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terça-feira, 21 de abril de 2026

Rover em Marte detecta compostos orgânicos nunca vistos antes no planeta vermelho

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Estudo rastreou moléculas preservadas há 3,5 bilhões de anos na superfície marciana; resultado abre caminho para busca de sinais de vida antiga.
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Por Roberto Peixoto, g1

Postado em 21 de Abril de 2.026 às 07h00m
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Região onde o rover Curiosity coletou três amostras de rochas perfuradas, que revelaram a presença de diferentes compostos orgânicos em Marte. — Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS
Região onde o rover Curiosity coletou três amostras de rochas perfuradas, que revelaram a presença de diferentes compostos orgânicos em Marte. — Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS

Um rover da NASA, a agência espacial norte-americana, encontrou em Marte uma mistura diversa de moléculas orgânicas que inclue compostos considerados blocos fundamentais para a origem da vida na Terra.

O achado, publicado nesta terça-feira (21) na revista "Nature Communications", é resultado de um experimento químico realizado pela primeira vez em outro planeta diferente da Terra.

A descoberta NÃO prova que houve vida em Marte, mas mostra que a superfície do planeta é capaz de preservar exatamente o tipo de molécula que poderia servir como evidência de vida antiga — o que, por si só, já representa um avanço significativo na astrobiologia.

O responsável pelo feito foi o rover Curiosity, que está em Marte desde 2012. Em 2020, ele realizou o experimento na região de Glen Torridon, dentro da cratera Gale, uma antiga bacia rica em argilas, minerais conhecidos por reter e preservar compostos orgânicos melhor do que outros materiais.

O experimento usou uma substância química chamada TMAH para fragmentar moléculas orgânicas maiores, permitindo que os instrumentos do rover as analisassem.

O Curiosity carregava apenas dois recipientes com esse reagente, o que exigiu um planejamento cuidadoso para escolher o local mais promissor para a coleta.

O primeiro é uma molécula que contém nitrogênio e tem estrutura parecida com a de substâncias que deram origem ao DNA — nunca antes encontrada em Marte.

O segundo é um composto químico que costuma chegar aos planetas carregado por meteoritos, o mesmo tipo de material que, acredita-se, ajudou a criar as condições para a vida na Terra.

"Achamos que estamos olhando para matéria orgânica preservada em Marte há 3,5 bilhões de anos", disse Amy Williams, professora de ciências geológicas da Universidade da Flórida e líder do estudo.
"É muito útil ter evidências de que matéria orgânica antiga está preservada, porque isso é uma forma de avaliar se um ambiente poderia sustentar vida."

Selfie do rover Curiosity em Marte, onde análises revelaram compostos orgânicos. — Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS
Selfie do rover Curiosity em Marte, onde análises revelaram compostos orgânicos. — Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS

A presença desses compostos também reforça uma conexão entre os dois planetas. Isso porque o mesmo material que chegou a Marte por meio de meteoritos também atingiu a Terra e provavelmente forneceu os blocos de construção para a vida como a conhecemos no nosso planeta.

O que torna o achado ainda mais relevante é o fato de que essas moléculas sobreviveram por bilhões de anos em um ambiente extremamente hostil.

Marte é bombardeado por radiação cósmica, tem uma atmosfera muito mais fina que a da Terra e passa por variações de temperatura drásticas.

Ainda assim, as argilas da cratera Gale funcionaram como uma espécie de cápsula protetora, mantendo os compostos intactos ao longo de eras geológicas.

Isso abre uma perspectiva importante: se moléculas tão delicadas conseguiram sobreviver em Marte por tanto tempo, outras substâncias potencialmente mais reveladoras sobre a história do planeta também podem estar preservadas em algum lugar da superfície ou da subsuperfície marciana, esperando para ser encontradas por futuros experimentos ou missões.

O experimento, porém, tem um limite importante. Ele não consegue distinguir se os compostos encontrados vieram de uma possível vida passada em Marte, de processos geológicos naturais ou de meteoritos que colidiram com o planeta ao longo de sua história.

As três origens são possíveis, e nenhuma pode ser descartada com os dados disponíveis até agora.

Para responder a essa questão com certeza, seria necessário trazer amostras de rocha marciana de volta à Terra, onde laboratórios muito mais sofisticados do que qualquer instrumento que caiba dentro de um rover poderiam analisá-las em detalhes.

Esse é justamente o objetivo de missões que estão sendo planejadas por agências espaciais dos Estados Unidos e da Europa para as próximas décadas.

"Agora sabemos que existem moléculas grandes e complexas preservadas na superfície de Marte, e isso é muito promissor para a busca de compostos que possam ser um sinal de vida", disse Williams.

Imagem feita pela câmera principal do rover Curiosity mostra área rica em argila onde amostras revelaram compostos orgânicos em Marte. — Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS
Imagem feita pela câmera principal do rover Curiosity mostra área rica em argila onde amostras revelaram compostos orgânicos em Marte. — Foto: NASA/JPL-Caltech/MSSS

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Por que é tão difícil abandonar o petróleo?

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Dependência persistente de combustíveis fósseis, tensões geopolíticas e desafios tecnológicos mantêm o petróleo no centro da economia global, mesmo com o avanço das energias renováveis.
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TOPO
Por France Presse

Postado em 21 de Abril de 2.026 às 05h00m
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O navio indiano 'Nanda Devi', carregado com gás liquefeito de petróleo (GLP), chegou ao porto de Vadinar, no distrito de Jamnagar, estado de Gujarat, em 17 de março de 2026, após o Irã permitir sua passagem pelo Estreito de Ormuz, um importante corredor energético que permanece interrompido devido à guerra no Oriente Médio. Os petroleiros de bandeira indiana 'Shivalik' e 'Nanda Devi', transportando cerca de 92.700 toneladas métricas de GLP, chegaram aos portos do estado de Gujarat, representando uma rara exceção na passagem comercial por esse ponto estratégico. — Foto: AFP
O navio indiano 'Nanda Devi', carregado com gás liquefeito de petróleo (GLP), chegou ao porto de Vadinar, no distrito de Jamnagar, estado de Gujarat, em 17 de março de 2026, após o Irã permitir sua passagem pelo Estreito de Ormuz, um importante corredor energético que permanece interrompido devido à guerra no Oriente Médio. Os petroleiros de bandeira indiana 'Shivalik' e 'Nanda Devi', transportando cerca de 92.700 toneladas métricas de GLP, chegaram aos portos do estado de Gujarat, representando uma rara exceção na passagem comercial por esse ponto estratégico. — Foto: AFP

Quando, em 2023, a comunidade internacional se comprometeu a iniciar uma transição para abandonar os combustíveis fósseis no intuito de frear as mudanças climáticas, alguns celebraram isso como o começo do fim do petróleo.

Três anos depois, a guerra no Oriente Médio evidencia que a dependência mundial do "ouro negro" não mudou, apesar de suas consequências irem muito além do impacto ambiental.

A economia e a segurança energética globais estão em risco.

Isso faz com que o conflito seja usado como mais uma razão para substituir definitivamente o principal responsável pelas emissões de CO? por energias renováveis, 167 anos depois da extração do primeiro barril comercial na Pensilvânia, nos Estados Unidos.

 No entanto, apesar de alguns apelos, a tendência global indica que a promessa da COP28 está longe de ser cumprida.

A política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é um exemplo disso: depois de cunhar o slogan "drill, baby, drill" (perfura, querido, perfura), ele interveio em dois países ricos em reservas de petróleo: Venezuela e Irã.

Por que é tão difícil deixar para trás o petróleo? A seguir, algumas pistas.

É a economia

Se os mercados financeiros respiram conforme as oscilações do preço do barril, é porque seus agentes estão profundamente ligados aos ativos associados aos hidrocarbonetos.

"A gente não pode fazer a transição quebrando de um dia para o outro as empresas de combustíveis fósseis, porque isso seria um desastre econômico planetário sem precedentes. Gigantes bancários como o HSBC quebrariam", disse à AFP Claudio Angelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima do Brasil.

A dependência econômica é total em países como Arábia Saudita, Kuwait e Iraque, mas não apenas neles.

No caso do Brasil, por exemplo, retirar a Petrobras da balança comercial desmontaria a economia, já que o petróleo é um dos principais produtos de exportação, acrescenta Angelo.

Outros países, como a Colômbia, são tão dependentes dessas receitas que seu presidente, Gustavo Petro, pede alívio da dívida soberana para tornar viável sua promessa de não conceder novos contratos de exploração de petróleo.

Bombas de extração de petróleo, Irã, Oriente Médio — Foto: Reuters
Bombas de extração de petróleo, Irã, Oriente Médio — Foto: Reuters

Vontade política

Potências exportadoras de petróleo como os Estados Unidos, Canadá e Austrália têm, por outro lado, meios para assumir a transição energética, afirma Bill Hare, diretor do instituto Climate Analytics.

"É uma questão de vontade política", acrescenta à AFP.

Mas com o retorno de Trump ao poder, junto ao avanço global da extrema direita, os interesses econômicos voltam a ser priorizados em detrimento da luta contra o aquecimento global - quando o fenômeno não é diretamente negado.

"Há toda uma visão no Ocidente, liderada pelos Estados Unidos, de voltar a um modelo que já existiu", de curto prazo, sustenta Leonardo Stanley, pesquisador associado do Centro de Estudos de Estado e Sociedade de Buenos Aires.

O lobby mais poderoso

Presentes nas conferências anuais da ONU sobre o clima, as petroleiras - da americana ExxonMobil à saudita Aramco - defendem seus interesses nos bastidores, às vezes por meio de grandes consultorias como a McKinsey, como mostrou uma investigação da AFP na COP28.

"O setor de óleo e gás é o lobby mais poderoso da Terra", afirma Angelo.

Há 30 anos ele "joga para adiar mudanças", acrescenta.

Quem paga a conta?

Para abandonar o petróleo, é necessário apoio financeiro aos países produtores dependentes dessas receitas e também aos mais pobres, para acompanhar a transição.

"Tem que haver alguma disposição das grandes e médias potências econômicas de criar um sistema internacional que facilite isso", o que até agora não ocorreu, afirma Bill Hare. 
Sinais positivos

Apesar de tudo, há avanços.

As energias renováveis representaram um recorde de quase 50% da capacidade elétrica mundial em 2025, segundo a Irena, entidade intergovernamental que promove a transição energética.

A China, maior emissora mundial de gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, líder na produção de energias renováveis, ampliou de forma excepcional suas capacidades eólicas e solares no ano passado.

No Paquistão, a energia solar, que era marginal em 2020, tornou-se uma das principais fontes de eletricidade.

Em várias regiões da Austrália e dos Estados Unidos, o avanço das energias renováveis reduziu a conta de luz, segundo Hare.

Setor produtivo alerta perda com royalties de petróleo
Setor produtivo alerta perda com royalties de petróleo

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segunda-feira, 20 de abril de 2026

'O dilema de Malaca': por que outra passagem crítica para a navegação gera preocupação no comércio global

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O Estreito de Malaca é uma rota marítima fundamental do sudeste asiático. Ela chamou recentemente a atenção internacional, quando funcionários do governo indonésio confirmaram o pedido apresentado pelos Estados Unidos, solicitando autorização militar geral para sobrevoar o território do país
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TOPO
Por BBC

Postado em 20 de Abril de 2.026 às 15h20m
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Malaca é uma das principais artérias do fluxo de comércio global — Foto: EPA
Malaca é uma das principais artérias do fluxo de comércio global — Foto: EPA

Em meio ao bloqueio do Estreito de Ormuz, uma das vias marítimas mais importantes do mundo, outra artéria vital para o comércio global começa a chamar a atenção internacional.

O Estreito de Malaca, no sudeste asiático, voltou a ser notícia quando funcionários do governo indonésio confirmaram que os Estados Unidos apresentaram uma proposta para obter autorização militar para sobrevoar o território do país.

O Ministério das Relações Exteriores da Indonésia afirmou não ter ainda chegado a uma decisão.

A iniciativa surgiu há cerca de uma semana, após a assinatura de um acordo de defesa entre os dois países, e pode trazer implicações geopolíticas globais.

Importância global

"O Estreito de Malaca é fundamental porque constitui a rota marítima mais curta e eficiente de conexão entre o oceano Índico e o Pacífico", afirma Azifah Astrina, doutoranda na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados Unidos.

"Por isso, ele é indispensável para o comércio entre o Oriente Médio, a Europa e o leste asiático", prossegue a pesquisadora. "Ele se conecta diretamente com o Mar do Sul da China, através do qual flui cerca de um terço do comércio mundial."

Astrina é especialista na região e elaborou um estudo sobre os incidentes marítimos no estreito.

Seu ponto com menor largura fica em torno do canal de Phillips, perto de Singapura: cerca de 2,8 km.

O relatório mais recente da Administração de Informações Energéticas dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês) indica que 23,2 milhões de barris de petróleo transitaram diariamente por Malaca no primeiro semestre de 2025.

Este volume equivale a cerca de 29% do fluxo mundial de petróleo por via marítima.

No mesmo período, também transitaram pela via cerca de 260 milhões de metros cúbicos diários de gás natural liquefeito (GNL).









Perto de Singapura, o Estreito de Malaca tem apenas cerca de 2,8 km de largura — Foto: BBC

Além disso, o professor de transporte sustentável de mercadorias e logística Gokcay Balci, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, destaca que o Estreito de Malaca constitui uma rota fundamental para "produtos eletrônicos, bens de consumo, bens industriais, maquinário e automóveis"

"Cerca de 25% do comércio mundial de automóveis passa por ali", prossegue o professor. "Também transitam pelo estreito cargas secas a granel, como cereais e soja."

"Se combinarmos a geografia, a dependência energética, o volume de mercadorias e a variedade de produtos, o Estreito de Malaca se diferencia do Estreito de Ormuz", aponta Balci.

"Ormuz também é fundamental para o comércio mundial, mas não constitui um centro de transbordo tão significativo quanto o Estreito de Malaca. Sua função transcende o âmbito energético e engloba uma gama de mercadorias muito mais ampla."

"Malaca é uma das artérias centrais da economia mundial", concorda Azifah Astrina. E a pirataria continua sendo um motivo constante de preocupação.

Segundo o Centro de Intercâmbio de Informações ReCAAP, com sede em Singapura, foram notificados 108 incidentes de roubos no mar nos estreitos de Malaca e Singapura em 2025. Este é o número mais alto registrado desde 2007.

Por outro lado, o estreito se encontra exposto a diversos riscos naturais, como os tsunamis e a atividade vulcânica.

O tsunami de dezembro de 2004 que afetou a região, por exemplo, causou danos significativos à infraestrutura litorânea perto da sua entrada sul.





A Indonésia afirma que ainda está estudando a proposta de sobrevoo dos EUA, após a assinatura de um acordo de defesa pelos dois países — Foto: Reuters 

Por que ele é importante?

Especialistas afirmam que a importância de Malaca não reside apenas no seu peso econômico, mas também na sua relevância geopolítica cada vez maior.

"Uma eventual escalada das tensões entre a China e os Estados Unidos, ou a Índia, em torno do domínio marítimo na região poderá perturbar gravemente o trânsito através do estreito", explica Balci.

Astrina defende que a mera possibilidade de um maior acesso militar dos Estados Unidos ao espaço aéreo indonésio poderia trazer repercussões a longo prazo.

"Eu qualificaria como um fator potencialmente desestabilizador em termos estruturais, mesmo se não perturbar o comércio imediatamente", afirma ela.

Suas pesquisas indicam que a atual arquitetura de segurança no Estreito de Malaca não está preparada para a rivalidade entre as potências.

"Ela está projetada para fazer frente a ameaças não tradicionais, como a pirataria, o contrabando e a criminalidade marítima", explica a pesquisadora. "Não está projetada para gerenciar a concorrência entre as grandes potências."

"Consequentemente, quando uma grande potência, como os Estados Unidos, amplia sua pegada operacional, ela cria uma dinâmica de segurança para a qual o sistema não foi concebido."

Mas Astrina destaca que, a curto prazo, é improvável que surjam perturbações.

"Continuo não prevendo que o transporte marítimo comercial seja afetado", ela ressalta. "Os incentivos para manter o fluxo comercial são poderosos demais."

A pesquisadora alerta que o maior risco está mais distante no horizonte. Para ela, "a inquietação reside na trajetória da escalada a longo prazo".

"Se a China interpretar esta situação como um aumento da vigilância ou do posicionamento estratégico americano nas proximidades de uma artéria marítima crítica, ela poderia reagir, não necessariamente causando tumulto no comércio, mas ampliando sua própria presença ou influência na região e nos seus arredores."

"É aqui que reside o perigo", prossegue ela.

"Poderíamos ser testemunhas de uma transição gradual: de um ambiente de segurança cooperativo e orientado à aplicação da lei para outro de caráter mais competitivo e militarizado."

Mesmo na ausência de um conflito direto, Astrina alerta que essa transformação poderia acarretar efeitos tangíveis.

"Para o comércio mundial, as repercussões provavelmente seriam indiretas, mas reais: prêmios de seguro mais altos, maior percepção de risco e maior volatilidade em uma rota da qual a economia global depende em grande medida.

Ainda assim, a pesquisadora recomenda não adotar uma perspectiva excessivamente restrita ao analisar o papel da Indonésia neste processo.

"É fundamental não interpretar isso como alinhamento da Indonésia com uma das partes", destaca ela.

"A Indonésia parece estar aplicando uma estratégia de equilíbrio: aprofundando sua cooperação com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, mantendo sólidos laços econômicos com a China e interagindo com outros parceiros, como a Rússia."

O panorama atual não se baseia na formação de alianças, mas na realidade de que a concorrência entre as grandes potências vem adentrando em um espaço que, historicamente, foi idealizado como corredor compartilhado e funcional para o comércio mundial.

'O dilema de Malaca'

Em 2003, o então presidente chinês Hu Jintao (2003-2013) cunhou a expressão "dilema de Malaca" para descrever a forte dependência da China em relação ao estreito, que é a via mais curta tanto para o país escoar sua produção para outros continentes quanto para receber importações.

Cerca de 75% das compras chinesas de petróleo e 60% do seu comércio marítimo, em termos de valores, trafegam pelo Estreito de Malaca e pelo vizinho Mar do Sul da China, segundo dados da EIA e do projeto ChinaPower, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede em Washington D.C., nos Estados Unidos.

O dilema que se coloca, nesse cenário, é a escolha entre manter o foco no estreito, que é economicamente mais eficiente, mas pode deixar a China vulnerável caso haja algum evento que interrompa a navegação, ou investir em alternativas que podem reduzir esse risco, mas devem elevar os custos econômicos ao país, já que seriam rotas mais longas.

"Mas não se trata apenas da China", destaca Balci. "O Japão e a Coreia do Sul também dependem, em grande parte, do estreito para o seu abastecimento energético, já que 90% das suas importações de petróleo passam por ali."

O professor acrescenta que a via marítima também é fundamental para Singapura, que abriga o segundo porto de contêineres mais ativo do mundo e constitui importante centro de abastecimento de combustível para navios.

Para a China, Astrina destaca que reduzir a dependência do estreito não constitui uma opção realista a curto prazo.

"Não acredito que a China disponha de uma solução realista para reduzir significativamente essa dependência, pelo menos no futuro imediato", defende ela.

"As rotas alternativas, como oleodutos ou outros corredores, podem oferecer uma ajuda marginal, mas não podem substituir o Estreito de Malaca em grande escala."

Gokcay Balci concorda com a avaliação. Ele afirma que as duas alternativas mais viáveis (os estreitos de Sonda e Lombok) também se encontram em águas indonésias.

O Estreito de Torres, perto de Papua-Nova Guiné, é "uma via navegável rasa e ecologicamente sensível, com recifes de coral", explica ele. "Por isso, os grandes navios comerciais não poderiam navegar por ali."

Balci também destaca que contornar o sul da Austrália traria "enormes custos e grande investimento de tempo".

Com todas estas limitações, Astrina afirma que, provavelmente, a China continuará concentrando seus esforços em gerenciar sua vulnerabilidade, em vez de tentar eliminá-la.

"O dilema, na verdade, não reside em reduzir a dependência, mas na forma como que a China gerencia essa dependência."

"Por isso, observamos que a China se concentra não apenas na diversificação, mas também em ampliar sua influência e presença em toda a região, especialmente no Mar do Sul da China e ao longo das principais rotas marítimas", conclui Azifah Astrina.

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