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quarta-feira, 5 de maio de 2021

Redonda, a ilha caribenha povoada por ratos e cabras que se transformou em paraíso ecológico

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Depois de eliminar com sucesso as espécies invasoras, esta ilha de Antígua e Barbuda viu a vida selvagem prosperar novamente.
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TOPO
Por BBC

Postado em 05 de maio de 2021 às 09h00m


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Redonda é a terceira e menos conhecida das ilhas de Antígua e Barbuda — Foto: Hanna Challenger via BBC
Redonda é a terceira e menos conhecida das ilhas de Antígua e Barbuda — Foto: Hanna Challenger via BBC

Não há resorts, praias, tampouco serviços — e sua contribuição para o Produto Interno Bruto (PIB) é praticamente nula. No entanto, Redonda, uma ilha rochosa de apenas 1,6 km de comprimento no Caribe, é considerada um dos locais mais valiosos da região.

Praticamente intocada pelo homem por séculos, a terceira ilha menos conhecida de Antígua e Barbuda é há muito tempo um local estratégico para a nidificação de pássaros migratórios de todo o mundo e lar de animais selvagens que não são encontrados em nenhum outro lugar do planeta.

Quando ambientalistas cogitaram pela primeira vez a ideia de remover milhares de ratos-pretos invasores e um rebanho de cabras que estavam ameaçando a vida selvagem da ilha, parecia, na melhor das hipóteses, um plano ambicioso.

Cinco anos depois, o que antes era um terreno árido é hoje um paraíso ecológico fértil, com vegetação nova em abundância e populações endêmicas de pássaros e lagartos em ascensão.

'Contraste forte'

O esforço começou em 2016, mas o verdadeiro sucesso do projeto só foi revelado recentemente, quando conservacionistas fizeram sua primeira viagem de volta à ilha em 18 meses para conferir.

Shanna Challenger, da organização Environmental Awareness Group (EAG), que assumiu o trabalho em parceria com o governo e agências internacionais, diz que foi um "momento de emoção".

"Foi um contraste forte em relação à primeira vez que vi Redonda em 2016, quando ela estava literalmente desmoronando no mar", relembra.

Vista aérea de Redonda em 2017 — Foto: Gemma Handy via BBC
Vista aérea de Redonda em 2017 — Foto: Gemma Handy via BBC

"À medida que o helicóptero se aproximava, pude ver todos esses pequenos círculos verdes e percebi que eram árvores e arbustos novos. Não só a vegetação se recuperou, como também está prosperando."

Antes de serem realocadas, as cabras de chifres longos introduzidas pelos primeiros colonizadores há 300 anos tinham comido progressivamente todas as plantas de Redonda ao ponto de estarem morrendo de fome.

Os roedores, que chegaram no século 19 com uma comunidade exploradora de guano, caçavam répteis e se alimentavam de ovos de aves raras.

Ponte aérea incomum

A remoção de ambas as espécies foi um desafio.

As cabras, que não estavam acostumadas com o contato humano, foram colocadas em um curral e levadas de helicóptero ao continente para serem criadas por fazendeiros interessados em seus genes resistentes à seca.

A erradicação dos ratos envolveu a tarefa meticulosa de colocar iscas em recantos e fendas por toda a paisagem, aromatizadas com tudo, desde creme de amendoim a chocolate "para garantir que pegássemos os mais exigentes", explica Challenger.

A isca foi misturada com um pesticida irresistível para ratos, mas intragável para pássaros e répteis.

Fotos tiradas em 2012 (acima) e 2020 (embaixo) mostram a transformação da ilha — Foto: Jenny Daltry e Cole White
Fotos tiradas em 2012 (acima) e 2020 (embaixo) mostram a transformação da ilha — Foto: Jenny Daltry e Cole White

A Fauna & Flora International (FFI), que também estava envolvida no projeto, erradicou com sucesso mamíferos não-nativos de cerca de 25 ilhas desde 1995, mas a implacável topografia vulcânica de Redonda apresentava obstáculos específicos.

A erosão severa causada pelo desmatamento deixou a ilha perigosamente instável, com precipícios em ruínas e desmoronamentos de pedra frequentes.

"Também lançamos iscas de helicóptero e alpinistas fizeram rapel nos penhascos para garantir que nenhuma parte da ilha ficasse de fora", conta Challenger.

Redonda foi oficialmente declarada livre de ratos e cabras em julho de 2018. A equipe fez viagens regulares de volta à ilha para monitorar o progresso do projeto até a pandemia de covid-19 afetar o transporte até lá.

Atobás-pardos com filhotes, rabos-de-palha-de-bico-vermelho, fragatas e falcões-peregrinos estavam entre as aves que os saudaram em seu retorno.

O atobá-grande é uma das aves avistadas em Redonda — Foto: Zaine Airall via BBC
O atobá-grande é uma das aves avistadas em Redonda — Foto: Zaine Airall via BBC


A equipe também viu atobás-de-patas-vermelhas — Foto: Edward Marshall via BBC
A equipe também viu atobás-de-patas-vermelhas — Foto: Edward Marshall via BBC

"E nem te conto sobre os lagartos", sorri Challenger.

"A vegetação significa que eles têm mais insetos para comer, e sua população aumentou tanto que eles literalmente rastejam sobre você."

"Foi um momento gratidão ver essas espécies criticamente ameaçadas de extinção capazes de prosperar em um habitat apropriado, e os impactos de nosso trabalho refletidos de maneira tão óbvia e visual."

Sem ratos, repleta de lagartos

A FFI diz que o número de lagartos de árvores exclusivos de Redonda aumentou oito vezes.

Os lagartos da ilha, criticamente ameaçados de extinção, estão presentes agora em abundância, após o desaparecimento dos ratos — Foto: Geofrey Giller via BBC
Os lagartos da ilha, criticamente ameaçados de extinção, estão presentes agora em abundância, após o desaparecimento dos ratos — Foto: Geofrey Giller via BBC


Com a erradicação das espécies invasoras, a vida selvagem conseguiu prosperar — Foto: Jenny Daltry via BBC
Com a erradicação das espécies invasoras, a vida selvagem conseguiu prosperar — Foto: Jenny Daltry via BBC

O número de espécies de plantas da ilha também disparou (antes eram 17, agora são 88), incluindo uma nova figueira, cactos e samambaias, enquanto mais de uma dúzia de espécies de pássaros terrestres reapareceram.

E a equipe ficou satisfeita por não encontrar nenhum sinal dos ratos.

Um por cento dos atobás-pardos do mundo se reproduz em Redonda, de acordo com Helena Jeffery-Brown, do Ministério do Meio Ambiente do governo.

"Tem sido incrível reabilitar o lar de uma espécie globalmente importante", diz ela.

"Historicamente, não era possível dar um passo em Redonda sem pisar em ovos de pássaros, e nós estamos voltando lentamente a esse ponto. Estou muito feliz com o que alcançamos."

Este atobá-de-patas-vermelhas foi avistado pela equipe que retornou à ilha — Foto: Edward Marshall via BBC
Este atobá-de-patas-vermelhas foi avistado pela equipe que retornou à ilha — Foto: Edward Marshall via BBC

Jenny Daltry, da FFI, diz que Redonda é "um modelo" de como recuperar outras ilhas do Caribe, onde espécies invasoras devastaram a vida selvagem nativa.

"Redonda se transformou bem diante de nossos olhos e mais rápido do que acreditávamos ser possível, de uma rocha nua em uma joia verde", explica.

"Em um momento em que grande parte das notícias sobre o estado do nosso planeta são compreensivelmente pessimistas, o renascimento desta ilha mostra que, se dermos uma chance à natureza, ela pode e vai se recuperar."

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terça-feira, 4 de maio de 2021

Endividamento dos mais pobres cresce e volta a patamar recorde

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Em abril, 22,3% dos brasileiros com renda de até R$ 2.100 estavam se endividando, aponta um levantamento realizado pela Fundação Getúlio Vargas. População mais pobre tem sido afetada pela queda no valor do Auxílio Emergencial e pela fraqueza do mercado de trabalho.
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Por Luiz Guilherme Gerbelli, G1

Postado em 04 de maio de 2021 às 10h00m


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Com a redução do valor do Auxílio Emergencial e o mercado de trabalho afetado pela pandemia de coronavírus, o endividamento dos brasileiros mais pobres deu um salto e voltou a patamar recorde.

Em abril, 22,3% da população com renda de até R$ 2.100 se dizia endividada, segundo um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Esse mesmo patamar de endividamento para a classe mais baixa só foi observado em junho de 2016, quando o Brasil enfrentava uma combinação de crise política e econômica por causa do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. A série histórica do levantamento do Ibre começa em maio de 2009.

Corda no pescoço — Foto: Economia/G1
Corda no pescoço — Foto: Economia/G1

Nos últimos meses, o endividamento cresceu para todas as faixas de renda, mas o quadro tem sido dramático para os mais pobres porque a capacidade desse grupo de construir uma poupança precaucional – recursos destinados para algum imprevisto – é bem menor.

"Na verdade, não é nem uma poupança. É guardar um dinheiro este mês para poder pagar as suas contas no mês que vem e ter um pouco mais de tranquilidade", diz Viviane Seda, pesquisadora do Ibre.

Numa análise mais detalhada por faixa de renda, apenas 3,9% dos brasileiros com ganho superior a R$ 9.600 afirmam estar se endividando. (Veja tabela abaixo)

O vídeo abaixo mostra iniciativa de mais de 50 empresas para oferecer desconto no pagamento de contas em atraso.

Vídeo de abril mostra iniciativa que reúne mais de 50 empresas que oferecem descontos para quem tem contas em atraso
Vídeo de abril mostra iniciativa que reúne mais de 50 empresas que oferecem descontos para quem tem contas em atraso


Endividamento por faixa de renda — Foto: Economia G1
Endividamento por faixa de renda — Foto: Economia G1

O aumento do endividamento marca uma importante mudança de trajetória. No ano passado, com as parcelas de R$ 600 do Auxílio Emergencial, muitas famílias conseguiram ter o mínimo para sobreviver durante a pandemia e até puderam equilibrar o seu orçamento doméstico.

"A capacidade das famílias de baixa renda de construir uma poupança foi se esgotando conforme houve uma interrupção de vários programas do governo", afirma Viviane.

Para a maioria da população, o governo pagou a primeira rodada do auxílio emergencial até dezembro do ano passado. O benefício voltou em abril deste ano, mas num formato bem mais enxuto. Em 2020, o auxílio custou quase R$ 300 bilhões. Neste ano, está orçado em R$ 44 bilhões.

Oito em cada 10 famílias de classe média perdem renda, na pandemia
Oito em cada 10 famílias de classe média perdem renda, na pandemia

Auxílio é alívio na compra do mês

Em Paraisópolis, zona sul de São Paulo, Railane Santana, de 32 anos, sabe bem o que é integrar o grupo dos endividados no país. Ela e o marido – que trabalha com cerâmica – têm uma renda mensal de R$ 2 mil e carregam uma dívida que chega a R$ 20 mil em dois bancos.

"Eu fui usando o cartão de crédito para comprar o enxoval da minha filha. Só que eu fiquei desempregada há um ano e meio e não consigo pagar mais nada", conta Railane. Antes de perder o emprego, ela trabalhava como babá e manicure.

Railane Santana, de 32 anos, está desempregada e tem uma dívida de R$ 20 mil — Foto: Acervo Pessoal
Railane Santana, de 32 anos, está desempregada e tem uma dívida de R$ 20 mil — Foto: Acervo Pessoal

Beneficiária do Bolsa Família, hoje ela recebe o Auxílio Emergencial. É com o dinheiro que chega pelo benefício que ela faz as compras do mês.

O que entra da renda do trabalho do marido vai para uma casa que os dois reformam, também em Paraisópolis. Até ela ficar pronta, Railane, o marido e a filha de dois anos moram com a cunhada.

"Assim que eu recebo o auxílio, eu faço a compra do mês. Não dá uma compra completa porque sempre falta alguma coisa, mas dá pra comprar o básico", afirma Railane .

"Quando eu conseguir emprego, eu vou pegar a proposta que eles (bancos) dão e vou tentar pagar essa dívida em parcelas mínimas. Eu até já recebi uma proposta boa para quitar a dívida, mas desempregada não tem como", diz.

Quadro deve piorar

A fraqueza da atividade econômica e, consequentemente do mercado de trabalho, deve fazer com que o orçamento das famílias ainda continue bastante fragilizado.

Os últimos dados mostram a taxa de desocupação do país em 14,4%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o maior patamar já registrado. São 14,4 milhões de desempregados.

"No ano passado, a renda do emprego foi compensada pelo Auxílio Emergencial, mas este ano deve ser apenas parcialmente compensada", afirma Luiz Rabi, economista da Serasa. "Isso gera um buraco no orçamento das famílias."

Desemprego atinge 14,4 milhões de brasileiros e bate recorde
Desemprego atinge 14,4 milhões de brasileiros e bate recorde

De fevereiro para março, a Serasa computou mais de 1 milhão de inadimplentes no país, para 62,56 milhões de pessoas. Foi o segundo maior avanço mensal de toda a série histórica.

"Esse aumento de março foi um sinal de que a tendência de alta continua ao longo do ano", afirma Rabi. "Nos primeiros seis meses deste ano, a inadimplência vai para cima."

No recorte por setor, a inadimplência apurada pelo Serasa é maior nos gastos com cartão de crédito e em contas básicas, como água e luz.

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segunda-feira, 3 de maio de 2021

'Todas as coisas deixam uma pegada digital', afirma executivo de empresa que extrai dados de celulares

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Cellebrite, fundada em Israel, que é polo de cibersegurança, oferece soluções para desbloqueio de celulares e recuperação de dados apagados, usadas pela polícia no caso Henry Borel. Apesar de restringir clientes, ONGs já apontaram que os produtos da empresa também foram utilizados em cenários questionáveis.
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Por Alessandro Feitosa Jr, G1

Postado em 03 de maio de 2021 às 11h30m


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Aparelho UFED da Cellebrite, usado para extrair informações de celulares, no Instituto Geral de Perícias de Santa Catarina (IGP-SC) — Foto: Divulgação/IGP-SC
Aparelho UFED da Cellebrite, usado para extrair informações de celulares, no Instituto Geral de Perícias de Santa Catarina (IGP-SC) — Foto: Divulgação/IGP-SC

Um conjunto de programas de computador e equipamentos capaz de realizar perícias em celulares e extrair dados dos aparelhos para investigações. Esse é o produto vendido pela Cellebrite, empresa fundada em Israel, país referência em cibersegurança, que ganhou destaque nas investigações do caso do menino Henry Borel, que faria 5 anos nesta segunda-feira (3).

Essa não foi a primeira vez que os produtos da Cellebrite foram utilizados no Brasil: relatórios da Polícia Federal indicam que os equipamentos periciaram celulares na Operação Lava Jato e o próprio site da empresa destaca uma colaboração na Operação Enterprise, que investigou tráfico internacional de drogas.

Aliado em investigações de crimes, esse tipo de software também é alvo de polêmicas e preocupações de abusos de autoridades por causa de seu poderio – até mesmo dados apagados podem ser recuperados em algumas situações (veja mais abaixo).

O G1 entrevistou Mark Gambill, executivo de marketing da Cellebrite, que defendeu o uso dos equipamentos pelas autoridades.

"Se formos vítimas de um crime, gostaríamos que a polícia pudesse usar toda a tecnologia à disposição para descobrir quem fez isso e resolver o caso", afirmou.

Segundo ele, as soluções da empresa podem ser utilizadas em várias fases de investigação como coleta, análise e gerenciamento de informações.

"Em relação à tecnologia, todas as coisas deixam uma pegada digital", disse o executivo, se referindo à capacidade de recuperar informações apagadas.

Além de extrair dados de aparelhos, os softwares podem indicar trechos mais importantes utilizando inteligência artificial, por exemplo.

A companhia ficou famosa em 2016, quando ofereceu ao FBI a possibilidade de desbloquear o iPhone do terrorista Syed Farook, envolvido na ação que matou 14 pessoas e feriu 17 em San Bernardino, na Califórnia.

A informação de que a tecnologia da empresa foi usada não foi confirmada pela polícia dos EUA, mas desde então o uso de equipamentos da Cellebrite passou a chamar atenção – principalmente pelo fato de desbloquearem até smartphones da Apple, que têm boa reputação em segurança digital.

Os detalhes do funcionamento dos produtos são segredos comerciais – a companhia utiliza de brechas de segurança nos aparelhos para obter os acessos, o que incomoda desenvolvedores de aplicativos e sistemas operacionais.

Brechas de segurança

A utilização de vulnerabilidades é um dos pontos controversos dos equipamentos do gênero.

O NSO Group, outra empresa israelense que desenvolve soluções para extração de dados, ficou conhecido pelo software espião Pegasus-3, supostamente utilizado para invadir o celular do fundador da Amazon, Jeff Bezos.

Embora as empresas ofereçam soluções diferentes, o NSO Group afirma que também vende serviços voltados para governos e autoridades policiais.

A principal diferença é que a solução da Cellebrite exige acesso físico ao aparelho, enquanto a NSO criou um mecanismo de espionagem remoto.

Questionado sobre eventuais abusos no uso dessas ferramentas, Gambill afirmou que todos os clientes assinam um termo de uso e que todos os dados precisam obtidos por meio de um mandado judicial ou autorização voluntária do dono do aparelho.

"Nossa organização tem clientes ao redor do mundo, são quase 670 clientes, predominantemente autoridades públicas", disse o executivo.

Além de oferecer produtos para autoridades, a Cellebrite vende produtos para empresas, mas com finalidades diferentes. Entre os exemplos citados pelo executivo Mark Gambill estão auxílio em investigações sobre roubo de propriedade intelectual e acusações de assédio.

Usos polêmicos

Apesar das restrições previstas em contrato, investigações de ONGs já apontaram que os produtos da Cellebrite foram utilizados em cenários questionáveis.

Em 2017, o site americano "Vice" disse ter recebido um vazamento com informações relacionadas à Cellebrite – a companhia confirmou o incidente na época.

Segundo a publicação, os dados sugeriam que a companhia vendeu suas tecnologias para países como a Rússia, Emirados Árabes Unidos e Turquia – locais com histórico de desrespeito aos direitos humanos.

Uma reportagem do jornal americano "Washington Post" de 2019 mostrou que as ferramentas da empresa foram utilizadas em celulares de dois jornalistas da agência Reuters em Mianmar, de acordo com documentos e depoimento de um advogado de defesa.

As autoridades locais acusaram os repórteres de violarem leis de segredo de Estado depois de relataram violência contra a minoria muçulmana Rohingya do país.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), ONG sediada nos EUA, relatou casos similares de buscas em celulares de jornalistas na Nigéria e em Gana, em 2019 e 2020, respectivamente.

"Trabalhamos estreitamente em Israel com o Ministério da Defesa que identifica países malfeitores. A mesma coisa vale nos EUA", disse Mark Gambill, da Cellebrite.

Ao G1, a companhia enviou uma lista de 29 países com os quais afirmou não fazer negócios, entre eles a Rússia, Turquia e Mianmar, que foram citados em reportagens internacionais.

Na América Latina, a Cellebrite disse não fazer negócios com Bolívia, Cuba e Venezuela.

"Temos um comitê de ética que está continuamente analisando este tipo de situação para ser o mais transparente possível e em uma situação improvável em que você tenha uma mudança de regime em um país", disse o executivo.

Ele afirmou ainda que a companhia desabilitou dispositivos em Hong Kong após a China apertar o cerco contra o movimento pró-democracia.

"Temos componentes dentro de nossa tecnologia que nos permitem, por falta de um termo técnico melhor, desligá-la", completou o executivo. 
Preocupação com abusos

A advogada especialista em direito digital Jacqueline Abreu destacou ao G1 os riscos de ferramentas poderosas como as da empresa.

"Em um país com instituições sólidas e mecanismos regulatórios que funcionam bem, há mais segurança de que o uso desse tipo de dispositivo será legítimo", disse.

"Mas essa é uma ferramenta que pode cair nas mãos de alguém que não é confiável. Mesmo em um país democrático pode permitir abusos", comentou.

Segundo ela, os critérios com os quais são deferidas ordens judiciais e de quebra de sigilo no Brasil "com muita frequência são frágeis".

"A partir do celular, você consegue acessar todo o tipo de aplicativo instalado, obter informações que estão na nuvem, armazenadas em servidores de empresas", afirmou.

A advogada usou como exemplo situações em que são necessárias ordens judiciais para que grandes empresas de tecnologia liberem informações relacionadas a e-mails. A partir das ferramentas de extração não seria mais preciso passar por esse trâmite, já que a conta estaria logada no aparelho.

Ela apontou ainda que os equipamentos de perícia como os da Cellebrite têm uso amplo em polícias dos Estados Unidos, mas ainda não há detalhes sobre o Brasil.

Abreu afirmou que o uso dos equipamentos da Cellebrite no país ganhou destaque em casos de grande repercussão, como na Lava Jato, nas investigações da morte da deputada Marielle Franco e na morte do menino Henry. Com isso, esse tipo de extração de dados pode ganhar apoio da opinião pública.

Porém, ela se preocupa com a banalização na extração dos dados – o que poderia, segundo a advogada, acarretar perseguições ou abusos das autoridades.

"É preciso pensar em políticas de uso [no Brasil]. De a polícia começar, por exemplo, a catalogar as instâncias em que utiliza esse tipo de informação extraída e que isso seja tornado público", disse.

"Além de regulamentações para dizer o que pode ou não pode se fazer com os dados obtidos a partir dos celulares, para que as informações não sejam mantidas ou alimentem um banco de dados", completou.

Expectativa de privacidade

O executivo da Cellebrite admitiu que há um dilema entre a expectativa de privacidade das pessoas e os serviços oferecidos pela empresa.

A companhia utiliza falhas de segurança para burlar proteções como bloqueios de tela e criptografia de informações.

Muitas fabricantes de aparelhos celulares, como a Apple, ressaltam os aspectos de segurança e privacidade de seus produtos. Parte do trabalho da Cellebrite é encontrar maneiras de superar essas medidas.

Gambill disse que a Apple é uma das empresas que estão tentando criar criptografias capazes de proteger a privacidade de dados e que compreende que esse é o trabalho deles, mas defende que sua empresa também tem uma missão.

"A Apple é uma empresa com a qual trabalhamos muito", afirmou o executivo, sem dar detalhes sobre as interações entre as companhias.

Ele contou que a companhia possui um comitê de ética responsável por discutir questões de privacidade e até mesmo com quais países a Cellebrite faz negócios.

"Acho que essa [a presença do comitê] é uma das formas de tentarmos encontrar esse equilíbrio é ter diálogos com indivíduos, com grupos que defendem a privacidade, entendendo as necessidades de uma comunidade", afirmou.

As vulnerabilidades utilizadas pela Cellebrite geralmente incomodam empresas que desenvolvem aplicativos e sistemas operacionais.

Em dezembro passado, a Cellebrite disse ter encontrado uma forma de acessar dados de mensagens do Signal, burlando medidas de segurança do aplicativo, que é famoso por elas.

No final de abril, o fundador e presidente-executivo do Signal, aplicativo de mensagens rival do WhatsApp e conhecido por suas opções de segurança e privacidade divulgou um texto em que expõe brechas em um dispositivo da Cellebrite.

O executivo do Signal disse que o UFED (Dispositivo de Extração Forense Universal, em tradução da sigla em inglês) possui "diversas vulnerabilidades" que poderiam "adulterar o dispositivo escaneado e os dados que poderiam ser acessados" – o que poderia comprometer a integridade de perícias.

O CEO do Signal disse estar disposto a revelar para a Cellebrite todas as falhas de segurança que encontrou, mas a empresa precisaria se comprometer revelar as brechas que usa para desbloquear celulares "agora e no futuro".

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