atlântico", conta Kuchle.

Ou seja, o mesmo nível de camadas de rocha que existe na Namíbia também existe por aqui.

"São ótimos reservatórios, muito semelhantes aos descobertos na Namíbia", comenta o professor.

As reservas da Namíbia resultaram nos campos de petróleo Graff, Rona, Jonker, Venus e Saturn Superfan, cujo volume pode ultrapassar 10 bilhões de barris, segundo estimativas. A partir dessas descobertas, reacendeu o interesse sobre a Bacia de Pelotas.

"O que aconteceu? Uma bacia que sempre foi esquecida, com baixo grau de interesse, virou a sensação do Brasil", diz o professor da UFRGS. 
2. Afinal, tem petróleo em Pelotas?

Ainda não se sabe. A eventual quantidade de petróleo na Bacia de Pelotas depende de estudos ainda em andamento. A região tem 44 blocos que são atualmente explorados pela Petrobras, a britânica Shell, a chinesa CNOOC e a americana Chevron.

"O que vai dar a palavra final é justamente o resultado dessa fase exploratória, de perfurações, de campanhas de perfuração que vão revelar o potencial confirmado de petróleo existente lá", afirma o diretor da ANP, Rodolfo Saboia.

Com base no que se observa na Namíbia, a expectativa é de que a Bacia de Pelotas também tenha grandes volumes de petróleo.

"Podem ser campos grandes. Podemos ter óleo de boa qualidade, dadas as indicações que vêm da Namíbia", analisa Kuchle.

Litoral do RS é visto em imagem tirada da Estação Espacial Internacional — Foto: NASA/ISS/Divulgação
Litoral do RS é visto em imagem tirada da Estação Espacial Internacional — Foto: NASA/ISS/Divulgação

3. Onde fica a Bacia de Pelotas?

Uma bacia de petróleo é uma região geológica onde grandes quantidades de petróleo e gás natural se acumulam. Essas bacias são formadas ao longo de milhões de anos através de processos geológicos complexos, incluindo a deposição de sedimentos orgânicos.

Por muitos anos, a Bacia de Campos, entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, foi a principal fonte de produção de petróleo do Brasil. Com o pré-sal, a Bacia de Santos, entre o Rio de Janeiro e Santa Catarina, obteve destaque.

A Bacia de Pelotas fica entre o extremo sul do Rio Grande do Sul, nos municípios de Chuí e Santa Vitória do Palmar, e o litoral sul de Santa Catarina. Ou seja, ela se estende por toda a costa gaúcha e o sul do litoral catarinense. Ao norte, ela se limita com a Bacia de Santos. Ao sul, faz "fronteira" com a Bacia de Punta del Este, no Uruguai.

Ao longo da história, foram feitas 19 perfurações de poços na Bacia de Pelotas. No entanto, nunca se encontrou petróleo na região.

"O último [poço] a ter sido perfurado foi em 2001. Os geólogos de petróleo buscavam um modelo que fosse semelhante ao que se encontrava em Campos, em Santos, em Espírito Santo. E aqui não tem a mesma coisa. Por isso, furava e não achava", comenta Juliano Kuchle.

Novas pesquisas começaram a ser feitas em 2008, acentuadas nos últimos anos após a descoberta na África.

Os blocos da bacia ficam de 100 a 300 km da costa. A profundidade pode chegar a seis ou sete mil metros – de mar e rocha –, afirma Kuchle.

Mapa da Bacia de Pelotas — Foto: Reprodução/TV Globo
Mapa da Bacia de Pelotas — Foto: Reprodução/TV Globo

4. Qual a situação da Bacia de Pelotas agora?

Mesmo sem a confirmação de que exista petróleo na região, a Bacia de Pelotas já atraiu gigantes do setor. Petrobras, Shell, CNOOC e Chevron estão na fase de exploração da área. Isso significa que elas estão analisando o terreno a fim de descobrir se pode existir petróleo no local – o que só será descoberto em uma eventual perfuração do poço.

Como é feita a exploração de cada bloco? De acordo com o pesquisador Juliano Kuchle, as empresas realizam o que se chama de "sísmica" do local.

"É quando a gente coloca um aparelho que emite ondas, essas ondas entram no subsolo e, quando elas voltam, elas fazem uma imagem do que seria o fundo oceânico e as rochas que estão quilômetros abaixo do fundo oceânico. É como se fosse um ultrassom", explica.

O especialista diz que a sísmica indica as camadas de rocha, o tamanho e o que pode ter dentro de cada uma.

"Mas a gente só vai ter certeza perfurando", afirma Kuchle.

As empresas contrataram estudos nos últimos meses, mas as condições climáticas afetaram as análises, de acordo com o pesquisador da UFRGS.

"A Namíbia já está produzindo em três, quatro campos e tem mais cinco, seis campos em avaliação para botar para produzir. O Uruguai já está pronto para perfurar. Se não agora, na virada do ano, estará perfurando. Como é que está o Brasil? Nós estamos ainda adquirindo sísmica nova. Isso vai levar um processo de três a seis meses de análise", comenta.

O diretor-geral da ANP, Rodolfo Saboia, afirma que a fase exploratória da bacia "vai até 2031". A ANP projeta um novo leilão, de 75 blocos, ainda no primeiro semestre de 2025.

"Nós já temos 26 blocos operados pela Petrobras em consórcio com a Shell, três blocos operados pela Petrobras em consórcio com o Shell e com a CNOOC, que é uma petroleira chinesa, e 15 operados pela Chevron", detalha.

Divisão dos blocos da Bacia de Pelotas



Fonte: ANP

5. Quais as etapas até a extração de petróleo?

Segundo Rodolfo Saboia, da ANP, "quando for constatada a presença de petróleo, primeiro é feita uma análise para descobrir se aquela reserva é economicamente viável para ser declarada a comercialidade". Concluídos os estudos, as empresas podem apostar na perfuração dos blocos ou desistir do projeto.

"As companhias podem acabar perfurando, e estar cheio d'água. Pode acontecer. A única certeza que a gente tem é perfurando", diz o professor Juliano Kuchle.

 O especialista ressalta que custos de perfuração são altos, envolvendo milhões de dólares, mas que o retorno financeiro pode ser ainda maior. Equipes de geólogos, geofísicos, economistas, advogados e analistas calculam o grau de risco, o grau de investimento e o eventual retorno financeiro das jazidas. A partir de então, começa o cronograma até a efetiva produção de petróleo.

Considerando que a fase exploratória já está em andamento e que os estudos de sísmica devem levar ao menos seis meses, Juliano Kuchle projeta que as perfurações demorem até dois anos para começar, ocorrendo entre 2026 e 2028.

"Com a autorização, eu imagino alguma tramitação por questão ambiental em torno de um a dois anos", diz Kuchle.

Em um cenário positivo, com a confirmação das jazidas, a produção de petróleo poderia começar por volta de 2030, estima o professor do Departamento de Paleontologia e Estratigrafia do Instituto de Geociências da UFRGS.

"Isso indica que lá em 2030 um campo de petróleo, se existir, poderia entrar em produção aqui no Rio Grande do Sul", diz o especialista.

As formas de produção podem variar. As companhias podem usar plataformas, como as conhecidas no imaginário popular, ou navios. Também é necessário definir como será feito o transporte do óleo até a terra, se por tubulações ou por navios-tanque.

Juliano Kuchle afirma que a principal alternativa seria a produção em navios, em vez de plataformas. A técnica é conhecida pela sigla FPSO (floating production, storage and offloading, que significa, em português, uma unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência).

"Em vez de ter uma plataforma para um único poço, é um grande navio-tanque, que opera 20, 30 poços ao mesmo tempo, produzindo. Esse navio vai enchendo. Ou ele escoa por oleoduto, ou um outro navio menor pega o óleo dele, esvazia ele e vai levando. É um sistema incrível. Esse navio pode inclusive ser operado remotamente. É possível, sim, dada a conjectura de um novo campo de petróleo, que nós tenhamos um FPSO produzindo na costa do Rio Grande do Sul, com certeza", diz.

Plataforma FPSO Pioneiro de Libra, da Petrobras, no bloco de Libra — Foto: Divulgação
Plataforma FPSO Pioneiro de Libra, da Petrobras, no bloco de Libra — Foto: Divulgação

7. Quais as preocupações ambientais

Uma das principais preocupações ambientais está no fato de se buscar matrizes renováveis de energia ao mesmo tempo em que, neste caso, o Brasil siga investindo na exploração de petróleo, combustível fóssil não renovável.

O diretor da ANP reconhece essa questão, mas considera não ser viável a substituição da matriz energética de forma imediata.

"Hoje nós vivemos, como todos sabem, um mundo que transita em direção à economia de baixo carbono. Então, há uma tendência de nós acharmos que temos que meramente e sumariamente abandonar o petróleo de uma hora para outra. Isso absolutamente não é viável e eu vou explicar por quê. Primeiro, porque o petróleo só é nocivo para as questões climáticas na medida em que é queimado. E o petróleo não é utilizado única e exclusivamente como fonte de energia que resulta na sua queima", diz Saboia.

Já o pesquisador da UFRGS Juliano Kuchle observa que o Brasil "tem energias renováveis muito bem estabelecidas", citando a produção por hidrelétricas e usinas solares e eólicas.

"Mas não é o suficiente. A transação energética custa caro e, por isso, a gente não pode simplesmente abandonar o petróleo e esquecer. É importante, dentro disso, achar novas reservas de petróleo", afirma.

 energia renovável — Foto: Freepik
energia renovável — Foto: Freepik

O especialista também ressalta o controle ambiental no Brasil, com legislação e órgãos de fiscalização.

"Nós temos uma legislação de petróleo no Brasil e nós temos legislações ambientais que são aplicáveis à exploração e produção de petróleo. A questão é: existem riscos que devem ser sempre minimizados e com políticas de ação das companhias caso algum acidente ocorra. Além disso, os órgãos controladores precisam necessariamente exercer os seus papéis de fiscalização, de análise e de aprovação", avalia Kuchle.

Para o professor, tanto um descontrole das empresas quanto uma restrição das operações causariam prejuízos para o país.

"A gente passa para um nível ideológico, em que vai ter um prejuízo para a nação, produzido por empresas que não querem seguir legislações ambientais e querem atropelar tudo ou, por outro lado, ambientalistas que querem, de forma cega, proibir toda e qualquer exploração no Brasil. Toda a extremização de ambos os lados é prejudicial. Então, o que nós queremos? Companhias de petróleo sustentáveis, responsáveis e cuidadosas, e agentes de controle ambiental técnicos e que entendam o nível de legislação que nós temos e o nível de retorno que a gente tem dentro da cadeia produtiva", afirma o pesquisador.

O interesse sobre a Bacia de Pelotas também foi "estimulado pela dificuldade da obtenção de licenciamento ambiental para a Margem Equatorial", observa Rodolfo Saboia. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) indeferiu pedido da Petrobras para explorar petróleo na região da Foz da Bacia do Amazonas e requereu mais informações à empresa sobre os planos para o local.

Uma das principais críticas do Ibama ao plano apresentado pela empresa era o tempo de reação após eventual acidente – embarcações chegariam ao local cerca de 48 horas depois, apenas, aumentando assim o risco de que óleo atingisse a costa brasileira.

Molhes em Rio Grande — Foto: Reproduç]ao/RBS TV
Molhes em Rio Grande — Foto: Reproduç]ao/RBS TV

8. Quais os reflexos na economia

Para as fontes ouvidas pelo g1, os principais efeitos econômicos da eventual produção de petróleo na Bacia de Pelotas estão no lucro gerado pela venda, no pagamento de royalties aos municípios produtores, no retorno indireto (movimentação do comércio, geração de emprego, entre outros indicadores) e na manutenção da segurança energética do país.

O professor Juliano Kuchle pontua que, sem novas alternativas como a Bacia de Pelotas, o custo da energia no Brasil vai ficar mais caro.

"É importante achar novas reservas de petróleo. O pré-sal foi descoberto em 2006. O pré-sal agora está num nível de ápice da produção. Mas ele vai começar a decair. Se nós não fizermos nada, vai acabando, vai acabando, vai acabando e nós vamos gastar muito dinheiro com energia", afirma Kuchle.

O professor Juliano Kuchle considera que as "grandes cidades da costa do Rio Grande do Sul e também de Santa Catarina, poderiam, sim, ser alvo de recebimento de royalties", que são compensações pagas pelas empresas produtoras de petróleo e gás natural pela exploração desses recursos. Um estudo da estatal Empresa de Pesquisa Energética (EPE) aponta que o país pode perder R$ 3,7 trilhões entre 2032 e 2055 em arrecadação de impostos e royalties se deixar de investir em exploração de petróleo.

Mas antes dos resultados finais, o pesquisador da UFRGS vê retornos em outras áreas.

"O retorno que uma produção de petróleo dá é muito maior em termos de emprego. E tem emprego para gente do Brasil inteiro, desde ensino básico, ensino fundamental, até ensino superior. Uma nova descoberta de petróleo e a colocação dela em produção é algo que, claro, oferece um grande recurso local. Mas, para a nação como um todo e um Brasil continental que a gente tem, isso é fundamental para o Brasil inteiro", considera Kuchle.

Para o diretor da ANP, Rodolfo Saboia, "a transição energética só vai acontecer quando houver a eliminação da demanda e não a eliminação da oferta". Enquanto isso, ele defende o aproveitamento do petróleo como fonte de riqueza.

"Quanto mais rápido nós estivermos na transição energética, melhor, sem dúvida nenhuma, isso não está em questão. Mas, até lá, é importante que o Brasil não abandone essa fonte de riqueza gigantesca que é gerada por royalties, participações especiais, todo tipo de benefício direto e indireto com geração de emprego e renda, que vai mobilizar a indústria local", diz.



Petrobras assina 26 contratos de concessão na Bacia de Pelotas

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sábado, 11 de janeiro de 2025

Mundo ultrapassa a marca de 1,6°C: entenda o que isso significa para o clima e quais os impactos para o Brasil

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Especialistas explicam que calor recorde afeta mais países subdesenvolvidos e tropicais, como o Brasil, e expõe à população a extremos. Dados do Cemaden mostram que, em 2024, regiões no país ficaram até 2,2°C mais quente.
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Por Poliana Casemiro

Postado em 11 de Janeiro de 2.025 às 15h50m

#.* Post. - Nº.\  11.466*.#

O mundo está ficando mais quente e isso está acontecendo muito antes do esperado. O ano de 2024 foi o mais quente já registrado na Terra e, pela primeira vez, a temperatura média global aumentou 1,6ºC em relação aos níveis pré-industriais, superando o que é considerado limite seguro para o planeta.

➡️ Você pode pensar que o ano ser o mais quente já visto pode não ser uma novidade – e não é. Há uma década, os anos vêm marcando recordes de temperatura. Por exemplo: 2023 já tinha sido considerado o ano mais quente vivido na Terra.

🔴 O problema é que, agora, esse aumento chegou a um patamar acima do limite do que é considerado seguro. A previsão dos pesquisadores há quase uma década para quando isso acontecesse é que sofreríamos extremos de chuva, seca e mortes. E foi o que vimos em 2024:

  • 🔴 Chuvas intensas como as que devastaram cidades inteiras no Rio Grande do Sul e na Espanha, que viveu a pior tempestade da história;
  • 🔴 A pior temporada de furacões da história dos Estados Unidos;
  • Chuvas que mataram centenas de pessoas na África e mudaram a paisagem do deserto;
  • 🔴 Ao mesmo tempo, secas extremas, deixando pessoas sem água e isoladas, como vimos no Norte do Brasil;
  • 🔴 Incêndios florestais de grandes proporções, como os que aconteceram no Brasil e cobriram o país de fumaça por meses.

O que especialistas dizem é que todo esse cenário pode ser apenas uma amostra do que podemos esperar no futuro caso a Terra continue tão quente como está.

➡️ O 1,5°C foi definido no Acordo de Paris, em 2015, após pesquisas indicarem que esse seria o limite seguro das mudanças climáticas. Isso porque, se o índice atingisse a marca de 2°C, que era o que estava sendo previsto com o avanço das emissões, a Terra estaria em risco.

Para que esse limiar fosse mantido, no entanto, era necessário conter o avanço das emissões de gases do efeito estufa, causadores do aquecimento global. Esses gases, como o dióxido de carbono, fazem parte do dia a dia do mundo e de operações que são pilares da economia – o que torna tudo mais difícil.

O que os especialistas dizem é que ter chegado a 1,6°C mais quente em relação aos níveis pré-industriais em 2024 é um indício de que podemos estar mais perto dos 2°C.

A indústria e os países estão fracassando no compromisso de reduzir as emissões e, agora, superamos um marco limite. Se a gente não reduzir rapidamente, vamos bater os 2°C em breve e isso vai ser um suicídio ecológico
— Carlos Nobre, climatologista e referência mundial em estudos sobre mudanças climáticas.

🔴 É importante lembrar que o cálculo é uma média, que leva em conta as temperaturas registradas no mundo todo, que tem lugares mais quentes que outros. Os países mais vulneráveis são os tropicais, como o Brasil. Um levantamento feito pelo Cemanden a pedido do g1 mostra que há locais no país que ficaram 2,2°C mais quentes nos últimos 80 anos. (Leia mais abaixo)

O g1 conversou com Carlos Nobre, climatologista e referência mundial em estudos sobre mudanças climáticas; Paulo Artaxo, pesquisador e membro do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU; e José Marengo, membro do IPCC e coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) para explicar o que esse cenário pode causar e o que devemos esperar do futuro.

Nesta matéria, você vai ler:

Cientistas no mundo todo vêm alertando sobre o aumento da temperatura global. O calor é um risco à saúde humana e à natureza, muda o clima e pode até fazer países desaparecerem, como as Ilhas no Pacífico que podem sumir com o aumento do nível das águas – consequência do aquecimento global.

Quando foi feito o Acordo de Paris, em 2015, o que as pesquisas apontavam era que seria necessárioo reduzir essas emissões para evitar que o planeta chegasse aos 2°C de aquecimento. Ou seja, o esperado era que a Terra chegasse a temperatura atual apenas décadas de 2025.

No entanto, desde o acordo, a transição energética — para que o mundo usasse menos combustíveis fósseis em sua produção — andou a passos lentos. As emissões continuaram a subir. (Veja o gráfico abaixo)

Dados mostram que 2024 atingiu recorde de emissões de gases do efeito estufa — Foto: Arte/g1
Dados mostram que 2024 atingiu recorde de emissões de gases do efeito estufa — Foto: Arte/g1

À época do acordo, o ano de 2015 tinha sido o mais quente já registrado na Terra e a temperatura média global tinha aumentado em 0,90°C – o que já era considerado um alerta. Mas não parou por aí: os últimos 10 anos seguiram batendo recordes, ano a ano. Com isso, ficando mais perto do limite.

🔥 Por exemplo: em 2021, o aumento da temperatura média global tinha sido de 1,11°C em relação aos níveis pré-industriais. Em 2022 esse número foi para 1,15°C, superado em 2023 para 1,48°C e, agora, 2024 ultrapassa todos os índices ao chegar a 1,6°C.


Ou seja, enfrentamosuma década de calor mortal, como declarou a Organização das Nações Unidas (ONU) e esse calor significa que podemos estar mais perto de atingir níveis em que não é mais possível reverter.

Para Paulo Artaxo, membro do IPCC, painel ligado à ONU, o índice pode indicar que chegamos ao limite, avançando décadas em relação ao que a ciência havia previsto.

O que estamos observando é que estamos ultrapassando todos os limites e isso significa que podemos já estar no caminho dos 2°C, o que não pode acontecer. Isso significa um colapso, principalmente para países tropicais como o nosso.
— Paulo Artaxo, pesquisador e membro do IPCC, o painel sobre mudanças climáticas da ONU.

Carlos Nobre, referência mundial em estudos sobre mudanças climáticas, também reforça que o índice indica que, caso as emissões não sejam reduzidas, é possível que não consigamos impedir a Terra de chegar a uma temperatura de colapso.

Rio Madeira em meio á seca — Foto: DNIT
Rio Madeira em meio á seca — Foto: DNIT

Como isso afetou o Brasil e quais os riscos para o país?

De acordo com o centro europeu Copernicus, todos os continentes pelo mundo foram afetados pelas altas temperaturas. No Brasil, análises de órgãos locais como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram que o país viveu o ano mais quente de sua história.

Um levantamento do Centro Nacional de Desastres Naturais (Cemaden), órgão do governo federal que apoia na tomada de decisões sobre extremos climáticos, feito a pedido do g1 mostra que nos últimos 80 anos há regiões no país que ficaram até 2,2°C mais quentes.

A análise usou os dados do Copernicus, mas com o recorte nacional, por bioma, representando as regiões do país, e observou a diferença de temperatura entre 2024 e o que foi observado em 1940, início da série histórica.

Veja os índices por bioma:

  • 🔥 No Pantanal, o aumento da temperatura nos últimos 84 anos foi de 2,2°C, o que abrange regiões do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, por exemplo.
  • 🔥 Na Mata Atlântica, que fica na região Sudeste, o índice foi de 1,72°C.
  • 🔥 No Cerrado, que cobre parte do Centro-Oeste e Nordeste, as temperaturas ficaram 1,61°C mais altas.
  • 🔥 Na Caatinga o aumento foi de 1,3°C no período de 80 anos;
  • 🔥 Na Pampa, que fica na região Sul, o aumento foi de 0,62°C.

O aumento das temperaturas também causou extremos. Em 2024, o país viveu a pior seca já registrada em sua história recente. A estiagem fez a terra aparecer em meio aos rios do Norte, maior bacia do mundo. A falta de chuva fez a vegetação secou e vivemos incêndios recordes que cobriram parte do país de fumaça e tornou difícil respirar por meses.

Prédios praticamente somem no horizonte devido à camada de poluição e fumaça em São Paulo — Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil
Prédios praticamente somem no horizonte devido à camada de poluição e fumaça em São Paulo — Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Isso tudo aconteceu ao mesmo tempo em que na outra ponta do país, no Rio Grande do Sul, chuvas torrenciais se formassem, devastando cidades que ficaram completamente alagadas e matando dezenas de pessoas.

O Rio Grande do Sul foi prejudicado pelo grande volume de chuva que atinge o estado — Foto: Reprodução/TV Globo
O Rio Grande do Sul foi prejudicado pelo grande volume de chuva que atinge o estado — Foto: Reprodução/TV Globo

O que José Marengo, um dos principais especialistas do país sobre clima, explica é que o Brasil experimentou dos extremos que eram previstos quando a terra aquecesse além do patamar limite.

Marengo alerta que o Brasil é um dos países vulneráveis a esses extremos com o aumento das temperaturas e que se o patamar não for revertido, será como cair de um penhasco alto.

O calor altera o clima e nos deixa expostos a desastres como ondas de calor intensas, seca, chuvas difíceis de conter os estragos. Passar desse patamar é como cair de um penhasco alto.
— José Marengo, pesquisador sobre o clima.

Um relatório recente do Cemaden, que faz o alerta de desastres no país, levando em conta desastres ligados às chuvas, aponta que apesar das oscilações, o volume de ocorrências chegou a patamares elevados. Em 2024, foram 1,6 mil ocorrências. (Veja o gráfico abaixo)


Os pesquisadores alertam que nesse período houve melhorias no monitoramento, o que fez com que os números crescessem. Ainda assim, o aumento das ocorrências de desastres se tornou uma realidade. Reforçam ainda que os dados são de ocorrências e não representam a magnitude. O caso do Rio Grande do Sul, por exemplo, é um dos piores desastres na história do país, o que faz de 2024 um marco quando se fala em tragédias por extremos.

Cestas de alimentos foram destinadas às famílias ribeirinhas afetadas pela seca extrema — Foto: Divulgação
Cestas de alimentos foram destinadas às famílias ribeirinhas afetadas pela seca extrema — Foto: Divulgação

Para além do risco à saúde e à vida, ainda há o risco para a economia. De um lado, há um gasto dos cofres públicos que precisam encontrar verba em meio às crises para apoiar as cidades afetadas. Entre 2011 e 2023, o governo federal perdeu R$485 bilhões com desastres naturais.

De outro, as perdas econômicas aos setores produtivos no país. Segundo a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), em um balanço que reuniu dados apenas de 2024 sobre a seca nos estados do Norte, região mais afetada pela crise, os prejuízos financeiros chegam a R$ 2 bilhões.

E se a média global superar os chegar aos 2°C mais quentes que a era pré-industrial?

O que os especialistas apontam é que as previsões são de que cidades pelo país fiquem até 4°C mais quentes. Isso significa um calor insuportável.

Fumaça de queimadas contribuem para o aquecimento do globo — Foto: REUTERS/Adriano Machado
Fumaça de queimadas contribuem para o aquecimento do globo — Foto: REUTERS/Adriano Machado

O que é preciso fazer para frear o avanço das temperaturas?

A única maneira de conter o avanço das temperaturas e evitar que o mundo atinja a marca de risco de 2°C é frear as emissões de gases do efeito estufa.

De acordo com os dados divulgados nesta sexta-feira (10) pelo Copernicus, as emissões vem aumentando em 2024 e podem ter chegado a patamares maiores dos que já registrados antes.

🔴 Você pode se perguntar: como isso acontece se há um acordo internacional para redução desses índices? Isso acontece porque o compromisso não vem sendo cumprido e não é uníssono entre os países.

Empresas têm anunciado há alguns anos projetos de redução de emissão, mas especialistas apontam que isso não está sendo feito na velocidade que o mundo precisa.

A humanidade como um todo, em particular os países desenvolvidos e a indústria do petróleo, fracassou em reduzir as missões e acabar com a exploração de combustíveis fósseis.
— Paulo Artaxo, membro do IPCC.

Na COP 30, que acontece no Brasil, os países vão ter que anunciar as novas metas, atualizando o acordo de Paris. Para Carlos Nobre, essa edição da conferência, em que novas metas são estabelecidas, acontecendo depois de um anúncio como esse, torna o evento no Brasil um dos mais importantes desde a sua criação, mas é também um desafio.

Os desafios do país são muito grandes para essa COP. A edição vai ser muito estratégica para mudar o patamar do aquecimento global que estamos observando atualmente, reforça Carlos Nobre.

País é o sexto maior emissor de gases do efeito estufa — Foto: Reprodução/TV Globo
País é o sexto maior emissor de gases do efeito estufa — Foto: Reprodução/TV Globo

O Brasil já anunciou uma atualização do seu compromisso do Acordo de Paris e afirmou que prevê reduzir suas emissões de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035.

No entanto, o que especialistas citam é que, com os índices atuais do clima, já não seriam o suficientes. Segundo o Observatório do Clima, o Brasil deveria se comprometer a reduzir as emissões líquidas em 92% até 2035. Isso significa chegar até a metade da próxima década emitindo, no máximo, 200 milhões de toneladas de gases de efeito estufa.

Para se ter ideia, atualmente, a emissão líquida do Brasil é de cerca de 2,3 bilhões de toneladas de gases – o país é o sexto maior emissor do planeta.

China, Estados Unidos, Índia, União Europeia (UE), Rússia, Brasil, Indonésia, Japão, Arábia Saudita e Canadá foram os 10 maiores emissores de gases de efeito estufa (GEE) em 2023 de acordo com o relatório mais recente do EDGAR (Emissions Database for Global Atmospheric Research) da União Europeia.


Decisão sobre exploração de petróleo na Foz do Amazonas é técnica, alerta Miriam

Um ponto de atenção para o país é a questão da Foz do Amazonas. No ano passado, a Petrobras descobriu uma acumulação de petróleo em águas ultraprofundas da Bacia Potiguar, no poço exploratório Anhangá, na margem equatorial brasileira.

➡️ A margem equatorial se estende por mais de 2.200 km ao longo da costa entre o Rio Grande do Norte e o Oiapoque, no Amapá. A região é considerada a mais nova fronteira exploratória brasileira em águas profundas e ultraprofundas, e já foi chamada de "novo pré-sal".

A possibilidade de explorar petróleo nessa região é criticada por ambientalistas que apontam riscos de tragédias ambientais, afetando o território amazônico. A exploração depende da autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – o que a Petrobras ainda não teve. Segundo o órgão, a empresa ainda não retornou ao último pedido de esclarecimentos para a avaliação, que estava em aberto desde 2024.

A possibilidade de explorar petróleo em meio à transição pode parecer contraditória em meio ao anúncio de redução de emissões – e foi exatamente isso que Lula disse em uma entrevista em junho de 2024. E completou que o Brasil tem que ganhar dinheiro com esse petróleo.

Primeiro dia sem gelo no Ártico pode acontecer em 2027, alerta estudo

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