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segunda-feira, 23 de outubro de 2023

O incrível olhar de jovem tigresa que rendeu prêmio de fotografia de mangues

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Organizado pelo Mangrove Action Project, o concurso — na sua 9ª edição — pretende mostrar as relações entre a vida selvagem, as comunidades litorâneas e as florestas de mangais, bem como a fragilidade destes ecossistemas singulares.
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TOPO
Por BBC

Postado em 23 de outubro de 2023 às 09h30m

#.*Post. - N.\ 10.986*.#

Tigresa ameaçada de extinção na Reserva da Biosfera de Sundarbans, na Índia — Foto: Soham Bhattacharyya/Mangrove Photography Awards
Tigresa ameaçada de extinção na Reserva da Biosfera de Sundarbans, na Índia — Foto: Soham Bhattacharyya/Mangrove Photography Awards

O fotógrafo Soham Bhattacharyya venceu o prêmio Mangrove Photography Awards deste ano, por sua imagem de uma tigresa ameaçada de extinção na Reserva da Biosfera de Sundarbans, na Índia.

Organizado pelo Mangrove Action Project, o concurso — na sua 9ª edição — pretende mostrar as relações entre a vida selvagem, as comunidades litorâneas e as florestas de mangais, bem como a fragilidade destes ecossistemas singulares.

A imagem vencedora de Bhattacharyya, chamada A Mais Bela Flor dos Manguezais, mostra uma jovem tigresa real de Bengala em seu habitat natural de mangue, olhando para o fotógrafo.

"A figura solitária da tigresa, em meio à exuberante vegetação verde dos manguezais, ressalta de forma pungente o isolamento que ela deve suportar em um habitat cada vez menor", disse a jurada da competição, Daisy Gilardini.

Em 2021, o Departamento Florestal de Bengala Ocidental estimou que havia apenas 96 tigres reais de Bengala na região.

Os manguezais são uma proteção importante contra as mudanças climáticas, com um acre (4.000 m²) de floresta de mangue absorvendo quase a mesma quantidade de dióxido de carbono que um acre de floresta amazônica.

As florestas também protegem as costas da erosão, à medida que as tempestades intensas se tornam mais frequentes.

"As fotografias de manguezais desempenham um papel multifacetado na defesa da conservação e proteção destas florestas costeiras críticas", disse outro dos jurados, Fulvio Eccardi.

O jurado Octavio Aburto disse: "As imagens deste ano cativaram a nossa imaginação... dando-nos esperança e iluminando um futuro positivo para os ecossistemas de mangue".

Confira uma seleção de imagens vencedoras de sete categorias do concurso, com descrições dos fotógrafos.

Categoria Manguezais e Paisagens (vencedora): Raízes Emergentes, de Cristiano Martins Xavier, Brasil

Raízes Emergentes — Foto: Cristiano Martins Xavier/Mangrove Photography Awards
Raízes Emergentes — Foto: Cristiano Martins Xavier/Mangrove Photography Awards

Como a maré baixa me permitiu caminhar por entre as árvores, vi esta cena onde as raízes do mangue estavam parcialmente submersas.

Decidi usar uma técnica de longa exposição para suavizar a superfície da água e transformar a foto em preto e branco para dar à cena um aspecto sinistro.

O Brasil tem extensos ecossistemas de manguezais ao longo de seu litoral, totalizando aproximadamente 7% da área de manguezal do mundo.

Categoria Manguezais e Paisagens (menção honrosa): Entre Luzes Antigas e Modernas, de Aaron Ruy G Musa, Filipinas

Entre Luzes Antigas e Modernas — Foto: Aaron Ruy G Musa/Mangrove Photography Awards
Entre Luzes Antigas e Modernas — Foto: Aaron Ruy G Musa/Mangrove Photography Awards

As luzes da cidade de Bais, da Via Láctea e da chuva de meteoros Lyrid [são vistas ao lado] das árvores do mangue durante a escuridão e a maré baixa.

Categoria Mangroves & Wildlife (vencedora): Escondendo em plena vista, de Chien Lee, Colômbia

Escondendo em plena vista — Foto: Chien C. Lee/Mangrove Photography Awards
Escondendo em plena vista — Foto: Chien C. Lee/Mangrove Photography Awards

Na floresta de mangue do Parque Nacional Utría, na Colômbia, um urutau (Nyctibius griseus) é quase indistinguível dos galhos enquanto pousa imóvel em seu ninho.

Durante o dia, o urutau pousa nos galhos das árvores, permanecendo perfeitamente imóvel, com sua plumagem enigmática que lembra um galho ou toco de árvore quebrado.

Como não queria correr o risco de atrapalhar o voo do urutau, fotografei-o com uma teleobjetiva longa.

Só depois de olhar pelas lentes é que percebi que na verdade havia um único ovo.

Categoria Manguezais e Vida Selvagem (segundo lugar): Tubarões acasalando, por Mark Ian Cook, EUA

Tubarões acasalando — Foto: Mark Ian Cook/Mangrove Photography Awards
Tubarões acasalando — Foto: Mark Ian Cook/Mangrove Photography Awards

Nesta imagem tirada de um helicóptero, dois grandes tubarões-lixa exibem comportamento de acasalamento nas águas rasas do Shark Point em manguezais no Parque Nacional Everglades, Flórida, nos EUA.

Os habitats protegidos dos mangais, em grande parte livres de perturbações humanas, são fundamentais para o acasalamento de uma série de espécies de tubarões — proteger estas áreas é essencial para sustentar as populações de tubarões.

Categoria Mangroves e Ameaças (vencedora): O Teatro do Plástico, de Emanuele Biggi, Malásia

O Teatro do Plástico — Foto: Emanuele Biggi/Mangrove Photography Awards
O Teatro do Plástico — Foto: Emanuele Biggi/Mangrove Photography Awards

Um caranguejo vagueia à noite, perto da praia da Ilha Pom Pom, Sabah, usando uma tampa de desodorante de plástico em vez de uma concha.

Os caranguejos dependem de conchas vazias para abrigo e proteção. Os detritos de plástico às vezes parecem conchas.

Estas "conchas" não-naturais não fornecem a proteção necessária e podem dificultar o seu crescimento e sobrevivência.

Redes de pesca, linhas e outros detritos plásticos descartados podem enredar e prender animais marinhos, causando ferimentos, afogamento ou asfixia.

Categoria Manguezais e Ameaças (menção honrosa): Selvagem e Livre, de Yordanis Méndez Segura, Cuba

Selvagem e Livre — Foto: Yordanis Méndez Segura/Mangrove Photography Awards
Selvagem e Livre — Foto: Yordanis Méndez Segura/Mangrove Photography Awards

No Golfo de Ana María, em Cuba, este crocodilo americano de água salgada, que vive em manguezais, foi avistado com a boca enrolada em uma corda de náilon.

Categoria Manguezais Subaquáticos (vencedora): A Vida de um Limão, de Anita Kainrath, Bahamas

A Vida de um Limão — Foto: Anita Kainrath/Mangrove Photography Awards
A Vida de um Limão — Foto: Anita Kainrath/Mangrove Photography Awards

Um tubarão-limão juvenil nada em florestas rasas de mangue nas Bahamas.

Os tubarões-limão passam os primeiros quatro a seis anos em águas rasas, onde as florestas de mangue os protegem de predadores maiores.

Categoria Manguezais Subaquáticos (segundo lugar): Floresta Encontra Recife, de Brooke Pyke, Indonésia

Floresta Encontra Recife — Foto: Brooke Pyke/Mangrove Photography Awards
Floresta Encontra Recife — Foto: Brooke Pyke/Mangrove Photography Awards

Uma exuberante e próspera floresta de mangue cresce no topo de um vibrante recife de coral na ilha Gam de Raja Ampat, na Indonésia.

Os manguezais proporcionam muitos benefícios aos recifes de coral, incluindo proteção contra sedimentação, filtragem de nutrientes da terra e dos rios e um habitat para muitas espécies de peixes juvenis.

Categoria Manguezais e Pessoas (vencedora): Séphora, a Mergulhadora de Moluscos, de Kris Pannecoucke, República Democrática do Congo

Mergulhadora de Moluscos — Foto: Kris Pannecoucke/Mangrove Photography Awards
Mergulhadora de Moluscos — Foto: Kris Pannecoucke/Mangrove Photography Awards

Desde o início dos tempos, as pessoas mergulham nos manguezais em busca de moluscos.

Mulheres como Séphora (acima) mergulham até quatro metros em busca de amêijoas no Parque Nacional dos Manguezais, uma frágil reserva natural no Baixo Congo, na República Democrática do Congo.

Nas cidades de Muanda e Boma vendem-se espetos com carne de amêijoa.

Ilhas inteiras, como Kimwabi, onde vive Séphora, são construídas sobre conchas vazias.

Categoria Manguezais e Pessoas (segundo lugar): Na Floresta, de Phan Thi Khanh, VietnãUm pescador navega nas águas do manguezal Ru Cha, perto de Hue, no Vietnã.

Na Floresta — Foto: Phan Thi Khanh/Mangrove Photography Awards
Na Floresta — Foto: Phan Thi Khanh/Mangrove Photography Awards

No inverno, os manguezais perdem todas as folhas, deixando troncos finos e brancos, como uma teia de aranha gigante.

Categoria Manguezais e Histórias de Conservação (vencedora): O Figo Azul, de Mohammad Rakibul Hasan, Bangladesh

O Figo Azul — Foto: Mohammad Rakibul Hasan/Mangrove Photography Awards
O Figo Azul — Foto: Mohammad Rakibul Hasan/Mangrove Photography Awards

As Sundarbans, que significa bela floresta, são uma das áreas mais vulneráveis do Bangladesh aos impactos das alterações climáticas.

À medida que a área de mangal é danificada pela subida do nível do mar e por fenómenos meteorológicos extremos, as pessoas serão afetadas por insegurança alimentar e hídrica e pela perda das suas casas e meios de subsistência.

Categoria Manguezais e Histórias de Conservação (segundo lugar): Gerentes dos Manguezais, de Jason Florio, Gâmbia

Gerentes dos Manguezais — Foto: Jason Florio/Mangrove Photography Awards
Gerentes dos Manguezais — Foto: Jason Florio/Mangrove Photography Awards

Os mangais do rio Gâmbia são cruciais para o seu ecossistema e beneficiam as mulheres locais que recolhem ostras.

A Associação de Mulheres TRY Oyster incentiva as mulheres a se considerarem gerentes dos manguezais, educando-as para preservar os manguezais e fazer colheitas de forma sustentável, bem como se envolver no reflorestamento.

Vencedor da categoria Jovem Fotógrafo de Manguezais do Ano (com menos de 24 anos): Contato Visual, de Katanyou Wuttichaitanakorn, Tailândia

Contato Visual — Foto: Katanyou Wuttichaitanakorn/Mangrove Photography Awards
Contato Visual — Foto: Katanyou Wuttichaitanakorn/Mangrove Photography Awards

Um filhote de saltador lama (Gobiiformes Oxudercinae) foi fotografado na beira de um manguezal na província de Samut Sakhon, na Tailândia.

Todas as fotos estão sujeitas a direitos autorais.


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sábado, 21 de outubro de 2023

5 principais riscos de um ataque terrestre de Israel a Gaza

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Apesar de contar com um dos exércitos mais ricos e poderosos do mundo, Israel sabe dos riscos envolvidos na ofensiva terrestre.
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TOPO
Por BBC

Postado em 21 de outubro de 2023 às 10h00m

#.*Post. - N.\ 10.985*.#

Veículos militares e soldados israelenses perto da fronteira com Gaza — Foto: HANNIBAL HANSCHKE/EPA-EFE/REX/SHUTTERSTOCK
Veículos militares e soldados israelenses perto da fronteira com Gaza — Foto: HANNIBAL HANSCHKE/EPA-EFE/REX/SHUTTERSTOCK

O período mais duro da guerra entre Israel e o Hamas em Gaza ainda pode estar por vir.

Diante de centenas de milhares de militares israelenses, que há dias vestem uniformes de guerra e carregam armamento pesado na fronteira de Israel com Gaza, o ministro da Defesa Yoav Gallant fez nesta quinta-feira (19) a sugestão mais clara até agora sobre um possível ataque israelense por terra.

"Vocês veem Gaza agora à distância. Em breve a verão de dentro. O comando virá", disse ele aos soldados. Pouco depois, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu postou um vídeo dele próprio cercado por militares na fronteira e prometendo vitória.

Apesar de contar com um dos exércitos mais ricos e poderosos do mundo, tanto Netanyahu, quanto o ministro Gallant, quando as centenas de milhares de tropas estacionadas na fronteira sabem dos riscos envolvidos na empreitada.

Como matar "todos os membros do Hamas", como prometeu Nethanyahu, em um território que inclui um emaranhado de 500 km de túneis, segundo o grupo palestino, e cerca de 200 reféns nas mãos do inimigo?

E, mesmo que isso fosse possível, como garantir que novos integrantes não assumirão imediatamente o legado do grupo?

Além disso - qual pode ser a resposta de países vizinhos árabes ao crescente número de vítimas, mais de 4.000, em meio à retaliação israelense ao bárbaro ataque de 7 de outubro do Hamas, que resultou em 1.400 israelenses mortos, comunidades destruídas e mais de uma centena pessoas sequestradas, incluindo dezenas de menores de idade e idosos, segundo Israel?

Ainda: como reagirão aliados, como EUA e Europa, enquanto Gaza se transforma em um "buraco do inferno perto do colapso", nas palavras da agência da ONU para refugiados palestinos?

Por fim, o que dirão os próprios israelenses, diante da crescente impopularidade de Netanyahu e a perspectiva de mais mortos em combates?

A promessa israelense de "eliminar o Hamas e destruir suas capacidades militares e políticas" é considerada gigantesca e difícil de cumprir - e isso ajuda a entender o impasse sobre entrar por terra em Gaza, apesar das tropas e posição de ataque.

Entenda, a seguir, os principais riscos.

1. As armadilhas escondidas em um labirinto subterrâneo

A faixa de Gaza tem só 41 km de comprimento e 10 km de largura. Mas esse terreno cresce quando se leva em conta lado obscuro do território.

É muito difícil avaliar o tamanho do “Metrô de Gaza”, como Israel chama a rede de túneis em constante construção na região e sob domínio do Hamas.

Após combates em 2021, forças militares israelenses disseram ter destruído mais de 100 km de túneis em ataques aéreos. O Hamas, no entanto, disse que os seus túneis se estendiam por 500 km e que apenas 5% haviam sido atingidos.

O maior metrô do Brasil, em São Paulo, tem pouco mais de 100km, para efeito de comparação.

Sistema de túneis do Hamas — Foto: BBC
Sistema de túneis do Hamas — Foto: BBC


Túneis de Gaza identificados por Israel em 2014 — Foto: BBC
Túneis de Gaza identificados por Israel em 2014 — Foto: BBC

"O risco da rede de túneis é que ela vai permitir que os defensores do Hamas se movam pelo campo de batalha enquanto estão escondidos e protegidos de ataques", explicou à BBC News Brasil David Betz, professor de Guerra no Mundo Moderno na universidade Kings College de Londres.

"Assim, eles podem ser capazes de atacar as forças israelenses de surpresa pelo flanco ou pela retaguarda e potencialmente desaparecer novamente."

O especialista explica que é difícil localizar as entradas e saídas dos túneis.

"Eles também são bastante difíceis de destruir. Os explosivos têm de ser colocados numa parte considerável do seu comprimento para causar um grande colapso. Um pequeno colapso pode ser contornado pelo Hamas e o túnel voltar a ser utilizado", diz.

Além disso, como lembra a correspondente internacional-chefe da BBC, Lyse Doucet, "não está claro até que ponto os israelenses têm conhecimento sobre que os aguarda na Faixa de Gaza".

"A destreza militar do Hamas – incluindo seu conhecimento surpreendentemente preciso da segurança israelense, que permitiu ao grupo ludibriar as formidáveis defesas do país – impressionou Israel. O Hamas provavelmente vai demonstrar o mesmo nível de sofisticação quando enfrentar a reação israelense, que certamente será feroz", ela diz.

À BBC, Daphné Richemond-Barak, especialista em guerra subterrânea da Universidade Reichman, em Israel, explica que os túneis dentro de Gaza têm centros de comando e controle, eletricidade, e permitem a permanência de longo prazo de integrantes do grupo.

"O Hamas poderia facilmente usar escudos humanos no contexto dos túneis e simplesmente colocar reféns israelenses, e outros dentro deles", diz.

2. Um 'futuro sombrio' para os reféns

Em manifestação em Tel Aviv, famílias de israelenses mantidos como reféns aparecem ao lado de mesa de jantar posta com cadeiras vazias que representam simbolicamente os sequestrados — Foto: REUTERS/JANIS LAIZANS
Em manifestação em Tel Aviv, famílias de israelenses mantidos como reféns aparecem ao lado de mesa de jantar posta com cadeiras vazias que representam simbolicamente os sequestrados — Foto: REUTERS/JANIS LAIZANS

A segurança de mais de uma centena de reféns raptados pelo Hamas no ataque de 7 de outubro contra Israel está no coração das estratégias desenhadas pelas forças de segurança israelenses.

Nesta sexta-feira, o exército israelense divulgou novos detalhes sobre reféns em Gaza.

Duas reféns americanas que haviam sido sequestradas pelo Hamas foram liberadas, após um acordo mediado pelo governo do Catar.

Dos atualmente detidos na Faixa de Gaza, segundo Israel, mais de 20 deles têm menos de 18 anos - a mais jovem é um bebê de 9 meses.

Entre 10 a 20 pessoas têm mais de 60 anos, continua o comunicado, que aponta que "a maioria dos reféns está viva".

Os israelenses também afirmam que cadáveres foram “levados como reféns” para a Faixa de Gaza após os ataques do Hamas.

Mas o paradeiro da maior parte deles é um mistério.

"Enquanto faltarem informações de inteligência, os riscos para os reféns e para os soldados israelenses existirão", diz à BBC News Brasil o analista político-militar Bilal Y. Saab, do Programa de Oriente Médio e Norte de África do think-tank britânico Chatham House.

"As Forças de Defesa de Israel, que têm como alvo o Hamas, podem acabar matando reféns com as suas próprias armas", alerta o professor Betz à reportagem.

Ele cita combates em Mariupol, na Ucrânia, há um ano, quando forças ucranianas lutavam a partir de andares altos de edifícios de apartamentos, enquanto civis de origem russa ficavam encurralados nos andares inferiores.

"Isso tornou os esforços russos para atingir os ucranianos muito difíceis e dolorosos", diz Betz.

"Da mesma forma, se pressionado, o Hamas pode matar ou ameaçar matar reféns para tentar influenciar as decisões dos comandantes israelenses. (...) Não vejo como o destino dos reféns israelenses possa ser outra coisa que não muito sombrio."

3. O preço das mortes de civis palestinos - e de soldados israelenses

Destroços de igreja ortodoxa grega após um ataque aéreo noturno em Gaza nesta sexta-feira (20); pelo menos 18 pessoas foram mortas, de acordo com as autoridades palestinas — Foto: MOHAMMED SABER/EPA-EFE/REX/SHUTTERSTOCK
Destroços de igreja ortodoxa grega após um ataque aéreo noturno em Gaza nesta sexta-feira (20); pelo menos 18 pessoas foram mortas, de acordo com as autoridades palestinas — Foto: MOHAMMED SABER/EPA-EFE/REX/SHUTTERSTOCK

A ONU informou nesta sexta-feira que 16 de seus funcionários foram mortos em Gaza desde que a guerra começou.

Citando o Ministério da Saúde de Gaza, as Nações Unidas falam em pelo menos 853 crianças mortas pelos bombardeios de Israel e pedem paralisação imediata dos bombardeios - vindo de ambos os lados.

O total de feridos em Gaza segundo o documento é de 12.493, "incluindo 3.983 crianças e 3.300 mulheres". Mais de um milhão de pessoas foram forçadas a se deslocar de suas casas com guerra.

Protestos contrários à resposta de Israel tem sido registrados nas principais capitais da Europa e do mundo árabe. Protestos pró-Israel também tem sido registrados em várias localidades.

Em visitas recentes a Israel, líderes ocidentais ressaltaram apoio irrestrito ao direito de Israel de se defender contra seus inimigos "desde que a legislação internacional seja respeitada".

Com o crescimento de críticas ao impacto sobre civis da resposta israelense a agressão do Hamas, Israel tem "um problema mais político do que militar", na avaliação do analista Saab.

"Israel pode utilizar seu material bélico mais pesado, mas corre o risco de alienar os aliados ocidentais que pedem a Israel que respeite as regras da guerra", diz.

O correspondente de segurança da BBC, Frank Gardner, concorda.

"À medida que o número de mortos entre os civis palestinos aumenta como resultado dos implacáveis ataques aéreos israelenses, grande parte da comoção global por Israel após as ações sanguinárias do Hamas em 7 de outubro foi substituída por um clamor crescente para que os bombardeios cessem e que os cidadãos comuns de Gaza sejam protegidos", ele afirma.

E, caso as forças terrestres israelenses entrem por terra em Gaza, o número de mortos vai definitivamente aumentar.

"É provável que, mais uma vez, seja a população civil a sofrer o peso do conflito", diz o especialista da BBC.

Na avaliação do jornalista britânico Jonathan Freedland, Israel pode "estar caminhando para uma ‘emboscada’ do Hamas”.

"(Em uma invasão por terra), Israel sofrerá pesadas baixas e irá infligi-las – e ambos os resultados agradarão perfeitamente ao Hamas", disse ele em coluna no jornal The Guardian, apontando que um aumento do número de mortos palestinos "seria uma vantagem na guerra de propaganda", enquanto as mortes de soldados israelenses fortaleceriam o Hamas na palestina.

"Uma guerra longa e sangrenta é o que o Hamas e os seus apoiadores iranianos – desesperados para inviabilizar os recentes movimentos no sentido da ‘normalização’ das relações entre Israel e vários dos seus vizinhos, sobretudo a Arábia Saudita – anseiam", avalia Freedland no artigo.

Netanyahu, cujo governo vinha sendo alvo de grandes protestos nas ruas de Israel, vê sua oposição interna intensificada após as falhas de inteligência que não previram e conseguiram evitar os ataques do Hamas.

Ainda assim, Netanyahu conseguiu um apoio da oposição para formar um novo governo unificado a instalação de um gabinete de guerra, ante um consenso no qual a população parece não ver alternativas para além da "aniquilação do Hamas".

"A questão-chave para Israel será o clima interno, que, na minha opinião, neste momento se baseia numa percepção bastante fria de que não há muita escolha", diz o professor de guerra moderna do Kings College.

"Eles não podem se dar ao luxo de ser fracos, e a maioria das pessoas parece entender isso", diz.

4. Um segundo front contra inimigos bem mais poderosos

"Difícil acreditar que o Hezbollah vá ficar ali sentado vendo o seu parceiro palestino próximo ser potencialmente desarmado pelas forças de segurança de Israel", diz à BBC News Brasil o analista político-militar Bilal Y. Saab.

Diante da possibilidade de uma invasão contra Gaza por terra, o especialista, que trabalhou como conselheiro sênior do Departamento de Defesa dos EUA, diz que "a probabilidade de outra frente de guerra ser aberta é muito real".

Seu foco mais provável é a fronteira norte de Israel com o Líbano, onde bombardeios mútuos entre militantes do Hezbollah e militares israelenses já resultaram na evacuação de cidades inteiras nos últimos dias.

Fronteiras de Israel — Foto: BBC
Fronteiras de Israel — Foto: BBC

O Hezbollah é um partido político islâmico xiita e um grupo paramilitar que exerce grande poder na política libanesa. Assim como o Hamas, é apoiado pelo Irã.

A formalização desta nova frente de guerra significaria uma "escalada dramática" nos problemas enfrentados por Israel.

"O Hezbollah tem um arsenal de mísseis muito mais significativo que o do Hamas – muitas vezes maior em número, mas também em alcance, precisão e poder explosivo", explica David Betz.

"Aeródromos, bases, infraestruturas de transporte e comunicações, instalações portuárias e assim por diante de Israel poderiam ser alvo de ataques", continua o professor, lembrando que uma segunda frente no Líbano pode sobrecarregar as forças de defesa de Israel.

"Qualquer operação no terreno em Gaza exigirá muitas tropas, e um número ainda maior será necessário no norte", diz Betz à BBC News Brasil.

O Irã está no centro deste debate. O país vem emitindo duros avisos de que o ataque de Israel a Gaza não pode ficar sem resposta.

O país financia, treina, arma e controla várias milícias no Oriente Médio.

Nas palavras do correspondende de segurança da BBC, Frank Gardner, "de longe, a mais potente delas é o Hezbollah no Líbano".

Israel e Líbano travaram uma dura guerra em 2006. Enquanto o resultado foi inconclusivo, centenas de soldados foram mortos e modernos tanques de guerra de Israel foram destruídos por minas escondidas e emboscadas bem planejadas.

"A abertura de um novo front faria com que o conflito de 2006 pareça um passeio no parque", avalia Saab à BBC News Brasil.

O motivo é que, desde 2006, o Hezbollah se rearmou com ajuda iraniana.

Acredita-se que o grupo tenha hoje perto de 150 mil foguetes e mísseis, muitos dos quais são de longo alcance e guiados com precisão, o que torna seu poderio militar muito maior do que em 2006.

5. A entrada de novos países em uma guerra bem maior

Para Bilal Y. Saab, uma guerra contra o Hezbollah torna o "risco de uma escalada bastante elevado".

Em outras palavras, cresce a possibilidade de mais países se envolverem na guerra - algo que europeus e norte-americanos tentam, a todo custo, evitar.

Após uma rodada por diversos países árabes de seu secretário de Estado, Antony Blinken, o presidente americano Joe Biden fez nesta semana uma viagem-relâmpago à região que previa encontros com chefes de governo do Líbano, Jordânia, Egito e Autoridade Palestina - justamente para baixar os ânimos.

Biden só conseguiu, no entanto, visitar Israel.

Os encontros com líderes árabes, que aconteceriam na Jordânia, foram subitamente cancelados depois da explosão em um hospital de Gaza, cujas causas viraram foco de novas trocas de acusações entre israelenses e palestinos.

Dias depois, o primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, também viajou para a região, onde esteve com líderes da Autoridade Palestina, da Arábia Saudita e do Egito, além de Israel.

Duas mensagens principais foram repetidas por Blinken, Biden, Sunak e outros líderes ocidentais: "Apoiamos Israel e não podemos deixar que a guerra saia das fronteiras de Gaza".

Mas o que gera tanta preocupação?

"Se o Irã também se envolver diretamente, em vez de simplesmente através do Hezbollah, seria então muito provável que outras potências sejam atraídas", explica o professor David Betz.

Isso incluiria os próprios EUA - que enviaram na semana passada dois porta-aviões, cerca de 2.000 fuzileiros navais e navios de apoio para o Oriente Médio.

Sinais desta escalada já começam a aparecer, para além do Hamas e do Hezbollah.

Na quinta-feira (19/10), um navio de guerra da Marinha dos EUA interceptou mísseis e drones lançados do Iêmen pelo movimento Houthi, alinhado ao Irã, segundo o Pentágono.

O governo americano disse que os mísseis foram lançados “potencialmente contra alvos em Israel”.

O Pentágono também disse que as tropas dos EUA no Iraque e na Síria foram atacadas várias vezes nos últimos dias.

Washington está em alerta para atividades de grupos apoiados pelo Irã, enquanto Israel continua a atacar alvos do Hamas em Gaza.

"A situação é extremamente confusa e repleta de potencial significativo de escalada", diz Betz à BBC News Brasil.

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sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Quanto custa o 'uísque mais caro do mundo' que vai a leilão no Reino Unido

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O barril foi destilado em 1926 e envelhecido em tonéis de xerez durante seis décadas antes de ser engarrafado em 1986. Apenas 40 garrafas foram produzidas.
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TOPO
Por BBC

Postado em 20 de outubro de 2023 às 15h45m

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O uísque Macallan Adami 1926 será leiloado na Sotheby's de Londres no dia 18 de novembro. — Foto: Tristan Fewings via BBC
O uísque Macallan Adami 1926 será leiloado na Sotheby's de Londres no dia 18 de novembro. — Foto: Tristan Fewings via BBC

Uma garrafa de uísque single malt da destilaria The Macallan será leiloada em novembro e tem um preço estimado em até 1,2 milhão de libras esterlinas, o equivalente a R$ 7,3 milhões, segundo informou a casa de leilões Sotheby's.

De acordo com especialistas, o Macallan 1926 era conhecido por ser o uísque escocês mais procurado. Isso foi confirmado quando uma garrafa semelhante foi vendida em 2019 pelo valor recorde de 1,5 milhão de libras (R$ 9,2 milhões).

Essa venda será a primeira de uma garrafa desse barril desde então.

O famoso barril foi destilado em 1926 e envelhecido em tonéis de xerez durante seis décadas antes de ser engarrafado em 1986.

Apenas 40 garrafas foram produzidas e não foram disponibilizadas para compra — em vez disso, algumas foram oferecidas aos principais clientes da The Macallan.

Os valores arrecadados nos leilões dessas garrafas ao longo dos anos foram extraordinários.

O Macallan Adami 1926 será vendido na Sotheby's, em Londres, no dia 18 de novembro, com uma estimativa de valor de 750 mil libras (R$ 4,6 milhões) a 1,2 milhão de libras (R$ 7,3 milhões).

Jonny Fowle, chefe global de bebidas exóticas da Sotheby's, disse: O Macallan 1926 é o uísque que todo leiloeiro deseja vender e que todo colecionador deseja possuir".

Estou entusiasmado por levar uma garrafa a um leilão da Sotheby’s pela primeira vez desde que estabelecemos o recorde desta série há quatro anos", disse.

Jonny Fowle, chefe global de bebidas exóticas da Sotheby's, disse: 'O Macallan 1926 é o uísque que todo leiloeiro deseja vender'. — Foto: Tristan Fewings via BBC
Jonny Fowle, chefe global de bebidas exóticas da Sotheby's, disse: 'O Macallan 1926 é o uísque que todo leiloeiro deseja vender'. — Foto: Tristan Fewings via BBC

A Sotheby's disse que as 40 garrafas do barril de 1926 foram rotuladas de maneiras diferentes. Um número máximo de 14 foram decoradas com os rótulos icônicos Fine e Rare (Fino e Raro), um dos quais foi a garrafa recorde vendida em 2019.

Duas garrafas foram lançadas sem nenhum rótulo. Destas, uma foi pintada à mão pelo artista irlandês Michael Dillon. Quando vendida em 2018, tornou-se a primeira garrafa de uísque a ultrapassar o valor de 1 milhão de libras (cerca de R$ 6 milhões).

Das garrafas restantes, 12 foram rotuladas pelo artista pop Peter Blake e outras 12 foram desenhadas pelo pintor italiano Valerio Adami.

Embora tenham sido produzidas 12 garrafas de The Macallan Adami 1926, não se sabe quantas delas ainda existem.

Diz-se que uma delas foi destruída em um terremoto no Japão em 2011, e acredita-se que pelo menos uma tenha sido aberta e consumida.

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