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domingo, 11 de setembro de 2022

O biólogo que tentou revelar segredos da indústria pesqueira e desapareceu no oceano

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 "A conclusão inevitável é que algo devia ter acontecido com ele. Até hoje, estou convencido de que ele viu algo que as pessoas que estavam naquele navio não queriam que ele visse", diz um amigo de Keith Davis
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TOPO
Por Rachel Monroe*, BBC — Do Texas (EUA)

Postado em 11 de setembro de 2022 às 07h35m

 #.*Post. - N.\ 10.468*.#

Davis trabalhava como observador de pesca — Foto: BBC
Davis trabalhava como observador de pesca — Foto: BBC

O ativista Keith Davis desapareceu no mar a milhares de quilômetros de casa. Seu corpo nunca foi encontrado. Agora, o mistério de sua morte chama atenção para um setor que normalmente passa desapercebido da maioria das pessoas: o setor pesqueiro.

Em um mercadinho local do Texas, nos EUA, é possível comprar uma lata de atum por menos de US$1 (cerca de R$ 5,20). Mas, como muitas coisas que parecem baratas, esses preços baixos só são possíveis por causa do trabalho perigoso e em grande parte invisível de pessoas em locais distantes.

Davis, um tocador de ukulele idealista e aventureiro do Arizona, trabalhou para tornar visível o mundo da pesca comercial de atum. E ele pode ter pago um preço por isso.

"Ele era muito impulsivo, muito romântico, agia no calor do momento", diz Anik Clemens, seu amigo e colega. "Ele era muito apaixonado pelo que fazia. Queria proteger os oceanos, queria proteger os pescadores e sua indústria."

Em 2015, no meio de uma viagem aparentemente rotineira no navio Victoria 168, parte de uma frota de navios pesqueiros de propriedade de um conglomerado de Taiwan, o homem de 41 anos desapareceu a centenas de quilômetros da costa do Equador.

 — Foto: MRAG AMERICAS/BBC
— Foto: MRAG AMERICAS/BBC

A tripulação vasculhou o navio, mas não encontrou nenhum sinal dele. Quando a notícia de seu desaparecimento chegou a seus amigos e colegas no continente, muitos ficaram imediatamente desconfiados.

"Ele tinha 16 anos de serviço. E não há dúvida de que ele era o mais profissional, cuidadoso e seguro possível", diz Bubba Cook, amigo de Davis e gerente do Programa de Atum do Pacífico Ocidental e Central da ONG de proteção ambiental WWF (World Wildlife Foundation).

"A conclusão inevitável é que algo devia ter acontecido com ele. Até hoje, estou convencido de que ele viu algo que as pessoas que estavam naquele navio não queriam que ele visse."

O novo podcast da BBC, Lost At Sea (Perdido no Mar), investiga seu desaparecimento.

Keith Davis was passionate about his work, says friend Anik Clemens — Foto: BBC
Keith Davis was passionate about his work, says friend Anik Clemens — Foto: BBC

Observador da Pesca

Davis era um biólogo marinho que trabalhava como observador de pesca, uma profissão pouco conhecida e muito arriscada. Os estimados 2.500 observadores vivem a bordo de navios de pesca por meses a fio, aventurando-se a centenas de quilômetros da costa para proteger essas águas da pesca excessiva e coletar observações científicas que nos ajudam a entender a saúde de nossos oceanos e vida marinha.

Observadores vivem entre a tripulação, trabalhando as mesmas horas extenuantes nas mesmas condições adversas. Mas às vezes também são vistos com desconfiança, porque parte de seu trabalho é relatar atividades ilegais.

Mas o que Davis pode ter testemunhado que poderia colocá-lo em risco? O alto mar, onde a jurisdição legal é complexa e há pouca fiscalização, é conhecido pela atividade ilegal - nomeadamente o tráfico de drogas e armas e, por vezes, o tráfico de seres humanos. No entanto, para ser claro, a BBC não encontrou nada que apontasse que Davis testemunhou qualquer uma dessas atividades no Victoria 168.

O barco em que ele estava trabalhando no momento do desaparecimento estava envolvido no que é conhecido como transbordo. Os navios de transbordo abastecem os barcos de pesca de atum com suprimentos frescos e transportam o peixe recém-pescado de volta à costa. Esse processo pode permitir que alguns pesqueiros de atum fiquem no mar por anos, o que pode ajudar a economizar custos - e permitir que a lata de atum custe US$ 0,99.

Observadores que testemunham atividades ilegais estão em uma posição incrivelmente vulnerável. Quando Davis estava trabalhando no Victoria 168, seu único meio de comunicação com a costa era através do computador do capitão.

As pessoas que fazem o trabalho dele às vezes são treinadas para falar em código caso vejam algo muito sensível para dizer em voz alta. Embora Davis adorasse ser um observador, ele também estava ciente dos perigos do trabalho. "Muitos de nós testemunharam atividades com armas, brigas de facas, escravidão... muitas das quais temos que engolir como 'parte do trabalho'", escreveu ele no Facebook um ano antes de desaparecer.

Ainda mais alarmante, a suposta morte de Davis dificilmente é um incidente isolado. Vários observadores desapareceram ou morreram em circunstâncias misteriosas - houve mais dois incidentes durante os meses em que a BBC trabalhou no podcast.

A maioria desses casos tem muito menos visibilidade do que Davis teve. Isso porque muitos observadores não são homens americanos aventureiros, como Davis, mas sim habitantes das ilhas do Pacífico que trabalham para sustentar suas famílias.

São muitas vezes de comunidades com um forte histórico de pesca artesanal - uma indústria local que, em muitos casos, foi devastada por frotas pesqueiras globalizadas que usam o transbordo.

Davis adorava viajar - aqui na Bolívia — Foto: BBC
Davis adorava viajar - aqui na Bolívia — Foto: BBC

Quando homens como Charlie Lasisi, um observador de Papua Nova Guiné, ou Eritara Aati Kaierua, do Kiribati, morreram em circunstâncias suspeitas, as notícias não tiveram destaque. Mas são observadores como esses que carregam o peso do nosso desejo de comprar atum.

"Achamos a falta de conclusão sobre o que aconteceu com Keith extremamente perturbadora, não há muito mais que possamos fazer", diz a empresa MRAG Americas, que o empregava, em comunicado. "Continuamos a lutar pela máxima segurança para nossos observadores no mar e em terra".

O Grupo Gilontas, proprietário do Victoria 168, afirmou que "o Grupo Gilontas cooperou com as autoridades que conduziram a investigação".

Oficialmente, não sabemos se Davis morreu acidentalmente, tirou a própria vida ou foi morto. Mas o que sabemos é que grande parte da atividade ilegal que ocorre no mar se baseia na ideia de que o que acontece longe da costa, onde não há sinal de celular ou câmeras de segurança, é essencialmente invisível para nós no continente.

O trabalho dos observadores, de testemunhar o que acontece no mar, pode torná-los vulneráveis.

"Os observadores não têm apoio da indústria pesqueira. Eles não têm apoio das agências. Eles não têm apoio de seus empregadores, os empreiteiros. No final, eles estão sozinhos", diz Liz Mitchell, o ex-presidente da Associação de Observadores Profissionais.

Bubba Cook, do WWF, acompanha as mortes inexplicáveis ​​de observadores há mais de uma década. "Um dos maiores problemas é que simplesmente não sabemos quantos observadores sumiram", diz ele. "Aqui no Pacífico, tem sido cerca de um observador por ano. E isso é apenas [desde] que começamos a manter registros. Quantos antes disso morreram no mar sob várias circunstâncias, ou nunca voltaram para casa?"

Há também o mapa Global Fishing Watch (observatório global de pescaria), uma ferramenta de acesso aberto que mostra a localização de mais de 65 mil navios de 2012 até hoje.

*Rachel Monroe é narradora e repórter do podcast da BBC Lost At Sea. Ela colabora para a revista New Yorker e é escritora.

- Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/geral-62824145

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sábado, 10 de setembro de 2022

A descoberta sobre poluição do ar que pode revolucionar combate ao câncer

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Pesquisa mostra que câncer nem sempre é causado por mutações do DNA, como se pensava anteriormente.
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TOPO
Por BBC

Postado em 10 de setembro de 2022 às 15h10m

 #.*Post. - N.\ 10.467*.#

— Foto: Getty Images
— Foto: Getty Images

Pesquisadores dizem ter descoberto como a poluição do ar leva ao câncer, em uma descoberta que transforma completamente nossa compreensão de como surgem tumores.

A equipe do Francis Crick Institute, em Londres, mostrou que, em vez de causar danos, a poluição do ar estava despertando células velhas danificadas.

Um dos maiores especialistas do mundo no assunto, o professor Charles Swanton disse que o avanço marca uma "nova era".

E agora pode ser possível desenvolver drogas que impeçam a formação de cânceres.

As descobertas podem explicar como centenas de substâncias cancerígenas agem no corpo.

A visão clássica do câncer começa com uma célula saudável. Ela adquire mais e mais mutações em seu código genético, ou DNA, até atingir um ponto de inflexão. Então ela se torna um câncer e cresce descontroladamente.

Mas há problemas com essa ideia: mutações cancerígenas são encontradas em tecidos aparentemente saudáveis, e muitas substâncias conhecidas por causar câncer - incluindo a poluição do ar - não parecem danificar o DNA das pessoas.

Então qual o problema?

Os pesquisadores produziram evidências de uma ideia diferente. O dano já está no DNA de nossa célula, captado à medida que crescemos e envelhecemos, mas algo precisa puxar o gatilho que realmente o torna canceroso.

A descoberta veio de investigar por que não-fumantes têm câncer de pulmão. A esmagadora maioria dos cânceres de pulmão é causada pelo tabagismo, mas, ainda assim, um em cada dez casos no Reino Unido se deve à poluição do ar.

Os cientistas do Francis Crick se concentraram em uma forma de poluição chamada material particulado 2,5 (conhecido como PM2,5), que é muito menor que o diâmetro de um fio de cabelo humano.

Por meio de uma série de experimentos detalhados em humanos e animais, eles mostraram que:

  • Locais com níveis mais altos de poluição do ar tiveram mais cânceres de pulmão não causados pelo fumo
  • Isso causa inflamação e ativa as células nos pulmões para ajudar a reparar qualquer dano
  • Mas cerca de uma em cada 600.000 células nos pulmões de uma pessoa de 50 anos já contém mutações potencialmente cancerígenas
  • Elas são adquiridas à medida que envelhecemos, mas parecem completamente saudáveis ​​até serem ativadas pelo alarme químico e se tornarem cancerosas

Crucialmente, os pesquisadores foram capazes de impedir a formação de câncer em camundongos expostos à poluição do ar usando uma droga que bloqueia o sinal de alarme.

Os resultados são um avanço duplo, tanto para a compreensão do impacto da poluição do ar quanto para os fundamentos de como temos câncer.

Emilia Lim, uma das pesquisadoras do Francis Crick Institute, disse que as pessoas que nunca fumaram, mas desenvolveram câncer de pulmão, muitas vezes não tinham ideia do motivo.

"Dar a eles algumas pistas sobre como isso pode funcionar é muito, muito importante", disse ela.

"É superimportante - 99% das pessoas no mundo vivem em lugares onde a poluição do ar excede as diretrizes da OMS, então isso realmente afeta a todos nós."

Descobertas podem levar a uma nova compreensão de como os cânceres se formam — Foto:  Getty Images
Descobertas podem levar a uma nova compreensão de como os cânceres se formam — Foto: Getty Images

Repensando o câncer

Mas os resultados também mostraram que as mutações sozinhas nem sempre são suficientes para causar câncer. Elas podem precisar de um elemento extra.

O professor Swanton disse que essa foi a descoberta mais emocionante que seu laboratório encontrou, pois "realmente repensa nossa compreensão de como os tumores são iniciados". Ele disse que isso levaria a uma "nova era" de prevenção do câncer molecular.

A ideia de tomar uma pílula para bloquear o câncer se você mora em uma área altamente poluída não é completamente fantasiosa.

Os médicos já testaram um medicamento interleucina-1-beta em doenças cardiovasculares e descobriram, por completo acidente, que ele reduz o risco de câncer de pulmão.

As últimas descobertas estão sendo apresentadas aos cientistas em uma conferência da Sociedade Europeia de Oncologia Médica.

Falando à BBC da conferência, o professor Swanton disse: "A poluição é um belo exemplo, mas haverá outros 200 exemplos disso nos próximos 10 anos".

E ele disse que precisávamos repensar até como fumar causa câncer - é apenas o dano conhecido ao DNA causado pelos produtos químicos do tabaco ou a fumaça também causa inflamação?

Curiosamente, a ideia de que o DNA mutante não é suficiente e os cânceres precisam de outro gatilho para crescer foi proposta pela primeira vez pelo cientista Isaac Berenblum em 1947.

"Filosoficamente, é fascinante. Esses incríveis biólogos fizeram esse trabalho há 75 anos e ele foi amplamente ignorado", disse Lim.

Michelle Mitchell, executiva-chefe da Cancer Research UK, enfatizou que "o tabagismo continua sendo a maior causa de câncer de pulmão".

Mas ela acrescentou: "A ciência, que leva anos de trabalho meticuloso, está mudando nosso pensamento sobre como o câncer se desenvolve. Agora temos uma compreensão muito melhor das forças motrizes por trás do câncer de pulmão".

Este texto foi originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62863047

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O que o envelhecimento tem a ver com viagens a Marte

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Encontro de especialistas em gerociência enfatizou a importância da prevenção antes do declínio funcional
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Por Mariza Tavares — Rio de Janeiro

Postado em 10 de setembro de 2022 às 07h15m

 #.*Post. - N.\ 10.466*.#

Acompanhei algumas palestras da nona edição do Aging Research & Drug Discovery (ARDD), que reuniu especialistas da gerociência e da medicina da longevidade em Copenhague, entre 29 de agosto e 2 de setembro. São médicos e cientistas que estudam o envelhecimento e pesquisam intervenções que possam retardar ou evitar esse processo. A que me mais me chamou a atenção foi a do geriatra James Kirkland, diretor do Centro de Envelhecimento Robert and Arlene Kogod, da Clínica Mayo, que afirmou: nunca ouvi um paciente meu dizer que seu objetivo é viver até os 120 anos. O que todos querem é ser saudáveis, não sentir dor, se ver livres de doenças.

JamesKirkland: diretor do Centro de Envelhecimento Robert and Arlene Kogod, da Clínica Mayo — Foto: Divulgação: Clínica Mayo
JamesKirkland: diretor do Centro de Envelhecimento Robert and Arlene Kogod, da Clínica Mayo — Foto: Divulgação: Clínica Mayo

Trata-se do cerne da questão do grupo de pesquisadores: não buscar a vida eterna, e sim garantir o envelhecimento ativo. Para Kirkland, substâncias como senolíticos e a metformina têm esse potencial, mas ele acredita em outras opções: a estratégia que está mais próxima é a do desenvolvimento de algo equivalente a um antibiótico de amplo espectro, em vez de drogas que atuem numa única molécula ou doença.

Na sua opinião, é preciso avançar no diagnóstico através de testes não invasivos (como os de saliva), que sejam confiáveis e também baratos, para serem feitos em grande escala. O objetivo é dispor de dados capazes de predizer incidentes ou a progressão de uma enfermidade, facilitando a escolha da melhor abordagem. Como médico e PhD em microbiologia, alerta que o trabalho dos cientistas nem sempre é compreendido:

Cientistas e geriatras às vezes se colocam em campos opostos. Há muitos mal-entendidos, como se, dentro dos laboratórios, o propósito fosse erradicar a velhice. A saída seria termos mais gente no campo da ciência. Não podemos ir a Marte sem entender como intervir no processo do envelhecimento.

Kirkland participa do projeto Axiom Space, que estuda como a falta de gravidade leva as células humanas à senescência, isto é, à velhice. Por exemplo, a atrofia muscular é de aproximadamente 5% por mês no espaço. Há outros efeitos adversos que os astronautas sofrem, no esqueleto e no sistema cardiovascular, além de falta de equilíbrio, diminuição da produção de hemácias e alterações no sistema imunológico. Para resumir: descobrir como deter o envelhecimento será crucial para a conquista do espaço!

Andrea Maier, professora de geriatria na University of Melbourne  — Foto: Divulgação
Andrea Maier, professora de geriatria na University of Melbourne — Foto: Divulgação

Andrea Maier, professora de geriatria na University of Melbourne (Austrália) e na Vrije Universiteit (Holanda), foi enfática ao defender a necessidade de medidas preventivas bem antes da marca dos 60 anos, quando o declínio funcional se acelera:

Na verdade, o declínio começa aos 30 e estamos desprezando a janela da faixa dos 40 anos. A pergunta que precisamos fazer é: você está na melhor forma que poderia?. Afinal, sempre temos algo a ganhar. A medicina da longevidade tem que estar no atendimento primário da saúde.

É a mesma argumentação de Felipe Sierra, diretor científico da Fundação Hevolution, criada pela família real saudita e cujo orçamento é de 1 bilhão de dólares anuais: temos que pôr a saúde na frente, não a doença, diferentemente do que apregoa a medicina tradicional. Isso significa adotar hábitos que nos mantenham saudáveis. A queda da resiliência do organismo, ou seja, da sua capacidade de regeneração, começa a se manifestar a partir dos 30 anos.

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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

IPCA: Brasil tem deflação de 0,36% em agosto, influenciada pelos combustíveis

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É o menor índice para um mês de agosto desde 1998, ou seja, em 24 anos. Nos últimos 12 meses, a alta é de 8,73%, a menor desde junho de 2021.
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Por Marta Cavallini, g1

Postado em 09 de setembro de 2022 às 10h00m

 #.*Post. - N.\ 10.465*.#

Posto de gasolina combustível  — Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Posto de gasolina combustível — Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), considerado a inflação oficial do país, ficou em -0,36% em agosto, segundo divulgação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (9). Foi o segundo mês seguido de deflação.

O índice é o menor para um mês de agosto desde 1998 – ou seja, em 24 anos. Mais uma vez, a queda foi influenciada principalmente pela retração nos preços dos combustíveis.

A queda foi menos intensa do que a registrada em julho (-0,68%), quando a taxa foi a menor desde o início da série histórica da pesquisa, em janeiro de 1980. Desde o plano Real, o Brasil registrou deflação 16 vezes.

Alguns fatores explicam a queda menor em relação a julho, segundo o gerente da pesquisa, Pedro Kislanov. Um deles é a retração menos intensa da energia elétrica (-1,27%), que havia sido de 5,78% no mês anterior, em consequência da redução das alíquotas de ICMS.

Também houve aceleração de alguns grupos, como saúde e cuidados pessoais (1,31%) e vestuário (1,69%), e a queda menos forte do grupo de transportes em agosto.

"No mês anterior, os preços da gasolina, que é o item de maior peso no grupo, tinham caído 15,48% e, em agosto, a retração foi menor (-11,64%), explicou.


Acumulado

Já nos últimos 12 meses, a alta é de 8,73%, a menor desde junho de 2021 (8,35%) – com isso, o indicador voltou a ficar abaixo dos dois dígitos pela primeira vez em um ano. Nos 12 meses imediatamente anteriores, a alta havia sido de 10,07%.

No ano, o IPCA acumula alta de 4,39%. Em agosto de 2021, a variação havia sido de 0,87%.


Combustíveis são mais uma vez o destaque

Assim como em julho, a deflação veio principalmente da queda no grupo dos Transportes (-3,37%), que contribuiu com -0,72 ponto percentual (p.p.) no índice do mês. O destaque vem mais uma vez da queda no preço dos combustíveis (-10,82%).

Segundo o IBGE, em agosto, os preços dos quatro combustíveis pesquisados caíram: gás veicular (-2,12%), óleo diesel (-3,76%), etanol (-8,67%) e gasolina (-11,64%) – neste último caso, o impacto negativo foi o mais intenso (-0,67 ponto percentual) entre os 377 subitens do IPCA.

O IBGE lembra que o preço da gasolina nas refinarias foi reduzido em R$ 0,18 por litro em 16 de agosto.

Já os preços das passagens aéreas (-12,07%) também recuaram, após quatro meses de altas. Para o gerente da pesquisa, a sazonalidade é uma das explicações para esse resultado.

Essa é uma comparação com julho, que é um mês de férias e há aumento da demanda. Além disso, foram quatro meses seguidos de alta, o que eleva a base de comparação. Também há o impacto da redução do querosene de aviação nesse período, explica.

Além disso, o grupo Comunicação também teve deflação, com impacto de -0,06 p.p. no índice geral. No lado das altas, o destaque foi Saúde e cuidados pessoais, que contribuiu com 0,17 p.p. em agosto. Já Alimentação e bebidas desacelerou em relação a julho, com impacto de 0,05 p.p. O grupo Vestuário teve a maior variação positiva no IPCA de agosto.

Veja abaixo:

  • Alimentação e bebidas: 0,24
  • Habitação: 0,10
  • Artigos de residência: 0,42
  • Vestuário: 1,69
  • Transportes: -3,37
  • Saúde e cuidados pessoais: 1,31
  • Despesas pessoais: 0,54
  • Educação: 0,61
  • Comunicação: -1,10
Tomate, leite e luz: outros destaques de queda

No grupo Alimentação e bebidas, o resultado da alimentação no domicílio (0,01%) ficou próximo da estabilidade. Houve altas em componentes importantes na cesta das famílias, como o frango em pedaços (2,87%), o queijo (2,58%) e as frutas (1,35%).

Por outro lado, ocorreram quedas expressivas nos preços do tomate (-11,25%), da batata-inglesa (-10,07%) e do óleo de soja (-5,56%).

Além disso, o preço do leite longa vida, que havia subido 25,46% em julho, caiu 1,78% em agosto, contribuindo com -0,02 p.p. no índice do mês.

Nos últimos meses, os preços do leite subiram muito. Como estamos chegando ao fim do período de entressafra, que deve seguir até setembro ou outubro, isso pode melhorar a situação. Mas no mês anterior, a alta do leite foi de 25,46%, ou seja, os preços caíram em agosto, mas ainda seguem altos, afirma Kislanov.

A variação da alimentação fora do domicílio (0,89%) ficou próxima à do mês anterior (0,82%). Enquanto a refeição passou de 0,53% para 0,84%, o lanche desacelerou de 1,32% para 0,86%.

Já no acumulado de 12 meses o grupo alimentação e bebidas subiu 13,43%, bem acima da inflação de 8,73% no mesmo período. Outros grupos com variação maior foram Artigos de residência, Vestuário e Saúde e cuidados pessoais.

Já os combustíveis acumulam queda de 7,11%, contribuindo para a alta menos acentuada nos transportes.

Veja abaixo:

Em Habitação, houve queda na energia elétrica residencial no mês de agosto (-1,27%), embora menos intensa que a do mês anterior (-5,78%).

Os efeitos da redução das alíquotas de energia elétrica ficaram mais concentrados no mês anterior. Em alguns locais, como Vitória e Belém, ainda houve reajuste nas tarifas em agosto, explica Kislanov. 
Altas em roupas, higiene pessoal e plano de saúde

A maior variação positiva no IPCA de agosto veio do grupo vestuário (1,69%), cujos preços haviam desacelerado no mês anterior (0,58%). As roupas femininas (1,92%), masculinas (1,84%) e os calçados e acessórios (1,77%) foram as maiores influências no avanço do grupo.

Já a alta de 1,31% no grupo de saúde e cuidados pessoais é relacionada aos aumentos dos itens de higiene pessoal (2,71%) e plano de saúde (1,13%).

No caso do plano de saúde, foi incorporada a fração mensal referente ao reajuste de 15,50% autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para os planos novos.

No grupo Educação, nos cursos regulares (0,51%), apenas os cursos de pós-graduação (-1,46%) tiveram recuo nos preços. As maiores variações foram da educação de jovens e adultos (3,68%), das creches (1,41%) e dos cursos técnicos (1,02%).

6 em cada 10 itens pesquisados ficaram mais caros em agosto

Embora a deflação tenha ficado concentrada em poucos grupos, a alta de preços teve maior espalhamento em agosto. O índice de difusão (percentual de itens com aumento no mês) acelerou de 63% em julho para 65% em agosto. Isso significa que, dos 377 produtos e serviços investigados pelo IBGE, 245 tiveram alta de preços no mês - em julho, foram 237 em alta.

Entre os impactos no IPCA de agosto, destaque para a gasolina e higiene pessoal. Veja abaixo:

Principais impactos no índice de agosto — Foto: Reprodução/IBGE
Principais impactos no índice de agosto — Foto: Reprodução/IBGE

13 das 16 áreas pesquisadas registram deflação

Regionalmente, três das 16 áreas tiveram alta em agosto. A maior variação positiva foi em Vitória (0,46%), influenciada pela alta 11,16% na energia elétrica. O menor resultado, por sua vez, ocorreu em Recife (-1,40%), puxado pela queda de 16,23% nos preços da gasolina.


INPC tem queda de 0,31% em agosto

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que calcula a inflação para famílias de baixa renda e é usado como referência para reajustes salariais e benefícios do INSS, teve queda de 0,31% em agosto. Com isso, o índice acumula alta de 4,65% no ano e de 8,83% nos últimos 12 meses. Em agosto de 2021, a taxa foi de 0,88%.

Os produtos alimentícios passaram de 1,31%, em julho, para 0,26%, em agosto. Já os não alimentícios tiveram queda menor (passando de uma retração de 1,21% em julho para -0,50% em agosto).

Inflação acima da meta em 2022 e riscos para 2023

Em 2021, a inflação fechou o ano em 10,06%, bem acima do teto da meta (5,25%), representando o maior aumento desde 2015.

Definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a meta de inflação para 2022 é de 3,5% e só será considerada formalmente cumprida se oscilar entre 2% e 5%. O Banco Central já admitiu oficialmente, porém, que a meta de inflação será descumprida em 2022 pelo segundo ano seguido.

A projeção atual do mercado financeiro é de um IPCA de 6,61% em 2022. Para 2023, porém, a expectativa para o IPCA é de 5,27%.

Para o próximo ano, a meta de inflação foi fixada em 3,25%, e será considerada formalmente cumprida se oscilar entre 1,75% e 4,75%. Ou seja, crescem as apostas de um estouro do teto da meta também no ano que vem.

Mesmo com a indicação de que o pior já passou para a inflação, o BC elevou a taxa Selic a 13,75% – maior patamar em 6 anos.

Meta de inflação — Foto: Arte/g1
Meta de inflação — Foto: Arte/g1 

Preços devem subir lentamente, dizem economistas

Economistas apontam que a inflação deve encerrar o ano em um dígito, com forte redução em relação aos dois dígitos vistos na primeira metade do ano, porém, ainda acima da meta do Banco Central de 3,5%.

"A projeção de queda da inflação não significa que os preços vão cair de maneira geral. E sim, que eles passarão a subir mais lentamente. Isso porque inflação caindo é diferente de deflação – quando os preços efetivamente caem, como vimos com a gasolina nos últimos meses", explica Rachel de Sá, chefe de economia da Rico Investimentos.

Gustavo Sung, economista chefe da Suno Research, destaca que, para o restante do ano, os efeitos da alta dos juros, arrefecimento dos preços das commodities, dos preços dos alimentos e de bens industriais, além dos combustíveis, podem contribuir para uma desaceleração da inflação. Porém, medidas fiscais que sustentem a demanda podem pressionar os preços.

"Para setembro, esperamos uma estabilidade dos preços ainda devido ao último reajuste nas refinarias e um menor efeito do corte de impostos sobre combustíveis", afirma.

O Itaú Unibanco prevê que o IPCA feche o ano em 7%, com previsão de novas reduções no índice para os meses de setembro e outubro. "A queda de preços de leite e derivados deve contribuir para deflação no grupo alimentação nos próximos meses", informa.

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