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domingo, 27 de março de 2022

Guerra na Ucrânia: os três ciberataques russos que as potências ocidentais mais temem

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Inteligência norte-americana diz que países no Ocidente podem ser alvos de operações de hackers. Moscou diz que insinuações são "russofobia".
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TOPO
Por Joe Tidy, BBC

Postado em 27 de março de 2022 às 16h30m

Post.- N.\ 10.265

A rede elétrica ucraniana já foi alvo de hackers mais de uma vez — Foto: Reuters
A rede elétrica ucraniana já foi alvo de hackers mais de uma vez — Foto: Reuters

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, convocou empresas e organizações nos EUA a "trancar suas portas digitais". Segundo Biden, a inteligência norte-americana acredita haver indícios de que a Rússia está planejando um ataque cibernético contra seu país.

Autoridades do Reino Unido responsáveis por tecnologia e internet estão de acordo com os pedidos da Casa Branca por "aumento das precauções de segurança cibernética", embora não tenho sido fornecida nenhuma evidência de que a Rússia esteja planejando um ataque cibernético.

Moscou declarou em outras oportunidades que acusações do tipo são "russofóbicas".

No entanto, a Rússia é uma superpotência cibernética com hackers e grande capacidade de ataques disruptivos e potencialmente destrutivos.

Do ponto de vista cibernético, a Ucrânia foi relativamente pouco atacada no atual conflito entre os dois países, mas especialistas agora apontam preocupações de que os alvos sejam os aliados da Ucrânia.

"Os alertas de Biden parecem plausíveis, principalmente porque países do Ocidente determinaram mais sanções contra a Rússia, houve o envolvimento de ativistas hackers na briga e a movimentação em terra da invasão aparentemente não está saindo como planejado", diz Jen Ellis, da empresa de segurança cibernética Rapid7.

Abaixo, os ataques que os especialistas mais temem:

"BlackEnergy"

A Ucrânia é frequentemente descrita como um campo de testes dos hackers russos, por meio de de ataques realizados aparentemente com intuito de experimentar técnicas e ferramentas.

Em 2015, a rede elétrica da Ucrânia foi atingida por um ataque cibernético chamado "BlackEnergy", que causou um apagão de curta duração que afetou 80 mil pessoas no oeste do país.

Quase um ano depois, outro ataque cibernético, que ficou conhecido como "Industroyer", bloqueou o fornecimento de energia elétrica em cerca de um quinto de Kiev, a capital ucraniana, por cerca de uma hora.

Os EUA e a União Europeia atribuíram o incidente a hackers militares russos.

"É totalmente possível que a Rússia tente executar um ataque como esse contra países ocidentais para demonstrar seu poderio e mandar um recado", diz a responsável pela segurança cibernética ucraniana Marina Krotofil, que ajudou a investigar os ataques de corte de energia.

"No entanto, nenhum ataque cibernético contra uma rede elétrica resultou em interrupção prolongada do fornecimento de energia. A execução de ataques cibernéticos de maneira eficiente em sistemas complexos de engenharia é extremamente difícil. Alcançar um efeito prejudicial prolongado muitas vezes é impossível devido aos esquemas de proteção."

Especialistas como Krotofil também levantam a hipótese de que esse tipo de conflito possa se voltar contra a Rússia, já que países ocidentais também têm condições de atingir redes russas.

A força do NotPetya

O NotPetya é considerado o ataque cibernético que mais prejuízos financeiros causou na história. A autoria foi ligada pelas autoridades dos EUA, Reino Unido e UE a um grupo de hackers militares russos.

O software com poder de destruição foi colocado em uma atualização de um programa de computador bastante usado para contabilidade na Ucrânia, mas se espalhou pelo mundo, devastando sistemas de computador de milhares de empresas e causando aproximadamente US$ 10 bilhões em danos.

Hackers norte-coreanos também foram acusados ​​de causar grandes transtornos com um ataque parecidos um mês antes.

O 'pedido de resgate' que aparecia com o worm WannaCry — Foto: Reprodução/Webroot
O 'pedido de resgate' que aparecia com o worm WannaCry — Foto: Reprodução/Webroot

O "worm" (um tipo de vírus ainda mais destrutivo) WannaCry foi usado para truncar ou borrar dados em aproximadamente 300 mil computadores em 150 países. O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido foi forçado a cancelar um grande número de consultas médicas.

"Esse tipo de ataque pode ser a maior oportunidade para gerar caos em massa, instabilidade econômica e até perda de vidas", diz Jen Ellis.

"Pode ser difícil de se imaginar, mas a infraestrutura crítica [de sistemas] geralmente depende de tecnologias conectadas, tal qual nossas vidas no mundo moderno. Vimos o potencial para isso com o impacto do WannaCry nos hospitais do Reino Unido."

Alan Woodward, professor e cientista da computação da Universidade de Surrey, no Reino Unido, lembra que esses ataques também trazem riscos para a Rússia.

"Esses tipos de hacks incontroláveis ​​são muito mais parecidos com guerra biológica, pois é muito difícil atingir infraestrutura crítica de forma específica, localizada. O WannaCry e o NotPetya também fizeram vítimas na Rússia."

Ataque ao fornecimento de combustível

Em maio de 2021, vários Estados dos EUA adotaram esquemas de emergência depois que hackers conseguiram bloquear as operações de um oleoduto importante.

O oleoduto transporta 45% do suprimento de diesel, gasolina e combustível de aviação da Costa Leste dos Estados Unidos. O ataque provocou uma corrida a postos de combustível.

Esse ataque não foi realizado por hackers ligados ao governo russo, mas pelo grupo de ransomware (modalidade em que criminosos exigem pagamento para desbloquear um sistema) DarkSide, que especialistas apontam estar baseado na Rússia.

A empresa afetada admitiu pagar aos criminosos US$ 4,4 milhões (mais de R$ 21 milhões) em Bitcoin com rastreabilidade dificultada para retomar o funcionamento dos sistemas.

Algumas semanas depois, o fornecimento de carne foi impactado quando outra equipe de ransomware chamada REvil atacou a brasileira JBS, a maior processadora de carne bovina do mundo.

Um dos grandes temores que os especialistas têm sobre as capacidades cibernéticas russas é que o Kremlin possa instruir grupos a coordenar ataques a alvos dos EUA, para maximizar a interrupção.

"A vantagem de usar cibercriminosos para realizar ataques de ransomware é o caos geral que eles podem causar. Em grande número, eles podem causar sérios danos econômicos", diz Woodward, da Universidade de Surrey.

"Também vêm com o bônus de que é possível negar ligação com esses grupos, pois eles não têm uma conexão formal com o Estado russo".

Como os EUA poderiam responder?

No caso altamente improvável de que um país-membro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) seja alvo de um ataque cibernético que cause perda de vidas ou danos irreparáveis, isso poderia desencadear o Artigo 5, a cláusula de defesa coletiva da aliança.

Mas especialistas dizem que isso arrastaria a Otan para uma guerra da qual a organização não quer fazer parte, então é mais provável que as respostas venham diretamente dos EUA ou de aliados próximos.

Biden disse que os EUA "estão preparados para responder" se a Rússia lançar um grande ataque aos EUA.

Mas qualquer ação provavelmente será ponderada com muito cuidado.

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O que é a última área de gelo do Ártico, chave para o futuro da vida na Terra

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As mudanças climáticas ameaçam regiões que antes pareciam imunes ao aquecimento global — e a consequência pode ser devastadora para o planeta.
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TOPO
Por BBC

Postado em 27 de março de 2022 às 11h55m

Post.- N.\ 10.264

O derretimento da última área de gelo do Ártico poderá causar a destruição completa do seu ecossistema — Foto: Getty Images
O derretimento da última área de gelo do Ártico poderá causar a destruição completa do seu ecossistema — Foto: Getty Images

Há uma região do Ártico que resiste aos golpes das mudanças climáticas.

Acreditava-se há algum tempo que parte da região ártica estivesse em grande parte protegida contra o aumento das temperaturas globais, mas estudos mais recentes mostram que ela também está ameaçada.

Trata-se da região conhecida como a última área de gelo do Ártico (LIA, na sigla em inglês) — uma faixa de 1 milhão de km² entre a Groenlândia e o Canadá.

Seu nome deriva da camada de gelo mais espessa e antiga do Ártico, que, segundo os modelos de previsão climática, faz com que ela seja a área que permanecerá congelada por mais tempo à medida que o planeta se aquece.

Mesmo no verão do hemisfério norte, quando parte do gelo do Ártico derrete, a LIA permanece congelada.

"Mas isso vai mudar no futuro", segundo afirmou à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, Robert Newton, pesquisador do Observatório da Terra Lamont-Doherty, da Universidade de Columbia, nos EUA.

"Veremos nos próximos anos que, durante o verão, a camada de gelo da LIA será cada vez menor."

Newton é coautor de um estudo recente sobre o futuro da LIA.

"Se o gelo que permanece congelado durante todo o ano desaparecer, será destruído um ecossistema completo e surgirá algo novo", segundo ele.

A redução da LIA terá consequências devastadoras para as espécies de flora e fauna que habitam a região — e também causará impactos aos seres humanos.

Mas o que é a LIA e por que grande parte do futuro do planeta depende dela?

Gelo eterno?

Os ventos e as correntes marítimas que vão da Sibéria até o Canadá fazem com que camadas de gelo se acumulem na LIA, criando um bloco mais espesso e duradouro.

Um arquipélago pertencente ao Canadá captura esse gelo, impedindo que ele se infiltre em direção ao sul e derreta no Oceano Atlântico, segundo explica o portal Science News.

Historicamente, a espessura da camada de gelo no Ártico tem sido de 2,5 a 3 metros — enquanto, na LIA, a espessura média tem sido de 6 a 10 metros.

Mas, à medida que o planeta se aquece, as temperaturas no Ártico aumentam cerca de 2,5 vezes mais rápido do que no restante da Terra, segundo Newton.

Isso se deve, em parte, ao fato de que o aquecimento cria um círculo vicioso. A superfície branca do gelo reflete a luz solar para o espaço, mantendo a superfície fria. Mas, se esse gelo derreter, o aquecimento se acelera e, por sua vez, derrete mais gelo.

Atualmente, a espessura média no Ártico caiu para menos de 1,5 metro e, na LIA, está em cerca de 4 metros.

No verão, a camada de gelo é cada vez menor.

Atualmente, ocupa uma área que é menos da metade da que ocupava no início da década de 1980, segundo as pesquisas de Newton.

"A pergunta é em quanto tempo passaremos de um Ártico com gelo para um Ártico sem gelo", resume o especialista.

Cenários possíveis

Para Newton, há dois cenários possíveis para a LIA.

Um deles é mais otimista. Nele, a humanidade deixa de emitir grandes quantidades de CO2 ou consegue aplicar, em grande escala, a tecnologia que permite extrair o CO2 que já está na atmosfera.

"Se conseguirmos estabilizar a temperatura em cerca de 2 °C acima da era pré-industrial, a LIA poderá ter gelo por todo o ano", diz ele.

Mas existe também um cenário menos otimista.

"Se mantivermos o ritmo de produção de carbono dos últimos 50 anos, os cálculos indicam que, até a metade do século 21, não haverá cobertura de gelo marinho no Ártico durante o verão, incluindo a LIA", afirma Newton.

Um relatório recente da Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, com base nos compromissos atuais de redução de emissões de CO2, a temperatura do planeta aumentará em 2,7 °C até o ano 2100.

Neste cenário, o gelo de verão do Ártico está condenado a desaparecer.

Refúgio de vida

Embora o Ártico pareça um território desolado, sabemos que abriga uma grande quantidade de flora e fauna que depende do gelo para sobreviver.

Os animais selvagens serão os primeiros a sofrer os efeitos do degelo polar, mas os seres humanos também serão afetados em muitas partes do mundo — Foto: Getty Images via BBC
Os animais selvagens serão os primeiros a sofrer os efeitos do degelo polar, mas os seres humanos também serão afetados em muitas partes do mundo — Foto: Getty Images via BBC

Nele, habitam animais muito conhecidos, como as baleias beluga, as focas e os ursos polares.

Mas também existe um mundo de vida microscópica essencial para o equilíbrio do ecossistema. A camada subaquática do gelo está repleta de plânctons, crustáceos e pequenos peixes. Todos eles têm seu lugar na cadeia alimentar e dependem do gelo para viver e se reproduzir.

Newton explica que, se o ecossistema polar desaparecer, outros animais que não dependem do gelo vão colonizar o Ártico.

"Será uma nova ecologia, mas levará muito tempo para que a vida do Ártico se recupere", diz ele.

Impacto para os seres humanos

Mas as consequências não vão afetar apenas os animais selvagens.

Para as comunidades que habitam o Ártico, o gelo é fundamental para conservar suas fontes de alimento, além de ser parte da sua cultura.

"O mundo é um lugar interconectado", afirma Newton.

"Tudo o que acontece no Ártico tem um grande impacto no resto do planeta."

Em várias partes do mundo, estão ocorrendo mais eventos climáticos extremos do que há 20 ou 30 anos, segundo Newton. Chuvas mais fortes, tempestades e secas prolongadas "estão, em parte, relacionados à perda de gelo no Ártico".

O futuro

Atualmente, um terço da LIA está sob proteção. Em 2019, o Canadá estabeleceu uma área de 320 mil km² onde foram proibidos o transporte, a mineração e todos os demais tipos de desenvolvimento por cinco anos.

Mas o restante da área está disponível para exploração mineral.

O relatório da Universidade de Columbia adverte que o Oceano Ártico e seu litoral abrigam bilhões de dólares em reservas de petróleo e depósitos de minerais, como níquel e cobre.

Os especialistas da universidade alertam que, à medida que aumentar a quantidade de água no verão, também crescerá a pressão para escavar, perfurar e abrir corredores de transporte, o que contaminaria a LIA com possíveis derramamentos de óleo e o uso de substâncias industriais.

E, como se estas ameaças já não fossem suficientes, Newton argumenta que a perda da LIA teria também um "custo emocional".

"Perder o mundo que conhecemos causa forte impacto psicológico", afirma ele.

"O Ártico pode não estar na paisagem da sua janela, mas é parte do mundo em que vivemos."

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sexta-feira, 25 de março de 2022

'Historiadores dirão que momento atual foi o início da 3ª Guerra Mundial', diz pesquisador

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Especialista em política internacional, Paul Poast argumenta que a participação ativa na guerra vai bem além do envio de tropas ao campo de batalha e que armar ou financiar um dos lados de um conflito, como fazem EUA e Europa, é também participar ativamente dele.
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TOPO
Por BBC

Postado em 25 de março de 2022 às 18h40m

Post.- N.\ 10.263

Características do atual conflito seriam indicativos de que ele é uma guerra mundial, segundo Paul Poast — Foto: Getty Images via BBC
Características do atual conflito seriam indicativos de que ele é uma guerra mundial, segundo Paul Poast — Foto: Getty Images via BBC

Quando olharem para o dia 24 de fevereiro de 2022, os historiadores do futuro deverão dizer que ali teve início não só a invasão do território ucraniano por tropas da Rússia, mas a Terceira Guerra Mundial. A provocativa interpretação sobre o conflito armado que eclodiu na Europa nas últimas semanas é feita pelo cientista político da Universidade de Chicago Paul Poast, estudioso de como o poderio financeiro é central em esforços de guerra.

Poast argumenta que a participação ativa na guerra vai bem além do envio de tropas a um campo de batalha. Para ele, armar ou financiar um dos lados de um conflito é também participar ativamente dele. E por isso, tanto os Estados Unidos quanto a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - que nas últimas semanas não só enviaram bilhões de dólares em ajuda aos ucranianos como aplicaram as maiores sanções econômicas da história à Rússia de Vladimir Putin - já poderiam ser considerados partícipes da guerra atual.

Assim, na prática, as maiores potências econômicas mundiais e bélicas (Rússia, Estados Unidos e Europa Ocidental), já estariam em confronto direto, e já viveríamos o princípio da Terceira Guerra Mundial.

Prédio destruído por bombardeio na capital ucraniana, Kiev — Foto: Pierre Crom/Getty Images
Prédio destruído por bombardeio na capital ucraniana, Kiev — Foto: Pierre Crom/Getty Images

Há precedentes históricos para apoiar a interpretação de Poast. O principal deles, segundo o cientista político, seria o próprio ataque dos japoneses a Pearl Harbor, ato que dragou os americanos para os campos de batalha da Segunda Guerra Mundial.

De acordo com o pesquisador, o ataque do Japão ao território americano, em dezembro de 1941, aconteceu porque os japoneses se viram incapazes de vencer a guerra que lutavam na China e atribuíam seu insucesso na Ásia às sanções impostas pelos americanos ao petróleo japonês e ao auxílio financeiro e armamentício que o governo dos EUA vinha oferecendo à China.

Por esse mesmo raciocínio, Poast acredita que é apenas uma questão de tempo - e de capacidade de organização e força militar - para que a Rússia ataque a Polônia, por onde hoje escoam a maior parte dos comboios de ajuda da Otan e dos EUA para a Ucrânia. Isso, no entanto, acarretaria em uma importante escalada da guerra, já que a Polônia é membro da Otan, o que implicaria que os demais países da aliança viriam a seu socorro nos campos de batalha.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Poast à BBC News Brasil, editada por clareza e concisão.

O cientista político Paul Poast, da Universidade de Chicago (EUA) — Foto: Divulgação via BBC
O cientista político Paul Poast, da Universidade de Chicago (EUA) — Foto: Divulgação via BBC

BBC News Brasil - Já estamos vivendo uma guerra mundial sem que ainda tenhamos compreendido completamente isso?

Paul Poast - Temos ouvido do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que nós já estamos na Terceira Guerra Mundial, e outros líderes e pensadores têm dito coisas semelhantes.

A minha resposta é que depende de como se define guerra. Algumas pessoas usam a expressão Terceira Guerra Mundial para se referir a um conflito em que as armas nucleares estão sendo usadas e, portanto, seria realmente uma guerra muito curta porque seria a aniquilação nuclear. Outros dirão que uma guerra mundial tem que acontecer em vários locais ao redor do mundo ao mesmo tempo. Ou seja, não pode ser apenas como na guerra atual, apenas na Ucrânia, mas teria que incluir dois ou três continentes. Mas, na minha opinião, você não precisa necessariamente ir tão longe.

A chave para definir se algo é uma guerra mundial é realmente pensar sobre até que ponto diferentes países estão participando desse conflito. E isso está muito relacionado a outro conceito que muitos formuladores de políticas e estudiosos usam, que é a noção de uma guerra entre grandes potências, algo que muitos defendem que não acontece desde a Segunda Guerra Mundial. Então, minha resposta é que acho que podemos estar nos estágios iniciais do que os historiadores podem dizer mais tarde ser o início de uma guerra mundial, mesmo que armas nucleares nunca sejam usadas.

BBC News Brasil - E por que pensa isso?

Poast - A razão pela qual digo isso é porque, em primeiro lugar, você já tem uma grande potência envolvida diretamente, a Rússia. Em segundo lugar, embora outras grandes potências, como os Estados Unidos, não lutem na guerra diretamente, estamos muito perto disso. Os Estados Unidos estão abertamente fornecendo todos os tipos de armas à Ucrânia para combater a Rússia. E o fato de não fazerem em segredo, como no Afeganistão, quando a União Soviética invadiu o Afeganistão em 1989, é algo que realmente diferencia a guerra atual das chamadas guerras por procuração mais tradicionais, quando as potências apoiam um dos lados de forma velada, sem divulgar isso abertamente.

O Iêmen é um ótimo exemplo de uma guerra por procuração entre, digamos, a Arábia Saudita e o Irã, que vivem em uma espécie de guerra fria há décadas, na qual os dois países têm tentado evitar conflitos militares diretos entre si, mas têm investido em muitos conflitos militares indiretos no Iêmen.

Mas no conflito da Ucrânia, os lados são muito claros. De um lado, temos a Rússia, com alguma ajuda da Bielorrússia e tentando ajuda de outros países como a China. De outro lado, a Ucrânia com a Otan, os Estados Unidos e vários outros países do chamado Ocidente que os apoiam. E então, nesse sentido, as linhas de batalha, os lados são muito claros. O campo de batalha é muito claro. E também, novamente, o apoio na participação dos lados é muito claro. Então, nesse sentido, ele tem muitas características das coisas que você procuraria ao tentar dizer que algo é uma guerra entre grandes potências e, dependendo de quantas grandes potências estão envolvidas, você pode dizer que é realmente uma guerra mundial.

A única coisa que atualmente levaria alguém a dizer que não estamos em uma guerra mundial é que ainda não temos aquele confronto militar direto entre, digamos, as forças da Otan ou os Estados Unidos contra a Rússia. Mas se você olhar para comentários que Zelensky e outros fizeram, há um tom de que isso inevitavelmente deverá acontecer e, quando os historiadores olharem para esse período, dirão que em fevereiro 2022, quando a guerra começou, os lados já recebiam assistências de outros países e, eventualmente, isso alimentou o confronto militar direto. Mas essa é a única coisa que ainda não vimos. É uma grande coisa, claro, mas todo o restante dos fatores já indica para uma guerra mundial.

BBC News Brasil - O governo americano tem tentando traçar limites para a participação dos EUA na guerra. Biden já disse que não enviará combatentes americanos para lutar contra os russos em território ucraniano, mas não parece ver como participação de guerra o envio de armas e recursos financeiros. No entanto, a participação dos americanos nas duas guerras mundiais começou exatamente pelo auxílio econômico e armamentício que os americanos enviaram aos seus aliados. Então, como explicar essa linha de não participação que parece bastante artificial?

Poast - Acho que artificial é a palavra certa aqui. Uma grande área da minha pesquisa é o que chamo de economia política da guerra ou economia da guerra, então levo muito a sério a ideia de fornecer fundos, suprimentos, recursos e sobre como isso é tão vital para a guerra. Para mim, se você é o financiador/ fornecedor essencial, você é um contribuinte-chave para o esforço de guerra. E por isso é difícil dizer que você não é um participante dessa guerra. E por isso essa palavra artificial é muito importante, porque se olharmos para a participação dos EUA na Segunda Guerra Mundial, em particular, os americanos foram fundamentais para suprir os aliados por muitos anos antes de diretamente se envolverem nos conflitos.

Entre 1940 e 1941, embora os EUA não enviem tropas oficialmente para a guerra até 1942, eles já estão fornecendo as armas e, do ponto de vista da Alemanha, do ponto de vista de Hitler, já estão envolvidos no conflito e já são vistos como uma grande ameaça. E, portanto, da perspectiva do inimigo, não importa muito se você declarou guerra ou se se reconhece como parte da guerra, se ao financiar ou armar um dos lados você se torna o principal motivo pelo qual o inimigo está perdendo essa guerra ou está tendo mais dificuldade para vencê-la.

É possível ver que o Putin opera com essa lógica de entender a ajuda para a Ucrânia vinda do Ocidente, da Otan, dos Estados Unidos, como parte do conflito. Ele inclusive fez declarações sobre como essas sanções já são uma guerra econômica. Da perspectiva de Putin, ele já está em guerra com o Ocidente, com os Estados Unidos. Para ele, não importa que ainda não tenham sido usadas tropas americanas. Claro que é possível dizer que importa, já que a presença do exército americano seria um ponto-chave de escalada no conflito. Mas se Putin continuar tendo seu progresso militar frustrado na Ucrânia, ele dirá que a causa disso é a assistência que está sendo fornecida pelos Estados Unidos, pela Otan. E então, de sua perspectiva, não é uma luta entre a Rússia e a Ucrânia, ele se vê lutando contra o Ocidente na Ucrânia. Por isso que eu acho que artificial é uma boa palavra, porque sim, Biden pode dizer que ainda não está em guerra, mas Putin vê a situação de forma diferente.

BBC News Brasil - E, de acordo com seu raciocínio, Putin não está errado em pensar assim.

Poast - Sim. Há quem questione esse raciocínio dizendo: bem, Putin ainda não atacou um país da Otan, se ele realmente acha que estava em guerra com a Otan, ele já não teria atacado a Polónia? E a resposta pode ser, bem, o tempo dirá. Pode ser que nas próximas semanas ele ataque a Polônia. E pode ser que ele não o tenha feito ainda porque não tem a capacidade de abrir uma nova frente militar por conta das dificuldades grandes na Ucrânia. Ele pode, na verdade, ser alguém racional o suficiente para dizer 'não quero disparar uma arma nuclear porque ainda não estou em uma situação desesperadora o suficiente para fazer isso'.

Mas acredito que se ele tivesse condições militares um pouco melhores, ele já teria expandido essa guerra. No início da guerra, eu falei sobre como, dependendo de quão fácil fosse conquistar a Ucrânia - o que obviamente se mostrou bastante difícil - Putin procuraria expandir o conflito para os países vizinhos, então acho que a única razão pela qual ele ainda não atacou outros pontos da Europa ocidental é que ele simplesmente não conseguiu vencer ainda na Ucrânia, e por isso não tem como redirecionar forças.

BBC News Brasil - Mas isso seria um cenário em que as intenções de Putin vão muito além da Ucrânia. Na sua avaliação, o que Putin deseja com sua ofensiva militar?

Poast - Acho que seu objetivo final era recriar pelo menos uma parte do Império da União Soviética, possivelmente até mesmo do Império Russo. E percebe-se isso em sua retórica antes da invasão. E se tivesse sido fácil, creio que ele teria buscado a anexação completa da Ucrânia para tornar a Ucrânia não apenas um estado independente subserviente à Rússia, mas realmente torná-la parte da Rússia. E se ele tivesse conseguido isso, acho que teria mirado em outras ex-repúblicas soviéticas que não estão totalmente alinhadas com a Rússia, como a Moldávia ou a própria Geórgia. E se isso se mostrasse fácil o suficiente, ele se voltaria para os estados bálticos, embora, é claro, os estados bálticos sejam um cenário totalmente diferente porque estão na Otan.

Agora, na minha opinião, ele teve que ajustar seu objetivo. Acredito que ele ainda espera conseguir uma mudança de regime na Ucrânia. O cenário, no entanto, é que ele pode acabar em um atoleiro na Ucrânia, de onde não quer recuar, mas onde também não consegue avançar em seu objetivo final.

Zelensky tem comandado a resistência ucraniana, mas mudança no regime ainda é objetivo de Putin, diz Poast — Foto: Getty Images via BBC
Zelensky tem comandado a resistência ucraniana, mas mudança no regime ainda é objetivo de Putin, diz Poast — Foto: Getty Images via BBC

BBC News Brasil - Antes da invasão, Biden deixou claro que forças da Otan ou dos EUA não lutariam diretamente na Ucrânia, mas não anunciou qualquer restrição em termos de apoio financeiro ou armamentício a Zelensky. Recentemente, no entanto, os americanos e seus aliados excluíram a possibilidade de envio de aviões de guerra para a Ucrânia. Por que barrar o envio de aviões se já estão enviando drones antiaéreos?

Poast - Enviar aviões seria uma receita pronta para escalar o conflito. Isso porque enviar os aviões por terra, para uma zona de guerra, seria um enorme desafio logístico. Então os jatos teriam que decolar de algum território da Otan, conduzir operações militares e depois voltar para a base. E por isso mesmo, inicialmente, a ideia era de que os aviões partissem de uma base na Alemanha e não na Polônia, já que a partir da base aérea polonesa, perto da fronteira com a Ucrânia, os aviões e a própria base aérea seriam alvos fáceis para os russos. Mas o problema não é só esse. Mesmo que os pilotos fossem ucranianos, seriam aviões poloneses, partindo de uma base dos Estados Unidos na Alemanha para atacar em território ucraniano e depois retornar à base. Os russos evidentemente veriam nisso uma escalada na participação de EUA e aliados da Otan.

BBC News Brasil - Certo, mas os Estados Unidos e seus aliados estão continuamente enviando armamentos para os ucranianos e essas armas passam normalmente pela fronteira da Polônia com a Ucrânia. Então qual é a diferença entre enviar aviões ou outras armas a partir do território polonês?

Poast - Sim, e por isso uma das maiores preocupações atuais está na possibilidade de a Rússia mirar esses comboios de recursos e suprimentos, que estão cruzando a fronteira entre a Polônia e a Ucrânia. E por isso mesmo eu acho que se há algum membro da Otan com maior probabilidade de ser atacado pelos russos hoje é a Polônia.

É verdade que Putin tem interesses territoriais nos Balcãs e que antes eles seriam um alvo mais óbvio, mas a Polônia é hoje quem oferece assistência à Ucrânia mais diretamente e é fácil para os russos dizerem que a Polônia é o canal de armas para os ucranianos, além de ser para onde boa parte dos refugiados está seguindo. Então, esse poderia ser precisamente o argumento da Rússia para atacar um país da Otan acusando-o de ter agredido primeiro, acusando de ser blefe esse argumento dos líderes políticos dos Estados Unidos de que exista uma distinção entre fornecer armas e operá-las diretamente em uma guerra.

BBC News Brasil - Existe algum precedente histórico de uma situação como essa?

Poast - O melhor exemplo disso, historicamente, são os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.

Em 1937, o Japão se envolveu em uma guerra na China e então os Estados Unidos acabaram impondo um embargo de petróleo no Japão por causa disso. Mais tarde, a China também foi beneficiada com suprimentos no Lend-lease (um programa do presidente americano Franklin Roosevelt para financiar, por meio de empréstimo, armas e recursos para países aliados). E, no limite, isso levou o Japão a perceber que não teria condição de vencer a guerra na China dado o apoio americano e à decisão dos japoneses de atacar Pearl Harbor.

Basicamente, o ataque do Japão a Pearl Harbor tinha o objetivo de interromper o auxílio de guerra à China, mesmo que os americanos não tivessem qualquer tropa em território chinês. Esse é um caso clássico em que os EUA tentaram não se envolver efetivamente no conflito, mas foram percebidos como uma ameaça tão significativa que acabaram sendo atacados e levados ao conflito diretamente.

BBC News Brasil - A China é central no destino desse conflito e tem mantido uma postura ambígua até agora. Na semana passada, o líder chinês Xi Jinping e o presidente americano Joe Biden conversaram por quase duas horas sobre a situação. Os americanos têm acusado os chineses de cogitar financiar os russos na Ucrânia, o que Pequim nega. Depois da conversa, Xi afirmou que os países não devem se confrontar em campos de batalha. Como vê a situação chinesa?

Poast - A posição da China durante toda esta crise tem sido de ambiguidade, eles não fizeram declarações fortes contra ou a favor da Rússia. O que parece sair dessa conversa entre os EUA e a China, de que devem evitar se confrontar diretamente na Ucrânia, pode ser lido de várias maneiras. Não significa que a China não apoiará a Rússia. Significa apenas que, como Biden, Xi não pretende enviar tropas chinesas diretamente para a Ucrânia. Os dois países não querem que uma potencial guerra por procuração entre ambos se torne uma guerra direta entre os EUA e a China. E vale lembrar que os dois países já estiveram em lados opostos em conflitos depois da Segunda Guerra Mundial - o Vietnã é o melhor exemplo disso.

Mas se não devemos esperar confronto direto entre os países, ainda está na mesa para a China fornecer algum tipo de assistência direta à Rússia. E a ameaça de sanções econômicas (pelos EUA) certamente não são o suficiente para barrar a China de fazer aquilo que ela acha ser de seu interesse estratégico primordial. As pessoas apontam as enormes trocas comerciais entre EUA e China para dizer que uma guerra entre os dois países é improvável pelo custo econômico que acarretaria a ambos e ao mundo. Mas em 2017, quando houve a crise dos mísseis da Coreia do Norte, a China aliviou a crise, mas deixou claro que se os EUA atacassem a Coreia do Norte, os chineses defenderiam o país, embora tenham deixado claro que ficariam neutros se um ataque americano fosse motivado por uma provocação norte-coreana. Naquele momento, eles foram capazes de aliviar a crise, mas deixaram claro que arriscariam um conflito com os americanos em nome de sua aliança estratégica com a Coreia do Norte.

E a assistência à Rússia segue a mesma lógica. Recentemente Putin e Xi assinaram esse acordo de amizade, se veem como parte dessa nova ordem internacional que querem liderar. E por isso essa é uma das maiores implicações desse conflito, que vai muito além das cenas horríveis de ataques a civis e destruição de um país. Se a China optar por uma aliança com a Rússia para tentar criar uma ordem internacional alternativa ao Ocidente, isso teria enormes implicações basicamente para o resto do século 21.

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