Sem geladeira, nossa comida estragaria rapidamente, o leite azedaria
fácil e as intoxicações alimentares provavelmente disparariam.
Nos próximos meses, é provável que a refrigeração também desempenhe um
papel vital na atual pandemia de Covid-19. À medida que as vacinas
começam a estar disponíveis, elas vão precisar de enormes cadeias de
suprimento de armazenamento refrigerado para serem fabricadas,
distribuídas e armazenadas até serem aplicadas.
Muitos outros medicamentos que salvam vidas — de insulina a
antibióticos — também precisam ser armazenados na chamada "cadeia de
frio" para evitar que se deteriorem e se tornem inúteis.
Em escolas, escritórios, lojas e residências em muitas partes do mundo,
os fluidos refrigerantes também desempenham um papel importante nos
sistemas de ar-condicionado que mantêm esses edifícios em uma
temperatura confortável.
A
indústria de refrigeração é importante, mas também extremamente
poluente — sendo responsável por cerca de 10% das emissões globais de
CO₂. Isso é três vezes a quantidade produzida pela aviação e
navegação juntas. E como as temperaturas ao redor do mundo não param de
subir devido às mudanças climáticas, a demanda pela refrigeração também
vai aumentar.
Com países e empresas pressionados a reduzir seu impacto nas mudanças
climáticas, a indústria de refrigeração está passando por uma
reformulação radical na forma como produz e descarta os fluidos
refrigerantes.
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O uso de ar-condicionado em todo o mundo está aumentando rapidamente — e
deve continuar crescendo à medida que a temperatura do planeta sobe —
Foto: Javier Hirschfeld/Getty Images via BBC
Nas últimas três décadas, governos de todo o mundo se comprometeram a
combater o uso de produtos químicos que contribuem para o aquecimento
global, como os fluidos refrigerantes, enquanto as companhias começaram a
buscar alternativas naturais e menos poluentes.
Mas os ativistas
ambientais argumentam que as mudanças devem ser feitas de forma muito
mais rápida, se quisermos alcançar as metas climáticas internacionais.
Os consumidores também podem fazer a sua parte por meio dos
dispositivos que compram, do uso que fazem deles e da maneira como
descartam equipamentos cheios de fluidos refrigerantes.
Mas o que há nos fluidos de refrigeração que os torna tão prejudiciais ao clima?
Os refrigeradores e aparelhos de ar-condicionado certamente usam uma
boa quantidade de energia, especialmente quando ficam ligados
continuamente em climas quentes. Mas eles também contêm produtos
químicos que absorvem prontamente o calor do ambiente à medida que
passam do estado líquido para o gasoso.
Conforme fazem a transição de volta ao estado líquido, eles liberam o
calor para o exterior — seja de um edifício ou geladeira — antes de
iniciarem o processo de resfriamento novamente.
Esses mesmos produtos químicos também são usados em alguns tipos de
espuma de isolamento térmico e como propulsores em latas de spray e
aerossol.
O tipo mais comum de fluido refrigerante costumava ser à base de
clorofluorcarbonos, mais conhecidos por sua sigla CFCs. Mas depois que
se descobriu que os CFCs estavam destruindo a camada de ozônio, foi
feito um esforço mundial para eliminá-los.
O Protocolo de Montreal de 1987 — um acordo ambiental histórico
assinado por mais de 200 países — estabeleceu que esses produtos
químicos prejudiciais ao meio ambiente não seriam mais produzidos.
Mas o esforço para se livrar dos CFCs levou muitos fabricantes de
produtos químicos a optar por substituí-los por dois grupos de compostos
— os hidrofluorcarbonos (HFCs) e hidroclorofluorcarbonos (HCFCs) — com
um problema diferente.
Esses fluidos refrigerantes quebram muito menos as moléculas de ozônio,
mas são gases de efeito estufa extremamente potentes. Sua capacidade de
aquecer a atmosfera — mensurada como potencial de aquecimento global — é
milhares de vezes maior do que a do dióxido de carbono, sendo alguns
até 13.850 vezes mais potentes.
Isso acontece porque os HFCs e HCFCs — junto com os CFCs — também
absorvem a radiação infravermelha, prendendo o calor dentro da
atmosfera, em vez de permitir que ele escape de volta ao espaço, criando
o efeito estufa que aquece o planeta.
Embora esses produtos químicos sejam usados para diversos fins, de
longe a maior fonte de emissões é proveniente dos sistemas de
refrigeração e ar-condicionado. Com o tempo, eles podem vazar para a
atmosfera de aparelhos danificados ou de sistemas de ar-condicionado de
automóveis, por exemplo.
"A indústria como um todo teve um enorme impacto no aquecimento
global", diz Clare Perry, ativista sênior da Agência de Investigação
Ambiental (EIA, na sigla em inglês), organização sem fins lucrativos que
investiga e faz campanha contra o abuso ambiental. Ela diz que, juntos,
os CFCs, HFCs e HCFCs foram responsáveis por cerca de 11% do total
das emissões responsáveis pelo aquecimento global até agora.
Em 2016, autoridades de mais de 150 países assinaram a Emenda de
Kigali, concordando em reduzir o consumo de HFC em 80% até 2047. Se a
meta for alcançada, poderá evitar mais de 0,4 °C de aquecimento global
até o fim do século — uma quantidade considerável em nossos esforços
para reduzir os efeitos das mudanças climáticas.
Como os HFCs são gases potentes que podem permanecer na atmosfera por
até 29 anos, há uma necessidade urgente de eliminá-los progressivamente,
diz Doug Parr, cientista-chefe do clima do Greenpeace.
"Uma vez que são produzidos, são difíceis de lidar. Você está
construindo um banco de produtos químicos problemáticos", acrescenta.
Mas especialistas da indústria afirmam que esses fluidos refrigerantes
nocivos ainda estão disseminados e aumentando rapidamente devido ao
crescimento global na demanda por ar-condicionado; à inovação lenta da
indústria; e à legislação inadequada sobre seu descarte.
Em todo o mundo, a demanda por ar-condicionado está aumentando à medida
que as temperaturas sobem e as pessoas ficam mais ricas, de acordo com a
Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês). As recentes
ondas de calor na Europa, por exemplo, também impulsionaram as vendas
de ar-condicionado em áreas onde antes era incomum.
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O descarte de geladeiras e freezers velhos da maneira errada pode ter
um grande impacto no clima — Foto: Javier Hirschfeld/Getty Images via
BBC
Estima-se que o número global de aparelhos de refrigeração aumente de
3,6 bilhões para 9,5 bilhões até 2050, segundo um relatório do Programa
das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da IEA.
Fornecer refrigeração para todos que precisam, e não apenas para
aqueles que podem pagar, exigirá 14 bilhões de dispositivos até 2050,
observa o relatório.
"À medida que os países ao sul do globo estão começando a aumentar sua
riqueza, sua capacidade de comprar aparelhos de ar-condicionado e
geladeiras está aumentando drasticamente", diz Brian Dean, chefe de
eficiência energética e refrigeração da iniciativa Sustainable Energy
for All, apoiada pela ONU.
Sem mudanças radicais na indústria de refrigeração, a projeção é de que
as emissões de HFC contribuam com um aquecimento equivalente a 20% das
emissões de CO2 em 2050, alerta o relatório do Pnuma.
Há maneiras de resfriar uma casa sem a necessidade de ar-condicionado.
As técnicas tradicionais usam recursos hídricos, como fontes para ajudar
a resfriar o ar que passa por um edifício, enquanto algumas construções
são cuidadosamente projetadas para estimular a circulação natural do
ar.
Mesmo medidas simples, como colocar uma moringa de barro com água perto
de uma janela ou local com corrente de ar, podem ajudar a refrescar um
cômodo.
Parte do problema com os fluidos refrigerantes, entretanto, é que
muitos dos danos que eles causam acontecem depois que nós, como
consumidores, terminamos de usá-los. Ocorrem fora da nossa vista e, em
grande parte, nem nos damos conta.
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Os refrigerantes HFC usados em geladeiras absorvem radiação
infravermelha, tornando-os potentes gases de efeito estufa — Foto:
Javier Hirschfeld/Getty Images via BBC
Cerca de 90% das emissões da refrigeração ocorrem no fim da vida útil
do equipamento, de acordo com a Project Drawdown, organização sem fins
lucrativos que analisa soluções climáticas. Isso significa que o
descarte adequado é essencial.
Se os produtos químicos refrigerantes forem cuidadosamente extraídos e
armazenados, eles podem ser purificados para reutilização ou
transformados em outras substâncias que não causam aquecimento global.
O gerenciamento adequado e a reutilização de gases refrigerantes podem
reduzir 100 bilhões de gigatoneladas das emissões globais de CO2 entre
2020 e 2050, de acordo com a EIA. Mas o descarte adequado de HFCs não é
um requisito obrigatório no Protocolo de Montreal — tampouco é
devidamente aplicado em muitos países, de acordo com o Pnuma.
O HFC mais comum encontrado em geladeiras domésticas é o HFC-134a, que
tem um potencial de aquecimento global 3,4 mil vezes maior do que o
dióxido de carbono. Uma geladeira padrão pode conter entre 0,05kg e
0,25kg de fluido refrigerante que, se vazar no meio ambiente, geraria
emissões equivalentes a dirigir de 675km a 3.427km em um carro de
tamanho médio.
Os consumidores que desejam se livrar de forma responsável de
geladeiras, freezers ou aparelhos de ar-condicionado antigos, têm uma
série de opções à sua disposição. Nos EUA, os eletrodomésticos antigos
podem ser descartados por meio de esquemas aprovados pela Agência de
Proteção Ambiental.
Muitas autoridades locais recolhem e reciclam aparelhos antigos,
enquanto os fabricantes e varejistas de eletrodomésticos novos costumam
se oferecer para retirar os itens antigos. Esforços para eliminar os
HFCs no país foram acrescentados ao projeto de lei de inovação de
energia que está atualmente em tramitação no Senado.
Na União Europeia, a legislação já exige que os gases HFC sejam
recuperados no fim da vida útil para evitar que vazem para a atmosfera.
Se a sua geladeira quebrar no Reino Unido, por exemplo, você deve
levá-la a uma instalação de tratamento de resíduos licenciada, onde um
técnico removerá o gás. É ilegal não retirar os fluidos refrigerantes
antes de destruir o aparelho.
Mas um estudo recente mostrou que as emissões globais de HFC-23, que
tem o maior potencial de aquecimento global de todos os HFCs, atingiram
um pico histórico em 2018, apesar dos esforços internacionais para
reduzi-lo.
O HFC-23 é um subproduto da fabricação do HFCF-22, que é um propulsor e
refrigerante comum usado em aparelhos de ar-condicionado. O aumento
sugere que não está sendo feito o suficiente para coletar e destruir o
HFC-23 durante os processos de fabricação.
Em muitos países, não há regulamentação adequada em vigor. Esta é uma
preocupação especialmente nos países em desenvolvimento, de acordo com
Dean.
"Se [as pessoas] decidirem manter [seus eletrodomésticos] e talvez
destruí-los no quintal, não há mecanismo regulatório que impeça as
pessoas de descartar os fluidos refrigerantes de maneira adequada", diz
ele.
Em alguns casos, os HFCs também estão chegando aos produtos
ilegalmente, o que ameaça minar os esforços para eliminá-los. Após as
novas normas introduzidas pela União Europeia em 2014, os preços dos
HFCs dispararam.
Mas a EIA alega que há discrepâncias nos dados de exportação e
importação de HFCs que saem da China e chegam à União Europeia. No
segundo semestre de 2019, foram apreendidas 54 toneladas de HFCs, um
aumento de dez vezes em relação ao mesmo período de 2018, segundo uma
análise da EIA.
De acordo com Perry, o controle ineficiente está permitindo o comércio
ilegal de HFC em grande escala, que pode acabar em dispositivos vendidos
aos consumidores.
"Provavelmente, o maior risco para o consumidor comum é que HFCs
ilegais possam ser usados para consertar o ar-condicionado do carro",
diz ela.
"Portanto, vale a pena perguntar à sua oficina como eles se certificam de que os HFCs que usam são de uma fonte confiável."
A indústria química está tomando medidas para impedir o comércio ilegal
de HFCs — e os consumidores podem descobrir quais empresas se
comprometeram a agir em um site que eles criaram. Mas é preciso fazer
mais, acrescenta Perry.
"Se o comércio ilegal avançar em ritmo acelerado, vai ameaçar a
integridade da redução progressiva do HFC e das metas climáticas da
União Europeia", diz ela.
Para quem já está pensando em trocar a geladeira ou ar-condicionado por
uma alternativa mais amistosa para o planeta, há cada vez mais opções
disponíveis. Os fabricantes começaram a recorrer a produtos químicos
favoráveis ao clima, conhecidos como refrigerantes naturais, que têm
potencial de aquecimento global comparativamente baixo ou zero.
Marcas globais importantes, como Coca Cola, PepsiCo e Unilever,
estabeleceram metas para eliminar os HFCs e já começaram a usar
alternativas. Amônia, certos hidrocarbonetos e CO2 são as opções mais
populares.
A Coca-Cola prometeu que todos os equipamentos novos para refrigeração
de bebidas que usa serão livres de HFC — e já passou a usar o
hidrocarboneto propano em muitas de suas máquinas de venda automática de
refrigerante. As marcas de sorvete da Unilever, incluindo Ben &
Jerry's e Wall's, também usam hidrocarbonetos em seus freezers.
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Os eletrodomésticos que usamos para resfriar nossa comida requerem
eletricidade para funcionar, mas representam um risco maior para o clima
ao fim de suas vidas úteis — Foto: Javier Hirschfeld/Getty Images via
BBC