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sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Cartas do século 17 são traduzidas do tupi pela 1ª vez na história: 'Por que faço guerra com gente de nosso sangue', escreveu indígena

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Professor da USP Eduardo Navarro traduziu seis cartas trocadas entre potiguares que estavam em lados opostos na guerra travada entre portugueses e holandeses pelo domínio do Nordeste.
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Por Patrícia Figueiredo, g1 SP — São Paulo

Postado em 05 de novembro de 2021 às 14h00m


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Cartas do século 17 são traduzidas do tupi pela 1ª vez na história — Foto: Arte/g1

O professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (USP) Eduardo Navarro concluiu, pela primeira vez, a tradução de seis cartas em tupi trocadas entre indígenas no século 17 durante a invasão holandesa no Nordeste. É o primeiro documento da história escrito em tupi por e para indígenas traduzido para o português.

A tradução de Navarro deve ser publicada em breve pelo Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, de Belém, no Pará.

As cartas revelam diálogos de homens que lutavam entre si durante uma guerra religiosa travada entre portugueses e holandeses, conhecida como Insurreição Pernambucana. De um lado, os indígenas protestantes, apoiadores dos holandeses que invadiram o nordeste brasileiro; do outro, indígenas que defendiam o governo português.

Por que faço guerra com gente de nosso sangue, se vocês são os verdadeiros habitantes desta terra? Será que falta compaixão para com nossa gente?, pergunta o líder indígena Felipe Camarão ao cacique Pedro Poti, em um dos textos.

Carta em tupi de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 19 de agosto de 1645, traduzida pelo professor da USP, Eduardo Navarro — Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Navarro
Carta em tupi de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 19 de agosto de 1645, traduzida pelo professor da USP, Eduardo Navarro — Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Navarro

Esta é a primeira vez que pesquisadores conseguem traduzir essas correspondências, que são estudadas desde o século 19.

Quase todos os documentos do período colonial foram escritos pelos "vencedores", no caso os colonizadores do Brasil, e, esses são os únicos textos conhecidos em tupi trocados pelos "vencidos", os indígenas, nesta época.

É a primeira vez que essa história é contada pela pena dos índios, e está ali o lado dos vencidos, afirma Navarro, autor da pesquisa.

O idioma tupi era só falado, e, os jesuítas criaram a representação escrita. Por isso, não são comuns os documentos escritos redigidos pelos próprios indígenas.

Segundo o professor Eduardo Navarro, a tradução dessas seis cartas só foi possível com a ajuda de um dicionário de tupi, também de sua autoria, publicado em 2013.

Carta em tupi de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 4 de outubro de 1645 — Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Navarro
Carta em tupi de Felipe Camarão a Pedro Poti, de 4 de outubro de 1645 — Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Navarro

Essas cartas foram entregues na mão de Teodoro Sampaio, que foi um historiador e um engenheiro, o primeiro que se debruçou sobre esses textos. E ele confessou, em um artigo, que ele não conseguiu traduzir as cartas, que seguiram sendo um mistério para ele. Depois, o Aryon Rodrigues, linguista indígena da Unicamp muito conhecido, tentou também. Ele foi até a Holanda buscar essas cartas para traduzi-las, mas também não conseguiu, explica Navarro.

Navarro teve contato com os textos pela primeira vez nos anos 1990, graças à pesquisa de Aryon. Desde 2013, após a publicação do seu Dicionário de Tupi Antigo: a Língua Indígena Clássica do Brasil, passou a se dedicar mais intensamente à tradução das cartas. Os documentos estão guardados na Biblioteca Real de Haia, na Holanda.

"Eu pedi uma cópia para a biblioteca e eles mandaram um grande acervo, com microfilmes, e eu tive que, dentro disso, encontrar as seis cartas, conta o professor.

No processo de tradução, uma das principais dificuldades foi decifrar a letra e a ortografia das cartas. Mas a importância de revelar a visão dos indígenas sobre a guerra entre Portugal e Holanda justificou o empenho na pesquisa.

Contexto histórico

Assinatura de Felipe Camarão em carta enviada a Antônio Paraupaba em 4 de outubro de 1645, durante a Insurreição Pernambucana — Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Navarro
Assinatura de Felipe Camarão em carta enviada a Antônio Paraupaba em 4 de outubro de 1645, durante a Insurreição Pernambucana — Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Navarro

As correspondências recém-traduzidas, escritas no ano de 1645, envolvem alguns dos principais combatentes da Insurreição Pernambucana, como Felipe Camarão, chefe nativo dos índios potiguares e alinhado aos interesses de Portugal.

Durante a guerra, ele organizou diversas ações de guerrilha que se revelaram essenciais para conter o avanço dos holandeses no Nordeste brasileiro, segundo historiadores.

Nas cartas reveladas, Camarão pede a seus parentes Pedro Poti e Antônio Paraupaba, indígenas protestantes, que abandonassem os holandeses.

Ele diz ainda que, embora os holandeses tenham dado títulos aos indígenas que se juntaram a eles, essas honrarias não eram consideradas válidas pelos portugueses.

Não pensem que se poupa a vida dos potiguaras, da gente nossa, por esses terem sido feitos chefes. Não pensem que os holandeses livram vocês de nós. Somente a vida deles é poupada, diz Felipe Camarão, em carta escrita para o líder indígena Pedro Poti.

Retrato anônimo de Filipe Camarão, do século XVII, no Museu do Estado de Pernambuco — Foto: Museu do Estado de Pernambuco, Coleção Museus Brasileiros, edição Banco Safra, 2003
Retrato anônimo de Filipe Camarão, do século XVII, no Museu do Estado de Pernambuco — Foto: Museu do Estado de Pernambuco, Coleção Museus Brasileiros, edição Banco Safra, 2003

O pesquisador Eduardo Navarro explica que os holandeses tinham a política de fazer alianças com os índios por meio da concessão de liberdade e de cargos e títulos.

Mas tais títulos, como o de capitão, por exemplo, não eram reconhecidos pelos portugueses nem conferiam garantia de que suas vidas seriam poupadas em caso de captura, como se fazia com os oficiais holandeses, que não eram mortos, mas viravam prisioneiros, explica Navarro.

Em 1649, Poti foi capturado pelos portugueses e viveu uma série de torturas na prisão. Ele morreu alguns anos depois de sua prisão, a bordo de um navio no qual era conduzido para ser julgado em Portugal.

Respostas às cartas

As respostas de Pedro Poti às cartas de Felipe Camarão não foram preservadas. Mas, por meio de um resumo feito por um pastor holandês, os historiadores verificaram que Poti discordou dos argumentos de Camarão.

Segundo o resumo, Poti teria respondido que não havia motivos para continuar apoiando os portugueses, que escravizaram e praticaram violência contra os indígenas da região.

Outro indígena que recebeu cartas de Camarão no mesmo ano de 1645 foi Antônio Paraupaba, que lutava ao lado dos holandeses. Em 1625, ele foi, com outros índios potiguaras, para os Países Baixos, onde aprendeu o idioma. De volta ao Brasil, passou a atuar como intérprete entre os holandeses e os indígenas e, entre 1645 e 1649, assumiu o cargo de Capitão e Regedor do Rio Grande do Norte.

Carta em tupi de Felipe Camarão a Antônio Paraupaba, de 4 de outubro de 1645, traduzida pelo professor da USP Eduardo Navarro — Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Navarro
Carta em tupi de Felipe Camarão a Antônio Paraupaba, de 4 de outubro de 1645, traduzida pelo professor da USP Eduardo Navarro — Foto: Arquivo pessoal/Eduardo Navarro

Na carta escrita para Paraupaba, Camarão diz que é seu "verdadeiro pai" e que por isso não quer sua morte.

"Envio-lhe estas minhas palavras, estando como seu verdadeiro pai, na verdade. Será que isto é contra a sua vontade? Por quê? Estando eu como seu verdadeiro pai, não quero sua morte sem sentido, como se você fosse aquele animal que não conhece a Deus", diz Camarão, na carta.

As correspondências revelam ainda os nomes de outros combatentes indígenas e detalhes sobre algumas batalhas, além de lamentos sobre a perda de tradições dos potiguares.

Em uma das cartas escritas por Camarão para Poti, o líder dos combatentes portugueses critica a dominação dos holandeses na Caatinga e atribui a eles o desaparecimentos de alguns de seus ritos.

"Nossas antigas terras, nossos velhos ritos, nossos parentes paraibanos, os de Cupaguaó, os de Uruburema, os de Jareroí, os de Guiratiamim, todos os antigos filhos dos habitantes da Caatinga, tudo e todos estão sob as leis dos insensatos holandeses, assim como seu corpo e sua alma também estão", afirma Camarão.

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Na Alemanha há recorde de casos de Covid-19 pelo segundo dia consecutivo; ministro de Saúde fala em voltar a lockdown

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Pelo menos duas regiões do país podem entrar em lockdown se a tendência de alta não for revertida. Dirigentes de Saúde do país afirmaram que haverá uma dose de reforço para todos.
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Por g1

Postado em 05 de novembro de 2021 às 12h25m


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Covid-19 na Europa: países com baixa vacinação sofrem explosão de casos
Covid-19 na Europa: países com baixa vacinação sofrem explosão de casos

A Alemanha teve o segundo recorde seguido de número de novos casos diários de Covid-19 nesta sexta-feira (5): foram pouco mais de 37 mil casos nas últimas 24 horas.

O recorde anterior, o de quinta-feira, era de pouco menos de 34 mil notificações.

Segundo a agência de notícias Associated Press, houve um represamento de notificações no começo da semana por causa de um feriado que caiu na segunda-feira.

O país chegou a 96.346 mortes por Covid-19.

O centro Robert Koch, o responsável pelas respostas às doenças infecciosas no país, as pessoas não vacinadas correm um alto risco de infecção.

O ministro da Saúde, Jens Spahn, afirmou que o país poderá ter que impor um novo lockdown.

Dois líderes de estados, Saxônia e Turíngia, afirmaram que deverão impor lockdowns se medidas nacionais não forem tomadas para reverter a atual tendência de alta de infecções.

O líder da Turíngia disse que vão faltar leitos de UTI em dias.

Jens Spahn durante entrevista coletiva no dia 3 de novembro de 2021 — Foto: Markus Schreiber / AFP
Jens Spahn durante entrevista coletiva no dia 3 de novembro de 2021 — Foto: Markus Schreiber / AFP

Ministro de Saúde

Spahn, o ministro de Saúde, conversou com os secretários de Saúde do país, e eles concordaram que todos devem ter acesso a uma dose de vacina de reforço seis meses depois da segunda dose.

Isso deve se tornar a norma, e não a exceção, ele afirmou nesta sexta-feira.

Ele pediu para que as pessoas se vacinem e observem as normas de distanciamento social. Quem acha que é jovem e não é vulnerável deveria conversar com os trabalhadores de unidades de tratamento intensivo, ele disse.

O governo da Alemanha está transferindo pacientes de regiões onde os hospitais estão sobrecarregados para áreas onde há menos infecções.

Vacinação na Alemanha

Na Alemanha, 69,4% da população recebeu ao menos uma dose, de acordo com o monitoramento do jornal Financial Times.

No Brasil, 72,74% da população recebeu ao menos uma dose de vacina.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Bovespa cai mais de 2% e renova a pior pontuação do ano

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Nesta quinta-feira, o Ibovespa teve queda de 2,09%, a 103.412 pontos. É a pontuação mais baixa desde 12 de novembro de 2020 (102.507 pontos).
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Por g1

Postado em 04 de novembro de 2021 às 11h00m


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O principal índice de ações da bolsa de valores de São Paulo, a B3, fechou em forte queda nesta quinta-feira (4), após a Câmara dos Deputados aprovar apenas em 1º turno a PEC dos Precatórios, que dribla o teto de gastos e viabiliza o financiamento do Auxílio Brasil no ano eleitoral de 2022.

O Ibovespa recuou 2,09%, a 103.412 pontos. Trata-se da pior pontuação de 2021 e a mais baixa desde 12 de novembro de 2020 (102.507 pontos). Veja mais cotações.

Na quarta-feira, a bolsa fechou em alta de 0,06%, a 105.617 pontos. No acumulado do mês, a bolsa tem alta de 2,04%. No ano, a perda é de 11,26%.

O mercado também teve impactos de uma série de resultados corporativos, como Itaú Unibanco, Rede D'Or e Ultrapar entre as maiores quedas, enquanto Cielo subia.

As ações de bancos tombaram, com Itaú recuando mais de 5%, enquanto Bradesco perdia mais de 6% e Banco do Brasil, 2,5%. Petrobras tombava mais de 3%. Já as ações da Cielo tinham alta de mais de 2%.

Governo intensifica negociações para votar a PEC dos Precatórios

Governo intensifica negociações para votar a PEC dos Precatórios

Cenário

Na madrugada desta quinta-feira, a Câmara dos Deputados aprovou em votação apertada o texto-base da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) dos Precatórios. Os parlamentares ainda precisam votar os chamados destaques (sugestões pontuais de alteração no texto principal) e o segundo turno.

A PEC é a principal aposta do governo para viabilizar o programa social Auxílio Brasil — anunciado pelo governo para suceder o Bolsa Família. A proposta adia o pagamento de precatórios (dívidas do governo já reconhecidas pela Justiça), a fim de viabilizar a concessão de pelo menos R$ 400 mensais aos beneficiários do novo programa.

O governo, contudo, voltou a negociar com aliados depois de ameaças de que a proposta fosse barrada na segunda votação. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), informou que a votação da proposta será retomada na próxima terça (9).

O risco de rejeição foi levantado porque, dos 312 votos favoráveis à PEC dos Precatórios, 25 vieram de partidos que fazem oposição ao governo Jair Bolsonaro. Dentre 21 votos de deputados do PDT, 15 votaram a favor da PEC. No PSB, foram 10 em 31.

"Não acredito em mudanças partidárias bruscas porque todos os assuntos da PEC são claros, são evidentes. Nós estamos tratando de um auxílio de R$ 400 para 20 milhões de famílias que estão abaixo da linha da pobreza. Nós estamos falando de um parcelamento de débitos previdenciários, de 60 para 240 meses, de municípios que fizeram a sua reforma da Previdência. Estamos falando em um alargamento do espaço fiscal do governo para conseguir manter a sua máquina pública funcionando", declarou.

Na cena externa, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), anunciou na quarta-feira que vai começar a reduzir neste mês seu programa de estímulo à economia por meio da compra de títulos, com planos de encerrar as compras mensais no próximo ano. Por outro lado, sinalizou que não tem pressa para elevar os juros.

Com juros estáveis nos EUA e em trajetória de alta no Brasil, a perspectiva de abertura adicional dos diferenciais de juros favorece uma valorização da moeda brasileira, à medida que estimula o fluxo de dólares de investidores estrangeiros para o Brasil.

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quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Mudança climática: como é viver onde faz 50ºC?

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A BBC conversou com pessoas ao redor do mundo sobre como o calor extremo está mudando suas vidas.
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TOPO
Por BBC

Postado em 03 de novembro de 2021 às 10h55m


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Em casas como a de Shakeela, as temperaturas agora chegam a 46°C — Foto: BBC
Em casas como a de Shakeela, as temperaturas agora chegam a 46°C — Foto: BBC

A crise climática não é mais uma preocupação sobre o futuro. Em muitas partes do mundo, ela já começou.

O ano de 2021 foi o mais quente já registrado. Milhões de pessoas estão vivendo em temperaturas extremas, enfrentando uma ameaça crescente de enchentes ou incêndios florestais.

A seguir, cinco pessoas em diferentes partes do mundo explicam como as temperaturas extremas mudaram suas vidas.

'Temos muitas noites sem dormir'

Shakeela Bano costuma colocar as roupas de cama de sua família na laje de sua casa de um andar na Índia. É que algumas noites são muito quentes para dormir dentro de casa. Mas a superfície pode estar quente demais para andar.

"É muito difícil", diz ela. "Temos muitas noites sem dormir."

Shakeela mora com o marido, a filha e três netos em um quarto sem janelas em Ahmedabad. Eles têm apenas um único ventilador de teto para mantê-los frescos.

Com a mudança climática, muitas cidades na Índia estão agora atingindo 50°C. As áreas densamente povoadas e construídas são particularmente afetadas por algo conhecido como efeito de ilha de calor urbana. Materiais como concreto prendem e irradiam calor, elevando as temperaturas. E não há trégua à noite, quando pode, na verdade, ficar mais quente.

Em casas como a de Shakeela, as temperaturas agora chegam a 46°C. Ela fica tonta com o calor. Seus netos sofrem de erupções cutâneas, exaustão pelo calor e diarreia.

Os métodos tradicionais para se manter fresco, como beber água com limão, não funcionam mais. Em vez disso, eles pediram dinheiro emprestado para pintar o telhado de sua casa de branco. As superfícies brancas refletem mais luz do sol e uma camada de tinta branca no telhado pode reduzir as temperaturas internas em 3 a 4 graus.

Para Shakeela, a diferença é enorme; o quarto é mais fresco e as crianças dormem melhor. "Ele não dormia durante a tarde", diz ela, apontando para o neto adormecido. "Agora ele pode adormecer em paz."

'Quente como fogo'

Para evitar temperaturas acima de 45°C no verão, Sidi começou a trabalhar à noite — Foto: BBC
Para evitar temperaturas acima de 45°C no verão, Sidi começou a trabalhar à noite — Foto: BBC

"Eu venho de um lugar quente", diz Sidi Fadoua. Mas o calor no norte da Mauritânia, no oeste da África, agora é quente demais para muitas pessoas viverem e trabalharem. O calor aqui não é normal, diz ele. "É como fogo."

Sidi, de 44 anos, mora em uma pequena vila perto dos limites do Saara. Ele trabalha como mineiro de sal em locais próximos. O trabalho é árduo e fica mais difícil à medida que a região esquenta devido às mudanças climáticas. "Não podemos suportar tais temperaturas", diz ele. "Não somos máquinas."

Para evitar temperaturas acima de 45°C no verão, Sidi começou a trabalhar à noite.

As perspectivas de emprego são escassas. Aqueles que antes ganhavam a vida criando gado não podem mais fazer isso – não há plantas para as ovelhas e cabras pastarem.

Assim como um número cada vez maior de seus vizinhos, Sidi tem planos de migrar para a cidade costeira de Nouadhibou, onde a brisa do mar mantém a cidade mais fresca. Os moradores locais podem pegar uma carona lá em um dos trens mais longos do mundo, levando minério de ferro para a costa.

Na Mauritânia, Sidi tem planos de migrar para a cidade costeira de Nouadhibou, onde a brisa do mar mantém a cidade mais fresca. — Foto: g1
Na Mauritânia, Sidi tem planos de migrar para a cidade costeira de Nouadhibou, onde a brisa do mar mantém a cidade mais fresca. — Foto: g1

"As pessoas estão se mudando daqui", explica Sidi. "Não aguentam mais o calor."

A rota de 20 horas é perigosa. Os moradores locais podem sentar-se no topo das carruagens, onde são expostos ao calor e à luz solar durante o dia, antes que as temperaturas caiam muito à noite.

Em Nouadhibou, ele espera encontrar trabalho na indústria pesqueira. A brisa pode trazer alívio, mas, com o número cada vez maior de pessoas escapando do calor do deserto, é mais difícil encontrar oportunidades de trabalho. Sidi continua esperançoso.

'Como você acaba com um inferno?'

Patrick Michell começou a notar mudanças preocupantes na floresta perto de sua reserva em British Columbia, no Canadá, há mais de três décadas — Foto: BBC
Patrick Michell começou a notar mudanças preocupantes na floresta perto de sua reserva em British Columbia, no Canadá, há mais de três décadas — Foto: BBC

Patrick Michell, chefe do Kanaka Bar First Nation, começou a notar mudanças preocupantes na floresta perto de sua reserva em British Columbia, no Canadá, há mais de três décadas. Havia menos água nos rios e os cogumelos pararam de crescer.

Neste verão, seus medos se tornaram realidade. Uma onda de calor estava varrendo a América do Norte. Em 29 de junho, sua cidade natal, Lytton, bateu recordes, chegando a 49,6ºC. No dia seguinte, sua esposa enviou-lhe a foto de um termômetro que indicava 53ºC. Uma hora depois, sua cidade estava em chamas.

VÍDEO: Imagens mostram queimada que devasta vilarejo no Canadá
VÍDEO: Imagens mostram queimada que devasta vilarejo no Canadá

Sua filha, Serena, grávida de oito meses, correu para colocar seus filhos e animais de estimação no carro: "Saímos com as roupas do corpo. As chamas tinham três andares de altura e estavam bem ao nosso lado."

Patrick correu de volta para ver se poderia salvar a casa. Ele cresceu lidando com incêndios florestais. Mas, assim como o clima, os incêndios também mudaram. "Não são mais incêndios florestais, são infernos", diz ele. "Como você acaba com um inferno?"

Apesar das circunstâncias familiares, Patrick vê o que aconteceu como uma oportunidade: "Podemos reconstruir Lytton para o meio ambiente que está por vir nos próximos 100 anos. É assustador, mas em meu coração existe esse otimismo."

'Quando eu era criança, não era assim'

"Quando eu era criança, o clima não era assim", diz Joy, que mora no Delta do Níger — Foto: BBC
"Quando eu era criança, o clima não era assim", diz Joy, que mora no Delta do Níger — Foto: BBC

"Quando eu era criança, o clima não era assim", diz Joy, que mora no Delta do Níger, na Nigéria. A região é uma das mais poluídas da Terra, e os dias e noites mais quentes estão aumentando.

Joy sustenta sua família usando o calor de chamas a gás para secar tapioca e vender o produto em um mercado local. "Eu tenho cabelo curto", explica Joy, "porque se eu deixar meu cabelo crescer, ele pode queimar minha cabeça se a chama mudar de direção ou explodir."

Mas as chamas são parte do problema. As empresas petrolíferas as usam para queimar o gás que é liberado do solo quando fazem a prospecção de petróleo. As chamas, que atingem 6 metros (20 pés) de altura, são uma fonte significativa de emissões globais de CO2, que contribuem para as mudanças climáticas.

A mudança climática teve um impacto devastador aqui, transformando terras férteis em desertos no norte, enquanto enchentes repentinas atingiram o sul. As pessoas não se lembram de um clima tão extremo enquanto cresciam.

"A maioria das pessoas aqui não está bem informada o suficiente para explicar por que o clima está mudando rapidamente", diz Joy. "Mas suspeitamos das chamas contínuas."

Ela quer que o governo proíba a queima de gás, embora dependa disso para sustentar sua família.

Quase nenhuma riqueza do petróleo foi reinvestida na Nigéria, onde 98 milhões de pessoas vivem na pobreza. Isso inclui Joy e sua família. Por cinco dias de trabalho, eles ganham o equivalente a R$ 30 de lucro.

Ela não está otimista quanto ao futuro. "Acho que a vida (na Terra) está chegando ao fim."

'Este calor não é normal'

Om Naief mora no Oriente Médio, que está esquentando mais rápido do que grande parte do mundo — Foto: BBC
Om Naief mora no Oriente Médio, que está esquentando mais rápido do que grande parte do mundo — Foto: BBC

Seis anos atrás, Om Naief começou a plantar árvores em um pedaço de deserto perto de uma rodovia. Funcionária pública aposentada do Kuwait, ela estava preocupada com as temperaturas cada vez mais severas do verão e o agravamento das tempestades de poeira.

"Falei com alguns funcionários. Todos disseram que era impossível plantar algo na areia", diz ela. "Disseram que a terra era arenosa e a temperatura muito alta. Eu queria fazer algo que surpreendesse a todos."

Om mora no Oriente Médio, que está esquentando mais rápido do que grande parte do mundo. O Kuwait caminha para temperaturas insuportáveis ​​– costuma ser mais quente do que 50°C. Algumas previsões sugerem que a temperatura média aumentará 4°C até 2050. No entanto, a economia do Kuwait é dominada pelas exportações de combustíveis fósseis.

Os dois canteiros que Om plantou são modestos, mas têm um propósito. "As árvores protegem da poeira, eliminam a poluição, limpam o ar e reduzem as temperaturas", diz ela. Ouriços-terrestres e lagartos de cauda espinhosa agora visitam o local. "Há água doce e sombra. É uma coisa linda."

Alguns kuwaitianos estão pedindo agora que um cinturão verde em grande escala seja plantado pelo governo. A esperança compartilhada é que o Kuwait esteja pronto para se posicionar contra a crise climática. Om diz que eles devem proteger a terra e não deixá-la secar.

"Este calor não é normal", conclui Om. "Esta é a terra dos nossos pais. Devemos retribuir, porque ela nos deu muito."

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