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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ibovespa dispara 33,95% em 2025 e tem maior alta em nove anos, apesar dos juros elevados

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Segundo especialistas ouvidos pelo g1, fatores como a queda dos juros nos EUA, a expectativa de cortes no Brasil e o preço atrativo das ações brasileiras contribuíram para a alta da bolsa em 2025.
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Por André Catto, g1 — São Paulo

Postado em 30 de Dezembro de 2.025 às 05h00m
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O Ibovespa, principal índice da bolsa, disparou em 2025, e encerrou o ano com uma alta de 33,95%, no maior avanço anual desde 2016, quando registrou valorização de 38,9%, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta.

O desempenho positivo responde a uma série de fatores, mesmo em um cenário de juros elevados no país, em que a Selic encerra 2025 em 15% ao ano — maior patamar em 20 anos.

Segundo dados da B3, o Ibovespa acumulou 32 recordes de fechamento ao longo deste ano. É o maior número desde 2019, quando atingiu 40 recordes, em um período de valorização do mercado.

Segundo especialistas ouvidos pelo g1, o bom desempenho da bolsa brasileira no ano se deve, principalmente, aos seguintes fatores:

  • Cortes de juros nos Estados Unidos, com expectativa de novas reduções no ano que vem;
  • Realocação de investimentos em meio a incertezas sobre as contas públicas e a política econômica de Donald Trump nos EUA, o que favoreceu ativos brasileiros;
  • Expectativa de cortes de juros no Brasil, com o mercado já olhando para 2026;
  • Maior resiliência do Brasil nas tensões comerciais com os EUA, reduzindo impactos sobre empresas exportadoras;
  • Ações de empresas brasileiras ainda negociadas abaixo dos níveis pré-pandemia, o que atraiu investidores;
  • Expectativa de mudanças no cenário político, em especial na condução das contas públicas, com a proximidade das eleições de 2026.
Veja abaixo, ponto a ponto, os principais aspectos que influenciaram o desempenho do Ibovespa em 2025.
O peso de fatores externos

O cenário internacional teve influência decisiva sobre a alta do Ibovespa neste ano, segundo analistas do mercado financeiro. Um dos principais vetores foi a mudança de postura do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA.

O Fed cortou os juros americanos três vezes em 2025, reduzindo a taxa da faixa de 4,25% a 4,50% ao ano para 3,50% a 3,75% ao ano — o menor patamar desde setembro de 2022. A expectativa também é de redução em 2026.

  • 🔎 Na prática, juros menores nos EUA diminuem o rendimento das Treasuries, os títulos do governo americano, que são vistos como os investimentos mais seguros do mundo. O movimento faz investidores buscarem aplicações mais rentáveis em mercados emergentes. Nesse cenário, o Brasil tem se destacado, favorecendo a bolsa e o real.

Lauro Sawamura Kubo, gestor de fundos de investimento da Patagônia Capital, ressalta também que cresceu o receio em relação às contas públicas dos EUA. Neste ano, ocorreu a paralisação do governo (shutdown) mais longa da história, o que piorou as incertezas de investidores com os rumos do país.

Com esse conjunto de fatores, perde força a ideia de os EUA serem uma reserva de valor, e investidores passam a buscar alternativas, analisa, citando o Brasil como destino importante.

A esse cenário se somam a pressão e as tentativas de interferência de Donald Trump no BC americano — o que deixou os mercados mais tensos — e a política comercial do republicano, marcada pelo tarifaço, que também levou investidores globais a reorganizar seus portfólios.

Não se trata de uma perda de protagonismo dos EUA, mas de uma redistribuição. A alocação em Treasuries estava muito acima do nível neutro, e isso beneficia mercados como o brasileiro, diz Harrison Gonçalves, CFA Charterholder e membro do CFA Society Brazil. 
Ações brasileiras vistas como 'pechincha'

Na avaliação de analistas ouvidos pelo g1, empresas brasileiras sólidas estavam sendo negociadas a valores baixos — ou seja, com ações aquém de seu potencial.

"A bolsa brasileira ainda não havia retomado, de forma consistente, os níveis anteriores à pandemia, enquanto outros mercados já tinham avançado mais, aponta Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil.

Segundo ele, o pessimismo mal dimensionado ficou para trás, e grandes empresas brasileiras se mostraram sólidas, atraindo investidores que passaram a enxergar suas ações como pechinchas.

  • 🔎 A bolsa brasileira passou a ser vista como relativamente barata e com maior potencial de retorno. Com investimentos no exterior oferecendo ganhos menores, investidores anteciparam compras de ações brasileiras apostando em uma recuperação.

Outro fator determinante foi a capacidade de adaptação do mercado brasileiro diante das tensões comerciais provocadas pelo tarifaço de Trump, mesmo depois da elevação das taxas para 50% com uma longa lista de exceções.

"Mesmo com esse cenário ruim, o país mostrou resiliência, remanejou as exportações, apresentou números ainda maiores e ainda anulou as tarifas", afirma Marcos Praça, acrescentando que o movimento ajudou a manter o Ibovespa no campo positivo.

Mais tarde, em novembro, mais 200 produtos alimentícios — incluindo café, carne, açaí e manga — também foram retirados da sobretaxa. Mesmo com a melhora de cenário, o governo brasileiro ainda trabalha para derrubar todas as tarifas a produtos brasileiros.

B3, bolsa de valores brasileira. — Foto: Divulgação/ B3
B3, bolsa de valores brasileira. — Foto: Divulgação/ B3

Crescimento apesar dos juros altos

A taxa básica de juros brasileira está no maior patamar em quase 20 anos — o que tende a atrair investidores para aplicações de renda fixa. Ainda assim, as expectativas para 2026 contribuíram para impulsionar o Ibovespa.

Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, explica que diversos aspectos estão interligados e que a perspectiva de corte de juros é um elemento importante para a atração de capitais para a bolsa. Até o fim de 2026, o mercado financeiro projeta uma redução da Selic para 12,25% ao ano.

Eu destacaria o corte dos juros americanos, a manutenção da Selic em 15%, o fluxo de capitais resultante e a bolsa com preços atrativos, o que cria oportunidades, afirma.

O mercado financeiro é, por natureza, voltado à antecipação de cenários, acrescenta Harrison Gonçalves, do CFA Society Brazil. Assim, o principal foco está na alocação de capital com base na valorização futura esperada dos ativos.

"O fato de a bolsa se valorizar mesmo em um ambiente de juros ainda elevados indica que o mercado está olhando para o médio e longo prazo — algo em torno dos próximos cinco anos — e não apenas para as condições atuais", diz.

Contas públicas em segundo plano?

A preocupação com os cofres públicos do Brasil ganhou destaque ao longo dos últimos anos. O tema, entretanto, ficou temporariamente "na gaveta", enquanto o mercado acompanha com otimismo a redução dos juros americanos e os preços baixos das ações brasileiras.

Isso, porém, não significa que o tema tenha sido completamente esquecido. Para os analistas, o problema fiscal ainda limita o pleno crescimento da economia brasileira e deve voltar a ganhar peso no debate.

"Os temores fiscais ficaram em segundo plano por fatores temporários. O risco continua muito elevado. Ninguém acredita que houve melhora nesse aspecto", diz Lauro Sawamura Kubo, da Patagônia Capital.

"No próximo ano, teremos um período eleitoral e, historicamente, independentemente de quem esteja no governo — seja à direita ou à esquerda — esse é um momento marcado por mais gastos e medidas populistas. Portanto, é provável que isso volte a ocorrer", acrescenta.

Além disso, a desconfiança com as contas públicas tem pressionado o Banco Central a manter os juros brasileiros elevados, mesmo com a inflação caminhando para encerrar 2025 dentro do teto da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), apontam os especialistas.

200 mil pontos? O que esperar para 2026 com eleições

A volatilidade registrada no Ibovespa no início de dezembro indica como o índice pode se comportar ao longo de 2026, ano eleitoral. O anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por exemplo, fez o dólar disparar e a bolsa recuar mais de 4% em apenas um dia.

Analistas avaliam que a entrada do filho de Jair Bolsonaro (PL) na corrida eleitoral fragmenta a oposição e reforça as chances de reeleição de Lula (PT).

  • 🔎 Para o mercado, a escolha dificulta a convergência em torno de um candidato de centro-direita — como Tarcísio de Freitas, visto como mais competitivo para unificar a direita e enfrentar Lula — e amplia a incerteza sobre ajustes fiscais mais consistentes.

Para Felipe Tavares, da BGC Liquidez, esse é justamente um termômetro do que pode ocorrer no ano que vem. A polarização traz volatilidade adicional ao mercado, o que gera mais tensão no dia a dia, diz.

Apesar da tensão gerada pelo cenário político interno, a volatilidade externa tende a ser menor em 2026, o que pode suavizar parte do impacto sobre o mercado, pondera.

Para o economista, a possível combinação de cortes na taxa Selic e de alternância no ciclo político pode levar a bolsa a atingir os 200 mil pontos no próximo ano. Ele avalia, no entanto, que cenários adversos podem frustrar essa perspectiva positiva.

Marcos Praça, da ZERO Markets Brasil, destaca que diversos fatores complexos devem orientar o fluxo de recursos em 2026. É difícil atribuir uma pontuação precisa ao Ibovespa ao fim do ano, mas eu diria algo entre 170 mil e 200 mil pontos, diz.

Einar Rivero, da consultoria Elos Ayta, lembra que, com base no histórico, o índice reflete uma sucessão de ciclos econômicos e políticos, mais do que uma trajetória contínua, em que "períodos de forte valorização frequentemente sucedem anos de ajustes profundos, e vice-versa".

A leitura dos últimos 26 anos mostra que o comportamento do índice está diretamente associado à combinação entre cenário macroeconômico, ambiente político e percepção de risco, fatores que moldam, ano a ano, o humor do mercado brasileiro, conclui.
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Doutrina 'Donroe', campanha agressiva, portas fechadas para imigrantes: como será o governo Trump em 2026?

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Após 1° ano mais previsível, presidente dos EUA deve fechar cerco a entrada de imigrantes, tentar recompor sua base fragmentada de olho nas eleições de meio de mandato, ampliar ações na América Latina e liderar protecionismo no Ocidente ante China e Rússia em 2026 , segundo analistas.
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Por Luisa Belchior, g1

Postado em 29 de Dezembro de 2.025 às 17H45M
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Salvo algumas surpresas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seguiu em 2025 a agenda que havia prometido durante sua campanha eleitoral.

Sua caça aos imigrantes dentro dos EUA, os tarifaços, a intervenção no combate à criminalidade em cidades democratas e a tentativa de resolver conflitos internacionais marcaram o primeiro ano do segundo mandato de Trump.

Tudo dentro de um roteiro mais ou menos já traçado por Trump antes de ser reeleito para a Casa Branca – em sua campanha, ele prometeu, por exemplo, expulsar todos os imigrantes em situação irregular dos EUA e encerrar a guerra na Ucrânia em 24 horas.

O mesmo não se pode dizer, no entanto, de seu segundo ano do segundo mandato: a agenda que o presidente norte-americano seguirá em 2026 é cercada de imprevisibilidade, segundo especialistas ouvidos pelo g1, mas há algumas pistas já indicadas pelos analistas e pelo próprio governo Trump.

A demora em resolver conflitos internacionais, o desgaste por conta das prisões de imigrantes ao redor dos EUA e a divisão interna crescente em seu partido também devem obrigar o presidente a rever suas prioridades, segundo as análises.

A operação militar que os EUA vêm realizando perto da costa da Venezuela e um documento de política externa divulgado em dezembro sinalizam que, em 2026, a política externa de Trump deve ter a América Latina como um de seus principais focos.

Analistas avaliam que o presidente tende a reforçar a presença e a influência na região em uma releitura da Doutrina Monroe — apelidada deDoutrina Donroe (leia mais abaixo).

Em 2026, a avaliação é que Trump:

  • Dobrará a aposta nas políticas anti-imigração, agora fechando as portas para novas chegadas;
  • Tentará resolver conflitos internacionais com acordos voláteis;
  • Aplicará a chamada "Doutrina Donroe", com a qual expandirá operações na América Latina e buscará liderar um protecionismo no Ocidente para fazer frente à China e à Rússia;
  • Tentará reagrupar o Partido Republicano, hoje fragmentado, e fará campanha agressiva para as eleições de meio de mandato;
  • Travará uma batalha entre estados e gigantes da Inteligência Artificial para a regulamentação do uso da IA nos EUA;
  • Manterá a imprevisibilidade, marca de seu estilo de governo.
Aposta dobrada no combate a imigrantes
Vídeo mostra imigrante agredida por agente nos EUA
Vídeo mostra imigrante agredida por agente nos EUA

Antes de assumir seu segundo mandato à frente da Casa Branca, em janeiro deste ano, Donald Trump prometeu expulsar todos os imigrantes que residem nos Estados Unidos em situação irregular. Como previsto por analistas, isso não ocorreu, mas a campanha de Washington anti-imigração foi bastante agressiva.

Em questão de semanas, Trump colocou nas ruas milhares de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), para caçar e deter, muitas vezes sem mandado de prisão, estrangeiros em situação irregular, mesmo que estivessem em processo de regularização.

O modelo, repetido ao longo do ano e por todos os EUA, foi ganhando críticos e protestos crescentes e acabou o ano de 2025 desgastado — prefeitos de diversas cidades e até moradores vêm tentando proibir as ações do ICE, e os próprios republicanos começaram a criticar a política.

➡️ Ainda assim, em 2026 Trump deve dobrar a aposta: as perspectivas para seu segundo ano de governo indicam endurecimento nas políticas anti-imigração. A diferença, agora, é que ele deve se concentrar nas restrições à entrada de estrangeiros e à concessão de vistos.

"Ele basicamente vai desativar o sistema de imigração legal dos Estados Unidos", prevê a diretora de relações governamentais da Associação de Advogados de Imigrantes dos EUA, Shev Dalal-Dheini.

No fim deste ano, Washington já começou a executar políticas de restrição de vistos. No início de dezembro, o governo Trump suspendeu a solicitação de visto a cidadãos de 19 países, entre eles o Afeganistão, o Irã, Cuba e Venezuela.

A estratégia militar e de política externa dos Estados Unidos que seu governo lançou no início de dezembro prevê o "fim da era da migração em massa" e fala da necessidade de "proteger as fronteiras contra migração descontrolada, terrorismo, drogas, espionagem e tráfico humano".

O ajuste na polícia migratória, para Dheini, mira na tentativa de conter a fuga de seu eleitorado trumpista, ao manter ativa a agenda anti-imigração evitando colocar em destaque a expulsão de imigrantes que possam ter alguma relação de proximidade com eleitores.

Este foi o caso, por exemplo, de Miami, onde os eleitores, em maioria republicanos, elegeram uma prefeita democrata (leia mais abaixo) por um possível desgaste das prisões de imigrantes pelo ICE.

Uma pesquisa do Centro de Pesquisa de Assuntos Públicos da Associated Press e do Instituto Norc, da Universidade de Chicago, feita no último semestre deste ano, mostrou que a aprovação da política de Trump para imigrantes caiu de 49% para 38%, na comparação com o primeiro semestre.

Manifestante ergue cartaz contra agentes do ICE, órgão responsável pelo controle da imigração nos EUA — Foto: Daniel Cole/Reuters
Manifestante ergue cartaz contra agentes do ICE, órgão responsável pelo controle da imigração nos EUA — Foto: Daniel Cole/Reuters

Acordos de cessar-fogo em vez do fim definitivo de conflitos

Ao longo de 2025, em uma "autocampanha" para vencer o Prêmio Nobel da Paz, Donald Trump repetiu várias vezes o discurso de que conseguiu terminar oito guerras e conflitos pelo mundo, entre eles o de Israel e Hamas, o de Paquistão e Índia e o de Armênia e Azerbaijão.

Praticamente todos, no entanto, foram acordos de trégua ou cessar-fogo, e alguns duraram apenas dias, caso do acordo entre Tailândia e Camboja por uma disputa territorial.

Ainda assim, o presidente norte-americano deve seguir apostando, em 2026, em promover acordos de cessar-fogo no lugar de tratados duradouros, segundo os analistas. 
A exceção devem ser Gaza e Ucrânia:

A 'Doutrina Donroe' e o protecionismo com o Ocidente
Foco na América Latina e na China: entenda a nova estratégia de segurança nacional de Donald Trump
Foco na América Latina e na China: entenda a nova estratégia de segurança nacional de Donald Trump

Também no documento que destrincha a estratégia militar e a política externa dos EUA, divulgado em dezembro pelo Pentágono, Washington cita nominalmente a intenção de resgatar a Doutrina Monroe, a política que os EUA estabeleceram em 1823 para reivindicar a soberania de Washington sobre o Ocidente e, principalmente, o continente americano.

Na prática, a América Latina virou o principal quintal dessa doutrina, e a operação militar que as Forças Armadas dos EUA vêm fazendo perto da costa da Venezuela levou analistas a começarem a falar de uma "Doutrina Donroe", um jogo de palavras com o nome original e o de Donald Trump).

Trata-se de uma espécie de ajuste, nos moldes do governo Trump, da Doutrina Monroe, que deve ser uma das grandes tônicas de sua política externa em 2026.

O anúncio, em dezembro, de que Washington assinou um acordo de cooperação com o Paraguai que prevê atuação de militares dos EUA no país também vai na mesma direção dessa nova estratégia.

A ideia é utilizar a doutrina não só para expandir operações e influência na América Latina, mas, principalmente, fazer frente a outras duas potências que ele vê como ameaça: a China e a Rússia, na avaliação o professor de Relações Internacionais da ESPM e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (Nenam) da escola, Roberto Uebel.

"A América Latina sim é uma prioridade, mas Trump está olhando para o Ocidente como um todo, principalmente a Europa", afirma Uebel. "O que fica claro é que o Trump entende que existem três grandes potências: Estados Unidos, China e Rússia. É uma volta de um nacionalismo econômico e uma visão de mundo multipolar centrada nessa visão de mundo das três potências".

"Ele tentará colocar o Ocidente inteiro sob o guarda-chuva dos Estados Unidos", prevê o professor.

Campanha 'agressiva' nas eleições de meio de mandato

Moradores de Nevada votam nas eleições de meio de mandato em Las Vegas, nos Estados Unidos, em 8 de novembro de 2022.  — Foto: REUTERS/David Swanson
Moradores de Nevada votam nas eleições de meio de mandato em Las Vegas, nos Estados Unidos, em 8 de novembro de 2022. — Foto: REUTERS/David Swanson

Em novembro de 2026, os EUA renovarão boa parte do Legislativo, no que o país chama de eleições de meio de mandato, por ocorrer no meio do mandato de um presidente, eleito dois anos antes. Serão renovadas todas as vagas da Câmara dos Deputados e um terço do Senado.

O pleito, além de poder redefinir as maiorias em ambas as Casas, também é visto como um termômetro do governo em curso — historicamente, o partido de oposição costume vencer as eleições de meio de mandato.

Embora analistas ainda não se arrisquem em prever resultados do pleito, já há um consenso sobre reequilíbrio de poderes em Washington – o que significa a perda de poder do Partido Republicano. Isso porque a sigla, de Trump, que começou o ano unida em torno do atual presidente, está atualmente fragmentada e vem sofrendo várias derrotas em eleições locais recentes, incluindo em redutos fortemente republicanos, caso de Miami.

Se você é um republicano e não está preocupado (com as eleições de meio de mandato), então está vivendo em uma caverna, disse o senador Jim Justice, republicano da Virgínia Ocidental

Em dezembro, o próprio Trump reconheceu que seu partido pode sair derrotado, mas disse também que vai buscar o que seja para fazer isso acontecer, segundo sua própria chefe de gabinete, Susie Wiles.

Wiles já afirmou que Trump fará uma campanha agressiva em 2026 e que o partido efetivamente o colocará na cédula.

Regulamentação da IA

Outra batalha, e das grandes, também espera o governo Trump em 2026: a regulamentação da Inteligência Artificial. A tendência é que o presidente norte-americano intervenha pouco na matéria.

Isso porque as gigantes da tecnologia, encabeçadas pela Nvidia, têm pressionado Donald Trump para isso, argumentando que o ônus de muita regulamentação dificulta a inovação. O desafio, no entanto, é que essas regulamentações já vêm sendo feitas nos EUA, embora em âmbitos locais.

Ao longo do ano, 38 estados dos EUA adotaram legislações próprias regulamentando o uso da tecnologia. As leis locais vão desde a proibição de perseguição por meio de robôs com IA até o veto a sistemas de IA que podem manipular o comportamento das pessoas.

Em dezembro, Trump, atento à pressão das gigantes da IA, assinou uma ordem executiva para alterar essas leis estaduais de inteligência artificial e fala de estrutura nacional para IA "minimamente onerosa". Sua intenção, em 2026, é unificar a legislação para a IA para intervir o mínimo possível na tecnologia, segundo estabelece sua ordem executiva.

"Teremos uma grande batalha pela regulamentação da IA ​​— como regras sobre segurança de modelos, acesso de crianças a chatbots, construção de data centers —, e Trump está totalmente comprometido com uma abordagem de não intervenção", disse o jornalista político norte-americano Sasha Issenberg, autor de "The Victory Lab: The Secret Science of Winning Campaigns (O Laboratório da Vitória: a Ciência Secreta das Campanhas Vitoriosas, em tradução livre)".  
Imprevisibilidade

Embora haja agendas pré-definidas, Trump deve manter sua imprevisibilidade, uma das grandes marcas de sua política, segundo o analista-chefe da consultoria de risco dos EUA Washington Southern Pulse, Sam Logan.

"Não há como prever o que Trump fará em 2026 além de enaltecer a si mesmo, sua família e seus amigos, e buscar o chamado Corolário Trump à Doutrina Monroe. Assim como (o ex-presidente dos EUA Richard) Nixon, sua imprevisibilidade é possivelmente sua ferramenta mais poderosa em política externa", disse Logan ao g1.

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