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terça-feira, 23 de maio de 2023

Por que os bancos brasileiros resistem melhor às altas de juros do que os americanos?

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Nos Estados Unidos, três bancos já quebraram e outros passam por dificuldades. Em contrapartida, as instituições brasileiras continuam lucrando, já que o sistema é mais concentrado e regulado, o que ajuda a explicar a resiliência. 
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Por Bruna Miato, g1

Postado em 23 de maio de 2023 às 06h10m

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Agência do First Republic Bank, em Nova York. — Foto: Reuters
Agência do First Republic Bank, em Nova York. — Foto: Reuters

Apesar dos últimos aumentos feitos nas taxas de juros, os bancos brasileiros continuam entregando resultados bilionários. No primeiro trimestre de 2023, o lucro agregado das quatro principais instituições financeiras do país foi de R$ 23,35 bilhões.

Curiosamente, essa realidade contrasta bastante com a situação dos bancos nos Estados Unidos.

Por aqui, o Banco do Brasil foi o banco com o maior lucro líquido do período: R$ 8,6 bilhões, alta de 29% no primeiro trimestre em relação a igual período de 2022. Em seguida, o Itaú Unibanco acumulou R$ 8,43 bilhões. Bradesco e Santander reportaram uma queda no resultado, mas ainda assim lucraram R$ 4,28 bilhões e R$ 2,14 bilhões, respectivamente.

Já na maior economia do mundo, desde meados de março, não param de surgir bancos com graves problemas, causados justamente pela elevação das taxas no país, que hoje chegam a 5,25% ao ano.

Esta matéria vai abordar:

  1. O que está acontecendo nos Estados Unidos
  2. Qual o "segredo" dos bancos brasileiros
  3. A prática dos bancos brasileiros com o sobe e desce dos juros
  4. As estratégias de investimentos adotadas pelos bancos americanos que não deram certo
  5. A concentração dos sistemas bancários nos dois países
  6. A forte regulamentação dos bancos no Brasil
O que está acontecendo nos Estados Unidos?

Com a disparada dos juros, que haviam sido zerados pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) no começo da pandemia, os clientes — tanto pessoas físicas quanto empresas — passaram a retirar seus recursos, que estavam rendendo muito pouco, dos bancos.

Parte desse dinheiro foi utilizada para pagar as contas, já que a inflação está alta no país, mas o outro montante foi reinvestido em outras instituições e aplicações financeiras, que ofereciam uma rentabilidade melhor.

Assim, parte dos bancos americanos sofreu uma grande quantidade de saques com os quais não estavam preparados para lidar.

No dia 10 de março, o primeiro caso de quebra veio do Silicon Valley Bank (SVB), banco regional que atendia muitas empresas de tecnologia, principalmente startups.

Apenas dois dias depois, o Signature Bank foi fechado por órgãos do sistema financeiro americano, também por problemas de liquidez. O mesmo aconteceu com o First Republic Bank, que no começo de maio foi comprado pelo gigante J.P. Morgan.

Qual o 'segredo' dos bancos brasileiros?

Não que os juros altos não atinjam os bancos brasileiros, mas isso ocorre de forma diferente. O grande problema de uma Selic maior é o crescimento da inadimplência (a quantidade de pessoas que fica devendo para o banco), que elevam também as provisões dessas instituições financeiras.

As provisões são valores reservados pelos bancos para cobrir eventuais calotes, e servem para garantir a saúde financeira e operacional dessas instituições.

Assim, quanto maior o juro, maior tende a ser o grau de endividamento das famílias — o que, consequentemente, aumenta os índices de inadimplência dos bancos e a quantia destinada a provisões, impactando negativamente no lucro dessas companhias.

No caso do Bradesco e do Santander, por exemplo, a inadimplência subiu a 5,1% e 3,2%, respectivamente, o que explica, em parte, a queda nos lucros desses bancos.

Já no Itaú Unibanco, a taxa se manteve estável em 2,9%. O Banco do Brasil também apresentou estabilidade, em 2,62%.

Mas há uma série de fatores que explicam por que uma quebra dos bancos no Brasil está tão distante, mesmo em um ambiente como esse. Segundo especialistas ouvidos pelo g1, as principais razões são:

  • 📈 o Brasil já é mais acostumado a viver com juros altos e longos ciclos de aperto monetário;
  • 💵 os bancos brasileiros têm uma estratégia de investimentos diferente dos americanos, que, na pandemia, investiram em títulos que os colocaram em um problema de liquidez, ou seja, não tinham dinheiro suficiente em caixa para os saques;
  • ⚖️ o Brasil conta com uma regulamentação mais conservadora e rígida para os bancos, como forma de proteger o sistema contra quebras;
  • 🏦 o sistema bancário brasileiro é bem mais concentrado que o americano, com poucos bancos contando com dezenas de milhões de clientes, o que reduz o risco de quebra.
Entenda mais detalhes abaixo.
Taxa Selic: entenda o que é a taxa básica de juros da economia brasileiraTaxa Selic: entenda o que é a taxa básica de juros da economia brasileira

Sobe e desce dos juros é comum no Brasil

Alexandre Silverio, diretor-executivo da Tenax Capital, explica que o Brasil já é um país acostumado com ciclos de aperto na política monetária e, por isso, os bancos sabem navegar na maré dos juros altos.

Dessa forma, quando a taxa Selic voltou a subir em 2021, em uma tentativa do Banco Central do Brasil de controlar a inflação, as principais instituições financeiras do país já começaram a projetar a possibilidade de os juros caminharem até um patamar de dois dígitos, o que de fato aconteceu.

Os bancos brasileiros também costumam adotar estratégias de investimentos que possam oferecer bons resultados em diversas situações.

Charbel Zaib, economista-chefe da Arcani Investimentos, afirma que, por aqui, as instituições costumam alocar boa parte de seus recursos nos títulos pós-fixados, que são aqueles que têm seu rendimento atrelado à variação da taxa de juros. Assim, se a Selic sobe, o título também vai render mais.

Estratégia de investimento equivocada

Nos Estados Unidos, a estratégia de investimentos foi outra: os bancos optaram por títulos prefixados. Esses títulos, como o próprio nome sugere, têm uma rentabilidade definida já no momento da compra. Ou seja, não variam se a taxa de juros sobe. E a escolha foi tomada justamente pela "falta de prática" dessas instituições com os juros altos.

Silverio diz que, desde a crise financeira de 2008, o Fed vinha trabalhando com taxas de juros baixas, que estimulam a economia em momentos difíceis.

Isso se intensificou em 2020, com a pandemia de Covid-19. Com as paralisações de atividade, o Fed passou a oferecer incentivos a pessoas e empresas para reduzir os impactos econômicos do período. Naquele momento, as taxas de juros foram zeradas.

De acordo com Zaib, parte desses incentivos econômicos foi usada pela população e pelas empresas para o pagamento das contas básicas, mas outra porção foi guardada nos bancos. Por se tratar de um momento de incerteza, a grande parte dos depósitos foi feita à vista, modalidade mais tradicional e que permite ao cliente pode sacar o dinheiro quando quiser.

Com as taxas de juros zeradas, parte dos bancos investiu os recursos depositados pelos clientes em um dos títulos do Tesouro americano, que oferecia uma rentabilidade acima da média, de cerca de 1,5% ao ano, mas que tinha um prazo de duração longo.

Conforme a inflação passou a subir e o Fed iniciou uma política de alta nos juros, a estratégia se mostrou ruim. Isso porque os clientes passaram a solicitar saques do dinheiro depositado e os bancos precisaram se livrar dos títulos do Tesouro com prejuízo.

"Daí o que aconteceu é até fácil de entender: se a pessoa tinha um recurso depositado no banco sem retorno algum e, de uma hora pra outra, os juros sobem para mais de 5% ao ano, ela retira esse dinheiro de onde está para investir em outra coisa que ofereça mais rentabilidade", diz Zaib.

Com a informação de dificuldades dos bancos se espalhando, ocorreram as chamadas "corridas bancárias" de clientes com medo de que as instituições quebrassem e lhes desse um calote.

Funciona como uma "profecia autorrealizável": quando muitas pessoas têm medo de que um banco quebre e correm para sacar o dinheiro, ele realmente quebra porque não tem recursos em caixa para atender toda a demanda.

Concentração do sistema bancário

Um consenso entre os especialistas é que é bastante improvável que uma corrida bancária no Brasil tenha os mesmos impactos que nos Estados Unidos. E isso pode ser explicado por um motivo simples: há um número muito menor de instituições financeiras, com muito mais clientes.

Marcelo Malta, diretor-executivo da Arcani Investimentos, destaca que os cinco principais bancos do país possuem dezenas de milhões de consumidores e, exatamente por isso, a probabilidade de que uma corrida bancária atinja uma porcentagem relevante dos clientes é muito pequena.

Já nos Estados Unidos, o sistema financeiro é muito pulverizado: há centenas de bancos, e a grande maioria deles conta com um percentual menor clientes em relação ao total da população.

"Em um banco com 500 mil ou um milhão de clientes, se 50% das pessoas resolvem sacar o dinheiro, isso com certeza vai quebrar o banco, porque o número total de contas é muito menor do que em bancos maiores, como os que existem no Brasil", aponta Malta.

Vale lembrar que os três bancos que quebraram nos Estados Unidos eram bancos regionais, de pequeno ou médio porte. Os riscos de que a crise chegue nos grandes bancos americanos são bem menores, de acordo com todos os especialistas consultados pela reportagem.

Para Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa, é justamente a forte pulverização naquele país que torna mais difícil que todo o sistema bancário americano quebre, já que se uma das centenas de bancos de pequeno ou médio porte quebrar, o impacto econômico será menor.

"Fazendo um paralelo com o Brasil, se um dos principais bancos daqui quebrasse seriam muitos milhões de clientes impactados, o que traria um problema enorme para todo o sistema. Então, mesmo que seja difícil, se um banco quebrasse no Brasil, o risco para toda a economia seria maior do que nos Estados Unidos", diz Sanchez.
Especialista diz se crise dos bancos nos EUA pode chegar no BrasilEspecialista diz se crise dos bancos nos EUA pode chegar no Brasil

Forte regulamentação brasileira

Matheus Amaral, analista de bancos do Inter Research, reafirma que o grande problema nos Estados Unidos é o "descasamento entre ativos e passivos", ou seja, o fato de os bancos não terem dinheiro em caixa suficiente para arcar com os saques.

Além das escolhas estratégicas de investimentos que não deram certo para aquelas instituições, o especialista destaca que a regulamentação dos bancos lá fora é bem menos rígida que no Brasil.

Há um órgão global, o Comitê de Basiléia, que prevê recomendações de regulações e reúne as melhores práticas bancárias para a promoção e a manutenção da estabilidade dos sistemas financeiros nos países.

No final dos anos 90, após a implementação do Plano Real e da falência de alguns bancos brasileiros, o país adotou as recomendações desse comitê, mas optou por aplicar medidas ainda mais restritivas para garantir a segurança.

Com as regras adotadas naquele momento, as instituições financeiras brasileiras passaram a ter a obrigação de manter um montante de patrimônio líquido mínimo para garantir a liquidez, por exemplo.

Essa reserva deve conter, para além da proporção indicada pelo Comitê de Basiléia, montantes específicos para arcar com os riscos de crédito de diferentes tipos de ativos.

Nos Estados Unidos, conforme explicam os especialistas, essas reservas são menores. Assim, os bancos do país operam com mais riscos, ponto que pode ser prejudicial em momentos, como o atual, de incertezas econômicas.

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segunda-feira, 22 de maio de 2023

China barra compra de chips da americana Micron para projetos de infraestrutura crítica

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País considera indústrias "críticas" as de comunicação e transporte público. Produtos fabricados pela Micron falharam na revisão de segurança de rede de órgão regulador.
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TOPO
Por Reuters

Postado em 22 de maio de 2023 às 17h05m

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China reprova produtos da Micron em análise de segurança — Foto: Micron Technology/Divulgação
China reprova produtos da Micron em análise de segurança — Foto: Micron Technology/Divulgação

O órgão regulador do ciberespaço da China afirmou que vai impedir operadores de infraestrutura crítica do país de comprarem produtos da fabricante de chips de memória norte-americana Micron Technology Inc.

O anúncio foi feito neste domingo (21), quando o órgão disse que os produtos fabricados pela empresa falharam em sua revisão de segurança de rede. No entanto, não forneceu detalhes sobre quais riscos encontrou ou quais produtos da empresa serão afetados.

"A revisão constatou que os produtos da Micron apresentam sérios riscos de segurança de rede, que por sua vez representam riscos significativos à segurança da cadeia de suprimentos de infraestrutura de informações críticas da China, afetando a segurança nacional do país", disse a Administração do Ciberespaço da China (ACC), em comunicado.

A mudança pode afetar setores que vão de telecomunicações a transporte e finanças, de acordo com o que a China considera infraestrutura crítica.

No entanto, analistas da empresa Jefferies de investimento bancário, que fornece serviços de consultoria, ouvidos pela Reuters, acreditam que a decisão deve ter pouco impacto na Micron, já que seus principais clientes na China são empresas de eletrônicos de consumo, como fabricantes de smartphones e computadores, e não fornecedores de infraestrutura.

"Acreditamos que a maior parte da receita da Micron na China não é gerada por empresas de telecomunicações e pelo governo. Portanto, o impacto final na Micron será bastante limitado", disseram eles em nota.

A Micron disse que recebeu o aviso sobre a conclusão de sua revisão dos produtos da empresa vendidos na China e espera "continuar a se envolver em discussões com as autoridades chinesas".

Em uma conferência na segunda-feira, o diretor financeiro da Micron, Mark Murphy, afirmou que a empresa estava confusa sobre quais as preocupações da China. Ele disse ainda que as vendas diretas e indiretas da Micron para empresas sediadas na China representam cerca de um quarto de sua receita total.

Segundo a Reuters, a Micron gerou US$ 5 bilhões (aproximadamente R$ 24,8 bilhões) em receita na China, incluindo US$ 1,7 bilhão (cerca de R$ 8,4 bilhões) em Hong Kong no ano passado, cerca de 16% de sua receita total.

A decisão chinesa foi tomada em meio a uma disputa comercial sobre tecnologia de chips entre Washington e Pequim.

Em outubro, Washington impôs uma série de controles de exportação de tecnologia de fabricação de chips para a China e agiu para impedir que a fabricante chinesa Yangtze Memory Technologies, rival da Micron, compre certos componentes americanos.

Agora, este anúncio mais recente da China ocorreu durante uma cúpula dos líderes do G7 no Japão.

O presidente dos EUA, Joe Biden, disse no domingo que as nações do G7 concordaram em "reduzir o risco e diversificar nosso relacionamento com a China". Os líderes também concordaram em estabelecer uma iniciativa para combater a "coerção" econômica.

A China, em setembro de 2021, impôs regras destinadas a proteger a infraestrutura de informações críticas, que exigem que seus operadores cumpram requisitos mais rígidos em áreas como segurança de dados.

Pequim definiu as indústrias que considera "críticas" como as de comunicação e transporte público, mas não especificou exatamente a que tipo de empresa ou escopo de negócios isso será aplicado.

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Manguezais, corais e terras indígenas: conheça litoral no centro da discussão sobre a exploração de petróleo pela Petrobras no Rio Amazonas

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Biodiversidade existente na região onde acontece o encontro das águas do Rio Amazonas com o Oceano Atlântico na costa do Amapá, no extremo norte do Brasil.
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Por Núbia Pacheco, g1 AP — Macapá

Postado em 22 de maio de 2023 às 08h30m

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Biodiversidade costeira que pode ser impactada pela exploração de petróleo no Amapá — Foto: Parque Nacional do Cabo Orange/Divulgação
Biodiversidade costeira que pode ser impactada pela exploração de petróleo no Amapá — Foto: Parque Nacional do Cabo Orange/Divulgação

Com recifes de corais ainda pouco estudados e com o maior cinturão de manguezais do mundo – que se estende pela costa da Amazônia e representa 80% da cobertura do país –, a bacia da foz do Rio Amazonas é considerada uma região de grande relevância biológica.

Esta biodiversidade está no centro das discussões sobre a exploração de petróleo no extremo norte do Brasil, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá, na bacia da Foz do Amazonas.

Infográfico mostra o local em que a Petrobras quer explorar petróleo na bacia da Foz do Amazonas — Foto: Editoria da Arte/g1
Infográfico mostra o local em que a Petrobras quer explorar petróleo na bacia da Foz do Amazonas — Foto: Editoria da Arte/g1

Na quarta-feira (7), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) negou licença para a Petrobras iniciar a exploração petrolífera na região.

O órgão informou que o plano da Petrobras para a área não apresenta garantias para atendimentos à fauna em possíveis acidentes com o derramamento de óleo, e que viu lacunas na previsão de impactos da atividade em três terras indígenas em Oiapoque.

A Petrobras declarou que atendeu a todos os requisitos do Ibama no processo de licenciamento e que a área em que pretende perfurar o poço está a 175 km costa do Amapá e a mais de 500 km da foz do Rio Amazonas.

O Ministério de Minas e Energia declarou que recebeu a decisão do Ibama com naturalidade e respeito, e que o poço, de pesquisa, serviria para reconhecimento do subsolo e das potencialidades da região.

Na primeira manifestação sobre o assunto, Lula (PT) disse nesta segunda-feira (22) achar difícil haver algum problema para a Amazônia, mas que ainda avaliaria o caso.

"Se explorar esse petróleo tiver problemas para a Amazônia, certamente não será explorado. Mas eu acho difícil, porque é 530 km de distância da Amazônia. Mas eu só posso saber quando eu chegar lá [no Brasil]", declarou o presidente pouco antes de deixar o Japão, onde estava para a participar da cúpula do G7 Iveja no
Lula se manifesta sobre a exploração de petróleo na Foz do AmazonasLula se manifesta sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas

O g1 reuniu informações sobre a fauna, a flora e a presença de povos originários neste espaço que possui tesouros naturais ainda pouco estudados. Leia abaixo.

Corais da Amazônia

Corais da Amazônia  — Foto: Greenpeace/Divulgação
Corais da Amazônia — Foto: Greenpeace/Divulgação

Em 2016, recifes de corais foram descobertos na costa do Amapá em meio ao anúncio de exploração de petróleo na região. Os corais da Amazônia, de acordo com a organização não-governamental (ONG) internacional Greenpeace, são formações únicas e seriam diretamente ameaçadas pela atividade petrolífera.

Os corais foram citados pela primeira vez em maio de 2016 por um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que explorou a costa Leste do Amapá, na fronteira com a Guiana Francesa.

De acordo com a pesquisa, os recifes são formados por corais, esponjas e rodolitos (algas calcárias).

Diante do estudo, os pesquisadores do Greenpeace fizeram em janeiro de 2017 a primeira expedição que, ao longo de 16 dias, mapeou e identificou as novas descobertas.

Veja abaixo algumas imagens capturadas que revelam um ecossistema rico em texturas, cores e formatos, que sobrevive em águas profundas e com pouca luminosidade.

O ecossistema ainda pouco conhecido fica a 100 quilômetros do litoral, próximo ao encontro das águas do Rio Amazonas e do Oceano Atlântico. Ele desperta grande curiosidade sobre como acontece a adaptação da vida marítima na mistura de água doce e salgada.

Inicialmente, foi estimado que os recifes teriam pelo menos 9.500 quilômetros quadrados, mas após a expedição, os cientistas estimam que eles podem ter até 56 mil quilômetros quadrados, em uma área que vai da Guiana Francesa, passa pelo Amapá e Pará e chega ao Maranhão.

Imagem submersa dos Corais da Amazônia  — Foto: Greenpeace/Divulgação
Imagem submersa dos Corais da Amazônia — Foto: Greenpeace/Divulgação

Para o Greenpeace, os recifes estão ameaçados pelo fato de estarem localizados dentro dos lotes a serem explorados na bacia da foz do Amazonas.

"O Greenpeace atua nessa região com expedições científicas e conhece bastante a realidade. Existe uma total inviabilidade ambiental para essa exploração. Inclusive, esse termo é usado no parecer do Ibama. Somos do princípio da precaução, de se evitar qualquer intervenção o meio ambiente sem as garantias de que não vai ter impacto, disse Marcelo Laterman, porta-voz de Oceanos do Greenpeace Brasil.

Em 2018, uma petrolífera francesa que tentava explorar a mesma área teve a licença negada pelo Ibama.

Imagem submersa dos Corais da Amazônia  — Foto: Greenpeace/Divulgação
Imagem submersa dos Corais da Amazônia — Foto: Greenpeace/Divulgação

Também em 2018, um projeto de lei para tornar os corais da Amazônia uma área de preservação permanente começou a tramitar na Câmara dos Deputados, mas a proposta foi rejeitada em dezembro de 2021 pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara.

Em meio à discussão sobre a possível liberação da exploração de petróleo na área próximas aos corais, ONGs, universidades e moradores da região temem as consequências de impactos ambientais ao ecossistema.

Manguezais da Amazônia

Área de mangue no Cabo Orange, no Amapá  — Foto: ICMBio/Divulgação
Área de mangue no Cabo Orange, no Amapá — Foto: ICMBio/Divulgação

Distribuídos pelos estados do Amapá, Pará e Maranhão, os manguezais da Amazônia correspondem a mais de 80% dos manguezais do Brasil e possui o maior cinturão ininterrupto do mundo.

De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Amapá é o terceiro maior estado do Brasil com uma área de 226 mil hectares de mangues, atrás do Pará (aproximadamente 390 mil hectares) e do Maranhão (505 mil hectares). O dado, segundo o instituto, consolida a importância da costa norte para a conservação da vegetação.

O mangue é um ambiente de transição entre o mar e o continente, entre a água salgada e a doce, entre os biomas terrestre e marinho, nas regiões tropicais e subtropicais.

Parque Nacional do Cabo Orange (PNCO), no Amapá — Foto: Marcus Cunha/ICMBio
Parque Nacional do Cabo Orange (PNCO), no Amapá — Foto: Marcus Cunha/ICMBio

Na Amazônia, o ecossistema gera verdadeiras florestas com árvores de grande porte. O solo se forma a partir de uma grande quantidade de matéria orgânica em decomposição que serve de alimento e habitat para diversas espécies de crustáceos e peixes.

No Amapá, ocorre entre o Oceano Atlântico e o Rio Amazonas, onde existem as áreas de várzea, protegidas pelos manguezais.

Ele surge com o objetivo de proteger o próprio continente de impactos possíveis, como de um tsunami, por exemplo, ou de grandes ondas. Ele também é um berçário de espécies aquáticas, onde peixes, crustáceos e camarões usam para reprodução. O mesmo peixe que a gente consome no mercado, é o mesmo peixe que um dia viveu no mangue, destacou Paulo Silvestro, analista ambiental do ICMBio.

A maior parte dos mangues amapaenses está localizada no Parque Nacional do Cabo Orange.

Parque Nacional do Cabo Orange

Ponta do Mosquito no Cabo Orange, no Amapá — Foto: Divulgação/ICMBIo
Ponta do Mosquito no Cabo Orange, no Amapá — Foto: Divulgação/ICMBIo

Com uma área de aproximadamente 657.318 mil hectares, o Parque Nacional do Cabo Orange está localizado nos municípios de Calçoene e Oiapoque, no Norte do Amapá, região também conhecida como Litoral Equatorial Amazônico.

As espécies florestais mais comuns na região são as árvores mangue-branco, mangue-vermelho e o negro.

O local abriga vários animais que estão ameaçados de extinção, entre eles gato-do-mato, cuxiú-preto, tartaruga-verde, tamanduá-bandeira, onça-pintada, peixe-boi marinho e peixe-boi-da-Amazônia.

Peixe-boi ameaçado de extinção volta à natureza após seis anos de resgate — Foto: Divulgação/Ibama
Peixe-boi ameaçado de extinção volta à natureza após seis anos de resgate — Foto: Divulgação/Ibama

Um protagonista desta região é o peixe-boi chamado "Victor Maracá". Ele foi resgatado e após viver por seis anos em uma piscina foi devolvido à natureza num rio na Aldeia do Manga, em Oiapoque.

Segundo o ICMBio, uma das visões que mais impressiona os visitantes é a grande concentração de aves, que utilizam a área para construção de ninhos nos mangues.

Aves migratórias no Cabo Orange — Foto: ICMBio/Divulgação
Aves migratórias no Cabo Orange — Foto: ICMBio/Divulgação

De acordo com o biólogo analista do ICMBio, o Amapá recebe anualmente algumas espécies de aves que fogem do inverno de países como o Canadá e os Estados Unidos e que passam o verão nesse ponto específico no Norte do Brasil.

Tem animais que viajam milhares de quilômetros do Canadá e do Alasca (EUA) e vêm pra cá. O maçarico-rasteirinho, maçarico-de-perna-amarela. Do grande e do pequeno, vêm ficar aqui durante o inverno de lá, que tem muita neve e não tem comida", comentou Silvestro.

Caranguejos-uçá  — Foto: ICMBio/Divulgação
Caranguejos-uçá — Foto: ICMBio/Divulgação

Outros protagonistas dessa área são os caranguejos-uça, crustáceos predominantes na região. A espécie se alimenta de folhas em decomposição, sementes e frutos de mangue.

A carne do caranguejo-uça é bastante apreciada na culinária, por isso é definido anualmente o período de defeso durante a época reprodutiva da espécie.

Conhecida como "andada", essa fase acontece no início do ano, quando os caranguejos saem das tocas e andam aos montes pelos manguezais, em busca de acasalamento e para a liberação de ovos.

Caranguejos-uça na "andada" — Foto: CPRH
Caranguejos-uça na "andada" — Foto: CPRH

Esta área que compõe o Parque Nacional do Cabo Orange é apenas um recorte da rica biodiversidade existente na costa do Amapá.

Outras duas unidades de conservação litorâneas também guardam as riquezas do extremo norte do Brasil: a Reserva Biológica do Lago Piratuba e a Estação Ecológica Maracá-Jipioca, que abriga a Ilha das Onças-Pintadas, uma das regiões mais remotas do estado com acesso pelo município de Amapá.

Onça fotografada na Estação Ecológica Maracá-Jipioca, na chamada 'Ilha das Onças-Pintadas', no Amapá — Foto: Girlan Dias/ICMbio
Onça fotografada na Estação Ecológica Maracá-Jipioca, na chamada 'Ilha das Onças-Pintadas', no Amapá — Foto: Girlan Dias/ICMbio

Terras indígenas
Crianças e adultos participam da soltura de tracajás nas terras indígenas de Oiapoque — Foto: Marcelo Domingues/Instituto Iepé
Crianças e adultos participam da soltura de tracajás nas terras indígenas de Oiapoque — Foto: Marcelo Domingues/Instituto Iepé

Povos Indígenas temem a exploração de petróleo na costa do Amapá por acreditarem que a atividade deve provocar impactos ambientais em pelo menos quatro etnias que ficam ao norte do estado.

Renata Lod, vice coordenadora do Conselho de Caciques dos Povos Indígenas do Oiapoque (CCPIO), detalhou que os povos Karipuna, Galibi Marworno, Galibi Kali' na e Palikur-Arukwayene vivem em 3 Terras Indígenas demarcadas e homologadas (TI Uaçá, TI Jumina e TI Galibi).

Comunidade indígena Açaizal — Foto: CCPIO/Divulgação
Comunidade indígena Açaizal — Foto: CCPIO/Divulgação

Ao todo, são cerca de 13 mil indígenas vivendo em 56 comunidades dentro de uma área contínua de 518.454 hectares, organizada em 5 regiões: BR-156, Rio Oiapoque, Rio Uaçá, Rio Urukawá e Rio Curipi.

A vice coordenadora disse que as comunidades receberam com satisfação o resultado do parecer do ibama.

"Ele apenas afirma aquilo que a gente vem tentando dialogar com a Petrobras todo esse tempo porque nós estamos tentando um diálogo para que o nosso protocolo de consulta seja respeitado, mas também para que a gente mostre os danos que isso pode trazer. Nós estamos vivendo as questões das mudanças climáticas e nós povos indígenas estamos vivendo na pele toda essa situação", disse.

Terras indígenas podem ser afetadas por exploração na costa do Amapá — Foto:  Maksuel Martins/Secom
Terras indígenas podem ser afetadas por exploração na costa do Amapá — Foto: Maksuel Martins/Secom

Outra preocupação é a movimentação de aeronaves na região. Segundo Lod, o barulho pode causar transtornos nas aldeias, que não estão acostumadas com sobrevoos.

"A questão das aeronaves que passavam quase que diariamente em cima das nossas aldeias trazendo consequências tanto para as nossas crianças que se assustavam, quanto para a caça. Isso assustava as caças, tanto pássaros, quanto animais terrestres [...] os nossos territórios vai sendo impactados com isso", completou.

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