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segunda-feira, 7 de junho de 2021

Como existência de OVNIs passou a ser levada mais a sério pelos EUA

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Um tema até pouco tempo atrás classificado como teoria da conspiração ou piada vem sendo debatido com seriedade em Washington: a existência de objetos voadores não identificados (OVNIs).
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TOPO
Por BBC

Postado em 07 de junho de 2021 às 19h10m


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O Departamento de Defesa dos Estados Unidos reconheceu a veracidade de três vídeos em que pilotos ao se depararem com objetos não identificados — Foto: Departamento de Defesa dos EUA/BBC
O Departamento de Defesa dos Estados Unidos reconheceu a veracidade de três vídeos em que pilotos ao se depararem com objetos não identificados — Foto: Departamento de Defesa dos EUA/BBC

Nos últimos meses, um assunto até pouco tempo atrás descartado como teoria da conspiração ou piada vem sendo debatido com seriedade em Washington: os objetos voadores não identificados (OVNIs).

Em meio a recentes declarações de militares, agentes de inteligência e políticos democratas e republicanos sobre o que chamam de fenômenos aéreos não identificados (UAP, na sigla em inglês), vem crescendo a expectativa pela divulgação nas próximas semanas de um relatório detalhando o que o governo americano sabe a respeito desses fenômenos.

Na quinta-feira (3), o jornal "The New York Times" e outros veículos da imprensa americana anteciparam que, segundo fontes anônimas dos serviços de inteligência, uma versão confidencial do relatório indica que não foram encontradas evidências de "atividade alienígena", mas também não exclui essa possibilidade de maneira definitiva.

O documento foi elaborado após a análise de mais de 120 episódios nas últimas duas décadas em que pilotos militares - a maioria deles americanos, mas também alguns de outros países - observaram objetos não identificados durante seus voos.

Segundo as fontes entrevistadas pelo New York Times, a maioria desses casos "não tem origem em nenhuma tecnologia avançada do governo americano". Isso indicaria que esses objetos não são parte de algum programa secreto do governo.

Mas o documento não oferece explicação sobre o que seriam esses objetos. Uma das possibilidades citadas por fontes da imprensa americana é a de que pelo menos alguns deles sejam tecnologia experimental de países rivais, como China ou Rússia.

A versão final do relatório deverá ser apresentada em 25 de junho. Apesar de ser divulgado ao público, o documento provavelmente terá um anexo ainda confidencial, por motivos de segurança nacional.

A determinação de tornar públicas as informações sobre o tema foi incluída em um pacote de medidas aprovado pelo Congresso em dezembro do ano passado. O Departamento de Defesa e o gabinete do diretor de Inteligência Nacional receberam prazo de seis meses para apresentar uma "análise detalhada de dados e inteligência sobre fenômenos aéreos não identificados".

O relatório também deverá incluir detalhes sobre como esse tipo de informação será coletado e analisado pelos serviços de inteligência e como o tema deverá ser estudado de agora em diante. Uma das preocupações citadas pelo Congresso é a de que os objetos sejam tecnologia de outros países e que adversários tenham adquirido capacidades aeroespaciais que possam representar ameaça aos Estados Unidos.

Em agosto do ano passado, o Departamento de Defesa já havia anunciado a criação de uma força-tarefa, sob a liderança do Departamento da Marinha, com a missão de "detectar, analisar e catalogar UAPs que possam potencialmente representar uma ameaça à segurança dos Estados Unidos".

Esse anúncio foi feito poucos meses depois de o Departamento de Defesa confirmar a veracidade e autorizar a divulgação de três vídeos mostrando a reação de pilotos militares ao avistarem objetos não identificados. Essas gravações, datadas de novembro de 2004 e janeiro de 2015, já haviam sido vazadas e circulavam pela internet mas, até então, sem confirmação oficial.

'Sem explicação'

O fato de um objeto não ser identificado não significa que seja alienígena, e muitos dos fenômenos relatados por pilotos militares podem ser drones, balões meteorológicos ou até resultado de problemas em sensores. Mas outros são mais difíceis de serem explicados.

"O que é verdade, e eu estou realmente falando sério agora, é que há imagens e registros de objetos nos céus que nós não sabemos exatamente o que são. Não podemos explicar como se moveram, sua trajetória. Eles não tinham um padrão facilmente explicável", disse no mês passado o ex-presidente democrata Barack Obama em entrevista ao apresentador James Corden.
Objetos vistos por pilotos podem ser drones ou balões — Foto: Departamento de Defesa dos EUA/BBC
Objetos vistos por pilotos podem ser drones ou balões — Foto: Departamento de Defesa dos EUA/BBC

O presidente Joe Biden brincou ao comentar a afirmação de Obama e evitou dar declarações mais específicas, mas sua porta-voz, Jen Psaki, disse que o governo "leva muito a sério e investiga cada um dos relatos de incursões de qualquer aeronave, identificada ou não, no nosso espaço aéreo".

Nas últimas semanas, o debate sobre OVNIs, por décadas considerado tabu, vem ganhando força e cobertura ampla na imprensa americana, incluindo uma longa matéria na revista New Yorker, uma das mais prestigiosas do país, e um especial no programa "60 Minutes", da rede CBS.

"Não acho que podemos permitir que o estigma nos impeça de ter uma resposta a uma pergunta tão fundamental", disse o senador republicano Marco Rubio ao "60 Minutes", ao observar que, enquanto alguns de seus colegas no Congresso estão "muito interessados", outros riem sobre o assunto.

"Eu quero que isso seja levado a sério e que haja um processo para levar isso a sério", afirmou Rubio, que é vice-presidente da Comissão de Inteligência do Senado. "Talvez haja uma explicação muito simples… talvez não."

John Ratcliffe, o diretor de Inteligência Nacional durante o governo de Donald Trump, disse em entrevista à Fox News em março que "há muito mais casos do que os divulgados ao público" de objetos não identificados observados em "ações que são difíceis de explicar, movimentos difíceis de replicar, para os quais não temos tecnologia".

No ano passado, John Brennan, que comandou a CIA (a agência central de inteligência americana) no governo Obama, declarou em entrevista a um podcast que achava "um pouco presunçoso e arrogante acreditar que não há outra forma de vida em lugar algum do universo".

Em abril deste ano, Robert James Woolsey, que foi diretor da CIA nos anos 1990, declarou ao site Black Vault que não é mais "tão cético quanto era alguns anos atrás" sobre OVNIs.

Woolsey citou o fato de fenômenos não explicados surpreenderem pilotos militares experientes. Em depoimento ao "60 Minutes", pilotos da Marinha americana relataram ter avistado aeronaves que apresentavam movimentos, aceleração, capacidade de mudar de direção e submergir nunca vistos antes.

Um deles, o piloto aposentado Ryan Graves, relatou que seu esquadrão começou a encontrar objetos não identificados no espaço aéreo sobre o Estado da Virgínia a partir de 2014, quando o sistema de radar dos caças foi modernizado, e que há relatos de outros pilotos em situações do tipo "todos os dias" nos últimos anos.

Um dos episódios registrados em vídeo ocorreu em 2004, quando dois caças da Marinha encontraram um objeto de cor branca e formato oval e do tamanho de um avião comercial perto da costa de San Diego, no Oceano Pacífico. O objeto tinha altíssima velocidade e era capaz de parar subitamente. "Sem movimento ou trajetória previsíveis", relatou a piloto aposentada Alex Dietrich, que estava em um dos caças.

Mudança de tom

Alguns dos episódios de encontros entre caças militares e OVNIs já haviam sido relatados em uma reportagem de capa publicada em 2017 pelo "New York Times" que, segundo entusiastas, marcou o início da mudança de tom da mídia em relação ao assunto.

Além de incluir vídeos e relatos sobre encontros de pilotos militares com OVNIs, a reportagem trazia pela primeira vez a admissão do Pentágono sobre a existência de um programa dedicado ao estudo desses fenômenos.

Esse programa teve início em 2007, quando o então senador democrata Harry Reid, na época líder da maioria no Senado, conseguiu a liberação US$ 22 milhões (cerca de R$ 111 milhões) para financiar o que ficou conhecido como Programa de Identificação de Ameaças Aeroespaciais Avançadas. Reid representava o Estado de Nevada, onde fica a chamada Área 51, instalação da Força Aérea em que são realizados testes secretos.

"Até recentemente, muitos pilotos militares temiam a possibilidade de retribuição por reportar fenômenos aéreos não identificados", escreveu Reid recentemente em um artigo de opinião no "New York Times".

Segundo Reid, esse tabu pode "prejudicar a segurança nacional e entravar oportunidades de avanço técnico". "Eu nunca busquei provar que existe vida além da Terra. Mas se a ciência provar que existe, eu não tenho nenhum problema com isso", escreveu Reid.

A mudança de tom em Washington também é resultado de anos de esforços por parte de alguns entusiastas sobre o tema. O ativista político Stephen Bassett é um dos principais nomes, com atuação na área desde 1996.

"Meu principal trabalho é fazer com que o governo americano finalmente confirme a presença de extraterrestres", diz Bassett em entrevista à BBC News Brasil. "É o que chamamos de Revelação, com letra maiúscula."

Bassett acredita que o momento atual representa o fim do que chama de "embargo da verdade" sobre OVNIs. Ele questiona a informação antecipada pela imprensa americana de que uma das explicações no relatório a ser divulgado seria a de que alguns dos objetos não identificados têm tecnologia avançada de outros países.

"Os Estados Unidos têm a tecnologia militar mais avançada do mundo. Todos no Pentágono sabem disso", afirma. "A única explicação para milhares de episódios do tipo desde 1947 é extraterrestre."

A fascinação do público em relação a OVNIs é antiga, e há relatos de supostos encontros desde a década de 1940. Na época o governo chegou a estudar esses fenômenos, temendo que pudessem ser armas dos inimigos soviéticos. Nas décadas 1950 e 1960, a Força Aérea americana liderou um programa para analisar relatos de OVNIs. Dos 12 mil casos analisados até o encerramento do programa, em 1969, mais de 700 não puderam ser explicados.

Mas foi somente há alguns anos que pilotos militares americanos começaram a falar mais abertamente sobre episódios do tipo que presenciaram, ao mesmo tempo em que alguns políticos e agentes de inteligência também passaram a demonstrar publicamente interesse sobre o tema.

"Isso costumava ser o tipo de coisa que acabava com uma carreira", disse ao site "Politico" o chefe de gabinete da Casa Branca no governo de Bill Clinton, John Podesta, cujo interesse sobre o tema vem de décadas. "Isso claramente mudou, o que é bom."

Futuro

Para Bassett, a mudança ocorreu a partir de 2017, com o anúncio da criação de um grupo não-governamental chamado "To the Stars Academy of Arts & Sciences" ("Academia de Artes e Ciências para as Estrelas", em tradução livre). Bassett salienta o fato de que muitos dos integrantes do grupo haviam trabalhado no complexo militar ou de inteligência dos Estados Unidos.

Logo os vídeos e depoimentos de militares sobre encontros com OVNIs começaram a ser cobertos pela imprensa, em um movimento que foi ganhando força até que, no ano passado, o Departamento de Defesa reconheceu a autenticidade de alguns dos vídeos e anunciou a força-tarefa para analisar esses fenômenos.

Bassett ressalta que a cobertura da imprensa e o fato de algumas testemunhas militares terem ido a público inicialmente diminuiu o estigma e o risco para outros que quisessem seguir o mesmo caminho e falar abertamente sobre suas experiências.

O ativista diz esperar que a divulgação do relatório leve a audiências no Congresso, com a participação de testemunhas militares, e a um futuro anúncio do presidente americano sobre "a presença de extraterrestres interagindo com a raça humana".

Nem todos compartilham dessa opinião, e o novo interesse por OVNIs atrai muitos críticos. Alguns consideram o financiamento desse tipo de programa um gasto desnecessário e uma estratégia do Pentágono para aumentar seu orçamento.

Outros, como Mick West, criador de um fórum para desmentir teorias da conspiração, acreditam que a explicação para os vídeos desses supostos objetos está em simples detalhes técnicos, como configurações da câmera.

Mas pesquisa Gallup de 2019 indica que 68% dos americanos acham que o governo sabe mais sobre OVNIs do que admite publicamente. Segundo o levantamento, 33% acreditam que alguns desses objetos são aeronaves de outros planetas.

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domingo, 6 de junho de 2021

Mundo está entrando em uma nova fase do capitalismo?

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Concentração de riqueza, injustiças sociais e destruição ambiental fazem crescer os questionamentos ao modelo capitalista atual; em artigo de opinião, pesquisador avalia que é hora de repensar o contrato social com o capitalismo e numera quais são as saídas possíveis.
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TOPO
Por BBC

Postado em o6 de junho de 2021 às 15h10m


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'Abolir o capitalismo', pede manifestante em um protesto em 1º de maio de 2021 em Berlim — Foto: Getty Images
'Abolir o capitalismo', pede manifestante em um protesto em 1º de maio de 2021 em Berlim — Foto: Getty Images

Quase 250 anos atrás, o economista e filósofo Adam Smith escreveu o livro A Riqueza das Nações, em que descreveu o nascimento de uma nova forma de atividade humana: o capitalismo industrial.

Porém, ele e seus contemporâneos não imaginavam o quanto o novo sistema criaria um acúmulo de riqueza em poucas mãos.

O capitalismo alimentou as revoluções industrial e tecnológica, remodelou o mundo e transformou o papel do Estado em relação à sociedade.

Ele tirou inúmeras pessoas da pobreza nos últimos dois séculos, aumentou significativamente os padrões de vida e levou ao desenvolvimento de inovações que melhoraram radicalmente o bem-estar humano, além de tornar possível a ida à Lua e a leitura deste artigo de opinião.

No entanto, a história do capitalismo não é totalmente positiva.

Nos últimos anos, as deficiências do sistema se tornaram cada vez mais evidentes.

Priorizar ganhos de curto prazo para as pessoas às vezes fez com que o bem-estar de longo prazo da sociedade e do meio ambiente fosse jogado fora, especialmente porque o mundo está lutando ao mesmo tempo contra uma pandemia de coronavírus e as mudanças climáticas.

E como a agitação política e a polarização em todo o mundo demonstraram, há sinais crescentes de descontentamento com o status quo capitalista.

Uma pesquisa de 2020, produzida pela empresa de marketing e relações públicas Edelman, apontou que 57% das pessoas entrevistadas em todo o mundo disseram que "o capitalismo como existe hoje faz mais mal do que bem ao planeta".

"O desempenho do capitalismo ocidental nas últimas décadas tem sido profundamente problemático em relação à desigualdade e aos danos ambientais", escreveram os economistas Michael Jacobs e Mariana Mazzucato em Rethinking Capitalism ('Repensando o capitalismo', sem versão em português).
Mercados — Foto: Getty Images
Mercados — Foto: Getty Images

No entanto, isso não significa que não haja soluções. "O capitalismo ocidental não está desesperadamente fadado ao fracasso, mas precisa ser repensado", argumentam Jacobs e Mazzucato.

Então, o capitalismo como o conhecemos continuará em sua forma atual ou poderia ter outro futuro pela frente?

Foco no indivíduo

O capitalismo gerou milhares de livros e milhões de palavras, então seria impossível explorar todas as suas facetas.

Dito isso, podemos começar a entender para onde o capitalismo irá no futuro, explorando onde ele começou. Isso nos mostra que o capitalismo nem sempre funcionou como hoje, especialmente no Ocidente.

Entre os séculos 9 e 15, monarquias autocráticas e hierarquias eclesiásticas dominaram a sociedade ocidental.

Esses sistemas começaram a desmoronar à medida que as pessoas afirmavam cada vez mais seu direito à liberdade individual.

Essa busca por um foco maior no indivíduo favoreceu o capitalismo como sistema econômico por causa da flexibilidade que deu aos direitos de propriedade privada, escolha pessoal, empreendedorismo e inovação.

Ele também favoreceu a democracia como um sistema de governo por causa de seu foco na liberdade política individual.

A mudança em direção a uma maior liberdade individual mudou o contrato social.

Anteriormente, os que estavam no poder forneciam muitos recursos (terra, comida e proteção) em troca de contribuições significativas dos cidadãos (por exemplo, de trabalho escravo a trabalho duro com pouca remuneração, altos impostos e lealdade incondicional).
Em 1851, Londres sediou a 'Grande Exposição das Obras da Indústria de Todas as Nações' — Foto: Getty Images
Em 1851, Londres sediou a 'Grande Exposição das Obras da Indústria de Todas as Nações' — Foto: Getty Images

Com o capitalismo, as pessoas esperavam menos das autoridades governantes, em troca de maiores liberdades civis, incluindo liberdade individual, política e econômica.

Mas o capitalismo evoluiu de maneira significativa durante os séculos seguintes e especialmente durante a segunda metade do século 20.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Mont Pelerin Society, um grupo de especialistas em política econômica, foi fundada com o objetivo de enfrentar os desafios que o Ocidente tinha à vista.

Seu foco específico era a defesa dos valores políticos de uma sociedade aberta, o estado de direito, a liberdade de expressão e as políticas econômicas de livre mercado, aspectos centrais do liberalismo clássico.

Com o tempo, essas ideias deram origem à escola macroeconômica de "economia de abastecimento".

Ela se baseava na crença de que impostos mais baixos e regulamentação mínima do livre mercado levariam a um maior crescimento econômico e, portanto, melhores condições de vida para todos.

Na década de 1980, junto com a ascensão do neoliberalismo político, a economia da oferta se tornou uma prioridade para os Estados Unidos e muitos governos europeus.

Essa nova tendência do capitalismo levou a um maior crescimento econômico em todo o mundo, ao mesmo tempo que tirou um número substancial de pessoas da pobreza absoluta.

Mas, ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que os princípios de redução de impostos e desregulamentação empresarial pouco fizeram para apoiar o investimento político em serviços públicos, enfrentar o colapso da infraestrutura pública, melhorar a educação e mitigar riscos.

Desigualdade

Em muitos países, o capitalismo do final do século 20 contribuiu para criar uma lacuna significativa entre a riqueza dos mais ricos e dos mais pobres, medida pelo Índice de Gini.
Protesto no Chile; criação de privilégios é um dos fatores que fizeram crescer os questionamentos ao capitalismo atual — Foto: Getty Images
Protesto no Chile; criação de privilégios é um dos fatores que fizeram crescer os questionamentos ao capitalismo atual — Foto: Getty Images

Em alguns países, essa lacuna está aumentando. Os Estados Unidos são um exemplo: os americanos mais pobres não veem crescimento real da sua renda desde 1980, enquanto a renda dos ultra-ricos cresceu cerca de 6% ao ano.

Quase todos os bilionários mais ricos do mundo residem nos Estados Unidos e acumularam fortunas impressionantes, enquanto, ao mesmo tempo, a renda familiar média no país aumentou modestamente desde o início deste século.

A diferença de desigualdade pode ser mais importante do que alguns políticos e líderes corporativos gostariam de acreditar.

O capitalismo pode ter tirado milhões de pessoas em todo o mundo da pobreza extrema, mas a desigualdade pode ser corrosiva dentro de uma sociedade, diz Denise Stanley, professora de economia da Universidade do Estado da Califórnia.

"A pobreza absoluta é basicamente a situação em que uma pessoa vive com menos de US$ 4 (cerca de R$ 20) por dia (sob os critérios em vigor nos EUA))", explica Stanley. Ela alerta que a pobreza e a desigualdade podem desequilibrar uma sociedade a longo prazo.

Mesmo que a economia esteja crescendo, a desigualdade de renda e a estagnação dos salários podem fazer com que as pessoas se sintam menos seguras à medida que sua posição relativa na economia diminui.

"Economistas comportamentais mostraram que nosso status em comparação com outras pessoas, nossa felicidade, deriva mais de medidas relativas e de distribuição do que de medidas absolutas. Se isso for verdade, então o capitalismo tem um problema", diz Stanley.

Como resultado do aumento da desigualdade, "as pessoas confiam menos nas instituições e experimentam um sentimento de injustiça", segundo o relatório Edelman.

Mas o impacto na vida das pessoas pode ser mais profundo. "O capitalismo em sua forma atual está destruindo a vida de muitas pessoas da classe trabalhadora", argumentam os economistas Anne Case e Angus Deaton em seu livro Deaths of Despair and the Future of Capitalism.

"Durante as últimas duas décadas, as mortes de desespero por suicídio, overdose de drogas e alcoolismo aumentaram dramaticamente e agora centenas de milhares de vidas de americanos são perdidas a cada ano", escrevem eles.

A crise financeira de 2007 e 2008 exacerbou esses problemas. A crise foi provocada pela desregulamentação excessiva e atingiu principalmente a classe trabalhadora de países desenvolvidos.
Pobreza e a desigualdade podem desequilibrar uma sociedade a longo prazo — Foto: Getty Images
Pobreza e a desigualdade podem desequilibrar uma sociedade a longo prazo — Foto: Getty Images

Depois, os resgates dos grandes bancos feitos pelos governos após a crise financeira de 2008 geraram ressentimento e "ajudaram a alimentar o surgimento da política polarizada que vimos na última década", de acordo com Richard Cordray, primeiro diretor do US Consumer Financial Protection Bureau (agência de proteção ao consumidor dos EUA) e autor de Watchdog: Como a proteção dos consumidores pode salvar nossas famílias, nossa economia e nossa democracia.

Protestos anticapitalistas

As democracias liberais podem agora estar em um ponto de inflexão, no qual os cidadãos questionam as normas capitalistas de hoje com maior intensidade política em todo o mundo.

J. Patrice McSherry, professor de ciência política na Long Island University, em Nova York, observou essa mudança no Chile, por exemplo.

"A mobilização social dos chilenos começou com um aumento nas tarifas do metrô em outubro de 2019, gerando protestos de base ampla que atraiu mais de um milhão de pessoas às manifestações", diz ele.

"O movimento social expôs as profundas fontes de descontentamento no Chile: desigualdade arraigada e crescente, o custo de vida sempre crescente e a privatização extrema em um dos Estados mais neoliberais do mundo."

Essas queixas remontam ao final do século 20, quando a ditadura militar do Chile introduziu reformas que institucionalizaram a dominação econômica e consagraram uma estrutura neoliberal que apagou o papel do Estado nas áreas sociais e econômicas. A participação política deu ao direito (político) poder desproporcional e instalou um papel tutelar para as Forças Armadas", escreveu McSherry em um artigo para o Congresso Norte-Americano na América Latina, uma organização sem fins lucrativos que acompanha as tendências na região.

Da mesma forma, o movimento de coletes amarelos que começou na França em 2018 inicialmente se concentrou no aumento dos custos do combustível, mas rapidamente se expandiu para incluir reclamações semelhantes às do Chile: o custo de vida, o aumento da desigualdade e uma demanda para que o governo pare de ignorar as necessidades dos cidadãos.

E nos Estados Unidos, o movimento político que gerou o trumpismo é possivelmente impulsionado tanto pela desigualdade econômica quanto pela ideologia de direita.

O governo Trump obteve amplo apoio político por suas abordagens mais fechadas ao comércio mundial, incluindo a retirada do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica e tarifas retaliatórias sobre bens e serviços chineses, indianos, brasileiros e argentinos importados para os Estados Unidos.

Até mesmo os aliados históricos dos Estados Unidos foram o alvo dessa agenda, incluindo Europa, Canadá e México.

Embora uma resposta às desvantagens do capitalismo em sua forma atual seja que as nações adotem uma postura defensiva, buscando se proteger minimizando os laços externos, o protecionismo "é míope, especialmente quando se trata de comércio", de acordo com Anahita Thoms, chefe da Baker McKenzie's International Trade Practice, na Alemanha, e do Young Global Leaders, do Fórum Econômico Mundial.

"Embora possa trazer alguns benefícios temporários, no longo prazo (o protecionismo) coloca em risco a economia global como um todo e ameaça desfazer décadas de progresso econômico. Manter os mercados abertos para investimentos é crucial", disse Thoms.

Um desafio central para os governos no século 21 será encontrar uma maneira de equilibrar esses benefícios de longo prazo do comércio mundial com os danos de curto prazo que a globalização pode trazer às comunidades locais afetadas por baixos salários e pelo desemprego.

As economias não podem ser completamente divorciadas das demandas das maiorias democráticas em busca de empregos, moradia acessível, educação, saúde e um meio ambiente saudável.

Como mostram os movimentos chileno, os coletes amarelos e os trumpismo, muitas pessoas estão pedindo uma mudança no sistema existente para dar conta dessas necessidades, em vez de apenas enriquecer os interesses privados.

Em suma, pode ser hora de repensar o contrato social para o capitalismo, de modo que ele se torne mais inclusivo de um conjunto mais amplo de interesses além dos direitos e liberdades individuais.

Isso não é impossível. O capitalismo já evoluiu antes e, se for para continuar no futuro de longo prazo, pode evoluir novamente.
Os coletes amarelos tomaram as ruas de Paris em protesto contra o governo — Foto: Getty Images
Os coletes amarelos tomaram as ruas de Paris em protesto contra o governo — Foto: Getty Images

O futuro do capitalismo

Nos últimos anos, várias ideias e propostas surgiram com o objetivo de reescrever o contrato social do capitalismo.

O que elas têm em comum é a ideia de que as empresas precisam de medidas mais variadas de sucesso do que apenas lucro e crescimento.

Nos negócios, existe o "capitalismo consciente", inspirado nas práticas das chamadas marcas "éticas".

Na política, existe um "capitalismo inclusivo", defendido tanto pelo Banco da Inglaterra quanto pelo Vaticano, que advoga pelo aproveitamento do "capitalismo para o bem comum".

E na sustentabilidade, existe a ideia da "economia donut", teoria da economista Kate Raworth, que sugere ser possível prosperar economicamente como sociedade sem deixar de lado as demandas sociais e planetárias.

Depois, há o modelo dos "cinco capitais", articulado por Jonathan Porritt, autor de Capitalism As If The World Matters.

Porritt pede a integração de cinco pilares do capital humano: natural, humano, social, manufaturado e financeiro, nos modelos econômicos existentes.

Um exemplo tangível de onde as empresas estão começando a abraçar "os cinco capitais" é o movimento B-Corporation. As companhias certificadas cumprem a obrigação legal de considerar "o impacto de suas decisões sobre seus trabalhadores, clientes, fornecedores, comunidade e meio ambiente".

Suas fileiras agora incluem grandes corporações como Danone, Patagonia e Ben & Jerry's (que é propriedade da Unilever).

Essa abordagem se tornou cada vez mais comum, refletida em uma declaração de 2019 divulgada por mais de 180 CEOs corporativos, redefinindo "o propósito de uma corporação".
Protesto no Chile fez crescer discussões sobre justiça social em um dos países mais neoliberais do mundo, diz autor — Foto: Getty Images
Protesto no Chile fez crescer discussões sobre justiça social em um dos países mais neoliberais do mundo, diz autor — Foto: Getty Images

Pela primeira vez, os CEOs que representam o Wal-Mart, Apple, JP Morgan Chase, Pepsi e outros reconheceram que devem redefinir o papel dos negócios em relação à sociedade e ao meio ambiente.

Sua declaração propõe que as empresas devem fazer mais do que oferecer benefícios aos seus acionistas.

Além disso, devem investir em seus funcionários e contribuir para a valorização dos elementos humanos, naturais e sociais do capital a que Porritt se refere em seu modelo, ao invés de focar apenas no capital financeiro.

Em uma entrevista recente ao Yahoo Finance sobre o futuro do capitalismo, o CEO da Best Buy, Hubert Joly, disse que "o que aconteceu é que por 30 anos, da década de 1980 a 10 anos atrás, tivemos essa abordagem única sobre os lucros excessivos. Isso causou muitos desses problemas. Precisamos afrouxar esse modelo. Se tivermos uma refundação de negócios, também pode ser uma refundação do capitalismo... Eu acho que isso pode ser feito, tem que ser feito."

Uma nova direção

Mais de três décadas atrás, a Comissão Brundtland das Nações Unidas escreveu no documento "Nosso Futuro Comum" que havia ampla evidência de que os impactos sociais e ambientais são relevantes e devem ser incorporados aos modelos de desenvolvimento.

Ora, é óbvio que essas questões também devem ser consideradas dentro do contrato social que sustenta o capitalismo, para que ele seja mais inclusivo, holístico e integrado aos valores humanos básicos.

Em última análise, vale a pena lembrar que os cidadãos em uma democracia liberal capitalista têm poder.

Coletivamente, eles podem apoiar empresas alinhadas com suas crenças e exigir continuamente novas leis e políticas que transformem o cenário competitivo das empresas para que possam aprimorar suas práticas.

Quando Adam Smith observava o nascente capitalismo industrial, em 1776, ele não podia prever o quanto ele transformaria nossas sociedades hoje. Portanto, era aceitável sermos tão cegos quanto ao que o capitalismo se transformaria nos dois séculos seguintes.

No entanto, isso não significa que não devamos nos perguntar como ele pode evoluir para algo melhor no curto prazo. O futuro do capitalismo e de nosso planeta depende disso.

*Matthew Wilburn King é um consultor internacional e conservacionista baseado no Colorado, Estados Unidos, e presidente e diretor da Common Foundation.

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Natrium: O que se sabe sobre reator nuclear desenvolvido por Bill Gates e Warren Buffet

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Responsáveis pela iniciativa afirmam que se trata de uma nova tecnologia que pretende simplificar os tipos de reatores que já existem e contribuir para a luta contra as mudanças climáticas.
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TOPO
Por BBC

Postado em 06 de junho de 2021 às 14h45m


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Projeto é liderado por Bill Gates e Warren Buffett — Foto: Getty Images
Projeto é liderado por Bill Gates e Warren Buffett — Foto: Getty Images

"Um ponto de inflexão para o setor de energia".

Assim foi apresentado o novo modelo de reator nuclear intitulado Natrium. O projeto piloto foi desenvolvido pelo fundador da Microsoft, Bill Gates, e pelo investidor multimilionário Warren Buffett.

A iniciativa é parte do objetivo de Gates de impulsionar as energias renováveis e o combate às mudanças climáticas.

Os conceitos nuclear e renovável podem soar antagônicos. Porém, pequenos reatores avançados, que funcionam por meio de combustíveis diferentes dos tradicionais, são vistos por alguns setores como uma tecnologia-chave livre de emissões de gases de efeito estufa que pode complementar o fornecimento de eletricidade em situações de baixa produção de energia eólica e solar.

O Natrium, apresentado durante cerimônia na quarta-feira (02/6), será desenvolvido pela empresa TerraPower, fundada por Gates há 15 anos, e pela PacifiCorp de Warren Buffet.

"O reator Natrium e seu sistema de energia integrada redefinem o que a energia nuclear pode ser: competitiva e flexível", diz a TerraPower em seu site.

O projeto piloto será construído em uma usina de carvão desativada em Wyoming, nos Estados Unidos, o estado com a maior produção de carvão do país.

Como funciona o reator

A iniciativa é um novo conceito de geração e armazenamento de energia que combina um reator rápido de sódio com um sistema de armazenamento de sais fundidos capaz de produzir 345 megawatts, explica a TerraPower em seu site.

A empresa afirma que o sistema de armazenamento será capaz de aumentar a produção de energia para 500 megawatts de eletricidade por mais de cinco horas e meia quando necessário, quantidade suficiente para fornecer energia a cerca de 400 mil residências.

"Natrium é uma nova tecnologia que pretende simplificar os tipos de reatores já existentes", explica o Fórum da Indústria Nuclear Espanhola, que é vinculado à GE Hitachi Nuclear Energy, empresa que desenvolve a tecnologia junto com a TerraPower.

O reator nuclear - do tipo ondas viajantes (TWR, na sigla em inglês) - usará urânio empobrecido ou urânio natural como combustível. E todos os equipamentos que não forem nucleares ficarão alojados em prédios separados, para reduzir a complexidade da instalação e seu custo, detalha o Fórum.
Ilustração demonstra funcionamento de reator Natrium — Foto: Terrapower
Ilustração demonstra funcionamento de reator Natrium — Foto: Terrapower

O presidente da TerraPower, Chris Levesque, explicou que a planta-piloto levará cerca de sete anos para ser construída.

"Precisamos desse tipo de energia limpa no sistema nos anos de 2030", declarou Levesque.

O Natrium faz parte do Programa de Demonstração de Reatores Avançados do Departamento de Energia dos Estados Unidos.

A TerraPower recebeu US$ 80 milhões (cerca de R$ 400 milhões) em um pacote de financiamento inicial do Departamento de Energia para demonstrar o projeto, informou o portal Business Insider.

O departamento se comprometeu a conceder financiamento adicional para o projeto nos próximos anos.

O governador de Wyoming, Mark Gordon, enfatizou, durante a apresentação do Natrium, que esse é o "caminho mais rápido e claro" para o estado rumo a uma "pegada negativa de carbono".

"Esse pequeno reator modular fornecerá energia sob demanda e resultará em uma redução geral nas emissões de CO2. Também criará centenas de empregos bem remunerados por meio da construção e operação da unidade", escreveu em seu perfil no Twitter.

Preocupações

Mas projetos desse tipo geram certa desconfiança em alguns setores.

A UCS, Union of Concerned Scientists (União de Cientistas Preocupados, em tradução livre), um grupo de defesa da ciência sem fins lucrativos dos Estados Unidos, alertou que reatores avançados como o Natrium podem representar um risco maior do que os convencionais.

"As tecnologias (desses reatores) são, sem dúvidas, diferentes dos reatores atuais. Mas não está nada claro que sejam melhores", declarou Edwin Lyman, diretor da UCS, à Reuters.

"Em muitos casos, são piores em termos de segurança, possibilidade de acidentes graves e proliferação nuclear", acrescentou Lyman, autor de um relatório intitulado "Avançado nem sempre é melhor", publicado pela UCS.
Bill Gates aposta na energia nuclear para mitigar mudanças climáticas — Foto: Getty Images
Bill Gates aposta na energia nuclear para mitigar mudanças climáticas — Foto: Getty Images

No relatório, o grupo alerta que o combustível para muitos reatores avançados teria que ser enriquecido a uma taxa muito maior que o combustível tradicional. Isso significa, segundo os estudiosos, que a cadeia de abastecimento de combustível poderia ser um alvo atraente para terroristas que buscam criar uma área nuclear rudimentar.

"Para que a energia nuclear desempenhe um papel maior na mitigação das mudanças climáticas, os reatores recém-construídos devem provar que são mais seguros e baratos que os atuais", detalha o relatório.

Levesque, presidente da TerraPower, defendeu que as usinas com esses reatores reduzem os riscos de proliferação nuclear porque diminuem o lixo nuclear de forma generalizada.

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